terça-feira, 30 de junho de 2020

Variações da perda




A ANCIÃ DE LUTO

Percorre devagar a passadeira,
mais velha que este burgo medievo.
Chega de muito além, toda de negro.
O sol que brilha, as belas raparigas,
as cores da gente, o trânsito,
os plátanos do hotel adormecidos
supõem-lhe o pesado encargo
de transportar aos ombros
recordações alegres.
Por isso, os passos lentos,
por isso, o luto, estranhos
ao sol nos vidros e ao bulício urbano.
Parece vir cobrar alguma dívida,
sem pressa e sem olhar
quem espera nos carros que atravesse.
Não a vi afastar-se,
escondeu-se em qualquer esquina.
Os sinos talvez dobrem na distância
e, se eu medir a erosão dos anos
no espelho do meu carro,
dobrarão de certeza e mais de perto,
e a velha voltará o rosto para mim.


DEPREDAÇÃO
1
Rochedo por rochedo, a aprendizagem,
o polvo de entre as pedras,
o mexilhão, o arroz de lapas,
e depois a sardinha, o sol no cais,
as brasas, os pimentos, as peixeiras na rua.

2.
País de pescadores sem trabalho,
não tardará que venha a grande máquina
sorver o mar da costa
e nesse chão caótico apareça
a evidência dos que ajudaram
ao saque das cidades e à devastação
dos campos e do mar.

Nuno Dempster, Variações da Perda
Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2020


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Cântico Negro




Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.

José Régio






sábado, 13 de junho de 2020

A chave das coisas está no equívoco da idade.



ESCOLA

O que significa o rio,
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?

O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?

O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?

A linha envolve os objetos
com a nitidez abstrata
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;

e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.

A chave das coisas está
no equívoco da idade, na
sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.

Nuno Júdice, Meditação sobre ruínas.
Lisboa, Quetzal Editores, 1999.


A sugestão de que as etapas da vida ensinam e, o passar do tempo, traz um refinamento do olhar com a experiência do aprender, pode ser notada no poema “Escola”. Considera-se nesse título a multiplicidade de sentidos da palavra, uma vez que esta não se refere somente ao espaço escolar, mas também a um determinado método, estilo ou sistema, bem como remete a um tempo de conhecimento, de viver e aprender sobre as coisas, misturando assim os elementos tempo e espaço – lugar físico e de fala. Das seis estrofes que compõem o poema, as três primeiras são questionamentos – aparentemente de aspecto infantil, pelo menos a princípio, porém que se tornam difusos em sua objetividade [vv. 1 a 12]. […]
A semelhança com o narrar não se apresenta de forma clara nas essas três primei­ras estrofes de “Escola”. Essas destoam um pouco da predominância do estilo narra­tivo dos poemas judicianos, uma vez que não se sustentam em contar cenas, imagens concretas ou em experiências. Até então o tempo, no poema “Escola”, somente se marca por meio daquilo que escapa, fugidio, como o murmúrio dos lábios da terra nas manhãs, ao acordar. Ou ainda o desaparecer da cor das folhas e do dourado dos ramos, sugerindo um desgaste natural provocado pela ação do tempo. Contudo, es­pecialmente nas três últimas estrofes, esse estilo se destaca fortemente.
Mais do que a presença dos verbos no presente, o tempo é marcado pelas coisas que parecem perder a nitidez ao longo de uma trajetória. No espaço abstrato dos versos, há um desejo de que a poesia reflita sobre o que se perdeu ou o que foi es­quecido com o passar do tempo, “que a memória não guardou”, mas que, contudo, não se compreende de uma só maneira, uma vez que “a chave das coisas está / no equívoco da idade”. A percepção sobre as coisas, os fatos, a vida, vai se modificando com a idade, com o curso da vida, essa escola, que ensina, que faz aprender a partir das experiências.

“Marcas do tempo na poesia de Nuno Júdice”, Ivana Gund. Terra roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários. Volume 36 (dez. 2018) – 1-123 – ISSN 1678-2054. http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/terraroxa

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O QUE É AMAR UM PAÍS, Tolentino de Mendonça

Discurso de Tolentino de Mendonça na cerimónia das comemorações do Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, em 10 de Junho de 2020.




O QUE É AMAR UM PAÍS

Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (…) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.
É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.
Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança – mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.

Camões e a arte do desconfinamento
Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.
Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.

Que a crise nos encontre unidos
Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à Índia. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.
No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.
Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.

O que é amar um país
O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.
O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre – e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.
Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.

Reabilitar o pacto comunitário
O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.
É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.
Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.

Fortalecer o pacto intergeracional
Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.
A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.
Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.

Implementar um novo pacto ambiental
A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.

Uma viagem que fazemos juntos
Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem – e efetivamente são – corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim – explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade –, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.

Mosteiro dos Jerónimos, 10 de junho de 2020
Cardeal D. José Tolentino Mendonça
Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2020



(sublinhado nosso)

sábado, 30 de maio de 2020

Amar o perdido deixa confundido este coração (Drummond)



Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma, 1951




Drummond em quatro tempos

Amar o perdido

Ler um poema é deduzir referências que o poeta deixa implícitas ou que vamos suprindo por conta própria, como se junto de cada frase do poema houvesse um asterisco remetendo para uma nota ao pé da página – só que a nota está em branco, e cabe ao leitor preenchê-la. Tem um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece um dos mais simples, mas sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. É o poeminha “Memória” (em “Claro Enigma”), talvez um dos primeiros que li do poeta, pois aparecia manuscrito em fac-símile na Enciclopédia Delta-Larousse, que foi a Internet da minha infância. Diz o poema: “Amar o perdido / deixa confundido / este coração. // Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não. // As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão”.
Quatro estrofezinhas, cada uma com quinze sílabas métricas, numa cadência 5-5-5 cujo ritmo implacável é reforçado pelo “ão” com que se encerram. A estrofe inicial não tem mistério: “Amar o perdido deixa confundido este coração”. À primeira vista é o tema da perda da pessoa amada, um dos grandes lugares comuns da poesia lírica. Mas eu penso que CDA se refere a algo mais sutil: o amor que só brota após a perda. Como ocorre com a amante do poema “Caso do vestido” (em “A Rosa do Povo”), que confessa à mulher cujo marido roubou: “Eu não tinha amor por ele / ao depois amor pegou”. Ou então a fórmula que ele estabelece no poema “Perguntas” (também em “Claro enigma”), em que o Poeta vê um “fantasma” no espelho trazendo-lhe recordações da infância e dizendo-lhe, ao se despedir: “Amar, depois de perder”. O que talvez seja a versão drummondiana para outro lugar comum: “eu era feliz e não sabia”.
Amar o perdido confunde o coração do poeta porque insinua a possibilidade de que na verdade só amamos o que não temos. Nosso objeto preferencial de amor é o sonho, a utopia, o inalcançável – ou, mais realistamente, o ainda inalcançado. Somos todos Don Juans a quem a conquista fascina e a posse provoca o tédio. Ou então somos crianças freudianamente impelidas por pulsões de tal magnitude que nada as satisfaz, nem mesmo a conquista do objeto desejado. O desejo que não foi satisfeito hoje nunca poderá ser satisfeito amanhã, porque nesse caso estaremos satisfazendo apenas o desejo de amanhã. Basta ter desejado em vão por um minuto para continuar desejando por toda a Eternidade.
O verdadeiro desejo nunca é satisfeito, porque o que no fundo desejamos é um objeto total, um arquétipo platônico que funde em si todas as possibilidades daquele ser – e o que obtemos na vida real é o objeto real, com suas incompletudes e defeitos. É como desejar o Oceano e poder apenas encher as mãos em concha. Amamos o que é conquistado, mas amamos ainda mais o que não conquistamos, porque é um sonho que não se desvalorizou em realidade.

Nada pode o olvido

A segunda estrofe do poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (em “Claro Enigma”) diz: “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não”. É um poema sobre a perda amorosa, à primeira vista muito simples, mas a facilidade de Drummond é enganosa. Seu método criativo parece com o de Paul MacCartney, que dizia: “Eu pego uma idéia simples e vou complicando, vou complicando… Então, quando ela está bem complexa, eu começo a simplificar de novo”. É escusado dizer que a simplicidade que se obtém no final do processo é de caráter distinto da que o artista teve como ponto de partida.
Voltando ao poema, é preciso deixar claro que o poeta se refere ao Olvido, o Esquecimento. Já vi esse poema transcrito por aí com o absurdo erro de dizer: “Nada pode o ouvido…” É o típico caso da contaminação oral da pronúncia, agravado pelo fato de que, enquanto aqui no Nordeste a gente em geral pronuncia “ól-VI-do”, no Sudeste muita gente diz “ôl-VI-do”, o que ajuda a confundir.
Portanto, o Esquecimento nada pode contra o apelo absurdo, o apelo sem significado do Não. Eu sempre empanquei diante deste verso. Por mais que tente analisá-lo, nunca chego a fechar um resultado. É uma verdadeira dízima periódica poética, a gente pode continuar dividindo por todos os “século seculóro”, como diz o matuto, e nunca vai fechar a conta.
O Poeta parece estar dizendo que o Não (a negação, a impossibilidade, a proibição, a ausência, todos os correlatos dessa idéia básica) tem um apelo sem sentido. Esse “apelo” do Não não é uma imagem poética que me diga alguma coisa. Podia ser uma porção de coisas relativas ao Não, mas… apelo? Posso explicar racionalmente o uso dessa palavra, mas um verso, como uma piada, não é para ser explicado, é para ser apreendido num segundo. Se isto não acontece, de nada adianta explicar. O “apelo do Não”, portanto, é uma imagem poética que me entra por um ouvido e sai pelo outro.
Mas enfim – o Poeta nos garante que o apelo do Não existe, e que é algo contra o qual nada pode o Esquecimento, o Olvido. O Não impõe suas próprias regras às quais não podemos fugir, e à luz da primeira estrofe (“Amar o perdido deixa confundido este coração”) podemos aceitar que este Não se refere à perda, à ausência, à impossibilidade de ter ou de continuar tendo. E contra isto, nada pode o esquecimento. É inútil (ou é impossível) esquecer a perda, mesmo que ela seja sem sentido.
Analisar um poema desse jeito é uma coisa chata, que eu comparo com querer interpretar um quadro da Van Gogh analisando a composição química das tintas. A gente só deve fazê-lo quando o poema for opaco, quando a gente não estiver encaixando as frases, quando a conta não bater. Aí, vale parar e tentar ler o poema como se fosse a resolução de uma equação, onde cada linha é um resultado lógico de uma operação invisível que ocorreu na mente do autor entre uma linha e a seguinte.

As coisas tangíveis

A terceira estrofe do poema de Drummond, “Memória”, diz assim: “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão”. Sendo um poema sobre a perda amorosa, a primeira leitura destes versos refere-se à ausência – nossa mão, que antes sentia a presença de algo concreto, tocável, tangível, não a sente mais. Vejo uma sutileza curiosa no uso desta imagem da “palma da mão”. Porque me parece que o ato de tocar, experimentar, acariciar algo se dá primeiro pelas pontas dos dedos, que funcionam para nós como as antenas de alguns insetos. O tato que temos nas pontas dos dedos é muito mais refinado e mais reconhecedor de diferenças do que a palma da nossa mão. Por que a palma da mão? Porque ela serve, mais do que para tocar, para reter. Para estabelecer a posse. Na informalidade dos bate-papos amorosos vangloriamo-nos dizendo: “Fulana tá aqui, olha, na minha mão” – e estendemos a palma para reforçar. Se algo não pode mais ser sentido na palma da nossa mão, não nos pertence mais.
Essa imagem me lembra os versos de outro poema do mesmo livro (“Claro Enigma”), o belíssimo “Campo de Flores”, onde o poeta diz: “Seu grão de angústia amor já me oferece / na mão esquerda. / Enquanto a outra acaricia / os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o mistério que além faz os seres preciosos / à visão extasiada”. Esta imagem da mão acariciante me evoca os versos sensuais de Bob Dylan em “I Threw it All Away” (“Eu Joguei Tudo Fora”), canção de 1969: “Um dia eu tive montanhas na palma da minha mão / e rios que fluíam o dia inteiro…” E vejam com que delicadeza Drummond passa da mera posse física para a posse em seu sentido mais pleno, a posse da pessoa total e de tudo que ela inclui, ao dizer que a mão não acaricia apenas os “cabelos”, mas também a “voz”, o “passo”, a “arquitetura”…
E tem mais.  Observem o duplo sentido da palavra “insensível”.  Insensível é aquilo que não sente (“você é uma pessoa insensível”), e também aquilo que não pode ser sentido, imperceptível (“houve uma mudança insensível de temperatura”).  Portanto, as coisas que antes eram tocadas com as mãos já não são sentidas – nem sentem.  A ausência, como a presença, é um fenômeno recíproco. Tudo que toca é tocado. Toda mão que acaricia é também acariciada no mesmo gesto. E tudo que não podemos sentir também não nos sente.
É como a reciprocidade da dor, registrada em outro poema do mesmo livro, “A Um Varão, Que Acaba de Nascer”: “Este é de resto o mal / superior a todos: / a todos como a tudo / estamos presos. E / se tentas arrancar / o espinho de teu flanco, / a dor em ti rebate / a do espinho arrancado”. Quando a ausência se instaura, não existe mais sofrimento mútuo nem prazer mútuo: apenas a falta de contato entre duas “coisas” que, mesmo tangíveis, mesmo possíveis de alcançar com a mão, não se sentem mais uma à outra.

Mas as coisas findas

O poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (no livro “Claro Enigma”) se encerra com esta singela estrofezinha: “Mas as coisas findas / muito mais que lindas / estas ficarão”.  É uma estrofe perfeita, em todos os sentidos, para fechar este poema sobre a perda e a ausência. Como falei no primeiro comentário, o poema tem quatro estrofes, cada estrofe três linhas, cada linha cinco sílabas. A contagem das sílabas métricas varia de leitor para leitor; eu as leio assim: “Amar o perdido (2-3) / deixa confundido (1-4) / este coração (1-4). // Nada pode o olvido (3-2) / contra o sem sentido (1-4) / apelo do Não (2-3). // As coisas tangíveis (2-3) / tornam-se insensíveis (1-4) / à palma da mão (2-3). // Mas as coisas findas (3-2) / muito mais que lindas (3-2) / essas ficarão (3-2).” A leitura métrica da última linha (que teoricamente seria 1-4, “es – sasficarão”) vira “essasfi-carão”, claramente influenciada pela das duas linhas anteriores, o que não ocorre com a última linha da segunda estrofe, quando isto forçaria um cacófato (“apelu-donão”).
É um poema minúsculo e de grande simetria, mesmo admitindo as variações de ritmo descritas acima. A simetria é reforçada pela reiteração de rimas toantes centradas na vogal “I” nas linhas 1 e 2 de cada estrofe, e na sonoríssima rima em “ÃO” nas terceiras linhas. (Se eu fosse escrever um Decálogo para jovens poetas eu incluiria: “Economize a rima em “ÃO”, a qual, como as armas de fogo, só deve ser usada em casos de absoluta necessidade”).
O poeta fala da perda daquilo que foi amado, mas se consola dizendo que existe algo mais importante do que as coisas lindas: são as coisas findas. “Findas” significa encerradas, terminadas.  As coisas que acabaram, ficarão. Vejam que belo paradoxo!  Nossa sensação intuitiva é de que se essas coisas se acabaram, não ficaram. Drummond sugere o contrário. As coisas findas ficarão porque provavelmente se cristalizaram, despregaram-se da realidade (que é fluxo, transformação, incerteza) e tornaram-se Forma, Idéia – tornaram-se Memória. Vejam com que segurança o poeta usa este termo no futuro, “ficarão”. Me lembra o que disse Mário Quintana: “Esses que aí estão / atravancando meu caminho / eles passarão / eu passarinho”. É como se dissesse: “eles passarão, eu ficarei”.
Que passarinho é este que fica? Maldo eu que seja o rouxinol cantado celebremente pelo inglês John Keats, no poema “Ode To a Nightingale”, que examino no capítulo “S” do meu “ABC de Ariano Suassuna” (e que examinei em maior detalhe nesta coluna: “A eternidade dos pássaros”, 8.9.2004). É o pássaro imortal que canta o mesmo canto por toda a eternidade. É a memória, que preserva em seu âmbar as coisas findas. Que na ficção científica foi assim definida por Frank Herbert (“Duna”): “Arrakis ensina a mentalidade da faca: cortar aquilo que está incompleto e dizer – Agora está completo porque termina aqui”.
 

QUESTIONÁRIOS

O tema do poema “Memória" de Carlos Drummond de Andrade é
(A) o sentimento de que as melhores lembranças da vida permanecerão.
(B) a saudade dos tempos em que tudo era mais fácil de amar.
(C) o desejo de retornar aos antigos amores do passado.
(D) o pedido para que o coração não se confunda.
(E) a vontade de encontrar amores perdidos.
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1) Uma das características da poesia de Drummond é que ela passa por diversas fases, indo de textos mais convencionais a outros mais experimentais. Sobre a estrutura poética de “Memória”, é correto afirmar:
(A) Cada uma das quatro estrofes apresenta três versos e cada um deles apresenta cinco sílabas poéticas.
(B) Cada uma das quatro estrofes apresenta três versos e cada um deles apresenta um número de sílabas poéticas diferente do anterior.
(C) O poema apresenta estrofes irregulares e versos com cinco sílabas poéticas cada.
(D) É possível contar as estrofes, mas não é possível fazer a contagem das sílabas poéticas.
(E) A organização dos versos e das estrofes não importa para a construção do sentido poético.

2) Reconhece-se em “Memória”:
(A) utilização de versos livres e brancos, sem rimas.
(B) as rimas mudam a cada estrofe, rompendo com a musicalidade poética.
(C) rígido esquema rítmico, marcado por a/a/b.
(D) a repetição do som “ão” não importa para os sentidos construídos pelo poema.
(E) as rimas no poema são acidentais e não obedecem a nenhum tipo de regra.

3) A primeira estrofe permite inferir que:
(A) as experiências amorosas significam aprendizado.
(B) os sentimentos não obedecem à razão, mas a impulsos incontroláveis.
(C) não se ama o que se possui, mas apenas o que não se tem.
(D) o sentimento repousa sobre a razão do coração.
(E) amar o que não se possui gera inquietação e tensão.

4) O termo “olvido” (segunda estrofe) significa:
(A) ouvido.
(B) sentido.
(C) lembrança.
(D) esquecimento.
(E) riqueza.

5) Pode-se depreender da segunda estrofe:
(A) O “Não” significa o consolo do eu-lírico diante do amor perdido.
(B) O “apelo do Não” se refere à perda do ser amado.
(C) É possível esquecer o amor perdido.
(D) O “apelo do Não” significa a superação da perda.
(E) Não há sentido em amar, porque a perda do que se ama é inevitável.

6) Segundo o contexto, “As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão”, quando:
(A) esquece-se de um amor.
(B) ama-se o que foi perdido.
(C) nega-se o objeto amoroso.
(D) confunde-se a razão, pela perda da possibilidade de amar.
(E) aceita-se a vida e as suas perdas.

7) A última estrofe, em diálogo com o texto como um todo, permite afirmar que:
(A) as coisas terminam definitivamente, mesmo se lindas.
(B) tudo na vida é passageiro e termina, mesmo quando parece eterno.
(C) as coisas que acabam são as coisas lindas.
(D) as coisas lindas permanecem, mesmo quando parecem ter terminado.
(E) as coisas lindas estão predestinadas a acabarem.

8) O autor do poema é estudado em qual das escolas literárias?
(A) Simbolismo
(B) Romantismo
(C) Modernismo
(D) Arcadismo
(E) Barroco

9) Carlos Drummond de Andrade é contemporâneo a:
(A) Manuel Bandeira
(B) Cruz e Sousa
(C) Gonçalves Dias
(D) Machado de Assis
(E) Padre Anchieta

10) O poema, lido em diálogo com seu título “Memória”, sugere que:
(A) a fé em alguma religião permite que se conceba a eternidade.
(B) tudo o que existe perde seu valor com a passagem do tempo.
(C) as coisas se desmancham e definham rapidamente no dia-a-dia.
(D) a memória guarda mais momentos ruins do que bons.
(E) a memória eterniza as belezas da vida.

11). O uso de “este” antes de “coração” (terceiro verso) posiciona o substantivo com relação ao eu-lírico. Essa condição é garantida pela classe gramatical conhecida por:
(A) pronome indefinido.
(B) pronome pessoal.
(C) pronome demonstrativo.
(D) conjunção.
(E) numeral.

12) Dentro do contexto em que se apresenta, o “Não”, tradicionalmente conhecido por ser um advérbio de negação, é classificado como:
(A) adjetivo
(B) pronome demonstrativo
(C) pronome indefinido
(D) interjeição
(E) substantivo

13) O uso do pronome pessoal do caso oblíquo em “tornam-se insensíveis” contribui para a construção da:
(A) voz reflexiva
(B) voz ativa
(C) voz passiva sintética
(D) voz passiva analítica
(E) voz ativa e passiva

14) A última estrofe se opõe aos sentidos construídos pelas estrofes anteriores. Essa oposição de significados é explicitada no uso do conectivo “Mas”, classificado sintaticamente como:
(A) conjunção coordenativa aditiva.
(B) conjunção coordenativa alternativa.
(C) conjunção subordinativa adverbial condicional.
(D) conjunção coordenativa adversativa.
(E) conjunção coordenativa conclusiva.

Centro Universitário da FEI, Vestibular 2º/2012

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Considerando o poema “Memória” e o livro Claro Enigma, assinale a alternativa correta.

a. Apesar de possibilitar uma leitura fluida e ritmada, “Memória” aborda a temática da transitoriedade, opondo aquilo que é claro ao que é enigmático, procedimento característico dessa fase da poesia de Drummond.

b. Ao contrário de grande parte dos poemas de Claro enigma, que exploram as formas poéticas clássicas, “Memória” retoma a estética do primeiro modernismo, tanto pelos versos livres como pelo humor.

c. A confusão a que o poeta se refere relaciona-se à temática predominante em Claro enigma, elemento responsável pela diferenciação entre essa obra e as anteriormente publicadas por Drummond: a temática amorosa.

d. A oposição entre “coisas tangíveis” e “coisas findas” exemplifica o caráter religioso presente na poesia de Drummond desde sua estreia, em 1930, até os livros publicados postumamente.

e. Por se tratar de um soneto, a estrofe final resume a ideia central do poema: aquilo que já acabou pode se tornar belo mesmo que escape à memória, pois só a morte dá sentido à existência humana.


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Sobre esse texto, é correto dizer que

a) a passagem do tempo acaba por apagar da memória praticamente todas as lembranças humanas; quase nada permanece.
b) a memória de cada pessoa é marcada exclusivamente por aqueles fatos de grande impacto emocional; tudo o mais se perde.
c) a passagem do tempo apaga muitas coisas, mas a memória afetiva registra as coisas que emocionalmente têm importância; essas permanecem.
d) a passagem do tempo atinge as lembranças humanas da mesma forma que envelhece e destrói o mundo material; nada permanece.
e) o homem não tem alternativa contra a passagem do tempo, pois o tempo apaga tudo; a memória nada pode; tudo se perde.

(Ita 2005)