domingo, 6 de novembro de 2016

As pessoas sensíveis...


Ilustração de Sónia Oliveira, 2013

AS PESSOAS SENSÍVEIS

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)




Neste poema é feita a denúncia da exploração social dos mais pobres.
A expressão “as pessoas sensíveis” é irónica, pois as pessoas descritas ao longo do poema não são sensíveis em relação ao próximo, porque vivem da exploração dos que trabalham. É precisamente a utilização do advérbio conectivo "Porém", com valor adversativo, na primeira estrofe, que evidencia a intenção crítica do sujeito poético em relação à hipocrisia das pessoas ditas “sensíveis”.
Na segunda estrofe, o sujeito poético denuncia as condições precárias em que algumas pessoas vivem, que só têm uma roupa que seca no corpo quer quando chove quer quando fica suada. Portanto, cabe aos pobres o trabalho de matar as galinhas para os ricos comerem, dando-lhes de bandeja o produto do seu trabalho. É por isso que “O dinheiro cheira a pobre” - expressão esta que subentende a crítica ao comportamento das “pessoas sensíveis” que desprezam o cheiro a suor de quem trabalha por elas e para elas. Nesta linha de pensamento, o sujeito poético mostra-se contundente na terceira estrofe, quando denuncia inequivocamente a exploração dos trabalhadores humildes por aqueles que só pensam no lucro, como os “vendilhões do templo” invocados na quarta estrofe e todos aqueles que apregoam os valores defendidos pela religião, mas que vivem em função dos bens materiais.
Relembrando a afirmação de Jesus Cristo no Gólgota, no momento da Crucificação, “Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem", o sujeito poético procede a uma distorção destas palavras no último dístico do poema. Ao contrário da referência bíblica, estas “pessoas sensíveis” estão a ser julgadas por algo que fizeram conscientemente e, por isso, não há perdão para a sua falta de escrúpulos.




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