segunda-feira, 16 de março de 2015

O Estranho Mundo de Jack | The nightmare before Christmas




O ESTRANHO MUNDO DE JACK

Caía o outono em Halloween, a noite enregelava...
Contra a Lua, só, num monte, um esqueleto cismava.
Era esguio e comprido e um laço-morcego trazia;
Jack Esquelético, o nosso protagonista,
Aborrecia-se de morte na cidade de Halloween,
Onde tudo decorria de forma prevista.

«Já me cansa meter medo, sustos e pavor.
Estou farto de ser algo que enche a noite de terror,
Farto de maus-olhados, de infundir alvoroço,
E os meus pés agonizam com a dança dos ossos.
Não gosto de cemitérios, quero mudar de ares!
Deve haver mais na vida que caretas e esgares!»

Durante toda essa noite e todo o dia a seguir,
Jack andou sem parar, sem saber por onde ir.

Até que no coração da floresta, a noite caía,
Jack teve uma visão de intensa magia:
Ali, a escassos metros... mesmo à sua beira...
Três portas esculpidas de maciça madeira.
Ficou estupefacto, sem tirar o olhar
De uma porta, entre todas, a mais singular.
Atraído, excitado, mas também ansioso,
Jack abriu-a e entrou num mundo branco e ventoso.

Jack nem calculava, mas tinha ido parar
À cidade do Natal- o nome desse lugar.
E, banhado em tal luz, já não se inquietava,
Pois enfim encontrara o que mais lhe faltava.
Para os amigos não julgarem que ele mentia,
Tirou as prendas e os doces que por lá havia:
Levou lembranças das meias junto à chaminé
E uma foto do Pai Natal com os duendes ao pé.
Pegou nas luzes, nas fitas e bolas do pinheiro,
E roubou o N grande que viu num letreiro.

Arrecadou aquilo que achou cintilante
E até uma bola de neve gigante,
Limpou tudo num ápice e, muito apressado,
Voltou à sua terra sem ser apanhado.

Tim Burton, O estranho mundo de Jack. Lisboa, Orfeu Negro, 2010. Coleção: Orfeu Mini.
Título original: The nightmare before Christmas
Tradução de Margarida Vale de Gato


Filme de animação norte-americano realizado em 1993 por Henry Selick, The Nightmare Before Christmas tem por verdadeiro mentor Tim Burton, o autor da história e das respetivas personagens. O argumento foi adaptado por Caroline Thompson, a produção esteve a cargo de Tim Burton e Denise DiNovi, e a fabulosa banda sonora foi composta por Danny Elfman, que também interpretou a voz da personagem principal. Para além de Elfman, as restantes vozes são de Chris Sarandon, Catherine O'Hara, William Hickey e Ed Ivory.
Animação, dirigida tanto ao público infantil como ao adulto, foi feita em stop motion, uma técnica utilizada para dar movimento a bonecos filmando-os pacientemente com pequenas variações das suas posições, da qual este filme se tornou uma verdadeira referência. O resultado final é mágico e fantástico.
A história, em jeito de fábula, começa na cidade de Halloween, um mundo repleto de criaturas fantásticas que vivem durante todo o ano com o objetivo de preparar a noite de Halloween (Dia das Bruxas). Num ano, após a festa do Halloween, o rei da cidade Jack Skellington (voz de Danny Elfman), fica deprimido e cansado da rotina anual. Ao descobrir por acaso a cidade do Natal, tem uma ideia insólita: tomar o lugar do Pai Natal e organizar com os seus vizinhos um Natal inesquecível, festejando esta quadra de uma forma alegre. Contudo, apesar da sua boa vontade, Jack não consegue captar inteiramente o espírito natalício e os seus preparativos tomam um tom demasiado macabro. Sally (voz de Catherine O'Hara), uma boneca de trapos fascinada por Jack, prevê um terrível destino como consequência da extravagância do seu amigo. E, nesse seguimento, as crianças de todo o mundo acabam tristes e desiludidas com o novo Pai Natal.
A produção do filme reuniu os melhores animadores de stop motion, tornando-se o primeiro filme realizado com esta técnica a ser distribuído no mundo inteiro. A construção das assustadoras personagens foi planeada detalhadamente para que realmente se parecessem com os rascunhos feitos por Burton. Os cenários foram construídos com grotescas construções criando um mundo surreal, repleto de texturas estranhas. Foram feitos mais de duzentos bonecos, incluindo vampiros, fantasmas, lobisomens, múmias e outros. Muitos deles com várias cabeças ou faces para serem substituídas durante o processo de animação.
O filme fez um sucesso imenso e foi nomeado para o Óscar de Melhor Efeitos Visuais e para o Globo de Ouro na categoria de Melhor Banda Sonora.

in Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2015. Disponível na Internet: http://www.infopedia.pt/$o-estranho-mundo-de-jack




Com a produção do segundo Batman em 1992, Burton decidiu levar outro trabalho simultaneamente. Inspirado na obra de outro ídolo de infância: Como o Grinch Roubou o Natal, de Dr. Seuss, Tim Burton’s Nightmare Before Christmas (1993), traduzido para português como O Estranho Mundo de Jack, une os dois feriados favoritos de Burton e descreve os mundos paralelos de Christmastown e Halloweentown. Para a realização do projeto, Burton optou novamente pelo estilo de animação em stop-motion e, para a direção, fez parceria com Henry Selick, conhecido de longa data do diretor e especialista em animação com bonecos, assinando apenas como produtor do filme. Pela primeira vez, um filme em animação seria feito em longa-metragem, quebrando a tradição de utilização do estilo apenas para comerciais de TV e vinhetas da MTV.

Além da profunda complexidade dos personagens de criação própria, o diretor inovou mais uma vez ao quebrar as expectativas visuais. Ao criar a cidade de Halloweentown e povoá-la com os mais diversos tipos macabros, o diretor inverte valores mostrando um mundo onde o normal é ser diferente, mostrando mais uma vez que o público é capaz de lidar com o macabro e o sombrio, como fez em Os Fantasmas se Divertem. Essa inversão de valores é vista por Mimi Avins, em artigo para a Premiere (1993), como a ideia de que “it’s okay to be different, it’s okay to be screw up, and it’s okay to be miserable.” (FRAGA, Kristian (org.). Tim Burton: Interviews. 1.ª ed. Jackson: University Press of Mississippi, 2005. Coleção Conversations with Filmmakers, p. 101).

Em seu processo de criação, o personagem parece ter atravessado as três instâncias de criação do diretor: em um primeiro momento, Jack é personagem do poema escrito pelo próprio Burton, que deu origem à produção fílmica; depois, ganha forma e cor ao ser transformado em gravura pelo diretor; mais tarde, ganha vida em forma de animação gráfica. Ao fim deste percurso, chegamos a um protagonista que carrega características típicas do herói burtoniano: é atormentado por dúvidas e angústias. No entanto, ainda segundo Avins, em uma arte em que a primeira regra é dar ao personagem olhos expressivos, a caracterização de Jack representou um enorme desafio, uma vez que seu rosto é uma caveira e, portanto, sem olhos (Ibid. p. 100).

Jack não é um personagem “feliz”, mesmo vivendo em um mundo em que não só é parte integrante da sociedade, mas é tido como ídolo. O esqueleto sente uma angústia, sem saber ao certo por quê. Para suprimir essa inquietação, o simpático Rei das Abóboras precisa sair em busca de algo que, na verdade, também não sabe bem o que é, mas mesmo assim o quer apaixonadamente. Essa “doença da alma”, que tortura o herói, é descrita pelo próprio personagem no poema que deu origem à longa-metragem:

“I'm sick of the scaring, the terror, the fright.
I'm tired of being something that goes bump in the night.
I'm bored with leering my horrible glances,
And my feet hurt from dancing those skeleton dances.
I don't like graveyards, and I need something new.
There must be more to life than just yelling, 'Boo!'”

(THOMPSON, Frank. Tim Burton’s The Nightmare Before Christmas. New York: Disney Press, 2009.).
“Estou cansado de sustos, medo e terror.
Cansado de causar tantos gritos de horror.
Cansado de vestir apenas branco e preto,
meus pés já não aguentam a dança do esqueleto.
Odeio o cemitério e seus tons cinza e azul.
A vida deve ser mais que só gritar: “Buuu!”

(Tradução de Francine Fabiana Ozaki).

As angústias de Jack o levam a se isolar da cidade, pois seu humor depressivo não combina com a cidade em festa. Portanto, o protagonista já ocupa o status de outsider dentro do próprio ambiente. A descoberta de Christmastown coloca Jack novamente no papel de estrangeiro, em uma terra totalmente diferente da sua. Mais uma vez, temos um protagonista deslumbrado por um mundo oposto ao seu, cores e luzes contra escuridão e sombras, como em Edward. 

Em O Estranho Mundo de Jack, Burton dá seus primeiros passos na direção da subjetivação dos personagens femininos, que começou a ser desenvolvido na Mulher Gato, embora com menos destaque, e que culminará em A Noiva Cadáver (2005). Sally, o par romântico de Jack, é visualmente muito parecida com a vilã de Batman o Retorno (1992). Em mais uma referência ao clássico Frankenstein, Sally foi construída para servir de companhia a seu inventor. Embora não esteja presente no poema original, ela tem grande destaque no enredo da longa-metragem. Sally é quem tem o pressentimento de que algo pode dar errado caso os integrantes de um feriado resolvam assumir o controlo de outro. No entanto, ninguém lhe dá ouvidos. Com o corpo todo revestido por costuras que se soltam constantemente, a heroína se torna peça-chave no filme ao evitar que o temido Bicho Papão mate o Pai Natal e ao protegê-lo até que Jack volte do mundo real.

Segundo Burton, as costuras de Sally e da Mulher Gato representariam:

(...) that whole psychological thing of being pieced together. Again, these are all symbols for the way that you feel. The feeling of not being together and of being loosely stitched together and constantly trying to pull yourself together, so to speak. (BURTON, Tim; SALISBURY, Mark (org.). Burton on Burton. 2.ª ed. Londres: Faber and Faber, 2006, p. 123).

Mais uma vez, Burton dá dimensão visual e física aos conflitos internos do personagem, como fez em seus dois personagens de criação anteriores, Vincent e Edward.

Progressivamente, os personagens femininos de Burton passarão a ganhar destaque em seus filmes. Desde Kathy O’Hara, a esposa dedicada de Ed Wood (1994), passando pelas heroínas Katrina Van Tassel, personagem de Christina Ricci em A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999), e a rebelde chimpanzé Ari, personagem de Helena Bonham Carter em Planeta dos Macacos (2001), até a protagonista de seu segundo filme de animação, A Noiva Cadáver (2005).

Francine Fabiana Ozaki, The melancholy death of oyster boy & other stories’, de Tim Burton: crítica e tradução. Curitiba, Universidade Federal do Paraná - Sector de Ciências Humanas, Letras e Artes, 2013.

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