sábado, 9 de setembro de 2017

Waly Salomão (1943-2003)



EXTERIOR

Por que a poesia tem que se confinar
às paredes de dentro da vulva do poema?
Por que proibir à poesia
estourar os limites do grelo
 da greta
 da gruta
e se espraiar em pleno grude
 além da grade
do sol nascido quadrado?

Por que a poesia tem que se sustentar
de pé, cartesiana milícia enfileirada,
obediente filha da pauta?

Por que a poesia não pode ficar de quatro
e se agachar e se esgueirar
para gozar
- CARPE DIEM! -
fora da zona da página?

Por que a poesia de rabo preso
sem poder se operar
e, operada,
 polimórfica e perversa,
não poder travestir-se
 com os clitóris e os balangandãs da lira?

Waly Salomão, Lábia. Rio de Janeiro, Rocco, 1998

*

A poesia não tem lugar nobre para acontecer, não é só o mármore, como os parnasianos, como os cultores do monte Parnaso, pensavam. A poesia não só tem locais ou materiais nobres. Ela usa os mais diferentes materiais. Não há vulgaridade para ela. Você pode restaurar. É um trabalho intenso. É um trabalho construtivista. Não um construtivismo de cem anos atrás. É um construtivismo dos nossos tempos. De quem está com os olhos novos para o novo, com os ouvidos abertos. E também com capacidade de estar lendo diferentes tradições. Não ficar ensimesmado, isolado.

Waly Salomão, documentário Pan-Cinema Permanente, dir. Carlos Nader, 2008



HOJE

O que menos quero pro meu dia
polidez, boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.

Hoje...
Waly Salomão





FÁBRICA DO POEMA

In memoriam Donna Lina Bo Bardi

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra "recalcado" é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema)

pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará?
Waly Salomão



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