quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Cancioneiro de Natal, David Mourão-Ferreira


Banksy, "A cicatriz de Belém", Cisjordânia, 2019


Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal, 1971


Banksy, Birmingham, 2019

domingo, 22 de dezembro de 2019

Yehuda Amichai, poeta hebraico lido por Gonçalo M. Tavares






Cultura e sentimentos, uma viagem guiada pelo poeta Amichai

por Gonçalo M. Tavares

Yehuda Amichai (1924-2000), um dos grandes poetas hebraicos. Publicou o primeiro livro em 1955, Agora e Outros Dias, esteve ligado à universidade e foi professor de escola preparatória. A poesia marcou todo o seu percurso. Amichai tem um livro com o título: Agora no Ruído – Poemas. E é isso: a poesia como aquilo que aparece subitamente no meio do ruído, uma forma de luz quando alguém parece ter perdido a visão. Pensar por exemplo em alguém que está perdido e quando escuta certos versos encontra o caminho como se os versos fossem uma espécie de indicações de itinerário.
Há sempre a questão religiosa e militar como pano de fundo, porém é a questão da família que está no centro de grande parte da obra de Amichai:
“a porta da minha casa é
a filha menor da porta do céu”
Nestes versos, vemos esse modo de mudar de escala em poucos segundos e também de mostrar que a única forma de acabar algo é começar no início e com passos pequenos. Não se começa com um único salto diretamente para o fim. A única porta, portanto, a que tens acesso é a da tua casa e é dela, diz Amichai, que deverás fazer uma porta grande, essencial.
Em Amichai, a relação com o pai está sempre a infiltrar-se nos versos:
“(…) quando o meu pai morreu
tiraram-no do seu lugar e o lugar ficou vazio
como um poço no meio da estrada com a tampa de ferro
levantada”
Esta precisão da metáfora quando fala da ausência: um poço, um buraco no meio da estrada: a ausência do pai. Noutro poema, esta precisão de novo:
“toda a noite gritaram os teus sapatos vazios
junto à tua cama”
Uma ausência corporal que é anunciada por objetos.
Há uma ternura certeira e comovente quando se fala de relações familiares:
“Um velho cego põe-se de joelhos
para atar o sapato do seu neto”
A mãe também está presente, claro, nos versos de Amijai:
“A minha mãe era a nave espacial da salvação”
A salvação física, psicológica e religiosa rapidamente colocada num campo muito terreno – é a mãe que salva e não uma religião ou um Messias – e, ao mesmo tempo, vista, essa salvação, como algo de extraordinário, fora das possibilidades normais: a mãe como algo terrestre e não terrestre – uma “nave espacial” – mistura muito frequente na poesia de Amijai.
Diga-se que esta afetividade presente na poesia de Amichai é quase sempre muito corporal:
“apoia a tua cabeça no meu ombro
porque o meu ombro
sabe coisas”
Um ombro sabe coisas, coisas não intelectuais, coisas não racionais. O ombro não sabe matemática nem linguística nem a história de um país. Um ombro sabe o que sabe a sua anatomia e a sua fisiologia. E sabe o essencial: ficar forte ao lado de uma cabeça que está em queda; o ombro não deixa a cabeça do outro desamparada. O ombro ali fica, sólido, como se fosse uma matéria eternamente estável. Está ali ao lado e podes pousar nele, no ombro, a cabeça. O ombro sabe coisas bem mais importantes do que aquelas que se aprendem na escola: o ombro sabe estar calado e ser só um apoio. Ombro, pois, que em determinados momentos se torna mais importante que o cérebro ou o raciocínio.
Há também na poesia do poeta hebraico a sensação de que o dia exterior, as notícias e a realidade dura que andam em circulação fora de casa não são o essencial. O essencial está situado da porta da casa para dentro.
Num poema que se chama “Amor antes de começar o Sabat”, Amichai dá esta imagem bem simples, mas decisiva:
“Dentro do quarto, sujo a tua pele
com dedos do jornal do dia”
Eis dois versos típicos de Amichai: há o exterior, o mundo – e o que se ama dentro de casa. Há nesta passagem, à primeira vista, uma evidência que parece meramente física, como todos, aliás, já tivemos essa experiência: o material, a tinta dos jornais, suja os dedos, eis o concreto. Mas se olharmos com mais atenção para estes dois versos veremos que já não parece ser apenas a tinta que suja a pele do corpo amado, mas as próprias notícias, o próprio conteúdo que a tinta escrevera no papel. Como se o século e os seus acontecimentos perturbassem o toque amoroso, o sujassem.
Yehuda Amichai, grandíssimo poeta hebraico, que todos devemos ler para conhecer melhor essa parte do mundo.

“Cultura e sentimentos, uma viagem guiada pelo poeta Amichai”, Gonçalo M. Tavares, UP Magazine # 146 (rubrica “Bagagem de Mão – Cidades & Homens” da revista de bordo da TAP Air Portugal) 2019-12-01. Disponível em http://upmagazine-tap.com/pt_artigos/cultura-e-sentimentos-uma-viagem-guiada-pelo-poeta-amichai/

sábado, 14 de dezembro de 2019

Eduardo Prado Coelho: Crónicas, política e cultura


ALGUÉM MOVE O MAR
Sentado em frente do mar, levanto os olhos para continuar a ler. As palavras rompem como palavras de água. O mundo faz-se gota a gota, no infinito de um oceano em que os barcos traçam caminhos, sulcos, traços marítimos e inscrições de alto mar. Estranha emoção a de ficar transparente às palavras que parece que reforçam a minha transparência. Toda a leitura nos faz crianças, e nos constrói na energia da areia.
Como lemos? À noite, no quarto em que as velas se acendem e nós abrimos a arca dos segredos. Sobre as dunas, inundados de sol. Nas longas tardes em que nas praias nos convidavam ao calor da sesta. Junto às árvores, encostados ao saber murmurado da terra. Em cartas que se trocavam entre mim e ti, formas telegráficas de repercutir o amor no silêncio dos corpos.
Comprar um livro era (e continua a ser) para mim uma deambulação por estantes e corredores. Descobrir aquilo que se chama «as novidades» passava por algo que lentamente se tornou uma arte e uma ciência avermelhada de todos os apelos. E sempre houve um bater do coração, um mergulho nas águas perante um livro novo. Comprá-lo, apagar-lhe o preço, levá-lo sofregamente para casa, arrumá-lo provisoriamente na mesa de cabeceira, folheá-lo encostando-o à insónia e ao sono, deixar que a areia se espalhe pelas suas páginas, tudo isto são gestos de um cerimonial que se repete mil vezes ao longo das nossas vidas. Da nossa língua vê-se o mar, escreveu um dia Vergílio Ferreira, alguém para quem a vertical do sol sobre o corpo leitor na areia foi sempre uma experiência de deslumbramento. Porquê abrir a janela de tantos textos que depois se fecham como todas as janelas? Porque todas as janelas se inscrevem no trabalho dos pintores. E para quê a areia que nos envolve? Para nos trazer a música dos barcos cantantes sem a qual não existe a literatura.
Na grande experiência da literatura podemos sublinhar três aspetos. Por um lado, não há escrita que não tenha a sua música, o seu fluxo de água incendiada, a sua corrente de escrita. Alguma da literatura que hoje se escreve opera no esquecimento deliberado deste princípio. É ele que faz que a interioridade de um texto seja ao mesmo tempo uma abertura para um exterior. mais do que uma relação com o não-texto, mais também do que uma janela junto ao mar, uma porta. Um dia Fiama Hasse Pais Brandão escreveu «O texto de Joan Zorro»: «Levando ao limite, homenagem, o gesto da escrita, posso atribuir os meus textos / a Joan Zorro. Existimos sobre o anterior. O movimento da escrita e da leitura / exerce-se a partir da menor mutabilidade aparente da pedra / e da maior mutabilidade da grafia. O progresso dos textos / é epigráfico. Lápide e versão, indistintamente».
Em segundo lugar, há uma relação da arte com o pensamento que vai além do tema do pensamento. Como escreveu um dos grandes poetas do século XX, Wallace Stevens: «A cor como um pensamento que cresce». Ou, se preferirem: a palavra como um pensamento que cresce. Quando dizemos «um pensamento», não estamos a falar em ideias, mas sim numa realidade sempre inesperada em que se vai até ao caos para criar o cosmos e o percurso exige uma reflexão obstinada: pensa-se em imagens, e essa é uma das grandes evoluções do nosso tempo da modernidade (daí a crise da teoria literária na sua forma tradicional), tal como se pensa em sons ou grafismos, ou sinais, ou gestos.
Num dos mais famosos fragmentos deste poema, «O homem da viola azul», escreve Wallace Stevens: «A poesia é o assunto do poema / Disto o poema surge e / A isto regressa. Entre os dois. / Entre surgir e regressar, há / uma ausência na realidade, / As coisas como são. Ou assim dizemos. / Mas são estas distintas? É / Uma ausência para o poema, que adquire / aí as suas verdadeiras aparências, o sol é verde / A nuvem é vermelha, a terra sentimento, o céu que pensa? Destes ele retira. Talvez dê. / Na permuta universal.»
Em terceiro lugar, a leitura é sempre uma experiência mágica, se for uma composição das palavras que crescem, daquelas que nos chegam do mar e a ele regressam. Ler, seja qual for a idade em que lemos, está ligado à infância. Esse extraordinário leitor, e também escritor, que é Alberto Manguel, propôs uma distinção: «Falas como um livro impresso, dizem eles. Que quer isto dizer? Trata-se de duas visões opostas da linguagem como instrumento de comunicação. Sabemos que a linguagem pode permitir ao falante permanecer à superfície da reflexão, pronunciando slogans dogmáticos e lugares comuns a preto e branco, transmitindo mensagens mais do que sentido, colocando o peso epistemológico sobre o auditor (como em 'estás ver o que eu quero dizer?'). Ou então pode-se tentar recriar uma experiência, dar forma a uma ideia e explorar em profundidade e não apenas à superfície a intuição de uma revelação». Se a diferença instituída por Alberto Manguel se revela inteiramente pertinente, há nela o excesso de um esquema de texto em que o conteúdo vai ao encontro da sua revelação, e talvez a palavra «comunicação» possa ser algo redutora. Falar em «dar uma forma a uma ideia» vai no sentido de uma literatura em que as ideias pré-existem às formas. Ora, em literatura, as ideias e as formas confundem-se numa matéria indefinível, num oceano sem nome, se há comunicação, é a comunicação desse momento em que a realidade passa por uma ausência que a torna real e faz que, numa evidência sem reserva, as coisas sejam apenas uma presença solar esplendorosa, aquilo que desde sempre são e que continuarão a ser, num país sem limites.
Existem sempre momentos que justificam todo o trabalho da escrita, toda a magia da leitura, toda a conjura das palavras. Encontros como o das «Correntes de Escrita» fazem parte de experiências desse tipo. Que regularmente um certo número de pessoas, empenhadas, envolvidas no enigma das palavras, venham até junto do mar para falarem, em momentos de gravidade e outros de sentido meramente lúdico, da literatura, corresponde a uma atitude de resistência que merece ser celebrada.
Porque é preciso resistir. Há algo de ingénuo, de militantismo romântico, de uma mistura insensata, nestas formas de associar a política e a arte, a transformação do mundo e os textos literários. Sobretudo (e voltamos aqui às categorias de Manguel) se não se trata de mensagens enviadas por instâncias políticas instituídas, mas de sons, ritmos, sentido nómada, música infinita.
Assistimos hoje a novas modalidades das práticas literárias. Na escola predomina um sentido sociológico dos textos, em que uma tipologia neutra situa a literatura entre textos científicos, jurídicos, publicitários, religiosos ou filosóficos. Não é que não haja um saber que se transporta e sustenta romances, peças de teatro ou poesia. É a dimensão de «mathesis» de que falava Roland Barthes. Mas este plano é apenas um suporte que preenche de conteúdos as palavras. Precisamos, em primeiro lugar, de afirmar e analisar a especificidade da literatura, embora haja perfeita consciência de que cada tipo de textos tem as suas marcas e mecanismos próprios. Mas devemos ir mais longe e mostrar que um texto linguístico não é apenas uma construção circunscrita de palavras, mas o lugar onde a linguagem se transforma no infinito de si própria: o oceano em que a leitura nos mergulha.
É verdade que este processo tem a sua lógica: ele conduz-nos a uma dessacralização da literatura que faz parte do movimento antirromântico que hoje nos domina. Queremos que a literatura recuse todas as formas de sublime, desviando-a do lugar de Deus. Queremos que a literatura desça à terra e se converta em caminhos pedregosos. Queremos que a literatura seja muito pouco poesia e quase prosa. Traçamos paisagens, contamos histórias, mas rejeitamos essa forma de utopia verbal que se abre no jogo vertiginoso das metáforas. É a metonímia que leva a melhor e vence o prélio que aceitamos jogar. O texto encosta-se a uma realidade que mantém o seu estatuto de construção social.
Aquilo que hoje se verifica nas escolas é a extrema dificuldade dos alunos chegarem à prática da leitura. Daí que quando entram na universidade encontremos uma queixa recorrente da parte dos professores: os alunos não sabem ler, não gostam de o fazer, não são capazes de inventar o sentido de uma frase, não a entendem, não sabem argumentar e acima de tudo não veem a frase como uma realidade significante, isto é, como uma matéria em que os sons, as cadências, a musicalidade produzem sentido e essa perspetiva estética que é o sentido do sentido.
Sejamos claros: não é possível ignorar que passámos da era simbólica para uma era predominantemente pragmática dos usos da linguagem. E falta pouco para a própria sociedade entrar num período pós-simbólico.
Houve um tempo (e pertenci ainda a esse tempo de deslumbramento) em que a literatura estava no centro de todas artes e a teoria literária dominava a reflexão de tipo semiótico. A literatura estava no centro do foco de energia interpretativa. Hoje as interpretações interpenetram-se, dialogam entre si e não existe propriamente um centro. Verificamos que a música ou o vídeo, o cinema ou as performances, as artes do corpo ou a land art, o teatro ou a dança, todas estas artes desenvolvem urna permutabilidade generalizada. Ao mesmo tempo, a teoria literária deixou de ser evidente e os estudos literários são hoje dominados pela pragmática da linguagem, a antropologia das formas semióticas, ou os estudos culturais (e aqui pelo feminismo, os estudos queer ou os trabalhos pós-coloniais, a sociologia, o estudo das marcas multiculturais ou as artes como relações de força). Isto desenvolve análises ideológicas em que o peso da política (vista numa perspetiva em que predomina a abstração) é considerável. E talvez pudéssemos arriscar que passámos do tema da linguagem para o tema do corpo, funcionando ambos como placas giratórias.
E há assim uma hierarquia de formas de aprendizagem da literacia: aprender a escrever mensagens no telemóvel, utilizando símbolos, abreviaturas e símbolos gráficos, tem aspetos significativos, mas não tão importantes como aprender a ver a televisão, a olhar a sério para um filme, a ouvir música erudita ou a utilizar a Internet. Aliás, a Internet é o grande armazenamento de informações e saber do nosso tempo, permitindo formas de escrita, correspondência cursiva, encontros e diálogos, práticas amorosas ou eróticas. Há hoje uma teoria do cibertexto. Como escreve um dos autores clássicos nesta matéria, Espen Aarsett*, «uma das principais conclusões do cibertexto é que as variações funcionais dentro de uma tecnologia de comunicação material são muitas vezes maiores do que entre os media físicos diferentes. Para os estudiosos dos media digitais, isto significa que há muito pouco a pressupor quanto ao medium só pelo facto de ele ser digital. Nesta perspetiva, as diferenças materiais dos media digitais (entre tipos de computador, resolução de ecrã, desenho ergonómico) são menos significativas do que as diferenças imateriais: como o sistema é programado e o que o programa faz na realidade».
Podemos assumir uma visão apocalíptica, podemos também aderir em termos de entusiasmo algo ingénuo. Não podemos é deixar de tomar consciência de todas as transformações que alteram o mundo do leitor e deslocam todas as realidades da comunicação e da produção de sentido.
Como recuperar o que foi a nossa literatura? De certo modo, ela continua a ser o que foi, o que se comprova neste encontro. Importante é utilizarmos as novas tecnologias da comunicação para dar força àquilo que foi a experiência da literatura como momento romântico. Sentado em frente do mar, estou dos dois lados do oceano: por um lado, sinto-me leitor, por outro sou o escritor que lê antes de escrever o que eu próprio escrevo. Sou, és, ele é, alguém que move o mar – o mar sempre recomeçado.

Crónicas, política e cultura / Eduardo Prado Coelho ; org. e nota introd. Margarida Lages. - 1ª ed. - Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2019. - 156, [2] p. ; 21 cm. - (Biblioteca Eduardo Prado Coelho). - ISBN 978-972-27-2753-2




DE CORPO PERDIDO

1. Regressando ao tema da leitura, gostaria de propor uma tese um pouco provocatória: mais do que ensinar a ler bem, ou ensinar a ler muito, o que é preciso é fazer que se desenvolvam e multipliquem os rituais de leitura. Por definição, estes rituais são inventados por cada sujeito à sua maneira. Não se trata de imitar, o que não faria sentido, mas de procurar que cada um sinta necessidade deles. E, neste plano, o que se pode transmitir são sobretudo exemplos.
Vou tentar explicar melhor. Para mim, ler não é só sentar-me, abrir um livro e juntar as letras até fazer sentido. Há muita coisa antes que é preciso contar. Há, por exemplo, a procura do livro. Várias hipóteses a considerar. Há um dia em que a gente acorda com vontade de ler Ernst Jünger. Nunca leu antes, não calhou, mas uma referência no jornal, uma alusão numa conferência e, pronto, sentimos que o mundo está incompleto se não tivermos, se possível, já nessa mesma noite, um livro de Jünger. Então saímos de casa, ao arrepio da mais elementar sensatez, desmarcando compromissos, defrontando a intempérie, calcorreando ruas, mas vamos impacientemente à procura do livro que se tornou imperioso e urgente. Pode acontecer que o encontremos, que acabemos por trazê-lo para casa, e, depois, por mero acaso, vamos dar connosco a ler uma novela antiga de Rodrigues Miguéis em que um homem sorri à vida com meia cara2. Mas isso já não importa. Foi importante o capricho. E que ninguém nos diga em tom de censura que foi um capricho.
Outra hipótese: quando, porque o chefe foi antipático no escritório, porque não tivemos a promoção que julgávamos merecer, sentimos de repente o desejo enorme de comprar um livro que desconhecemos por inteiro. É, como se tivéssemos um encontro marcado. Algures, numa livraria, por entre centenas de nomes conhecidos e já fatigados pela nossa memória, sabemos que existe necessariamente um poeta que nos espera e de que nós nada mais sabemos se não isto mesmo. Pode ser Gabriela Mistral3, Ovídio4, Stephen Spender5 ou Emily Dickinson6. Nada mais exaltante do que o alvoroço com que saímos do emprego, entramos esbaforidos na livraria, olhamos as estantes com ansiedade, começamos a folhear livros, a recolher versos desgarrados, palavras soltas, fragmentos de textos, na esperança inquebrantável de que, de súbito, iremos descobrir uma poesia que nos vai parecer decisiva, essencial, determinante no curso da nossa existência. Alguns leitores, mais perversos ou prudentes, criam mesmo o hábito de deixar certos autores de reserva, ou o romance de um autor de que se gosta muito, de modo a que se tenha quase a certeza (nunca se tem a certeza absoluta) de que um dia se irá ler um livro com imenso prazer. Isto, aliás, tem a ver com algo que, conforme as circunstâncias foram mais ou menos favoráveis, procurei promover intransigentemente: a ideia da biblioteca como «seguro de vida». Explico melhor, por motivos que não estou em condições de desfiar sensatamente, sempre entendi que a «minha» biblioteca só seria uma realidade tranquilizante se obedecesse à regra muito simples de conter sempre tantos livros quantos os livros que nela já li. Com isto fui conseguindo chegar àquele ponto já delirante em que, se por um fatídico acaso, deixasse hoje mesmo de poder comprar mais livros, tenho livros suficientes para ler — e reler — que dão para duas ou três vidas. Esta ideia dá-me uma paz dos sentidos e da alma que apenas pode encontrar comparação em algumas composições de Monteverdi7 ou Mozart.
Digamos as coisas de outra maneira: era necessário que a biblioteca que se foi tornando minha estabelecesse uma relação com algo que está para além do tempo da vida, como se ela se inclinasse silenciosamente para o momento em que a morte do mundo que toda a leitura é se convertesse numa imagem feliz da minha própria morte. Para isso era preciso que, ao olhar os livros que desafiadoramente me esperam, eu soubesse que entre eles há alguns que jamais chegarei a ler.
2. Temo que o leitor, ao atingir este delicado ponto da crónica que nesta semana lhe proponho, comece a colocar seriamente a questão de saber se o cronista terá definitivamente enlouquecido. Talvez. Mas o meu propósito não era enviar noticias da minha atual saúde mental. Era explicar que ler, no verdadeiro sentido do termo, na aceção apaixonada que temos de lhe dar, só pode ser uma atividade desmedida, insensata e irracional, feita de rituais. cerimónias íntimas, gestos destinados, cumplicidades incendiárias.
3. Um grande escritor francês, Pascal Quignard8, infelizmente pouco divulgado entre o público português, escreveu uma sequência de Petits traités9 que Maeght editou. No primeiro volume. o quinto tratado chama-se «Taciturio», e o sexto, «Página». Constituem dois dos mais belos textos que se podem encontrar sobre a leitura. Digamos que todos os professores que ensinam a ler deviam ensinar os pequenos gestos de loucura mansa que a leitura implica, e a disciplina mental que nos impõem os referidos tratados de Pascal Quignard. Uma verdadeira pedagogia teria de ser assim mesmo: alucinada.
Alucinada, repito. E inscrevo a palavra no sentido da luz que a atravessa. Porque toda a leitura implica uma concentração de luz, e a noite em redor. A noite ou o esquecimento, tanto faz. Quignard desenvolve, num outro livro precisamente intitulado Le Lecteur10, a ideia de que o leitor é aquele que desaparece servido pelo ato de ler. Na expressão de Quignard lê-se de corpo perdido — exatamente como se pode fazer uma coisa «de cabeça perdida». […]

Crónicas, política e cultura / Eduardo Prado Coelho ; org. e nota introd. Margarida Lages. - 1ª ed. - Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2019. - 156, [2] p. ; 21 cm. - (Biblioteca Eduardo Prado Coelho). - ISBN 978-972-27-2753-2
_________
1 Arsett (1965), investigador norueguês, especialista no estudo de videogames e literatura eletrónica. Dirige o Center for Computer Games Research, na Universidade de Copenhaga.
2 Referência ao livro de José Rodrigues Miguéis, Um homem sorri à morte com meia cara, Lisboa, Estampa, 1989. Este livro, de cariz autobiográfico, alude à estada de Miguéis nos Estados Unidos, quando sofre um problema de saúde muito grave.
3 Poeta, prémio Nobel da Literatura em 1945. De seu nome Lucila de Maria del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, foi diplomata e feminista chilena, tendo servido em Portugal.
4 Poeta romano (43 a. C, - 18 a. C.), conhecido sobretudo pelas suas obras Metamorfoses e Ars amatoria.
5 Sir Stephen Harold Spender (1909-1995). Além de poeta, foi romancista e ensaísta.
6 Uma das mais conhecidas poetisas americanas (1830-1886).
7 Claudio Giovanni Antonio Monteverdi (1567-1643) foi um compositor, maestro, cantor e gambista italiano.
8 Pascal Quignard (1948) é autor nomeadamente de Todas as manhãs do mundo, Vila Amália e Terraço em Roma.
9 A obra foi iniciada em 1977 e terminada em 1980. Recusada por inúmeros editores, apenas foi publicada em 1991. É composta por 8 volumes.
10 Editada pela Gallimard em 1976.

CRÓNICAS - POLÍTICA E CULTURA
Nota introdutória de Margarida Lages
Neste conjunto que agora se apresenta, estão reunidos alguns dos textos que demonstram a importância de pensar a cultura, e de como esta problemática atravessou praticamente toda a escrita de Eduardo Prado Coelho. São 33, mas poderiam ser muitos mais.
Ao longo do percurso de leitura que é proposto, não necessariamente cronológico, evidencia-se a noção de que para Eduardo Prado Coelho a cultura é um direito fundamental da vida humana, desenvolvendo e potenciando a possibilidade da informação, como motor da liberdade de escolha.
Ler hoje os textos de Eduardo Prado Coelho torna-se uma obrigação para pensar a política cultural, para entender que só se pode intervir numa realidade que se conhece.

* * *

CRÓNICAS - POLÍTICA E CULTURA
Prefácio de António Mega Ferreira

Se tivesse vivido na primeira metade do século passado, ou mesmo no final do século XIX, Eduardo Prado Coelho teria passado à posteridade como jornalista, tão contínua foi a sua presença nas páginas das principais publicações periódicas portuguesas ao longo da sua vida adulta. De facto, durante quatro décadas, de finais dos anos 1960, quando veio agitar as águas paradas da crítica periódica de cinema nas páginas do Diário de Lisboa, até aos seus últimos dias de vida, com assinatura diária no Público, o Eduardo nunca deixou de escrever para os jornais, fazendo-o com um delicado equilíbrio entre a intervenção político-cultural, sempre acutilante, e a crónica literária, sempre estimulante. Tornou-se, por isso, o intelectual português procedente do meio académico com mais frequente e descomplexada participação no espaço público, fazendo-o através de uma produção incessante destinada a ser veiculada através da imprensa escrita. E, seguramente, um dos de mais clara visibilidade mediática, ainda que a televisão nunca tenha sido o seu meio de comunicação preferido. Foi, além disso, professor universitário, responsável cultural da diplomacia portuguesa em França, escritor de diversa produção, conversador envolvente e cidadão envolvido na discussão da coisa pública, nas suas vertentes cultural e política. Os textos que aqui se reúnem são uma pequeníssima parte da sua produção, 33 entre centenas, cobrindo um período de tempo de duas décadas, a partir do início dos anos 1990.
António Mega Ferreira, no «Prefácio», que antecede Crónicas - Política e Cultura, de Eduardo Prado Coelho.


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Eduardo Prado Coelho in memoriam, coord. Fátima Ramos, Centro Cultural - Instituto Camões de Paris, 2020/02/08

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Eduardo Lourenço, por Eduardo Prado Coelho


Missão Impossível”, crónica de Eduardo Prado Coelho
para o suplemento Leituras do jornal Público. Sábado, 27 de maio de 1995, p. 12


O Crime Infinito”, crónica de Eduardo Prado Coelho
para o suplemento Leituras do jornal Público. Sábado, 3 de junho de 1995, p. 12

Sonhar Alto os Sonhos de Todos”, crónica de Eduardo Prado Coelho
para o suplemento Leituras do jornal Público. Sábado, 25 de maio de 1996, p. 12