segunda-feira, 14 de maio de 2018

Bernardo Soares




Sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças.
Bernardo Soares    


De Bernardo Soares disse Pessoa que era, não um heterónimo, mas um semi-heterónimo (ou "personalidade literária", como também lhe chamou). Na já tão mencionada carta de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa justifica o porquê de não o considerar como os outros:
«O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as faculdades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual [...]»
Ora, se Pessoa pouco nos diz desta sua "personalidade literária", dele ficamos a conhecer, pela leitura do Livro, a condição de ajudante de guarda-livros, vivendo e trabalhando na Baixa lisboeta, contactando com o universo 'cinzento' da paisagem que o rodeia, a citadina e a humana, a dos cafés que frequenta, a do escritório da Rua dos Douradores, com o patrão Vasques, o Moreira ou o moço de fretes. Vivia num quarto alugado e conversava sobre literatura com Fernando Pessoa, tendo mostrado apreço pela revista Orpheu. Ter-lhe-ia confessado mesmo que, «não tendo para onde ir, nem amigos que visitasse, soia gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também». Da sua escrita resultaram os fragmentos (designá-los-ei por f.) do que viria a ser o Livro do Desassossego.


O LIVRO:

O projeto do Livro do Desassossego acompanhou sempre Pessoa, que publicou o 1ºfragmento, intitulado «Na Floresta do Alheamento» na Águia, em 1913, já com a menção «Livro do Desassossego». Durante bastante tempo o livro como que foi 'hibernando', tendo começado a adquirir alguma forma no período compreendido entre 1929 e 1932, período em que foram publicados em revistas várias outros fragmentos. No entanto, o Livro não chegou a ser livro, no sentido vulgar da palavra: ele ficaria para sempre sob a forma de 'fragmentos', de 'livro por fazer' - que competiria a Jacinto do Prado Coelho publicar em 1982. Nele se reúnem um total de 520 fragmentos. Nunca saberemos se é esse o livro que Pessoa teria feito, visto que, na ausência de critérios explícitos por parte do seu autor, foi opção de quem o organizou tudo publicar. Assim nos foi facultada a versão integral - competindo a cada um de nós, de certo modo, fazer o 'nosso' livro, dispondo dos fragmentos como melhor entendermos.

O TÍTULO:

No Prefácio a essa 1ªedição do Livro do Desassossego (ed. Ática, 1982-2 volumes), Jacinto do Prado Coelho dava explicação do título, nos seguintes termos:
«O título a que Pessoa se manteve fiel coloca o Livro sob o signo do desassossego - palavra que recebe de alguns textos uma conotação decadentista. Em Na Floresta do Alheamento associa-se a tédio: “Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!...” Reaparece em “Perystilo”, texto de cariz semelhante: “Às horas em que a paisagem é uma auréola de vida, e o sonho é apenas sonhar-se, eu ergui, ó meu amor, no silêncio do meu desassossego, este livro estranho com portões abertos ao fim duma alameda duma casa abandonada” E ainda em “Nossa Senhora do Silêncio” fala Soares em sentimentos que habitam “a sombra dos seus cansaços e as grutas dos seus desassossegos”. Mas também ocorre em passos de outro estilo: “O que tenho sobretudo é cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do cansaço quando ele não tem razão de ser senão o estar sendo” (fragmento talvez de 1932). Ajusta-se ao enervamento, à inquietação, à ansiedade que, sem causa imediata, decorrem duma sensação de vazio, de mal-estar, de “incompetência” para viver.» (J.P.Coelho,op.cit)
Por outro lado, recordemo-lo, o termo aparece em «Opiário» (1915), de Álvaro de Campos, significando justamente a inquietação, o mal estar existencial de se saber existindo sem «oriente a oriente do oriente», com vontade de «ser as coisas fortes», mas sem «mola», energia vital, para a ação.

ESTE LIVRO NA OPINIÃO DE ALGUNS DOS SEUS LEITORES:

Trata-se de uma espécie de diário íntimo de Bernardo Soares, em que se refletem histórias de vida, reflexões, paisagens citadinas, em discurso de 1ªpessoa, e em prosa melódica, que a torna mais do que nenhuma outra, prosa lírica.
Jorge de Sena, um dos primeiros a estudar o Livro do Desassossego, afirma que Soares representaria um heterónimo mais próximo de Pessoa do que os outros, por «assumir a meditação dispersa e fragmentária de uma sociedade de heterónimos na disponibilidade. O livro dele era uma espécie de refugo de tudo o que não chegava a ser de ninguém dos outros; e uma espécie de depósito da fragmentária tristeza de Pessoa, que, até certo ponto, para que ele existisse, sofria a suspensão existencial deles.» E acrescenta: «Se nem todos os trechos são de igual valor, alguns serão da mais bela prosa da língua portuguesa. Neles perpassam os temas, às vezes mesmo fantasmas de estrutura, dos poemas de todos os heterónimos e ortónimos. Tudo o que a poesia plenamente realizada, ou a diversificada prosa, deles todos foi ‑ está presente nestes fragmentos feitos da análise espectral das vivências que pululavam dentro do homem Fernando Pessoa, acotovelando-se e atropelando-se para serem, ou, pouco a pouco, desvanecendo-se nas trevas inferiores, como espíritos que se cansam de comparecer à mesa de pé de galo a que os convocaram demasiadamente. O racionalismo transcendental de Fernando Pessoa; o misticismo irónico e frio de outro Fernando Pessoa; a meditação existencial de Álvaro de Campos; o empiriocriticismo de Alberto Caeiro; a consciência cansadamente hedonística da fugacidade de tudo, que era de Ricardo Reis; o neo-positivismo espiritualista do autor dos 35 Sonnets; a lascívia reprimida do autor de Antinous; o anarquismo paradoxal do Banqueiro, etc., etc.‑ e, sob tudo isto, como uma maldição, de que todos são filhos, como um pecado original a que todos devem o ser, a terrível incapacidade de amar, a medonha demonstração de que o homem existe pelos seus atos e não é outro senão eles, e que não existe, senão como ficção, quando, em lugar de aceitar ir sendo, escolhe fixar-se na pedagogia monstruosa de ser por conta alheia, de perder-se 'na floresta do alheamento'»
Por sua vez, Maria Alzira Seixo, na Introdução que faz ao Livro do Desassossego (Editorial Comunicação, Lisboa), insiste sobre o caráter onírico do Livro ‑ «Entre o sonho e o duplo, entre a alienação e as ambiguidades, entre o 'alheamento' e o 'intervalo' se formula o essencial do Livro do Desassossego». A mesma autora acrescenta: «o Livro do Desassossego apresenta-se-nos, no seu conjunto, como a descrição consistente e desdobrada de um estado de alma, traçada a pinceladas obsessivas e desconexas, movida pela observação atenta mas logo desfigurada do seu conteúdo que se delineia em sucessivas e fragmentárias vagas de expressão sentimental ou de reflexão racionalizante»
Por outro lado, parece existir neste livro um fascínio pelo concreto da cidade, dos matizes que as variantes meteorológicas põem nas ruas, nas casas e nas pessoas, a lembrar muito o Cesário Verde de Num bairro moderno ou do Sentimento de um Ocidental. Só que é uma cidade admiravelmente descrita, mas que não vale por si, remetendo para estados de alma em que Soares se desdobra, «novos mergulhos no ser e no desassossego que o altera» (Mª Alzira Seixo, op.cit)
Robert Bréchon, por sua vez, afirma representar o livro «a nudez de Pessoa», sendo o seu assunto «o auto-retrato de uma consciência que sente e que sabe excessivamente» e o livro «a confissão de um ser cujas virtualidades não podem concretizar-se, de um ser que perdeu o segredo da infância; Soares é um homem sem memória, sem história, sem biografia; é também um ser inacabado, que está por vir e contudo não tem porvir»
E, se bem que Maria Alíete Galhoz nele pareça entrever uma abertura para uma «vaga 'felicidade'», a verdade é que não deixa de lhe reconhecer um tom geral de disforia ‑ «um livro existente, extraordinariamente testemunhal do concreto até, e é ao mesmo tempo, um livro do esvaziamento do ser ‑ Jorge de Sena chamou-lhe "livro do não ser"»
Quanto a Eduardo Lourenço, chama-lhe «texto suicida (?)», no qual «reencontramos sem surpresa aquele que por excesso de ausência de alma em tantas fingidas se multiplicou»; e termina o seu magnífico estudo desta maneira: «Concluindo: aos textos-diferentes que justificariam a mitologia heteronímica, quer na ótica de Fernando Pessoa quer na nossa, de todos, opõe-se o texto -das -diferenças, chamado O Livro do Desassossego onde os escritos imaginários que designamos como Caeiro, Reis e Campos se articulam entre si e os outros textos não-heteronímicos sem solução de continuidade, revelando-nos, assim, não o caráter fabricado dos textos heteronímicos, mas tão só o carácter lúdico da sua autonomização, tanto como a sua função ocultante. Como o Livro do Desassossego o testemunha, sob a heteronímia expressa, resiste e persiste uma heteronímia natural que embora não consentindo a ilusão de uma pluralidade mítica, menos nos consente ainda, se precisássemos confirmação disso, uma mítica unidade.»

INTERTEXTUALIDADE COM OS OUTRO(S) PESSOA(S)- O MESMO E O OUTRO

Ao lermos o Livro do Desassossego somos sensíveis à presença no Eu/escrita de Soares os outros Pessoas já nossos conhecidos.
Por exemplo, Fernando Pessoa ortónimo:
«Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também.[f.154] ‑ cf. este poema com, por ex.: «Entre o sono e o sonho»
«E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio de mim.» [...] ‑ cf. com «Há no firmamento»
«Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?» [f.21]
«[...] E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio das águas de todos os parques nasce, emoção, do fundo da minha consciência de mim.» [f.98] ‑ cf.com «Leve, breve, suave»

Ou Ricardo Reis:
    
“Nada pesa tanto como o afeto alheio ‑ nem o ódio alheio, pois que o ódio é mais intermitente que o afeto; sendo uma emoção desagradável, tende, por instinto de quem a tem, a ser menos frequente. Mas tanto o ódio como o amor nos oprimem; ambos nos buscam e procuram, não nos deixam sós” [f.382]‑ cf. com “Não só quem nos odeia ou nos inveja”.
    
“Nunca amamos ninguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma é a nós mesmos - que amamos” [f.416] ‑ cf. com “Ninguém a outro ama, senão que ama”.
    
“O verdadeiro sábio é aquele que assim se dispõe que os acontecimentos exteriores o alterem minimamente” [f.418] ‑ cf. com “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo” e com “Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia”.
    
    
...Alberto Caeiro:
    
“Leio e estou liberto. Adquiro objetividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo, toda ela notável [?] o sol que vê todos, a lua que a malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas.” [f.16] ‑ cf. com qualquer poema de “O Guardador de Rebanhos”.
    
“Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade ‑ a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua.” [f.67] ‑ idem, especialmente com o poema II.
    
“Quem me dera, neste momento o sinto, ser alguém que pudesse ver isto como se não tivesse com ele mais relação que o vê-lo ‑ contemplar tudo como se fora o viajante adulto chegado hoje à superfície da vida! Não ter aprendido, da nascença em diante, a dar sentidos dados a estas coisas todas, poder vê-las na expressão que têm separadamente da expressão que lhes foi imposta. Poder conhecer na varina a sua realidade humana independente de se lhe chamar varina, e de se saber que existe e que vende. Ver o polícia como Deus o vê. Reparar em tudo pela primeira vez, não apocalipticamente como revelação do Mistério, mas diretamente como floração da Realidade.” [f.87] ‑ idem, especialmente com poema XXIV.
    
    
...Álvaro de Campos:
    
“Sentir tudo de todas as maneiras; saber pensar com as emoções e sentir com o pensamento; não desejar muito senão com a imaginação; sofrer com coquetterie; ver claro para escrever justo; conhecer-se com fingimento e tática, naturalizar-se diferente e com todos os documentos; em suma, usar por dentro todas as sensações, descascando-as até Deus; mas embrulhar de novo e repor na montra como aquele caixeiro que de aqui estou vendo com as latas pequenas de graxa da nova marca”. [f.30] - cf. com “A melhor maneira de viajar é sentir” e “Passagem das Horas”
    
“Escrevo atentamente, curvado sobre o livro em que faço a lançamento a história inútil de uma firma obscura; e, ao mesmo tempo, o meu pensamento segue, com igual atenção, a rota de um navio inexistente por paisagens de um oriente que não há.” [f.118] - cf. com “Ode Marítima”
    
“Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos dispersos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! [...] Quantos Césares fui, mas não dos reais. [...] Quantos Césares fui, aqui mesmo na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação[...] Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto.” [...] ‑ [f. 132] ‑ cf. com “Tabacaria” e “Pecado original” ‑ versos 16, 21 a 23: "Quantos Césares fui!"
    
“Estou hoje lúcido como se não existisse.” [f. 416] ‑ cf. com “Tabacaria”.
    
“Doem-me a cabeça e o universo.” [f.430] - cf. com “Tenho uma grande constipação” ‑ último verso: "Preciso de verdade e de uma aspirina."
    
De certo modo, Soares vem-se-nos revelar como alguém que está por detrás de todos os outros Pessoa(s), que existe com todos e em todos, como todos existem em si- o que, necessariamente, vem colocar a questão da heteronímia em moldes diferentes, vem dizer-nos que somos todos o mesmo e o outro - nesse sentido poderão entender-se as palavras, atrás referidas, de Eduardo Lourenço sobre o Livro do Desassossego como texto-rasura e como texto suicida, texto do ser/não ser que permanentemente se descobre como impossibilidade.

ALGUNS DOS TEMAS / IDEIAS ABORDADAS NO LIVRO DO DESASSOSSEGO:

Amor (27 fragmentos)
Arte literária (8 f.)
O Eu de B-Soares (59 f.)
Lisboa- cidade (15 f.)
Lisboa-ciclos do dia (25 f.)
Figuras da cidade (12 f.)
Quotidiano da cidade (21 f.)
Consciência/Inconsciência (24 f.)
«Decadência» (12 f.)
relação Eu/outros (31 f.)
Eu vário e múltiplo (24 f.)
Indiferença/abdicação (16 f.)
Inércia/ação (24 f.)
Leituras (13 f.)
Língua-linguagem ( 9 f.)
Morte (16 f.)
Noite (6 f.)
Paisagem (22 f.)
Viagem-viagens (18 f.)
Passado-infância (17 f.)
Sensações (22 f.)
Sensacionismo (13 f.)
Ser e (des)conhecer-se (43 f)
Sonho /realidade (21 f.)
Tédio (21 f.)
Trovoadas (13 f.)
Viagens (8)
Como pode ver-se pelo levantamento feito, predomina a reflexão filosófica (o Eu de Bernardo Soares; consciência-inconsciência; relação eu-outros; Eu vário e múltiplo; Inércia-ação; Indiferença-abdicação; Ser e conhecer-se; tédio; decadência) e ainda o mundo exterior da cidade, ainda que nas suas relações com o Eu pensante.

UMA ESPÉCIE DE CONCLUSÃO:

Aquando do capítulo 5º, a respeito da Heteronímia, ocorreu-me falar de «explosão» e «implosão». Se texto há em que se verifique tal «implosão», ele é certamente o do Livro do Desassossego (existencial) de Pessoa-Caeiro-Reis-Campos/Bernardo Soares.
O mesmo que de si dizia:
«Sou variamente outro.»
«Não evoluo, VIAJO.»
«Vou enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou antes, de fingir que se pode compreendê-lo.»
«Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.»
Ou, como diz Eduardo Lourenço: «Quem sonhou todas estas ficções foi o passeante da Rua dos Douradores, um homem triste por não existir como se sonhava, irmão gémeo por dentro de Luís da Baviera, prisioneiro como ele de idênticos fantasmas. Enquanto se inventava poeta e nos sonhava mais angustiados do que somos, mais perdidos do que ele se sentia, mais tristes do que ele era, ia escrevendo como quem transcreve o sonho que o está sonhando, o livro do seu Desassossego. Não há na nossa literatura prosa mais luminosamente suicidária. Aí se despe da sua própria ficção oferecendo-se sem resguardas como órfão de tudo, excluído voluntário dos outros e da vida, sonhador de todos os sonhos, sobretudo dos improváveis.»
E acrescenta, em jeito de síntese:
«Aí está o retábulo da sua vera e incruenta paixão. É um retábulo simbolista, pouco conforma ao mito ‑ Pessoa de um vanguardismo estridente e todo exterior, mas talvez esse mito seja mais do nosso engano do que da sua verdade. Toda a sua vida foi simbolista. Nem há na literatura do Ocidente mais completa expressão do Simbolismo. O Modernismo foi a sua e nossa ficção. Devolvamo-lo, pois, à sua dolorosa realidade de amante da Morte, de herói da impossibilidade de amar, como o seu duplo e não menos wagneriano Luís Segundo, Rei da Baviera:
“Teu amor pelas cousas sonhadas era o teu desprezo pelas coisas vividas.
Rei - Virgem que desprezaste o amor,
Rei - Sombra que desdenhaste a luz,
Rei - Sonho que não quiseste a vida!
Entre o estrépido surdo de címbalos e atabales, a Sombra te proclama Imperador!”
[excerto do f.335 do L.D.]»

Amélia Pinto Pais, Para Compreender Fernando Pessoa, Porto, Areal Editores, 1996. Capítulo XI disponibilizado na revista Nave da Palavra, edição nº 48, 16/02/2001 e consultado em linha, em 17/03/2003


Leia aqui uma versão do Livro do Desassossego.



Fonte:
LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO. 
Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/FP_BernardoSoares.htm, 2011-12-15.
2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/FP_BernardoSoares.htm, 2016.
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