terça-feira, 18 de junho de 2019

Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo (Fernando Pessoa)

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Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo
Onde há paisagens que não pode haver.
Tão belas que são como que o veludo
Do tecido que o mundo pode ser.

Bem sei. Vegetações olhando o mar,
Coral, encostas, tudo o que é a vida
Tornado amor e luz, o que o sonhar
Dá à imaginação anoitecida.

Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento
Que ali agita os ramos em torpor
Passa de leve por meu pensamento
E o pensamento julga que é amor.

Sei, sim, é belo, é longe, é impossível,
Existe, dorme, tem a cor e o fim,
E, ainda que não haja, é tão visível
Que é uma parte natural de mim.

Sei tudo, sei, sei tudo. E sei também
Que não é lá que há isso que lá está.
Sei qual é a luz que essa paisagem tem
E qual a rota que nos leva lá.

20-09-1934
Poema publicado pela primeira vez em Novas Poesias Inéditas. Lisboa, Ática, 1973. Esp., env. 62B-25, original manuscrito a tinta; datado; não assinado.


QUESTIONÁRIO:

1. Nas três primeiras estrofes, o sujeito poético descreve um lugar idealizado.
Apresente duas características desse espaço e exemplifique cada uma delas com uma transcrição pertinente.

2. Explique o conteúdo dos versos 3 e 4 e relacione-o com a temática pessoana em evidência no poema.

3. Explicite dois sentidos das anáforas e das suas variantes (versos 1, 5, 9, 13, 17 e 19), tendo em conta o desenvolvimento temático do poema.


RESPOSTAS:

1. Apresenta, adequadamente, duas características do espaço descrito no poema, exemplificando cada uma delas com uma transcrição pertinente (Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes):
espaço de sonho/espaço da imaginação – «Onde há paisagens que não pode haver» (v. 2)/«Sei, sim, é belo, é longe, é impossível» (v. 13)/«E, ainda que não haja» (v. 15);
espaço belo, suave e acolhedor – «Tão belas que são como que o veludo» (v. 3);
espaço perspetivado como promessa de felicidade – «tudo o que é a vida / Tornado amor e luz» (vv. 6-7);
espaço propiciador da ilusão do amor – «Passa de leve por meu pensamento / E o pensamento julga que é amor» (vv. 11-12).

2. Explica o conteúdo dos versos 3 e 4 e relaciona-o com a temática pessoana em evidência no poema, abordando dois tópicos de resposta adequadamente (Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes):
a afirmação da consciência de que o espaço descrito existe apenas no sonho;
a afirmação da certeza de que o espaço descrito é um espaço de felicidade, mas também de que, sendo fruto do sonho, é inacessível;
a afirmação da consciência de que o sonho é inerente à essência do sujeito poético.

3. Explicita, adequadamente, dois sentidos das anáforas e das suas variantes, tendo em conta o desenvolvimento temático do poema (Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes):
a afirmação da consciência de que o espaço descrito existe apenas no sonho;
a afirmação da certeza de que o espaço descrito é um espaço de felicidade, mas também de que, sendo fruto do sonho, é inacessível;
a afirmação da consciência de que o sonho é inerente à essência do sujeito poético.

Fonte: Exame Final Nacional de Português. Prova 639, 1.ª Fase, Ensino Secundário. IAVE - Instituto de Avaliação Educativa, I.P., 2019. 12.º Ano de Escolaridade - Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho


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