sábado, 7 de maio de 2016

O ser começa entre as minhas mãos de homem.





El ser empieza entre mis manos de hombre.
El ser,
todas las manos,
cualquier palabra que se diga en el mundo,
el trabajo de tu muerte,
Dios, que no trabaja.

Pero el no ser tambiém empieza entre mis manos de hombre.

El no ser,
todas las manos,
la palabra que se dice afuera del mondo,
las vacaciones de tu muerte,
la fatiga de Dios,
la madre que nunca tendrá hijo,
mi no morir ayer.

Pero mis manos de hombre donde empiezan?

Roberto Juarroz (Argentina, 1925-1995)
Poesia Vertical, 1958

*


O ser começa entre as minhas mãos de homem.
O ser,
todas as mãos,
qualquer palavra que se diga no mundo,
o trabalho da tua morte,
Deus que não trabalha.

Mas o não ser também começa entre as minhas mãos de homem.

O não-ser,
todas as mãos,
a palavra que se diz fora do mundo,
as férias da tua morte,
a fadiga de Deus,
a mãe que nunca terá filho,
meu não morrer ontem.

Mas as minhas mãos de homem onde começam?

Roberto Juarroz, Poesia Vertical. Tradução de Arnaldo Saraiva, 1998.


Desenha-se neste poema uma grande metáfora: a do ser (que é vida, movimento para os outros ou doação, palavra, morte, Deus) e a do seu contrário que é o não-ser (e que retoma o que o ser é num registo negativo). Talvez nos ocorra, ao considerarmos esta oposição ou esta diferença que também é semelhança, o poema de um dos pensadores da antiga Grécia, Parménides, onde ele nos fala do “caminho da verdade” que há-de conduzir à noção ou, melhor, ao pensamento de ser: “Necessariamente deve ser dito que o ser é, porque é Ser. Quanto ao Não-Ser ele nada é”. O poema, aqui, logo se converte em teoria ao estabelecer uma axiomática; como ocorre num axioma, Parménides infere dele consequências que ao longo do poema são explicitadas: o ser é uno, semelhante à curvatura de uma esfera, não provém do não-ser, etc. Mas, prosseguindo, ele socorre-se da mitologia ‑ que tão louvada foi por Schelling ‑, dizendo: “antes de todos os deuses criou Eros”. Ou, mudando de registo, considera que o ser olha constantemente “os raios brilhantes do sol”, como se, neste momento, passasse da teoria para a poesia!
Considerando o poema de Juarroz e o de Parménides, podemos talvez medir melhor a distância que vai de um poema que não é só filosofia a uma filosofia que não é só poema. O que quer isto dizer? Um poema, não sendo obviamente uma construção teórica, pode ter uma referencialidade que é a do pensamento, da reflexão, sempre que em relação a eles, como diria Antero de Quental, “a poesia das cousas se insinua”. Da poesia à filosofia e desta àquela pode estabelecer-se o mesmo “caminho da verdade”. Neste caso é o que vai ou ascende do particular para o geral, da palavra para a multiplicidade de sentidos.
A noção de ser, a qual vinda dos pensadores gregos pré-socráticos corresponde à realidade última das coisas, atinge um momento em que se torna contraditória em si mesma; é quando, já no século XIX, Hegel na Ciência da Lógica considera que no ser a falta de qualquer determinação faz com que ele acabe por se identificar com o nada. Ao contrário de Parménides, para Hegel o ser puro e o puro nada – assim os designa – são a mesma coisa, o que faz com que a sua verdade consista num ato de pensar sempre que este vai de um para o outro. É o devir, o ponto de partida mesmo para um método, a dialética que se torna no caminho que conduzirá a um conhecimento total equivalente à realidade última das coisas – não o ar, a água, o fogo, etc., dos pré-socráticos – mas, sim, ao pleno saber ou Sistema. O Sistema é, pois, o pensamento considerado na sua totalidade, isto é, o conhecimento absoluto…
Neste caso, o pensamento e, como ocorre nos pré-socráticos, a realidade ficam circunscritos à sua essencialidade. Mas a esta perspetiva essencialista pode contrapor-se, como acontecerá no século seguinte àquele em que viveu Hegel, uma outra perspetiva que, genericamente, poderíamos considerar como existencialista. O pensamento é incarnado, refere-se à existência humana, é nosso. Como se dá a posse por nós do conhecimento? Será mediante os múltiplos sentidos da linguagem, não só naquela em que as palavras são os mediadores como acontece na poesia, mas, por extensão, em todas as formas de simbolização. É esta convergência de sentidos que vai ocorrer na criação artística, de modo que se passa da área do lógico ou do ontológico para a do simbólico. É aí que, em arte, o conhecimento se há-de realizar.
Criam-se referências ou disposições verticais (ou paradigmáticas) de sentido, que já se não orientam diretamente para as coisas reais ou indiretamente para conceitos que, como o de ser, se configuram abstratamente. Será, então, o momento em que encontraremos uma espécie de verticalidade que se assemelha à de uma árvore, com as suas múltiplas raízes, múltiplos ramos, múltiplas folhas.

Ser, um problema filosófico-poético?”, Fernando Guimarães.  Filosofia e Poesia - Congresso Internacional de Língua Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2016.


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