A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
A guerra, que aflige com os seus
esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer
alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por
nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra
prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros
homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas,
deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos
esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo
povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque
usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a
humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo
no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do
Universo!
24-10-1917
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando
Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
- 96.
[…] refira-se que Fernando Pessoa, Álvaro de Campos,
Ricardo Reis e Alberto Caeiro escreveram um número indeterminado de poemas,
talvez duas dezenas, sobre o tema da guerra, parte deles em 1915-1917. Neles o
autor aparece sempre não como um ideólogo ou um pensador político, mas como alguém
imparcial e “comovido com os sofrimentos inúteis dos povos e dos indivíduos”.
Esta apreciação é de Georg Rudolf Lind, no seu já aqui citado artigo de 1972 em
que se debruçou sobre apenas oito desses poemas (1981: 445‑447). Desde esse
estudo pioneiro, outros poemas e fragmentos de poemas sobre a guerra surgiram
da arca pessoana, com matéria suficiente para novos estudos sobre o mesmo tema. Não nos ocupamos
deste assunto aqui, mas sim do pensamento político ou sociológico de Fernando
Pessoa sobre a guerra.
Foi, no entanto, com alguma surpresa que cotejámos
essa poesia com as prosas pessoanas
sobre a Grande Guerra. O poeta Fernando
Pessoa preocupa-se com a dor humana, com as vítimas inocentes
que a guerra faz, com o absurdo das mortes vãs e com a monstruosa desumanidade que a guerra desperta nos homens. Tenhamos
em mente trechos da “Ode Marcial”
de Álvaro de Campos ou os poemas do ortónimo como “O menino de sua mãe” e “Tomámos
a vila depois de um intenso bombardeamento”.16 Alberto Caeiro,
por sua vez, condena
expressamente a guerra, todas as guerras,
num poema caracteristicamente pacifista, “A guerra,
que aflige com seus esquadrões o mundo...” (Pessoa,
1994: 142)17. Ora o pensador
e ensaísta Fernando
Pessoa nunca se preocupa
com esses aspetos.
Defende o direito
da força, porque ‒ diz – não há nem pode haver um tribunal que julgue as nações ou os Estados.18 A
Bélgica mártir não lhe inspira
compaixão, porque a Bélgica
seria “um Estado absurdo”, sem razões para existir.19 Quanto aos gases asfixiantes usados pelos
alemães, justifica-os: “Repare-se que a Alemanha luta
pela vida, com tudo contra si...”
(in Pizarro, 2006: 107).20 Num texto a que adiante
voltaremos, Pessoa chama mesmo à Alemanha “glorioso
império construído a sangue e fogo, glorioso de dureza e impassibilidade”. Para o pensador Pessoa, a guerra é matéria de reflexão racional,
que ele diz pretender analisar com a frieza de um sociólogo, sem cedências a sentimentos humanitários nem partis pris patrióticos. “Escrevo como se não tivesse alma, mas apenas pensamento” – faz dizer Pessoa a António Mora na “Dissertação a favor da Alemanha” (BNP/E3,
28-18r, ver aqui Fig. 3). Nesse quadro,
os sentimentos, as ideias humanitárias ou o pacifismo desinteressam a Pessoa, que só os considera, eventualmente, como objetos
de análise crítica.
À diferença de outros poetas modernistas europeus, Pessoa nunca fez poesia
belicista ou exaltadora da guerra21, mas na prosa
ensaística que produziu durante a Grande Guerra
assumiu uma clara insensibilidade aos horrores da guerra.
Notas:
16 A “Ode Marcial”,
atribuída a Álvaro
de Campos e deixada inédita,
é datável de 1914-‐‑1915 ‒ ver Pessoa (2014:
152-163 e 620-625). Os outros dois poemas foram publicados apenas na década de 1920 (Pessoa,
1926 e 1929), mas Lind (1981: 440) sustenta que foram escritos durante a Grande Guerra. Tal hipótese não se confirma, já que pelo menos o poema “Tomámos
a vila depois de um intenso bombardeamento” está datado no original manuscrito de 21‑6‑1929 (BNP/E3, 118-57r).
17 Datado de 24 de Outubro de 1917.
18 Num acrescento manuscrito à segunda versão da resposta a João de Barros (BNP/E3, 135-20r).
19 Ver “Argumentos a favor da germanofilia” (BNP/E3, 144X-12v a 14v), publicado em Pizarro (2006: 105‑107).
20 Opinião semelhante foi então expressa por Júlio Dantas. Falando sobre os gases de cloro usados como arma pelos alemães, escreveu: “Um povo como o alemão, quando joga, numa cartada suprema, o seu destino e a sua vida, não pode escolher, generosamente, os processos de extermínio que adopta. [...] Devemos concluir, por isso, que é ignóbil a Alemanha? Não. O que é ignóbil é a guerra” (Dantas, 1915: 609).
21 Dúvidas sobre esta afirmação poderão surgir lendo o poema “Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant..."ʺ (BNP/E3, 144X‑66r), publicado em Pizarro (2006: 104), e certos trechos de rascunho para a “Ode Marcial”, como “Ave guerra, som da luz e do fogo...” (BNP/E3, 64-‐‑42r), publicado em Pessoa (2014: 359), mas não são, a nosso ver, casos claros de poesia exaltadora da guerra.
José Barreto, “Fernando Pessoa ‒ germanófilo ou
aliadófilo? - Um debate com João de Barros que não veio a público” in Pessoa
Plural: 6 (O./Fall 2014). Disponível em: https://www.ics.ulisboa.pt/file/5346/download?token=F6Cr8bAX
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| Niclas Hammarström, 2013 |
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água — só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à
baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no
meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da
vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de
costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu
coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos
eles
Que matou, violou, queimou e quebrou.
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma
sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do
infinito.
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os
olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de
todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a
quebrar
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e
bati-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei
e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e
rasguei-o.
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha
abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de
costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que
enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a
árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso
se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem
que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
- 304.
Os
problemas políticos do tempo de Fernando Pessoa também o interessaram muito, pois
conforme ele próprio afirma, “todas as questões sociais , todas as perturbações
políticas, por pouco que com elas nos preocupemos, entram no nosso organismo
psíquico, no ar que respiramos psiquicamente, passam para o nosso sangue
espiritual, passam a ser, inquietamente, nossas como qualquer coisa que seja
nossa”.1 Por isso, Fernando Pessoa escreveu muitos textos sobre
várias questões sociais e perturbações políticas, e de que ele fala e critica também
nos seus textos literários, que estão reunidos
neste livro : a nível internacional, por exemplo o colonialismo inglês, a
escravização da Etiópia pela Itália, a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa de 1917, e o fascismo de
Mussolini. A nível nacional, a crise final da Monarquia, a instauração da República,
os Governos saídos da República, o consulado do Presidente Sidónio Pais, o seu
assassinato e o período subsequente, a intentona militar de 18 de Abril de
1925, a agonia da Primeira República, a Ditadura Militar, o Estado Novo,
Salazar, e outras personalidades políticas portuguesas (João Franco, Afonso
Costa, etc.).
Além de
literatura sobre política, Fernando Pessoa também escreveu ensaios sobre
política (já publicados). No entanto, nem mesmo nos seus ensaios sobre política
(como aliás sobre qualquer outro tema), existe um pensamento sistematizado, mas
antes uma mistura de assuntos, muito dispersos, sem sequência lógica, e por
vezes contraditórios. Fernando Pessoa tem textos que revelam ser um
nacionalista, e outros um internacionalista, uns em que mostra simpatia pelo
liberalismo, e outros em que o critica, e até mesmo em relação ao comunismo,
que ele critica em alguns dos seus textos, diz o seguinte : “Serve melhor à
pátria um grande poeta comunista ou imoral, que um pobre diabo que escreve
poemas elogiosos sobre a batalha de Aljubarrota” (apesar de Fernando Pessoa ser
um nacionalista). Nenhum dos seus textos sobre política permite extrair a
conclusão de que ele era desta ou daquela ideologia política, pois tanto pode
falar bem como mal de determinados assuntos políticos, como sucedeu por exemplo
em relação ao liberalismo. Conforme o próprio Fernando Pessoa afirma, um
escritor ao ocupar-se de política “deve fazer o possível, se quer estar de
acordo com o seu mister, por compensar a oscilação num sentido por uma
oscilação no oposto. O ideal de um escritor consciente do seu mister, e que
porventura escreva sobre política, é apresentar um dia os aspetos positivos, ou
negativos, de uma doutrina, no outro dia os aspetos positivos, ou negativos, da
doutrina oposta. Aos políticos pertence o estarem fixos num ou outro polo do
assunto. É este o mister deles, políticos.”2
Em todo o
caso, após mergulharmos a fundo na sua vasta obra, conseguimos extrair algumas
conclusões, bastando ler aliás a sua
obra literária: era contra as tiranias políticas, o totalitarismo, as guerras,
o comunismo, o fascismo, o salazarismo, o colonialismo, e o imperialismo, e apesar da sua educação inglesa, criticou
também o imperialismo britânico (por exemplo
nos poemas reunidos neste livro). Mesmo quase no final da sua vida,
quando a invasão da Etiópia era anunciada pelo regime de Mussolini, com o
argumento da existência de escravatura naquele país, escondendo esse argumento os
interesses económicos e políticos do imperialismo italiano, invasão essa que que
de facto chegou a acontecer, Fernando Pessoa criticou a Itália, conforme se
pode ver no seu poema Dizem que vão
apresentar, incluído no presente livro.
Inicialmente
Fernando Pessoa simpatizou com o período político autoritário que deu origem
ao Estado Novo em Portugal, cuja
defesa fez no seu texto O Interregno,
mas nele fazia a defesa de um “Estado de transição”, como a própria palavra indica,
interregno esse para serenar os ânimos, necessário para acalmar as lutas
existentes em Portugal entre Monárquicos e Republicanos, e as sucessivas quedas
de Governos, e para fazer face à onda de estrangeirismo e à quebra do orgulho
nacional, mas que conduzisse a um regime político que não se poderia basear na
força nem na autoridade, mas sim na opinião. Porém, ao verificar que o Estado Novo
continuava, Fernando Pessoa escreveu que “O
Interregno devia ser considerado como não existente”, e que “há que rever
tudo isso e talvez que repudiar muito”, e noutro texto disse sobre o texto O Interregno: “Dou esse escrito por não
escrito”. Ao ir conhecendo melhor aquilo que era o Estado Novo, tornou-se um crítico severo
desse regime político, e de Salazar, assim com das ditaduras fascistas na Europa,
como a de Mussolini, e de Hitler. Um dos melhores exemplos foi o seu empenho em
criticar a proibição das Associações Secretas, feita pelo Estado Novo, sobre a qual escreveu e polemizou, e que rompeu definitivamente
com o Estado Novo.
Notas:
1 Sensacionismo e outros ismos, Lisboa, Ed. Imprensa Nacional Casa a Moeda,
2009, p. 187.
2 BNP/E3,
92A – 7r
Fernando
Pessoa, Obra literária sobre política (org. de Victor Correia), Lisboa, Ed.
Sinapis, 2019.
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
1-6-1916
Odes de Ricardo Reis . Fernando
Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946
(imp.1994).
- 64.
Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2979
Ainda que o assunto da ode
não seja imediatamente percetível, é importante estabelecer desde logo que
aquilo a que Reis renuncia logo no primeiro terceto, preferindo-lhes rosas e
magnólias, é à guerra. Ao contrário do que acontece noutros momentos da sua obra, a fama em causa não é aqui a fama que resulta
da atividade poética
mas antes, como o
comprova a proximidade com as outras duas coisas que não interessam a Reis (a pátria e a virtude), a fama que resulta das virtudes militares
demonstradas em defesa da pátria. Se lida, aliás, lado a lado com a outra ode em questão, uma ode em que os dois
protagonistas preferem manter a concentração num jogo de xadrez mesmo quando a pátria
que supostamente deveriam defender
é invadida por um agressor
estrangeiro, essa circunstância parece adquirir plausibilidade. Vendo ainda que, na terceira
estrofe, Reis defende
que não importa “que um perca e outro vença”,
tal plausibilidade passa a certeza.
A ode é, de resto, mais uma invectiva
dirigida a Horácio,
neste caso à exortação marcial à maneira de Tirteu que é a ode III.2 e, muito concretamente,
ao
famosíssimo
décimo terceiro verso dessa ode: “doce e belo é morrer pela pátria” [dulce
et decorum pro patria mori] (Od., III.2). As duas odes de Reis, aliás, evidenciam uma aversão à atitude bélica celebrada por Horácio
nessa ode que ganha em ser compreendida à luz de um acontecimento recentíssimo aquando da produção
delas, a 1 de Junho de 1916: menos de três meses antes, a 9 de Março, a Alemanha
declarara oficialmente guerra
a Portugal. Ao contrário de Horácio, Reis não está interessado em exibir o seu patriotismo, não pretende alcançar
a fama que se segue a essa exibição
e encontra menos virtudes em proceder desse modo do que em colher flores. A guerra é inútil, pois a vida continua qualquer
que seja o seu desfecho. Assim sendo, é preferível deixar que a vida (e a guerra)
o não canse, passando por ele sem o modificar. A única coisa de que Reis não abdica, como se lê no final da ode, é o desejo de indiferença e a “confiança molle”
(RR 133) na passagem do tempo, aquilo
que, justamente, constitui
a atitude que António Mora repudia e aquilo que sobressai do lazer
a
que
os
jogadores
de xadrez, na segunda ode que importa
discutir, se consagram
com indefectível devoção.
Ora, “Os Jogadores de Xadrez” (BNP 51-25r a 26r) é diferente de todas as outras odes de Reis na medida em que não é bem uma ode: além de não dialogar
com uma segunda pessoa, como é hábito, Reis abusa invulgarmente da descrição, contrariando a tendência normal na sua obra, talvez adquirida por Pessoa o ter feito médico, para a prescrição.
O epodo – é assim que Mora se refere
ao poema – começa com uma estrofe
que mais não é do que o mote das restantes, na medida em que anuncia
de modo muito abreviado o que depois será descrito em
pormenor. Nessa estrofe, Reis diz ter ouvido contar uma história antiga, “quando a Pérsia / tinha não sei qual guerra” (RR 129), sobre “dois jogadores
de xadrez” que “jogavam / o seu jogo contínuo” enquanto
“a invasão ardia na Cidade / e as mulheres gritavam” (RR 130).
As três estrofes
seguintes são exclusivamente descritivas, e apresentam a diferença radical
entre a tranquilidade do jogo de xadrez (e dos jogadores que nele permanecem concentrados) e o tumulto
do que se passava à volta. Assim,
em contraste com as atrocidades que iam acontecendo (“ardiam casas, saqueadas
eram / as arcas e as parêdes, / violadas, as mulheres
eram postas / contra os muros cahidos,
/ trespassadas de lanças, as creanças / eram sangues
nas ruas”), os jogadores permaneciam folgadamente à “sombra
de
ampla arvore”
fitando “o taboleiro
antigo” e refrescando “a sua sóbria
sede” com “um pucaro de vinho”. E mesmo que o massacre lhes desviasse a atenção do jogo, mesmo que “nas mensagens do ermo vento / lhes viessem
os gritos, / e, ao reflectir, soubessem
com acerto / que por certo as mulheres
/ e as tenras filhas
violadas eram / nessa distancia
proxima”, os jogadores de xadrez
rapidamente “volviam sua attenta
confiança / ao taboleiro velho”
(RR
130).
Note-se que fazer suceder
à indiferença com que se lida com que o que nos é exterior
uma “attenta confiança” a outra coisa qualquer é exactamente igual
a fazer suceder-lhe uma “confiança molle” (RR 133), que é o que Reis lhe faz suceder
na última estrofe
da ode que comentei antes desta. Significa isto que a indiferença dos jogadores de xadrez, como
a de Reis em geral,
não é propriamente a indiferença estóica; à atitude
da indiferença soma-se
a atitude da confiança, seja ela atenta ou mole, numa
outra
coisa.
E,
tanto
na
ode
“Prefiro rosas, meu amor, á patria” como em “Os Jogadores de Xadrez”, essa outra coisa em que se deposita a confiança pertence
a um tempo diferente. Se a indiferença que Reis e os jogadores de xadrez manifestam diz respeito a um presente
que lhes solicita
as virtudes marciais,
a confiança que
se segue a essa indiferença é direccionada para um
passado
qualquer, para uma “hora fugitiva”
(RR 133) ou para um tabuleiro de xadrez que se
distingue
por
ser “antigo” ou “velho” (RR 130). As três estrofes
que se seguem representam, de certo modo, essa passagem da indiferença à confiança, e nelas parece ser sugerido
que o dever de cada um
é para com o jogo que joga e nada mais:
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das creanças?
Quando a torre
não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada
leva o cheque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente,
sobre o muro
Surja a sanhuda face
D’um guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue alli cahir
O jogador solemne de xadrez,
O momento antes
d’esse
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indiff’rentes.
Caiam cidades, soffram povos,
cesse
A liberdade
e a vida,
Os haveres tranquillos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra
os jogos interrompa,
Esteja o rei sem cheque,
E o de marfim peão mais avançado
Prompto a comprar a torre. (RR 131)
O que realmente é aflitivo, para um jogador
de xadrez, não é saber que as irmãs, as mães e as crianças estão em perigo,
que “lá longe / estejam
morrendo filhos” ou que a cidade esteja a ser saqueada,
mas ter o rei em xeque, não poder proteger
a retirada da rainha com a torre ou não ter peça com que ameaçar
o rei adversário. A própria
vida do jogador de xadrez, mesmo que a poucos instantes
de findar, não é nada em comparação com a solenidade do “jogo predilecto / dos grandes indiff’rentes” a que se
deve entregar.
Nuno Amado, Ricardo
Reis (1887-1936), Lisboa, FLUL, 2016. Tese de doutoramento disponível em: https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/26299/1/ulfl218787_td.pdf
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indiferentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulsa dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória; a fama, o amor, a ciência, a
vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem querer nos
amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a
vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
1-6-1916
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).
- 57.






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