segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ei-los que partem


O visitante sai, saiu, virá um dia

                 Joaquim Manuel Magalhães, Vestígios.




SENHORA DOS PASSANTES

Vou partir, direi, disse.
Outrora saí, fá-lo-ei de novo.

Senhora da partida
senhora da chegada
fazei tocar o brilho da calçada
e não o inútil jogo da distância.

José Maria de Aguiar Carreiro, Chuva de Época
Ponta Delgada, Edição de autor, 2005.


De facto, nada aprendi sem que tenha partido, nem ensinei ninguém sem convidá-lo a deixar o ninho. Partir exige um dilaceramento que arranca uma parte do corpo à parte que permanece aderente à margem do nascimento, à vizinhança do parentesco, à casa e à aldeia dos usuários, à cultura da língua, à rigidez dos hábitos. Quem não se mexe, nada aprende. Sim, parte, divide-te em partes. Teus semelhantes talvez te condenem como um irmão desgarrado. Eras único e referenciado. Tornar-te-ás vários, às vezes incoerente com o universo que, no início, explodiu, diz-se, com enorme estrondo. Parte, e tudo então começa, pelo menos a tua explosão em mundos à parte. Tudo começa por este nada.
Michel Serres, Filosofia Mestiça. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993, pp. 14-15





Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos

Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados

Virão um dia 
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não


Manuel Freire





Domingos Rebelo, Os Emigrantes, 1926.
Óleo sobre tela, A 235 x L 295 cm

Apesar de "Os Emigrantes", de 1926, se integrar no ideário do Regionalismo, apresentado pelo Padre Ernesto Ferreira, no seu opúsculo intitulado Regresso à Terra, através do qual se valorizava a importância dos usos, costumes e tradições populares na definição de culturas distintas, esta pintura tem a particularidade de ser a representação de um fenómeno social, apresentando-se como aglutinadora de um conceito de "Açorianidade", analisado na época pelo investigador Luís Ribeiro. Para reforçar a temática central, o artista regista nesta obra o trajo popular e os elementos identificativos do local de partida, nomeadamente o antigo cais da Alfândega, antes da construção da Avenida Marginal de Ponta Delgada, juntando nesta composição elementos culturais de raízes profundas, como a viola da terra e o registo do Senhor Santo Cristo.
A figura de chapéu, que se encontra do lado esquerdo, denota a consciência social do artista.
MTO, http://museucarlosmachado.azores.gov.pt/osemigrantes


*


LINHAS PARA UM RETRATO DE POETA QUANDO JOVEM

Este poema é das saudades e do sol-posto.
E da procissão do Senhor, de colchas nas varandas.
E de quando eu tinha as mãos postas
que a minha mãe veio e me pôs umas asas brancas.
E das horas gastas esperando o teu regresso.
E das idas clandestinas e do caminho andado.
E da janela, aberta para os muros, que enchia
de sombras as recordações do meu quarto.
Este poema é dos vidros partidos
pelas pedras que atirei aos meus amigos
nos combates havidos nas travessas.
E da chuva que caiu nas colchas das varandas.
E das mãos que vieram tirar-me as asas brancas.
E dos olhos de minha mãe, quando eu parti para longes terras...
Eduíno de Jesus


*


FUTURO

Folha a folha revisito um álbum de retratos,

retratos que lembram o que de antemão sabia
– Dizem que mudei. Nem as paisagens
se recuperarão e os avós estão mortos;
as árvores não existem mais,
aquelas por detrás dos risos

Folha a folha imagens falam
o que não quero que falem. Nem sempre
escutamos o que é importante e essencial
– O futuro, esse retrato em falta no álbum.
Ou, o poema de amanhã,
que parecendo futuro é passado.

Ivo Machado, Quilómetro zero. V. N. Gaia, Exodus, 2008.



Tomaz Vieira, Os Regressantes, 1987

A pintura Os Regressantes, efetuada em 1987 por Tomaz Vieira, é uma «Homenagem aos Emigrantes de Domingos Rebelo», como o próprio artista registou. Cerca de sessenta anos depois da pintura original, Tomaz Vieira parte da composição de Os Emigrantes, de Domingos Rebelo (Versão de 1929, efetuada para o «Bureau de Turismo» de Ponta Delgada), e regista um fenómeno de aculturação. No catálogo da exposição A window on the Azores, refere-se que «em Os Regressantes as figuras apresentam uma atualização onde há símbolos da integração dos açorianos nos países para onde emigram. Esses símbolos estão na indumentária e na variedade de objetos identificáveis na composição. O facto de o «Registo do Senhor Santo Cristo dos Milagres», de Os Emigrantes, ser substituído, em Os Regressantes, pela imagem da «Canadian National Tower», de Toronto, terá a ver com a evocação do relacionamento da sociedade açoriana com as imagens do progresso, em terras do Mundo Novo. As figuras de Os Regressantes mantêm a postura de Os Emigrantes, o que acentua o tratar-se da mesma gente. O autor da réplica compromete-se a dar uma resposta positiva ao clima de esperança que Domingos Rebelo imprime nas suas telas de concepção regionalista, nomeadamente ao drama contido em Os Emigrantes» (Exposição de Artistas Açorianos Contemporâneos, in A window on the Azares, Bermuda National Gallery, 1999, p. 16-17.)

MCTO, Museu Carlos Machado



*


ROSE ERA O NOME DE ROSA

A mãe disse não mais
não mais eu não mais tu filha
não mais nomes na pedra do cais
não mais o cortinado da ilha

não mais Rosa sejas Rose agora
não mais névoas roxos ais
não mais a sorte caipora
não mais a ilha não mais

Porém Rose o não mais não quis
e quis ver a ilha do não mais
o cortinado roxo infeliz
os nomes na pedra dos cais

Pegou em si e foi-se embora.
Não mais Rose. 

Rosa outra vez agora.
Vasco Pereira da Costa, My Californian Friends.
Gávea Brown, Palimage Editores, 1999.









Poderá também gostar de:

Simbologia de açorianidade na pintura de Domingos Rebelo e de Borba Vieira”, Gabriela Castro. In: Philosophica nº 36, Departamento de Filosofia da FLUL, 2010.

"Emigração, cultura e modo de ser açoriano", António Manuel B. Machado Pires, 1981.


    

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

SÉCULO DE OURO – ANTOLOGIA CRÍTICA DA POESIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX

Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX


DESAPRENDER (COM) A HISTÓRIA
Por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra

[…] O livro intitula-se Século de Ouro, mas não apenas, já que a própria natureza do título (um topos retórico no domínio da periodização literária) pede o esclarecimento disponibilizado pelo subtítulo: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX. Comecemos por aqui: que antologia é esta que se define como «crítica»?
Para começar, trata-se de uma antologia da poesia portuguesa do século XX, a primeira produzida já fora dos limites temporais do século e seguramente a mais ambiciosa que sobre a poesia portuguesa do século passado foi até ao momento elaborada. Contudo, esta não é mais uma antologia, já que a própria forma da antologia acaba por ser «criticada» pelo programa e funcionamento da obra. De que modos? É o que passaremos a ver.
Numa descrição mínima, o livro consiste num conjunto de 73 poemas do século XX acompanhados de igual número de leituras desses poemas. O livro inclui pois, no seu resultado final, tanto os 73 poemas selecionados como os 73 ensaios escritos sobre eles4. O número 73 não recobre aqui propósitos pitagóricos. No início, aliás, o número não era esse mas 87, pois tal foi o número a que os organizadores chegaram quando elaboraram uma lista de pessoas convidadas a participar nesta obra. Significa isto que entre renúncias iniciais, desistências a meio de percurso ou (admitimo-lo) eventuais e banais problemas de comunicação, se chegou ao aleatório número de 73 colaboradores.
Neste ponto, convirá esclarecer que para participarem no projecto, os organizadores seleccionaram um vasto painel de personalidades, de acordo com os seguintes critérios: 1) pessoas com obra feita na crítica literária e, mais especificamente, na crítica da poesia portuguesa do período em causa; 2) críticos jovens, com obras emergentes, cujas vozes é curial escutar num momento de transição e, por isso também, de balanço; 3) críticos portugueses a residir e trabalhar em Portugal ou no estrangeiro, bem como lusitanistas espalhados pelo mundo; 4) poetas a quem se propôs que, momentaneamente, «passassem para o outro lado», praticando, ainda que por uma vez sem exemplo} a crítica dos textos que mais os marcaram.
Como em tudo o que tenha a ver com escolhas, os organizadores não têm dúvidas de que a sua lista de nomes seleccionados é eventualmente discutível; contudo, estão igualmente certos de que eventuais reservas ou críticas à lista de nomes não poderão ser mais do que pontuais, já que foi sua preocupação elaborar uma lista de natureza consensual. […]
Seja como for, o referido dispositivo consistiu em propor aos colaboradores que, numa primeira fase, indicassem 3 títulos do corpus da poesia portuguesa do século XX. Recebidas essas escolhas, os organizadores analisaram-nas cuidadosamente, tendo em vista alguns modestos princípios organizativos: 1) o cunho desejavelmente representativo da antologia: assim, entre concentrar as escolhas em 7 ou 8 poetas (o que, não sendo inteiramente possível dada a variedade das escolhas dos colaboradores, poderia vir a ser o modelo reconhecível na obra, já que, para dar apenas um exemplo, Fernando Pessoa, só ele, concentrou um número significativo de escolhas) e alargá-las a um panorama representativo das várias tendências do século, optou-se por esta última solução; 2) a necessidade de traduzir, de algum modo, a concentração de escolhas em certos autores, atribuindo-lhes mais do que um poema, dentro de um princípio moderadamente estatístico e razoavelmente homogéneo na sua aplicação a todos os casos; 3) a necessidade de evitar repetições de poemas, o que conduziu várias vezes os organizadores a escolher um dos 3 poemas indicados por cada colaborador, sem respeitar a hierarquia proposta por estes, possibilidade aliás prevista desde o início e comunicada aos colaboradores na carta em que o projecto lhes foi apresentado.
Atribuídos então os poemas aos colaboradores, num por vezes delicado deslindamento de cruzamentos e sobreposições, chegou-se à crucial segunda fase na qual os colaboradores deveriam elaborar um ensaio sobre o poema por eles escolhido. Esse comentário deveria ser de teor não-historicista, já que Século de Ouro foi desde o início pensado como uma obra que prescindiria das constrições nem sempre produtivas de uma perspectiva histórico-literária. […]
Muito diversamente, com Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX pretendeu-se produzir um livro em que a poesia acontece no cruzamento do texto e da sua exegese. A indiscutível riqueza e pluralidade das poéticas do século oficialmente encerrado é concomitante a um também multifacetado modo de olhar - de constituir, de usar - o objecto cultural que é um poema. Daí as regras do jogo propostas: predomínio da close reading, redução drástica do aparato erudito, leitura breve e (desejavelmente) intensa. Por outras palavras, apropriação: o próprio texto, o texto próprio, eu (?) próprio. […]
A funcionalidade e o uso dos diferentes índices em Século de Ouro não são, ao contrário dos index paratextuais de outros livros, a garantia de que o leitor leu o volume todo. Ocupando o início e o fim do livro – respectivamente o «Índice Geral», por um lado, e o «Índice de poetas», o «Índice de ensaístas», o «Índice de poemas» por outro ‑ não suplementam o seu início ou fim. O «Índice Geral», sendo aquele que decalca a concatenação aleatória, é antes o reforço de um começo sempre adiado ou já irremediavelmente consumado. Quanto aos índices colocados no fim material do livro, não mimetizando a série antológica, funcionam como diferentes módulos de outras potenciais entradas aleatórias no livro. […]

Ler mais: “Introdução”, “Biobibliografias” e “Índices”, Século de ouro – antologia crítica da poesia portuguesa do século XX, organização de Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra. Braga; Coimbra; Lisboa: Angelus Novus & Cotovia, 2002.
__________________
(4) Estes 73 ensaios correspondem a 47 poetas antologiados (49, se desdobrarmos Pessoa em Pessoa himself, Álvaro de Campos e Ricardo Reis).


DEDUÇÃO CRONOLÓGICA DOS POEMAS:
POETAS
CRÍTICOS
1900: [Pára-me de repente o Pensamento…]
Ângelo de Lima
Yara Frateschi Vieira
1906: Elegia do Amor
Teixeira de Pascoaes
António Cândido Franco
1913: VI. Dispersão
Mário de Sá-Carneiro
Antonio Sáez Delgado
1915: Manucure
Mário de Sá-Carneiro
Ana Luísa Amaral
1920: Ao longe os barcos de flores
Camilo Pessanha
José Carlos Seabra Pereira
1920: Fonógrafo
Camilo Pessanha
Abel Barros Baptista
1920: [Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas]
Camilo Pessanha
Paulo Franchetti
1922: Soneto já antigo
Álvaro de Campos
Miguel Tamen
1924: [A flor que és, não a que dás, eu quero]
Ricardo Reis
António M. Feijó
1924: [Ela canta, pobre ceifeira]
Fernando Pessoa
Arnaldo Saraiva
1924: Xácara do Infinito
Mário Saa
Nuno Júdice
1925: Libertação
José Régio
Eunice Ribeiro
1932: Autopsicografia
Fernando Pessoa
Victor Mendes
1933: Tabacaria
Alvaro de Campos
Luís Quintaú
1934: O dos castelos
Fernando Pessoa
António Apolinário Lourenço
1935: Apelo à poesia
Carlos Queirós
F. J. Vieira Pimentel
1936: Outro dia
Irene Lisboa
Paula Morão
1938: O canário de oiro
Vitorino Nemésio
Rosa Maria Goulart
1944: [Esta velha angústia]
Álvaro de Campos
Ettore Finazzi-Agrà
1944: [Grandes são os desertos e tudo é deserto]
Álvaro de Campos
Silvina Rodrigues Lopes
1944: Magnificat
Álvaro de Campos
Robert Bréchon
1951: Requiem (ao menino morto, eu próprio)
Cristovam Pavia
Fernando J. B. Martinho
1952: Rêve Oublié
António Maria Lisboa
Carlos Veloso
1954: Soneto de Eurydice
Sophia de Mello Breyner Andresen
Clara Rocha
1955: [Ao desconcerto humanamente aberto]
Jorge de Sena
Maria Fernanda Alvito P. de S. Oliveira
1957: You Are Welcome to Elsinore
Mário Cesariny
Perfecto E. Cuadrado Fernández
1958: As palavras
Eugénio de Andrade
Carlos Reis
1958: Um adeus português
Alexandre O’Neill
Luciana Stegagno Picchio
1959: Quase 3 discursos quase veementes
António José Forte
Ruy Duarte de Carvalho
1960: Fóssil
Carlos de Oliveira
Gustavo Rubim
1960: Regresso de parte alguma
Reinaldo Ferreira
Eugénio Lisboa
1961: Fonte
Herberto Helder
António Ladeira
1962: Pátria
Sophia de Mello Breyner Andresen
Roberto Vecchi
1962: VIII. A mão no arado
Ruy Belo
Luís Mourão
1963: A morte, o espaço, a eternidade
Jorge de Sena
Luís Adriano Carlos
1963: Poema de amor
Edmundo de Bettencourt
Maria Alzira Seixo
1964: Todas pálidas, as redes metidas na voz.
Herberto Helder
Pedro Schachtt Pereira
1964: [A menstruação quando na cidade passava]
Herberto Helder
Pedro Eiras
1964: Um quadro de Brauner
Luiza Neto Jorge
Ana Sofia Ganho
1965: [O navio de espelhos]
Mário Cesariny
José Ricardo Nunes
1966: Ácidos e óxidos
Ruy Belo
Manuel António Pina
1966: Morte ao meio-dia
Ruy Belo
Vítor Manuel de Aguiar e Silva
1966: Poema de uma viagem ao Porto e de uma partida para a Bélgica
Vitorino Nemésio
Rita Patrício
1967: A casa do mundo
Luiza Neto Jorge
Maria Andresen de Sousa Tavares
1967: Primeiro septeto
Ruy Cinatti
Joana Matos Frias
1968: Árvore
Carlos de Oliveira
Rosa Maria Martelo
1969: Em Creta, com o Minotauro
Jorge de Sena
K. David Jackson
1969: O preto no branco
Rui Knopfli
Eduardo Pitta
1969: Os ovos d' oiro
Armando Silva Carvalho
Pedro Serra
1970: Canção cuneiforme (antes e depois de lhe dar o bicho)
Alberto Pimenta
Marta Irene Ramalho
1973: Sextina III ou Canção do próprio canto
David Mourão-Ferreira
Marcia Arruda Franco
1976: Em louvor do vento
Ruy Belo
Eduardo Lourenço
1976: Leitura
Carlos de Oliveira
Manuel Gusmão
1977: A imagem que conduz ao corpo
António Ramos Rosa
Rui Magalhães
1977: Sobre esta praia I
Jorge de Sena
Jorge Fazenda Lourenço
1978: [De luas ou de trigos busco o nome]
Pedro Tamen
Patrick Quillier
1978: [Quando eu vir vaguear por dentro da casa]
Fiama Hasse Pais Brandão
Gastão Cruz
1978: Tat Tam Asi
Manuel António Pina
Américo António Lindeza Diogo
1982: Ignição
António Osório
Pedro Mexia
1987: Canção do ano 86
Fernando Assis Pacheco
Fernando Pinto do Amaral
1989: Matadouro
Luís Miguel Nava
Carlos Mendes de Sousa
1993: Aconteceu-me
Almada Negreiros
Fernando Cabral Martins
1993: Poema 16 [de Dos Jogos de Inverno]
António Franco Alexandre
João Barrento
1997: Trabalho de casa
Nuno Júdice
Margarida Braga Neves
1998: O excesso mais perfeito
Ana Luísa Amaral
Fátima Freitas Morna
1999: a viagem de verão
Vasco Graça Moura
Fernando Matos Oliveira
1999: Dois ciprestes
Adília Lopes
Fernando Guerreiro
1999: Mulher com filho ao colo, em Dezembro
A. M. Pires Cabral
M. Corbo Alvarez
2000: [Escrevo do lado mais invisível das imagens]
Daniel Faria
Alcir Pécora
2000: Árvores
Gastão Cruz
Osvaldo Manuel Silvestre
2000: As cinzas de Lenine
Fernando Guerreiro
Peter Sanmartinho
2000: Sumário Lírico
Fiama Hasse Pais Brandão
Jorge Fernandes da Silveira
2001: «A Perfeição das Coisas» ‑
Manuel Gusmão
Helena Buescu




editora angelus novus
Entrevista com Osvaldo M. Silvestre e Pedro Serra sobre Século de Ouro
P. A «vossa» antologia parte duma tese, acolhida no próprio título, segundo a qual o século XX português foi um período áureo. Essa tese, como lembram na «Introdução», vem sendo defendida por pessoas como Eugénio de Andrade, Óscar Lopes ou Vítor M. de Aguiar e Silva. Curiosamente, o livro não discute esta tese, no local onde seria curial fazê-lo: a «Introdução». Estão assim tão certos dela que dispensem debatê-la? A não ser essa a razão do vosso silêncio, qual é ela?
R. O que Século de Ouro propõe é justamente que discutir é produtivo, não pela sua tematização desde quaisquer mansardas — por exemplo, lugares como «introduções» —, mas sim na prática da leitura. Todo e cada um dos poemas e ensaios incluídos é bastante discussão do «século de ouro». Dito de outro modo, o sintagma — muito instável e contingente — constituído pelos pares poema/ensaio é a versão «retórica» dessa tese. O que o volume propõe é fazer dessa discussão uma discussão a haver. O importante é ter presente que a massa textual que foi deixando rasto material durante esse intervalo de tempo a que podemos chamar «século XX», tem vindo a galopar para um amorfo indiferenciado, e enquanto tal sem valor. O verdadeiro «século de ouro» é o futuro contido nessa massa (admitimos que ela o contenha, e isso nos parece bastante), cujo resgate é o imperativo que se nos coloca.
Século de Ouro existe como solicitação de um futuro de diferenciações e discriminações, ou de uma escatologia arqueológica: uma escatologia que assumisse todas as consequências interpretativas de um tempo (que são vários tempos: o da poesia, o da crítica, o da leitura, mas sobretudo o da desleitura) inevitavelmente, mas também programadamente, fora dos eixos. Por outras palavras, este é um livro habitado por muitos livros e debates, na medida em que propõe e vive de uma discrepância entre o «século XX» (os vários séculos XX) e o século de ouro que vai lendo, como um telecomando em zapping, aquele menu que nem sempre, aliás, se acomoda ao telecomando.
P. Um outro aspecto inesperado é a ausência, que supomos deliberada, de um «tratamento estatístico» dos dados obtidos, no que toca quer às presenças (o «Top of the Pops») quer às ausências. Por exemplo, será pertinente não dedicar sequer uma palavra a ausências tão flagrantes como as de Miguel Torga (o primeiro Prémio Camões, relembre-se), Saúl Dias, Raul de Carvalho, Nuno Guimarães, Joaquim Manuel Magalhães (o poeta) e João Miguel Fernandes Jorge, etc.? Ou para as ausências de críticos como Eduardo Prado Coelho e Joaquim Manuel Magalhães? Ou para a derrota histórica do neo-realismo, não redimida pela presença firme de Carlos de Oliveira? Ou para a correlata vitória histórica do surrealismo?
R. As regras do jogo não consideravam que houvesse, a priori, lugares cativos. É claro que se pedia «ouro» do «século» que, não sendo absolutamente abundante — de outro modo deixaria o ouro de ter valor —, determinava a inevitável presença de alguns indiscutíveis. Seja como for, o modelo antológico proposto retira ansiedade às ausências, já que desresponsabiliza escolhas e escolhedores (estes fizeram o que puderam com o pouco alcance do seu naipe de decisões) e mais ainda organizadores, que naqueles delegaram inteiramente as escolhas. De resto, elas são inevitavelmente significativas. Há notoriamente poetas pouco lidos e que urge ler mais, por exemplo. Por outro lado, pediu-se aos colaboradores que escolhessem poemas e não poetas. Isto significa que a questão a colocar é também a de saber se o poeta X ou Y se acha bem representado. Nos casos em que não estejam — se é que os há —, talvez se possa dizer que era melhor não terem sido representados de todo. Século de Ouro propõe-se «antologia» pouco apocalíptica (daí a ideia antes referida de uma «escatologia arqueológica»). O aleatório que variamente o «estrutura» não permite aliás dramatizar aquilo que não é senão um jogar de dados.
Isto significa que ausências/presenças devem ser tomadas por aquilo que são: resultado da pura contingência (imperativo daquilo que «serve», que sempre pressupõe algo de «servil»). Quanto aos críticos mencionados, a sua não-presença foi determinada pelos próprios críticos, logo não se trata de ausências. Vitórias e derrotas «históricas» não chega também a haver, pois um tal saldo só seria contabilizável se, justamente, nos situássemos no fim dos tempos de um juízo final. Como é inevitável, a este outros se sucederão, pelo que é cedo (é sempre cedo) para decidir de vencedores ou perdedores. Este não é um jogo de 90 minutos, nem mesmo de um século. Mais do que isso, é um jogo em que o objectivo não é ganhar — ou então é apenas «ganhar tempo» para novos jogos.
P. Esta «Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX» é um trabalho que assume declaradamente a ruína da historiografia literária moderna, para se propor como a antologia possível numa era de contingência pós-histórica. Sendo assim, que papel crítico poderá ser o da crítica que lhe dá título? 
R. A «crítica» que Século de Ouro propõe não visa imediatamente a representatividade. Assim, pelo modo como se configura, ela parte do pouco representativas que a poesia e a crítica de poesia são nos dias de hoje. O que cada letra impressa no livro vai solicitando é que se interrogue a sua necessidade: sem tal iminência de crise não teria sentido. Isto pode querer significar — sujeitemos esta possibilidade a uma futura discussão — que a «crítica» implicada pelo subtítulo se levanta não sobre um modelo «narrativo» da crítica (o da Modernidade), mas sim sobre um modelo «poético». Ou então sob o signo da «constelação»: uma série não coincidente, e de coalescência problemática, de práticas (críticas) que nem sempre são rumos, ou são-no segundo uma (pro)pulsão caótica, e pelo menos babélica. Contudo, esta constelação que «critica» — decerto involuntariamente — a narrativa heróica da crítica moderna, assume-se ainda como moderna o bastante, já que parte de uma posição (aliás imposta previamente) de emancipação dos materiais em relação a qualquer determinação historicista ou humanista: os críticos que na obra colaboram não questionam (a não ser pontualmente) a orientação para a close reading, e praticam-na com a naturalidade de quem reconhece na linguagem um universo, e um problema, suficientemente mobilizador.
O ponto crítico da obra reside talvez na constelação de exercícios de leitura que, à primeira vista esvaziados de historicidade pela imposição da close reading, se volvem, na sua disposição desprogramada, uma poderosa crítica das ilusões do historicismo, na medida em que somam à História da Poesia Portuguesa do século XX um conjunto, talvez finito mas alargado, de novas histórias por contar. Esta soma, contudo, desacrescenta, já que vai justapondo possibilidades de conflito. Uma espécie de versão crítica de um livro do desassossego, se nos é permitida a pretensão.
P. O clima que promoveu a «suspensão deliberada de categorias históricas» referida pelos editores, tem vindo a produzir objectos novos no território antes ocupado pela História da Literatura. São movimentações diversamente visíveis, por exemplo, na lógica fragmentada De la littérature française, de Denis Hollier ou no citado H. U. Gumbrecht de 1926. Poderá (ou desejará) a presente «Antologia» patrocinar ente nós uma tal alteração epistémica no âmbito dos estudos literários?
R. O logos fragmentário do Século de Ouro — sobretudo o assumi-lo em consciência — é produtivo, gera um objecto que, pensamos, de modo bastante razoável põe a circular uma imagem do século XX. Não uma suma ou uma solução do século mas, digamos, um seu fantasma (um seu inconsciente). A questão dessa produtividade é a de que não aspirar à representação de si é uma opção eficaz de representação (talvez pós-moderna). Neste sentido, tal coisa como um «patrocínio» de si no panorama dos estudos literários, sendo uma possibilidade, não é um desiderato. O que Século de Ouro assume plenamente, e desde os seus próprios fundamentos, é a contingência de uma eventual autoridade. Significa isto que a «exemplaridade» desta obra, a haver, será talvez da ordem do único e do aberrante, obviamente não reivindicados.
Uma obra como Século de Ouro não contém nem poderia pois conter em si um programa gerativo ou software para «mutações epistémicas», já que se trata de uma obra a vários títulos excepcional e fruto de um conjunto de circunstâncias felizes, provavelmente irrepetíveis. Não nos seduz a sugestão romântica de um cânone de únicos; e menos ainda a de patrocinar «mutações epistémicas» numa disciplina em que, decisivamente, «epistemologia» é nome de um género literário (um tanto como «filosofia», na versão de Rorty). Quanto a eventuais consequências, «Depois verá-se», como dizia um catedrático de uma das nossas universidades.
P. Século de Ouro propõe uma intensa reflexão sobre o genus antológico que é chamado a revitalizar o olhar historicizante sobre a poesia portuguesa do século XX. Muito descrendo no modelo de «história» tradicional, essa como que necessária antologização do passado — o gesto intrinsecamente crítico proposto — faz-se de modo a fazer desse passado uma história que, como a verdade para Lessing, seja mais «filantrópica»? Isto é, mais humana, ou mais à escala das vidas humanas? Por outro lado, de que húmus parte esse imperativo de uma história crítica: de um peso cultural excessivo daquela «história» tradicional, da sua desfundamentação ou, talvez, da sua inexistência no que toca ao intervalo e género (poético) em causa?
R. O modo antológico opera por selecção. O que vemos na poesia portuguesa do século XX é que ela própria foi vivendo mesmerizada pela sua própria História (de modo mais ou menos explícito). A história que foi, deste modo, perfazendo não é absolutamente aproveitável. É o excesso de Musas que a sobre-vivência das Musas tem que gerir politicamente. A obsolescência deste ou daquele poeta não significa que não tenha acertado o alvo de vez em quando. É uma história desses acertos que nos pode servir. E o mesmo vale, evidentemente, para os modos da crítica e dos críticos. Será necessário todo o Pessoa para fazer dele a necessária interpelação em nós? Este modo antológico que faça história e faça cânone é um problema, ou justamente pretende argumentar que não haver interpelação é não haver problema. Em tempos, Almada Negreiros, entrando numa biblioteca, ironizava sobre a impossibilidade de ler todos os livros nela contidos. Essa ansiedade do todo não é crítica, nem humana. É bem mais «filantrópica» a moderada confiança de que não é necessária toda a biblioteca de poetas portugueses do século XX, nem toda a obra de cada um deles. O horizonte de um indivíduo ou uma comunidade que fizessem consciência dessa soma total é um belo tropo da Morte (ou de Deus…). Por outras palavras, uma antologia «lê-se», na exacta medida em que «dá a ler». Essa medida, contudo, é de exactidão problemática, já que a antologia pode tender ao monstruoso de um século, um milénio, uma cultura (um tema) ou uma geografia.
É nossa convicção que Século de Ouro, porque dá a ler, e porque desiste à partida do Todo que a antologia não pode ser (mas por que tantas vezes anseia), é uma obra que se lê, no sentido duplo e infindável da expressão. Nesse sentido em que, justamente, o século de ouro vive da ponderação crítica do seu peso (em ouro), ponderação essa a realizar pelos leitores após o exercício inicial delegado nos críticos. Este exercício de reduplicação da prática antológica não tem talvez fim, mas opera fatalmente por estreitamento, na lógica do programa do título: uma decantação de que resulta um punhado de grãos de ouro — alguns poemas portugueses do século XX, talvez não todos os aqui antologiados, talvez (sigamos o devir da antologia) nem estes aqui antologiados.
 

https://angnovus.wordpress.com/ligacoes/entrevistas/entrevistas-6/


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