domingo, 30 de abril de 2017

Noivos do Mar



AMOR NO MAR

o farol onde moras entre
nunca e sempre
dispersa
a ritmo largo a luz
renovada sobre o mar

chega vibrante o brando entardecer de mim em ti

venero o secreto mundo dos teus olhos
as tuas mãos abertas encontram
praias quentes
areias macias proclamam
amor no silêncio do vento

desliza o mar deitado
a teu lado

as ondas cobrem o teu corpo
por ele o riso cresce
despido na alegria das águas
tecendo no tempo a mais longa vaga
de silêncio nos destroços ancorada

a suave volúpia
dos corpos
agita a praia ventosa

levam búzios
trazem rosas

no nosso olhar
os abismos
cantam ao crepúsculo
os lábios húmidos
afogados nos beijos do mar…

Henrique Levy, in Noivos do Mar, Editora Labirinto, 25 de abril de 2017

*

ANGÚSTIA OCEÂNICA

ilha submersa pelo mar
por uma chuva que se alteia
nuvens a lavrar arados
erva fresca de que são feitos os prados

nesta ilha varrida de águas
gente do mar que é ribeira
aves brancas
terra d águas
trazem à luz por nascer
pântanos charcos e lagos

ilha oceano
ilha mar

terna ilusão a de aqui estar
retido por redes d águas
torrentes de mar…

desafio molhado de saudades
de outra ilha altaneira
de alvas neves colorida

pedaço verde de vida
mistério d águas a navegar o céu
no rubor da vida

a alvorada estremece o vento
resignado move nuvens reza preces

a chuva anoitece a ilha
despida de sol
vestida d’águas

as terras tristes afogadas
cantam em voz de pranto
lampejos de luz e trovoadas
a tornar negras as rubras flores
exiladas nas águas

angústia oceânica
que se abate nas sombras amargas
e nos vastos rumores d’água
oração de lábios esvaídos
escorrendo lava molhada
adormecida por mágoas

abrigo vibrante
esculpido em terra firme
traz às ondas ébrias de espuma e sol

o sonho exigido!



Henrique Levy, in Noivos do Mar, Editora Labirinto, 25 de abril de 2017.


*


NU

nu
 
junto ao portão da quinta
pés calçados no barro
as pernas cedros a tocar ciprestes
aguardam a glória dos lábios
de Calíope

os ombros
armas raras de sóis celestes
em encontros siderais
ouvem junto ao claro portão
o suspirar das rendas brancas do mar

nu
os teus olhos sacrificam
o tempo
saciando nos muros o orvalho
no mergulhar derradeiro da tarde

nu
és vida
a descansar bosques
na acesa tormenta
que os meus olhos invade

nu
sustentas a luz na memória
confusa da alma atenta
aos gestos das tuas mãos
afagos que sei esperar

o olhar molhado das nuvens ao passar
proclama o anseio de ser homem
cânticos de corpo em sede trocam sementes
nu
junto ao portão da quinta
crescem dores abrandam sonhos

se puderes
em lento voar nu
avança!


Henrique Levy, in Noivos do Mar, Editora Labirinto, 25 de abril de 2017.


*

ANOITECE

o corpo não pede gestos
nem pétalas perfumadas de gerânios
nem naus em portos longínquos
nem mãos sobre altares buscando preces
nem o último olhar do sol sobre a ilha antes de adormecer

o meu corpo é agora o lugar
de lábios demorados que
sobre ele desatam beijos

no entardecer dos teus olhos
brilha em repouso o requiem da entrega

noite em que os muros as roseiras bravas
vieram debruar de alvíssima seda
em que o lamento das borboletas
das asas se desprende no crepúsculo cintilante
mergulhando o mar…

Henrique Levy, in Noivos do Mar, Editora Labirinto, 25 de abril de 2017




NOIVOS DO MAR | AO LEITOR

Os poemas escritos nas Ilhas sepultam suspiros ancestrais de onde se ouve o aveludado nevoeiro a dissolver-se nas encostas dilaceradas pela compulsiva agitação do Mar. 
Estes são poemas saturados de águas, ousam cantar as vésperas das noites incendiadas pelo Sol macerado por chuvas… 
Deste conflito surgem palavras nascidas de uma voz tumular, desnuda de razão, escritas por mãos febris a estremecer a morfossintaxe e a vontade do que está para acontecer… 
Uma espécie de angústia, resultante de um universo cercado de águas atlânticas cujas margens unem Europa e América. 
Alvora, o poeta, as aparências da Terra, mergulhando a pena no Mar intruso, surgindo a impaciente renovação de deuses, jogo ancestral de águas curvadas perante os aromas que sopram das Ilhas, contraídas por forças bruscas, inquietas, reclamam piedade à violenta voz do Mar… 
Aqui, nestas Ilhas, todos os poetas são mulheres a cerzir palavras, leitores de Livros de Horas, tristes mulheres cobertas de exaltação e véus de fé, segredando nas casas, ao lado do fogo, do linho e das arcas nuas de cereais… 
Mulheres suspirando serenas os seus corpos finos, exaustos, hesitantes nos beijos e no ânimo… Talvez por isso, vencer esta distância do feminino, nos induza, na verticalidade da morte, a lembrança do deleite carnal, sublimado pelo Espírito que nas Ilhas é Santíssimo… 
Encena-se, então, sem ilusões, um ato final de Amor. 

Henrique Levy


*

Henrique José Aguiar Fonte Levy, ou simplesmente Henrique Levy, como é conhecido, nasceu em Lisboa a 6 de junho de 1960, ainda que a sua infância tenha sido passada em S. Tomé e Príncipe e também em Moçambique. Na década de 90 regressa a Portugal. Ainda que tenha efetuado o percurso académico em Portugal, o início da sua atividade profissional dá-se no estrangeiro, mais concretamente em Macau, onde viveu e exerceu funções na área da educação durante oito anos.
Desloca-se a outros países da África Austral, da Ásia e da Europa, assimilando as diferentes realidades culturais visitadas, que serviriam de inspiração para a sua escrita.
http://alumni.letras.ulisboa.pt/memorias-vivas/testemunhos/174-memorias-vivas/biografias/decada-90/650-henrique-levy (texto com supressões)
Passageiro das Ilhas, Henrique Levy plasma em Noivos do Mar a vida a dois no espaço insular dos Açores.

*


NOIVOS DO MAR | PREFÁCIO

Henrique Levy tem já uma obra consistente. No campo do romance, ostentou uma voz singular, de timbre camiliano, em Cisne de África (2009) e Praia Lisboa (2010), e no cultivo da poesia, em Mãos Navegadas (1999) e Intensidades (2001). O ano passado, regressou à casa da poesia, sua pátria de sempre, com O Silêncio das Almas (2015).
A sua poesia é tecida de uma vivência intensa de emoções, de agitação veemente de prazer ou tristeza, de anseio de felicidade, de repulsa do medo, de uma permanente melancolia de momentos-êxtase, como se a poesia fosse habitada simultaneamente por uma inocência virginal, motor do poema, e por um mal-estar difuso a necessitar de contínua redenção.
E é justamente esta a grande mensagem de Noivos do Mar, se é que um livro de poesia necessita de justificação e de mensagem: a redenção é possível, a salvação é possível.
Nos seus poemas, Henrique Levy diz-nos como e onde é possível esta redenção.
O “como” opera-se através do “amor” como laço infinito que tudo envolve: seres físicos, árvores, animais, a casa, e, sobretudo, o sentimento romântico ou neo-romântico pelo outro como pulsão de carne, como pulsão sexual, como pulsão sentimental e como pulsão espiritual. “Pulsão” significa aqui irrupção de sentimentos, como um vulcão em plena atividade, tão natural e tão caótico como este. O conjunto irruptivo de sentimentos que não se pode recalcar, muito menos calar, é designado por “alma”, “coração”, e os poemas são assim o jorro abrasativo da sua lava.
O “onde” - Henrique Levy descobriu-o na “ilha”, e esta ilha tem um nome concreto, São Miguel, nos Açores, mas aceita ser possível nas restantes ilhas dos Açores.
Noivos do Mar constitui-se, assim, como um hino ao Amor e aos Açores.
É possível que os Açores constituam o território de Portugal que mais tem inspirado a criação poética. Não tem fim o número de poemas e de poetas cantados no e em nome do arquipélago. De qualidade diferente, de Roberto Mesquita a Pedro Silveira, de Vitorino Nemésio a Natália Correia, de Urbano Bettencourt a Manuel Tomás, de Eduíno de Jesus a José Martins Garcia, do hoje clássico Antero de Quental a inúmeros poetas populares, cantores da Saudade e da Sapateia, em todos as suas obras perpassam os Açores como terra mítica, melancólica, pulcra mas ingrata, terra afortunada de formosura mas teatro de injustiça social, que repulsa o seu habitante para a emigração.
Assim, em todo o poema açoriano repousa, invisível mas pulsante, uma “América” que redime a ingratidão da terra (os terramotos) e a ingratidão social (a antiga miséria económica). É o que em Noivos do Mar o poeta designa por “Angústia Oceânica”, a singularidade da terra no seio de um mar infinito, convidando a uma permanente inquietação física e mental.
Porém, na poesia de Henrique Levy, a “América” redentora tem outro nome, designa-se por Amor, o amor que salva, que perdoa e resgata os trilhos angustiosos da existência.
Belíssimo livro, Noivos do Mar, que, a partir de agora, não só merece fazer parte do poemário dos Açores como de qualquer nova antologia sobre o arquipélago.
Colares, 30 de Junho de 2016,
Miguel Real.


*

NOIVOS DO MAR | POSFÁCIO

Em Noivos do Mar, Henrique Levy é um poeta entre a água, o céu e o que envolve a terra e seus pés descobrem. 
 Há estrelas também e essa morte que toca nas palavras e que sentem os leitores tocam a sensibilidade para se ser perto do que é importante, a vida e a morte. Sem enfeites de nudez fria e marmorizada entre laivos menos claros, como laços apertados que seguram a vida. Essa força da Natureza descreve passos, uma força alheia ao dia-a-dia que se confronta nas ilhas como um bailado ao vento. Sei, assim o sinto no que nos descreve. Vejo a sua alegria. Sei-o apaixonadamente vivo. Um tecido sem ser “seda” é estopado para que a luz penetre sem dor sem cansaço. 
É a sua presença, a si no olhar e nas palavras do seu livro.
É bela a Ilha que descreve. 
As ilhas sempre foram pontos de magnânima presença. Sempre se deixaram em confronto com os mortos, porque o Mar traz às costas os desassossegados que em vendavais e tempestades ali jazem. Assim das ilhas, a força é singular, a força é força. 
Vejo-me consigo de mãos dadas com o que descreve. Reconheço as palavras um necessário véu que filtra o impuro. Reconheço as flores que ainda em verde não precisam de colorir porque a brevidade dos momentos é constante e assim o esplendor do belo ali permanece. 
A Vida assim permanece em nós, como os nós permanecem para nós na escrita e se desenrolam ao amor e à vontade mais breve que é infinito.
Inez Andrade Paes


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Antero de Quental ou o suicídio sem fim


A presença de Antero de Quental no panorama cultural português apresenta uma similitude, até certo ponto paradoxal, com a vida de Antero ele-mesmo. Com efeito, o Antero de Quental que a história registou é o de um intelectual profundamente envolvido nas grandes causas do seu tempo. Associa-se-lhe deste modo uma áurea de presença excessiva. Dele dizemos que é «uma figura que se impõe». Já os seus contemporâneos assinalavam nele essa qualidade de presença afirmativa. Por outro lado, nos momentos em que a vida lhe exigiu recolhimento, e mesmo alguma clausura face aos acontecimentos, a sua ausência nunca foi interpretada como demissão de intervenção na vida cultural; mesmo ausente, o pensamento e a personalidade de Antero – disso são muitos os testemunhos convocáveis –, irradia em excesso. Sabe-se que ele lidava mal com esse facto. 
Avesso ao que de mundano tem a intervenção social e cultural, pelo imediatismo que se lhe associa, Antero propõe-se recolocar o debate literário e filosófico no seu lugar certo: o pensamento. À voragem do acontecimento só raramente a paciência do pensar sabe responder sem cair na vertigem do imediato. A consequência desta impossibilidade foi, no poeta, motivo de desespero. Nele, o pensamento era ânsia de resolver, e nisso se debatia.
A tragicidade não está na morte ela-mesma, mas na sua confirmação previamente anunciada. A contradição, qual seja a forma com que ela se apresente, é o sinal dessa desesperança. Por mais que se insista na fórmula que acompanha o nome próprio – «Antero, o poeta-filósofo» –, nunca o traço será inclusivo.
A acreditar no próprio, a justeza da fórmula estará apenas na cronologia que ela indica. No entanto, o depois – o filósofo que ocupou o lugar do poeta –, não significa uma dicção contra o antes, apenas (e pouco não é), que a contradição mudou de lugar. 
A convocação da disciplina é, para o pensamento, a recentração do que lhe é essencial: o próprio pensar. O que está em jogo não é um mero conflito intra-psíquico de alguém que viveu atormentado; o que é biografável não pode obscurecer o que na grafia está para além – ou aquém –, do vivido. No poeta e no polemista há a consciência de ambas as coisas. Se o conflito, por exaltação da escrita, ou pela proximidade física e mental dos que na polémica se envolvem, deriva para a simples luta das influências, logo o pensador se enoja com a distância entre o que é e o que devia ser. Se a imposição do epíteto – apesar do Eça –, está condenada a abrir todos os «In Memoriam», também em Antero de Quental é justo lembrar que a santidade não é uma questão pessoal, mas a destinação do próprio universo.
Nisto, a procura da influência funciona por contágio. E Antero sofreu, assumidamente, contágios à velocidade vertiginosa do comboio do seu tempo. Os anos de aprendizagem na Coimbra que perdura como mito, revelam um Antero decidido a escapar ao atavismo cultural em que Portugal mergulhara.
Mas já aqui se vê o que, para o autor de «Bom Senso e Bom Gosto», é questão: não a fórmula literária, antes as ideias; não o autor do momento, antes as novas correntes de pensamento que ressoam pela Europa; não o imobilismo do elogio mútuo, antes a assumpção sofrida da incessante procura de respostas, ainda que impossíveis; não o seguidismo face a filosofias, mesmo que da grandeza das de Hegel, Proudhon, Comte ou Hartmann; antes a pessoal resolução das dicotomias que atravessavam o pensamento filosófico. 
Que a contradição prevaleça sobre o fixismo das ideias moldáveis para todas as ocasiões, não é motivo de espanto. Em Antero, no poeta como no filósofo, foi na aguda consciência das contradições que a pulsão para o pensamento encontrou o seu terreno. Como o chão da sua terra natal, também o seu pensamento e personalidade sofrem abalos que exigem refundações permanentes.
O mal-estar que o caso Antero imprimiu (para o futuro dele e passado nosso), reside na exemplaridade que nele se conjuga com o sentimento da irredutível distância entre o ser e o dever ser. Por isso a exigência da dinâmica evolução do cosmos e do homem era nele causa de sofrida preocupação. Com razão dizia Fernando Pessoa que, em Antero de Quental, o pessimismo era mais alegre que o seu optimismo, e a sua fé mais desoladora que a sua crença.
A confrontação com a exemplaridade tornou-se algo a que não mais podemos resistir. Mesmo que assobiemos para o lado, ou que nos deixemos enlevar pela avenidas do progresso sem fim, sempre a revisitação de Antero nos reconduz ao confronto com a sombra, que em nós tende para a felicidade auto-satisfeita.
Não é a Questão Coimbrã, os seus porquês e para quês, que merece o nosso espanto; é sim que ela tenha sido. Mais ainda: a frequência com que a ela regressamos faz crescer em nós o sentimento de torpor de ela hoje não ser. Nem o que nela estava em causa foi resolvido – por mais vitória que lhe consagremos nas literaturas passivas –, nem, por outro lado, a figura de Antero se dissolve no espírito da época. Essa época hoje já não é. Leia-se isto em toda a sua extensão. 
Das Conferências do Casino se pode dizer o mesmo às avessas. A sua proibição não provoca espanto – que tantas (mesmo que poucas) se tivessem realizado, sim. Eis um risco que hoje não corremos: os comissários da cultura estariam na primeira fila da assistência.
Sem Penélope que fie e desfie, sem regresso a uma Ítaca que nunca foi, nem inimigos visíveis com que se possa confrontar, o suicídio de Antero de Quental continua acontecendo.

Fernando Martinho Guimarães
Ponta Delgada, https://www.facebook.com/fernando.m.guimaraes/posts/10211122023440550, 2017-04-18




terça-feira, 18 de abril de 2017

OS CATIVOS (Antero de Quental)




OS CATIVOS

Encostados às grades da prisão,
Olham o céu os pálidos cativos.
Já com raios oblíquos, fugitivos,
Despede o sol um último clarão.

Entre sombras, ao longe, vagamente,
Morrem as vozes na extensão saudosa.
Cai do espaço, pesada, silenciosa,
A tristeza das coisas, lentamente.

E os cativos suspiram. Bandos de aves
Passam velozes, passam apressados,
Como absortos em íntimos cuidados,
Como absortos em pensamentos graves.

E dizem os cativos: Na amplidão
Jamais se extingue a eterna claridade...
A ave tem o voo e a liberdade...
O homem tem os muros da prisão!

Aonde ides? Qual é a vossa jornada?
À luz? à aurora? à imensidade? aonde?
– Porém o bando passa e mal responde:
À noite, à escuridão, ao abismo, ao nada! –

E os cativos suspiram. Surge o vento,
Surge e perpassa esquivo e inquieto,
Como quem traz algum pesar secreto,
Como quem sofre e cala algum tormento...

E dizem os cativos: Que tristezas,
Que segredos antigos, que desditas,
Caminheiro de estradas infinitas,
Te levam a gemer pelas devesas?

Tu que procuras? Que visão sagrada
Te acena da soidão onde se esconde?
– Porém o vento passa e mal responde:
a noite, a escuridão, o abismo, o nada! –

E os cativos suspiram novamente.
Como antigos pesares mal extintos,
Como vagos desejos indistintos,
Surgem do escuro os astros, lentamente...

E fitam-se, em silêncio indecifrável,
Contemplam-se de longe, misteriosos,
Como quem tem segredos dolorosos,
Como quem ama e vive inconsolável...

E dizem os cativos: Que problemas
Eternos, primitivos, vos atraem?
Que luz fitais no centro donde saem
A flux, em jorro, as intuições supremas?

Por que esperais? Nessa amplidão sagrada
Que soluções esplêndidas se escondem?
– Porém os astros tristes só respondem:
A noite, a escuridão, o abismo, o nada! –

Assim a noite passa. Rumorosos
Sussurram os pinhais meditativos.
Encostados às grades, os cativos
Olham o céu e choram silenciosos.

Antero de Quental, Poesia Completa.  Org. Fernando Pinto do Amaral.
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001.


     Intertextualidade

ÀS GRADES DA PRISÃO

Às grades da prisão, olhos extasiados
Veem descer o Sol sobre o mar de metal.
Na tarde de âmbar há murmúrios espalhados
Como preces da Terra à estrela vesperal...


No horizonte rutilante, a toda a vela
Passa um navio; é todo de oiro e de rubis…
Onde vais, onde vais, brilhante caravela
Do rei poeta dum quimérico país?


É triste o alcácer, com salões frios e anosos,
Como as igrejas cheios de ecos cavernosos,
Com grossas portas de mosteiro medieval.


Mas desse interior taciturno, afastado,
Duma estreita janela, olhos extasiados
Veem descer o sol sobre o mar de metal...



Roberto de Mesquita (1876-1923), Almas Cativas


ANTERO LIDO POR MESQUITA*

Sinopse: É conhecida a  influência exercida por  Antero nas gerações seguintes, a sua presença em poetas particulares, como é o caso  de Roberto de Mesquita. Analisa-se aqui o modo como o seu poema «Às grades da prisão» reescreve «Os Cativos», de Antero.

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O poema «Os Cativos» constitui uma amostra muito sintomática daquilo que,  no início dos anos de 1880,  Antero declarava ser a sua «maneira definitiva» de poeta, aquilo que poderemos designar  uma poesia dramática, se levarmos em conta aquilo que ele mesmo afirma numa carta a António Feijó: «Mas, fora desta esfera restrita [da poesia analítica], a poesia, tornada mais complexa, parece-me que requer uma forma sintética, a acção objectiva, o drama (dando à palavra a sua acepção mais geral), poderosa pela sua mesma impessoalidade.» (Quental, 1989: 567). Repare-se nos termos de Antero  sobre o drama enquanto modo objectivo, isto é, representativo, capaz de configurar um mundo exterior ao sujeito poético, dele distanciado,  e também dinâmico,  com acção, implicando por isso a existência de espaço, temporalidade e personagens que entre si trocam falas  – traduzindo-se tudo isso, no final, pela impessoalidade, a tendencial ocultação (ainda que não total) do  enunciador, do sujeito poético,  neste caso. Sabemos  hoje como este desígnio de uma poética da impessoalidade vai desaguar no modernismo português e, em especial, no projecto poético pessoano
«Os Cativos» constituem um poema relativamente longo: treze quadras em decassílabos, com uma estrutura narrativo-dramática em que é possível delimitar  um Prólogo (2 quadras iniciais), seguido de três cenas (de 3+3+4 quadras, respectivamente, e tecnicamente delimitadas como no texto dramático propriamente dito) e de um curto Epílogo ou conclusão (última quadra).
As primeiras duas quadras apresentam a personagem dos cativos, sobre um cenário de fim de dia, descrito em termos de ambiente melancólico propício à contemplação, ao cismar e, finalmente, à interrogação; estamos em presença de uma descrição com certos traços simbolistas, que (juntamente com notórios aspectos rítmicos e melódicos) poderá ajudar a compreender  a projecção posterior do poema.
As três cenas têm uma estrutura interna idêntica e sequencial: a presença dos cativos («os cativos suspiram»), o aparecimento dos interlocutores (as aves, primeiro, e depois o vento e os astros), a introdução da(s) pergunta(s) que lhes é feita pelos cativos e a culminar uma reflexão por vezes formulada em modo interrogativo; finalmente, a resposta, linear e curta, que fecha  cada cena.
Ora, é este poema que surge recontextualizado  no  soneto «Às grades da prisão», de Roberto de Mesquita: em versos alexandrinos, ele recolhe para título e início do verso 1, um fragmento  do verso inicial de «Os cativos».
A sua  estrutura narrativo-dramática retoma a do  poema anteriano: uma  introdução (de idêntica natureza temporal), uma cena (apenas  uma) com  interrogação e uma conclusão –  numa condensação  de processos a que estava obrigada pela própria  brevidade formal  da composição, o soneto: a nível do  espaço descritivo,  do traço narrativo pontual («passa um navio»)  e do despojamento da pergunta, privada do envolvimento reflexivo, filosófico que em Antero a antecede. Aliás, em Mesquita, a pergunta não chega a suscitar  qualquer sinal de reacção por parte do seu (único) interlocutor, numa situação que acentua os sinais de uma solidão irremediável.
A já assinalada modulação simbolista do poema de Antero poderá explicar, em parte, a atracção que exerceu sobre o poeta florentino, num contexto em verbal em que são notórios os traços dessa corrente estética finissecular. Mas, para lá dessa afinidade (e  de outras),  um corte fundamental exercido por Mesquita consiste na mudança do cenário selecionado: o mar, com os seus signos correlativos, especialmente o navio, cuja passagem fugaz quase o transforma num elemento irreal, talvez mesmo uma  ilusão ou miragem fruto de um  êxtase do olhar  que se estende sobre  o mar (de metal) que é o prolongamento metonímico das grades (no soneto de Mesquita os «cativos» anterianos reduzem-se  a uma parte do todo: «olhos», o que introduz desde logo outra envolvência  semântica).
Aquilo que em Antero se exprimia  em termos de  uma interrogação cósmica  sobre a liberdade e o destino, torna-se em Mesquita uma questão mais circunstancial, mais individual, e sintomática de uma condição particular que o conjunto da sua poesia ajuda a confirmar, em termos de uma configuração do  mundo pensado e sentido como cárcere atlântico, metáfora  reformulada  noutros contextos. Deste modo, e numa impressiva representação simbólica, estão todos os contornos semânticos da palavra que o poeta não ousou escrever ao longo do  seu livro de poemas: ilha. Que isto tenha chegado através de Antero apenas acentua a dimensão da literatura como uma conversação (uma tresleitura) infinita, sucessivamente  desdobrada no tempo. Uma conversação que, no campo açoriano, se prolonga ainda na obra de poetas como Pedro da Silveira (anos 50) e J. H. Santos Barros  (anos 70) – numa literatura, já agora, em que deliberadamente se inscreve a insularidade atlântica, açoriana, ou tão simplesmente a açorianidade.
Urbano Bettencourt
(CIERL-UMa; CEHu-UAc)
*Versão (muito) sintética da comunicação que apresentei às Jornadas Anterianas (Ponta Delgada, 7 e 8 de Novembro de 2017)
……………………………………………………………….
MESQUITA, Roberto de (2016),  Almas Cativas e Poemas Dispersos, Prólogo e Organização de Carlos Bessa. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas,
QUENTAL, Antero de (1989),  Cartas I, org. de Ana Maria Almeida Martins. Ponta Delgada e  Lisboa: Universidade dos Açores e Editorial Comunicação.
QUENTAL, Antero de (2001), Poesia Completa, org. de Fernando Pinto do Amaral. Lisboa, Publicações Dom Quixote.


https://urbanobettencourt.wordpress.com/2018/06/05/antero-lido-por-mesquita/