domingo, 25 de junho de 2017

O ganho de uma perda, por Frederico Lourenço

Na foto: Florian Magnenet no papel de Saint-Loup e Stéphane Bullion no de Morel
 no bailado de Roland Petit “Proust ou les intermittences du coeur”
A pessoa que amamos é a metade que nos falta para nos sentirmos completos? Esta pergunta obteve uma resposta positiva num trecho que faz parte do Banquete de Platão, no qual a raça humana é entendida como descendente de seres que tinham quatro olhos, quatro braços, quatro pernas: tudo a dobrar. Zeus cortou esses seres ao meio, fazendo assim com que cada metade ande desesperadamente à procura da metade que lhe falta. O desejo de completude é a explicação do amor.
Quando nos apaixonamos por alguém, faz parte da sintomatologia própria da paixão percepcionarmos a pessoa amada como a peça que faltava para nos sentirmos inteiros. A descarga louca de dopamina no nosso cérebro que ocorre quando o ente amado sente em relação a nós o mesmo que sentimos em relação a ele dá-nos, de facto, a ilusão de que a proximidade dele e a união sexual com ele nos faz inteiros. Era a metade que nos faltava, era a pessoa de que andávamos à procura, toda a vida esperámos por ela e agora: ei-la!
No entanto, quem já tem meio século de idade e já se apaixonou diversas vezes (sempre com a mesma sintomatologia) sabe que é contrário à lógica que possa haver tantas metades sobresselentes de si mesmo a pulular aí pelo mundo. Essa ideia da pessoa que nos torna inteiros tem mesmo de ser uma ilusão. Apesar de tudo, a proposta algo humorística de Platão de que se encontram no amor as metades tresmalhadas do mesmo corpo faz algum sentido quando estamos a falar do amor entre pessoas do mesmo sexo. Todos já reparámos em tantos e tantos casais de lésbicas e de gays cujo aspeto exterior sugere imediatamente a ideia do desdobramento da mesma pessoa. Como se eu e o meu hipotético namorado formássemos um casal constituído por dois Fredericos. Muitos casais de gays obedecem, de facto, a esse paradigma: mesma roupa, mesma barba, óculos iguais, mesma composição corporal (gorda ou magra ou atlética), etc.
Esta questão é interessante porque, muitas vezes, se víssemos individualmente os dois Fredericos antes de se terem conhecido, as semelhanças não seriam assim tantas. A relação em si – a intimidade sexual e todas as outras intimidades – é que vai cumulativamente concretizando esse processo. De forma lapidar, Camões chamou-lhe “transforma-se o amador na coisa amada”.
Bom, estou aqui a falar em dois hipotéticos Fredericos, mas no caso do Frederico real que assina este texto nunca se deu esse fenómeno de transformação em termos de morfologia exterior, pelo simples facto de os meus namorados até hoje terem sido completamente diferentes de mim no que toca a aparência física. Nunca ninguém olhou para mim a desempenhar o meu papel enquanto parte de um casal para dizer “olha que par de clones!”. Isso não significa, porém, que o verso “transforma-se o amador na coisa amada” não tenha feito sentido muitas vezes na minha vida passada, a ponto de sobre esse tema ter escrito um livro de poesia, Clara Suspeita de Luz (Lisboa, Caminho, 2011).
Nesse livro, o sujeito lírico procura lidar com a perda do amante por meio da estratégia “doravante passarei a ser tu”. Lendo nas entrelinhas dos versos (“sentirei o teu cheiro quando despir a camisa...”), percebemos que o Eu agora veste roupa igual à do namorado, usa o mesmo perfume, os mesmos óculos e o mesmo corte de cabelo. Literalmente o que se diz é “afinal a tua partida não me privou de ti, / se reencontro a cada momento o teu ser em mim, / se ao ver-me no espelho eu vejo o teu reflexo”.
De acordo com a ideia platónica das metades desencontradas, o que sucede ao Eu lírico de Clara Suspeita de Luz é duplicar-se de modo a ser ele próprio as duas metades. “Perder-te permitiu-me descobrir que sou tu, / que és eu em tudo o que em ti amo e amei”.
Dizer de quem amamos “és tu certamente o mais eu de mim” implica ao mesmo tempo um longo processo de descoberta desse “eu”. Quase se poderia dizer que, quando nascemos, a pessoa mais estranha (em sentido de “stranger”) com quem temos de lidar somos nós mesmos. Viver e crescer é aprender a conhecer essa pessoa. Curiosamente, nada nos traz mais próximos de nós mesmos do que amar outra pessoa. Quando o amante de Clara Suspeita de Luz se refere ao nome do namorado perdido como “o teu nome com que hoje a mim mesmo me nomeio”, isso não significa que – por hipótese – um Frederico tenha passado a chamar-se Francisco, mas que esse Frederico passou a ser duplamente Frederico. É o que, noutro poema do mesmo livro, se chama o “ganho de uma perda”.

Frederico Lourenço, O Lugar Supraceleste, Lisboa, Livros Cotovia, 2015.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Ai, os pratos de arroz-doce







Ai, os pratos de arroz-doce
Com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!

s.d.
Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). 







Nesta quadra ao gosto popular, de Fernando Pessoa, a interjeição “Ai” indicia, primeiramente, o entusiasmo e a felicidade associados ao arroz-doce.

Logo a seguir, percebemos que os pratos de tal doçura são o prenúncio da chegada de alguém, pois o sujeito poético solta um suspiro a cada uma das mãos que os transportam, desejando, com a última interjeição, que uma delas seja a parte do todo de que está à espera, isto é, da figura feminina que lhe inspira estes versos de emoção e ternura.