Sobre “quem muito viu…”
Inscrito na seção “Brasil” de
Peregrinatio ad loca infecta (1969), livro dividido em 4 partes mais um epílogo
(respectivamente “Portugal (1950-59)”, “Brasil (1959-65)”, “Estados Unidos da
América (1965-69)”, “Notas de um regresso à Europa (1968-69)” e o poema
“Ganimedes”), o soneto “Quem muito viu…” talvez seja um dos poemas que melhor
dê expressão ao título do livro e seu sentido de peregrinação. Talvez até
possamos pensar que o sujeito deste poema é o próprio movimento, o próprio
peregrinar, numa busca incessante.
Seguindo o trajeto de um
sujeito – singular ou coletivo? – apenas designado pelo pronome “quem”, que
mais oculta do que revela a sua identidade (ou mais revela que oculta, se
pensarmos numa dimensão autobiográfica…), o soneto assinala um movimento contínuo,
materializado no discurso pela enumeração e pela sucessão de orações
coordenadas (“Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,/ mágoas, humilhações,
tristes surpresas;/ e foi traído, e foi roubado, e foi/ privado em extremo da
justiça justa”). Esta acumulação de acontecimentos nem sempre correlatos, mas
todos ligados ao mesmo sujeito, vai como que arrastando o leitor e tira-lhe o
fôlego até poder respirar novamente, no décimo verso, diante do ponto que
finaliza o longo período. Percebe então que este se fecha com uma sentença
radical: o ser que tanto experimentou, ou que, camoniamente, “errou todo o
discurso dos [s]eus anos”, afinal “não sabe nada, nem triunfar lhe cabe/ em
sorte como a todos os que vivem.” Tal declaração (que nos recorda “Tabacaria”,
de Álvaro de Campos, cuja primeira estrofe enfatiza o não ser nada, o não saber
nada) cria enorme surpresa por sugerir a inconsistência ou futilidade daquele
somatório de experiências que o sujeito incorporou ao longo dos tempos. Mesmo o
ter conhecido “mundos e submundos”, mesmo o ter sido tudo, ainda não foi
suficiente e, por isso, em que pese o contraditório, “Apenas não viver lhe dava
tudo.”
No entanto, o poema
prossegue, semelhante a uma profecia, cujo tom não é menos radical que a
afirmação anterior: “Inquieto e franco, altivo e carinhoso, será sempre sem
pátria”. Surge aí o termo historicamente ancorado – pátria – que tudo
esclarece: esse sujeito indefinido será sempre marcado pelos tempos e espaços
do desterro, da condição ex-cêntrica, da condição de exilado, ou seja, do “não
viver”. E, ao fim do poema, em outra afirmação voltada para o futuro, lemos, “E
a própria morte,/ quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.”, a sugerir uma
espécie de sujeito (“altivo”), que, graças à sua trajetória de exílio, de não-vida,
é capaz de ultrapassar a própria morte. Antecipando-se a ela, recusa o
território que ela lhe poderia oferecer – uma espécie de “pátria” da morte – e,
portanto, por ser apátrida acima de tudo, consegue derrotá-la.
Lucas Laurentino, UFRJ. Disponível em : http://centenariojorgedesena.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/index.php/2019/07/24/sobre-quem-muito-viu/
Ligações externas:
- Homenagem a Jorge de Sena - Colóquio Letras, N.º 104/105 (Jul. 1988), Disponível em: http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/do?issue&n=104
- “Jorge de Sena e o testemunho poético de paisagens ausentes”, Alessandro Santos. Nau Literária, PPG-LET UFRGS, https://seer.ufrgs.br/NauLiteraria/article/viewFile/76095/47029, vol. 13, N. 02 2017
- Ler Jorge de Sena, ® 2010 Universidade Federal do Rio de Janeiro

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