quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Gloomy Sunday («Domingo Sombrio» ou «Domingo Lúgubre»)

Szomorú Vasárnap száz fehér virággal,
Vártalak, kedvesem, templomi imával,
Álmokat kergető vasárnap délelőtt,
Bánatom hintaja nélküled visszajött.
Azóta szomorú mindig a vasárnap,
Könny csak az italom, kenyerem a bánat...
Szomorú vasárnap.
Utolsó vasárnap, kedvesem, gyere el;
Pap is lesz, koporsó, ravatal, gyászlepel,
Akkor is virág vár, virág és - koporsó,
Virágos fák alatt utam az utolsó.
Nyitva lesz szemem, hogy még egyszer lássalak,
Ne félj a szememtől, holtan is áldalak...
Utolsó vasárnap.
On a sad Sunday with a hundred white flowers,
I was waiting for you, my dear, with a church prayer,
That dream-chasing Sunday morning,
The chariot of my sadness returned without you.
Ever since then, Sundays are always sad,
tears are my drink, and sorrow is my bread...
Sad Sunday.
Last Sunday, my dear, please come along,
There will even be priest, coffin, catafalque, hearse-cloth.
Even then flowers will be awaiting you, flowers and coffin.
Under blossoming (flowering in Hungarian) trees my journey shall be the last.
My eyes will be open, so that I can see you one more time,
Do not be afraid of my eyes as I am blessing you even in my death...
Last Sunday.


Szomóru Vasárnap é a música que abreviou a vida de muitos ouvintes. Traduzida em várias versões, corresponde a Gloomy Sunday na versão inglesa. Rezsõ Seress, compositor e pianista húngaro, deparou-se com a controvérsia e efeitos adversos da sua própria criação.
Segundo reza a história, Rezsõ Seress foi um compositor húngaro que falhou. Falhar também faz parte do processo de criação. Seress viveu a maior parte da sua vida em Budapeste e sonhava tornar-se num compositor famoso. Intransigente e convicto dos seus objetivos, brigava constantemente com a sua namorada. Esta não conseguia aguentar a insegurança de uma vida ambiciosa. Os insucessos vividos pelo compositor e o término da relação do casal fizeram com que, certo domingo, Rezsõ observasse a janela. O céu cobriu-se em tons de cinza e a tempestade revelou os rabiscos do que viria a ser o Domingo Sombrio.
It is autumn and the leaves are falling All loved has died on earth The wind is weeping with sorrowful tears My heart will never hope for a new spring again My tears my sorrows are all in vain People are heartless, greedy and wicked..”
Esta seria a letra original que embalou Seress de forma melancólica em 1933 (traduzida em Inglês). A letra foi reescrita (em húngaro) pelo seu amigo Lázlo Javor que contribuiu para uma melhoria do valor artístico da letra quando traduzida. Seja qual for a língua, os sentimentos de desespero e tristeza são universais.
Gloomy Sunday conta a história de um homem que declara que a única prova de ser devoto ao seu amor (que recusa acreditar nos seus sentimentos) é abreviando a sua vida num domingo sombrio.
Seress contactou a primeira editora para publicar a sua música. Rejeitado. Voltou a tentar outra editora. Aceite. Ficou entusiástico.
Nada fazia antever que, dias depois, surgisse uma sucessão de suicídios com o ressoar da melodia, como se de um último grito se tratasse. Seress, numa tentativa de pedido de reconciliação à sua namorada, verifica que esta se tinha envenenado, transportando consigo uma cópia de Gloomy Sunday. Questionado pelos efeitos da sua música, o músico responde:
Estou no meio deste sucesso mortífero como um homem sendo acusado. Esta fama fatal magoa-me. Chorei todas as decepções do meu coração nesta canção e parece que outros, com o mesmo sentimento que eu, encontraram nela a sua própria dor”.
Segundo o New York Times (1968), pouco depois de completar os seus sessenta e nove anos Seress suicidou-se, saltando de uma janela. A influência da música no aumento do número de suicídios fez com que a sua transmissão fosse proibida pelos chefes da BBC. Nos Estados Unidos, algumas estações de rádio e discotecas adoptaram o mesmo boicote.
Terá a música Gloomy Sunday todo este valor epidémico ou será uma mera coincidência? Comvém não esquecer que em 1930 assiste-se à Grande Depressão. Terá o Domingo sombrio sido abafado pela segunda e terça feira negra em que se verifica um incremento da taxa de suícidios e falência/desespero de acionistas com a queda da Bolsa de Valores? Serão os efeitos de uma recessão económica, elevadas taxas de desemprego, quedas do PIB – próprios da Grande Depressão? Repare-se: um cenário muito próximo do vivido atualmente!
A música em húngaro poderá ser escutada nesta página do Youtube.


© Portishead (Wikicommons: José Goulão).


© Sarah McLachlan (Wikicommons: Stephen Samuel).

Portishead, Sarah Mclachlan, Billie Holiday , Bjork, Emilie Autumn e Sarah Brightman são alguns cantores que homenageiam Seress com as suas versões da atualidade.

Gloomy Sunday
Sunday is gloomy, My hours are slumberless Dearest the shadows I live with are numberless Little white flowers Will never awaken you Not where the black coach of Sorrow has taken you Angels have no thought Of ever returning you Would they be angry If I thought of joining you?

Gloomy Sunday
Gloomy is Sunday, With shadows I spend it all My heart and I Have decided to end it all Soon there’ll be flowers And prayers that are said I know Let them not weep Let them know that I’m glad to go Death is no dream For in death I’m caressin’ you With the last breath of my soul I’ll be blessin’you

Gloomy SundayDreaming, I was only dreaming I wake and I find you asleep In the deep of my heart, dear Darling I hope That my dream never haunted My heart is tellin’ you How much I wanted you Gloomy Sunday


© Billie Holiday (Wikicommons)


Billie Holiday gravou sua versão de “Domingo Sombrio” em 1941:

Sunday is gloomy, my hours are slumberless;
Dearest, the shadows I live with are numberless;
Little white flowers will never awaken you,
Not where the black coach of sorrow has taken you;
Angels have no thought of ever returning you;
Would they be angry if I thought of joining you?
Gloomy Sunday.

Gloomy is Sunday; with shadows I spend it all;
My heart and I have decided to end it all;
Soon there'll be candles and prayers that are sad, I know,
Let them not weep, let them know that I'm glad to go.

Death is no dream, for in death I'm caressing you;
With the last breath of my soul I'll be blessing you.
Gloomy Sunday.

Dreaming, I was only dreaming;
I wake and I find you
Asleep in the deep of my heart, dear.

Darling, I hope that my dream never haunted you;
My heart is telling you how much I wanted you.
Gloomy Sunday.
  

© Bjõrk (Wikicommons: Cristiano Del Riccio).

Domingo Sombrio
O domingo é sombrio/obscuro As minhas horas são despertas (sem sono) Queridas são as inúmeras sombras Com as quais convivo Pequenas flores brancas Nunca te acordarão Nem onde o coche negro Da dor te levou Os anjos não pensam Alguma vez em te devolver Ficariam eles zangados Se pensasse juntar-me a ti?

Domingo sombrio
O domingo é sombrio Com sombras, eu despendi de tudo O meu coração e eu Decidimos acabar com tudo Em breve haverá flores E orações que dizem saber Não as deixem chorar Deixem saber Que estou feliz por partir A morte não é um sonho Na morte eu te acarinho Com o último suspiro da minha alma Eu te abençoarei

Domingo sombrio
Sonhando Eu estava apenas sonhando Acordo e encontro-te a dormir No fundo do meu coração Querida, eu espero Que o meu sonho nunca te assombre O meu coração revela O quanto eu te quis Domingo Sombrio


© Emilie Autumn (Wikicommons: Jan Blok).


© Sarah Brightman (Wikicommons: Sherry Main).


Este foi o som da morte. Pelo menos para a BBC

Nos anos trinta, um pianista húngaro compôs uma canção sobre amor e morte. A partir daí, vários suicídios estiveram associados à obra, levando a BBC a bani-la dos ecrãs até 2002.

Lá, sol, lá, sol, sol, fá, mi. “Sombrio é o domingo, gasto-o todo com sombras. O meu coração e eu decidimos acabar com tudo isso”. 
Estes são os primeiros acordes da música composta em 1933 pelo pianista húngaro Rezso Seress e fala sobre o desgosto de um homem abandonado pela mulher que ama e que pondera matar-se. Uma história triste, com certeza, mas sabia que a BBC a proibiu por 61 anos porque provocaria suicídios em massa?

Tudo começou com uma partitura composta por Rezso Seress chamadaVége a Világnak, que se traduz para português como “o mundo acabou-se”, conta o El País. Era uma canção demasiado forte, por isso a letra foi repensada: a melodia passou a acompanhar um poema de Lászlo Jávor chamado Szomorú Vsárnap, isto é, “domingo sombrio”. Foi esta a versão que veio a público em 1935, com a voz de Pal Kalmar a cantar“num triste domingo com centenas de flores brancas, eu estava à tua espera, minha querida, com uma oração”.
Podia ser uma música melancólica, mas tornou-se mais do que isso no ano seguinte ao lançamento, quando a Time noticiou uma onda de suicídios na Hungria relacionados com “Gloomy Sunday”. Começou com um sapateiro, Joseph Keller, que a polícia teria encontrado morto junto a um bilhete onde tinha escrito alguns versos daquela canção. Depois, no rio Danúbio, vários corpos teriam sido vistos a boiar com a partitura da música nas mãos. E dois outros suicídios, perpetrados com arma de fogo, também estiveram associados a “Gloomy Sunday”.
Ainda na década de trinta, a imprensa norte-americana deu conta que a onda de suicídios já tinha chegado aos Estados Unidos. Nesta altura, a canção já era conhecida como “canção húngara do suicídio”, mas tornou-se mais famosa quando a estrela do jazz Billie Holiday a cantou. A partir daí, 19 suicídios teriam acontecido depois de as vítimas terem ouvido “Gloomy Sunday”. A BBC decidiu, então, tomar medidas extremas: a “canção húngara do suicídio” passou a ser proibida na programação. A censura começou em 1941 e esteve em vigor até 2002.
O mistério prosseguiu: uns acreditavam piamente que aquelas mortes tinham sido provocadas pela canção de Rezso Seress, que em 1968 se suicidou enforcando-se com um arame, depois de ter tentado o suicídio atirando-se de uma janela. Nesse ano, o cantor escolhido para interpretar “Gloomy Sunday” – na altura considerado o Rei do Tango – perdeu a voz depois de uma operação à garganta. Ainda assim, muitos continuavam céticos sobre a relação entre uma e outra coisa.
Quarenta anos depois de o criador da canção ter morrido, dois investigadores lançaram um artigo sobre o assunto na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. Nele escreveram que não descobriram uma relação de causa-consequência entre a audição da música e a tendência para o suicídio, nem conseguiram dados suficientes para averiguar se tinha havido um aumento no número de suicídios nos anos 30. Mas fazem uma ressalva: caso o número de pessoas que se mataram com as próprias mãos tenha aumentado nesse período, era possível que tal se tivesse devido ao panorama que a Europa vivia naquele momento – com a ascensão do nazismo. 
Ao longo da História, nem só o heavy metal esteve relacionado com uma suposta tendência para o suicídio: foi o caso de Efeito Werther, uma obra de Johann Wolfgang von Goethe, que terá causado uma onda de mortes no século XVIII. Mas os especialistas sublinham que o poder da música pode fazer-se sentir, não porque esta tem uma natureza fantasmagórica, mas antes porque pode haver uma queda para comportamentos suicidas nas pessoas que escutam a canção. 
http://observador.pt/2015/10/30/som-da-morte-pelo-menos-bbc/



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► "A depressão contada num poema do século XVI", Vício da poesia, 2016-04-09.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

NOITES DE POESIA

Beber um copo de vinho e ouvir poesia – uma nova forma de sair à noite

A moda começou no Porto mas em Lisboa também já se pode sair à noite para ir ouvir poesia. São cada vez mais os bares que oferecem esta nova forma de saborear a vida noturna da cidade.
As noites de poesia no bar Irreal, organizadas pelo poeta e editor Nuno Moura, têm sempre convidados para as leituras.
MIGUEL SOARES/OBSERVADOR
Se para si o sinónimo de uma saída à noite cultural é ir ouvir fado numa tasca, está a perder um dos fenómenos emergentes mais instigantes da vida noturna das cidades: as noites de poesia.
Pior: se pensa que a poesia é uma coisa chata dita por gente demasiado monótona ou demasiado exaltada, é porque ainda não descobriu como ela pode ser divertida, comovente, e que as suas melodias escondidas são o melhor acompanhamento que há para um copo de vinho tinto.
No Porto, as noites de poesia já se fazem há mais de 20 anos e já têm os seus lugares icónicos como o Pinguim, o Piolho ou as Quintas de Leitura no Teatro do Campo Alegre. Em Lisboa, começaram no bar do teatro A Barraca, animadas pelo poeta Miguel Martins, mas nos últimos dois anos têm nascido como cogumelos. Neste momento há pelo menos sete noites de poesia espalhadas pela capital, uma para cada dia da semana. Nada de pretensioso: um bar, boa poesia, bom vinho, às vezes musica a acompanhar. Vale a pena percorrer estas capelinhas onde nasce uma nova forma de “estar na noite”para gente de todas as idades.

Bar do teatro A Barraca (Santos)

Ao poeta Miguel Martins e ao bar do teatro A Barraca devemos o início deste movimento das noites de poesia em Lisboa. Ali, todas as quintas-feiras, pelas 22h00, há uma sessão de leituras de poesia: é a Poesia às Quintas. Miguel Martins é o anfitrião mas há sempre um convidado e, por vezes, um músico. Aqui a poesia de culto é a portuguesa (como se compreende) mas podem ouvir-se líricas de outras línguas. Desde poetas mainstream aos clássicos, dos rebeldes às estrelas pop/rock.
Quintas de poesia do bar A Barraca. Fotografia retirada do Facebook Bar A Barraca

Povo (Cais do Sodré)

A semana no Cais do Sodré não começa sem uma noite de poesia. Todas as segundas-feiras às 22h00, mais coisa menos coisa, há uma sessão temática de poesia. As noites que ganharam o nome de Poetas do Povo são organizadas pelo músico Alex Cortez (ex-Rádio Macau) e têm como anfitrião o jornalista Nuno Miguel Guedes. Acontecem há mais de dois anos, passam por lá famosos e desconhecidos, e há espaço para todo o tipo de poesia a acompanhar com bons vinhos e bons queijos. Vá cedo porque a casa enche, e prepare a garganta, se quiser — estas noites de poesia têm uma segunda parte de “microfone aberto” onde cada um pode ir ler alguns poemas da sua autoria, ou simplesmente algum poeta de que goste. Na próxima segunda-feira, dia 21 de dezembro, vai haver poesia de Leonard Cohen. Podemos pedir mais?

Manuel João Vieira foi um dos convidados recentes para ler poesia no Povo.
Fotografia retirada do Facebook Poetas do Povo

Sagrada Família (Alfama)

As sessões de poesia na Sagrada Família começaram quando este espaço estava na avenida Duque de Loulé e continuaram quando se mudou para a Rua dos Remédios, em Alfama. A conduzir estas noites por onde passam sobretudo poetas portugueses, como Mário Henrique Leiria, Cesariny e Alexandre O’Neill, está o músico e poeta Tiago Gomes. Estasspoken words acontecem duas vezes por mês, sempre à terça-feira. A partir de janeiro passam a acontecer às quartas e ganham o nome de “Quartas da Palavra”. Na Sagrada Família também se pode jantar ao som de poesia, pelas 21h00.

Tiago Gomes, o poeta das palavras ditas na Sagrada Família. DR

Pratinho Feio (Bairro Alto)

Tiago Gomes assegura também as novas noites de poesia no Bairro Alto. Acontecem uma vez por mês no restaurante Pratinho Feio, pelas 21.30. Assim, tal como na Sagrada Família, pode jantar a ouvir poesia. Aqui faz-se cozinha portuguesa, confecionada de forma criativa. Às palavras dos poetas junta-se a música.

Irreal (Poço dos Negros)

Descendo a Calçada do Combro e entrando no Poço dos Negros vai ter ao Irreal, um bar muito palpável. Pequeno, charmoso, parece feito à medida para sessões de poesia ao fim da tarde. O poeta e editor Nuno Moura, que parece ter nascido para ler poesia e fazer do verbo carne, movimento e dança, costuma ter sempre um convidado. Na passada quinta-feira houve poesia acompanhada por Carlos Paredes tocado em cravo por Joana Bagulho. As sessões com Nuno Moura & guestsacontecem duas vezes por mês, sempre às quintas. O poeta António Poppe assegura a poesia duas quartas-feiras por mês. O espaço é pequeno e tem um público fidelizado, por isso vá cedo para saborear um vinho, uma cerveja e arranjar uma cadeira.
Joana Bagulho a tocar cravo numa das sessões de poesia do bar Irreal.
Foto: MIGUEL SOARES/OBSERVADOR

Primeiro Andar (Portas de Santo Antão)

A arca de Babel abre-se uma vez por mês no bar Primeiro Andar, no edifício do Ateneu Comercial, nas Portas de Santo Antão. Chama-seBabel’s Curse-poetry Sessions e é organizada pelo jovem poeta Vasco Macedo. Vasco é do Porto, cresceu a ir às sessões do Piolho e do Pinguim e quis fazer as noites de poesia mais marginais de Lisboa. Começou com as “Terças da Poesia Clandestina” no bar da Universidade Nova de Lisboa. Agora tem o Babel’s Curse que acontece uma vez por mês. Estas noites são sempre dedicadas à poesia de uma das línguas do mundo e têm um anfitrião convidado. O próximo curso é no dia 30 de dezembro e vai ouvir-se poesia cubana do século XX. Apesar do nome, não espere encontrar aqui uma “coisa académica”. Sem capas, batinas nem tunas, no Primeiro Andar ouve-se também boa música e pratica-se poesia como valor universal.
As noites de poesia do mundo no Primeiro Andar acontecem uma vez por mês.
Fotografia retirada do Facebook Babel’s Curse Poetry Session


Taberna Galegas (Cais do Sodré)

É um dos mais recentes spots para ouvir poesia: a tasca Galegas (no nº 7 da travessa da Ribeira Nova), acolhe o projeto Galegas 7 da autoria do escritor Valério Romão e de Marta Raquel Fonseca. Aqui leem-se textos em prosa de poetas e de não poetas. Podem ouvir-se também romancistas, dramaturgos entre outros. Nestas noites “galegas” já se ouviu Sarah Kane, Manuel de Castro, Fernando Assis Pacheco. Cada sessão tem um ou mais convidados para fazer as leituras. Pelas 19h00, duas terças-feiras por mês.

Na  tasca Galegas leem-se textos de poetas e não poetas.
http://observador.pt/2015/12/22/beber-um-copo-vinho-ouvir-poesia-nova-forma-sair-noite/

domingo, 20 de dezembro de 2015

AMAI-LA

Em artigo publicado no Diário de Notícias de 7 de Outubro de 2009, assinalando os dez anos do falecimento da fadista portuguesa, o poeta e escritor Vasco Graça Moura escreve sobre «um dos aspectos, talvez o menos referido e tratado», do «milagre» de Amália Rodrigues.      


POÉTICA DE AMÁLIA
(…) Em conversa com [o jornalista] Manuel Halpern, do Jornal de Letras, a propósito da poesia de Amália Rodrigues, falei da qualidade da escrita dela, que não tinha tido qualquer espécie de educação formal. Não me ocorreu então que, na sua segunda carta a Vitorino Nemésio, ela assumia a confirmação disso mesmo: «Ai, meu querido professor/Eu nunca fui sua aluna/Não tenho instrução nenhuma,/Como é que posso entender/O que o senhor quis dizer/Sem saber ler nem escrever?» E esse é um dos aspectos, talvez o menos referido e tratado, do milagre de Amália. Nos seus versos, ela soube lançar mão de uma escrita poética intuitiva e certeira, formalmente muito ancorada na tradição da matriz popular, com uma grande fluência, belos achados e, por vezes, algumas agudezas quase maneiristas.  
A chave para entender o fenómeno, na parte em que ele pode ser entendido, creio que está precisamente nessa aliança de gosto apurado, sentido da musicalidade e do ritmo, simplicidade verbal e naturalidade de expressão que Amália soube processar com requintada destreza entre a ingénua frescura da tradição e da poesia do povo (da toada beirã às criações dos letristas populares que cantava) e o trato aturado com a poesia mais elaborada dos escritores que foi incorporando no seu repertório. A influência das oficinas de David Mourão-Ferreira e a de Pedro Homem de Mello nalguns dos seus temas próprios parece-me evidente. Mas as coisas não ficam por aí e há outros aspectos que surpreendem, como, em Flores do Verde Pinho, esta habilíssima utilização de uma forma verbal arcaica: «Ai, flores do verde pinho,/dizei que novas sabedes/da minha alma, cujas sedes/ma perderam no caminho!»
E há momentos de grande eficácia técnica. Recordo os meus dois fados favoritos de que Amália escreveu a letra, Estranha Forma de Vida e Lágrima, o primeiro com a sua intensificação repetitiva pela retoma do primeiro verso de cada quintilha no remate dela, a acentuar a "estranheza" da vida daquele "coração independente", o segundo com a reiteração sincopada da primeira metade de cada verso, como se o próprio avançar do poema fosse depender desse "tactear", desse recomeçar da procura da maneira de dizer para chegar à máxima intensidade lírica, a exprimir a fragilidade com que o ser humano se expõe desamparadamente na paixão. O texto de Lágrima, obra-prima da Amália letrista, poderia ser quase integralmente reduzido a quatro quadras, mas a sua transfiguração dramática deve-se a essa espécie de leixa-pren, de retomar insistente e fraturante do teor de cada verso, reforçando uma dialéctica muito fadista que poderia esquematizar-se cruamente desta maneira: realidade/sonho, sofrimento de amor/disponibilidade para morrer.
Nos poemas não cantados (reporto-me à excelente edição de Versos, organizada em 1997 por Vítor Pavão dos Santos)mantêm-se muitas destas características, a que acresce em geral uma nota de humor e de auto-ironia muito pessoal (por exemplo: «Cá por dentro da cabeça/vazia como eu a tenho/por estranho que pareça/atendendo ao seu tamanho»…). Esse humor surge com frequência nas peças de matriz mais popular e também no pequeno bestiário da autora (gafanhotos, grilo, bicho-de-conta, mosquitos, cabra e vários outros animais aí incidentalmente referidos).
Noutros fados, como Lavava no Rio, Lavava Quando Se Gosta de Alguém, a repetição é utilizada com excelentes efeitos, no primeiro, a recordar a toada das cantigas de amigo e do romanceiro, no segundo, explorando contradições e perplexidades cujo sentido se reforça exactamente pela engenhosa recondução das questões ao mesmo pressuposto inicial («quando se gosta de alguém»). Já em Amor de Mel, Amor de Fel, a sequência qualificativa e modulada do amor sentido entre os seus pólos de contentamento e amargura joga com anáforas, com oposições, com hipérboles, com alusões à relação tonal de fado maior e fado menor e, por esta via, com a ambiguidade entre o sentido de fado (canção) e o de fado (fatum, destino).
Enfim, o que em Amália vive e sente está pensando e recordando, como ela escreve em Depois Disto… desisto, redondilhas que começam assim: «Tantas coisas que já li/Outras tantas que vivi/Fazem de mim o que sou/Ai, se eu tivesse esquecido/Tudo o que tenho vivido/E o coração decorou
Fonte
Artigo publicado no Diário de Notícias de 7 de outubro de 2009.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Gestalt prayer



I do my thing and you do your thing.
I am not in this world to live up to your expectations,
And you are not in this world to live up to mine.
You are you, and I am I,
and if by chance we find each other, it's beautiful.
If not, it can't be helped.

Fritz Perls, Gestalt Therapy Verbatim, 1969











Aos apaixonados

O desejo da gente é sempre engaiolar o outro e levá-lo pelos caminhos que são nossos. Isso vale para tudo: marido-mulher, pai-filha, mãe-filho, patrão-empregado, professor-aluno... Não admira que Sartre tenha dito que “o inferno é o outro”.
Não haverá uma saída. Lembro-me de um pequeno poema de Perls que sugere a possibilidade de uma relação sem gaiolas:

Eu sou eu
Você é você.
Eu não estou neste mundo para atender
às suas expectativas.
E você não está neste mundo para atender
às minhas expectativas.
Eu faço a minha coisa.
Você faz a sua.
E quando nos encontramos
É muito bom.


Rubem Alves, O amor que acende a lua. Campinas, Papirus, 1999.
Ler crónica completa em http://aosapaixonados.blogspot.pt/2002_12_01_archive.html




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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

PSEUDOPOEMA DIGITAL




Complete as lacunas do  pseudopoema a seguir transcrito, usando, sem repetir, uma consoante de cada vez.
  


PSEUDOPOEMA DIGITAL

É uma arma mas não tem _ala
Às vezes não salva e me _ala
Outras vezes fica mudo e _ala
Com um disco se acende e _ala
Se a festa for de _ala
Ele se destaca na _ala
Quando se quebra não leva _ala.
Se fica velho, joga-se na _ala.
É antirreflexivo e não usa _ala
O computador que levo na _ala





Produção de materiais de ensino: teoria e prática
organizado por Vilson J. Leffa. 2.ed. rev. – Pelotas: Educat, 2007, p. 36


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

VICENTE, um palimpsesto torguiano

O corvo da liberdade.
Combate entre criador e criatura

     Intertextualidade – os textos podem manter com outros relações intertextuais, por meio da citação ou da imitação criativa. O conto de Miguel Torga estabelece uma relação intertextual direta com um episódio da Bíblia e subtilmente convoca versos da Mensagem de Fernando Pessoa.

Mensagem, Fernando Pessoa
“Vicente” in Bichos, Miguel Torga
“O Encoberto” - título da III Parte da Mensagem

“O Encoberto” -  Quinto Símbolo  da III Parte

Terceiro Aviso da III Parte:
Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?


Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?


como que guiada por um piloto encoberto
HORIZONTE

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte – 
Os beijos merecidos da Verdade.

Os olhos cravavam-se na distância

Terra! Nem planaltos, nem veigas, nem desertos. Nem mesmo a macicez tranquilizadora dum monte. Apenas a crista de um cerro a emergir das vagas.

À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, recortada no horizonte, linha severa que limitava um corpo, e era ao mesmo tempo um perfil de vontade.
O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: "Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?"
E o homem do leme disse, tremendo:
"El-Rei D. João Segundo!"


"De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?"
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
"Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?"
E o homem do leme tremeu, e disse:
"El-Rei D. João Segundo!"



Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!"
onde está o meu servo Vicente?

a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso, numa severidade tonitruante.
– Noé, onde está o meu servo Vicente?

E a palavra de Deus, medonha, toou de novo pelo deserto infinito do firmamento.

duelo entre Vicente e Deus

Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas
três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.









VICENTE
Conto

Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro[1], Vicente[2] abriu as asas negras e partiu.[3] Quarenta[4] dias eram já decorridos desde que, integrado na leva[5] dos escolhidos, dera entrada na Arca[ 6]. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje[7] à criação. Em semelhante balbúrdia – lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino –, apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava: – a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel?[ 8] Que tinham que ver os bichos com as fornicações[9] dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável[10] se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.
Quarenta dias, porém, a carne fraca[11] o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano[12] para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.[13]
A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário[14], de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo[15] com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação[16]. A consciência em protesto ativo contra o arbítrio[17] que dividia os seres em eleitos e condenados.
Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um ralo[18], terrível, a voz de Deus[19]:
– Noé, onde está o meu servo Vicente?
Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados.
Sobre o tombadilho[20] varrido de ilusões, desceu, pesada, uma mortalha[21] de silêncio.
Novamente o Senhor paralisara as consciências e o instinto, e reduzia a uma pura passividade vegetativa[22] o resíduo da matéria palpitante.
Noé, porém, era homem. E, como tal, aprestou as armas de defesa.
– Deve andar por aí... Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!...
Nada.
– Vicente!... Ninguém o viu? Procurem-no!
Nem uma resposta. A criação inteira parecia muda.
– Vicente! Vicente! Em que sítio é que ele se meteu?
Até que alguém, compadecido da mísera pequenez daquela natureza, pôs fim à comédia.
– Vicente fugiu...
– Fugiu?! Fugiu como?
– Fugiu... Voou...
Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. De repente, bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão.
Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Pelas mãos invisíveis de quem comandava as fúrias, como que passou, rápido, um estremecimento de hesitação.
Mas a divina autoridade não podia continuar assim, indecisa, titubeante[23], à mercê da primeira subversão. O instante de perplexidade durou apenas um instante. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso, numa severidade tonitruante.[24]
– Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão[25], trémulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
– Senhor, o teu servo Vicente evadiu-se. A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido, ou de lhe haver negado a ração devida. Ninguém o maltratou aqui.
Foi a sua pura insubmissão que o levou... Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim... E salva-o, que, como tu mandaste, só o guardei a ele...
– Noé!... Noé!...
E a palavra de Deus, medonha, troou de novo pelo deserto infinito do firmamento.
Depois, seguiu-se um silêncio mais terrível ainda. E, no vácuo em que tudo parecia mergulhado, ouvia-se, infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.
Entretanto, suavemente, a Arca ia virando de rumo. E a seguir, como que guiada por um piloto encoberto, como que movida por uma força misteriosa, apressada e firme – ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas –, dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia.
Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião?
Horas e horas a Arca navegou assim, carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança?
Ninguém dava resposta às próprias perguntas. Os olhos cravaram-se na distância, os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente, e o tempo passava.
Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra. A palavra, gritada a medo, por parecer ou miragem ou blasfémia[26], correu a Arca de lés a lés como um perfume. E toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima, ao convés, no alvoroço grato e alentador[27] de haver ainda chão firme neste pobre universo.
Terra! Nem planaltos, nem veigas[28], nem desertos. Nem mesmo a macicez[29] tranquilizadora dum monte. Apenas a crista[30] de um cerro a emergir das vagas[31]. Mas bastava. Para quantos o viam, o pequeno penhasco resumia a grandeza do mundo.

ilha do Corvo

Encarnava a própria realidade deles, até ali transfigurados em meros fantasmas flutuantes. Terra! Uma minúscula ilha de solidez no meio dum abismo movediço, e nada mais importava e tinha sentido.
Terra! Desgraçadamente, a doçura do nome trazia em si um travor[32]. Terra... Sim, existia ainda o ventre quente da mãe. Mas o filho? Mas Vicente, o legítimo fruto daquele seio?
Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, recortada no horizonte, linha severa que limitava um corpo, e era ao mesmo tempo um perfil de vontade.[33]
Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada.[34]
Simplesmente, as águas cresciam sempre, e o pequeno outeiro, de segundo a segundo, ia diminuindo.
Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem[35]. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico[36] destino.
Ah, mas estavam «rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu»! E homens e animais começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto[37] da existência ativa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos, comandados pela sua implacável tirania.
Transida, a turba[38] sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço fora devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espetador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.
Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco[39] – a total autonomia da criatura em relação ao criador –, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao ato de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente[40], pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três[41] vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou.[42] A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas[43] do céu.

Miguel Torga, Bichos, 1940.




NOTAS:
[1] SINISTRO - assustador.
[2] VICENTE - do latim vincentius, relativo a palavra vincens, significa "aquele que vence", "aquele que conquista", "conquistador, "sedutor". Na gíria portuguesa significa “corvo”. O corvo é, simbologicamente, considerado uma ave de mau agouro, normalmente ligado à morte e desventuras, conforme é possível verificar nos apontamentos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (Dicionário dos Símbolos, Lisboa, Teorema, 1994). Na passagem bíblica do dilúvio, o corvo é o primeiro animal que sai da arca para verificar se há terras emergentes. Vicente, opositivamente ao corvo bíblico, não sai da arca por uma decisão hierárquica, ele foge deliberadamente, no entanto, o conflito gerado por essa fuga proporcionará a realização do maior desejo de todos os tripulantes da arca, que é rever a terra.
[3] A primeira frase do conto introduz, sem preâmbulos, as duas presenças em conflito. ("Além, aqui e aquém em Miguel Torga: análise de «Vicente»", por Teresa Rita Lopes. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 25, Maio 1975, p. 34-49. 
[4] QUARENTA - É o número da espera, da preparação, da provação ou do castigo. Não há dúvida que o primeiro aspeto é, ao mesmo tempo, o menos conhecido e, no entanto, o mais importante. Pode dizer-se que os escritores bíblicos marcam a história da salvação dando este número aos acontecimentos mais importantes; este número caracteriza as intervenções sucessivas de Deus, que se invocam uma à outra. Como Saul, também David reina quarenta anos (II Samuel, 5, 4); Salomão, a mesma coisa (I Reis, 11,42). A aliança com Noé acompanha os quarenta dias do dilúvio; Moisés é chamado por Deus aos quarenta anos; fica quarenta dias no cimo do monte Sinai. Jesus prega durante quarenta meses; o ressuscitado aparece aos discípulos durante os quarenta dias que precedem a Ascensão (Atos, 1, 3).
Muitas vezes acentua-se também o aspeto de provação ou de castigo: os Hebreus infiéis foram condenados a errar durante quarenta anos no deserto (Números, 32, 13). Quarenta dias de chuva puniram a humanidade pecadora (Génesis, 7, 4). Jesus, representando a nova humanidade, foi conduzido ao Templo quarenta dias depois do seu nascimento; saiu vitorioso da tentação por que passou durante quarenta dias(Mateus, 4, 2 e paralelos), e ressuscitou depois de 40 horas de permanência no sepulcro.
Segundo R. Allendy (ALLN, 385), este número marca a conclusão de um ciclo, de um ciclo, no entanto, que deve desembocar, não numa simples repetição, mas Sim numa mudança radical, numa passagem para uma outra ordem de ação e de vida. Por isso Buda e o Profeta começaram a sua pregação aos 40 anos; e a quaresmaque prepara a ressurreição pascal, dura 40 dias.
Entre os Africanos, principalmente entre os Fulas os funerais duram 40 noites, quando um boiultrapassa 21 anos e um homem 105 anos. Entre os Bambaras oferecem-se em sacrifício 40 caurins, 40 cavalos 40 bois, para a iniciação suprema do Kamo. A expressão «2 vezes 40» significa cem (HAMK, 23) ou o quase inumerável.
Este número desempenhou um papel particularmente importante nos rituais fúnebres de um grande número de povos. Com efeito, é o número de dias que são precisos para que os restos mortais sejam considerados como definitivamente livres de qualquer corpo vivo, por mais subtil que ele seja, isto é, de todas as suas almas. Um morto, segundo estas crenças, não está totalmente morto senão no fim deste tempo, e a cerimónia deste dia, a quarentena, é a que retira as ú1timas proibições do luto; é o tempo dapurificação.
E nesta altura que se realizam os ritos de purificação, os familiares do defunto ficam então desligados de toda a obrigação a seu respeito.
É o lapso de tempo que é preciso para desenterrar o cadáver, limpar os ossos e colocá-los na sua morada definitiva, para os povos que praticam o costume do segundo enterro, principalmente entre os Índios da América equatorial. Para os povos altaicos, é o dia em que a viúva pronuncia a fórmula ritual:Agora, abandono-te, que a torna livre para contrair segundas núpcias. E também o dia em que se procede à purificação da iurte (HARA, 227-228). O costume da quarentena provém da crença segundo a qual o número quarenta simboliza um ciclo de vida ou de não-vida.
Jean-Jacques Rousseau disse dos quarenta anos: É, a meu ver, a idade mais conveniente para reunir todas as qualidades que devem existir num homem de Estado. O direito feudal francês contemplava a quarentena do Rei, duração de quarenta dias estabelecido por Luís IX, durante o qual o ofendido não podia vingar a sua injúria.
(In Dicionário dos Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Lisboa, Teorema, 1994).
[5] LEVA: grupo.
[ 6] Texto adaptado do livro bíblico «Génesis»:
CORRUPÇÃO DA HUMANIDADE - O Senhor reconheceu que a maldade dos homens era grande na Terra, que todos os seus pensamentos e desejos tendiam sempre e unicamente para o mal. O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem sobre a Terra, e o Seu coração sofreu amargamente.
DEUS DECIDE ELIMINAR AS SUAS CRIATURAS - E o Senhor disse: «Eliminarei da face da Terra o homem que Eu criei, e, juntamente com o homem, os animais domésticos, os répteis e as aves dos céus, pois estou arrependido de os ter feito». Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor.
Este é o relato da descendência de Noé. Noé era um homem justo e perfeito, entre os homens do seu tempo, e andava sempre com Deus. Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafet. (…)
A CONSTRUÇÃO DA ARCA - Então Deus disse a Noé: «Constrói uma arca de madeiras resinosas. Dividi-la-ás em compartimentos e calafetá-la-ás com betume, por fora e por dentro. Hás-de fazê-la desta maneira: o comprimento será de trezentos côvados, a largura de cinquenta côvados e a altura de trinta côvados. Ao alto, farás nela uma janela, à qual darás dimensão de um côvado. Colocarás a porta da arca a um lado, construirás nela um andar inferior, um segundo e um terceiro andar, pois vou lançar um dilúvio, que inundando tudo, eliminará debaixo do céu todo o ser animal, com sopro de vida».
A GRANDE INUNDAÇÃO - Tendo Noé seiscentos anos de vida, no segundo mês, no dia dezassete do mesmo mês, nesse dia romperam-se todas as fontes do grande abismo, e abriram-se as cataratas do céu. A chuva caiu sobre a Terra durante quarenta dias e quarenta noites. Naquele mesmo dia, Noé entrou na arca com Sem, Cam e Jafet, seus filhos, sua mulher e as três mulheres dos seus filhos; juntamente com eles, entraram os animais selvagens segundo as suas espécies, os animais domésticos segundo as suas espécies, os répteis que se arrastam pela terra, segundo as suas espécies e todos os animais voláteis, todas as aves, tudo quanto possui asas, segundo as suas espécies. (…)
Choveu torrencialmente durante quarenta dias sobre a terra. As águas cresceram e levantaram a arca, que foi elevada por sobre a terra. As águas iam sempre crescendo, engrossando e subiram muito acima da terra, e a arca flutuava à superfície das águas (…). Todas as criaturas que se moviam na terra pereceram (…).
O FIM DO DILÚVIO - Decorridos quarenta dias, Noé abriu a janela que havia feito na arca e soltou um corvo, que saiu repetidas vezes, enquanto iam secando as águas sobre a terra. Depois, soltou uma pomba, a fim de verificar se as águas tinham diminuído à superfície da Terra. Mas, não tendo encontrado sítio para poisar, a pomba regressou à arca, para junto dele, pois as águas cobriam ainda a superfície da Terra. Estendeu a mão, agarrou-a e meteu-a na arca.
Aguardou sete dias; depois soltou novamente a pomba, que voltou para junto dele, à tarde, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Noé soube, então, que as águas tinham baixado sobre a Terra. Aguardou ainda mais sete dias, depois tornou a soltar a pomba, mas, desta vez, ela não regressou mais para junto dele. (In: Bíblia Sagrada, Lisboa, Difusora Bíblica, 1994, pp. 9-11.)
[7] ULTRAJE: insulto.
[ 8] BABELepisódio bíblico; referência a um comportamento dos homens que levou Deus a castigá-los com o aparecimento de línguas diferentes: até tentarem construir a torre para atingirem Deus nos céus, os homens falavam todos a mesma língua.
[9] FORNICAÇÕES: termo usado na Bíblia para se condenar o que aí se considerava como imoralidades de cariz sexual.
[10]  INEXORÁVEL: impiedosa, a que não se pode escapar.
[11]  FRACA - a necessidade.
[12]  LÍBANO: região onde Vicente vivia antes do diluvio.
[13] Dividido entre a segurança na Arca e a liberdade, Vicente deixou-se embarcar. Todavia, o corvo não vivia em paz com a sua consciência, pois não se conformada com o “procedimento de Deus”. Como tal, mesmo correndo o risco de não sobreviver, optou por se evadir daquela servidão.
[14] TEMERÁRIO – arrojado, ousado, arriscado.
[15] MURO DE FOGO – obstáculo extraordinário criado por Deus para o impedir qualquer fuga.
[16] A expressão “símbolo da universal libertação” pode ser vista como uma alusão ao mito de Ícaro - “Ícaro é o símbolo da desmesura e da temeridade, a dupla perversão do juízo e da coragem.” (in Dicionário dos Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Lisboa, Teorema, 1994).
Uma segunda hipótese de interpretação alusiva é lembrarmo-nos de Prometeu, pois “foi preciso arrancar dos deuses a sobrevivência, o direito a existir. Existirmos é um gesto de rebeldia, contra a arrogância dos deuses que nos criaram e que nos podem destruir por capricho. Também antigos mitos nos contam como à força e à violência divinas se opôs a dignidade humana. Entre eles, a história de Prometeu que, comovido pelos sofrimentos dos homens, lhes trouxe o domínio do fogo, fonte de todo o progresso humano e símbolo universal da razão. O fogo, charneira entre a selvajaria e a civilização. O fogo, que permitiu a olhos humanos penetrarem pela vez primeira na escuridão e no desconhecido. O fogo, que nos fez maiores do que éramos. Por esta oferta, que baralhou os dados originais da criação, ao tornar os homens semelhantes aos deuses, Prometeu foi punido por Zeus. Foi acorrentado às montanhas do Caucaso, onde uma águia (o pássaro que é identificado com o próprio Zeus) lhe devora, todos os dias o fígado. Surge muito claramente, nas várias fontes (Ovídio, Ésquilo, Hesíodo, Byron) que mencionam este mito, a revolta pela crueldade e injustiça desta punição. O mitógrafo clama contra a "Hubris" divina. À força e à violência que o prendem ao rochedo do suplício, Prometeu opõe a razão e a determinação. A dignidade. A única arma.” (“Vicente e Prometeu”, por Tiago R. In: http://os-olhos-de-ulisses.blogspot.pt/2007/01/vicente-e-prometeu.html)
No conto “Vicente”, defende-se a liberdade de escolha. Assim, a partida do corvo corresponde ao desejo de todos os animais que compartilham com ele o sentimento de revolta por terem sido fechados na Arca, como se fossem condenados, mas não têm coragem para partir.
Este é o último conto de Bichos e, tendo em consideração a sua data de publicação, 1940, poderemos também ver nele um recado político de Miguel Torga: a vida só vale a pena com liberdade, a liberdade de sermos nós com ou sem Deus, a liberdade de sermos nós com ou sem um ditador. Esta mensagem de consciência ocorreu frequentemente na literatura portuguesa de intervenção.
[17] ARBÍTRIO – parecer, juízo, vontade, determinação; tirania.
[18] RALO – ruído forte.
[19] As manifestações do Criador no conto, assemelham-se às características da concepção de Deus, conforme com o Velho Testamento bíblico, em mistos de sensações de temor e de vingança, manifestados, principalmente, pelos fenómenos naturais.
[20] TOMBADILHO – parte elevada da coberta do navio compreendida entre o mastro de gata e a popa.
[21]  MORTALHA – lençol ou túnica que envolve um cadáver.
[22] VEGETATIVA – relativo às funções vitais e às atividades fisiológicas involuntárias. O estado vegetativo é uma desordem de consciência em que pacientes com dano cerebral severo permanecem num estado de vigília parcial em vez de consciência plena.
[23] TITUBEANTE – hesitante, incerta.
[24] TONITRUANTE – trovejante, estrondosa, muito ruidosa.
[25] POLTRÃO – covarde, medroso, receoso.
[26] BLASFÉMIA – dito insultante contra o que se considera como sagrado.
[27] ALENTADOR – aquele ou aquilo que dá ânimo.
[28] VEIGA – planície cultivada e fértil.
[29] MACICEZ – qualidade do que é maciço, compacto, sólido.
[30] A “crista de um cerro” é a parte mais alta de um monte.
[31] Avistaram simplesmente um “penhasco”, isto é, um pequeno cimo de um monte que sobressaia das águas, que, embora não passando disso, era uma promessa de terra, do fim do sacrifício de 40 dias na Arca.
[32] TRAVOR – o mesmo que travo, sabor que causa um aperto na língua; sabor amargo.
[33] Intertextualidade - sente-se nesta passagem do conto uma imitação criativa de versos da Mensagem de Fernando Pessoa. Quer no conto de Miguel Torga quer no poema “Horizonte” de Pessoa, a distância e a linha fria/severa do horizonte sugerem a possibilidade de passarmos do desconhecido ao conhecimento de nós mesmos e colhermos disso a recompensa merecida – o prazer da procura e da descoberta, onde a verdade concreta do que somos reside.
[34] Os passageiros da Arca estão admirados e felizes por constatarem que o ato de rebelião de Vicente – afinal um deles! – os vingava da provação sofrida.
[35] VORAGEM – abismo, redemoinho; ruína, desgraça.
[36] TELÚRICO – relativo à terra, ao solo.
TELURISMO - Influência do solo de uma região nos costumes, no carácter. Ao lermos a poesia de Miguel Torga, observamos que o Homem deve ser capaz de realizar-se no mundo, deve unir-se à terra, ser-lhe fiel, para que a vida tenha sentido e o sagrado se exprima. É na terra que a vida acontece e é aí que se deve cumprir. É nela que está a origem da vida e dos tempos. Por isso, a terra surge, em Torga, como um ventre materno e a tarefa do Homem é orientar-se para esse sentido criador, genesíaco. O telurismo de Torga exprime-se no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de ser português. Mas o poeta não se contenta em elogiar a terra, na medida em que sente a condição humana cheia de limitações. De qualquer modo, o sentimento telúrico presente na sua obra revela bem a ligação entre o espírito genesíaco e o sentido do sagrado.
[37] REDUTO – refúgio.
[38] TURBA – multidão.
[39] GENESÍACO – relativo a geração; criador.
[40] OBSTINADAMENTE – teimosamente.
[41] Uso simbólico do número TRÊS – O três é, universalmente, um número fundamental. Exprime uma ordem intelectual e espiritual, em Deus, no cosmos ou no homem. Sintetiza a tri-unidade do ser vivo ou resulta da conjunção de I e 2, produto, nesse caso, da União do Céu e da Terra. O Tao produz um; um produz dois; dois produz três... (Tao-te King, 42). Mas, na maioria das vezes, o 3 como número, o primeiro ímpar, é o número do Céu, o 2 o número da Terra, porque o I é anterior à sua polarização. O 3, dizem os Chineses, é um número perfeito (tch'eng), a expressão da totalidade, da conclusão: nada lhe pode ser acrescentado. E o acabamento da manifestação: o homem; filho do Céu e da Terra, completa a Grande Tríade. E, aliás, para os Cristãos, a perfeição da Unidade divina: Deus é Um em três Pessoas. […] Os contos tradicionais expõem a bravura do herói nos combates corpo a corpo por um gesto simbólico: o herói levanta o seu adversário e fá-lo girar três vezes por cima da cabeça; só depois deste gesto é que o deita por terra. (in Dicionário dos Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Lisboa, Teorema, 1994)O número 3 é reconhecido como central no esoterismo.
[42] Intertextualidade com a Mensagem de Fernando Pessoa – quer no conto de Miguel Torga quer no poema “Mostrengo” de Pessoa encena-se uma oposição entre o herói terreno e as forças poderosas em que o protagonista sai vencedor. Em ambos os textos há uma dinâmica agressiva: o mostrengo, "imundo e grosso", comunica utilizando expressões carregadas de mistério-terror; por sua vez, a personagem Deus do conto “Vicente” manifesta-se com uma voz “larga como um trovão, penetrante como um ralo, terrível”, “numa severidade tonitruante”. Nos dois textos referidos, privilegia-se o mistério de ultrapassagem de que o número “três” é símbolo. O Mostrengo, embora associado à representação do denominado Cabo das Tormentas, tal como o Adamastor de Os Lusíadas, são personificações do medo e do receio que os navegadores revelavam ao enfrentar o desconhecido e o nunca antes navegado. Simbolizam também as histórias fantásticas relacionadas com seres monstruosos que habitavam os mares e que destruíam todos aqueles que tivessem a ousadia de entrar nos seus domínios, histórias essas em que os navegadores da época acreditavam. O monstro representa ainda o guardião, que se encontra a impedir o acesso ao "tesouro", obrigando assim o homem a praticar um ato heroico e a vencer o medo.
[43] COMPORTAS – portas móveis que contêm as águas de uma barragem.