quinta-feira, 18 de julho de 2019

Maria do Rosário Pedreira, poetisa e editora




Três poemas para Síria / Maria do Rosário Pedreira

Mote:
Cada vez há mais crianças a chegar à Europa sozinhas.

Mãe, oxalá eu nunca tivesse largado a tua mão:
com o menino ao colo, fez-se a estrada maior do
que o meu desespero, amarrotou-se de velho meu
coração tão claro. Eu tinha catorze anos antes

do estrondo, catorze anos e meio antes do teu
grito, quinze anos cumpridos quando afastei o
véu dos teus cabelos: se me dizias sempre que não
fosse para longe, porque pediam o contrário os
teus olhos parados? Ainda por cima, mãe, chegar

ao campo foi como bater a uma porta cansada —
mil tendas que eram velas remendadas, barcos para
ficar de novo pelo caminho. Trouxeram-nos mantas
cheias de perguntas; tentaram-me com doces
para me pôr no lugar; mudaram ao meu irmão
a fralda com as mãos frias. Mãe, eu disse-lhes que

o menino era meu; e agora, quando ele procura os
teus seios no meu corpo sem formas, cubro com
o teu véu os meus cabelos e canto-lhe baixinho
canções de açúcar. Não sei que idade tenho, mãe,
mas oxalá eu nunca tivesse largado a tua mão.

* * *

Mote:
Família de menino sírio que morreu na costa turca fugia para o Canadá; mãe e irmão mais velho também não sobreviveram ao naufrágio.

O meu pai chamou-me e pediu-me que escolhesse
um brinquedo — só um — de que gostasse muito; e
que separasse outro brinquedo para o Aylan, que
ainda não sabia escolher – mas só um, e tinha de
ser pequeno. O meu pai explicou-me que nessa

noite ia fazer de tudo quase nada numa trouxa
leve; porque assim, quando o Aylan e eu caíssemos
de sono, ele e a minha mãe podiam levar-nos ao
colo sem ficarem para trás. Havia lágrimas nos olhos
do meu pai quando contou que, na manhã seguinte,
teríamos de deixar a nossa terra; mas logo se
recompôs, dizendo que Kobanî também já não era
bem a nossa terra, que a nossa casa era a ruína da

nossa casa, que toda a Síria não passava de um tímpano
exausto de tanto estrondo e dois olhos cansados,
mas tão cansados, de chamas e de sangue. O meu pai

achava que o Aylan era demasiado pequeno para
compreender e, por isso, dissera-lhe apenas que
iríamos dar um passeio de barco, que passaríamos
o dia numa praia e que, enquanto eu e a minha mãe
nadássemos no mar até ficarmos sem fôlego, ele

podia simplesmente deitar-se de bruços na areia,
como tanto gostava. O meu pai nunca nos mentiu.

* * *

Mote:
Síria: Bebé e três crianças da mesma família mortos em raide aéreo.

Por serem mães, nem viram aquilo que
parecia um raio de sol interrompendo o
mundo; e levam os meninos mortos ao
colo no fio dos caminhos, confundindo
sempre a lã dos xailes com o calor do
sangue que lhes ensopa as mãos. Seguem

sem poder acreditar — ou então acreditam
que não seriam capazes de amar tanto
uma coisa parada no tempo, e por isso
vão, imperturbáveis, ouvindo bater dentro
do próprio peito os corações vermelhos
pequeníssimos. Mais adiante, deter-se-ão

para descobrir um seio redondo e cheio à
minúscula boca prometido – não vá ela
abrir-se de repente e, milagrosamente,
começar a chorar.

Três poemas para Síria / Maria do Rosário Pedreira
Luvina 93 - Travesía Portugal
Revista literária da Universidad de Guadalajara, Inverno 2018





Mote:
Cada vez hay más niños que llegan a Europa solos.

Madre, ojalá que nunca hubiese soltado tu mano:
como el niño al cuello, la calle se hizo más grande
que mi desesperación, se ajó de viejo mi
corazón tan claro. Yo tenía catorce años antes

del estruendo, catorce años y medio antes de tu
grito, quince años cumplidos cuando aparté el
velo de tus cabellos: si me decías siempre que no
fuese lejos, ¿por qué pedían lo contrario
tus ojos detenidos? Aun por encima, madre, llegar

al campo fue como tocar una puerta cansada —
mil tiendas que eran velas remendadas, barcos para
quedarse de nuevo en el camino. Nos trajeron mantas
llenas de preguntas; me tentaron con dulces
para ponerme en el lugar; le cambiaron a mi hermano
el pañal con manos frías. Madre, les dije que

el niño era mío; y ahora, cuando él busca
tus senos en mi cuerpo sin formas, cubro con
tu velo mis cabellos y le canto bajito
canciones de azúcar. No sé qué edad tengo, madre,
pero ojalá que nunca hubiese soltado tu mano.

Mote:
Familia de niño sirio que murió en la costa turca huyendo a Canadá; madre y hermano mayor tampoco sobrevivieron al naufragio.

Mi padre me llamó y me pidió que escogiese
un juguete —sólo uno— que me gustara mucho; y
que separase otro juguete para Aylan, que
aún no sabía escoger —pero sólo uno, y tenía que
ser pequeño. Mi padre me explicó que esa noche

iba a meter todo y nada en un atado
ligero; porque así, cuando Aylan y yo cayésemos
de sueño, él y mi madre podían llevarnos al
cuello sin quedarse atrás. Había lágrimas en los ojos

de mi padre cuando contó que, a la mañana siguiente,
tendríamos que dejar nuestra tierra; pero enseguida
se recuperó, diciendo que Kobani ya no era
bueno para nuestra tierra, que nuestra casa era la ruina de

nuestra casa, que todo Siria no pasaba de un tímpano
exhausto de tanto estruendo y dos ojos cansados,
pero tan cansados, de llamas y de sangre. Mi padre

creía que Aylan era demasiado pequeño para
comprender y, por eso, sólo le había dicho que
iríamos a dar un paseo de barco, que pasaríamos
el día en una playa y que, mientras yo y mi madre
nadáramos en el mar hasta quedarnos sin aliento, él

podía simplemente echarse de bruces en la arena,
como tanto le gustaba. Mi padre nunca nos mintió.

Mote:
Siria: Bebé y tres niños de la misma familia muertos en un ataque aéreo.

Por ser madres, no serán aquello que
parecía un rayo de sol interrumpiendo el
mundo; y llevan al cuello los niños muertos
al filo de los caminos, confundiendo
siempre la lana de los chales con el calor de
la sangre que ensopa sus manos. Siguen

sin poder creer —o entonces creen
que no serían capaces de amar tanto
una cosa parada en el tiempo, y por eso
van, imperturbables, oyendo latir dentro
del propio pecho los corazones rojos
pequeñísimos. Más adelante, se detendrán

para descubrir un seno redondo y lleno a
la minúscula boca prometido —no vaya ella
a abrirse de pronto y, milagrosamente,
empezar a llorar.

Versiones del portugués de Renato Sandoval Bacigalupo

Maria do Rosário Pedreira, Luvina 93 - Travesía Portugal, Revista literária da Universidad de Guadalajara, Inverno 2018 ISSN 1665-1340.




EXPRESSO - PALAVRA DE AUTOR

Palavra de Autor #27 Maria do Rosário Pedreira: “Estamos num período baixo da literatura”

CRISTINA MARGATO, 17.07.2019 às 15h06

    Antes mesmo da sul-coreana Hang Kang ganhar o Booker Prize em 2016, Maria do Rosário Pedreira já queria comprar o livro que seria distiguido por um dos mais importantes prémios a nível europeu. A “A Vegetariana” seguiu-se a publicação em português de“Atos Humanos” e agora “O Livro Branco”. Esta última obra é o pretexto para uma conversa com uma editora que aposta sobretudo em novos talentos nacionais e está atenta às literaturas de regiões periférias. Neste Palavra de Autor, o último antes das férias de Verão, Maria do Rosário Pedreira conta como se entusiasmou por Hang Kang, e pela sua distinta voz, lê passagens de “O Livro Branco”, e fala sobre o que é a literatura, a edição e publicação de livros, e o que faz um bom escritor. No final é desafiada por Cristina Margato a dizer um dos seus poemas. 

Maria do Rosário Pedreira está há muitos anos a separar o trigo do joio. Como ela própria diz, vem do tempo em que os autores escreviam melhor que os editores e em que os editores se limitavam a ser “publicadores”.
Na era da auto-publicação, a possibilidade de encontrar coisas medonhas é enorme, garante a editora da D. Quixote, grupo Leya. Segundo Maria do Rosário Pedreira, escreve-se mais, mas escreve-se mal. Leem-se livros, mas não os que ela considera literatura; sendo ainda que literatura é um conceito que gera muita confusão.
Sumário de uma conversa mais longa que começa a propósito da escritora sul-coreana, Hang Kang, de quem Maria do Rosário Pedreira gostou mesmo antes dela ganhar o Booker Prize em 2016.










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