segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Açorianus maximus

Manuel Leal

Os presuntivos constituintes cognitivos no conteúdo da ideação da açorianidade de Vitorino Nemésio (1980) foram elementos dinâmicos da identidade individual e do grupo.
O autor de Mau Tempo no Canal não expressava apenas a sua perceção, mas o despertar da convergência arquipelágica no discurso em que se tomou consciência do sentido latente de identidade do povo açoriano. A literatura fez-se espelho da realidade que a precedeu. Depois, foi Onésimo Teotónio Almeida que lhe deu voz na academia para além do espaço insular.
A influência de Miguel Unamuno (2005) teria decerto encaminhado Nemésio para a condição arquipelágica, com importantes implicações históricas e existenciais. A açorianidade com Nemésio assumiu-se como manifestação vaga e quiçá figurativa. Nominal na aparência, incubaria uma ideia mais íntima e complexa, porém, que não era novel nem desconhecida no espaço físico do arquipélago. Expressava na narrativa existencial da vivência ilhoa uma comunidade quase imaginada naquela época, construída como uma metáfora por conveniência.
E até, quiçá, insegurança em termos de consequências políticas na ameaça sempre oculta e ubíqua do governo autoritário a partir de 1933. Formou-a na investigação introspetiva do sentido de pertença do indivíduo na sua sociedade.
Nemésio não podia experienciar a açorianidade sem a diferenciação no contraste identitário com outra entidade em competição pelo seu afeto e sentido de participação na sua essência. As identidades não se adquirem nem tomam forma num vácuo. Não o fazia entre ilhas porque no seu conjunto constituíam o todo inseparável do seu imaginário como um gestalt, o padrão comparativo. Ele deu nome à açorianidade, como entidade afetiva e cultural, que depois tentaria evidenciar, cautelosamente, para não ferir a personalidade prescrita do homem açoriano, prostrado na peripeteia profunda do pathos lusíada. A decadência nacional manifestava-se na corrupção do tecido político nacional, agitado pela descrença do período do pós-guerra. A subalternização das Ilhas, omnipresente na sua história, acentuara-se no desgaste da situação social e económica da gente açoriana, cuja condição pesava na convergência solidária do Arquipélago.
As particularidades do momento histórico promovem ou cerram a visão dos povos, como do indivíduo aos estímulos do zeitgeist na dimensão geográfica do pensamento. A teoria do Grande Homem, por outro lado, fez salvadores de pátrias exaustas e céticas da elevação da pessoa na individualidade do esforço coletivo. Teria criado até Einstein no domínio da ciência. Mas não se coaduna com a realidade biológica da espécie ou da evolução cultural. Cada geração beneficia do produto do conhecimento das que lhes precederam.
A cultura, como a define a ciência social, assemelha-se ao curso de um rio em relação a um ponto estático nas margens. A tecnologia do Grande Acelerador de Hadrões inaugurado na Suíça em 2008 teve a sua origem no conceito da organização da matéria de um filósofo grego da antiguidade. No mesmo contexto, a narrativa existencial, como a modernidade ou a ideia do progresso, desenvolve-se de maneira que cada instante experiencial se diria uma fotografia na corrente múltipla de imagens distintas que nos dão a ilusão de movimento.
Onésimo Teotónio Almeida (1989) prosseguiu o trabalho de Vitorino Nemésio, fazendo coalescer no seu volume Açores, Açorianos, Açorianidade as ideias que a ausência da casa materna e do rincão natal, talvez, lhe trouxera enquanto residia, sucessivamente, na Terceira, onde frequentou o seminário, depois Lisboa para se licenciar e por fim os Estados Unidos.
Neste país, na Universidade Brown, obteve um mestrado e o doutorado e ingressou no quadro docente em que já funcionava como adjunto.
Na análise académica, ao modo intelectual de Unamuno, Onésimo deduz o papel do apego psicológico como experiência individual. Mas deixa à associação cognitiva dos seus muitos leitores a interpretação da individualização afetiva da açorianidade para além das implicações históricas e literárias do processo evolucionário na convergência das memórias em ideologia étnica.
Não deixa dúvidas, porém, de que a vive na sua irredutibilidade afetiva, se aqui posso usar a expressão de Unamuno (2005), sentindo-a na “carne da alma”.
A açorianidade não é, porém, de algum modo, apenas a paisagem e naturalidade, um legado genético, uma tradição religiosa, uma história, ou o processo de adaptação da cultura e da língua portuguesas num quadro específico de configuração geográfica. A voz de avós, as carícias da mãe, a reminiscência dos amigos.
E até um modo de pensar a existência e de ser humano, como modo de socialização. É tudo isto, na realidade, mas transcende o indivíduo no perfil de um povo com passado, presente e uma promessa de futuro.
Há na afirmação de Onésimo de ser e sentir-se açoriano um muro conceptual, contudo, que ele não ultrapassa para se reter remoto, mas não alheio, à esterilidade política, quiçá, na definição da condição trágica do povo açoriano.
Este “açorianus maximus” na diáspora e, parafraseando Camões em Os Lusíadas, no mundo que os açorianos criaram na sua comunidade afetiva pluricontinental, conserva-se consistente nesta posição de aparente neutralidade fora do sua aglutinação introspetiva. A redutibilidade da açorianidade de Onésimo não poderia consumar-se sem consequências na sua aceção. Teve, assim, de impor a si mesmo uma disciplina de conduta que obedece ao rigor da ética do seu múnus universitário.
A açorianidade como identidade define-o, mas não o separa nas polaridades entre as quais se constituiu. Neste comportamento, o Onésimo único e multímodo de João Maurício Brás (2015) tem-se mantido fiel à sua própria noção, há muitos anos declarada, de que não cabe à diáspora a participação distante na minúcia e no confronto entreílhas de interesses do processo político no arquipélago. Não é a ausência que o detém. A distância física não o inibe de cruzar o Atlântico numa frequência que para outros dá a impressão de que nunca dos Açores saiu.
No entanto, no seu trabalho de divulgar e investigar a açorianidade revela-se uma aderência ideológica, latente na identidade de que é talvez o seu mais alto expoente na transmissão ideacional. Onésimo tornou-se numa referência obrigatória na temática da açorianidade pelo que ele escreve e pelo que se diria subentender.
O paralelismo com Nemésio não pode passar despercebido.

Manuel Leal, Diário dos Açores, 2015-09-05.

Bibliografia:
Almeida, O. T. (1989). Açores, Açorianos, Açorianidade -- um espaço cultural. Ponta Delgada: Signo.
Brás, J. M. (2015). Onésimo, único e multímodo. Guimarães: Opera Omnia.
Unamuno, M. (2005). Tragic sense of life. (J. E. Futch, Trad.) New York: Cosimo Classics.
Nemésio, V. (1980). Mau tempo no canal: romance (ed. 6ª). Lisboa: Bertrand.


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