quinta-feira, 14 de abril de 2016

Wales Visitation, Ginsberg

Allen Ginsberg's LSD poem to William Buckley
        Feeling the ripeness of the moment, Allen Ginsberg requests his host William F. Buckley, Jr on Firing Line to allow him to read a poem. When Bill acquiesces, Ginsberg recites 'Wales Visitation' - a free verse composition he penned under the influence of LSD in Wales, UK
Irwin Allen Ginsberg nasceu no dia três de Junho de 1926 em Newwark (Nova Jersey) e morreu no dia 5 de Abril de 1997 em Nova Iorque. Foi o grande rebelde romântico e poeta anarquista contemporâneo que ficou conhecido pelas loucuras com os seus companheiros Jack Kerouac e William Burroughs. Promoveu uma revolução na linguagem e nos valores literários que se transformou numa rebelião coletiva. A Geração beat nasceu com o impacto provocado pelo lançamento de Howl and other poems (1956), de On the Road de Kerouac (1957), e de outras obras literárias. https://aruasetima.wordpress.com/2011/01/12/poemas-de-allen-ginsberg/



WALES VISITATION

White fog lifting & falling on mountain-brow 
Trees moving in rivers of wind 

The clouds arise 

as on a wave, gigantic eddy lifting mist 

above teeming ferns exquisitely swayed 

along a green crag 

glimpsed thru mullioned glass in valley raine— 


Bardic, O Self, Visitacione, tell naught 

but what seen by one man in a vale in Albion, 

of the folk, whose physical sciences end in Ecology, 

the wisdom of earthly relations, 

of mouths & eyes interknit ten centuries visible 

orchards of mind language manifest human, 

of the satanic thistle that raises its horned symmetry 

flowering above sister grass-daisies’ pink tiny 

bloomlets angelic as lightbulbs— 


Remember 160 miles from London’s symmetrical thorned tower 

& network of TV pictures flashing bearded your Self 

the lambs on the tree-nooked hillside this day bleating 

heard in Blake’s old ear, & the silent thought of Wordsworth in eld Stillness 

clouds passing through skeleton arches of Tintern Abbey— 

Bard Nameless as the Vast, babble to Vastness! 


All the Valley quivered, one extended motion, wind 

undulating on mossy hills 

a giant wash that sank white fog delicately down red runnels 

on the mountainside 

whose leaf-branch tendrils moved asway 

in granitic undertow down— 

and lifted the floating Nebulous upward, and lifted the arms of the trees 

and lifted the grasses an instant in balance 

and lifted the lambs to hold still 

and lifted the green of the hill, in one solemn wave 


A solid mass of Heaven, mist-infused, ebbs thru the vale, 

a wavelet of Immensity, lapping gigantic through Llanthony Valley, 

the length of all England, valley upon valley under Heaven’s ocean 

tonned with cloud-hang, 

—Heaven balanced on a grassblade. 

Roar of the mountain wind slow, sigh of the body, 

One Being on the mountainside stirring gently 

Exquisite scales trembling everywhere in balance, 

one motion thru the cloudy sky-floor shifting on the million feet of daisies, 

one Majesty the motion that stirred wet grass quivering 

to the farthest tendril of white fog poured down 

through shivering flowers on the mountain’s head— 


No imperfection in the budded mountain, 

Valleys breathe, heaven and earth move together, 

daisies push inches of yellow air, vegetables tremble, 

grass shimmers green 

sheep speckle the mountainside, revolving their jaws with empty eyes, 

horses dance in the warm rain, 

tree-lined canals network live farmland, 

blueberries fringe stone walls on hawthorn’d hills, 

pheasants croak on meadows haired with fern— 


Out, out on the hillside, into the ocean sound, into delicate gusts of wet air, 

Fall on the ground, O great Wetness, O Mother, No harm on your body! 

Stare close, no imperfection in the grass, 

each flower Buddha-eye, repeating the story, 

myriad-formed— 

Kneel before the foxglove raising green buds, mauve bells dropped 

doubled down the stem trembling antennae, 

& look in the eyes of the branded lambs that stare 

breathing stockstill under dripping hawthorn— 

I lay down mixing my beard with the wet hair of the mountainside, 

smelling the brown vagina-moist ground, harmless, 

tasting the violet thistle-hair, sweetness— 

One being so balanced, so vast, that its softest breath 

moves every floweret in the stillness on the valley floor, 

trembles lamb-hair hung gossamer rain-beaded in the grass, 

lifts trees on their roots, birds in the great draught 

hiding their strength in the rain, bearing same weight, 


Groan thru breast and neck, a great Oh! to earth heart 

Calling our Presence together 

The great secret is no secret 

Senses fit the winds, 

Visible is visible, 

rain-mist curtains wave through the bearded vale, 

gray atoms wet the wind’s kabbala 

Crosslegged on a rock in dusk rain, 

rubber booted in soft grass, mind moveless, 

breath trembles in white daisies by the roadside, 

Heaven breath and my own symmetric 

Airs wavering thru antlered green fern 

drawn in my navel, same breath as breathes thru Capel-Y-Ffn, 

Sounds of Aleph and Aum 

through forests of gristle, 

my skull and Lord Hereford’s Knob equal, 

All Albion one. 


What did I notice? Particulars! The 

vision of the great One is myriad— 

smoke curls upward from ashtray, 

house fire burned low, 

The night, still wet & moody black heaven 

starless 

upward in motion with wet wind. 

Allen Ginsberg


PRESENÇA EM GALES 

Neblina fina que sobe o morro e descamba
rios de vento que alisam árvores.
De cada
nuvem que ondula explode e passa um mesmo giro fundo evapora
por cima de samambaias que prendem
a pedra verde em franja mansa
vista através da vidraça enquanto chove no vale
Bardo, ó ser, Visitacione, não fale
nada ou então diga somente o que esse homem já viu num vale em Álbion
um povo cuja ciência termina na coerência ecológica
das sábias relações terrestres
dez séculos de trama tecida de olhos bocas visíveis
pomares da linguagem da mente humanifesta
um cardo em simetria satânica uma planta eriçada
florindo no chão veloz sobre um centro
de leves margaridas irmãs angelicais como lâmpadas –
Além de Londres sua torre de espinhos suas cenas simétricas
de TV em cadeia & o Ser do Bardo barbado, onde lembrar
um dia como hoje no morro a nesga de carneiros balindo árvores
no ouvido do velho Blake & a velha calma de Words –
worth com os mudos pensamentos nela
nuvens no esqueleto dos arcos passando em Tintern Abbey –
Bardo Sem Nome do vasto assombro de tudo, rumor!
Uma só coisa, o vale se esticava tremendo, o vento
deitava em lençóis de musgo,
grande força redonda que afogava a neblina na água fina vermelha
dos riachos da encosta
cujas ramas se torciam caladas
calcadas em mistura granítica –
e erguia também do chão o Espaço Nébulo erguia o braço
das árvores e o capim do instante
mantinha erguidos os carneiros parados
alçava, numa onda solene, o dorso verde 

Sólido pedaço no Céu, gota de vale,
toda a imensidão diminuta rolando em Llanthony Valley,
em toda a área da Inglaterra coesa, vale em vale, sob o risco
das doces toneladas do oceano do Céu
Céu que se equilibra num fiapo de grama
urro do morro vento lento e esse corpo
um Ser, um perto Algum, visão da encosta
cosendo em brilho e calma os equilíbrios fluindo,
um gesto vara o escuro céu-chão e são milhões de margaridas que o fazem,
é o gesto de uma Força Serena que induz o mato molhado
até a rama mais distante de neblina fina aspergida
na corola do morro –
Nenhuma imperfeição no morro em flor
Os vales respiram, céu e terra andam juntos
margaridas engolem polegadas de ar verduras vergam
átomos piscantes vegetam no capim em mandalas
manchas espalhadas ruminam com olhos de carneiro vazios
cavalos dançam na chuva quente
árvores ladeiam canais em rede viva nos campos
ermos paredões frutificam
seios de espinheiros desabrocham colinas
passam roceiros ermos cuspindo samambaias e ervas –
passar entrar cair rolando no oceano de sons, rajadas
cair no chão ó mãe ó grã-Mãe Húmida, jamais uma lesão em teu corpo!
Pare vendo de perto, nada é imperfeito no mato,
toda flor cada olho flor um Buda, e a história se repete,
a alma multiforme ajoelha
perante botões quentes inquietos eretos, sinos
dobrados no caule trêmula antena,
& olhe vendo de dentro nos carneiros que espiam
paradamente respirando sob folhas e gotas –
Deito e misturo a barba no morro em pelo viscoso
cheirando ileso o chão-vagina provando
húmidas emanações violetas de penugem de cardo –
Um ser tão vasto, em tão vertiginoso equilíbrio, que seu sopro mais fino
afasta no assoalho dos olhos a flor mais quieta do vale
treme em rendas de água teias na lã capim dos carneiros
suspende copas e raízes, pássaros na grande corrente
levando o mesmo peso na chuva, a força eclusa
gemendo chamando terra
coração, junção de espantos.
O grande mistério é o não-mistério
os sentidos correspondem aos ventos
o visível é visível
o vale em ondas anda com uma barba de chuva
átomos cinzentos desaguam na cabala do ar.
A mente está de pernas cruzadas
imóvel numa pedra e respira
está elástica no capim mole e respira
na beira de margaridas brancas na estrada.
O sopro do Céu desce ao umbigo,
minha própria simetria descamba, sopram samambaias rasgadas
cujas frondes me aspiram, sopra o mesmo agora
vento de Capel-Y-Ffn, sons de Aleph e Aum
na vegetação dos ossos
na massa de cartilagens-paisagens
crânios e colinas iguais numa só Álbion.
Que foi que eu vi? Detalhes. A
visão do grande Um pluriforme –
marcas de fumaça subindo
no calor silencioso da casa
marcas de uma noite que embarca
vazia de estrelas
porém ainda molhada de gestos no céu preto dos ventos. 

Allen Ginsberg
(Traduzido para o português do Brasil, por Leonardo Fróes)





VISITACIÓN DE GALES

Niebla blanca subiendo y bajando el ceño de la montaña
árboles moviéndose en ríos de viento
Las nubes se alzan
como montando una ola, un gigantesco remolino levantando la bruma
sobre helechos efervescentes meciéndose
a lo largo del risco verde
atisbado a través de un vidrio en la lluvia del valle...

Ninguna imperfección en el brote de la montaña,
valles respiran, el cielo y la tierra se mueven juntos,
margaritas exhalan pulgadas de aire amarillo, los vegetales tiemblan,
el pasto resplandece verde,
ovejas moteadas en la ladera, pastando con ojos vacíos,
caballos bailan en la lluvia cálida,
canales entre árboles conectan las granjas vivientes,
arándanos azules orlan paredes de piedra entre los encinos,
faisanes graznan en prados atestados de helechos.

Afuera, a un lado de la colina, hacia el estruendo del océano, hacia delicadas ráfagas de aire mojado,
cae al suelo, ¡Oh gran Humedad, Oh Madre, sin un daño en tu cuerpo!
Mira de cerca, el pasto inmaculado,
cada flor ojo-de-Buda, repitiendo la historia,
mirífica--
arrodíllate ante la flor de la digital alzando verdes inflorescencias, campanas malva arrojadas
hacia abajo doblemente en el tallo temblando antenas,
y ve en los ojos de los corderos que miran fijamente
respirando impávidos bajo los encinos borboteantes--
Me acuesto y mezcló mi barba con el pelo mojado de la ladera,
oliendo la humedecida vagina café de la tierra, inocuo,
probando el pelo violeta de los cardos, dulzura--
Uno en balance, tan vasto, que su aire tan suave
mueve cada pétalo en la quietud de la superficie del valle,
tiembla el pelo de cordero colgando telaraña enredada con la lluvia en el pasto,
levanta árboles sobre sus raíces, pájaros en la gran sequía
ocultando su gran fuerza en la lluvia,

Gime a través del pecho y del cuello, un gran ¡Oh! al corazón de la tierra,
Llamando nuestra Presencia a que se una
El gran secreto es que no hay secreto,
los sentidos encajan con los vientos,
lo visible es visible,
cortinas de bruma lluviosa ondean a través del valle barbado,
átomos grises mojan la cábala del viento,
con las piernas cruzadas en un roca en la lluvia del crepúsculo,
con botas de hule en el pasto suave, la mente inmóvil,
el aire tiembla en margaritas blancas a un lado del camino,
El aire del cielo y mi propio aire simétricos
rondando entre astados helechos verdes
uncidos a mi ombligo, el mismo aire que se respira a través de Capel-Y-Ffn,
sonidos de Aum y Aleph
a través de bosques de cartílagos,
mi cráneo y el cráneo de Lord Hereford’s iguales,
todo Albión uno...

Allen Ginsberg
(Traduzido para o castelhano por PIJAMASURF)


Passagem de testemunho de poetas «beat» para poetas de rock:
Robbie Robertson, Michael McLure, Bob Dylan, Allen Ginsberg, em São Francisco, Ca., 1965.
(In: ESTRO IN WATTS - poesia da idade do rock - 1955-1980João de Menezes-Ferreira)





Seguramente Ginsberg escribió muchos poemas en LSD, una sustancia que le era muy querida (aunque el famoso poema "Howl" fue escrito antes de que probara el ácido lisérgico). Pero entre una plétora de poemas posiblemente influenciados por el LSD, Ginsberg eligió "Wales Visitation" como el más representativo de su experimentación psicodélica. En este video podemos ver a Ginsberg leyéndolo primero de manera muy amena en tono ligero y luego entrando en el trance de la cadencia, seguramente regresando a la memoria del estado de su concepción.
"Wales Visitation" es una especie de poema bucólico con un carácter visionario, una meditación en dos frentes: la observación de la naturaleza agudizada por la percepción psicodélica (como uno de esos poemas zen, sólo que con una energía impertérrita del delirio) y las resonancias de la naturaleza en la mente del poeta, hasta el punto de una fusión entre aquello que está afuera y aquello que fluye por dentro.
Podemos detectar dos temas entrelazándose en el movimiento interpenetrado del poema: la naturaleza como un ente viviente, como una matriz simbólica y espiritual que discurre en la sensibilidad exaltada del ácido que percibe la vida rebosante, el latido de las cosas, el mismo pasto que brilla con una luz de la conciencia. Y, por supuesto, un tema místico que atraviesa la poesía de Ginsberg en su vínculo con el esoterismo hebreo: la unidad dentro de la multiplicidad, la visión divina por antonomasia en este mundo que es reconocer dentro de la diferencia, dentro de la multiplicación, la esencia unitaria.

PIJAMASURF, 2014-11-25




GINSBERG, O UIVO CONTRA A MORTE



A obra “Uivo, Kaddish e Outros Poemas”, do famoso Allen Ginsberg, que causa celeuma há três décadas, está agora em português.
Ele queria ser como Rimbaud. Escrever coisas perfeitas, onde cada palavra seria brilhante, elegante, romântica, erótica, mística. Vivia a cada dia o que Kafka escreveu em seus “Diários”: “Nunca perco o futuro de vista. Quantas noites, caminhadas, desespero na cama e no sofá ainda estão à minha frente...”
Terminou virando o Rimbaud do pós-guerra. Um dos principais poetas modernos. Uma figura místico-revolucionária, líder do “amalgama underground, hippie-pacifista-visionário-orgiástico-anarquista-orientalista-psicodélico”, como sentenciou um redator bem humorado da “New Yorker” no fim dos anos 60.
Com o famoso atraso regulamentar (quase trinta anos), Allen Ginsberg chegará na próxima semana ao Brasil, numa edição dedicada apenas ao seu trabalho, materializado em “Uivo, Kaddish e Outros Poemas – 1953-1960” (prefácio, seleção e notas de Cláudio Willer, Ed. L&PM). Ao contrário de seus comparsas Jack Kerouac e Bill Burroughs, soltos como leões no meio do asfalto, chegou identificado.
Neste volume minuciosamente preparado pelo poeta e tradutor Willer, há uma introdução comentando o trabalho, 161 notas de rodapé situando diversos persoangens da beat generation e soluções da tradução, farta bibliografia e até mesmo filmografia e discografia.
Claro, já sabemos: os beats foram descobertos no País com um atraso ridículo. Mas pelo menos edições como essa prestam um serviço a mais para o leitor brasileiro, colocando o autor na devida perspectiva.
Willer trabalhou a sério. Trocou correspondência com o próprio Ginsberg a respeito de inúmeros detalhes da seleção e da tradução. Suas soluções para “Uivo”, por exemplo, são melhores do que as traduções espanholas e portuguesas, e tão boas quanto a tradução italiana de Fernanda Pivano. Ele preserva toda a carga informativa dos cruzamentos e colagens polissêmicas de Ginsberg, sem apelar para concretismos baratos, ao mesmo tempo em que não sacrifica o ritmo dos poemas. Jack e Bill, falando português, ficaram irreconhecíveis. Allen até que se deu bem. Espera-se que o mesmo aconteça com Corso e Ferlinghetti.
O que é isso ? Mais revival beat ? Não. Alguns coleguinhas da imprensa misturam tudo. Parecem liquidificadores emperrados. Os editores brasileiros “descobriram” os beats ao mesmo tempo. Mas cada edição deve ser analisada em si mesma. Ginsberg está sendo lançado adequadamente. Sem modismo. Aos 58 anos, continua sendo o poeta americano mais influente para as jovens gerações na Europa e nos EUA. Vive pelo mundo dando entrevistas e conferências. A mídia conservadora internacional o trata como uma bicha drogada porque não lhe interessa perceber sua profunda bagagem cultural e sua produção ainda constante, de alto nível (a L&PM pretende lançar outro volume com os poemas a partir de 1960). Além disso, é um poeta para ser relido constantemente. Trata-se do prazer do texto. Ginsberg é descendente espiritual de William Carlos Williams, Fitzgerald, Hart Crane. Um escritor que foi beber no coração das trevas para poder brigar com a morte de igual para igual.



Sismógrafo cultural
Nos anos 50, Bill Burroughs saiu pelo mundo em sua odisséia drogada. Algum tempo depois foi a vez de um jovem poeta desconhecido, com quem Burroughs se correspondia durante as viagens. Depois das conversas em Paterson, Nova Jersey, com Williams; depois de vagabundeios no Lower East Side, conhecer Dylan Thomas, experimentar peiote e anotar as sensações, trips no Iucatã, sonhos mexicanos, haicais, mensagens do além por cortesia de William Blake, paranóias, sonhos burroughsianos com a louca sabedoria dos gurus tibetanos, Kerouac e seu blá-blá-blá celestial, Ginsberg estava forjado como um dos sismógrafos culturais de sua época.
Filho de poeta, sempre foi amante da literatura. Quando estudava – e aprontava – em Columbia, com Bill e Jack, começou a copular com a prosa, as drogas e os corpos masculinos. Foi expulso de Columbia. Mas em 57 apareceu sua primeira coletânea de poemas, “Howl”. Foi uma bomba na literatura bem comportada da época, assim como “On The Road” e “Naked Lunch”. Em “Howl” e nos poemas seguintes, incluindo a elegia “Kaddish”, jogou tudo: sua homossexualidade, pensamentos visionários – Ginsberg é filho de Blake – e a apaixonada expansão da consciência através das drogas, hinduísmo e zen. Como a “farmácia ambulante” Burroughs, ele foi em todas: peiote, mescalina, marijuana, éter, LSD, aiauasca (a droga definitiva, por causa de quem Burroughs se enfiou na Amazônia).
Constatou que as drogas “abrem a percepção do sobrenatural, da elucidação, e liberam a alma”. O LSD é a sua droga: vários poemas, como “LSD 25” e “Visitação de Gales” são presentes do demoninho lisérgico.
Nos anos 60, estava em todos os lugares. Para Bob Dylan , começou como mito e virou amigo. Nos últimos anos, sua atividade política foi incessante, de conferencista em assembléias juvenis a manifestante em campanhas antimilitaristas e pelos direitos civis. Continua polêmico. Cada novo livro é saudado com arrebatamento total ou tachado de “obsceno” ou “degenerado”. Não interessa. O que interessa é ler ou reler Ginsberg.
Você acha – e com razão – que a maioria dos poetas contemporâneos só mistifica? Então fique com Ginsberg. Continua absolutamente moderno. “Uivo” foi escrito há 29 anos. Sua importância é fundamental não apenas como manifesto de uma geração rebelde – como foram, em termos de desconstrução da arte, os manifestos de Tzara e Breton – mas pela sua incandescência literária.
Cada uma de suas longas e intrincadas frases é uma série de versos curtos interligados: “...solidez de peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente...”
“Kaddish”, cuja segunda parte foi escrita em quarenta horas, direto, à base de uma mistura de morfina e meta-anfetamina, é outra obra-prima de construção literária: uma viagem pela loucura do poeta na infância e na adolescência, onde se articulam as descrições informais, os arroubos solenes e autocomplacentes, e as adagas da ironia e da reflexão. A poesia de Ginsberg é impecável exercício de estética do fragmento, é pura colagem pop, é tese e delírio. Mas , principalmente, é literatura de primeira.
Ginsberg deve ser lido hoje – especialmente pela garotada – como um dos últimos poetas românticos e proféticos, na tradição de Shelley, Byron, Keats, Holderlin. Mas há um dado-chave. Kleist se matou. Hart Crane se jogou de um navio. Corso também se suicidou. Ginsberg acredita que a saída não é o suicídio, apesar da pressão constante da sociedade tecnotrônica para excluir o poeta. O poeta não pode parar de uivar. Ginsberg aposta na guerra. E essa guerra vai ser ganha na raiva, no delírio, nas visões e no amor pela literatura latejando nas veias de velhos e novos junkies.
Pepe Escobar, Folha de S. Paulo, 1984-07-14
Apud: http://blogdoantonicodaigreja.blogspot.com/2011/02/ginsberg-o-uivo-contra-morte-folha-de.html




A morte de Allen Ginsberg, ocorrida anteontem, não deixa lacunas. Durante meio século o escritor americano dedicou-se não só a uma extensa obra poética, como também ao ensino da literatura como ato de liberdade e militância político-ambiental. E a mensagem já está dada. Ginsberg escreveu bastante, falou mais ainda e participou combativamente das transformações da América do pós-Guerra. Lutou contra a censura, combateu a proibição do LSD (1966), protestou contra a guerra do Vietnã, contra as armas nucleares e militou pela preservação da natureza.
Em 1994, Ginsberg foi procurado pela Folha para falar sobre o escritor William Burroughs, que na época completava 80 anos de idade. A entrevista, inédita, acabou se estendendo à sua poesia, ativismo e ecologia. A seguir alguns trechos.
Folha – Como o senhor resumiria a importância de William Burroughs na literatura americana?
Allen Ginsberg – Burroughs tem uma influência na cultura dominante americana muito maior do que ele mesmo imagina. Devido ao processo contra seu livro ”Almoço Nu”, ele abriu as portas da censura para que novos autores escrevessem o que quisessem. Muitos dos seus temas continuam e continuarão importantes, como controle do pensamento, drogas, sexualidade gay, Estados policiais etc. Mesmo na cultura pop, bandas como Steely Dan e Soft Machine devem seus nomes a títulos de livros seus e, mais ainda, à técnica dos cut-ups (colagem de textos e imagens não tão ao acaso, desenvolvida por Burroughs e pelo pintor Brion Gysin nos anos 60).
Folha – E o senhor experimentou também os cut-ups?
Ginsberg – Só no começo, mas essa técnica foi incorporada por vários escritores, como Dennis Cooper e Hunter Thompson, sem falar dos músicos. Os garotos do U2 outro dia vieram me mostrar um videoclipe (da turnê ”Zootour”) influenciados pelo cut-up.
Folha – Mas o cut-up não é uma técnica original, os dadaístas e surrealistas do início do século…
Ginsberg – Sim, eles faziam algo que se chamava ”corpos estranhos”. Dois artistas trabalhavam numa mesma tela sem saber o que o outro fazia, depois juntavam tudo. Mas o cut-up não é um processo inconsciente, é uma forma de dar sentido a esse inconsciente.
Folha – O senhor trabalhava o cut-up na sua poesia?
Ginsberg – Não exatamente. Eu também fotografo e desenho. Nas fotos eu escrevia notas sobre as coisas que estavam acontecendo quando foram tiradas. Ao juntá-las tenho toda uma história contada de um modo não usual.
Folha – Hoje os ”beats” estão virando moda na América, a mídia dando às suas obras um espaço até hoje inédito. Isso é uma surpresa?
Ginsberg – Não. Creio que a obra ”beat” é tão forte que já pode ser tomada como referência literária. Nós tocamos em questões permanentes: o império americano, ecologia, revolução sexual, censura. Também há a questão do ”terceiro caminho”, nem comunismo nem capitalismo, que pregávamos enquanto os intelectuais procuravam extremos do marxismo ou do anticomunismo. Nossa preocupação é alterar estados de consciência e achar soluções ecológicas, não ideológicas.
Folha – Mas isso também pode levar a interpretações variadas do que se diz ou escreve, não?
Ginsberg – Meu negócio é poesia. Ao produzir não posso controlar o que as pessoas farão depois, dizer o que elas devem fazer com suas próprias mentes. E nem gostaria, eu seria um ditador. O melhor que posso fazer é propor alternativas e me abrir às pessoas que queiram aprender comigo.
Folha – E qual é sua principal preocupação hoje?
Ginsberg – O problema básico é o da hipertecnologia consumindo o planeta numa escala que destruirá as possibilidades humanas. Li hoje uma entrevista de Jacques Cousteau (oceanógrafo francês) em que ele diz: ”Estou agora lutando pela minha própria espécie, buscando conceitos para as gerações futuras”. Para ele, o divórcio entre a humanidade e a natureza é irreversível, mas o homem deve se lembrar que ainda depende da natureza. Mas, como eu, ele tem esperança no futuro.
Folha – E há futuro na literatura americana?
Ginsberg – Há um presente. Quem estiver escrevendo, em qualquer língua, está levando a literatura para frente, mas deve sempre se lembrar que a imortalidade só vem depois.

Eduardo Simantob, Folha de S. Paulo ilustrada, 1997-04-07
www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq070402.htm



POEMAS DE ALLEN GINSBERG

UIVO
para Carl Solomon
I
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinhei-
ro em cestos de papel, escutando o Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova
York,
que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam
terebintina em Paradise Alley,   morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoa- do deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das
janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e
lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada à rua,18
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões-postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários,
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para a África
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra de suas
     calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sen- suais em suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas
acabaram choramingando atrás de um tabique de
banho turco  onde o anjo loiro e nu veio trespassá-
los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão,  que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho
e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão da boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N. C. herói secreto destes poemas, garanhão e Adônis de Denver – prazer ao lembrar das suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca
de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da
até as agências de
desemprego,

que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos do Hudson à luz azul de holofote anti- aéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre in- vocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht & tortillas sonhando com o puro rei- no vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças por todos os dias
da década seguinte,

[…]


POEMA DE AMOR SOBRE UM TEMA DE WHITMAN

Entrarei silencioso no quarto de dormir e me deitarei entre noivo e noiva,
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto,
braços pousados sobre os olhos na escuridão,
afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei sua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber, caralho atormentado na escuridão, atacando
levantado do buraco até a cabeça pulsante
corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes e nádegas enfiadas uma na outra,
e os olhos, olhos cintilando encantadores, abrindo-se em olhares e abandono,
e os gemidos do movimento, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,
mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençóis
e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos e beijos de adeus —
tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite,
fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.



PARA TIA ROSE

Tia Rose — agora — se eu a pudesse ver
             com seu rosto afilado e sorriso de longos dentes e dor
                  de reumatismo — e um comprido e pesado sapato preto
                       para sua ossuda perna esquerda

coxeando pelo carpete do longo saguão de Newark
                           passando pelo grande piano negro
                                         até a sala de visitas
                                                       onde faziam reuniões
                           e eu cantava canções legalistas espanholas
                                         com uma voz aguda esganiçada
                                         (histérico) o comitê ouvindo
                           enquanto você mancava pela sala
                                         recolhendo o dinheiro
Tio Honey, Tio Sam, um estranho com um braço de manga de casaco

                           enfiado no bolso
                               o enorme moço calvo
                                         da brigada Abraham Lincoln
— sua comprida cara triste
                suas lágrimas de insatisfação sexual
                                         (que soluços sufocados e ancas ossudas
                                                 sob os travesseiros da Osborne Terrace)
— a vez em que fiquei sentado nu na privada
                      enquanto você  empoava minhas coxas com Calomine
                      contra a queimadura da urtiga — meus tenros
                            e envergonhados primeiros negros pelos crespos
o que você pensaria secretamente
                      sabendo que eu já era homem —
e eu e a menina ignorante do silêncio familiar no delgado pedestal
                      das minhas pernas no banheiro — Museu de Newark
                                           
                                           Tia Rose
Hitler está morto, Hitler está na Eternidade; Hitler está junto
                      com Tamerlão e Emily Brontë

Porém eu ainda a vejo caminhar, um fantasma em Osborne Terrance
                      ao longo do saguão escuro até a porta da frente
             mancando um pouco com um sorriso cansado naquilo
                      que deve ter sido um florido
                            vestido de seda
                 recebendo meu pai, o Poeta, na sua visita a Newark
                — vejo-a chegar à sala de visitas
                             dançando em sua perna aleijada
                e batendo palmas seu livro
                            havia sido aceito por Liveright

Hitler morreu e Liveright encerrou as atividades
O Sótão do Passado e Duradouro Minuto estão esgotados
                Tio Harry vendeu sua última meia de seda
      Claire largou a escola de dança interpretativa
                Buba está largada um monumento encarquilhado na Casa
                de Repouso para Senhoras Idosas piscando para bebês

a última vez que a vi você estava no hospital
                pálido crânio emergindo da pele cinérea
                     menina inconsciente com veias azuis
                          numa tenda de oxigênio
                a guerra da Espanha já acabou há muito tempo
                          Tia Rose


Paris, 1958



CANÇÃO

O peso do mundo
         é o amor.
Sob o fardo
       da solidão,
sob o fardo
      da insatisfação


       o peso
o peso que carregamos
        é o amor.


Quem poderia negá-lo?
          Em sonhos
nos toca
      o corpo,
em pensamentos
        constrói
um milagre,
         na imaginação
aflige-se
         até tornar-se
humano —


sai para fora do coração
         ardendo de pureza —


pois o fardo da vida
          é o amor,


mas nós carregamos o peso
           cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
          finalmente
temos que descansar nos braços
           do amor.


Nenhum descanso
        sem amor,
nenhum sono
        sem sonhos
de amor —
           quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
           ou por máquinas,
o último desejo
          é o amor
— não pode ser amargo
         não pode ser negado
não pode ser contido
           quando negado:


o peso é demasiado

          — deve dar-se
sem nada de volta
         assim como o pensamento
é dado
         na solidão
em toda a excelência
         do seu excesso.


Os corpos quentes
          brilham juntos
na escuridão,
          a mão se move
para o centro
        da carne,
a pele treme
          na felicidade
e a alma sobe
         feliz até o olho —


sim, sim,
           é isso que
eu queria,
          eu sempre quis,
eu sempre quis
         voltar
ao corpo
         em que nasci.


Uivo: Kadish e outros poemas (1953-1960), Allen Ginsberg. Tradução de Claudio Willer, L&PM, 2010



ARTE É ILUSÃO, POIS EU NÃO AJO

Fico ou Parto – com constante alegria
Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados
Santa prece para o conhecimento ou puro fato.
Então enceno a esperança de que posso criar
Um mundo vivo em torno de meus olhos mortais
Um triste paraíso é o que imito
E anjos caídos cujas asas perdidas são suspiros.
Neste estado não mundano em que me movimento
Minha Fe e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.


UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA

Muito venho pensando em ti nesta noite, Walt Whitman,
enquanto caminho pela calçada sob as árvores, com uma incômoda
dor de cabeça e olhando a lua cheia.
Em meu faminto cansaço, e fazendo compras na imaginação, fui
ao supermercado de néon e frutas, sonhando com tuas listagens!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
nas compras da noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates e bebês nos tomates! – e, você, Garcia Lorca,
que estava fazendo diante dos melões?
Te vi, Walt Whitman, sem filhos, velho comilão solitário,
apalpando as carnes do refrigerador e lançando olhares
aos jovens vendedores.
Te ouvi perguntar a eles todos: quem matou as costeletas
de porco? qual o preço das bananas? quem é meu Anjo, tu?
Vagueei por entre as prateleiras brilhantes de latas,
te seguindo e sendo seguido pelo detetive da casa, em minha
imaginação.
Percorremos os grandes corredores, juntos em nossa solitária
fantasia, provando alcachofras, pegando todas as delícias congeladas, sem passar pela caixa.
Para onde estamos indo, Walt Whitman? Dentro de uma hora
as portas se fecham. Qual o caminho que tua barba hoje aponta?
(Toco em teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado – e me sinto absurdo.)
Iremos caminhar a noite por todas essas ruas solitárias? As
árvores acrescentam sombras às sombras, luzes apagadas nas casas, ambos estaremos sozinhos.
Andando e sonhando com a América perdida de amor, passaremos
por automóveis azuis no estacionamento a caminho de nosso solitário refúgio?
Ah, querido pai, de barbas cinzas, velho e solitário professor
de coragem, que América te conheceu quando Caronte desistiu de
empurrar seu barco e desceu-te na margem enfumaçada e ficou
vendo o barco desaparecer nas negras águas do Letes?


SUTRA DO GIRASSOL

Caminhei nas margens do abandonado cais de lata onde outrora
descarregavam banana e fui sentar na sombra enorme de uma locomotiva lá perto
para olhar e chorar o sol morrendo em ladeiras sobre as casas todas iguais.
Jack amigo Kerouac sentou-se ao lado no ferro de um mastro roto partido
e a gente caiu na maior fossa do mundo, os dois ilhados, dois contidos
na rede das raízes de aço,
e eu e Jack pensando os mesmos pensamentos da alma.
No rio a correnteza de óleo refletia o céu rubro, o sol caía
pelas alturas finais de San Francisco, sem que houvesse
peixe nessas águas, sem que houvesse um ermitão nas montanhas, só a gente
com olhos de ressaca e remela, feito vagabundos, cheios de astúcia e cansaço.
Olha só um girassol, Jack então disse, e havia o vulto inerte e cinzento
seco, do tamanho de um homem, recostado
num monte milenar de serragem.
– Eu pulei de alegria e era o primeiro girassol de minha vida, eram memórias
de Blake – essas visões – o Harlem
e os rios do inferno-leste, sanduíches indigestos trotando
um ranger de pontes, carrinhos de bebê encalhados, esquecidos
pneus de bojo negro careca, penicos
& camisas-de-vênus, o poema da margem, canivetes, nada inox, só o mofo
o lixo de tantas coisas cortantes cujo fio passava
para o passado –
e o cinzento girassol se equilibrando ao sol-posto,
desmanchando-se abatido na invasão da fuligem, da fumaça, do pó
de velhas locomotivas no olho –
corola e também coroa com as pontas amassadas virando, com sementes
despencando do rosto, rompendo em breves dentes um dia
claro, raios de sol grudando em seu cabelo riscado
como uma exangue teia de aranha de arame;
caule com braços-folhas jogados, os gestos da raiz de serragem,
pedaços de reboco minando nos galinhos queimados
e uma mosca estagnada no ouvido,
você de fato era uma incrível coisa imprestável, ó meu girassol minha
alma, e como eu te amei então!
sujeira não era parte do homem, era a parte da morte e das locomotivas
humanas,
simples roupa empoeirada, o simples véu da pele férrea, a cara
da fumaça, as pálpebras da escura miséria, a mão
ou falo ou tumor mortiço do imundo motor moderno industrificial disso
tudo, o bafo da civilização poluindo
tua coroa muito louca de ouro –
esses turvos pensamentos de morte, a grande falta
de amor em fins e olhos tapados, raízes abafadas em areia
e serragem, os dólares raspantes elásticos, o couro das máquinas, as
tripas enroscadas de um carente carro que tosse, as solitárias
latas baratas com línguas rotas de fora, e o que mais seja, a cinza
que escorre pela boca na ereção de um charuto, a boceta
de um carrinho de mão, ou os seios acesos de viaturas lácteas, o rabo gasto
que as cadeiras expelem, o esfíncter dos dínamos – tudo
isso embolado nas raízes-múmias –
e você aí de pé na minha
na tarde da minha frente, a sua glória em sua forma!
beleza perfeita, um girassol! uma tranqüila e girassol existência
excelente e perfeita! um olho doce natural para a melancolia da lua
nova, desperto vivo excitado
sacando no crepúsculo sombra a brisa mensual de ouro aurora!
enquanto você lançava blasfêmias
para o céu da via férrea e sua própria floralma,
quantas moscas zumbiram na sua extrema imundície
sem ligar para nada?
Quando, flormortapobre, você esqueceu que é uma flor?
quando olhou sua pele e decidiu que era a velha
suja locomotiva impotente? o fantasma de uma
locomotiva? o espectro e sombra de uma já poderosa
locomotiva americana maluca?
não, girassol, você não foi locomotiva nunca, você foi sempre um girassol!
você, locomotiva, você é o motivo louco de sempre, a locomotiva!
pensando isso peguei o grosso girassol esqueleto e o finquei a meu lado
como um cetro
fiz o meu sermão à minha alma, e também à de Jack, e tambérn à de todos
que ainda queiram ouvir:
Não somos a sujeira da pele, não somos nossa locomotiva medonha triste
poeirenta com ausência de imagem, nós somos todos uns lindos girassóis
por dentro, somos sagrados por nossas próprias sementes &
peludos pelados dourados corpos de ação virando girassóis ao crepúsculo
loucos girassóis formais e negros que esses olhos espiam
na sombra da locomotiva maluca margem beira
San ladeiras Francisco
tarde de lata
sol-posto sentar-se vision.

Poemas traduzidos por Leonardo Fróes, Folha de S. Paulo ilustrada, 1997-04-07
www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq070402.htm



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