terça-feira, 18 de novembro de 2014

odeia, odeia a luz que começa a morrer




Do not go gentle into that good night,
old age should burn and rave at close of day;
rage,rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
do not go gentle into that good night.

good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night,
rage, rage against the dying of the light.
Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Dylan Thomas
Tradução: Fernando Guimarães

  
Na segunda parte de Ser & Tempo, no capítulo 53, Heidegger diz: "Como possibilidade, a morte não propicia ao ser-aí nada para ser realizado e nada em que, em si mesmo, possa ser real. É a possibilidade de toda relação com..., de todo existir. Na antecipação, a possibilidade 'será sempre maior', ou seja, se desentranha como aquela que desconhece toda medida, todo mais ou menos, significando a possibilidade da impossibilidade, sem medida, da existência." (Ser & Tempo, cap. 53).
Algumas poucas pessoas conseguiram captar tão bem esta possibilidade da impossibilidade. Esta certeza-incerta que a tudo permeia. Estes dias, assistindo Nat. Geo, vi que alguns cientistas estão enlouquecidos procurando explicar com que velocidade caminha nosso universo para seu fim. Falam em uma força escura que faz as todos os objetos do mundo se afastarem um dos outros em direção ao isolamento. Mas os poetas já perceberam tudo isto neste micro cosmos de segundos e minutos de nossas vidas. Não precisam seguir numa contagem de bilhões de anos, mas codificam toda esta maravilha que é estar morrendo em uma dizer radical. Um desses poetas chama-se Dylan Thomas (1914-1953).
http://fass-binder.blogspot.pt/2009/01/do-not-go-gentle-into-that-good-night.html







Interstellar: odeia, odeia a luz que começa a morrer

No filme Interstellar surge um buraco de minhoca, que cria um atalho no espaço-tempo, e que do outro lado tem planetas estranhos. Mas este não é um filme sobre o espaço interestelar, é sobre o homem. É um hino à vida ao enfatizar a luta com a morte que a ciência permite.
Um atalho no espaço-tempo transporta os personagens até outros planetas DR



O verso “Odeia, odeia a luz que começa a morrer” é de Dylan Thomas, o escritor galês cujo centenário se está a comemorar. A respectiva estrofe é repetida por um dos personagens do filme “Interstellar”, do realizador norte-americano Christopher Nolan, que acaba de se estrear em Portugal e em todo o mundo. Quem a repete é o professor John Brand (Michael Caine), um físico da NASA que procura o mistério último da gravidade e, com ele, a esperança de salvação para uma humanidade ameaçada. O verso de Thomas, que inspirou o título de um romance de António Lobo Antunes, abre um poema belíssimo: “Não entres docilmente nessa noite serena,/ porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia,/ odeia, odeia a luz que começa a morrer.”

Interstellar é uma glosa cinematográfica do tema da morte, neste caso o apocalipse do nosso planeta devastado por tempestades e pragas. Como ocorre em geral nos seus tratamentos artísticos, também aqui a morte é recusada. Escreveu um outro poeta, o alemão Friedrich Hoelderlin: “Onde cresce o perigo, surge também a salvação.” A redenção é, no filme, proporcionada pela ciência e pela sua filha dilecta, a tecnologia.

Desvendemos um pouco do enredo, tentando não desmanchar o prazer dos leitores que ainda não viram. Num futuro indeterminado, vastos campos de milho surgem cobertos por nuvens de poeira e são pasto de doenças. Nesse mundo distópico, com o ar a ficar irrespirável, a ciência e a tecnologia quase desapareceram. Na escola ensina-se que a ida à Lua não passou de um embuste. E os estudos superiores são um capricho face a necessidades básicas de sobrevivência.

É nesse cenário que um agricultor, ex-piloto de testes da NASA, Joe Cooper (Matthew McConaughey), tenta manter a sua família: a espertíssima filha adolescente Murph (em jovem Mackenzie Foy e, mais tarde, Jessica Chastain), o filho e o seu sogro, já que a mulher tinha morrido de um tumor na falta de uma ressonância magnética. Tal cenário dantesco está longe de ser novo na ficção científica: lembrei-me de Um Cântico a Leibowitz, de Walter Miller, onde a humanidade regressa à Idade Média após um desastre nuclear e só um conhecimento muito escasso sobrevive. O filme não é claro sobre a origem do “fim do mundo”. Há uma referência ao Dust Bowl, uma série de tempestades de pó que ocorreram, por incúria humana, durante a Grande Depressão, originando fome e miséria: surgem depoimentos autênticos em vídeo de sobreviventes desses anos. O fim no filme não é, portanto, uma explosão nuclear, mas sim o silêncio imposto pela falta de ar. Como escreveu ainda outro poeta, T. S. Eliot: “É assim que acaba o mundo./ Não com um estrondo,/ mas com um suspiro.”

O que é um buraco de minhoca?
Enquanto há vida há esperança. E a esperança irrompe aqui, de um modo estranho, a meio de uma estante. No quarto de Murph surgem sinais, que enviam Cooper para uma secretíssima base da NASA, às ordens do professor Brand. Ao despedir-se comoventemente da filha, o pai não sabe que lhe está destinado o papel de salvador da humanidade. É enviado para Saturno a bordo de uma estação espacial, pois é lá que se encontra a entrada de um buraco de minhoca, isto é, um atalho ou túnel no espaço-tempo para um longínquo domínio interestelar.

E é do outro lado do buraco que vai partir à aventura para planetas para os quais tinham sido enviados pioneiros com o intuito de encontrar refúgio para a humanidade. O plano principal do professor consistia em domar a gravidade para enviar o que restasse da espécie humana a povoar as novas terras encontradas.

O que são buracos de minhoca? Uma ideia dos físicos teóricos que exige uma prodigiosa distorção do espaço-tempo. Segundo a teoria da relatividade geral de Albert Einstein, invocada repetidamente ao longo do filme, o espaço está ligado ao tempo (o espaço-tempo), a matéria à energia (a matéria-energia) e a matéria-energia comanda o espaço-tempo.

Matéria-energia muito densa pode contorcer o espaço-tempo para formar um tubo. O aproveitamento cinematográfico do conceito não é novo. Já o astrofísico Carl Sagan o tinha feito em Contacto, livro que serviu de guião a um filme onde McConaughey entrou, tendo recorrido aos préstimos do seu colega Kip Thorne. Thorne foi agora o consultor científico de Nolan. O aproveitamento das suas especulações era uma ideia que estava na carteira de Steven Spielberg, o realizador de Encontros Imediatos de Terceiro Grau e deAI, mas este cedeu-a a Nolan, o autor de Memento e de O Cavaleiro das Trevas.

O que há de real nos buracos de minhoca? De facto, não se conhece nenhum. Discute-se, porém, em artigos de física, a possibilidade de os construir, que exigiria não só matéria exótica que dobrasse o nosso espaço-tempo a quatro dimensões mas também possivelmente dimensões adicionais. Um físico companheiro de Cooper explica-lhe no filme com a ajuda de uma folha de papel: marca dois sítios, a entrada e a saída do buraco, e diz que eles ficam ligados se se dobrar a folha, isto é, permitindo outra dimensão. O tema das dimensões adicionais é corrente hoje na cosmologia e na física quântica, apesar de não haver provas da sua existência. A ideia agradou a Einstein por proporcionar a unificação das várias forças da natureza, o seu grande sonho que ainda não se materializou. É nesse assunto que o professor Brand trabalha, no futuro onde o filme nos mergulha.

E o que há do outro lado do buraco de minhoca? Planetas estranhos, um deles tão estranho como as paisagens da Islândia, uma vez que parte do filme foi aí rodado, e um buraco negro gigante, o Gargantua, que teve de ser criado virtualmente. Entre outros truques científicos, o enredo envolve a animação suspensa de astronautas, que consiste na suspensão das funções vitais de uma pessoa em hipotermia, e a disseminação de embriões humanos noutros planetas, criopreservados pela bióloga Amelia Brand (Anne Hathaway), filha do professor. Há também uma profusão de truques cinematográficos, como as imagens panorâmicas tiradas por câmaras IMAX e um nível de som que pode incomodar os ouvidos mais sensíveis e que contrasta violentamente com o silêncio sideral. E há truques científicos que combinam com truques cinematográficos como os cálculos que Kip Thorne efectuou para obter imagens do buraco negro o mais realistas possível.

Trama científica impecável
Como o buraco negro tudo atrai, desde a luz até à curiosidade humana, os nossos heróis acabam por se precipitar para o Gargantua. Cooper entra no buraco negro para obter segredos da força gravitacional com a ajuda de um robô não humanóide a quem o argumentista deu deixas muito engraçadas (faz lembrar o HAL de 2001 Uma Odisseia do Espaço, de Stanley Kubrick, uma das influências reconhecidas por Nolan). Esta é a parte que parece mais inverosímil de toda a trama, cuja base científica é em geral impecável, incluindo as especulações aparentemente desenfreadas sobre a passagem do tempo. Dentro do buraco negro Cooper cai em dimensões superiores, numa tecelagem por trás da estante do quarto da miúda. Sim, miúda, porque Cooper viajou para trás no tempo no interior de Gargantua. Consegue enviar sinais cifrados para o quarto. E Murph consegue recolhê-los.

O Homo sapiens salva-se? Sim, graças à drª. Murph, que acabou por seguir física teórica e prosseguir o projecto do professor Brand (o nome dela afinal enganava pois, contrariando o princípio de Murphy, tudo vai correr bem!). E Cooper fica sepultado no tenebroso buraco negro? Não, porque não era totalmente negro. Vai dar a uma base espacial, em Saturno, para onde a população da Terra, ajudada pelos conhecimentos de física, se tinha conseguido escapar. Ainda chega a tempo de assistir à morte da sua filha, com 124 anos, enquanto ele continua relativamente jovem. É o famoso “paradoxo dos gémeos”, enunciado pelo físico francês Paul Langevin, contemporâneo de Einstein: um gémeo que vá a estrelas distantes à velocidade próxima da luz e volte consegue manter a juventude, enquanto o irmão imóvel na Terra envelheceu.

Contado assim (ou melhor, semi-contado, porque não é melhor não contar as peripécias surpreendentes do longo e engenhoso enredo) até parece ficção científica de série B. Mas não, é um dos grandes filmes do nosso tempo, um tempo dominado pela ciência mas ensombrado pelos riscos. Para além de estar muito bem realizado (talentosos actores e portentosas naves consumiram um orçamento equivalente ao Euromilhões), a obra de Nolan não é sobre o espaço interestelar mas sim sobre o homem, a parte do Universo que afinal mais nos interessa. É um hino à vida ao enfatizar a luta com a morte que o conhecimento científico permite.

Voltemos a Dylan Thomas: “Odeia, odeia a luz que começa a morrer.” Mais do que na ciência, o triunfo da vida baseia-se aqui no amor, um sentimento bem claro na ligação cósmica entre pai e filha. Um ser humano vai ao fundo da escuridão, ao interior do buraco negro, em busca de luz para dar à filha. É um representante da humanidade que destemidamente recusa o fim da espécie, mas, para isso, tem de conjugar o conhecimento com o amor. O conhecimento sozinho não chega para salvar ninguém.

Carlos Fiolhais (Professor de física da Universidade de Coimbra), 


Enviar um comentário