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| Ilustração de Sónia Oliveira, 2013 |
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira
a pobre e cheira
À roupa do seu
corpo
Aquela roupa
Que depois da
chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham
outra
Porque cheira a
pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor
não foi lavada
Porque não tinham
outra
"Ganharás o
pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi
imposto
E não:
"Com o suor
dos outros ganharás o pão"
Ó vendilhões do
templo
Ó construtores
Das grandes
estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de
devoção e de proveito
Perdoai-lhes
Senhor
Porque eles sabem
o que fazem
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)
Neste poema denuncia-se a exploração social dos mais pobres.
A
expressão “as pessoas sensíveis” é irónica, porque as pessoas descritas ao longo
do poema, ao viver da exploração dos que trabalham, não são, por isso, sensíveis em relação ao próximo. É precisamente a utilização do advérbio conectivo
"Porém", com valor adversativo, na primeira estrofe, que evidencia a intenção crítica do
sujeito poético em relação à hipocrisia das pessoas ditas “sensíveis”.
Na segunda
estrofe, o sujeito poético denuncia as condições precárias em que algumas
pessoas vivem, que só têm uma roupa que seca no corpo, quer quando chove quer
quando fica suada. Portanto, cabe aos pobres o trabalho de matar as galinhas
para os ricos comerem, dando-lhes de bandeja o produto do seu trabalho. É por
isso que “O dinheiro cheira a pobre” - expressão esta que subentende a crítica ao comportamento
das “pessoas sensíveis” que desprezam o cheiro a suor de quem trabalha por elas
e para elas. Nesta linha de pensamento, o sujeito poético mostra-se contundente
na terceira estrofe, quando denuncia inequivocamente a exploração dos
trabalhadores humildes por aqueles que só pensam no lucro, tais como os “vendilhões
do templo” invocados na quarta estrofe, bem como todos aqueles que apregoam os valores
defendidos pela religião, mas que vivem em função dos bens materiais.
Relembrando a afirmação de Jesus Cristo no Gólgota, no momento da crucificação, “Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem", o sujeito poético procede a uma distorção destas palavras no último dístico do poema. Ao contrário da referência bíblica, estas “pessoas sensíveis” estão a ser julgadas por algo que fizeram conscientemente e, por isso, não há perdão para a sua falta de escrúpulos.
Relembrando a afirmação de Jesus Cristo no Gólgota, no momento da crucificação, “Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem", o sujeito poético procede a uma distorção destas palavras no último dístico do poema. Ao contrário da referência bíblica, estas “pessoas sensíveis” estão a ser julgadas por algo que fizeram conscientemente e, por isso, não há perdão para a sua falta de escrúpulos.
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