segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Consanguinidade entre a música e a alma

O mais íntimo tutano da alma


Jan Kupecký - O Pintor David Hoyer (1716) 
Uma expressão que sempre me fascinou desde que a encontrei pela primeira vez no v. 255 do Hipólito de Eurípides é “o mais íntimo tutano da alma”. Fascinou-me, acima de tudo, a ideia expressa nessa tragédia grega de que tal zona da alma é vulnerável a sensações neurológicas como o amor. A reflexão feita pela Ama de Fedra, na referida peça, é que quando o amor atinge o mais íntimo tutano da alma, o que daí resulta é perigoso.
No entanto, há outra coisa que, além do amor, é capaz de atingir em cheio o mais íntimo tutano da alma: a música. E esta também acarreta perigos que podem prejudicar a alma, tanto mais porque há uma espécie de consanguinidade entre a música e a alma, como se ambas partilhassem da mesma essência. Por isso, a alma é ainda mais receptiva – e vulnerável – à música do que ao amor.

Na verdade, já os Pitagóricos na Grécia entendiam a alma em termos de harmonia musical e, se relermos o Livro III da República de Platão, encontramos afirmações que confirmam a ideia de que os Gregos já tinham plena noção de como somos profundamente afectados pelo efeito da música. A conversa naquele livro da grande obra platónica gira em torno dos modos musicais: há modos que nos deixam tristes, outros que incentivam a moleza, outros que nos tornam efeminados, pelo que não podem ser utilizados nos cantos guerreiros.
Platão também não parece aceitar assim sem mais nem menos todos os instrumentos musicais: os que poderão ser utilizados na Cidade por si idealizada são os de corda dedilhada: a lira, a cítara, etc. (Devo dizer que, como cravista, fico aliviado pelos instrumentos de corda dedilhada escaparem ao opróbrio platónico, já que o cravo é um instrumento em que as cordas são beliscadas e não percutidas, como no caso do piano.)
Pondo agora de parte o meu preconceito positivo em relação a liras, harpas, alaúdes e cravos, pergunto-me muitas vezes sobre o que acontece ao tutano mais íntimo da alma quando somos expostos a certo tipo de música. Penso nas três vezes que tive oportunidade de ouvir ao vivo a “Paixão segundo São Mateus” de Bach. É difícil descrever o efeito que esta obra, ouvida integralmente ao vivo, exerce sobre o tutano mais íntimo da alma; mas em qualquer um dos casos, saí do Grande Auditório da Fundação Gulbenkian com a sensação de o efeito da obra em mim ter sido de me transformar numa pessoa completamente diferente. Claro que, fisicamente, eu era a mesma pessoa, tão gordo ou tão magro quando era no momento em que começou o concerto. A minha alma é que se tornara diferente. O seu mais íntimo tutano tinha sido atingido.
Frederico Lourenço, Facebook, 21-11-2016.

MUSICOTERAPIA
A música na Antiguidade Grega era considerada a Arte das Musas, sendo uma forma de revelação divina, e se demonstrava importante para harmonização do corpo e da mente (TYSON, 1981). Segundo Podolsky (1954), Platão acreditava que a saúde mental e física poderia ser obtida através da música. Os gregos entendiam que a música possuía um Ethos, ou seja, ela podia criar determinados estados de ânimo. Eles consideravam dever do Estado regular a música para estimular o crescimento moral e ético dos cidadãos (TYSON, 1981). A crença da música como um estimulador da mente, e em seu poder profilático é tida por Tyson como um dos primeiros princípios relacionados à música como terapia. Na mitologia grega há diversos exemplos da música sendo utilizada como elemento curativo. Porém, o primeiro uso da música como uma modalidade terapêutica, segundo Podolsky (1954), vem dos gregos Zenocrates, Sarpender e Arion, que utilizavam a harpa para diminuir surtos violentos de pessoas com mania, evitando o uso do método mais comum, o da força física. […]
O médico Robert Burton (1577-1640) foi um dos primeiros a escrever a respeito dos efeitos da música em tratamentos médicos, especialmente da melancolia. Em sua obra “Anatomia da Melancolia” – publicada em 1621, Burton (1961/2012) descreve os efeitos terapêuticos da música, discorrendo sobre as possibilidades da música extenuar medos e fúrias, e do uso da música como cura de “aborrecimentos da alma”. Com relação à melancolia ele colocava que a música podia alegrar o melancólico e reavivar sua alma, mas também advertia quanto aos malefícios e doenças que podem ser “geradas pela música”.
No fim do século XVIII começam a ser estudados os efeitos fisiológicos da música (TYSON, 1981; COSTA, 1989). A partir do advento do Empirismo, buscavam-se terapias no fazer psiquiátrico que atingissem o sistema sensorial dos internos. A música, assim, possuía um lugar privilegiado nas pesquisas da época (COSTA, 1989). As pesquisas desenvolvidas nesse período abordavam os efeitos dos sons no sistema sensorial humano. Eram utilizados os elementos da música (ritmo, melodia, harmonia) para verificar as influências fisiológicas da música e seu impacto sobre os sentimentos do homem (TYSON, 1981).
Ler mais: “A História da musicoterapia na psiquiatria e na saúde mental: dos usos terapêuticos da música à musicoterapia”, Mariana Cardoso Puchivailo e Adriano Furtado Holanda. Revista Brasileira de Musicoterapia Ano XVI n° 16 ANO 2014. p. 122-142.


Poderá também gostar de ler:


Enviar um comentário