NÚ: ESTUDO EM COMOÇÃO
Em que meditas tu
quando olhas para mim dessa maneira,
deitada no sofá
diagonal ao espaço onde me sento,
fingindo eu não te olhar?
Em que pensa o teu corpo
elástico, alongado,
pronto a vir ter comigo
se eu pedir?
As orelhas contidas em recanto,
as patas recuadas,
o que atravessa agora o branco dos teus olhos:
lua em quarto-crescente,
um prado claro?
E quando dormes, como noutras horas,
que sonhos te viajam:
a mãe, a caça, a mão macia, o salto
muito perfeito
e alto, muito esguio?
Onde: a noite sem frio
que nos abrigará
um dia
e que há-de ser
(só pode ser)
igual?
Ana Luísa Amaral
LUGARES COMUNS
Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.
Claro que os meus
preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...
E lá entrei no café
manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu
Lá pedi o café, que não
era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber
E paguei o café, que não
era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
como quem diz: That’s it
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
como quem diz: That’s it
e olhou assim à sua volta
para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não
interessa Londres ou nós,
que em toda a parte
as mesmas coisas são
que em toda a parte
as mesmas coisas são
Ana Luísa Amaral
“Uma coisa é escrever poesia, outra coisa é fazer
livros”
Autora premiada e traduzida em várias
línguas, poeta, professora universitária, tradutora, nasceu em Lisboa em 1956,
mas vive em Leça da Palmeira desde os 9 anos. Foi lá que nos recebeu. Numa sala
onde não faltam livros e poemas inéditos, e onde fomos visitados amiúde pelas
duas gatas da poeta e também pela cadela Mily, em homenagem à poeta Emily
Dickinson sobre quem Ana Luísa Amaral fez doutoramento. Deixou de fumar e
esteve mais de meio ano sem escrever. Acaba de ver o seu livro de poesia
"What´s in a name" sair nos Estados Unidos da América pela editora
New Directions
NAVEGAÇÕES DOENTES
Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluidos
e o devaneio em barcos de desejo
Os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino
Tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do
fundo
navegantes os barcos
Agradeço-lhe antes de qualquer
coisa receber-nos em sua casa e apresentar-nos as gatas e esta cadela, que tem
um nome para homenagear outra poeta.
Sim, Mily Dickinson. É uma
homenagem, ao fim e ao cabo, à grande poeta Emily Dickinson. O problema é que
ela de Milly Dickinson, como já reparou, tem muito pouco. A Emily Dickinson,
daquilo que sabemos da vida dela, era uma pessoa bastante recatada, recolhida.
Foi uma mulher que saiu de casa, para longe de casa, duas vezes em toda a vida.
Aliás, a partir dos 30 anos, dos 33 mais ou menos, começa a vestir-se de branco
e não sai do quarto até aos 50 e tal. Acho que ela morre com 53, 54, agora não
me lembro muito bem, sou muito má com contas, portanto, praticamente não sei. É
muito engraçado, ela vai de resto a uma consulta, porque tem problemas de visão
e vai a uma consulta em Boston, e é consultada através de um tabique, portanto
o médico não a vê. Ela diz-lhe o que é que sente, quais são os problemas, e o
médico do outro lado faz-lhe o diagnóstico.
E essas reservas todas deviam-se a quê?
Não sabemos. Bom, acho que por
um lado há todo um contexto social, cultural, histórico, digamos assim, que de
alguma forma propicia este tipo de comportamento das mulheres, não é? Se pensar
nas Bronte, nas irmãs Bronte, também não saíam de casa. Se pensar em Elisabeth
Barrett Browning, ela estava enfiada em casa até conhecer por carta Robert
Browning, que finalmente a raptou! Ele raptou-a literalmente de casa dos pais,
com o consentimento dela, bem entendido. Fugiram os dois, casaram e pronto, a
partir daí, Elisabeth Barrett Browning fez uma vida super pública, digamos. Mas
os exemplos de mulheres do século XIX, de meados do século XIX, que do ponto de
vista privado, digamos, têm um comportamento muito contido, muito reservado,
são vários. A grande questão com Emily Dickinson é que ela adopta esse
comportamento e leva-o até ao extremo. Como faz aliás com a sua poesia. Por
exemplo, ela pega na prosódia do hino puritano, do hino religioso, que são 4
batimentos, 3 batimentos, 4,3, 4, 3, e depois, de vez em quando, distorce-o. Ou
seja, ela sabe muito bem como fazer correctamente, se quiser. Aliás, há um
poema muito engraçado em que ela diz “I cannot dance upon my toes// No man
instructed me”, portanto “Eu não posso andar em pontas// Nenhum homem me
ensinou”, mas é mentira porque ela sabe muito bem andar em pontas. Ou seja, ela
sabe muito bem como regular o verso só que de vez em quando desregula-o.
Propositadamente.
Propositadamente, com certeza.
No caso do hino puritano é adaptar a forma religiosa da altura, só que depois
aquilo é tudo desconstruído, desmontado. Por isso acho que o processo usado em
Emily Dickinson não é tanto a transgressão, mas é mais a subversão. Porque são
processos diferentes. Um polícia não me diz assim: “a senhora cometeu uma
subversão”, diz-me: “a senhora cometeu uma transgressão”. Porque a transgressão
é um rompimento das normas às claras, de uma forma aberta, ao passo que a
subversão é construir sob, debaixo, não é?, uma versão subterrânea. Então, e
isto é a minha opinião, no caso da subversão em vez da explosão temos a
implosão, implode por dentro.
E a Ana Luísa acha isso mais interessante?
Muito mais interessante, é
claro.
Porque não é declarado.
Há uma carta muito interessante
que cito muitas vezes em que ela diz: “o meu ofício é a circunferência”. Acho
que isto define muito bem a poética de Emily Dickinson, porque a circunferência
não tem centro, contrariamente ao círculo, a circunferência é a linha só e é
uma linha que simultaneamente fecha e abre. É a fronteira. E a poesia de
Dickinson é constantemente feita numa fronteira, num estar entre, in between.
Fala dela com conhecimento, mas também com uma enorme paixão.
Sim, tenho as minhas grandes
paixões: Emily Dickinson, William Blake, William Shakespeare. Peço desculpa por
ir tão para trás, porque realmente estes são os grandes para mim. Shakespeare
tem tudo. É um poeta antes de mais nada, porque muitas das suas peças são
escritas também em verso iâmbico. Não só os sonetos, estou a falar também das
peças, e em Shakespeare encontra tudo. A natureza humana está toda lá. Desde o
ciúme, o amor, a raiva, a morte, a dissimulação, o poder, o desejo de poder,
como o poder corrompe. Por exemplo, estudos sobre a corrupção que o poder
provoca, etc. Depois o Blake. Ele falou do seu tempo, finais do século XVIII e
início do XIX, mas isto também retrata o nosso tempo. Não conheço nenhum outro
poeta que tenha falado do horror, da tragédia que é a desigualdade tremenda
entre as pessoas como ele: “Some are born to sweet delight// Some are born do
endless night”, “Alguns nascem para doces delícias// Alguns nascem para a noite
sem fim.” “Noite sem fim” é uma coisa extraordinária. E é verdade, algumas pessoas
nascem para a noite sem fim. Estou a pensar nos refugiados, por exemplo, alguns
do continente africano, que nós sabemos que vão nascer para a noite sem fim, e
outras que nascem para as doces delícias. E depois Dickinson, com certeza. E
depois, claro, os mais recentes: Camões, Sá de Miranda, Fernando Pessoa, Mário
de Sá-Carneiro, adoro Mário de Sá-Carneiro, acho-o um grande, um enorme poeta e
não está ainda devidamente... agora as pessoas estão a começar a interessar-se
pela poesia dele, mas acho que a grandeza do Pessoa o ofuscou.
Saiu há pouco tempo um livro seu nos Estados Unidos, editado pela
New Directions. Este livro, “What`s in a name”, já teve algumas referências.
Está contente?
Estou, estou. Tem tido belas
recensões, belas críticas.
The New York Times.
Também, sim sim. Poetry Review
of Books, sei lá, a Paris Review. Olhe, pronto. Sim, tem tido boas referências.
Fica constrangida quando refiro isto.
Sim, um bocadinho.
Porquê?
Não sei, não sei.
Estava a falar-me há pouco dos
seus deuses. Tivemos ocasião de conversar com um poeta que nos dizia que o
trabalho dele é escrever contra, precisamente contra os deuses dele. No sentido
de não fazer igual a eles porque quando se gosta muito de um poeta corre-se o
risco de o copiar. O seu processo de escrita de poesia também tem alguma coisa
a ver com isso ou não?
Não, rigorosamente nada. Ou
seja, quando escrevo não penso como é que tenho que escrever. Escrevo e
acabou-se. Escrevo;porque preciso. Sempre escrevi desde que me conheço e
escrevo porque necessito de escrever. Posso dar-lhe um exemplo: os momentos de
maior tristeza, para além obviamente de perdas imensas que tive na vida, como o
meu pai, o Paulo Eduardo de Carvalho, a minha tia, portanto, os momentos de
maior tristeza que tive foram estes últimos meses em que deixei de fumar.
Estive seguramente uns 7 meses sem conseguir escrever. Aliás, escrevia umas
porcarias, pronto; não prestava para nada. Finalmente há coisa de um mês e meio
comecei a escrever. Aquilo foi de repente, percebe? Ou seja, de facto isto é
verdade: as sinapses têm de se refazer. Toda a minha vida girava em torno do
cigarro: fumava porque estava triste, fumava porque estava contente, fumava
porque estava a escrever, fumava porque não estava a escrever, fumava a ver
televisão, fumava a conversar. Enfim, fumava em qualquer situação.
A inspiração ligada ao cigarro.
Sim, muito ligada ao cigarro. E
para mim isso era absolutamente fundamental. Como lhe digo, quando deixei de
fumar estive 7 meses sem escrever e foram meses de uma profunda tristeza, uma
profunda tristeza.
Mas há tristezas que podem ser motores para escrever. Não foi o
caso desta?
Não, mas acabei por conseguir
escrever, agora escrevo. Acho até que estou a escrever de forma um bocadinho
diferente, é uma coisa estranha.
Dizia que escreve porque precisa.
Porque preciso de escrever. Não
sei viver sem escrever. Por isso dei este exemplo do cigarro, para ilustrar,
porque para mim é absolutamente fundamental escrever. Tal como preciso de beber
água ou como preciso de ler.
De resto tem aqui uma pilha de poemas inéditos que não publica. Ou
seja, são a prova de que, de facto, escreve muito.
Depois ficam ali, pronto.
E ficam ali porquê?
Porque acho que não prestam.
(risos) Não têm grande qualidade ou, também pode acontecer, por vezes não se
integram no livro. Porque uma coisa é escrever poesia, outra coisa é fazer
livros. Fazer um livro de poemas, para mim, pressupõe oferecer uma certa ordem
aos poemas, digamos assim. É-me mais fácil escrever poemas do que fazer livros,
devo dizer. Um livro para mim tem de ter uma coerência interna, e aí sim eu
penso o que vou fazer com os poemas. Quando escrevo o poema não penso o que vou
fazer. Não penso: agora tenho de tentar escrever contra ou a favor ou seja lá o
que for deste ou daquele.
E escreve de uma vez? Como é que isso acontece?
Depende, depende. Às vezes
escrevo um bocadinho e depois ... já me aconteceu, acontece-me várias vezes
até, escrever três ou quatro versos, três ou quatro estrofes, e depois ter que
sair, interromper e não poder continuar. E depois repego, retomo o poema.
Mas antes de se sentar e escrever, o poema já anda consigo,
digamos assim?
Muitas vezes sim.
Portanto, não é uma coisa repentina? Ou pode ser?
Pode ser. Também pode ser uma coisa
repentina.
Pode-se escrever sem ler?
Não. Concordo com a ideia de
que toda a literatura acaba por ser uma reescrita do que se escreveu antes.
Agora, ela tem que ter uma voz nova sempre. E o que é maravilhoso é isso. É
possível fazer vozes novas ainda, mesmo com tantos séculos de literatura.
Porque as combinações que se fazem com as palavras são infinitas, também.
Repare, nós temos esta coisa que é extraordinária: o nosso alfabeto é o mesmo,
e as palavras a mesma coisa. As palavras que uso para conversar consigo são as
mesmas que uso para escrever um poema. Agora, quando escrevo um poema
obviamente é a forma como combino as palavras e isso não sei explicar. É claro
que eu queria ter uma voz diferente, mas quando estou no processo de escrita do
poema não tento exercitar nenhuma voz diferente. Escrevo somente.
E essas vozes novas de que fala continuam a existir apesar de os
temas na poesia e na literatura em geral serem recorrentes. Os temas serão
sempre os mesmos?
We are pretty much the same (risos) Repare, Lear, o
Rei Lear, tem uma coisa maravilhosa: naquela altura em que as filhas lhe tiram
tudo, em que ele está no meio da charneca nu, louco, pergunta: "is man no more than this?"
Será que o homem não é mais do que isto? E depois diz: "dispam-nos de
tudo, das roupas, da cultura, de tudo o resto, e nós não passamos de seres
acossados." E é verdade. Acossados, e portanto, passíveis de sermos
agressivos, de matarmos para ter um bocado de pão. Todavia no meio disto
aparecem sempre algumas excepções que redimem o que pode ser essa...
Condição...
Essa condição humana,
justamente. Portanto, retire tudo, a capa da cultura, essas capas todas e é
muito complicado. Nós somos, infelizmente, aquilo que éramos aqui há uns
séculos atrás. Enquanto assim formos, o amor, o ódio, a tristeza, o ciúme, tudo
isso continuará a ser-nos comum. Por isso é que continuamos a comover-nos. Às
vezes vou no comboio e uma criança pequenina começa a rir-se à gargalhada.
Repare nas expressões das pessoas em volta. Rarísssimamente ficam indiferentes.
As pessoas sorriem, é muito engraçado. Há um ou outro que não sorriem, mas 90%
sorriem. Ou, por exemplo, uma criança começa a gritar desalmadamente. As
pessoas ficam incomodadíssimas. Ou seja, de facto nós somos muito parecidos uns
com os outros.
Isso leva-nos para uma outra condição sua que é a questão do
feminismo. Parece-lhe que continua a fazer sentido, hoje?
Claro. Então com estes números
que temos tido da violência doméstica, já viu? Quantas mulheres morreram desde
o início do ano? Morreram! Mortas por violência doméstica. Acho que está tudo
ligado. Enquanto o sistema não mudar, este sistema patriarcal... Não sou contra
os homens, de forma alguma. O feminismo não é contra os homens, e é importante
que isto seja dito desta maneira. Para mim o feminismo é uma questão de
direitos humanos, só. Resume-se a isto: direitos humanos.
E, portanto, há um longo caminho a fazer.
Há um longo caminho a fazer.
Nós somos todos feitos da mesma matéria com que, de resto, são feitas também as
estrelas. É a mesma coisa. Portanto, a pele é igual. Todos nós temos pele,
todos nós temos corpo, todos nós precisamos, como mamíferos, de sermos tocados.
Portanto, se se afastavam os homens, por exemplo, da educação das crianças e
era uma tarefa só das mulheres, o homem coitado, o desgraçado, trabalhava fora
e ganhava dinheiro para sustentar a família, o que era horrível também. Se ele
perdia o emprego era uma responsabilidade tremenda. Portanto, isso era uma
perda para os homens. O que acontece é que o nosso sistema, que é patriarcal,
de alguma forma tentou mostrar, ou provar, até por teorias, a dominação
masculina. Por isso é que falamos no falocêntrico, centrado no falo, tentando
provar que os homens dominam e as mulheres se submetem. A partir do momento em
que os vários feminismos põem isto em causa, o que acontece é que há reacções,
e os homens reagem, pois claro. Os homens que foram educados na ideia de que
dominam, sentem-se ameaçados. É normal que se sintam ameaçados. Agora, isto não
é ameaça nenhuma, pelo contrário. Isto só representa uma melhor forma de
vivermos todos juntos.
Acha que ainda sentem essa ameaça?
Então não sentem? Acho que esta
questão da violência doméstica tem a ver com isso.
Temos de terminar, mas não queria deixar de lhe dizer que gosto
muito dessa ideia de sermos feitos da mesma matéria que as estrelas.
Então não somos?! Há um
belíssimo documentário, aliás, não é um documentário, é um poema em filme, que
é do Patricio Guzmán, aquele cineasta chileno, que se chama "Nostalgia de
la luz" que é lindíssimo. A determinado momento diz-se mais ou menos isto
que eu estou a dizer, mas de uma forma mais científica: uma pessoa ligada à
química explica que o cálcio que existe nos nossos ossos é o cálcio que existe
nas estrelas, é o cálcio que existe no universo. O mesmo cálcio - é
extraordinário. Portanto, esta cisão que temos vindo a provocar entre nós e a
natureza está a virar-se contra nós. Quero dizer, este tempo desgraçado, as
mudanças climáticas, tudo isto está a virar-se contra nós. Quando tudo devia
estar, de alguma forma, em harmonia.
É preciso voltar a ouvir a natureza, não é?
É preciso voltar ouvir as
coisas, a música das estrelas, pois claro.
- A poesia serve para quê?
A poesia de facto não serve
para nada, não tem uma aplicação prática. Com a poesia não se faz uma mesa, não
se constrói uma casa. Mas ela é absolutamente fundamental, porque, como toda a
arte, assiste-lhe não o pragmatismo, mas o simbólico, e nós, humanos, precisamos
do simbólico, que passa sempre pela nossa relação com os outros. Precisamos
dele como precisamos de comer ou de dormir. Porque é sua a dimensão estética,
mesmo quando fala do horror ou da crueldade. A poesia, tal como eu a concebo,
faz-nos, acredito, melhores pessoas, porque nos move (podendo fazer-nos agir) –
e nos comove.
- Deve saber vários versos de cor. Qual o primeiro que lhe vem à
cabeça?
Dois: “Eu cantarei de amor tão
docemente”, de Camões, e “Farei um verso de puro nada”, de Guilherme d’Aquitânia.
- Se não fosse poeta portuguesa (ou de outro país) seria de que
nacionalidade?
Talvez italiana, porque a
língua italiana é, para mim, a língua mais bela que conheço – depois da minha.
- Um bom poema é?
Desculpe citar algo que não é
meu, mas de Emily Dickinson: “Se leio um livro, e ele torna o meu corpo tão
frio que fogo nenhum o pode aquecer, sei que isso é poesia”. Substitua-se
“livro” por “poema” e isso é para mim um bom poema: o que se sente no corpo e
fala à cabeça e ao coração.
- O que a comove?
A bondade. Alguma poesia. Ou
pensar que somos feitos da mesma matéria de que são feitas as estrelas.
- Que poema enviaria ao primeiro-ministro português?
“Carta a meus filhos, sobre os
fuzilamentos de Goya”, de Jorge de Sena.
- Por sua vontade, o que ficaria escrito no seu epitáfio?
Deixa uma filha maravilhosa,
amigos e poemas. Leva saudades.
O Poema Ensina a Cair começou por
ser, em 2015, uma rubrica semanal do Expresso Diário sobre poesia
portuguesa. Pretendia divulgar autores contemporâneos, mas não só. A ideia
original de Raquel Marinho volta agora ao Expresso, desta vez com uma
comunidade grande de seguidores nas redes sociais. Pode acompanhá-la no Instagram e no Facebook.
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