
Eugénio de Andrade
As M. e os F.
Os A. s. D.
As P.I.
A. A.
C. do D.
M. de S.
O. R.
O. D.
V. da A.
E. da T.
L. dos P.
M. d. R.
Mat. S.
O P. da S.
B. no B.
V. do O.
O O. N. da T.
Os A. do .S.
R. P.
|
As
Os
As
Ostinato Rigore (1964)
O
O
Os
|
TEMAS E MOTIVOS POÉTICOS
- importância
da linguagem enquanto
instrumento de trabalho : poesia
musica verbal ; a melodia metafórica; o ritmo ; regularidades de ordem
silábica, prosódia, de rima , frásica e
intonacional
- incidência
nas ligações corpo-escrita-terra (ou outros elementos primordiais
da natureza );
- os quatro
elementos míticos (fogo ,
água , ar ,
terra ) metamorfoseados; a natureza ,
as flores ; busca da pureza
essencial .
Os
|
A
|
A metáfora em Eugénio de Andrade[1]
A
habitabilidade prediz o preenchimento, a totalidade .
A casa desabitada
(porta fechada, casa
na chuva ...), sinal
da ausência da mãe ,
é lugar de desprotecção e abandono , e, portanto ,
metáfora do vazio .
Na poesia de E. de A. a importância
do corpo tornou-se um
dos mais divulgados lugares
comuns do ponto
de vista
da recepção da sua obra .
A mãe surge como
mediadora face ao desejo
(a mãe deseja
o desejo para
o filho ) e à poesia ,
ao acesso à poesia .
Repare-se
também na presença
de certos aspectos
da mitologia cristã ligados à mãe , nomeadamente na sua
«sacralização» – essa «fabulosa figura do sacrifício »,
nas palavras do poeta ,
que lhe
deu o conhecimento da poesia . Encontram-se diversas marcas
que podem convalidar
esta leitura (das rosas
brancas – enquanto metáfora
da pureza , à ressurreição
e à intercessão ) e que
nos podem levar
a falar de uma revisitação mítica da «Imaculada Conceição» – veja-se, por
exemplo , os ecos
da «salve-rainha » naquele verso de C. do D. onde
se lê : «ó cheia
de doçura ».
O
tempo [3]:
«dezembro traz em
si a primavera »
(As M. e os F., IV) – a presença de dezembro neste verso
mais do que
afirmar ou expandir propriedades
que em
si figurariam a metaforização de um universo de desolação , desertificação
ou esterilidade ,
reenvia para os sentidos
de um inverno
fecundante pretextando a primavera .
«Diremos
prado bosque
/ primavera , / e tudo
o que dissermos / é só
para dizermos / que
fomos jovens » (M. de S.). Visão global da
metáfora : desejo ,
exaltação , claridade ,
juventude . A primavera
como tempo
(metáfora ) de transição
anunciando outra estação
que será outra ,
mais acabada ,
metáfora do desejo
enquanto plenitude :
o verão . Portanto ,
são «impacientes
e amargos » os dias
de abril (O. R.) e as luzes de março
aparecem adjectivadas de «inquietas», «loucas», «despidas». Talvez , afinal ,
só o verão
(metáfora ) conduza à coroa do lume :
«Esse gosto
a sangue / que
trazia a primavera , se primavera havia, / não
conduz à coroa do lume »
(B. no B., XVIII).
O
|
A
|
O
Devia ser verão , devia ser jovem .
ao encontro
do dia caminhava
– corpo
ou pedra ?,
pedra ou
flor ?
do vento
rolava nas dunas .
Aproximei-me desse corpo
nu ,
o coração
latino de alegria .
De repente
vi o mar subir
o prumo ,
«Esta
noite preciso
de outro verão
sobre a boca
crescendo nem
que seja de rastos »;
«O verão é branco
e sempre ficam sinais »
(V. da A.) – sinais do desejo .
Genericamente,
o verão é sempre
um tempo
anterior , tempo
do desejo – momento
onde se passou a luz
ou o fulgor
da manhã – rememorado, agora , no silêncio
de um hoje
magoado (tempo de enunciação );
tempo corroído ou ,
simplesmente , envelhecido. Ou então
enternecidamente lembrado em harmoniosa nostalgia .
A
sexualização do fogo como manifestação
simbólica ou metafórica da força masculina :
versos há em
Eugénio de Andrade que traduzem essa manifestação . Fale-se de um
ardor fálico metaforizado: «A terra .
( inocente / abre-se ao ardor
/ de oiro de uma flauta » (O. R.), ou ainda no mesmo livro : «Amo como as espadas brilham / no ardor
indizível do dia ».
de extrema
doçura :
Arde a luz
As aves
no branco
As palavras
ardem,
a púrpura
das naves .
O vento ,
à beira
do outono .
O limoeiro ,
as colinas .
na extrema
e lenta
É
pela mediação do corpo
que o modo
erótico se manifesta ;
manifestação de desejo
que tende à totalidade ,
à união com o
universo envolvente («tudo arde»). Num verso
apenas se deixa
entrever , na explicitude da marca
enunciativa (o verbo na primeira pessoa do singular ), o sinal
da presença do corpo
– o próprio sujeito
poético no interior do microcosmos erotizado (casa ):
«onde tenho casa ».
É sobretudo na exterioridade
que se revelam as marcas
dum eu lírico
implícito , ser
desejante atravessando-se, espalhando-se nas coisas
(que ardem). Nessa exterioridade
se encontram os elementos-chave do universo
poético do autor . Os elementos primordiais :
o fogo , enquanto
princípio da relacionação metafórica, o ar («luz », «vento »), a água
(implicada em «naves »),
a terra («colinas »)
e, na terra , as referências
ao vegetal («limoeiro »)
e ao animal («ave »).
Além dos elementos
primordiais , uma referência
nuclear : a palavra
(«as palavras ardem»). E o tempo , círculo onde tudo se
sustém; a temporalidade sublinha a arquitectura do poema :
«Um dia
chega de extrema
doçura : / tudo
arde // [...] tudo
arde // na extrema e lenta /doçura da tarde ». Dois tempos balizam estruturalmente a composição
desenhando o arco donde resulta, em grande medida , o sentido
do equilíbrio . Mas
é também , e acima
de tudo , no modo
como o dia
chega e no modo
como a tarde
se suspende que radica a percepção harmónica desse universo
ardente . Modo
que aparece substantivado no termo «doçura ». A
adjectivação contribui, por seu turno , para criar um
efeito de alastramento :
toda a atmosfera
se contamina do fulgor dulcificado . Donde resulta a leitura
de um arder lento . Metáfora
que traduz, em
larga medida ,
a expressão mais
justa da categoria
erótica na mundividência poética deste autor .
Onde em
última instância
se pode ler a interposição materna
(«dás-me a beber / um
tempo assim
ardente »).
Sublinhe-se,
ainda no poema ,
a ideia esboçada de um equilíbrio tensivo ,
entre a irrupção
de incandescências (figuração de energias libidinais, excesso
em permanente
expansão no cosmos )
e a sua concentração ,
que a regularidade e os limites formais
do próprio texto
assinalam. Pode intentar ver-se neste movimento dialectizante (expansão /condensação de energias )
que analogicamente diz o próprio
modo lírico ,
um dos modos
essenciais da poética
eugeniana, enquanto construção
e visão do mundo .
O dizer da totalidade (ou do desejo
dessa totalidade ; nostalgia
do uno ) aparece como
reflexo da idealização do mundo erotizado que
esta poética , em
grande medida ,
subsume. Um puro
dizer alusivo
da carga energética
do(s) corpo (s); suspensão
em imagens
e metáforas que
a composição , delicada ,
elegante e parcimoniosamente ,
contém. Poesia de um
ardor contido, numa palavra .
O
poema «Frente
a Frente » do livro
Até Amanhã
proclama o lugar
exorcizador da luz , manifestação
de um projecto ontológico :
Podeis dar-nos a morte ,
a mais
vil , isso
podeis
– e é tão
pouco .
O
corpo iluminado: luz e corpo
(boca , mãos ,
cintura , nádegas ,
flancos ) configuram um
lugar harmonizador, a um nível ontológico : «viver é iluminar // de luz rasante a espessura
do corpo » (B. no B., XVIII).
A
poesia de E. de A. não
é apenas luz ,
não é apenas
claridade , não
é apenas manhã ,
talvez , mesmo
assim , se possa concluir
sobre uma poesia
diurna . Como
diz o próprio poeta : «esse ser sedento
de ser , que é
o poeta , tem a nostalgia
da unidade , e o que
procura é a reconciliação, uma suprema harmonia
entre luz
e sombra , presença
e ausência , plenitude
e carência ». Não
passando por cima
da face sombria ,
da inquietante e incontornável presença da noite e da morte , o poeta sempre pode recomeçar tornando a dizer os princípios soberanos
de uma declaração de comprometimento: «E
o princípio são
meia dúzia
de palavras e uma paixão
pelas coisas limpas
da terra , inexoravelmente soberanas. Essa, onde a luz se
refugia, melindrosa. Só elas abrem as portas
aos sortilégios , e os sortilégios são
diurnos , mesmo
quando invocam a noite ,
e as águas do silêncio ,
e o indelével tempo
sem tempo »
(«Soberania », V. do O.). De um princípio diurno , viver a palavra na luz ,
à afirmação ontológica de mais fundas consequências: de um
viver na luz ,
incondicionalmente : «porque sou um homem que não abdica da luz ,
/ que não
abdica, que não
/ abdica» («Na estrada de San Lorenzo
del Escorial» in E. da T.).
O ar
|
O
|
O vento
A expressão mais acabada da participação cósmica do vento ,
como seria de esperar ,
surge na conjunção que
relaciona o vento com
o corpo . Em O.
D. no poema
intitulado «Plenamente »: «a boca // espera (que pode uma boca
/ esperar / senão
outra boca ?)
// espera o ardor do vento / para ser
ave , // e cantar ».
O vento
personifica a entidade que se apropria da linguagem
e o sujeito do desejo :
«Assim se morre dizias tu . // Assim se
morre dizia o vento acariciando-te a cintura » (V. da A.).
A metáfora
da música
Há
a perspectivação da música entendida como metáfora da poesia .
A essência de uma poesia /música provém de um
obsessivo labor
em relação
ao qual o poeta ,
implícita ou
explicitamente, convoca o modelo analógico de ordem
musical. «Reescrevo os textos obsessivamente . Em
mim o ataque
do poema é da ordem
musical. Uma palavra é como a nota que procura
outras para o acorde
perfeito » (R.P.). «O poema é um texto que aguarda o leitor
– o que deveria procurar-se ao lê-lo é um equilíbrio entre música e discurso » (Jornal
de Letras , nº 15, 15/9/1981). Expressão máxima da
idealidade perseguida, um pretender recuperar plenamente a magia e o fascínio dos primeiros
sons (voz
da mãe / som
do harmónio) na harmonia do verso .
A
metáfora da música
revela a dimensão ontológica
e a idealidade de um mundo ordenado por uma harmonia
e equilíbrio essenciais ,
de profundas ressonâncias maternas. O poema , que
congrega todos os elementos ,
aspira ao ideal de perfeição ;
como música
verdadeiramente elemental. A música , no dizer a ordem do mundo (nostálgica «de uma antiga
unidade »), reenvia a uma outra metáfora que lhe subjaz:
a metáfora arquitectural (no sentido de um modelo de construção ). Construção , simetria ,
equilíbrio são
regras de composição ,
princípios arquitectónicos a que o poeta recorre no que toca a uma rigorosamente premeditada orquestração /
ideação da obra (do livro ,
do poema , do verso
– «não sou um
poeta inspirado, o poema
é em mim
conquistado sílaba a sílaba »; «Sublinho este
fazer , pois o poema tem sempre
qualquer coisa
de artesanal » (R.P.). O poeta reivindicará para este aprumo uma
fundamentação que
enraíza na limpidez do mundo elemental da infância :
«As minhas raízes mergulham desde a infância
no mundo mais
elemental. Guardo desse tempo o gosto por uma
arquitectura extremamente clara e despida ,
que os meus
poemas tanto
se têm empenhado em reflectir» (R.P.).
A harmonia perseguida, pode, assim , ser interpretada como procura da
recuperação da unidade
originária (materna );
a recondução ao uno .
A terra
|
Diz
Óscar Lopes[4]
que a «terra
reúne dois semas distintos :
o da maternidade e o da
ruralidade» num «enredo de comunicação
entre corpos ,
pelo desejo e
pela ternura ».
A
poesia de Eugénio de Andrade sendo das mais depuradas é , simultaneamente, das mais autoconcentradas mostrando um
sujeito lírico
numa esfera de identificações
intercambiáveis. Nela se pressente uma história
subterrânea [5]
com cujas figuras
principais esse
sujeito se (con)funde. Figuras
reunidas num tríptico cujo centro ,
nas palavras do poeta ,
seria «ocupado tutelarmente pela Mãe ,
tendo à sua direita
a Criança e à esquerda o Pastor »
(«Elegia com Pastores ao fundo »).
Há napoesia
de Eugénio de Andrade uma estreita aproximação entre o antigo chão grego e a originária
paisagem da Beira
Interior donde provém a fundamental figura
do pastor . Comparecendo a partir
de Ostinato Rigore, este vai
ganhando, nos últimos
textos , cada
vez maior
nitidez como
figuração da iniciação sexual e de uma, quase
sempre muito
implícita , expressão
homoerótica do desejo .
Num dosbreves
poemas de Escrita
da Terra , «dois homens », como
se fossem dois pastores ,
poder-se-á subentender , «dormem à sombra da tarde
e da memória »; a sugestão ,
que na leitura
do poema , advirá do seu
extraordinário pendor
elíptico , pode, no quadro
paisagístico e na situação
recortada, convocar o diálogo
com um
horizonte interpretativo
que assimila tópicos
recorrentes de um
dos mais fecundos
veios da tradição
poética ocidental .
Há na
Num dos
O plátano
E o estrídulo
sol a prumo
das cigarras .
O
rio quase à mão .
E
um
rumor ,
não de ninfas :
de palavras .
O
azul é branco ,
duro .
Os
dois homens
dormem
agora
à
sombra da tarde .
E
da memória .
A
metáfora vegetal :
Os
cardos, a palha , as urtigas ,
as silvas são exemplos da
presença do outono
que faz acentuar
o espaço de aridez ,
secura e o despir dos sinais de fertilidade :
«É no ardor dos cardos / que
o vento faz a casa »
(O. R.) – aqui ainda o cruzamento
de uma metaforização eufórica , rasante ao desejo
(ardor ); «E a sede
dos cardos rastejava pelo chão »
(O P. da S.); «Os cardos e os lábios
da sede » (B. n. B., IX).
O
verde das folhas (ervas ,
juncos , árvores ,
ramos ) é metáfora
da atmosfera de fecundidade
e frescura .
A
rosa (branca ), em
particular , e a flor
(hiperónimo), em geral ,
constituem metáfora do mito materno . Um deslumbrante modo de afirmar a vida e o despertar de alegria («é urgente
descobrir rosas
e rios »; «rumor
abrindo, luz molhada ,
/ rosa branca »;
«rosa de alegria
/ aberta nas minhas
mãos » – A. A.; «Era o dia / acabado de nascer ? // Que rosa
abria?» – M. de S.), sendo que a perda das rosas
simbolizará, naturalmente , a tristeza .
Há
ainda a associação
entre o florir
e a própria criação
poética (vd. Poema
XXIII de As M. e os F. – «dar versos ou florir desta maneira »)
e também a sugestão
desejante intrincando-se, insinuando-se na acepção
materna . É aliás
o desejo , o termo
metaforizado que na flor
melhor se revela: a flor aberta
ou por abrir , o ser flor ou o estar em flor , o florir ou a floração, eis
alguns dos modos
por que ,
textualmente , se traduz esse termo
metaforizado.
Os frutos
Há
três estados
associados à presença
dos frutos : o amadurecer [7],
o cair e o colher .
A metáfora do amadurecimento liga-se à ordem natural
cíclica («o dia amadurece», As M. e
os F.,XV), articula-se com a palavra («bago
a bago podes colher
/ a noite está madura :
/ podes levar à boca
a preguiçosa espuma
das palavras », V. da A.), ou com o homem em sua expressão
erotizada, desejante, ou propriamente materna («Oh tempo tempo tempo , / tempo
de colher / o que
temos maduro : / o lume
dos olhos / a luzir
no escuro », O.R.; «pelos meus braços caíam / frutos
maduros de outono »,
Os A. s. D.).
As
maçãs reflectem o brilho e a doçura do tempo , a face matinal do tempo
(«a manhã cheia
de brilhos e doçura
/ debruça o rosto puro
na maçã », O.R.).
Destacam-se
ainda a solaridade das laranjas («Na laranja
o sol e a lua
/ dormem de mãos dadas», O.R..),
o ardor da romã
(«O ardor quase
animal / de uma romã
aberta », O P. da S) e a memória iluminada nos
frutos miúdos
(nas cerejas , framboesas ,
figos e em
particular nos
abrunhos e nas amoras , o que se destaca é o transporte
que nos
mostra o reenvio a um
tempo passado ;
nesse reenvio emerge a memória a enfatizar o universo rural , a infância
e aí o forte
apelo sexual .
Exemplo de L. dos P. – «entre as pernas
um rumor
de saliva uma áspera
doçura pois era o tempo dos
medronhos»).
Os
frutos consagram a figuração da
idealidade, o primado de uma ordem que
subsume a perfeição , a totalidade
e a harmonia do interior
iluminado: «Eu andava dentro de ti / como
um pequeno
rio de sol / dentro da semente ,
/ porque nós
– é preciso dizê-lo / tínhamos nascido um dentro do outro / naquela noite »
(As P. I.); «Dormíamos nus / no interior dos frutos »
(M. S.).
A
metáfora animal :
figuração da líbido sexual .
O
ardor dos animais
(cavalos ,
cães , cabras )
O
cavalo enquanto
jovem (o potro ,
o baio ) representa o instinto , o vigor e a força , configurando o desejo
sexualizado: «e como um potro na planície nua em ti
entrei» (O. D.); o verão «chega de súbito , / com seus potros fulvos »
(O. R.); «era o verão escuta os
seus cavalos »
(L. dos P.); «o baiozinho que então namorava» (B. no B., VI) – no poema donde este
verso é extraído, surge o reenvio à infância ; a ligação
à criança , tornada
visível , acentua precisamente
a confluência das componentes
sexual e afectiva deste animal : «Só o cavalo , só aqueles / olhos
grandes de criança ,
aquela / profusão da seda me fazem falta »
(X); «amanhecer de risos
infantis e trote de cavalos »
(XXXIII).
No
sonho e no devaneio
da criança o imaginário
dos cães conforma um esquema pejorativo simbolizando a agressividade e a crueldade («corria à pedrada
/ os cães de que
tinhas medo ,
/e fugia de ti para afagar
// em segredo
/ o baiozinho que então
namorava», B. no B., VI).
As
cabras , para
além de integrarem a representação (materna )
do rosto da terra
que secou, surgem noutros contextos , no activar do desejo .
No poema «as cabras »
(M. d. R.) interpenetram-se para lá de subtis ressonâncias
maternas («odres fartos ,
mornos » por
onde o sujeito
poético bebe o leite ), as mais explícitas referências
sexuais («vulvazinha cheirosa », «minha
primeira mulher »)
e afectivas (onde , curiosamente ,
podemos também descortinar
a associação ao cavalo
– «foi o meu cavalo »).
A
matéria das aves
ou a matéria
poética
«
O
voo e o canto são
eixos preferenciais
de significados metafóricos, podendo
estender-se a outras entidades : «[a boca ] espera o ardor do vento / para
ser ave // e cantar » (O. D.); «a tarde
a querer voar » (Os A.
s. D.); a rapariga que voa (A. A.); a casa
que «não
resiste: também voa» (O. R.).
Particularizando
uma dessas zonas , eis
a figuração do encontro amoroso : «Podíamos cantar /
ou voar ,
podíamos morrer ».
Na
poesia de E. de A. uma das mais visíveis manifestações da metáfora
tem a ver com
o desejo («e tudo
começa a ser ave / ou lábios , e quer voar », O. R.), o que
não quer
dizer que a
ideia de voo, e de altura , não apareça associada
a um certo
sentido de pureza ,
de angelismo («as aves voltam / são nos ramos altos / a
matéria mais
próxima dos anjos »,
O. P. da S.).
O
voar vai conjugar-se dominantemente
com o ser ave ou com o canto .
Diz-se em B. no B.: «é dentro de ti que
toda a música
é ave » e em
C. do D. no primeiro poema ,
intitulado «Introdução ao Canto »: «Ao menos
tu sê ave
/ primavera excessiva .
/ Ergue-te de mim : / canta , delira, arde». Torna-se evidente
que essa música
interior , ou
esse canto
invocado , é a mais
pura metáfora
do próprio poético. Daqui se pode derivar
para uma breve
reflexão sobre
o sentido atribuído à pureza do canto ,
da poesia . Numa entrevista
lembra E. de A. que «pureza , de que
tanto se tem falado
a propósito da minha
poesia é simplesmente
paixão , paixão
pelas coisas da terra ,
na sua forma mais ardente e ainda não consumada » (R.P.).
Eduardo
Lourenço afirma que «através da fonte , da
flor , da ave
o seu poetar
atribui-se como um
excesso ao paraíso
dos homens » («A poesia
de E. de A.» in 21 Ensaios sobres E. de A., Porto ,
Inova, s/d) – portanto vertentes angelista e paradisíaca
da poesia de E. de A.. Neste sentido os anjos
equivalem-se às palavras . Eles são da palavra poética ,
a metáfora .
O
traço simbólico dos pássaros
aproxima-os dos anjos : a pureza ; diáfana
matéria transformada em ideal de transparência poética .
Assim lemos a «matéria
das aves » num poema
de B. no B. nessa mesma equivalência (matéria
poética ).
O
|
O
chamamento do mar (o ir e vir das marés )
é materno .
O mar .
O mar novamente
à minha porta .
Vi-o pela
primeira vez
nos olhos
de minha
mãe , onda
após onda ,
Bipolaridades
do mar : mar
habitáculo fechado, mar perfeito (veja-se a ideia de fechamento
e perfeição no poema
«Adeus » de As P.I.: «Como se houvesse nuvens
sobre nuvens ,
/ e sobre nuvens
o mar perfeito »),
mar dócil
de pequena vaga
e de movimentos regulares
de vai vem, mar liberto
que não
deixa enclausurar
e que se abre à chegada
da estrela do pastor .
Bipolaridades cuja configuração
semântica obedece a esquemas
de expansão e contensão ,
esquemas que
traduzem um permanente
diálogo tensivo
entre o imaginário
materno («perfeito
e calmo », «com
ele nos
braços », «seu
coração de vidro »)
e o imaginário desejante («sem bridas », «estrela do pastor », «sobre o meu peito »).
Dos
pescadores se diz que
«devem ter herdado das vagas
a ondulação » (V. do O.). As vagas , a ondulação
perpetuam a imagem do movimento constante ,
visão que
tende a figurar a pulsão errática do desejo («E um sabor a sémen / que
sempre a maresia
traz consigo », B. no B., XVIII).
O corpo se alarga e se espraia no mar (As M. e os F., X), ou
o mar sobe a prumo
e desaba nos ombros
(O. R.), ou o mar que se
avista do peito caindo a prumo (B. no B., XXI). Também
a representação da presença
do desejo na figura
do rapaz ou
dos garotos que
correm em direcção ao mar .
à lenta
embriaguez dos dedos ,
rendido de colina
em colina ,
de secreto
jardim ,
o rumor
das espigas ,
a doçura
escuríssima das silvas.
e todas fulvas de alegria ,
todas para sorver ,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas ,
e suba às torres ,
e suplique um
punhal .
e branco ,
LINHAS DE LEITURA:
—Veja como duas
das principais linhas de sentido do texto se
condensam no título:
«Corpo»
é um lugar, na lª estrofe percorrido (pelos «dedos» –
v.3, «de colina em colina» – v. 6, v. 8); na
2ª estrofe dito «onde» –vv. 11 e 12, e
«onde entro em casa» – v. 11; na 3ª estrofe lugar das
«mil bocas»; na 4ª estrofe «oceano» – v. 28 e «embarcação» – v.
30.
«Habitação»
define
o lugar do corpo como casa, que, porque habitada,
é um espaço vital, de conforto,
protector, íntimo, privado (cf. vv. 4, 11, 13, 15, 30).
— Note
o animar do «corpo» pelo percurso do Eu que,
começando por estar ausente/presente na lª estrofe,
aparece na 2ª denotado (vv. 11 e 12), se funde
no corpo do outro na 3ª estrofe (no
«grito» comum; no «punhal» fálico, símbolo da fusão erótica;
no «entregar às lágrimas» – água ou esperma?; no
«morrer» do orgasmo), e claramente revela
a posse/dádiva do «corpo»
na última estrofe («meu»/«minha»
inicia quatro versos).
—Note ainda a progressiva presença da água:
na lª estrofe «Corpo num horizonte de água»
– água visível mas longe, porque o corpo está
«defendido», é necessário vencer o obstáculo (as
«colinas»), ainda só «humedecido» (v. 7); na
2ª estrofe a água pressente-se no «jardim», no «sugar»; na
3ª, a água junta-se ao fogo (vv. 18/19 – «bocas fulvas
de alegria») e «irrompe» até às «lágrimas» ou ao
«morrer» orgasmático;
no fim do texto já o corpo é dado como contentor
e continente líquido, como «oceano» que pode
«navegar», mas é-lhe conferido também carácter activador
do Eu (v. 31 – «meu vento favorável»)[10].
Metáfora da navegação:
Há uma
trajectória erótica em que a penúltima estrofe dá conta do momento orgasmático
e a última estrofe corresponde
ao momento de calmaria e
o permanente estado de partida, de viagem (o
errático da pulsão).
Temos assim a metáfora do corpo navegável
(por onde se navega) ao corpo, ele próprio, meio de acesso à viagem. Tanto a via (breve e branca), quanto ao meio (secreto),
demarcam um alinha íntima do horizonte. O metaforismo
pode alargar a interpretação dessa linha a
uma abertura de sentidos – enquanto rota do desejo (vária,
incerta)[11]
No
poema há uma metáfora
continuada corpo /água ;
viagem /desejo :
subitamente
se faz água
no meu peito ,
e a noite
se faz barco ,
e a minha
mão marinheiro .
[1] O presente
texto tem por
base a contracção e síntese
do livro de Carlos Mendes de Sousa O
nascimento da música – a metáfora em Eugénio de Andrade, Coimbra, Almedina, 1992. Outros
estudos se lhe
foram intercalando.
[2] in Plural
Língua Port. 10º, 2003, p. 95.
[3] símbolos cíclicos, segundo Northrop Frye:
Velhice
|
|||
[4] In Uma espécie de música
(a poesia de E. de A.), Lx,
I.N.-C.M., 1981, pp. 91-92.
[5] Joaquim Manuel
Magalhães a propósito de Limiar
dos Pássaros (1976) afirma que «há nesta obra
uma intenção de referência
cuja significação se oculta, um facto de latência emocional
mais que
de expressão e que
é um erotismo
sem explicação
precisa , uma sexualidade
dirigida para um
ser indefinido , um referido sexual
sem género gramatical
referente . O ponto
de partida emocional
dos textos e o duma sensibilidade
sexual que
se não diz, que
é remetida para uma zona gramatical cega .
E este facto de expressão
é um mecanismo
de exclusão , uma castração ,
uma cegueira , uma ruína
interior ao próprio
discurso , uma forma
de morrer sobre
os teus rins
que também
ensinam a morrer . (Os dois
crepúsculos , Lisboa, A Regra do Jogo Edições , 1981.)
[6] Cf. «O texto nómada (sobre
a Escrita da Terra )»
in Cadernos de Serrúbia,
nº1, Dezembro de 1996, Carlos Mendes de
Sousa.
[7] É de notar
as correlações estabelecidas à volta do adjectivo maduro
e do verbo amadurecer ,
transitando dos frutos , ao homem , ao tempo
e à palavra : as espigas
maduras; o feno que
amadurece; o olhar maduro ;
o dia amadurece, a morte
amadurece; palavras maduras.
[8] A água
funciona como agregadora, operando a unificação das fragmentações
de um corpo
descentrado e estilhaçado.
[9] Veja o poema «A arte de navegar » in O. D.
[10] in Poemas de E. de A., Paula Morão, Seara
Nova / Ed. Comunicação ,
1981, pp. 109-110.
[11] Pode-se, por exemplo , ler aí o sentido de viagem /engate – «minha
vária , sempre
incerta navegação ». Carlos Mendes Sousa
invoca uma inscrição de Roland Barthes em Fragmentos
dum discurso amoroso ,
p. 53, um parênteses ,
como frase
decodificadora: «(ele navega, engata)».
Fonte:
LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO.
Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/eugenio_de_andrade.pdf, 2009-04-18
Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/eugenio_de_andrade.pdf, 2009-04-18
2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/eugenio_de_andrade.pdf, 2016
Eugénio de Andrade e o universo elemental da
metáfora.
Sugestões bibliográficas.
BERTOLAZZI, Federico (2004). «Poética da brevitas na
poesia de Eugénio de Andrade de Primeiros Poemas a Ostinato Rigore». Textos e
Pretextos 5, 20-31.
CRUZ, Gastão (2008). «Função e justificação da
metáfora em Eugénio de Andrade»; «Eugénio de Andrade – Obscuro Domínio»;
«Na oficina de Eugénio de Andrade»; «Eugénio de Andrade: claro e obscuro
domínio»; «Transparência e sombra em Eugénio de Andrade». In A vida da
poesia. Textos críticos reunidos. Lisboa: Assírio & Alvim,
134-153.
EIRAS, Pedro (2007). «O regresso dos deuses –
Eugénio de Andrade». In A Lenta Volúpia de Cair. Vila Nova de
Famalicão: Quasi, 26-42.
FERRAZ, Eucanaã (2004). «Eugénio: animal
amoroso». relâmpago 15, 15-33.
FERREIRA, António Manuel (2004). «Os poemas em
prosa de Eugénio de Andrade». forma breve 2, 59-70.
FERREIRA, António Manuel (2005). «Eugénio de
Andrade: figuras de melancolia». In A luz de Saturno: figurações da velhice.
Aveiro: Universidade de Aveiro, 53-66.
LISBOA, Eugénio (2009). «Eugénio de Andrade –
claridade e ambiguidade». In Indícios de Oiro. Vol. 1. Lisboa:
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 321-328.
LOPES, Óscar (1981). Uma Espécie de
Música (A Poesia de Eugénio de Andrade). Lisboa: Imprensa
Nacional-Casa da Moeda.
LOPES, Óscar (1994). «Mãe-d'Água, ou a poesia de
Eugénio»; «Eugénio de Andrade: o texto inconsútil entre a voz e as coisas».
In A
Busca de Sentido. Questões de Literatura Portuguesa. Lisboa:
Caminho, 221-227; 229-236.
MAGALHÃES, Joaquim Manuel (1981). «Eugénio de
Andrade». In Os dois crepúsculos – sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas.
Lisboa: A Regra do Jogo, 89-111.
MAGALHÃES, Joaquim Manuel (1999). «Eugénio de
Andrade». In Rima Pobre – poesia portuguesa de agora. Lisboa: Editorial
Presença, 108-116.
MARGARIDO, Alfredo (2005). «A força da
esterilidade na poesia de Eugénio de Andrade». In SANTOS, José da Cruz
(ed.). Ensaios sobre Eugénio de Andrade. Porto: Asa, 29-44.
MARINHO, Maria de Fátima (1989). «À procura da
alegria: breve leitura da poesia de Eugénio de Andrade». In A Poesia
Portuguesa nos Meados do Século XX – Rupturas e Continuidades.
Lisboa: Caminho, 157-165.
MARTELO, Rosa Maria (2004). «O corpo e o corpus:
Eugénio de Andrade vs. Pessoa (e outros caminhos)».
In Em
Parte Incerta – Estudos de Poesia Portuguesa Moderna e Contemporânea.
Porto: Campo das Letras, 131-149.
MENDES, Paulo Simões (2004). «Uma forma de pensar
a sexualidade ou outra visão da poesia de Eugénio de Andrade». Textos e
Pretextos 5, 42-51.
MORÃO, Paula (1993). «Eugénio de Andrade».
In Viagens
na Terra das Palavras. Lisboa: Edições Cosmos, 57-69.
MORÃO, Paula (1996). «A Infância na Obra de
Eugénio de Andrade». Cadernos de Serrúbia 1, 141-153.
MOURÃO-FERREIRA, David (1980). «Eugénio de
Andrade». In Vinte Poetas Contemporâneos. Lisboa: Ática, 179-186.
NAVA, Luís Miguel (1987). O essencial
sobre Eugénio de Andrade. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
NAVA, Luís Miguel (2004). «Eugénio de Andrade».
In Ensaios
Reunidos. Lisboa: Assírio & Alvim, 117-173.
NEMÉSIO, Vitorino (2005). «Frutos Líricos». In
SANTOS, José da Cruz (ed.). Ensaios sobre Eugénio de Andrade.
Porto: Asa, 310-317.
NEVES, Fernando Paulouro (2003). A Materna Casa
da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade. Fundão: Câmara Municipal do
Fundão/Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro.
NEVES, Ricardo Paulouro (2004). «"Eu vou com
as aves": plantas, frutos e animais na poesia de Eugénio de Andrade». Textos e
Pretextos 5, 52-59.
PEREIRA, Maria Helena da Rocha (1988). «Poesia de
Safo em Eugénio de Andrade». In Novos ensaios sobre temas clássicos na
poesia portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda,
323-332.
REIS, Margarida Gil dos (2004). «O lugar do sol:
notas à poesia de Eugénio de Andrade». Textos e Pretextos 5, 60-69.
REYNAUD, Maria João (2004). «Eugénio de Andrade:
poesia reunida». In Sentido Literal – Ensaios de Literatura Portuguesa.
Porto: Campo das Letras, 293-301.
RIBEIRO, Eunice (2004). «Cantos da
docilidade». relâmpago 15, 35-55.
ROSA, António Ramos (1987). «Eugénio de Andrade ou
a magia de uma linguagem». In Incisões Oblíquas. Estudos sobre poesia portuguesa
contemporânea. Lisboa: Caminho, 21-26.
RUBIM, Gustavo (2004). «O animal poético». relâmpago 15,
57-86.
SANTOS, José da Cruz, ed. (2005). Ensaios sobre
Eugénio de Andrade. Porto: Asa.
SOUSA, Carlos Mendes de (1992). O Nascimento da
Música. A Metáfora em Eugénio de Andrade. Coimbra: Almedina.
SOUSA, Carlos Mendes de (1995). «ANDRADE (Eugénio
de)». in Biblos. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa.
Vol. 1. Lisboa: Verbo, 264-271.
SEIXO, Maria Alzira (2001). «Eugénio de
Andrade, O silêncio do olhar». In Outros Erros. Ensaios de
Literatura. Porto: Asa, 316-319.
VV. AA. (s.d). 21 Ensaios sobre Eugénio de
Andrade. Porto: Editorial Inova.
Bibliografia
selecionada por Isabel Cristina Saraiva de Assunção Rodrigues,
http://www.ua.pt/dao/uc/3050 [Consultado em 2019-04-15]









Sem comentários:
Enviar um comentário