quinta-feira, 26 de julho de 2018

Bela Infanta






BELA INFANTA

Estava a bela infanta
No seu jardim assentada,
Como o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava. 1
– «Diz-me, ó capitão 2
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava?»
– «Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada...
Diz-me tu, ó senhora,
As senhas que ele levava.»
– «Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança 3
A cruz de Cristo levava.»
– «Pelos sinais que me deste 4
Lá o vi numa estacada
Morreu morte de valente:
Eu sua morte vingava.»
– «Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!...»
– «Que dirias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por i.»
– «Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela 5
Outro mói do gerzeli: 6
Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei pra si»
– «Os teus moinhos não quero
Não nos quero para mi;
Que diria mais senhora,
A quem to trouxera aqui?»
– «As telhas do meu telhado
Que são oiro e marfim.»
– «As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «De três filhas que eu tenho, 7
Todas três te daria a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir.»
– «As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa senhora,
Se queres que o traga aqui.
– «Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.» 8
– «Tudo, não, senhora minha,
Que inda te não deste a ti.»
– «Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si 9
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo. 10
À volta do meu jardim
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!»
– «Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!»
– «Tantos anos que chorei, 11
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui.»
Almeida Garrett, Romanceiro
_____________________________
Notas de Almeida Garrett:
1 Que a guiava. – Lisboa.
2 Diz-me ó cavaleiro,
Os sinais... – Ribatejo.
3 Nos punhos da sua espada. – Estremadura.
4 Pelos sinais que me deste,
Lá o vi morto às lançadas,
Que a mais pequena que tinha,
Era a cabeça passada. – Várias.
Pelos sinais que me deste,
Lá morreu às cutiladas,
Que a mais pequena que tinha
Era a cabeça cortada. – Várias.
Estas variantes são ambas muito gerais, e talvez sejam melhores do que a que adoptei.
5 Este verso, pelas suas alusões se vê que é moderno comparativamente; foi introduzido decerto por lição muito posterior ao romance; o que se encontra a miúdo.
6 Gerzelim, em arábico Jolzelin, semente redonda e oleosa ou uma planta de que se faz doce, e dela moída também óleo que serve para o comer.
7 De três filhas que eu tenho.
Todas três te hei de dar;
Uma para te vestir,
Outra para de calçar;
A ais formosa de todas
Para contigo casar. – Estremadura.
Esta variante assaz vulgarizada é contudo uma pruderie moderna de linguagem que se introduziu visivelmente quando a hipocrisia pediu a decência na fala que falava nos costumes.
8 Quanto tinha ofereci. – Beira Alta.
9 Que pede e torna a pedir. – Estremadura.
10 Ao rabo do meu cavalo. – Ribatejo
11 Os últimos quatro versos faltam na maior parte das cópias, e talvez sejam postiços; precisos não são.

Análise do romance tradicional Bela Infanta

ESTRUTURA DA AÇÃO
Ordem existente
Situação Inicial
Acontecimento perturbador
«Estava a bela Infanta no seu jardim assentada…»
«Viu vir uma nobre armada»
Ordem perturbado
Dinâmica do desequilíbrio
Forço retificadora
Notícia da morte do marido / a viuvez
As senhas pedidas pelo capitão
Ordem restabelecida
Situação final
Reconhecimento do marido

TEMPO
Tempo indeterminado - «estava…» (característica da literatura oral tradicional).
Tempo histórico - Descobrimentos (referências ao «oiro fino», à nobre armada, às especiarias - cravo, canela, “gerzell” -, ao ouro, à prata e ao marfim; referência às cruzadas, à «terra que Deus pisava. ou Terra Santa no Médio Oriente, com o cavaleiro que levava «selim de prata doirado», um cavalo branco e a «cruz de Cristo» na ponta da sua lança).

ESPAÇO
Espaço muito restrito – Jardim (local de encontro); alusão ao mar («viu vir uma nobre armada») e ao Oriente Médio (à Terra Santa).

PERSONAGENS
A Infanta e o Capitão; referências às três filhas e aos vassalos.

GRADAÇÃO DAS PROVAS
Nível material: oiro e prata moinhos telhas.
Nível de relação afetivo-espiritual: ela própria.

TEMA
Fidelidade.

CLASSIFICAÇÃO
Romance tradicional novelesco (ou xácara popular, na expressão de Almeida Garrett), com elementos do romance histórico marítimo.

SIMBOLOGIA
Jardim – local do encontro amoroso.
Cabelos – a beleza feminina, mas também os fios que ligam à vida e ao amor.
Sinais do cavaleiro: selim de prata dourada – simboliza a nobreza; lança com a cruz de Cristo – guerreiro com espírito de cruzada.
Oiro, prata e marfim; cravo, canela e «gerzeli» - riqueza material / estatuto social e económico.
Moinhos – subsistência: o alimento.
Telhas – a própria casa: a existência.
Número 3 – a perfeição; a totalidade; a globalidade.
Número 7 – o completar de um ciclo; o repouso do herói; a felicidade; o encontro com a verdade.

LINGUAGEM E ESTILO
Linguagem simples, metafórica, oral e coloquial, emotiva, com marcas épico-líricas e dramáticas; a descrição narrativa inicial dá lugar ao diálogo, onde predominam as frases de tipo exclamativo e interrogativo.
Utilização de adjetivação anteposta expressiva («bela infanta», «nobre armada») com conotações psicológicas e subjetivas; presença do paralelismo anafórico (versos 25-26 ou 79-80); uso da perífrase (v. 12), da apóstrofe (vv. 9 e 65), da dupla negação (v. 33), da aliteração das dentais (vv. 49, 54, …).

Dimensão Comunicativa – Português B – 10.º Ano, Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Porto Editora, 1997, p. 53.


Linhas de leitura do romance tradicional Bela Infanta.

1.    A Bela Infanta é um dos mais conhecidos romances da tradição portuguesa. Na sua opinião, a que deverá este romance toda a sua popularidade?
2.   Procure contar, de forma muito sintética, a história deste romance.
3.   Este romance poderá ser definido como «composição das senhas do esposo» ou do «reconhecimento». Quais são as etapas para esse reconhecimento?
4.   Compare a «bela infanta» com Penélope da Odisseia de Homero (parte-se do princípio de que deve ter lido esta obra fundamental do património literário da Humanidade).
5.   Compare as várias «provas» a que o marido ainda incógnito submete a esposa. Procure aprofundar o valor simbólico de cada uma das «figuras» principais constituintes dessas provas («oiro e prata», moinhos»...). (Consulte o Dicionário dos Símbolos de J. Chevalier e A. Gheerbrant. Edição portuguesa: Lisboa, Editorial Teorema, 1994)
6.   Importante se torna nestas versões o reconhecimento pelo «anel», anel que tinha sido partido em duas partes: - sabia que a este anel partido e depois reajustado os antigos chamavam «symbolon», ou seja, «símbolo»? Pense no que há de comum entre esse antigo e o moderno significado do lexema «símbolo».
7.    Aprecie o valor que, nestas versões, assumem as componentes discursivas narrativa e dramática.

João David Pinto Correia em Romanceiro Tradicional Português, Lisboa, Editorial Comunicação, 1984, pp.208-209.

Proposta de resolução do questionário:
1. A popularidade do romance tradicional «Bela Infanta» deve-se ao assunto tratado: ausências prolongadas dos cavaleiros deixavam as mulheres desamparadas e incertas no seu regresso; daí o tema da fidelidade conjugal.
2. Uma bela Infanta viu chegar uma armada e perguntou a um cavaleiro que nela vinha, se tinha visto o seu marido. O cavaleiro depois de ter ouvido a descrição do marido, quis saber que recompensa dava a quem o trouxesse de volta. Ela respondeu que dava tudo o que tinha: o seu dinheiro, as telhas do seu telhado que eram de ouro e marfim e as suas três filhinhas. Mas tudo foi rejeitado pelo cavaleiro, que lhe disse que ainda se podia dar a ela própria. Ela ficou muito assustada, mas quando ele lhe falou do anel de sete pedras, ela percebeu que era seu rico marido. (Reconto da aluna Carmo Abranches, do 5.º ano, do Agrupamento de Alcácer do Sal, 18-05-2012, http://osheroisdopnl.blogspot.com/2012/05/romance-da-bela-infanta-resumo-prosa.html)
3. Etapas para o reconhecimento: descrição do marido cavaleiro; verificação /comprovação da sua fidelidade conjugal.
4. “Penélope, o modelo de perseverança, de fidelidade, eternizada através do mito da teia, mas não menos astuciosa do que o marido (no canto XVIII sugere habilmente aos pretendentes que é com presentes que se devem demovê-la; e, no canto XXIII, ela mesma põe Ulisses à prova, fingindo ignorar o segredo de construção do leito conjugal. De resto, esta figura talvez se tenha complicado através de sobreposições de versões diferentes do poema.” (In Estudos de História da Cultura Clássica. I Volume: Cultura Grega, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, 6.ª edição, pp. 91-92).
«A Odisseia é, fundamentalmente, um poema de regresso […]. É o poema das aventuras, das múltiplas histórias que excitam a atenção de “Ulisses dos mil artifícios”, que vence todas as dificuldades graças ao seu engenho.» (idem, p. 84).
5. O valor simbólico das provas a que o marido submete a esposa:
- oiro e prata fina
- três moinhos para moer cravo e canela, gerzelim, trigo
- telhas do seu telhado de oiro e marfim
- três filhas
- a própria Infanta
6. Símbolo do anel: sinal representativo.
SIMBOLO, s. do gr. “symbolon”, «sinal de reconhecimento; id., para pessoas separadas há muito tempo para se reconhecerem mutuamente; objeto por meio do qual os pais podem reconhecer os respetivos filhos de quem se afastaram; […] sinal convencional; sinal, indício; tudo o que servia para reconhecer alguém ou alguma coisa; cicatrizes; insígnia […]. (In Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Lisboa, Livros Horizonte, 1989, 5.ª edição; 1.ª edição: 1952).
7. A componente discursiva acentua a tensão dramática.


Comentário do romance tradicional Bela Infanta


A Bela Infanta, uma das mais belas narrativas poéticas da tradição oral portuguesa, é de inquestionável origem medieval. Surgiu no século XVI, tempo das grandes navegações, quando os homens deixavam suas mulheres e se lançavam ao mar sem certeza de retorno. Esta versão foi recolhida na Beira Baixa e embelezada por Almeida Garrett, quem pela primeira vez em Portugal iniciou o trabalho de recolha, estudo e publicação da nossa poesia tradicional oral, cujo resultado deu origem a três volumes intitulados Romanceiro (1851). Bela Infanta «é sem questão a mais geralmente sabida e cantada de nossas xácaras populares» afirma Garrett.
Neste romance, o tema principal é o regresso do marido que a infanta espera sentada no seu jardim. O tempo da ação é indeterminado, pois as marcas temporais não são precisas. Porém, podemos afirmar que a ação se desenrola numa época histórica, o tempo da Expansão e das Cruzadas: «Viu vir uma nobre armada;», «Se encontraste meu marido / Na terra que Deus pisava.», «Na ponta da sua lança / A cruz de Cristo levava.» Este foi um período da história que alterou a estrutura familiar: o homem partia para a guerra, estando ausente do lar em terras distantes, enquanto a mulher ficava em casa aguardando a chegada do marido daí a uns anos. No caso de Bela Infanta, podemos verificar o elemento feminino, a infanta, que se encontra nesta situação: há anos que o seu marido partiu em viagem para terras longínquas e também há anos que ela espera ansiosamente a chegada do marido, a quem se mantém fiel até ao fim do romance.
Podemos caraterizar o marido da infanta através dos sinais que ela dá ao cavaleiro para que este lhe dê notícias sobre o marido, de quem aguarda pacientemente o regresso: «- Levava cavalo branco, / Selim de prata doirada; / Na ponta da sua lança / A cruz de Cristo levava.» Deste modo, é de realçar o papel deste cavaleiro valoroso, de espírito guerreiro e de cruzada, amante a Deus, que defendia a cristandade do ataque dos infiéis.
O capitão da armada, que não se identifica logo como marido da infanta, sujeita-a a um conjunto de provas plenas de simbolismo para testar a fidelidade da mulher. Assim, começa por lhe dizer que, pelos sinais que a infanta lhe dera, o viu morrer numa estacada: «- pelos sinais que me deste / Lá o vi numa estacada / Morrer morte de valente: / Em sua morte vingava.», ao que a infanta responde : «- Ai triste de mim, viúva, / Ai triste de mim, coitada! / De três filhinhas que tenho, / Sem nenhuma ser casada!... ». O amor é evidente nesta expressão de pesar que sugere o claro sofrimento da infanta pela morte do marido e pela situação em que deixa as três filhas, por casar.
O segundo passo dado pelo capitão é perguntar à infanta o que daria ela como recompensa a quem lhe trouxesse o seu marido. A infanta disponibiliza-se, então, a fazer uma série de ofertas ou dádivas que representam o estatuto social e económico (classe nobre) e que nos permitem identificá-la como uma fidalga abastada. Através de várias sequências a infanta mostra o seu despojamento total para reaver o marido: «Dera-lhe oiro e prata fina, / Quanta riqueza há por i.», «- De três moinhos que tenho, / Todos três tos dera a ti; / Um mói o cravo e a canela, / Outro mói do gerzeli: / Rica farinha que fazem! / Tomara-os el-rei p’ra si.», «- As telhas do meu telhado / Que são de oiro e marfim.», «- De três filhas que eu tenho, / Todas três te dera a ti: / Uma para te calçar, / Outra para te vestir, / A mais formosa de todas / Para contigo dormir.»
Cada uma das figuras principais constituintes das provas tem um valor simbólico. O «oiro», a «prata fina» e toda a riqueza que haja são bens materiais bastante valiosos. O ouro é o mais precioso dos metais, é o metal perfeito, é o símbolo da riqueza material, é, pois, por sua vez, o princípio ativo, masculino, solar. A prata é o símbolo da pureza, está ligada à dignidade real, representa a sabedoria divina, é o princípio passivo feminino, lunar, aquoso, frio. O moinho é o recetáculo ou o veículo de uma força sagrada, encerrada no som da palavra, que se pode mover em benefício próprio. O número três, que qualifica quer o número de moinhos da infanta, quer o número de filhas que tem, é universalmente um número fundamental, é o número perfeito, expressão da totalidade, da conclusão. O marfim é o símbolo da pureza, o símbolo do poder por ser material de grande dureza.
Apesar da riqueza dos bens que a infanta se predispõe a oferecer-lhe, o cavaleiro vai recusando as várias ofertas: «- Não quero oiro nem prata / Não vos quero para mi: / Que darias mais, senhora, / A quem no trouxera aqui ?», «As telhas do teu telhado / Não nas quero para mi: / Que darias mais, senhora, / A quem no trouxera aqui ?», «As tuas filhas, infanta, / Não são damas para mi: / Dá-me outra coisa, senhora, / Se queres que o traga aqui.» Por fim, o cavaleiro faz uma proposta à infanta, a de que ela se entregue a ele, proposta essa que é mal recebida pela infanta que se sente ofendida e que leva ao desejo que o cavaleiro seja castigado: «- Cavaleiro que tal pede, / Que tão vilão é de si, / Por meus vilões arrastado / O farei andar aí / Ao rabo do meu cavalo. À volta do meu jardim. / Vassalos, os meus vassalos, / Acudi-me agora aqui !» Este é um castigo típico da época da narrativa e da classe a que a mulher pertence.
É de salientar neste romance a presença dos valores nobres próprios de um estrato nobre-cavaleiresco e de uma comunidade através da personagem «bela infanta», a qual se revela fiel ao negar-se ao capitão, forte e determinada quando o ameaça com uma punição, nobre de espírito pela conduta que segue, e de grande respeito. As ofertas que propõe mostram também a sua humildade, nomeadamente quando se predispõe a ceder as suas três filhas ao capitão.
No final do romance, o cavaleiro revela a sua verdadeira identidade ao mostrar à infanta o anel que diz ter repartido com ela e de que ela tem a outra metade. A repartição do anel está relacionada com a origem etimológica (grega) da palavra «símbolo», pois a este anel partido e depois reajustado, os antigos chamavam «symbolon». O anel serve para indicar uma ligação, para «vincular», é o signo de uma aliança, de um meio de reconhecimento, é o símbolo de um poder ou de um laço que nada pode quebrar. Em Bela Infanta, o anel é o símbolo e prova da união do marido e da mulher. O reconhecimento do marido é feito pelo anel. A repartição do anel serviu de símbolo à separação do casal. Quando o cavaleiro regressa da guerra, mostra a sua metade à infanta, juntando-se as duas metades, o que simboliza a união de novo dos esposos.
Atualmente, a palavra «símbolo» designa um signo que representa um objeto através de uma relação natural e intrinsecamente motivada. De igual modo, o anel é um símbolo, designa uma realidade: a união, o compromisso do casal. «Símbolo» e anel têm, portanto, em comum o facto de remeterem para uma realidade.
Podemos reconhecer nesta composição o valor das componentes discursivas narrativa e dramática. A componente épica não está de todo ausente (a referência aos apetrechos de guerra e à vida guerreira em «terra sagrada»). De facto, reconhecemos algumas marcas narrativas, poucas: marcas subjetivas de tempo (o tempo da Expansão e das Cruzadas), de espaço: o jardim onde a «bela infanta» aguarda a chegada do marido, as personagens (a infanta e o capitão, e alguns elementos que nos permitem a caraterização das mesmas).
Por outro lado, verificamos que o texto, que se apresenta maioritariamente em forma de diálogo, obedece a uma estrutura interna de modelo dramático: temos, em primeiro lugar, a exposição com a apresentação das personagens (a «bela infanta» e o capitão), e a apresentação da situação que é responsável pelo desenrolar da história (quando a infanta avista a chegada da armada), o que vem alterar a ordem inicial. Constitui, pois, o elemento desestabilizador. A situação perturbadora é acentuada quando a infanta pergunta ao capitão da armada se viu o seu marido nas terras longínquas por onde andou. Em segundo lugar, temos o momento da identificação do mundo pelo cavaleiro e a notícia de que o cavaleiro o viu morrer (momento de forte intensidade dramática em que a situação perturbadora se acentua). Num terceiro momento, temos a expressão de pesar pela luta da infanta e a apresentação das propostas que não são aceites pelo capitão da armada. Num quarto momento, temos a presença do conflito: quando o cavaleiro propõe à infanta que se entregue a ele; o que constitui o elemento desencadeador e, ao mesmo tempo, o clímax (momento de grande intensidade dramática) e a ameaça da infanta ultrajada. Num momento final, temos o desfecho ou o desenlace com a resolução do conflito através da revelação da verdadeira identidade do capitão, o que permite que a ordem seja restabelecida. O romance acaba abrutamente com a revelação da identidade por parte do cavaleiro.
O anel é o elemento unificador do encontro com a verdade dos factos. O número sete simboliza um ciclo completo, uma perfeição dinâmica. O sete indica o sentido de uma mudança depois de um ciclo concluído e de uma renovação positiva, é o número da conclusão cíclica e da sua renovação, o símbolo duma totalidade em movimento ou de um dinamismo total, indica a passagem do conhecido para o desconhecido. No romance, as sete pedras do anel repartido remetem para o fim de um ciclo (o da ausência do marido da infanta que termina com o seu regresso) e para a fidelidade dos heróis.
Podemos estabelecer um paralelo entre a «bela infanta» deste romance com a Penélope do grande clássico da literatura que é a Odisseia de Homero. Tal como a infanta, também Penélope é o paradigma da fidelidade conjugal, pois esperou anos pelo regresso do marido, Ulisses, que esteve ausente da sua terra Ítaca, e do seu lar porque esteve na guerra de Tróia. Tendo muitos pretendentes que a tentam conquistar, Penélope, tal como a infanta, mantém-se fiel ao marido até ao último momento. O regresso do marido é ansiosamente desejado por ela que pede continuamente informações sobre ele, com quem se preocupa. Esta preocupação e desejo de regresso do marido é também evidente na infanta.
Em relação ao estatuto social também verificamos a mesma situação: tanto Penélope como a «bela infanta» pertencem à realeza, pois uma é esposa do rei de Ítaca e a outra é infanta.
Penélope e a infanta possuem o dom da beleza: «bela infanta» e a beleza dada por Atenas a Penélope. Ambas esperaram longos anos pela chegada dos respetivos maridos e, como tal, no momento do regresso, já não são muito novas: a infanta tem três filhas em idade de casar e Penélope tem um filho já crescido. Ambas são esposas e mães.
Os valores afetivos e morais ocupam um lugar relevante neste romance e na Odisseia através do amor e da fidelidade que caraterizam e dominam a ação da infanta e de Penélope. Ambas possuem uma nobreza de caráter que permite que permaneçam fiéis aos respetivos maridos.
Tal como o marido da infanta, Ulisses não se dá logo a conhecer, ele faz-se passar por um mendigo e só reconhece a sua identidade a Penélope após ter feito a prova do tiro de flecha que o reconheceria como Ulisses. O mesmo se passa na Bela Infanta: o marido só dá a conhecer a sua verdadeira identidade depois de mostrar o seu anel.
Como é próprio da literatura tradicional, neste romance estão presentes vários motivos-tópicos, tais como o ato de pentear os cabelos que qualifica a infanta; o pente (que, simbolicamente, dá força, nobreza, capacidade de elevação espiritual à individualidade); a «nobre armada» que qualifica o capitão na sua apresentação; o «cavalo branco» e o «selim de prata doirada» que caraterizam a classe a que o marido da infanta pertence; as senhas do marido; as «três filhas» que simbolizam a perfeição e a revelação da verdadeira identidade pelo marido.
A popularidade deste romance é, sem dúvida, merecida e provavelmente deve-se aos vários exemplos de contaminação dos temas da balada europeia, entre os quais o lirismo inerente à situação de espera da infanta sentada no seu jardim; as «provas» com que o marido sujeita a esposa, carregadas de simbolismo, e o reconhecimento pelo «anel» que o tornam numa linda composição.
Após a leitura deste romance, podemos concluir que é um belíssimo romance de tradição novelesco em que as virtudes do caráter e a fidelidade feminina ocupam um lugar de destaque numa estrutura de progressão dramática que atinge um clímax e a que se segue um desfecho de final feliz.

Bibliografia:
- GRAÇA, Natália Maria Lopes Nunes, Formas do Sagrado e do Profano na Tradição Popular, Edições Colibri, Lisboa, 2000.
- PINTO-CORREIA, João David, Romanceiro Oral da Tradição Portuguesa, Edições Duarte Reis, Lisboa, 2003.

Lídia Pereira, 2012-02-21
http://reflexoessobretextosliterarios.blogspot.pt/2012/02/normal-0-21-false-false-false.html

Resultado de imagem para bela infanta


VARIANTE PORTUGUESA QUE PARECE UMA VERSÃO MAIS MODERNA DO ORIGINAL ANTIGO

Dona Clara, Dona Infante1
Estava no seu jardim,
Penteando tranças de oiro
Com seu pente de marfim,
Sentada numa almofada
De veludo carmesim.
Botou os olhos ao mar
E avistou formosa armada:
Capitão que a governava
Que bem a traz preparada!
Saltou em terra ele só
Com a viseira calada,
Vem saudar a dona Infante
Que assim triste lhe falou:
– «Viste tu o meu marido
Que há tempo que me deixou?»
– «Teu marido não conheço,
Diz-me que sinais levou.»
– «Levou seu cavalo branco
Com sua sela dourada,
Na ponta de sua lança
Uma fita encarnada;
Um cordão do meu cabelo
Que lhe prendia a espada.
Se porém tu não viste,
Cavaleiro da cruzada,
Ó triste de mim viúva,
Ó triste de mim coitada!
De três filhas que eu tenho
E nenhuma ser casada.»
– «Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras, senhora,
A quem o trouxera aqui?»
– «Dera-te tanto dinheiro
Que não tem conto nem fim;
E as telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.»
– «Não quero oiro ou dinheiro
Que me não pertence a mi:
Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi.
Quanto deras mais, senhora,
A quem o trouxera aqui?»
– «Dera-te as minhas joias
Que não têm peso e medida;
Dera-te o meu tear de oiro,
Roca de prata polida.»
– «Não quero oiro nem prata:
Com ferro minha mão lida.
Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Das três filhas que eu tenho,
Eu tas dera a escolher,
São formosas como a lua,
Como o sol a amanhecer.»
– «Eu não quero tuas filhas,
Não me podem pertencer.
Sou soldado, ando na guerra;
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Não tenho mais que te me dar
Nem tu mais que me pedir.»
– «Inda tens mais que dar,
Não estejas a mentir;
Tens teu leito de oiro fino
Onde eu quisera dormir.»
– «Cavaleiro que tal diz
Merece ser arrastado
Em roda do meu jardim
Aos pés de um cavalo atado.
Vinde cá, criados meus,
Castigai este soldado.»
– «Não chames os teus criados
Que criados são de mi.»
– «Se tu és o meu marido
Porque me falas assim?»
– «Por ver se me eras leal
É que disfarçado vim.
Lembras-te, ó dona infante,
Quando eu daqui saí,
O anel de sete pedras
Que contigo reparti?
Se as tuas não perdeste,
As minhas ei-las aqui.»
– «Vinde cá, ó minhas filhas,
Vosso pai é já chegado.
Abri-vos, portão de jaspe
Há tanto tempo fechado!
Folgai, folgai, meus vassalos,
Que é Dom Infante a meu lado.»

Almeida Garrett, Romanceiro

_____________________________
Nota de Almeida Garrett:
1 Infante no feminino é um latinismo dos séculos XV e XVI, que nunca foi popular, me persuado.


INTERTEXTUALIDADE (PARÓDIA)



Tira-me Essa Fatiota

Estando a bela infanta a fazer uma compota
deitou os olhos ao mar e viu chegar uma frota.

- Meu capitão, onde está o meu marido janota?
- Não o vi, nem o conheço, tem algum sinal de nota?

-Era grande e bonito, educado e poliglota,
com um cabelo fofinho, parecia uma marmota.

- Numa ilha muito longe, sofremos grande derrota,
ess 'homem por lá ficou, em terreno cipriota.

- Ai coitadinha, que fico viúva nesta casota,
vá buscar o meu marido, que é seu compatriota.

- Aquilo fica lá longe, a viagem é grandota,
que me daríeis senhora se trouxesse esse idiota?

- Dar-vos-ei se vós quiserdes, meio quilo de compota.
- Não quero a vossa comida, inda agora vim da lota.

- Dar-vos-ei um burro velho, as moscas tão bem enxota.
- Não quero dessas montadas, eu transporto-me de mota.

- Das três filhinhas que tenho, uma é bem espigadota,
lava a roupa e a loiça, já cozinha e tricota.

- Gosto de mulheres mais velhas, não quero a vossa filhota,
que mais daríeis, senhora, se eu fosse a terra remota?

- Não tenho mais que vos dar, minha paciência já esgota,
só se, capitão, quiserdes que vos dê esta capota?

- Assim é mais do meu gosto, dispa lá a fatiota,
tire essa roupa pesada, quero o seu corpo em pelota.

- Tire daí as mãozinhas, sou mulher muito devota,
acudi aias, criados, que est’homem me amarrota.

- Não chames, mulher, criados, vais ser alvo de chacota,
são também os meus criados, olha pra mim, ó Carlota:

Sou o teu marido, sou, venho um bocado mais cota.
Mas olha prò meu cabelo, é ou não é de marmota?!

Romanceiro tradicional: versões factícias / Nuno Neves ; rev. Fernando Villas-Boas. – 1.ª ed. - Algés: Publicações Serrote, 2011. - 64 p.: il. ; 21 cm. - ISBN 978-989-65745-3-3


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