domingo, 24 de abril de 2016

Lembrando o 25 de Abril


  
 João Sardinha, poeta popular.


P’ra quem não era nascido
Até ao mais esquecido
O dia vai ser contado
Feriado em Portugal
Amanhã não há Jornal
Pois vai hoje recordado

Foi setenta e quatro, o ano
E Abril um mês amado
Se ao fascismo caiu pano
Foi Portugal libertado

Um bom grupo de soldados
Mais Capitães por sinal
Todos ali bem armados
Lá mudaram Portugal

E assim Abril chegou
Nem passava p’la memória
O que se ali passou
Gravado está na história

Abril e a Revolução
À política ajudou
E aos presos da prisão
Até estes libertou

Veio 25 de Abril
Com Revolução dos Cravos
Só que um toque subtil
Acabaram-se os escravos

Depois da Revolução
Pois veio santa liberdade
Com ela a ambição
Com direitos de igualdade

Havia necessidade
Após a Revolução
Que houvesse liberdade
Liberdade de expressão

Depois de Abril chegar
Sem mágoa até ofensa
Logo tomou seu lugar
A liberdade de imprensa

Depois da Revolução
P’ra governar Portugal
Veio a Junta de Salvação
De Salvação Nacional

E se a junta acabou
Com Guerra do Ultramar
25 D’Abril chegou
P’ra Portugal festejar

25 D’Abril chegou
Há quarenta e dois anos
Só mais tarde festejou
Com festa os Açorianos


João Sardinha, Diário dos Açores, 2016-04-24




Gosto tanto do 25 de Abril. É um dia que me reconcilia com Portugal. Penso sempre nele quando passo em Lisboa na Rua da Alfândega à frente da Igreja da Conceição Velha, que, segundo o letreiro lá colocado pela Câmara Municipal de Lisboa, ocupa o lugar de uma sinagoga desactivada e depois reconvertida em templo cristão pela rainha D. Leonor (mulher de D. João II). Que passado o nosso: séculos de perseguição, de tortura e de execução de judeus. Que bom termos em contrapartida o 25 de Abril.
Penso também sempre no 25 de Abril quando países do mundo ocidental com cadastro de esclavagistas e negreiros reconhecem e enfrentam esse passado. Não faz muito o nosso género, pois somos um país de brandos costumes e, normalmente, estamos mais atentos à culpa alheia. Mas sim, fomos negreiros. Que bom termos em contrapartida o 25 de Abril.
Tivemos 48 anos de fascismo, é certo. Fomos um país onde não havia liberdade de expressão e onde, em pleno pós 1945, nas prisões se praticava a tortura. Mas que bom termos em contrapartida o 25 de Abril.
Fomos um país que tem na consciência uma Guerra Colonial, que tudo temos feito para esquecer e enterrar. Mas que bom termos em contrapartida o 25 de Abril.
Somos um país em que o Estado e a Igreja Católica nunca tiveram uma relação saudável. O casamento entre Catolicismo e Estado Novo foi uma vergonha. Tivemos a Inquisição e levámo-la para os territórios que lusitanizámos na sequência da nossa Expansão imperialista (a que gostamos de chamar “Descobrimentos”). Mas que bom termos em contrapartida o 25 de Abril.
Hoje, olhamos para Lisboa, a capital do nosso país, como uma cidade que voltou à sua matriz mais funda de “Jerusalém Lusitana”: uma cidade de cristãos, de judeus e de muçulmanos, cujas religiões coexistem em paz. E onde com elas coexistem em paz hindus e budistas. Já para não falar de ateus e agnósticos.
Que bom termos o Portugal que temos hoje, graças ao 25 de Abril.
Frederico Lourenço, página pessoal do Facebook, 25 de Abril de 2016
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