sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Nuno Júdice: a infância, a vida e o ser, o amor



Segundo Arnaldo Saraiva, a poesia de Nuno Júdice surge integrada na tradição literária romântica e simbolista. A escrita deste poeta apresenta como características fundamentais: o eu hiperbolizado e atrofiado; a poética do desassossego e da inspiração; a analogia universal (sentimentos humanos/sentimentos do universo); cenários outonais, arruinados ou crepusculares.
Noémia Jorge, Preparação para o Exame Nacional Português 10, Porto, Porto Editora, 2013






Características temáticas e discursivas da poesia de Nuno Júdice

  • A infância




A TERRA DO NUNCA

Se eu fosse para a terra do nunca,
teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

os sonhos que ninguém teve quando
o sol se punha de manhã;

a rapariga que cantava num canteiro
de flores vivas;

a água que sabia a vinho na boca
de todos os bêbedos.

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,
numa estrada de nuvens.

E quando chegasse ao céu, pisaria
as estrelas caídas num chão de nebulosas.

A terra do nunca é onde nunca
chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

E é por isso que a apanho do chão,
e a meto em sacos de terra do nunca.

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,
despejarei todos os sacos à sua porta.

E a rapariga que cantava sairá da terra
com um canteiro de flores vivas.

E os bêbedos encherão os copos
com a água que sabia a vinho.

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se
quando nasce o dia.

Nuno Júdice, As coisas mais simples, Lisboa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2006

«Se eu fosse para a terra do nunca», começa assim o poema “A terra do nunca”, de Nuno Júdice. Verso que nos transporta, automaticamente, para a nossa infância, para a ilha fictícia de Peter Pan, personagem do ideário infantil que se recursou a crescer. A conjunção subordinativa condicional que inicia o poema remete-nos para o mundo do sonho, para o facto de estarmos perante uma situação hipotética, pois não é possível o regresso físico à nossa infância. Contudo, através da imaginação, e se tal fosse realmente possível, o que faria o sujeito poético? Como seria a terra do nunca? A resposta é dado ao longo do poema, com a apresentação de situações impossíveis - «teria tudo o que quisesse numa cama de nada:/ os sonhos que ninguém teve quando/ o sol se punha de manhã» (vv. 2-3); «Iria de bicicleta sem ter de pedalar,/numa estrada de nuvens.» (vv. 9 e 10); «teria (…) a água que sabia a vinho na boca/ de todos os bêbados» (vv. 7 e 8); «(…) pisaria/ as estrelas caídas num chão de nebulosas.» (vv. 11 e 12) - e com a presença de vocábulos e de expressões que contribuem para a caracterização deste mundo imaginado e com conotação positiva: «cantava» (v. 5), «nuvens» (v. 10), «céu» (v. 11), «estrelas» (v. 12), «flores vivas» (v. 20).
O seguinte dístico encerra o poema «Na terra do nunca, com o sol a pôr-se/ quando nasce o dia.», descrevendo uma situação impossível e contrária à realidade e reportando-se, possivelmente, à entrada no mundo da fantasia.

ASTRONOMIA

Vou buscar uma das estrelas que caiu
do céu, esta noite. Ficou presa a um
ramo de árvore, mas só ela brilha,
único fruto luminoso do verão passado.

Ponho-a num frasco, para não se
oxidar; e vejo-a apagar-se, contra
o vidro, à medida que o dia se
aproxima, e o mundo desperta da noite.

Não se pode guardar uma estrela. O
seu lugar é no meio de constelações
e nuvens, onde o sonho a protege.

Por isso, tirei a estrela do frasco e
meti-a no poema, onde voltou a brilhar,
no meio de palavras, de versos, de imagens.

Nuno Júdice, O Breve Sentimento do Eterno, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008

No soneto “Astronomia”, a evasão para a infância dá-se através de um mundo de fantasia que é construído à volta do “eu” poético.
Apesar de, no final do poema, conseguirmos compreender que estamos diante de uma reflexão sobre arte poética, todo o poema nos faz lembrar brincadeiras de criança, onde o impossível se torna possível: «Vou buscar uma das estrelas que caiu/ do céu, esta noite. » (vv. 1 e 2). O sujeito poético guarda esta estrela num «frasco», contudo, percebe que «Não se pode guardar uma estrela.» (v. 9), pois ela pertence ao céu, «onde o sonho a protege.» (v. 11).
Constatando este facto, o que faz o sujeito lírico com a estrela que apanhou? A resposta é dada no terceto final, onde tudo se desvenda: «meti-a no poema, onde voltou a brilhar, / no meio de palavras, de versos, de imagens.».
De forma muito simples, como se de uma brincadeira se tratasse, Nuno Júdice revela-nos como se produz um poema, num jogo de metáforas que aludem ao mundo do sonho.

  • A vida e o ser



Numa entrevista para o programa “Ler +, Ler melhor” (RTP Informação, 2012. Programa integrado no Plano Nacional de Leitura), Nuno Júdice afirmou, a propósito da sua poesia, que esta era “no fundo (…) uma reflexão sobre o mundo, sobre a vida, e sobre os homens, sobre todos nós.” De facto, os temas tratados em Nuno Júdice são transversais à condição humana, o que os torna intemporais.


TORRE DE BABEL

Antes de Babel,
todos os tradutores estavam no desemprego.

Antes de Babel,
a indústria dos dicionários estava falida.

Antes de Babel,
não havia Cervantes, nem Goethe, nem Alliance Française.

Antes de Babel,
a tradução simultânea estava entregue a papagaios.

Antes de Babel,
não havia: «Tens muito jeito para línguas.»

Antes de Babel,
até a serpente assobiava na língua de Eva.

Depois de Babel,
é que ninguém se entende.

Depois de Babel,
só o que os olhos dizem é o mesmo em todas as línguas.

Nuno Júdice, Guia de Conceitos Básicos, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2010


Em “Torre de Babel”, Nuno Júdice abre-nos uma janela de reflexão para a nossa vida em sociedade. Ao longo de oito dísticos, é-nos descrito o mundo antes de se ter construído a torre bíblica: «todos os tradutores estavam no desemprego», «a indústria de dicionários estava falida», «as escolas de línguas estavam fechadas», (…). Júdice parece entrar numa paródia, onde a descrição do antes nos permite caracterizar o presente.
No final do poema o poeta dá-nos o que faltava para o compreendermos na totalidade, descreve-nos, em dois dísticos, o que aconteceu «Depois de Babel»: «ninguém se entende» e «só o que os olhos dizem é o mesmo em todas as línguas». O poema permite uma discussão acerca da nossa sociedade contemporânea, refletindo acerca de valores e prioridades, levantando, ainda, questões éticas. Permite-nos uma reflexão, ainda, a respeito da dicotomia “ser” vs “parecer”, uma vez que os olhos nos são apresentados, no último verso, como o reflexo da realidade, a linguagem que fala a verdade.

  •  O amor



ANUNCIAÇÃO

Esperas que o anjo pouse, e te abrace
com o seu tédio de asas. Entregas-lhe
os teus lábios abertos como a flor
saciada de água. Abres-lhe o teu corpo,

para que ele pouse no copo dos teus
seios, e beba o licor da primavera.
«Quem és tu?» perguntas-lhe, «anjo
ou demónio?» E não te responde;

segura-te a mão; puxa-te para o
canto. Vais atrás dele, sem saber se
há regresso. Pedes-lhe que não olhe

para trás, que se esqueça do mundo.
E ambos se afastam, sem dar resposta,
como tivessem decidido, e o soubessem.

Nuno Júdice, O Breve Sentimento do Eterno, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008

No soneto “Anunciação”, Júdice remete-nos, inevitavelmente, para a dicotomia romântica “mulher-anjo” - “mulher-demónio”, que tanta tinta fez correr. O exagero das emoções e o tom confessional tão típicos da poesia romântica agradam ao público mais jovem, pois estamos perante uma fase de desenvolvimento de alguma hiperbolização.
O sujeito poético descreve a presença de um «anjo» que se aproxima de alguém, a quem esse alguém entrega os seus lábios «abertos como a flor/ saciada de água» (vv. 3 e 4) e, posteriormente, todo o seu corpo.
Na segunda quadra, é questionada a identidade deste «anjo»: «’Quem és tu?’ perguntas-lhe, ‘anjo/ ou demónio?’», não havendo qualquer resposta por parte deste interveniente misterioso. O «anjo» apodera-se deste ser (apresentado vulnerável perante esta figura soberba) e afastam-se, «…sem dar resposta./ Como tivessem decidido, e o soubessem.».
O poema retrata, na perfeição, a entrega sem limites e sem hesitações de dois seres que se amam. Não pensam nas consequências, esquecem o mundo circundante - «Pedes-lhe que não olhe/ para trás, que se esqueça do mundo» (vv. 11 e 12) – e vivem inteiramente um para o outro. Não é este o mundo em que mergulhamos quando a palavra de ordem é “paixão”, tão típica dos amores adolescentes?


AUSÊNCIA

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais — um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refração de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim — e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói. 

Nuno Júdice, Pedro, Lembrando Inês, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001

O poema “Ausência” é, também, um poema de amor (se podemos assim o classificar, de forma simples e concreta). Conquanto, como o próprio título deixa antever, os sentimentos aqui ilustrados advêm da ausência de um “tu” poético, dando o amor lugar a sofrimento.
O sujeito poético, perante a ausência do “tu”, apercebe-se da diferença entre sonho e realidade, pertencendo o “tu” da enunciação a um passado que agora só se realiza em sonho, diante, no entanto, da consciência da realidade: «… quando nos damos conta da/ diferença entre sonho e a realidade. Porém, / é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que/ os dias correm mais depressa» (vv. 11 e 12).
O poema termina exatamente como começou: «dizer que a tua ausência me dói». De forma muito assertiva, o “eu” poético afirma que tem um objetivo principal: «Quero dizer-te uma coisa simples: a tua/ ausência dói-me» (vv. 1 e 2). É «simples» de compreender e «simples» de anunciar, mas complexo em todo o sentimento que desencadeia, como é a própria definição do amor (Recorde-se, a este propósito, a tentativa de definição do Amor no soneto camoniano “Amor é fogo que arde sem se ver”.)
“Ouvimos”, na epopeia camoniana, os apelos de Inês de Castro e a declaração do seu amor por D. Pedro e pelos filhos de ambos; “ouvimos” as reflexões do poeta e deixamo-nos comover por esta história de amor, tomando o partido de D. Pedro aquando da vingança contra os «terríficos algozes». Júdice não nos apresenta o D. Pedro justiceiro, apresenta-nos o D. Pedro apaixonado, investe o “Cru” da sensibilidade que o levou a tomar determinadas atitudes. É este D. Pedro que existe em cada homem apaixonado, pelo que o poema não se reporta apenas ao tempo histórico que evoca, investe-se de uma intemporalidade perfeita, resumindo o amor àquilo que é, na sua
essência, independentemente dos contextos socioculturais: «Mas é isto o amor: / ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua/ voz que abre as fontes de todos os rios» (vv. 9 – 11).
A parte final do poema é, nitidamente, uma declaração de amor (do “eu” para o “tu”, de forma direta, e do “tu” para o “eu” de forma indireta), revestindo-se de universalidade e transpondo por completo o tempo histórico evocado pelo título da composição: «Tu: / a primavera luminosa da minha expetativa, / a mais certa certeza de que gosto de ti, como / gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.».

A Receção do Texto Poético: Nuno Júdice nas aulas de Português, Sandra Macedo Santos Ferreira.  Dissertação de Mestrado em Estudos Portugueses, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2014.





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