
Alberto Caeiro
uma arte de ser
uma arte de ser
- Na obra de Caeiro, há um objetivismo absoluto ou antimetafísico. Não lhe interessa o que se encontra por trás das coisas. Recusa o pensamento, sobretudo o pensamento metafísico, afirmando que "pensar é estar doente dos olhos".
- Caeiro, poeta do olhar, procura ver as coisas como elas são, sem lhes atribuir significados ou sentimentos humanos. Considera que as coisas são como são.
- Constrói uma poesia das sensações, apreciando-as como boas por serem naturais. Para ele, o pensamento apenas falsifica as coisas.
- Numa clara oposição entre sensação e pensamento, o mundo de Caeiro é aquele que se percebe pelos sentidos, que se apreende por ter existência, forma e cor. O mundo existe e, por isso, basta senti-lo, basta experimentá-lo através dos sentidos, nomeadamente através do ver.
- Ver é compreender. Tentar compreender pelo pensamento, pela razão, é não saber ver. Alberto Caeiro vê com os olhos, mas não com a mente. Considera, no entanto, que é necessário saber estar atento à "eterna novidade do mundo".
- Condena o excesso de sensações, pois a partir de um certo grau as sensações passam de alegres a tristes.
- Em Caeiro, a poesia das sensações é, também, uma poesia da natureza. "Argonauta das sensações verdadeiras", o Poeta ensina a simplicidade, o que é mais primitivo e natural.
- Optando pela vida no campo, acredita na Natureza, defendendo a necessidade de estar de acordo com ela, de fazer parte dela.
- Pela crença na Natureza, o Mestre revela-se um poeta pagão, que sabe ver o mundo dos sentidos, ou melhor, sabe ver o mundo sensível onde se revela o divino, em que não precisa de pensar.
- Ao procurar ver as coisas como elas realmente são, sublima o real, numa atitude panteísta de divinização das coisas da natureza.
- Nesta atitude panteísta de que as coisas são divinas, desvaloriza a categoria conceptual "tempo".
- O poeta confessa não ter "ambições nem desejos". Ser poeta é a sua "maneira de estar sozinho".
(in Preparação para o Exame Nacional 2010. Português 12º Ano, Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Porto Editora, 2010, p. 40)

Texto
1
Os aspectos
biográficos da vida de Caeiro poderão contribuir para explicar
a simplicidade que
Caeiro, para si ,
reclama. Vendo-se como um simples
"guardador de rebanhos ",
não admira que
prefira a objectividade e a naturalidade
próprias dos mais simples .
Privilegia os órgãos dos sentidos , principalmente a visão
e a audição , porque
são estes
que lhe
permitem uma percepção exacta das coisas que
existem na natureza e com ela e nele
evoluem sem precisarem de uma explicação metafísica
ou intelectual .
O facto de se interessar
apenas por
aquilo que
as sensações captam faz dele um sensacionista. Adere espontaneamente às coisas e identifica-se com
elas , interrogando-se sobre o porquê
de se procurar o mistério
das coisas e afirmando não saber mais que o rio ou a árvore ("O mistério
das coisas , onde
está ele ?/(...) Que
sabe o rio disso e que
sabe a árvore ?/ E eu ,
que não
sou mais do que
eles , que
sei eu disso?"). Por isso vai recusar o pensamento
e rir daqueles que
pensam ("Sempre que olho para as coisas e penso no que os
homens pensam delas, / Rio
como um
regato que
soa a fresco numa pedra .").
Estas afirmações de Caeiro reforçam o carpe
diem, filosofia de vida que adopta
o fruir da realidade ,
de uma forma livre
e despreocupada, não vendo nas coisas nenhum sentido oculto ,
reduzindo-as à percepção que delas tem, à sua
forma , à sua cor e à sua
concretez.
Diz-se contrário
à filosofia e apologista
dos sentidos ("Eu não tenho filosofia : tenho sentidos ..."),
mas a verdade
é que cria
a sua própria
filosofia e um
pensamento incomum ,
uma vez que ,
ao recusar o pensamento ,
teve de pensar nas razões
que o levaram a fazê-lo.
De qualquer
modo , após a leitura dos poemas
de "O Guardador de Rebanhos ", parece não
restarem dúvidas quanto
ao seu pendor
simplista e reducionista, de forma a poder
viver sem dor e envelhecer sem angústia , o que é confirmado pelo conjunto de processos
estilísticos que emprega
na sua poesia ,
realçando-se a abundância de substantivos
concretos , a quase
ausência de adjectivos (utiliza fundamentalmente os de teor
cromático ou formal , isto é,
sem valoração); recorre, ainda , ao presente do indicativo e à coordenação ,
excluindo as figuras do pensamento como
a metáfora , a sinédoque ,
a hipérbole , a antítese ,
o que confirma também
a sua tendência
para a objectividade e para
a redução. Em contrapartida ,
a poesia de Caeiro apresenta comparações
e alguns paradoxos
como forma de
objectivar o próprio sujeito .
A nível fónico, também
não são
visíveis recursos
como as aliterações ,
assonâncias , ou
onomatopeias, dado que
a palavra , em
Caeiro, praticamente se anula em favor do seu referente , facto que
também pode ser
explicado pelo versilibrismo que
este adota, indiciando a lógica subjacente
à poesia deste heterónimo pessoano e que assenta na crença na singularidade das coisas ,
mas que
marca uma ruptura
com os sistemas
literários ainda
vigentes.
(Maria Peixoto e Célia Fonseca, Português B)
É o poeta que aceita o mundo
como ele
é sem
curar de lhe investigar a natureza
e a origem . O poeta
vive na observação , pelos
sentidos , do mundo
real , no tempo
presente . Para ele não há passado , porque
recordar é atraiçoar a natureza (que é
apenas o agora );
não há futuro ,
porque o futuro
é campo de miragens
enganadoras. É, em suma ,
o poeta do real
e do objectivo. Só os sentidos contam para ele e os olhos são o mais importante , talvez
porque os olhos
captam mais largamente
o mundo real .
Alma abstracta e
Álvaro
de Campos
E o jogo
continua. Como camponês
que era
("guardador de rebanhos "),
convinha que Caeiro não
se revelasse num estilo muito culto . E,
de facto, o predomínio da coordenação ,
as imagens e comparações comezinhas, a simplicidade do vocabulário ,
o predomínio dos sentidos
denotativos, tudo isto
dá à sua linguagem
um nível próprio de um homem do campo ,
embora , paradoxalmente ,
com bastante
cultura e sobretudo
com hábitos
de raciocinar . A sua linguagem é
sobretudo abstracta, adaptada ao raciocínio , e nunca
nela surge a descrição impressionista da realidade .
O seu realismo
ingénuo, paradoxalmente , desemboca sempre no raciocínio .
Como poeta bucólico , Caeiro deveria basear
a sua poesia
na descrição visualista da natureza . Não só não o faz, mas a sua linguagem é adaptada à exposição
de uma teoria antimetafísica. Querendo repudiar qualquer filosofia , Caeiro transformou-se num poeta
filósofo, ou antifilósofo.
(António Afonso Borregana, Fernando Pessoa
e Heterónimos, Lisboa, Texto Editora,
1995, p.16)
(Eduardo
Lourenço, Fernando, Rei da Nossa Baviera, Lisboa, IN-CM, 1986)
CAEIRO realiza-se, Caeiro não
anseia , não
sofre, não se esgota ,
não luta .
Caeiro é feliz . Caeiro nem
sequer pensa ,
Caeiro é. Tem a inocência de se limitar a ser , a aceitação
de ser natural ,
sem subjetividade, só
superfície . Sem
subjetividade, por isso ,
sem conflitos
com o real .
É um ser plano , a uma só
dimensão , sem
profundidade , transparente .
Esta é a sua originalidade .
Porque não
é de um humano
ser humano assim . Antes de
pedra , antes
de árvore . Como
se tivesse alcançado um estado de beatitude , em que não há revolta ,
nem desejo ,
nem ânsia ,
nem sequer
compreensão : só
sentidos . Só
o contacto material com
os outros – corpo
– comum – natureza ,
homens ou
coisas . A metafísica
está, assim , completamente
posta de lado .
Deus só
pode ser o que
existe para os sentidos
e sem qualquer
ideia unificadora, racionalizadora, sem qualquer sistema .
O pensamento
foi ultrapassado como se fase
larvar desta iniciação
e, agora , ver
e sentir na pele
são as únicas formas
de relação com
o real . Os símbolos
da infância e da criança
tornam-se inevitáveis . Caeiro é, talvez , uma nova
abordagem do paraíso
perdido, que os românticos nunca encontraram, porque
nunca se desumanizaram, antes se complexizaram como
humanos , seres
únicos , incomuns ,
raros . Caeiro não .
É comum e bom .
Caeiro e os seus poemas
são uma metáfora ,
uma construção alegórica para
a doutrinação de umas quantas linhas : objectividade; negação
do misticismo ; negação
da metafísica ; negação
do sentimentalismo social
e individual ; hipertrofia
do natural no humano .
A poesia
de Caeiro poderia correr
o risco do se tornar
campesina , bucólica ,
ao desenhar pequenos
quadros desse tipo ,
mas estes
quadros não
são senão
a metáfora dum estado
de sossego , de tranquilidade, de paz existencial. Porquê
o «guardador de rebanhos »,
a investidura no pastor ?
Figura pousada
sobre e terra ,
o humano que
é tão erva
e tão bicho
como os bichos
e a erva com
que se mistura .
O pastor instituído como
o que conhece a natureza
intuitivamente, a sabe, com ela dialoga, domina as suas
marés . Por
isso , quem
é Caeiro tem um pastor
em vez
de alma e rebanhos
em vez
de pensamentos . Caeiro, no entanto , conhece o que
é ser humano
e todo o seu
rastro de sofrimento e angústias , pois essa sombra está na sua
poesia em
contra à luz
que ele
é («Pensar incomoda corno
andar à chuva »).
Também a natureza
tem defeito , também
a natureza adoece.
Caeiro não
tem memória , não
armazena nenhum código
pronto a integrar
(e a envelhecer ) qualquer
novo sinal . A
abstracção foi eliminada. Não há conceitos , há objectos. Não
há sistema , há muitos
elementos . Há a constante
novidade . Há a inocência .
Caeiro tem muitas vezes uma posse infantil da linguagem , pela
eliminação dos mecanismos
mais lógicos :
a pronominalização, e adverbiação, a subordinação .
Caeiro exibe repetições infindáveis , enumerações perfeitamente
substituíveis por uma fórmula sintetizadora, enredos
de coordenações . Uma escrita naïve.
(in Vamos ler ,
Maria Almira Soares, Lisboa, Texto Editora, 1986
e 1987)
Caeiro apresenta-se como
anti-metafísico, negando o valor ao pensamento (O Guardador
de Rebanhos , I):
Os meus versos são contentes .
Só tenho pena
de saber que são contentes ,
Porque , se o não
soubesse
Em vez
de serem contentes e tristes
Seriam alegres e contentes .
O pensamento
tem mesmo um
valor negativo :
se não pensasse os seus
versos não
teriam nada de tristeza ,
seriam apenas «alegres
e contentes ».
«Pensar incomoda como andar à chuva .»
Foi este
incómodo de pensar que
Fernando Pessoa nunca
conseguiu evitar . Já
vimos como a «dor
de pensar » sempre
o torturou, inventando muitas saídas para o drama do seu «eu »
dividido entre o real
e o imaginário , entre
o ser e o não
ser . A tentativa mais radical de
fugir à «dor
de pensar » foi esta de transferir
a sua alma
para um poeta bucólico que olha e
sente o mundo com
a simplicidade com
que uma criança
olha uma flor .
Mas nem
assim o poeta
consegue libertar-se da inteligência que vem sempre toldar a simples alegria de ver : «Os meus pensamentos
são contentes .
/ Só tenho pena
de saber que são contentes »,
porque , assim ,
ficam «contentes e tristes ».
A plena
felicidade exige não
só o olhar simples de uma criança ,
mas também
a sua inconsciência .
Não é apenas
nisto que o sistema
de Caeiro claudica. Como se pode ver , por exemplo , no poema
V de «O Guardador de Rebanhos », o poeta não é capaz de dispensar nem o pensamento , nem
o raciocínio , nem
a inteligência , para nos convencer de que para ele há apenas sensações («Eu não tenho filosofia :
tenho sentidos »). O que
poderemos concluir é que
o poeta , ao
negar a metafísica ,
está a construir uma anti-metafísica.
(António Afonso Borregana, Fernando Pessoa
e Heterónimos, Lisboa, Texto
Editora, 1995, pp. 63-64)
A temporalidade psíquica de Caeiro é estática :
não recorda, não
faz planos , nunca
constrói - passa e cada
instante é feito
de uma duração igual
à dos relâmpagos , ou
à das flores , ou
à das árvores , ou
à do sol . É sempre
um tempo
objectivo que coincide exactamente com a sucessão
do curso normal
dos dias , das noites
e das estações e com
a diferenciação dos estados
atmosféricos ou da paisagem .
Faz da Natureza uma verdade
absoluta , realidade
com que
se deve identificar na sua
passagem à materialização ou à circunstância
temporal . Nela, «as cousas não têm significação: têm existência ».
[…]
Alberto Caeiro não poderia evocar um passado sob pena de se contradizer . Nem deveria falar de um futuro .
Querendo viver no instante ,
não tinha
o direito de desejar
a vida na permanência
entre os instantes .
Mas , por
muito cuidadosamente que arquitecte a sua
filosofia , deixa
de quando em
vez transparecer
a marca humana
numa poesia de ideias abstractas e impossíveis : redigindo umas notas
biográficas para aviso de quem
o ler , liga-se, forçosamente ,
a todo o tempo
que passou e que
está a passar e tem pena
de ter amado
porque «sentir
é estar distraído »
do que lhe
merecia a atenção inteira .
Afinal, vem-lhe à memória um sentimento ...
E quando se vai morrer ,
lembrar-se de que o dia
morre.
Eque o poente
é belo e é bela
a noite que
fica...
E
Nesta duração
plena da sobrevivência
da obra de arte ,
perde-se a própria subjectividade da experiência temporal ,
porque se chega
à temporalidade independente da pessoa
e, portanto , a um
pseudo-tempo.
Tem ainda ,
em relação
a essa morte , um
sentido de sobrevivência
que encontra
paralelo , novamente ,
na natureza :
Tem
Ao pensar
no futuro , como
ao pensar no passado ,
está a destruir-se por suas próprias mãos
porque nega o
que afirma ser
o fulcro da sua
vida : a vivência
da realidade no momento ,
o nascimento a cada minuto .
(Maria da Glória Padrão , A
Metáfora em
Fernando Pessoa, Porto, Inova, 1973 )
Um dos documentos
mais interessantes do espólio de Fernando Pessoa (1888-1935) é sem dúvida o
manuscrito de O Guardador de Rebanhos, autógrafo assinado por
Fernando Pessoa e Alberto Caeiro, um dos heterónimos do poeta. Talvez não seja
a mais importante peça do espólio, mas, como diz Ivo Castro no prefácio à
edição deste texto, "por servir de sede completa a um dos seus grandes
ciclos de poemas, por pôr em causa a versão do próprio Pessoa sobre a génese
dos heterónimos, por fornecer amplos meios de corrigir o texto-vulgata doGuardador
de Rebanhos, por documentar reveladoramente os métodos de trabalho e de
criação textual do poeta e, finalmente, por se ter conservado na obscuridade
nos últimos quarenta anos, desconhecido do público e da maioria dos pessoanos,
- por esses motivos todos o presente manuscrito [...] merecerá sem dificuldade
ser considerado uma das jóias da coroa".
Na verdade, este
manuscrito parece à primeira vista confirmar esse "dia triunfal" a
que se refere Pessoa na famosa carta a Casais Monteiro (13 de Janeiro de 1935)
sobre a génese de O Guardador de Rebanhose do seu heterónimo
Alberto Caeiro:
"Num dia em
que finalmente desistira - foi em 8 de Março de 1914 - acerquei-me de uma
cómoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre
que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja
natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca
poderei ter outro assim. Abri com um título - 'O Guardador de Rebanhos'. E o
que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome
de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu
mestre. Foi essa a sensação imediata que tive."
O Guardador é
um ciclo de 49 poemas, que foi publicado na íntegra pela primeira vez em 1946,
no volume intitulado Obras Completas de Fernando Pessoa. III. Poemas de
Alberto Caeiro (Lisboa, Ática, 1946). O presente manuscrito inclui estes 49
poemas, escritos no mesmo tipo de papel, com o mesmo tipo de instrumento de
escrita e a mesma caligrafia. Esta "unidade de escrita, de local e de
tempo de concepção" parecem sugerir que este ciclo de poemas foi escrito
de um jacto e "em êxtase". Mas uma leitura atenta do manuscrito
permite mostrar que assim não é.
Em primeiro
lugar, a letra caligráfica, muito igual e desenhada, não parece ser compatível
com uma escrita inspirada e veloz. Em segundo lugar, em vez de um, temos vários
instrumentos de escrita: foram utilizadas quatro canetas diferentes no corpo do
próprio texto. E, por último, o grande número de emendas, feitas em diversos
momentos, e utilizando sete materiais diferentes, desmentem "a suposição
de ter o Guardador nascido com o texto em estado
definitivo".
A encenação desse
"dia triunfal" é ainda desmentida pelas várias dezenas de rascunhos e
cópias intermédias conservadas no Espólio da BN. Estes documentos mostram que
no processo de escrita do Guardador houve pelo menos três fases
distintas: uma fase de rascunhos (versões existentes no espólio), uma fase de
passagem a limpo (o presente manuscrito) e uma fase posterior de emendas
(presentes neste manuscrito).
Outro aspecto a
salientar diz respeito à datação. No final do manuscrito surge a data
"1911-1912", com a mesma caneta utilizada na assinatura "Alberto
Caeiro". No entanto, alguns poemas estão datados no final a tinta
vermelha, a mesma tinta que é usada na assinatura "Fernando Pessoa",
que vem a seguir à do heterónimo. Estas datas (entre Março e Maio de 1914)
colocadas posteriormente no final dos poemas, parecendo ser as ficcionadas (a
primeira que surge é a do famoso "dia triunfal"), são provavelmente
as que mais se aproximam da realidade, se tivermos em conta as datas dos rascunhos
existentes no espólio, de Março a Maio de 1914, embora algumas não coincidam. E
se não coincidem, surge uma nova dúvida: serão também inventadas as datas dos
rascunhos? Provavelmente não, mas em Pessoa nem sempre é fácil distinguir
ficção de realidade.
O interesse da
divulgação deste documento reside ainda no facto de, tendo sido ele a fonte do
texto publicado pela Ática (para os poemas não publicados em vida), permitir ao
leitor o confronto entre o texto publicado e o original que lhe serviu de base.
A Ática optou pela lição inicial e não pela versão final, que é considerada a
lição mais autorizada por ter sido a única que o autor não repudiou, embora, na
verdade, nunca se possa vir a saber se a repudiaria mais tarde. Mas um texto
poético é sempre um texto aberto, e ao editor cabe apenas a obrigação de
respeitar a última vontade do autor.
Manuela
Vasconcelos
BIBLIOGRAFIA
Castro,
Ivo (1981). "Para o texto de 'O Guardador de Rebanhos'".
Sep. das Actas do Colóquio 'Critique Textuelle Portugaise' (Paris,
20-24 Out. 1981). Paris: Fundação Calouste Gulbenkian, 1986, pp. 319-328.
Castro,
Ivo (1982). "O corpus de 'O Guardador de Rebanhos' depositado na
Biblioteca Nacional". Sep. da Revista da Biblioteca Nacional,
2 (1), 1982, pp. 47-61.
Pessoa,
Fernando (1986). O manuscrito de O Guardador de Rebanhos de Alberto
Caeiro. Edição fac-similada. Apresentação e texto crítico de Ivo Castro.
Lisboa: D. Quixote, 1986.
Pessoa,
Fernando (1946). Poemas de Alberto Caeiro. Lisboa: Ática, 1946
(Obras Completas de Fernando Pessoa, III).
© Biblioteca Nacional, 2004.
http://purl.pt/369/1/ficha-obra-guardador-rebanhos.html

Avalie os seus conhecimentos acerca do heterónimo pessoano Alberto Caeiro.
1. Ligue os segmentos frásicos das duas colunas.
1. Com Alberto Caeiro,
|
a) serve de exemplo a Alberto Caeiro e a Ricardo Reis, adeptos da aurea mediocritas.
|
2. Caeiro é o chefe
|
b) de uma pequena companhia teatral que representa a sua peça no palco da poesia.
|
3. Para todos eles, incluindo o ortónimo,
|
c) que é vivido por Alberto Caeiro, ao privilegiar as sensações oferecidas pelos diversos órgãos sensoriais.
|
4. O poeta de "O Guardador de Rebanhos"
|
d) Pessoa quis criar um pólo de referência para as suas outras personagens.
|
5. Alberto Caeiro recusa o pensamento metafísico,
|
e) é autodidata, de vivência simples e concreta.
|
6. A simplicidade da vida rural
|
f) Caeiro foi o mestre.
|
7. O puro sensacionismo é aquele
|
g) aderindo espontaneamente às coisas, tais como são, gozando-as despreocupadamente.
|
8. O "mestre" vive
|
h) são versos de Caeiro que refletem a sua antimetafísica, afirmando o primado dos sentidos.
|
9. "Pensar incomoda como andar à chuva"e "Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..."
|
i) afirmando que "pensar é não compreender".
|
(in Das Palavras aos Actos. Ensino Secundário. 12º Ano,Ana Maria Cardoso, Célia Fonseca, Maria José Peixoto, Vítor Oliveira, Porto, Edições Asa, 2005, p. 102)
2. Leia o poema “O meu olhar é nítido como um girassol ”.
O meu olhar é nítido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isto muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras..
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentido...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é
Mas porque a amo, e amo-a por isto,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isto muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras..
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentido...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é
Mas porque a amo, e amo-a por isto,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
Complete os espaços do texto que se segue com as seguintes palavras:
presente
antimetafísica
heterónimo
deambulismo
paradoxo
racionalização
antifilosofia
sensacionista
sensacionismo
|
Releve o assunto do poema .
Caracterize o sujeito da enunciação .
O sujeito da enunciação é objectivista (“Creio no mundo como num malmequer / Porque o vejo”). E deixa-se atrair por tudo o que o rodeia (“O meu olhar é nítido como um girassol ”), o que é comprovado pelo seu culto ao deambulismo (“Tenho o costume de andar pelas estradas ”). O eu poético não é o ontem nem o amanhã , apenas se preocupa com o _________________. Sinto-me nascido a cada momento ”). Para além disso, o sujeito lírico é _________________, pois vive de sensações (“tenho sentidos ”) e ama a Natureza , não colocando questões sobre o amor que sente por ela , rejeitando qualquer tentativa de _________________ do real (“Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é / Mas porque a amo , e amo-a por isso ,”).
Encontre, no poema, algumas das características temáticas recorrentes na poesia de Caeiro.
Alberto Caeiro compara-se a uma criança , pois , tal como ela , vê o mundo sem necessidade de explicações e também porque , para ele , o mundo é sempre uma _________________, por isso crê na “eterna novidade do mundo ”. Como a criança , Caeiro não encontra utilidade no pensamento e acha que “o Mundo não se fez para pensarmos nele” e que “pensar é não compreender ”. Desta forma , a inocência e a _________________ são outras duas temáticas das suas composições poéticas .
Associe a frase de Jacinto do Prado Coelho “Caeiro é um abstrator paradoxalmente inimigo de abstracções” a este poema .
3. Recorde todo o estudo que fez dos textos de Fernando Pessoa ortónimo e do heterónimo Alberto Caeiro.
Redija um texto expositivo-argumentativo que obedeça ao seguinte plano:
Introdução: a necessidade de Fernando Pessoa criar este heterónimo antimetafísico.
Desenvolvimento: aspetos que os aproximam e os separam.
Conclusão: fragmentação do “eu”.
(in Das Palavras aos Actos. Ensino Secundário. 12º AnoAna Maria Cardoso, Célia Fonseca, Maria José Peixoto, Vítor Oliveira, Porto, Edições Asa, 2005, p. 79)
4. Ficha de aferição de leitura relativa ao heterónimo pessoano Alberto Caeiro. Aqui.
Fonte:
LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO.
Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/FP_AlbertoCaeiro.htm, 2011-12-16.
2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/FP_AlbertoCaeiro.htm, 2016.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/FP_AlbertoCaeiro.htm, 2011-12-16.
2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/FP_AlbertoCaeiro.htm, 2016.

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