sexta-feira, 10 de junho de 2016

biblioteca camoniana ou glosa a mote próprio


Seus olhos, Garrett
, ilustração de Marta Madureira, 2012



Quando meus olhos teus olhos olharam
E o meu rosto no teu rosto pousou
Todo o sonho que os sonhos ousaram
Logo se desvaneceram no que sonhou

Nada nesta vida assento merece
Tudo nesta vida é ousio fugaz
Nada fica e tudo esmorece
Tudo passa e não satisfaz

Nada é certo e tudo é incerto
Assim gira o que da vida pensamos
Querendo segurar o que segurar não podemos
Que tudo é incerto é o que de certo temos

E mais não é e para pouco serve
O que de certo temos no incerto
Desta vida o incerto leve como certo

O desconcerto deste mundo
É já desacerto no meu lembrar
No concerto incerto de sonhar
O que por certo tomei no teu olhar


Fernando Martinho Guimarães
Ponta Delgada, 2016-06-10


Ao desconcerto do mundo, Camões, ilustração de Marta Madureira, 2012
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