quinta-feira, 15 de março de 2018

Daniel Gonçalves




a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento

olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti

aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio

comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar

enrolei-me na minha sombra
e
esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos

a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa


Daniel Gonçalves, Revista Neo n.º 9, Ponta Delgada,
Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, 2009

***

(poema com mário cesariny: como uma canção desesperada)

estou a dizer-te que já todos os poetas inventaram o amor
que nas minhas mãos o amor é apenas silêncio que vaza

que o amor não pode ser mais belo do que este verso:
antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa

estou a dizer-te que se tinha que te escrever uma carícia
nenhuma palavra há que não tenha quebrado já a sua asa

talvez acabes por perceber na doçura de todo este carinho
que não tenho mais música por onde possas subir até mim
ou madressilvas para te estenderes por todo o meu verão

estou a dizer-te que nunca soube dizer-te como te amar
como se regressasse a um instante em que fui apenas pedra
ou borboleta impassível colorindo o seu efémero coração

estou a dar-te à boca as poucas carícias que saem da minha
como se eu pudesse inventar um verso no lugar de um beijo
e talvez acreditasse que o amor tem sempre um novo aluvião



***

demorei metade da minha vida a perceber que o nosso
amor nunca existiu, era apenas um poema inédito, num
livro cosido à mão, manuscrito com a caligrafia de um
coração cego. podes esquecer-me sem remorso, podes
voltar a passar por mim na rua, podes voltar a dar-me
flores, não importa, deixei de acreditar na eternidade,
estou de acordo com o meu corpo que envelhece. podia
morrer agora mesmo, sem ti, tudo teria valido a pena
da mesma maneira, tu por fora de mim, tu por mim
dentro, a cidade connosco, a cidade deserta, o tempo
num segundo, a vida escoando como uma pérola através
da geleia do dia. agora sei que este é o último poema em
que te toco, a partir de amanhã, serás outra pessoa.

Daniel Gonçalves, Poesia Reanimada, Artes e Letras, 2014

***

todas as manhãs deviam ser primavera, todas as tardes verão, todas as noites outono, todas as madrugadas inverno, sair de casa e ter o chão como em dia de romaria, o meu ombro feliz de se mostrar aos pássaros, a alegria em cada flor aparecida e saber que vou poder almoçar no jardim, deitar-me no colo do parque e esperar que o sol me queime o cansaço, todos os dias assim.
Daniel Gonçalves, Poesia Reanimada, Artes e Letras, 2014

***

     quando morreste a noite deixou de morder os lábios das rosas ficaram sem o cântico aterrador do silêncio o peso das estrelas como um pisa papéis a torturar uma lista de sonetos por fazer
     quando morreste a manhã deixou de cuidar do seu cabelo liso encrespou contra o espelho que sabia de cor a tua mágoa azul como quilha encravada num naufrágio lento boiando sozinho
     quando morreste a tarde deixou de se inclinar sobre os frutos ficou às escuras a música que saía de dentro dos teus pássaros calou-se o bule que cozia a paciência da loucura com cidreira como remédio que tomamos quando a tristeza vem de repente
     quando morreste o tempo deixou de contar as crianças na rua brincando com os gatos e com as formigas e com a tua solidão
     e tudo ficou suspenso a virar folhas sobre o livro por escrever calando a filosofia fechando de vez as janelas secando a casa


Revista Grotta n.º 1. Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2016

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