terça-feira, 14 de junho de 2016

Cada palavra dita é a voz de um morto. (Fernando Pessoa)







Há um poema inédito de Pessoa num caderno de viagem


“Cada palavra dita é a voz de um morto” é o primeiro verso deste poema agora revelado pela Folha de S. Paulo, numa versão integral e limpa, num caderno de viagem do escritor e crítico José Osório de Castro Oliveira. 

Afinal, o “baú” de Fernando Pessoa continua a reservar-nos surpresas. Esta não saiu directamente da famosa arca do autor de Mensagem, antes saltou do outro lado do Atlântico, numa notícia revelada este sábado pela Folha de S. Paulo: um poema inédito de Pessoa foi encontrado num singular caderno de viagem vendido por um alfarrabista português ao bibliófilo (pessoano) e advogado brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, autor de Fernando Pessoa - Uma quase-autobiografia (editado em 2012 em Portugal pela Porto Editora).
“Cada palavra dita é a voz de um morto” é o primeiro verso deste poema, de resto já compulsado na recolha feita por João Dionísio na edição de 2005 da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Poemas de Fernando Pessoa: 1915-1920. Só que a versão que agora veio a lume é anterior e substancialmente diferente da já publicada, e tudo leva a crer que é a versão definitiva do poeta. Foi escrita, aparentemente de uma só penada, em 1918 – tinha Pessoa 30 anos.
O “livro de autógrafos” em causa foi adquirido por Cavalcanti Filho, por uma soma não divulgada, junto de um alfarrabista, que não terá tido consciência da importância do seu conteúdo. Num caderno com capa de couro vermelho, e a inscrição, em letra desenhada, “No alto mar, a bordo do König Wilhelm II”, um adolescente de apenas 13 anos foi registando, ao longo de uma viagem entre o Brasil e Portugal, em 1913, algumas recordações dos seus companheiros de travessia. O referido jovem era José Osório de Castro Oliveira (1900-1964) – filho de Ana de Castro Osório (1872-1935), escritora, militante republicana e activista pelos direitos das mulheres –, que se tornaria depois um eminente jornalista, poeta e crítico literário – publicou, em 1922, um ensaio sobre Oliveira Martins e Eça de Queirós.
Na folha escrita por Fernando Pessoa, alguns anos depois da viagem de Castro Oliveira a bordo do König Wilhelm II, o poema em causa mantém os dois primeiros versos da versão até agora conhecida  “Cada palavra dita é a voz de um morto./ Aniquilou-se quem se não velou”  e, depois, dois outros versos. “Os demais foram reescritos – em alguns casos, alterando radicalmente o próprio sentido original do texto. Ou foram excluídos. Com numerosos acréscimos. Tudo a resultar em algo novo”, escreve José Paulo Cavalcanti Filho num texto publicado pela Folha de S. Paulo e que acompanha a notícia da descoberta e que será publicado em Portugal pelo JL- Jornal de Letras como explicou ao PÚBLICO José Paulo Cavalcanti Filho poremail. 
O autor da notícia, Maurício Meireles, avança que esta é “a única versão íntegra e clara do poema”, e infere daqui tratar-se da “versão final do texto” de Pessoa. A Folha de S. Paulo cita também os nomes de dois reputados pessoanos, Richard Zenith e Jerónimo Pizarro, que admitem a veracidade e ineditismo da descoberta.
“É a caligrafia de Pessoa, sim. Ele devia ter dois ou três rascunhos e, como tinha que deixar uma lembrança nesse caderno, pegou os papéis e registou uma versão mais limpa. A descoberta esclarece muito a situação do poema”, diz Pizarro ao jornal brasileiro.
No seu testemunho à Folha de S. Paulo, José Paulo Cavalcanti Filho – autor de Fernando Pessoa, uma quase-autobiografia (Porto Editora, 2012), e que neste ano adquiriu num leilão uma secretária e a máquina de escrever do poeta – reconstitui a história da viagem transatlântica de 1913 e as circunstâncias em que José Osório de Castro Oliveira reuniu os testemunhos de alguns dos passageiros do König Wilhelm II. (E explica que este foi o mesmo navio em que Pessoa chegou pela primeira vez a Lisboa, com a sua família, vindos de Durban, na África do Sul, em Setembro de 1901).
Entre os viajantes, além do autor dos heterónimos e outros passageiros anónimos, encontravam-se também três figuras que haveriam de deixar marca na geração do Orpheu e do modernismo português, como Luiz de Montalvor, director do 1.º número desta revista, Augusto Ferreira Gomes, colaborador do 3.º número, que já não chegou a sair do prelo, e Luiz Pedro Almeida, advogado e amigo de Pessoa.
Já sobre o poema de Pessoa, que ocupa a última página do “livro de autógrafos” de José Osório de Castro Oliveira – que depois se tornaria amigo próximo de Pessoa , Cavalcanti Filho vê no seu primeiro verso um reflexo das inúmeras perdas familiares que o poeta já sofrera nessa data, lembrando, de resto, que “o tema da morte é recorrente” na sua obra. E cita, como exemplo, este verso de Álvaro de Campos: “A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida” .

O poema
Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velouQuem na voz, não em si, viveu absorto.Se ser Homem é pouco, e grande sóEm dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.




Notícia corrigida às 21h22: o poema não foi escrito na travessia do Atlântico, em 1913, mas em 1918



Bibliófilo encontra versão inédita de poema de Fernando Pessoa

MAURÍCIO MEIRELES
COLUNISTA DA FOLHA

Pessoa, em 1929, em foto do livro 'Fernando Pessoa. Uma Fotobiografia', de Maria José de Lancastre

A crise econômica em Portugal, que começou em 2008, fez surgir nos alfarrabistas –os sebos lusitanos– raridades de um tempo perdido. Documentos e livros raros de colecionadores, quase sempre anônimos e precisando de dinheiro, brotaram da poeira dos séculos.

Quem pode faz a festa nessas horas. Foi o caso do bibliófilo e advogado brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho. No ano passado, ele recebeu a ligação de um alfarrabista português, que queria vender um "livro de autógrafos" com um manuscrito de Fernando Pessoa na última página.

Alfarrabista é bicho esperto, mas às vezes se engana. É verdade que nem Cavalcanti se deu conta, mas a poesia no caderno, que começa com "Cada palavra dita é a voz de um morto" –aparentemente conhecida–, é uma versão inédita de texto do qual até hoje só se conheciam rascunhos.

Um dos rascunhos do poema no acervo de Pessoa


Também é a única versão íntegra e clara do poema. Para se ter ideia, mesmo quem não é especialista na caligrafia de Pessoa –que escrevia garranchos, às vezes bêbado– consegue lê-la. Conclui-se, do documento, que o escritor registrou ali a versão final do texto. Nem o acervo do autor, guardado na Biblioteca Nacional de Portugal, tem a poesia.

O caderno ainda guarda uma história inusitada. Ele pertenceu a o intelectual português José Osório de Castro e Oliveira. Aos 13 anos, em 1913, viajando do Rio a Lisboa, ele pedia para os passageiros escreverem o que quisessem.

O navio König Wilhelm 2º, no qual estava Osório, era o mesmo em que Fernando Pessoa foi da África do Sul para Lisboa em 1901.

Jeca, como sua mãe lhe chamava, cresceu e continuou a usar o caderno. Em 1918, pediu a Pessoa para escrever algo –e ganhou o poema.

"Nem o dono do caderno nem o alfarrabista sabiam que o poema era inédito. Senão, teria custado três vezes mais", conta Cavalcanti, que não revela o valor pago. Antes disso, ele –que tem uma das maiores coleções privadas de Pessoa do mundo – já havia comprado a mesa e a escrivaninha do poeta por 95 mil euros (hoje R$ 365 mil).

O poema inédito encontrado agora
Nem o bibliófilo se deu conta do que tinha em mãos. Ele diz que foi depois de uma conversa com Richard Zenith, um dos principais estudiosos da obra pessoana no mundo, que resolveu checar.

A fonte de consulta nessas horas são as edições críticas com a obra de Pessoa que a Casa da Moeda lusitana tem publicado nas últimas décadas. Quem olha o volume organizado por João Dionísio, em 2005, com poemas de 1915 a 1920, pode atestar que a versão no documento é inédita –e sem lacunas, como as conhecidas até hoje.

Por via das dúvidas, a Folha pediu a Jerónimo Pizarro, pesquisador da Universidade de Los Andes, na Colômbia, e líder de uma nova geração de estudiosos da obra do poeta, para avaliar uma imagem do documento.

"É a caligrafia de Pessoa sim. Ele devia ter dois ou três rascunhos e, como tinha que deixar uma lembrança nesse caderno, pegou os papéis e registrou uma versão mais limpa. A descoberta esclarece muito a situação do poema", afirma Pizarro.

*

O poema

Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.


A primeira página do caderno de autógrafos do colecionador José Paulo Cavalcanti


Poema inédito de Fernando Pessoa é encontrado em caderneta

Revelação é feita por biógrafo na véspera do dia de aniversário do poeta




POR JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO

A descoberta de um inédito. Quem escreve sobre algum autor, durante longo tempo, sempre sonha encontrar um inédito dele. Pelo só prazer de ter feito a descoberta. Ou por imaginar que o destino conspirou para que assim tenha sido. Este caso de agora é curioso. Trata-se de um caderno de autógrafos que vai trocando de mãos. Sem que nenhum dos seus anteriores proprietários se tenha dado conta de que o texto de Pessoa, ali escrito, era mesmo um inédito. Talvez porque, em 2005, algo que seria um como que rascunho dele tenha sido publicado em Poemas de Fernando Pessoa, 1915-1920, numa edição de João Dionísio para a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, em Portugal. Pensava-se, era mesmo natural, que seria o tal poema sem título que começa pelo verso Cada palavra dita é a voz de um morto. Mas desse rascunho, publicado antes, Pessoa manterá só os dois primeiros versos.
E outros dois, em seguida. Os demais foram reescritos – em alguns casos, alterando radicalmente o próprio sentido original do texto. Ou foram excluídos. Com numerosos acréscimos. Tudo a resultar em algo novo. Para compreender como isso aconteceu, é preciso O caderno de couro vermelho. Em 29 de janeiro de 1913, o jovem José Osório de Castro e Oliveira está No alto mar, a bordo do König Wilhelm II – assim, com letra desenhada de quem acabara de fazer 13 anos, escreve na primeira página daquele caderno.
Presente de sua mãe, Ana de Castro Osório (pioneira na luta pela igualdade dos sexos, em Portugal), por ocasião do aniversário de seu filho Jeca (apelido pela qual o chama), ocorrido há dois dias. Como recordação de sua viagem de regresso à formosa Terra da Pátria, escreve ela. O pai, Paulino e Oliveira, poeta e ativo membro do Partido Republicano, depois de frustrada rebelião em que participou, está residindo no Brasil (onde morreria pouco depois, de tuberculose, em 13 de março de 1914). Apenas mãe e filho viajam, de volta a Portugal.
No alto dessa primeira página está um selo do Deutsches Reich (com carimbo da Linie Hamburg Südamerika, de 30 de janeiro de 1913). E pouco abaixo, escrito à mão, Livro de Autógrafos. No canto inferior esquerdo há hoje, colado, um ex-libris com desenho de castelo cristão medieval com quatro torres e a inscrição, numa bandeira, Força na Paz.
Colada posteriormente, tem-se a impressão. Dado refletir sentimento comum no país a partir da Primeira Guerra, sobretudo. Marca pessoal do José Osório, talvez (a conferir). Seja como for, era mesmo algo então natural, dado ser o ex-librismo usado com frequência no século XIX/princípios do século XX.
Em consulta ao Serviço do Correio Imperial Alemão, se vê que essa companhia transatlântica usava dois grandes navios na rota América do Sul (Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro) – Europa (Lisboa, Hamburgo). O König Friedrich August e o dito König Wilhelm II. A imprensa de Lisboa anunciou em 1º de fevereiro de 1913, um sábado, que este último estava no porto. Vinha do Rio. E seguiria, depois, na direção da Alemanha. Ali, nas gares marítimas de Alcântara, desceram José Osório e sua mãe.
Curioso é que a bordo desse mesmo König Wilhelm II Fernando Pessoa, em férias sabáticas do padrasto, veio pela primeira vez de Durban para Lisboa. Malhas que o Império tece!, disse n’O menino de sua mãe. O jornal O Século de 14 de setembro de 1901 (pág. 4) faz constar: No navio alemão König, vieram de Durban o cônsul [João Miguel dos Santos] Rosa e 3 filhos – que seriam Pessoa (com 13 anos), a irmã Teca (com 5) e o irmão Luiz (com 2). Faltaram, nessa relação, a mãe de Pessoa, dona Maria Magdalena Pinheiro Nogueira; a ama Paciência; e também, para serem enterrados em Portugal, os ossos (ou talvez fossem as cinzas) de uma irmã morta de Pessoa, Magdalena Henriqueta.
Anotações. O jovem José Osório começa, então, a colecionar depoimentos de viajantes daquele navio. Quase todos desconhecidos. Uma argentina, R. (mais sobrenome ilegível), o chama de simpático portuguesito (29 de janeiro de 1913). Outra, Maria Lia Lobo, de simpático compañero (31 de janeiro de 1913). Um argentino, J. Auber, escreve conselhos si tu veux devenir um bonito rapaz (31 de janeiro de 1913). Há mais, no caderno, instigante coincidência. Uma anotação, de 1º de fevereiro de 1913, dirigida Ao meu sobrinho adoptivo José Osório. Assinada por Manuela Nogueira. Uma homônima da sobrinha verdadeira de Pessoa, autora bem conhecida em Portugal. Inquirida sobre esse fato, declarou dona Manuela Nogueira jamais ter ouvido falar de alguém que tivesse o seu mesmo nome. Fica o mistério. Como ensina uma das Regras da Vida de Pessoa, Felizes aqueles para quem o mistério se resume em Padre, Filho e Espírito Santo. Deles é a felicidade.
O menino cresce. Nascido em Setúbal (27 de janeiro de 1900), ainda cedo José Osório se destaca como jornalista, crítico literário e ficcionista. Mais tarde se tornaria escritor de renome, com prefácios usualmente assinados por seu irmão João de Castro Osório. Primeiro ensaio foi Oliveira Martins e Eça de Queiroz (1922). Depois, mais dez livros. Inclusive, editado no próprio ano de sua morte (Lisboa, 3 de dezembro de 1964), História breve da literatura brasileira. Em 1917, já com 17 anos, dá início a publicações literárias nas páginas do jornal A capital. A partir dos anos 1930, torna-se um divulgador da literatura cabo-verdiana e defensor da aproximação entre Portugal e Brasil. Casado com a escritora Raquel Bastos, em 1930, sua filha Isabel (Maria Bastos Osório) de Castro (e Oliveira) foi atriz de sucesso, com vários prêmios no teatro e na televisão, tendo participado em cerca de 50 filmes.
Novas anotações. A partir de 1915, José Osório decide aproximar-se das letras. E usa seu caderno para colher mais depoimentos. Como, sem data, o de Carmem de Burgos (e Segui, Almería, 1867 – Madrid, 1932), que discorre sobre o interesse pela arte. Carmem – jornalista, escritora e ativista dos direitos da mulher espanhola – era, certamente, próxima da mãe de José Osório, Ana Castro. (Artur Ernesto de Santa) Cruz Magalhães (Lisboa, 1864-1928) deixa (também sem data) enigmática frase – Ser bom é saber sofrer.
Talvez uma reflexão sobre sua própria vida. Cruz Magalhães, com numerosos livros publicados, é responsável (sem colaboração do governo) pelo magnífico Museu Bordalo Pinheiro, instalado num anexo de sua residência – na Rua Oriental do Campo 28 de Maio (atual Campo Grande), em Lisboa. E veio a morrer, pouco depois, sem jamais ter tido o reconhecimento que imaginava merecer. Contando-se ainda, nessa relação, três nomes importantes do “Primeiro Modernismo” – que nasceu com a geração da revista Orpheu. A Luiz de Montalvor. Em 1917, Montalvor escreve, no caderno, sobre tempos anteriores à Restauração Portuguesa. E finda com essa afirmação: Filippe II foi o Rembrandt do claro-escuro da Morte... Luiz da Silva Ramos, seu nome verdadeiro, foi assessor de Bernardino (Luís) Machado (Guimarães), Ministro Plenipotenciário de Portugal (em 1912-1915) no Rio de Janeiro, cidade em que nasceu. O mesmo Bernardino que, depois, foi Presidente da República por duas vezes – em 1915/1917 e 1925/1926. Um carioca Presidente de Portugal... Pessoa, que tinha opiniões críticas sobre nosso país (E tu Brasil,“república irmã”, blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir – assim disse no Ultimatum), deve ter se divertido com isso. Montalvor, que dirigiu (foi, também, responsável pela introdução) o primeiro número da revista Orpheu, depois dirigiria a revista Centauro. E seria responsável, juntamente com João Gaspar Simões, pela edição das Obras Completas de Pessoa, pela Editora Ática, sete anos depois da morte do amigo – por ele definido como O Ícaro de um sonho. Mais tarde (2 de março de 1947), em gravíssima crise financeira e com problemas familiares, lança-se com seu carro no Tejo. Junto com mulher e filho.
Augusto Ferreira Gomes. Em maio de 1917, Gomes deixa no livro seu poema Hydromel, que começa pelo verso Meu elmo já não brilha em tardes de parada. Augusto Ferreira (de Oliveira Bogalho) Gomes foi administrador das minas do Porto de Mós, jornalista, especialista em artes gráficas e também poeta que escreveu para as revistas Orpheu 3 (que nunca seria editada), Contemporânea e Athena (dirigida por Pessoa). Seu livro Quinto Império teve prefácio escrito por Pessoa. Acabaram se aproximando a partir do interesse de ambos pelo misticismo. Ou pela crença comum na Utopia do Quinto Império. E continuaram amigos, em Lisboa, inclusive depois que Gomes passou a ter relações mais próximas com o primeiro ministro António de Oliveira Salazar. Enquanto Pessoa, ao tomar as dores da Maçonaria, escrevia poemas (censurados) como Liberdade (em 16.3.1935), dizendo que Mais que isto/ É Jesus Cristo/ Que não sabia nada de finanças – sutil crítica àquele que um dia foi professor de Ciências da Finanças, em Coimbra. Ou esse (um dos três escritos em 29 de março de 1935, com título único de Salazar), assinado pelo heterônimo Um Sonhador Nostálgico do Abatimento e da Decadência – nome inspirado em discurso de Salazar, na entrega dos prêmios (em 21 de fevereiro de 1935) num concurso em que Mensagem ganhou o Prêmio Antero de Quental para poesias curtas:
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, com os diabos!
Parece que já choveu.
Luiz Pedro Moitinho de Almeida era filho do patrão de Pessoa na Casa Moitinho, onde foi escrita a Tabacaria. Essa tabacaria, só para constar, era a Habaneza dos Retrozeiros – situada na esquina da Rua da Conceição (então dos Retrozeiros) 63/65 com a Rua da Prata 65. Onde hoje está a Pelaria Pampas, especializada em vender artigos de couro argentino. E não A Morgadinha (como consta na maioria dos textos portugueses), situada esta na Rua Silva Carvalho 13/15. Bem próxima do apartamento de Pessoa. O engano se deve aos versos Janelas do meu quarto/ Do meu quarto de um dos milhões do mundo... Algo mesmo natural, posto que seria das janelas desse quarto que saudava o amigo íntimo (Joaquim) Esteves, à porta daquela tabacaria, em conversa com seu proprietário (Manuel Alves Rodrigues). Mas se trata de algo impossível. Porque o quarto em que dormia Pessoa na Rua Coelho da Rocha 16 (em Campo de Ourique), para evitar o frio responsável por suas frequentes crises de gripe, nunca teve janelas. Como confirmaram sua sobrinha Manuela Nogueira (que ocupava o quarto da frente, aquele com janelas) e António Manassés (filho do barbeiro de Pessoa – que acompanhava o pai quase todos os dias àquele quarto, para a barba).
E nem poderia, mesmo. Porque dita A Morgadinha seria constituída só em 3 de junho de 1958 (registro 32.082 na Conservatória do Registro Comercial). Enquanto o poema foi escrito bem antes, em 1928 (publicado, em junho de 1933, no número 39 da revista Presença). Voltando a Luiz Pedro, é dele o depoimento de que O Augusto Ferreira Gomes deixou-me a impressão de ser o melhor amigo de Pessoa – ou, pelo menos, aquele com quem Pessoa mais frequentemente privava.
Augusto participaria, também, no estranho episódio do suicídio do mago inglês Aleister Crowley. Nascido Edward Alexander Crowley, em criança cuspia na água benta e martirizava moscas para desafiar Deus. Consta que matou um indígena, no Oriente, para sentir o prazer de gosto para ele até então desconhecido. Um místico e charlatão que chegou a ser considerado, pelos jornais britânicos, o pior homem da Inglaterra. Crowley veio a Portugal, em 2 de setembro de 1930, para se encontrar com Pessoa – quando estava era em fuga dos credores pela falência da sua editora, a Mandrake Press. E ter-se- ia, segundo o Diário de Notícias de Lisboa (27 de setembro), suicidado no Mata-cães de Cascais. O mesmo Augusto (ligado ao jornal), em divertida trama com a participação de Pessoa, declarou ter encontrado, no local do (suposto) suicídio, uma cigarreira que seria do Mago (na verdade emprestada, para a encenação, pelo cunhado de Pessoa, Caetano Dias – que a comprara em Zanzibar). E um bilhete, em papel timbrado, do primeiro dos hotéis em que ficou (o L’Europe). Escrito por códigos e assinado Tu Li Yu. Quando Crowley, em 23 de setembro, atravessava placidamente a fronteira de Vilar Formoso, na direção da Alemanha – onde já estava, à espera, sua amante (de 19 anos) Hanni Larissa Jaeger.
O poema de Fernando Pessoa. A última página do caderno foi escrita por Pessoa. Ele e José Osório foram bons amigos, pela vida. Ficaram na Arca (de Pessoa) cópias de duas cartas que lhe escreveu. Uma de 14 de maio de 1932, em que Pessoa promete-lhe artigo sobre Goethe. E outra, sem data (mas seguramente de 1932), respondendo pergunta de José Osório: Quais foram os livros que o banharam numa mais intensa atmosfera de energia moral, de generosidade, de grandeza de alma, de idealismo? Pessoa diz terem sido, Em minha infância, e primeira adolescência... Pickwick Papers, de Dickens... Em minha segunda adolescência,... Shakespeare e Milton, assim como acessoriamente, aqueles poetas românticos ingleses... talvez Shelley, aquele com cuja inspiração mais convivi. E, no que posso chamar de terceira adolescência a... Dégénérescence, de Nordau. Findando a carta com indicação, escrita por Pessoa, de que O paradoxo é meu: sou eu. Sem mais notícias da relação entre os dois. Sabe-se, apenas, que José Osório não foi ao enterro de Pessoa (em 2 de dezembro de 1935, no Cemitério dos Prazeres).
Cada palavra dita é a voz de um morto, assim começa o poema. Difícil imaginar em que pensava, quando escreveu o verso. Talvez se lembrasse da já vasta legião de perdas que o assustavam: Os fantasmas de meus mortos eus, como definiu em The mad fiddler. O pai morre tuberculoso, em Lisboa, quando tem apenas cinco anos (1893). O irmão Jorge (1894), também tuberculoso, sem ter um ano de vida. A avó materna, Magdalena Pinheiro Nogueira (1896), na Ilha Terceira. O tio Manuel Gualdino da Cunha (1898), em Pedrouços. Duas irmãs – Magdalena Henriqueta (1901), em Durban; e Maria Clara (1906), em Lisboa. A querida avó paterna Dionísia (1907), que sofria de “loucura rotativa”, no hospício de Rilhafoles. A mãe do padrasto, dona Henriqueta Margarida Rodrigues (1909), numa casa de saúde em Belas. A tia-avó Maria e a tia-avó Adelaide (1911), em Lisboa. O amigo Sampaio Bruno (1915), em Lisboa – o mesmo que, para Pessoa, morreu logo que morreu. A tia-avó Rita (1916), em Pedrouços. E, finalmente, o querido Sá-Carneiro (Lisboa, 1890 – Paris, 1916), sua mais sólida e duradoura amizade. A Pessoa deixou bilhete, quando se suicidou no Hotel de Nice (hoje des Artistes), na zona do Butte Montmartre, em 26 de abril:
Um grande, grande abraço do seu pobre Mário de Sá Carneiro. Pessoa lhe dedica poema (Sá-Carneiro) em que diz Éramos só um.
O tema de morte é recorrente, na obra de Pessoa. Alguns exemplos, só para constar. A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida! (Passagem das horas, Álvaro de Campos). Agora que estou quase na morte vejo tudo já claro (Dois excertos de ode, A.C.). Não sentem o que há de morte em toda a partida./ Do mistério em toda chegada,/ De horrível em todo o novo (Nuvens, A.C.). Sou já o morto futuro,/ Só um sonho me liga a mim –/ O sonho atrasado e obscuro/ De que eu devera ser – muro/ Do meu deserto jardim (O Andaime, Fernando Pessoa).
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços/ E chama-me teu filho (Abdicação, F.P.). Primeira Veladora: Por que é que se morre?/ Segunda Veladora: Talvez por não se sonhar o bastante (O marinheiro, F.P.). Muitos outros. Como, agora se vê, está nesse poema inédito. Superior. À altura do melhor Pessoa. E que segue, aqui, como prova de devoção.
Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou,
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou;
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.
19.IX.1918.

* José Paulo Cavalcanti Filho é autor de “Fernando Pessoa, uma quase autobiografia” (Record).


O escritor Fernando Pessoa.


O mais belo autógrafo de Fernando Pessoa

Um poema do escritor português é descoberto na última página do diário de um intelectual


No baú de Fernando Pessoa não cabe tudo de Fernando Pessoa. Um poema escrito em 1918, quando o escritor tinha 30 anos, foi descoberto no Brasil, segundo o jornal Folha de S. Paulo. Como muitas vezes acontece com as histórias do escritor, o breve poema interessa mais por suas circunstâncias do que pelo texto literário, já publicado, embora em uma versão, como pode ser verificado agora, menos definida.
O advogado brasileiro José Paulo Cavalcanti, maior colecionador de objetos e textos de Pessoa, recebeu de um antiquário uma oferta com um diário de viagens que, em sua última página, incluía um poema de Pessoa. Cavalcanti, autor de Fernando Pessoa, Uma Quase Autobiografia (Editora Record, 2011), o adquiriu para sua coleção sem avaliar a transcendência do poema e se a letra era ou não do genial escritor.
Cada palavra dita é a voz de um morto”, começa Pessoa. “A verdade é que esse poema é como um sinal do destino, um tiro na consciência”, diz Antonio Sáez Delgado, professor da Universidade de Évora e especialista nas obras de Pessoa.
Em 1913, com 13 anos, o futuro intelectual português José Osório de Castro e Oliveira estava viajando no transatlântico König Wilhelm II, do Rio de Janeiro a Lisboa. Para se distrair durante a travessia, pedia aos viajantes que escrevessem em em seu livro de autógrafos. Era 1913, mas a última página, escrita à mão por Pessoa, data de 1918.
Naqueles tempos, os mares não eram atravessados por muitos navios; de fato, em 1901, Pessoa havia embarcado no mesmo König Wilhelm II para se deslocar da África do Sul a Portugal. Por isso, esse barco e os tempos mais tranquilos tornaram possível que o caderno reunisse depoimentos de vários anos. Também não eram frequentes reuniões de intelectuais, de modo que Osório e Pessoa coincidiram em muitas delas, descobriram que haviam viajado juntos no König e acabaram se tornando bons amigos.
Sáez acrescenta uma coincidência: “Osório era filho de Ana de Castro, republicana e feminista, e um dos contatos mais próximos em Lisboa de Carmen de Burgos, cujo pseudônimo era Colombine, e de Ramón Gómez de la Serna. Na verdade, Colombine também aparece no caderno. Carmen de Burgos publicou uma série de artigos em 1920 e 1921 na revistaCosmópolis, de Madri, dedicados à nova literatura portuguesa e escreve, em As Escritoras, de 1921, sobre Ana de Castro Osório. Um novo elo que coloca Pessoa e os escritores espanhóis no mesmo contexto”.
Desvendada a história do livro de autógrafos, resta saber a importância literária. Joaquín Pizarro, autor da versão mais recente de O Livro do Desassossego, organizado em ordem cronológica, confirma a autenticidade do texto e da caligrafia, mas esclarece que não é inédito.
O poema foi publicado pela primeira vez em 2005, pela Casa da Moeda, emVolume de Poesia 1915-1920, que compila 300 poemas. “É uma nova versão, diferente, mais completa, que resolve problemas de leitura, e isso para mim é importante”, destaca Pizarro, que está em Lisboa para dar um seminário na fundação do escritor. “Há três ou quatro versões, mas este verso é mais bonito, mais definitivo.”
Os primeiros dois versos do texto descoberto são iguais aos já publicados, mas os 10 restantes sofreram uma grande mutação, ao ponto de alterar o sentido geral do poema.
Pizarro afirma que não era raro Pessoa escrever em objetos de outras pessoas. “Por isso utilizava muito os livros de autógrafos. Já temos dois ou três casos, como o livro de assinaturas de Moutinho-Almeida, onde trabalhou, ou em bilhetes com os quais pagava suas águas-ardentes nos bares.”
O colombiano é um dos grandes especialistas em pessoalogia, atualizando edições com base em descobertas nesse baú de originais de Pessoa, que parece infinito. Pizarro revolucionou a pesquisa sobre o escritor ao organizar seus textos de forma cronológica, e não por assunto ou pseudoautores. Nesta semana, Pizarro apresenta nas livrarias de Lisboa sua versão de Obra Completa de Alberto Caeiro, um dos heterônimos nos quais Pessoa se transfigurava.
“Já vejo a descoberta com outra perspectiva”, disse Pizarro, “porque ainda há milhares de inéditos”. “Seria possível publicar um por dia; mas este é interessante por pertencer a uma época em que Pessoa escrevia muito.”
Pizarro anuncia mais novidades sobre Pessoa: “Haverá mais inéditos. A família ainda tem muito material; nem tudo foi leiloado em 2008; embora recentemente tenha doado 80 volumes, estimo que ainda existam mais 800, e alguns estão sendo vendidos por debaixo do pano”.

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