segunda-feira, 27 de julho de 2015

NOVA POESIA PORTUGUESA (artes poéticas)

RELÂMPAGO N.º 12  4|2003
Director deste Número: Fernando Pinto do Amaral.
Conselho Editorial: Carlos Mendes de Sousa, Gastão Cruz, Paulo Teixeira.



Agora que entrámos no Século XXI e que têm surgido cada vez mais balanços do Século XX, as páginas deste nº12 da Relâmpago abrem-se à geração mais recente da poesia portuguesa. Os poetas aqui incluídos não correspondem a uma selecção rígida, a um panorama exaustivo, ou sequer ao gosto pessoal de cada um dos membros do Conselho Editorial da revista - mas reflectem, em todo o caso, um patamar possível ou um determinador comum entre a poesia escrita e publicada por autores mais novos, todos nascidos após 1963 e por isso com menos de 40 anos. A cada um pedimos alguns poemas inéditos e um texto que de certo modo os situasse ou pudesse funcionar como uma espécie de arte poética*. Esperamos que a leitura dos seus poemas - acrescida dos ensaios de abertura - possa dar aos leitores uma imagem da poesia mais jovem que hoje se escreve em Portugal.

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* Foi também pedida colaboração a Ana Paula Inácio, que nos informou não dispor neste momento de produção inédita.




NOVA POESIA PORTUGUESA | [ARTES POÉTICAS]




CARLOS BESSA (n. 1967)  |  Poesia (a minha) numa página

Vivo numa ilha, o que já é dizer muito, sem dizer nada.
Tenho trinta e seis anos e alguns livros publicados.
Às vezes durmo sossegado. Às vezes sofro.
Gostaria de não ser um fardo para aqueles que comigo partilham dias e noites e não sei se sou capaz.
Gostaria que os poemas fossem migalhas dum certo bem-estar, de algum conforto, mesmo que falem do que é mais comum: do medo, da angústia, da dor. Às vezes de outras coisas.
Porque os poemas são, não um programa, mas uma necessidade: emoções que regressam vindas de longe e que constrangem a razão aos duros trabalhos da musculatura; ideias onde se misturam experiências, livros, quadros, filmes, músicas. Aparas da vida, onde as surpresas são um detalhe, os sonhos ficam à porta e as palavras se dispõem de determinada maneira – a que se sabe, a que se pode e com que (vã ambição) se procura encantar, comover, seduzir.
Às vezes, gostaria de ser capaz de escrever tão-só poemas de amor. Mas – perdoem – falta-me a habilidade para o mais difícil. Às vezes gostaria de não precisar de escrever.
Os poemas são públicos. Quem quiser que os julgue.

Por ser verdade e me ter sido pedido

*




JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES (n. 1967)

A poesia da minha geração (90?), apresenta propostas importantes com razão de ser (de existir, como diz Alberto Pimenta), que se por um lado assimilaram e entenderam o que se poderia esboçar como uma certa tradição poética portuguesa recente (anos 70 em diante), por outro a actualizaram, penso eu, conscientemente.
Há talvez uma linha comum, que não de grupo (para já), que prefere escrever sobre o Presente, a contemporaneidade, (os nossos tempos), do que abdicar desse real (mais ou menos concreto), em favor de uma poesia menos diária, menos quotidiana.
O olhar é o gatilho.
Como autor, sinto-me próximo de poemas que encontro, por exemplo, nas obras poéticas de Luís Quintais, de Pedro Mexia, de José Tolentino Mendonça, de Paulo José Miranda ou de Maria do Rosário Pedreira, para citar alguns.
Como leitor, agrada-me bastante o trabalho de Carlos Luís Bessa, de Jorge Gomes Miranda, de José Mário Silva e mais recentemente, de Manuel de Freitas e de José Ricardo Nunes.
Mas a maior surpresa, e prazer, foi a descoberta (tardia) da obra de Daniel Faria.

*




JORGE GOMES MIRANDA (n. 1965) | Poética

Cada artista possui uma experiência central obsessiva, em torno da qual o seu trabalho alcança sentido e forma. Em Rembrandt é o rosto. Tão importante para ele como o sol para Van Gogh, as ondas para Turner ou o céu para Constable. Para outros a singularidade é conquistada no seu contacto com os livros. Não discuto.
Mas tenho para mim não ser apenas com os livros que a aprendizagem do homem que também escreve se faz, mas inescapavelmente sob o domínio dos lugares, em deslumbramentos ou desavenças; e, sobretudo, com pessoas e tudo aquilo que estas transportam: conversas, sorrisos, (des)amparos, perfídias, acenos, protecção. Sucede que, por vezes, essas pessoas também gostam de livros e falam-nos sobre eles. Parece ser o júbilo, uma ressurreição. Outras vezes, apenas sabem o nome das árvores, o percurso das aves, o horário dos comboios. E a alegria pode ser ainda maior, longe que ficamos da gente de olhos apagados e voz inexpressiva que é tantas vezes a da cultura.
Uma das coisas que mais admiro nos Pensamentos para mim próprio de Marco Aurélio, é a abertura, no sentido musical do termo, na qual o filósofo enumera com fortuna as dívidas de amor filial, de amizade e inteireza intelectual que, ao longo da vida, contraiu com este e aquele. Na minha vida existem algumas figuras maiores. Semeados os seus nomes e férteis saberes pelos meus livros, se a colheita é ruim, não devo culpar nem as sementes, nem o solo, nem a inclemência temporal. Mas sim a inabilidade do semeador. Seja como for, esses saberes como, por exemplo, o de olhar nos olhos quem vem, segurar-lhe as mãos se sofre, são essenciais, pois construí a existência a partir deles. E a poesia brota daí, daquelas (pois foram quase sempre mulheres) que sem manifestações de ostentação, e sem quererem ser peremptórias viviam a meu lado.
Não se infira, contudo, que esqueço a importância de quem é ao mesmo tempo médico e nómada, eterno e engendrado, mortal e imortal; fala no lugar dos mortos e é o intérprete dos vivos; um amigo que nos diz não apenas o que queremos ouvir, mas instaura a dúvida, a inquietação; acumula saberes, experiências, sítios e um dia numa hora difícil, abre as portas para uma resposta clarificadora, uma pergunta responsável, o livro. Os livros. Aqueles (sujeitos, vidas incarnadas e não meros objectos) que evidenciam esse carácter e desenham um rosto sulcado pela memória duma deambulação por lugares, paisagens culturais do passado, outras paixões; e são denúncia, solidariedade e exaltação, esses sempre me acompanharam. Os livros. Aqueles que permitiram ascender a uma atenção ao quotidiano mais estrito, refém dum sentimento de compaixão pelos solitários e desprotegidos, sem a tentação da autopiedade, numa certa distância na expressão das coisas que mais angustiam e atormentam.
Não o esqueço. Mas parece-me um mal (ou pelo menos uma ingratidão), este dos artistas citarem quase sempre apenas outros criadores por quem se sentem, parece, profundamente endividados, quando o único contacto que deles têm são as suas obras. No caso dum escritor, as palavras. E as palavras... Se não forem acompanhadas ao longo do tempo de gestos, o que são? Lenha húmida ou nem isso.
Ainda agora falava da diferença entre palavras e gestos. Da distância ética que vai da generosidade à literatura, da infância ao silêncio, da memória à morte. Das pequenas ilhas sem alma aos arquipélagos da memória que conjuram momentos, figuras, traços, trajectos, ideais, desilusões, meditações, fulgurâncias, confissões.
Primeiro viver, depois escrever, podia ser o lema da minha escrita. É preciso começar pela experiência do mundo, antes de a recriar através da escrita. Como um homem que de nós se acerca para pedir umas moedas, sabe Deus para o quê ou uma gaivota que imita o nosso grito, a literatura e a vida têm em comum a fragilidade e a soberania. Vivem de emoções: da emoção de estar vivo, da emoção do amor, da emoção da morte.
Para muitos, e para mim também, a memória é o verdadeiro móbil. Memória que não se percorre como um álbum de fotografias, mas, não obstante a placidez (agreste?) que sussurra os versos, ou por causa dela, parece cada vez mais - agora que os meus passos parecem já só reconhecer o caminho enlameado para o cemitério onde estão (?) as pessoas que mais queria - uma mina antipessoal, na iminência de explodir. Com efeito, aqui, recorda-se um rosto, um mistério, depois parte-se para a escrita, procurando transmitir sempre ao passado uma outra humanidade, primaveril sabedoria, mais inteligência do coração. Ao meu, principalmente, pois não tenho a pretensão de fazer das minhas agruras, dos meus intentos uma experiência de vida comum aos outros. Embora às vezes, um recado dum leitor benévolo me leve a acreditar que é também de si que falo.
Os versos - tributos a quem se mostrou benfazejo - deixam-se, frequentemente, submergir pelo passado, frutos de uma infância que conheceu muitas horas claras. Nessa época áurea para os sentidos, aprendi lentamente a ver e a reflectir sobre o sentido do que via. As coisas têm "alma" apenas quando o amor as toca. Mas, desertadas desse sentimento, não são mais para o olhar do que corpos mortos e opacos. Depois, na adolescência, a sensualidade declara-se, confere ao mundo uma outra ordem e um novo sentido, abre a palavra à vida mais instintiva. Mas momentos há, em que entregues à turvação do desejo, um ar sem protecção firma-se na memória. É a hora de raptos, caprichos, padecimentos, perdição por colegas de carteiras ou raparigas que cruzam as ruas com os seus vestidos esvoaçantes. Quando não as vemos são as trevas em pleno dia, a cidade um universo quando estamos apaixonados. E que somos nós, hoje, senão o reflexo do seu escândalo de riso e juventude.
Mais tarde, no meio do horror, do crime, o sentido da beleza, da diferença, o amor, parece ser uma salvação tão necessária como imprescindível. Só ele parece ser capaz de nos dar outro rosto, o fogo verbal, o prazer linguístico capaz de tornar o real um incêndio de afectos e não um cálculo, uma astúcia.
E ainda hoje, que já vivemos o dédalo dos sentidos e a devastação da paixão, refulge na memória como uma flor: as noites de Verão, as suas horas de deserto, encontros em praias, hotéis, cafés, momentos ao volante dum carro. A uns, esta recordação leva-os por ruas, bibliotecas, cidades, presos num vendaval de consequências insuspeitas. Para outros, já só os lençóis têm a cor do mar.
Sei, não obstante, que a vida tem que dar à arte completa independência, uma liberdade que é necessária, porque o poema para nos falar não pode apenas lembrar-nos os instantes vividos, mas tem ele mesmo de adquirir vida própria, precisamente para ser capaz de reflectir essa vida, que constitui a matéria prima da qual irrompe.
Mas por que é que alguns ficam sempre tão sós? Quem sabe onde se abriga a dor? O que fazer quando a mágoa não é enternecedora? E assistimos às surdas detonações de um eu que quase não reconhecemos como nosso?
O que é que impedirá a vaga da solidão de crescer mesmo (ou sobretudo) no amor? São perguntas que permanecem e às quais procuro responder, também como escritor.
Leitor omnívoro - e acostumado a publicamente dar conta da admiração que muitos autores me merecem - , nos livros diariamente dessedento a saudade de um corpo que partiu, doutro que ainda há minutos me fez sorrir ao telemóvel, doutro ainda que ainda não sei. Mas fico sempre muito surpreendido quando vejo nessa espécie de certidões de nascimento ou testamentos, que são as poéticas, os autores apenas citarem outros autores. Sortilégio, pudor ou um humano sentimento de que ao lado desses nomes vetustos ou consagrados a nossa pequenez não será tão notada? Não sei.
Quanto a mim, cada vez me sinto mais em dívida para com todos aqueles que, como anjos solitários, inactuais, intempestivos, ao longo destes anos me estenderam a mão. Uma poesia prestável, pois.

*




JOSÉ MÁRIO SILVA (n. 1972) | A minha escrita, dois pontos:

1. Se há um facto mais ou menos consensual, em relação aos autores que começaram a publicar poesia no final da década passada (ou no princípio desta, como foi o meu caso), é a consciência de que não formamos uma "geração" ou um "movimento". Não somos modernistas, nem presencistas, nem neo-realistas, nem surrealistas. E também não regressámos, em grupo, ao "real" ou a outra coisa qualquer. Do lugar onde estou, vejo apenas uma galáxia dispersa, ainda a ganhar forma. Talvez quem observe de outros ângulos, com mais distância e perspectiva (isto é, de fora para dentro), já consiga intuir uma configuração, um esquema, uma ordem, uma lógica interna, um caminho que nos une ou separa. Eu não consigo.
É óbvio que há pontos de contacto, temas recorrentes, filiações comuns, afinidades electivas. Há poetas "novíssimos" de que me sinto mais próximo, talvez porque buscam secretamente as mesmas elipses e suspensões, a mesma inclinação da luz. Às vezes tenho a suspeita de que falamos uns com os outros através de enigmas, recados, mensagens subliminares. Mas algum dia, espero bem, haveremos de nos entender.
2. Não há nada mais perigoso do que uma arte poética. Ou mais inútil. As bibliotecas estão cheias de páginas vazias, tentando explicar o inexplicável. E algumas viram-se mesmo contra os seus autores. No limite, uma arte poética só faz sentido se for um poema (isto é, um poema perfeito). Ou então se resumir tudo numa frase iluminada. Como esta, de René Char, que faço minha: «Um poeta deve deixar indícios da sua passagem, nunca provas».

*




JOSÉ MIGUEL SILVA (n. 1969) | Parte poética

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.

*




JOSÉ RICARDO NUNES (n. 1964)

Para mim, a poesia sempre foi uma realidade física, um modo de ser corpo. Gera-se onde os nós não se conseguem desatar, na incandescência provocada pelo vento, por um olhar, por sons. A poesia é, em simultâneo, um infindável processo de experimentação e o seu próprio resultado. Através da poesia construo a minha identidade, embora a cada verso o que sou se vá também destruindo. Trata-se de uma incessante metamorfose: a imagem, sempre a mesma imagem, multiplica-se, transforma-se, e por dentro desse turbilhão, em permanência, está o meu corpo, estou eu, o que quer que seja ou signifique.
O processo poético é um verdadeiro trabalho. Invariavelmente, consiste na depuração do magma que irrompe sem aviso ou explicação. É o mesmo que esticar a corda de um arco. Há que concentrar as cargas expressivas, conter as energias, modelar na linguagem a vertigem do corpo, a fim de chegar à máxima intensidade. Atinge-se o ponto de equilíbrio com a iminência da ruptura. O que é excessivo, acessório, dispensável, vai dando lugar ao essencial, ao que tem força para perdurar, ao que vai mudando a minha vida. O tempo coze os poemas e o seu rosto final é composto por tudo aquilo que não pôde ser preterido. O próprio poema impõe-me a sua forma definitiva. Como se compreende, para continuar a escrever tenho que acreditar que é assim.
Como decerto os demais crentes, tenho a minha 'trindade' poética. Sem contar com Pessoa e Sá-Carneiro, e atendo-me à tradição portuguesa, o meu cânone integrou desde muito cedo as obras de Carlos de Oliveira, Herberto Helder e Luiza Neto Jorge, às quais o tempo juntou as de Cesariny e Vitorino Nemésio. Os alucinatórios textos de Luís Miguel Nava foram, durante anos, uma presença perigosa no meu mundo interior. De uma forma geral, é mais na poesia dos anos 60 e menos na dos Autores revelados a partir da década de 70 que encontro as principais raízes e referências para a minha própria escrita.
Os poemas que junto não formam um conjunto, são unidades dispersas. Começaram a ser escritos ao longo de 2002 e, provavelmente, integrarão um próximo livro. A sua sequência nestas páginas é meramente cronológica.

*




JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (n. 1965)

Gosto de me fixar na definição que dá S. Tomás: «proceder por similitudes várias e representações é próprio da poesia, que ocupa o ínfimo lugar entre todas as doutrinas». A poesia é um procedimento humano, uma maneira que mimetiza outras ainda mais puras, um gesto que repete o arco de outro gesto: coisas tão simples como varrer um pátio ou lançar o balde ao poço ou traçar caminhos num bosque. A poesia não é feita de invenção, mas de repetição. Porque nos banhamos sempre na água do mesmo rio.
Mas digo também que à nostalgia prefiro o desejo. Creio que é esta opção que mais aproxima a minha poesia da experiência religiosa. Para lá do jogo das nossas defesas, qualquer coisa interior reivindica as intensas solidões, os campos alagados, os sítios sem resposta, as formas involuntárias.
O lugar ínfimo da poesia é o lugar que no mundo ocupa o espírito. Seguir o trilho de um poeta é caminhar atrás de um silêncio, de uma combustão paciente e humilde, de uma doença mortal, de um apagamento ou de uma alegria. Julgo que será assim para os poetas com mais e com menos de quarenta anos. Não sei dizer mais nada.

*




LUÍS QUINTAIS (n. 1968)

Durante a década de noventa do século passado, um grupo de pessoas na casa dos 30 anos começou a publicar livros de poemas. Eu fui incluído nesse grupo (o meu primeiro livro foi publicado em 1995).
Por razões que valia a pena ponderar, uma pequena multidão de gente mostrava-se interessada em ler poetas novos. Trezentos leitores, mais coisa menos coisa, fazem já uma pequena multidão quando se trata de poesia.
Alguns mais velhos, marcados pelo reconhecimento que não tiveram ou que, traumaticamente, sempre lhes pareceu insuficiente, dirão que se trata de muito barulho por coisa nenhuma.
Talvez. Mas quando leio os poetas da minha "geração", todos tão diferentes uns dos outros (ainda que se queira fazer tantas vezes subsumir a circunstância a traços estruturais, como sejam a melancolia ou a afirmação desencantada do quotidiano), não me parece que os livros que escreveram e publicaram tenham exigido tanta atenção (apesar da vontade de comunicar, da vontade de partilhar, da vontade, talvez menos nobre, mas, porém, humanamente válida, de se querer fazer ouvir).
A verdade poética que lhes encontro, e que se lhes fará eventualmente inscrever, a haver uma, é somente esta: procura, incansável procura.
Nem sempre os resultados (aquilo que o tempo com os seus poderosos agentes se encarrega de definir como canónico) explicitam a natureza dessa procura. Essa procura é do domínio do invisível, e só uma sensibilidade extrema à sua história quase secreta a poderá definir através dos textos.
Sei que há gente acomodada (cedo monumentalizada) na minha "geração". Sei que as obsessões pessoais são, por vezes, injustamente, tomadas como o índice mais evidente desse comodismo, dessa vontade de poder adequada à monumentalização das coisas e das pessoas. Também sei que há alguns que sabem o que é a poesia, e que, obviamente, sabem o que ela não é, afirmando-o entre a bravata e a soberba, num auto-comprazimento e numa enfática entronização do que lhes é próprio que me deixam desmunido de resposta ou sequer de intenção em ter resposta.
Mas se a nossa generosidade não for restritiva e o nosso pensamento não se deixar coreografar por preceitos que poderão ser anatomizados à luz de uma qualquer sociologia histórica da cultura (e hoje há tanta coisa no "campo" literário que pode ser compreendida por meio de um exercício desta natureza), ter-se-á de reconhecer os trajectos que essa procura faz através dos textos. Trajectos tão difíceis, porém, de articular numa analítica da procura.
É fácil perceber que a conversa acerca das "gerações" é uma conversa destinada a contornar os lugares de procura. Os lugares de procura definem-se pela liberdade de quem procura. Procura-se a insujeição ao tempo, procura-se, com determinação, o que não tem motivo de lembrança ou celebração. Procura-se o lugar onde se pode procurar melhor.
Vejo isso em tantos poetas da minha "geração". O que encontro em todos é o fulgor da procura, numa espécie de movimento que corta transversalmente "gerações", e que une os de hoje aos de ontem. Essa procura é inegociável. Eu não aprendo com ela, eu constato-a, e aprendo com essa constatação. E sou capaz de o constatar naqueles que, fazendo parte da minha "geração", me poderiam ser alheios, e afinal não o são de todo. E isto porque entre mim e eles há o laço do evento e o milagre da circunstância a unir-nos, e não porque veios profundos dos quais se possam retirar as mais profundas das lições percorram subterraneamente o nosso encontro. Quem? Exemplos. Penso em Pedro Mexia ou em João Luís Barreto Guimarães. Penso em Rui Pires Cabral ou em Francisco Duarte Mangas. Penso ainda em José Alberto Oliveira. (É ele um poeta dos noventa? Alguém ainda se lembra desse belíssimo Por Alguns Dias? Seria bom lembrá-lo.)
O resto são palavras, e elas existem como discurso memorável, como algo pelo qual o sistema nervoso é tocado pela marca de água da linguagem, apenas (o que, num outro plano, não é pouca coisa).

*




MANUEL DE FREITAS (n. 1972) | Glass enclosure

Nunca me preocupou, a não ser em verso e com alguma ironia, a questão de saber qual seria a minha poética. O mesmo já não poderia dizer de outras poéticas, às quais, por dever ou por afecto, prestei maior atenção. Interessam-me, sobretudo, os meus limites, até porque não acredito na liberdade (muito menos naquela que se proclama "livre"). Eliot, em semelhante matéria, revela-se uma óptima companhia.
Não tenho, pois, cartilha maternal - ou paternal, caso desse ouvidos ao inefável doutor Bloom. Saio à rua de caneta, mas sem qualquer intenção de a utilizar. Depois, escrevo ou não escrevo sobre o que vejo, o que sinto, o que sofro. Tão simples quanto isto - e tão difícil. A banalidade comove-me de uma forma, digamos, glacial. Há apenas cadáveres; acenando, bebendo, dormindo ou não dormindo ao nosso lado. E música, fatalmente. Os meus "poetas" chamam-se Billie Holiday, Roberto Goyeneche, Tom Waits. Mas podem também chamar-se Marin Marais, Wilhelm Friedemann Bach, Johannes Brahms.
Outra coisa: a poesia não é, para mim, o autêntico real absoluto. Será, quando muito, o ameaçado real possível. Quanto mais doloroso, mais verdadeiro.
*
Estes poemas: até aqui, só muito raramente a infância compareceu na minha escrita. Por terror, sem dúvida, embora não ache a minha infância mais infeliz do que qualquer outra. Seja como for, não há regresso. As minhas madalenas sabem a podre, a anis escarchado servido num copo sujo. A infância, quer-me parecer, é o mal, uma ferida inútil que se dilatará pelos anos fora, com ou sem palavras. "In my beginning is my end".
Os versos percebem-se na pele.

*




PAULO JOSÉ MIRANDA (n. 1965) | Sob a Água dos Céus

Para os meus pais

A noite e eu agarrado às árvores,
uma mão nos galhos outra no gin
e a lua tão lá no alto
a lembrar a mãe no início da vida.
O escuro arrefece,
é uma serpente ao fim da tarde,
arrefece e é um osso partido
que ninguém calou a tempo,
arrefece porque é noite escura
e a água sobe pelas pernas da relva acima.
O que vai desaparecer primeiro é o gin,
depois o escuro ainda antes da lua
e só por fim a água.
As rãs coaxam essa certeza,
essa alegria que rasga a noite
e faz cair uma pinha.
Pinha mais escura que o escuro.
O líquido entra na boca,
dobra as pernas e sai pelos olhos,
em gotas, pequenas gotas
que assombram o rosto
e é uma língua pegajosa
ou se a morte estivesse já ali.

*




PEDRO MEXIA (n. 1972) | Mono

Na falta de livro
para as crianças e o povo na sessão
a editora deu
um mono,
admirável vocábulo que as tias diziam
de deselegantes móveis
herdados.

E com o mono, sobre
o mono, se apresentou, dissertou,
os poemas lidos
de folhas A4.
Com uma sobrecapa
o mono
parecia o definitivo,

ao longe ninguém notava
a diferença, e quase me permiti
por uma vez
orgulho
naquelas esplêndidas páginas
minhas.

*




RUI COIAS (1966)

As histórias e os panoramas da mais recente poesia portuguesa, entendendo-se, esta, para o efeito, a que tem vindo a ser veiculada desde a década de 90 até à data, confundem-se com as de sempre. Os motivos, o sentido fundamental e a mensagem são efectivamente os da poesia de todos os tempos e os de todos os autores. Na verdade, e como já foi dito e repetido, as histórias encontram-se todas escritas; o que fazemos é apenas reescrevê-las.
No entanto, nada invalida que possamos procurar na nova poesia portuguesa, assim entendida, uma identidade, um tecido sob o qual os autores se aproximarão ou manterão distâncias mais ou menos mensuráveis ou perceptíveis. Ou seja, procurar, através da forma e sentido com que os novos autores reescrevem as histórias, fazer uma tentativa de aproximação aos tempos, isto é, e de outro modo, procurar auscultar a geração.
Assim, nesta perspectiva, e na linha do acima referido, será, eventualmente, o que se escreve e publica agora, relativamente à dita nova poesia portuguesa, marcado, essencialmente, sob o signo de uma época em que se encontra, acima de tudo, presente uma ideia ou um (de)sentido imanente ao fim de um tempo, através dos quais, então, assentarão os discursos, reflectidos, na maioria, numa linha de intelectualidade e sobriedade, mais ou menos consensuais e diversificados.
Ora, nada repugna, talvez, ir buscar na poesia portuguesa de 70 e 80 o pendor e a textualidade da poesia portuguesa de agora. Ou seja, uma poética macerada por uma deriva subjectiva, emocional, discursiva e imaginativa, seja ela enraizada e potenciada numa dimensão sentimental ou ligada à experiência comum e existencial. Mas dir-se-á que toda esta tendência discursiva que se verifica presentemente se encontra, ainda, tecida numa espécie de tensão angustiada, como se a sua linguagem, tome ela uma direcção ou outra, seja ela menos ou mais intelectualizada, se desenvolvesse sob uma unidade afectiva e emotiva.
Na verdade, o envolvimento e a textualização da linguagem dos autores mais recentes configuram-se no prolongamento das dimensões imaginativas e emocionais, da direcção descritiva e expressiva e da transmutação do real através, designadamente, da procura do seu sentido afectivo e diluído.
Onde descobriremos ou representaremos, então, se acaso for, e acaso se justificar, o ponto da aproximação e da identidade?
Diremos que o será, talvez, precisamente aqui. Na alteração que alguma poesia e alguns autores efectivaram nas últimas décadas do muito recentemente passado século XX e no desenvolvimento que essa poesia - essa poética - tem vindo a obter, nos dias de hoje, através dos seus vários registos, levando-nos a contextualizar, nos mesmos, elementos simbólicos, românticos e imaginativos.
Mas os caminhos não estão perfeitamente delineados. Se calhar, também não o será necessário. De todo o modo, será a poesia portuguesa de agora, a deste momento, que consentirá ou não, cedo ou tarde, que se faça, com maior ou menor precisão, o ponto do consenso do seu desenvolvimento.
Há equilíbrios, há tensões imanentes a um tempo próprio e nota-se, como emergente do acima descrito, um certo e vincado, embora contido, desenvolvimento da discursividade, da afirmação descritiva, da valorização da melancolia e da capacidade do indizível e da vivência emocional. E ousaremos dizer: uma espécie de perseguição estremecida da memória, numa época em que o tempo se muda, se retorna e se desvia para o sentido fundamental da vida e dos seus mistérios ancestrais.
Contudo, as histórias são sempre as mesmas, apenas as reescrevemos. E ainda que possamos falar de diferentes comprometimentos, se formos bem fundo, e como sempre, nada se nos transparecerá mais do que a procura incessante, com algum cansaço de nada se encontrar, do "movimento sinuoso do mundo".

*



RUI PIRES CABRAL (n. 1967)

Sempre esperei que a poesia pudesse falar por mim, e nunca soube falar sobre ela sem sentir que estava a traí-la de algum modo. É uma incapacidade absolutamente assumida; acredito que tudo o que pudesse dizer aqui sobre os meus versos seria, quando muito, supérfluo. Quanto à poesia dos meus companheiros de geração, limitar-me-ei a referir aqueles de que mais gosto: José Miguel Silva, Manuel de Freitas, Carlos Luís Bessa, Jorge Gomes Miranda. É nos versos deles que encontro mais vezes o que sempre procuro na poesia: uma espécie de beleza arrepiante, desarmada, de efeito emocional e epidérmico semelhante ao da música. Não tenho outro critério para avaliar a poesia: aquela que me convém tem de ficar perto do coração e dos sentidos.




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RELÂMPAGO n.º 12  4|2003
NOVA POESIA PORTUGUESA
ENSAIO
Fernando Pinto do Amaral – A porta escura da poesia
Rosa Maria Martelo – Reencontrar o leitor
Vítor Moura – O giroscópio

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