domingo, 29 de março de 2020

Mécia de Sena

Mécia de Sena fotografada por Fernando Lemos na coleção do Museu Calouste Gulbenkian


Nas terras de além do mar
está meu Amor assentado.
Seus olhos fitam a noite,
Seu seio sobressaltado
respira em brandos soluços
nas cartas que está escrevendo
o meu silêncio de ausente,
de distante e de presente
no corpo que se torcendo
está de saudades de mim.

Oh meu amor, minha amada

Meus ouvidos, minha fala.

Jorge de Sena
Poema dedicado a Mécia de Sena, Rio de Janeiro, 22/8/1959.


Como quando indiscreto às coisas me insinuo
e de infinito amor lhes dou sentido
que de mim próprio é voz: precisão
de ser um ser que sendo as reconhece,
me vejo ambíguo e distraído e firme
na vã presciência que, rememorada,
é como um estar por sempre ininterrupto,
aliciando humanamente as coisas.

Mas, meu Amor, por ti tudo contemplo.
Por ti penetro como em ti em tudo
E torno realidade este fortuito
Encontro permanente de que vivo.
Mas em ti vivo. E mesmo noutro mundo
Eu te criara neste e às minhas coisas.

Jorge de Sena
Poema dedicado a Mécia de Sena, carta do Rio de Janeiro, de 03/10/1959



Bahia, 5.ª feira, 13/8/59
Minha querida Mécia, meu Amor
Faz hoje uma semana que parti, e curiosamente (acabo de olhar para o relógio) pego da caneta para te escrever quando, com as 4 horas de diferença (são 6 da tarde), a semana se cumpre exactamente. Semana vertiginosa de despaisamento, de tropicalismo, de trabalho insano desde que à Bahia cheguei (passei a tarde inteira fechado no quarto a preparar o relato da tese do Casais, para amanhã pela manhã, que tinha de ser feito agora, pois logo à noite vou ver a Cacilda Becker na Maria Stuart). É noite. Por entre nuvens, um crepúsculo vermelho que sumiu rápido atrás da imensa ilha de Itaparica que está aqui defronte dentro desta baía sem limites de que a cidade é uma parte mínima. A minha tristeza é imensa. As únicas notícias tuas que até hoje recebi são as que a mulher do Cidade me deu. Só quando estou totalmente exausto te não tenho escrito todos os dias as cartas ou partes de cartas que terás recebido, meu Amor. O Urbano levará esta, e por isso nela nada conto de especial senão o ar livre que se respira aqui e sem ti respiro, a amargura de não ter-te a meu lado nesta paz sem limites de uma noite quente e serena, em que saberia bem suarmos juntos. Isto é muito belo, de uma força tropical que se intromete nas ruas, e creio que poderíamos ser aqui, meu Amor e minha Vida, incrivelmente felizes. Assim, nem sei que possa dizer-te, roído de saudades, sem ouvir nas tuas cartas a tua voz e o teu conselho que são o meu arrimo e a minha consciência, inquieta a todo o instante por uma falta de notícias, que, comunicada, não aflige ninguém, de habituados que estão à fantasia destes correios de cá, em que um telegrama a avisar de uma chegada 3 dias antes, chega depois do avião em que o sujeito vem (aconteceu ao Pedro de Andrade ao ir daqui ao Rio, antes de eu chegar). Depois, com a ida dos Lourenços para a Europa, estou a ver que a minha tortura só terá alívio no Rio, se entretanto carta tua tiver chegado às mãos do António Pedro Rodrigues (aí, como o correio é directo, levará menos tempo a chegar, presumo). O Casais tem sido muito amigo, e abriu-se comigo, e creio que fui injusto na alucinação dos primeiros dias que não comunicarás a ninguém, de perigosa que é.Mas nada disto importa, senão o silêncio que me rodeia. Eu sei que estás sempre comigo, não só porque és a minha própria alma, como por teres o dom de invisível estares a meu lado sempre em toda a parte. Esse invisível, porém, me assusta. A tua presença, o teu calor, o teu afecto, o teu infinito amor de que os nossos filhos são, graças a Deus, a expressão viva, preciso de tudo isso agarrado a mim, colado a mim, na tua boca, nos teus olhos, no teu corpo que é o mais belo poço de ternura que jamais houve no mundo. Como se é injusto humanamente! Como pode ignorar-se e como só é de um e não poderia ser de mais ninguém (pois não seria assim, nem seria sequer) um tesouro maravilhoso como é a tua pessoa, meu Amor! Eu não tenho desejos senão de ti, e tudo o mais não conta, nem importa. Querida Mécia – é incrível que estejamos separados!
Até ao Rio, não desisto de resolver este problema – o da glória infinita do teu coração batendo ao pé de mim, em mim, e para mim, dos olhos às pontas dos dedos. Meu Amor, estou cansado da vida, tão cansado de ver-te sem paz, acabrunhada de trabalho e de aflições, num buraco sem horizontes como é a nossa vida. Mas nela brilha «uma pequenina luz», a luz do teu amor – como ninguém entendeu que não há mais luzes, que toda a minha «fidelidade» é a ti? Beijo-te com uma profunda saudade, abraço-te com uma dorida ternura, e não me distraio um só momento da tua imagem tutelar, que beijo, beijo, beijo.
Teu do coração
Jorge

Carta de Jorge de Sena a Mécia de Sena. Bahia, 13-08-1959

***
Lx., 14/8/59
Meu amor, meu querido Jorge
Faz amanhã oito dias que chegaste à Bahia e ainda de lá não tive notícias tuas. É esta a última carta que te escrevo para aí e possivelmente a última que te escrevo mesmo pois não sei se vais ou não a S. Paulo e ao Rio e ao cuidado de quem, para lá, te poderei escrever.
É horroroso estar assim sem notícias tuas. Fico sem ter que dizer, e, contudo, levo o dia angustiada. Eu sei que me tens escrito todos os dias mas esses correios malditos levam séculos e quase teremos que dar uma velinha a S. António se acabam por chegar mesmo.
Ontem um incêndio destruiu totalmente a igreja de S. Domingos. Se ao menos aproveitassem a oportunidade para acabar com aquela garganta e ligassem o Rossio a Martim Moniz, não era nada mau. Mas se calhar vão pôr ali um mastronço qualquer ou fazer uma estúpida reconstituição. À noite a convite da Maria Lamas, fui ao Restelo ver a «Grande Estrela Azul». Uma coisa italiana bem feita, sem concessões de happy end mas muito lenta de acção, com interpretações boas mas não excepcionais. Uma coisa um pouco deprimente ou o meu estado de espírito é que anda deprimido.
De resto tenho andado sempre tão próxima do limite nervoso que por vezes não sei como me aguento.
Ontem veio a Revista do Livro, por sinal três exemplares do n.º 13. Calculo que um exemplar seja para dar à Sophia com quem já falei pois vem uma extensa crítica aos livros dela, do Fern. [Fernando] Mendes Viana. Diz bem, diz mal, diz muitas coisas acertadas, outras que não concordo, mas é sempre agradável uma pessoa que leu e releu cuidadosamente tudo o que está cheio de vontade de acertar. E vai dizendo que a Sophia69 é um dos grandes da língua portuguesa, actualmente.
O correio nada trouxe digno de menção: uns recortes, a Vértice, não sei se mais alguma coisa. Tanta curiosidade tenho em relação ao Colóquio e nada saberei, naturalmente, tão cedo.
Tenho-me visto um pouco atrapalhada com a Literatura Inglesa por causa de me teres levado o livro. Ontem tive mesmo de escrever ao Rogério para esclarecer uma dúvida.
Ando tão esgotada que só me apetecia ir para onde não visse gente. A condição humana começa a enjoar-me só porque o é, independentemente do mais que é ou não é. Tanta abjecção, tanta, luta, tanta torpeza, e ao fim e ao cabo para nada.
Se minha mãe tivesse pensado alguma vez cinco minutos em que a vida acaba em vez de viver no pavor do fim; se em vez de pensar nas gratidões aos filhos tivesse pensado na minha vida, nada disto seria, ou pelo menos tudo poderia estar simplificado, mas não, as bondades, as gratidões, as delicadezas, os subterfúgios para se não encarar a realidade da vida, e a resultante de terem outros que enfrentar realidades muito piores. – Que heresia pareceria isto às almas delicadas que fazem dos mortos múmias da perfeição, em vez de já não vivos! E contudo nada tem que ver com a saudade que as pessoas deixam, com a veneração que se lhes tribute, com o respeito que se dedique à memória. E tu sabes bem que irreparável vazio fez minha mãe na minha vida e quanto a dor de a ter perdido é ainda viva e quanto a tento iludir com a distância que por vezes tento pensar que é a normal e não a definitiva.
Perdoa, meu querido Jorge. Quando estás comigo até a dor dos que a minha estima perdeu é mais suave, mas quando estás longe tudo é negro, tenebroso. Nunca fiquei tão só e ainda por cima tão sem notícias e depois… com o pavor dos desastres que era uma coisa que não tinha, no dolce far niente em que vivia de que só aconteceria aos outros e agora me parece que é a mim que tudo vai acontecer.
Terei ainda hoje notícias tuas? Manda-as por toda a gente que venha antes de ti. O Adriano telefonou a saber se já tinhas escrito e manda-te um abraço. O Dr. Lá foi hoje para Bruxelas e Paris com a Maria. Sinto-me insuportavelmente só, meu amor. Beijo-te, beijo-te cheia de saudades e de amor.
Tua sempre
Mécia

Carta de Mécia de Sena a Jorge de Sena. Lisboa., 14/08/1959
Fonte: Correspondência. Jorge de Sena e Mécia de Sena «Vita Nuova» (Brasil, 1959-1965), Maria Otília Pereira Lage (org.). Coedição de  CITCEM, FLUP e Edições Afrontamento, março de 2013.


    Dimensões analíticas na correspondência de Mécia com Jorge de Sena

Numa primeira aproximação geral a características evidentes desta correspondência salienta-se que a mesma:
a) Ilustra, impressiva e expressivamente, numa memória viva de sua época e em diferentes períodos históricos, traços singulares biográficos, identidades intelectuais e facetas marcantes da cultura portuguesa contemporânea de que os correspondentes são personalidades destacadas;
b) Apresenta um pendor simultaneamente histórico (documental e vivencial) e epistolar literário, inscrevendo-se em e enriquecendo a significativa tradição epistolográfica portuguesa;
c) Representa uma componente fundamental do espólio literário seniano, cuja constituição ilumina, documentando ainda momentos importantes do processo de produção histórica e social da intensa e polifacetada obra literária e ensaística de Jorge de Sena, um dos nomes maiores da nossa literatura contemporânea;
d) Atravessada por um manancial de experiências individuais, pessoais e sociais, minuciosamente registadas, nela se evidencia claramente uma vasta e densa rede de relações literárias, culturais e sociais, amizades e afectos, mútuas e recíprocas paixões, como a literatura, a música, a edição, a tradução, e outras formas de expressão intelectual. Só esta dimensão em si própria, altamente promissora, exigiria não só um enquadramento analítico e metodológico, adequado à sua complexidade, plural e transversalmente consistente, mas sobretudo e ainda uma linha de investigação específica no quadro inclusive da fecunda teoria sociológica «actores-redes» a desenvolver em projecto próprio e autónomo, por equipa pluridisciplinar.

Um primeiro estudo panorâmico empreendido na linha das perspectivas traçadas permite destacar desde logo as seguintes dimensões de relevância analítica, outras tantas hipóteses de interpretação a ter em conta:
a) Sendo já incontestável que a obra literária seniana (e mais especificamente a sua poesia), é acentuadamente «testemunhal», no sentido em que exprime as transformações da experiência da vida e da escrita, tal característica confere à sua correspondência uma relação intrínseca com a produção social e histórica da sua própria obra;
b) Nessa medida, as constantes cartas trocadas com inúmeros e destacados interlocutores, em que as cartas para Mécia assumem destaque particular, constituem um dispositivo maquínico de escrita;
c) Por outro lado, tal correspondência configura-se, ao nível dos seus conteúdos, como um prodigioso repositório de referências políticas, económicas, sociais e culturais e também como um autêntico diário ininterrupto escrito a quatro mãos em reciprocidade permanente, ao nível do fluxo de escrita e comunicacional, em que se torna evidente o «tudo dizer» próprio do modo de ser da literatura;
d) Para além da constante presença do amor, da paixão humana e do corpo-escrita densamente impregnados de erotismo e sexualidade, evidencia ainda esta correspondência que Jorge e Mécia viviam como se houvesse entre ambos um pacto de viver um para o outro e um pelo outro (o que aliás era notado em conversas entre amigos em que cada um parecia estar a adivinhar o que o outro ia dizer, adiantando-se-lhe por vezes e completando-se, outras);
e) Por sua vez, a escrita epistolar de Mécia de Sena é marcada por três grandes linhas de força: o uso evidente de uma linguagem etnograficamente ancorada, rés à vox populi; um estilo de prosa pragmática sem deixar de ser literária que evoca ora a limpidez poética de Cesário Verde, ora a escrita ficcional do quotidiano de Irene Lisboa; e ainda a expressão do exercício da paixão onde o esplendor dos corpos e do desejo se manifestam em toda a sua genuinidade.

Ler mais em: Mécia de Sena e a escrita epistolar com Jorge de Sena: para a história da Cultura portuguesa contemporânea, Maria Otília Pereira Lage (org.). Coedição de  CITCEM, FLUP e Edições Afrontamento, dezembro de 2015.




  Um – ao cabo da terra
  Outro – para além dela
  Ambos – a dimensão do homem
  E de uma estrela.

Poema de Veiga Leitão dedicado a Mécia de Sena e a Jorge de Sena e transcrito por Mécia de Sena em carta para Jorge de Sena enviada de Assis, a 11 de janeiro de 1960


Morreu Mécia de Sena, escritora e guardiã do “para sempre” que a ligou a Jorge de Sena

Mécia de Sena, morreu aos 100 anos em Los Angeles.

A escritora portuguesa Mécia de Sena, viúva do escritor Jorge de Sena e organizadora da sua obra, morreu, no sábado, em Los Angeles, nos Estados Unidos da América, aos 100 anos, disse à agência Lusa fonte da família.
“Mécia de Sena, a viúva de Jorge de Sena, faleceu esta manhã, 28 de Março, em Los Angeles, Califórnia. A família pede a amigos e conhecidos que respeitem a sua privacidade, neste triste momento”, lê-se na mensagem de um dos seus filhos.
Nascida em Leça da Palmeira, em 16 de Março de 1920, Mécia de Freitas Lopes Sena era filha do músico e compositor Armando Leça, investigador do “Cancioneiro Musical Popular Português”, e irmã do professor, crítico e historiador Óscar Lopes (1917-2013). Formada em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, detentora do curso do Conservatório de Música do Porto, foi professora, primeiro, e, depois do casamento, em 1949, "colaboradora literária” de Jorge de Sena, e “à altura dele”.
A opinião é do próprio escritor, para quem, “sem o [seu] apoio, não teria sido possível realizar talvez metade do que realizou, quer como autor, quer como professor”, recordou Rui Silvino de Freitas Lopes, na sua crónica familiar, citada pela investigadora Maria Otília Pereira Lage, na obra “Mécia de Sena e a escrita epistolar com Jorge de Sena: Para a história da cultura portuguesa contemporânea”.
As cartas e a escrita de natureza diarística marcam a produção literária de Mécia de Sena, nomeadamente a obra inédita “Flashes”, que Otília Pereira Lage evoca como exemplo de literatura intimista e de expressão “micro-textual”, predominantemente sob “a forma de um diálogo continuado [com Jorge de Sena], que a morte deixara em suspenso”.
A investigadora destaca igualmente “a modernidade” da produção literária de Mécia de Sena, estabelecendo “uma relação possível com a prática de escrita de diários de outros autores”, como Miguel Torga.
“Uma mulher ímpar, corajosamente à altura dos imensos desafios de uma vida intensa, que atravessa as mudanças sociais, políticas e culturais de grande parte do século XX, quer em Portugal, quer no seu longo exílio no Brasil [1959-1965] e nos Estados Unidos da América”, onde se fixou com o marido, após o golpe militar de 1964, que deu origem a 20 anos de ditadura brasileira.
Mécia de Sena casou-se com Jorge de Sena quando este era um engenheiro civil da Junta Autónoma de Estradas (1948-1959). Partiu com ele para o exílio, quando a ditadura do Estado Novo os cercou. Fixaram-se no Brasil, onde o escritor ensinou Literatura, e de onde partiu para a Universidade do Wisconsin, em Madison, nos Estados Unidos, antes de se fixar em Santa Barbara, Califórnia, onde foi catedrático de Literatura Comparada.
A morte precoce de Jorge de Sena, em 1978, aos 59 anos, abriu “um terceiro período na vida de Mécia de Sena”, deixando-lhe em mãos “uma quantidade monumental de projectos não realizados [do escritor], toneladas (...) de manuscritos, propósitos de livros de prosa e versos, correspondência”, segundo Rui Silvino de Freitas Lopes.
A partir de então, Mécia de Sena assumiu a organização, documentação e edição do espólio literário do autor de “Sinais de Fogo”, assim como a promoção e revelação da sua obra, da sua real dimensão, com a preocupação de concretizar “todos os sonhos que eram os do marido”, segundo o irmão da escritora.
Todos os títulos surgidos desde então, tiveram Mécia de Sena na origem. “A obra dele é imensa”, disse a escritora numa carta dirigida em 1991 ao jornal Público, na qual confessava fazer “esforços inauditos para que [seu] marido [fosse] honestamente publicado”.
“Isto tudo que nos Rodeia”, volume editado pela Imprensa Nacional, em 1982, revelou as cartas de amor de ambos. E inaugurou também um segmento determinante na obra de Jorge de Sena, a escrita epistolar, que atravessou grande parte do século e se cruzou com figuras do meio literário português como Sophia de Mello Breyner Andresen, João Gaspar Simões, José Régio, Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, José-Augusto França, Delfim Santos e António Ramos Rosa.
“Jorge de Sena: bio-bibliografia”, em coedição com Isabel de Sena, “Correspondência Jorge de Sena e Mécia de Sena “Vita Nuova"” são outros volumes em que o diálogo de ambos se cruza. Mas foi no primeiro, nesse que dimensionava “isto tudo que nos rodeia”, que Mécia de Sena viria a revelar o seu primeiro encontro com o escritor.
“Entre os vários rapazes com quem dancei, houve um que fora totalmente desconhecido. À despedida, perguntara-me o meu nome. Meses depois, cruzámo-nos numa conferência (...). Passados outros meses, encontrámo-nos num recital (...). Disse-me que também escrevia poemas (...). O nosso conhecimento mútuo a bem dizer nem se iniciara e iria fazer-se através de correspondência que se lhe seguiu”.
A rejeição do “caminho mais fácil” entre ambos, “deu lugar a uma confiança e uma identificação que dificilmente poderão ter paralelo”, escreveu então Mécia de Sena. “Não sem agruras e com algumas duras provas, ambas resistiram durante quase 30 anos, afinal o nosso “para sempre” dignamente cumprido”.
Este domingo, o Presidente da República lamentou a morte da escritora portuguesa. "Comemorámos no ano passado o centenário do nascimento de Jorge de Sena, um dos grandes escritores portugueses, e agora despedimo-nos de Mécia de Sena, sua mulher, que tinha há pouco completado 100 anos”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa numa nota hoje publicada no portal da Presidência da República.
“Nascida num meio culto do Porto, filha de Armando Leça, irmã de Óscar Lopes, Mécia de Sena cursou Histórico-Filosóficas e casou-se em 1949 com Jorge de Sena, que acompanharia no exílio brasileiro e depois americano, com quem teria nove filhos, e de quem seria a mais zelosa colaboradora e mais tarde herdeira literária, editando numerosos livros inéditos, colectâneas de textos, antologias, volumes de correspondência, um colosso bibliográfico que dá ao mesmo tempo conta do génio omnívoro de Jorge de Sena e da devoção de décadas de Mécia de Sena”, refere o chefe de Estado na mesma nota.


Ligações externas

Correspondência(s) Mécia/Jorge de Sena (Evocação de Carrazeda, Anos 40), Maria Otília Pereira Lage. Guimarães, Universidade do Minho, 2007.
Correspondência. Jorge de Sena e Mécia de Sena «Vita Nuova» (Brasil, 1959-1965), Maria Otília Pereira Lage (org.). Coedição de  CITCEM, FLUP e Edições Afrontamento, março de 2013.
Mécia de Sena e a escrita epistolar com Jorge de Sena: para a história da Cultura portuguesa contemporânea, Maria Otília Pereira Lage (org.). Coedição de  CITCEM, FLUP e Edições Afrontamento, dezembro de 2015.
Redes Sociais e epistolografia: correspondência entre Jorge de Sena e Mécia de Sena (século XX)”, Maria Otília Pereira Lage. CEM Cultura, Espaço & Memória, n.º 8, revista editada pelo CITCEM, em 2017.
O essencial sobre Jorge de Sena, Jorge Fazenda Lourenço. 2.ª edição revista e aumentada, INCM, 2019
LUSOFONIA Plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/

segunda-feira, 23 de março de 2020

Eu quero amar, amar perdidamente!

Florbela Espanca





Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, Charneca em Flor, 1931

***


“Amar”, de Florbela Espanca  |  Paráfrase do soneto, por José Junior
No primeiro quarteto, uma voz poética manifesta o desejo de amar, e quer fazê-lo plenamente, não importando compromissos, o lugar, os parceiros, deixando clara sua opção pelo amor livre, o que inclui deixar de amar segundo sua vontade.
No segundo quarteto, essa mesma voz recusa as hipóteses de apego à pessoa amada e nega a possibilidade de amor para a vida inteira.
No primeiro terceto, apresenta-se a efemeridade da vida, com sua única primavera, sendo necessário cantar essa estação com a voz dada por Deus para esse fim.
No segundo terceto, a voz poética reconhece que um dia chegará a morte, mas que esta, análoga à noite, deve fundir-se ao dia na alvorada. Assim, perdendo-se de tanto amor, haverá sentido para a efêmera existência.

“Amar”, de Florbela Espanca  |  Análise do soneto, por José Junior
Reduzida a complexidade da manifestação do texto, a paráfrase feita já permite uma apreensão mais clara do recorte discursivo, confirmado pelo desenho da estrofação. Evidência disso é a distribuição do tema do amor (livre) nos quartetos e o da efemeridade da vida nos tercetos.
Duas isotopias temático-figurativas, repare-se, coincidem com o molde da estrofação, sendo uma social e outra existencial. A social figurativiza o comportamento que identifico como o amor livre, prática evidentemente transgressiva, oposta, por exemplo, às coerções do contrato matrimonial. Já a existencial figurativiza-se sobretudo num plano cognitivo, ou seja, na consciência da efemeridade da vida, saber necessário para justificar a pragmática erótica, para não dizer heróica (feminina).
O primeiro desses temas, que toca o contrato social, apoia-se numa estrutura actancial, cujo programa narrativo revela um sujeito de estado em conjunção com o objeto-valor, figurativizado no paradigma do amor livre. Já o segundo, de natureza existencial, ganha sentido como representação de uma estrutura actancial em que o sujeito de estado, encontrando-se em conjunção com o objeto-valor vida, é cognitivamente manipulado para assumir o programa disjuntivo da morte.
Abstraindo-se a superfície da manifestação (o poema considerado como texto), os temas e figuras de seu nível discursivo (simulacro da enunciação) e a estruturação actancial do nível narrativo, é possível chegar ao nível mais profundo de abstração. Trata-se das categorias vida/morte, para a representação do âmbito individual, e natureza/cultura, para a tradução das convenções sociais.
Considerando-se a categoria natureza/cultura, o esquema positivo /não-cultura implica natureza/ confere um valor eufórico para as representações da liberdade de escolha, abonada textualmente por "amar perdidamente", expressão intensificada pelo advérbio, ao qual se somam dêiticos adverbiais, como "aqui... além...", e pronominais, como "Este e Aquele, ou Outro", uns e outros semanticamente ligados ao aspecto frequentativo. Por sua vez, o esquema negativo /não-natureza implica cultura/ é disfórico para o termo /cultura/, no que ganham sentido manifestações argumentativas, como as provocações dubitativas em "Recordar? Esquecer? Indiferente!... / Prender ou desprender? É mal? É bem?" ou a simulação de desmascaramento em "Quem disser que se pode amar alguém / Durante a vida inteira é porque mente!", concentrados no segundo quarteto, antitético, como se vê, em relação ao primeiro.
O esquema positivo /não-morte implica vida/ confere sentido às reiterações de "amar", desde o próprio título, e a lexicalizações como "Primavera" ou "florida". Já o esquema negativo /não-vida implica morte/ confere sentido a lexicalizações como "pó, cinza e nada" ou "noite", no terceto final.
O primeiro verso sugere o querer: "Eu quero amar, amar perdidamente!" Como modalidade endotática virtualizante, o querer "é a denominação de um dos predicados do enunciado modal que rege quer um enunciado de fazer, quer um enunciado de estado" (GREIMAS; COURTÉS, p. 406). Em outras palavras, opera-se a atualização das categorias vida/morte e natureza/cultura na dinâmica actancial, sabendo-se que os termos positivados no nível profundo passam a orientar os papéis narrativos.
Como modalização, o querer pressupõe uma manipulação e esta, por seu turno, a função de um destinador. No poema, o destinador e o manipulador estão implícitos, mas justamente essa implicitude os sugere como simulacro do sujeito da enunciação no que se poderia textualizar como uma "voz da consciência" do próprio destinatário-sujeito. Por outro lado, o percurso narrativo não se completa, visto que não está em questão propriamente o fazer (dimensão pragmática). Os dados textuais concentram-se na modalidade do querer sobre o enunciado de estado, o que sugere a conjunção do sujeito com o objeto-valor, reiteradamente representado pelo "amar", no plano da manifestação.
Esboça-se, em contrapartida, um antissujeito que negaria o termo /vida/, afirmando seu contrário /morte/, e que negaria o termo /natureza/, afirmando as coerções próprias da cultura. Sugere-se, assim, pelo menos como virtualidade, um conteúdo polêmico no fragmento narrativo estabelecido nos limites impostos pelo texto.
A condensação da estrutura narrativa em torno do predicado modal – o querer – explica-se pela dimensão cognitiva de sua construção, caracterizada pela "atrofia do 'o que acontece' do componente pragmático" (GREIMAS; COURTÉS, 2008, p. 66). É o que se pode comprovar na apreciação do nível discursivo da geração dos sentidos. Nesse nível, constrói-se toda uma estratégia persuasiva, quando o ser se superpõe funcionalmente ao fazer.
Visto como discurso, o poema representa um fazer persuasivo de um sujeito cognitivo. Para tanto, a voz discursiva recorre, em termos de semântica discursiva, ao tema do amor, que atualiza o termo profundo /vida/, e ao tema da liberdade afetiva, que atualiza o termo profundo /natureza/. O poema simula a enunciação na forma de uma debreagem enunciativa, o que se comprova no nível da manifestação pelo emprego da primeira pessoa, desde o primeiro verso, iniciado por "Eu quero amar".
Como o enunciatário não é totalmente explicitado, o discurso ganha a aparência de monólogo interior. No entanto, marcas textuais dubitativas como "Recordar? Esquecer? Indiferente! ... / Prender ou desprender? É mal? É bem?" trazem para o diálogo vozes polêmicas. Se são polêmicas, sugerem a virtualidade de um antissujeito, cujo papel visa negar os termos /natureza/ e /vida/, atualizados pelo querer, no plano narrativo, para afirmar os termos /cultura/ e /morte/.
O soneto revela uma tendência temática nos quartetos e figurativa nos tercetos. O discurso desenvolve-se, assim, do mais abstrato (tese e antítese) para o mais concreto (demonstração e conclusão).
No quarteto inicial, é proposta a tese, quando é explicitado o querer-fazer e afirmado um estado conjuntivo com o objeto-valor representado pelo amor. Nesse quarteto, no tocante ao tema do amor e sua figurativização, manifestada pelo infinitivo "amar", é notória a multiplicidade de situações virtualizadas pelo sujeito da enunciação, segundo o esquema |sujeito: eu| |fazer virtualizado transitivo: amar| |objeto: Este / Aquele / Outro / toda a gente/ ninguém| |circunstância: perdidamente / só por amar / aqui / além|.
Note-se a tematização do gênero em |Este / Aquele / Outro|, o que sugere um sujeito feminino único |eu| ante o objeto masculino múltiplo, paradigmaticamente disposto em tripla amostragem pronominal, sendo a primeira indicativa de proximidade (Este), a segunda de distância (Aquele) e a terceira de alternância (Outro). O emprego dessas formas pronominais, que aliás aparecem no texto com iniciais maiúsculas, no lugar de antropônimos ratifica a predominância do plano temático sobre o figurativo, acentuando o caráter paradigmático da marcação desses atores associados à masculinidade. Note-se, ainda, que a dimensão pragmática funciona não como modalidades realizantes, mas como "pretexto para atividades cognitivas" (GREIMAS; COURTÉS, 2008, p. 65), já que vigora o valor modal do querer.
No segundo quarteto, contrapõe-se a antítese, na forma de interrogações, sendo a contra-argumentação disjuntiva ("Recordar? Esquecer?" / "Prender ou desprender? ") e polêmica ("É mal? É bem?" / "Quem disser") prontamente refutada pelo sujeito cognitivo, seja pelo desdém de um "Indiferente!", seja pelo desmascaramento de "é porque mente!". Nesse quarteto, em que aparece a contra-argumentação, as reiterações disfóricas mostram-se antípodas da isotopia temática proposta como tese. Na perspectiva do antissujeito, os contrapontos do conjunto virtualizado do fazer pressupõem uma disjunção do objeto-valor representado pelo amor, o que se confirma em /Recordar / Esquecer / Prender ou desprender/.
Ainda no segundo quarteto, esboça-se uma experiência veridictória, manifestada pelas interrogativas "É bem? É mal?". O sujeito cognitivo põe em dúvida a competência do antissujeito (ou interlocutor implícito), ou seja, desautoriza seu fazer cognitivo. A desautorização da competência do oponente configura-se como um desmascaramento, visto que a negação do ser e a afirmação do parecer revelam a mentira, fato confirmado no nível da manifestação: "Quem disser que se pode amar alguém / Durante a vida inteira é porque mente!" Ora, como a revelação da mentira denuncia a hipocrisia de uma vida de aparências, sob a figurativização de um "até que a morte os separe", não resta dúvida de que o sujeito que simula a enunciação assume-se como transgressor.
Se nos quartetos predomina a multiplicidade de representações paradigmáticas virtualizantes da conjunção com o objeto-valor transgressivo do amor livre, segundo a categoria natureza/cultura, nos tercetos tem lugar a intensidade com que se representa a conjunção erótica do sujeito com o objeto-valor vida. Para fazer-crer seu projeto transgressor, sabendo-se que se trata de "obra do enunciador encarregado do fazer persuasivo" (GREIMAS; COURTÉS, 2008, p. 107), o sujeito instalado pelo enunciador propõe uma demonstração mais palpável em favor de sua tese do amor livre.
É o que se desenvolve no primeiro terceto, com a figurativização da primavera, cuja isotopia reforça a tese do amor livre e natural. Para além da sazonalidade, "Primavera" figurativiza o tema da efemeridade existencial, visto que "Há [só] uma Primavera em cada vida", devendo ser desfrutada "assim [=enquanto está] florida". O louvor de seu desfrute passional, em "É preciso cantá-la", conecta outra isotopia, ou seja, o tema do dom, figurativizado na imagem de Deus, de modo a sacralizar essa etapa argumentativa. Como correm paralelos e euforizados os termos /vida/ e /natureza/, não há como não identificar, sob a figurativização de uma vida intensamente vivida, a recuperação do tema do amor livre, já extensa e reiteradamente virtualizado nos quartetos, mas agora condensado no paradigma metafórico da primavera.
O terceto final é prospectivo, com sugere a entrada "E se um dia", sendo organizado pelo tema disjuntivo da morte, figurativizado na gradação bíblica "pó, cinza e nada" (Gênesis 3:19), que enriquece a isotopia figurativa do sagrado, manifestada pelas ocorrências anteriores de "cantar [louvar]", "Deus" e "deu" [o dom]. Outra figurativização da morte vem no cronônimo alegorizante de "a minha noite". Ressalte-se que o estado vindouro vem lexicalizado por formas do verbo ser, ou seja, "hei-de ser" (certeza), e "seja" (probabilidade), manifestações de ordem epistêmica, características da dimensão cognitiva do discurso, particularmente na axiologia do fazer persuasivo/interpretativo.
Seguindo a tradição do soneto, constituindo, pois, marca da competência enunciativa, impõe-se o recurso estilístico terminativo da chave ou fecho de ouro, ou seja, o oferecimento de uma solução surpreendente como arremate do discurso. Neste caso, ao recurso da gradação, no verso inicial da estrofe, acrescentam-se dois paradoxos, manifestados pelos pares "noite"/"madrugada" e "perder"/"encontrar". Trata-se de variação figurativa para o mesmo tema, que se poderia textualizar como uma vida vivida em plenitude erótica, vale relembrar, de conotação transgressiva. No primeiro caso, é paradoxal a superposição da noite (/morte/) ao dia (/vida/). Em outras palavras, faz-se uma operação de aspectualização temporal, de modo a negar o caráter terminativo da |noite/morte|, emprestando-lhe semas contextuais durativos com a evocação da "madrugada". A aurora seria a um tempo noite e dia, ou seja, termo complexo e figurativização da dicotomia vida/morte. No segundo caso, inscrita no último verso do soneto, a ocorrência de "perder-se" recupera a lexia de "amar perdidamente", que aparece no primeiro verso, valendo ressaltar seu viés transgressivo, no que pode provocar a sanção moral sobre o ser e o fazer livres. Enfim, superpõe-se paradoxalmente a intensidade erótica da conjunção com a vida por sobre a conjunção com a morte. Erotizada a morte, esta se ressignifica como objeto-valor do querer-fazer do sujeito, cuja competência de livre disposição sobre o amor já foi suficientemente argumentada no âmbito discursivo.

Ler mais: Discussão, com a avaliação do problema levantado sobre a relação entre a forma conservadora e o conteúdo transgressivo do soneto. Disponível em:
Transgressão e segredo num poema de Florbela Espanca”, José Leite Oliveira Junior. CASA - Cadernos de Semiótica Aplicada Vol. 11.n.1, julho de 2013.
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sábado, 21 de março de 2020

Dia Internacional da Poesia, em confinamento

«Hoje é Dia Mundial da Poesia», por Hugo van der Ding



«Hoje no dia Internacional da Poesia, deixo-vos o poema de Alexandre O’Neill,
Há palavras que nos beijam...», por Diogo Infante.


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O’Neill (1924-1986)
***

«Neste dia, da poesia, de todos nós», por Aurelino Costa.
é comovente a tua poesia
chego a ter pena de ti e à vezes medo

ardes-me na mão como uma brasa ao rubro
e eu sinto-a e apetece-me levá-la à boca, queimar-me.

adorava que me visitasses mais vezes
tens um quarto cá em casa, louceiro, agasalho
e pão, ainda fresco, coberto com um pano, na masseira de pinho

aguardarei todos os dias, enquanto pascerei vacas até que venhas
e ordenharei úberes brancos, de leite branco e espumoso, meu poeta.

não te esqueças, às vezes tenho fome, muita fome e o jejum mata-me.

Aurelino Costa, Domingo no corpo, Porto, Deriva Editores, 2013


«De Domingo no Corpo, e de quem o assina, se quisermos homenagear a sobredita "refracção" que lhe estrutura a natureza caleidoscópica, concluiremos por reconhecer que na lama de que nos fabricamos é que as estrelas se reflectem, e que de matéria igual é que o Universo se constitui.» (Mário Cláudio)
«A escrita de Aurelino enraiza-se na escuta poética da natureza. É preciso reconhecer que a antiga aliança foi quebrada. Na "relevância" - na pertinência e na actualidade da psico(pato)logia - onde a "coisa em si" é o ser humano. E é exactamente uma escrita elegíaca e melancólica.» (Alexandre Teixeira Mendes)

***


No dia mundia da poesia, Valter Hugo Mãe lê o poema «Faz-se tarde» de José Agostinho Baptista, Epílogo [Poesia reunida], Lisboa, Assírio & Alvim, 2019.

***

Poema «Mar» de Jorge Luís Borges lido por Rosa Alice

MAR

Antes do sonho (ou o terror) tecer
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, o sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é esse violento
E antigo ser que rói estes pilares
Da Terra, e é um e muitos mares
E abismo e resplendor e acaso e vento?
Quem o contempla o vê pla vez primeira,
Sempre. Com o espanto que as perfeitas coisas
Elementares deixam, as formosas
Tardes, a lua, o fogo da fogueira.

Jorge Luis Borges, O Outro, o Mesmo, 1964.
Nova Antologia Pessoal, Quetzal Editores, 2017


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segunda-feira, 16 de março de 2020

COVID-19, Coronavírus




A coisa veio de mansinho
Até parecia a gozar
Um vírus vindo da China
Todo lampeiro a matar

Ninguém levou muito a sério
Que a China fica no boda
Mas depois saltou barreiras
E é dono da porra toda

Chama-se Coronavírus
Que parece um nome querido
Não se deixem enganar
Que este sacana é fodi#%
Agora que já cá está
Não vamos fingir que não
É fazer o que é preciso
E dar conta do cabrão

Lavem muito essas manitas
E evitem espaços fechados
Espirrar é só para a manga
Não queremos mais infectados
Caso sintam coisas estranhas
O hospital é pra esquecer
Liguem prá Linha Saúde
Que algum dia hão de atender

Se vier a quarentena
Vamos ter de recolher
Mas em calhando é melhor isso
Do que, sei lá, falecer
É o bicho, é o bicho
Mas aqui não manda nada
Que nós somos portugueses
E somos bons prá porrada

Ainda assim, meus fofinhos
Nada como acautelar
Se todos fizermos isto
O Corona vai a andar
Ah, e só mesmo para acabar
Parem lá de açambarcar
Tenham calma com o papel
O rabo dá pra lavar

Partilhado em: A Pipoca Mais DoceAna Garcia Martins, 2020-03-12.

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«Corōna» e «vīrus» em tempo de coronavírus

Duas palavras gregas (com roupagem latina) dominam a actualidade mundial. Se, por um lado, a formulação que ouvimos todos os dias («coronavírus») fere os meus ouvidos de helenista/latinista - pois como é que um substantivo («corōna») pode qualificar outro substantivo («vīrus»)? -, por outro lado tenho-me entretido com os pensamentos ziguezagueantes sobre estas duas palavras, suscitados pela sua repetição permanente. Sentado ontem ao balcão de um pequeno restaurante de Coimbra, enquanto o noticiário televisivo repetia em tons histéricos o nome «coronavírus», dei por mim a pensar como as palavras têm a sua história; e como as pessoas a quem o ensino actual nega a possibilidade de estudar Grego e Latim passam ao lado dessa história. Por via da herança grega e latina, palavras como «corōna» e «vīrus» têm uma história milenar, cuja viagem (pelo menos a reconstruível) começa com Homero e tem ponto de passagem no Novo Testamento.

À partida, quando olhamos para as palavras latinas «corōna» e «vīrus», diríamos que nada têm a ver uma com a outra: a primeira tem como sentido primário «grinalda», «coroa»; a segunda tem como sentido primário «veneno». No entanto, na utilização mais antiga que se conhece destas duas palavras, elas estão estranhamente ligadas por um denominador comum: o arco do qual se disparam flechas.

À imagem do arco está associada a palavra grega «korōnē» (donde deriva em latim «corōna») desde a Ilíada, poema em que o termo serve para designar a ponta do arco.
Por seu lado, a palavra latina «vīrus» é a forma itálica da palavra grega «īós» (que no tempo de Homero talvez ainda se pronunciasse «wīós»). Esta palavra «īós», antepassada da nossa palavra «vírus», é objecto de fascínio para os helenistas, porque tem três sentidos à primeira vista diferentes: «flecha»; «veneno»; «ferrugem».

Podemos questionar hoje se, linguisticamente, a etimologia de «īós» no sentido de «flecha» é a mesma de «īós» no sentido de «veneno» e «ferrugem»; mas os antigos não tinham essa consciência. Se perguntássemos a Homero a razão de as palavras para «flecha» e «veneno» serem homógrafas, ele responder-nos-ia certamente que, muitas vezes, as flechas são portadoras de veneno pelo facto de serem envenenadas. O arco do qual a primeira flecha da Ilíada é disparada (arco esse, justamente, cuja descrição no Canto 4 nos dá a primeira atestação da palavra «korōnē») é tacitamente suspeito de disparar flechas envenenadas.

Porquê? Porque o médico militar nesse canto da Ilíada, «quando viu a ferida, onde embatera a seta aguda, / chupou dela o sangue e, bom conhecedor, nela pôs fármacos / apaziguadores» (Ilíada 4.217-219).

Depois de Homero, «korōnē» e «īós» seguiram caminhos divergentes. No que diz respeito a «korōnē», há que referir a sua acepção ornitológica («corvo»), o que terá talvez conduzido à acepção de «coroa», quiçá inspirada pela crista de algum pássaro. No entanto, em grego a acepção de «coroa» é rara. Quando os soldados romanos tecem uma coroa de espinhos para pôr na cabeça de Jesus, a palavra grega é «stéphanos» (στέφανος); na Vulgata, no entanto, lemos «corōna».

Por seu lado, a palavra grega «īós» («veneno»), correspondente a «vīrus» em latim, está praticamente ausente do Novo Testamento, embora surja de modo curioso na Epístola de Tiago, onde a primeira ocorrência aponta para a acepção de «veneno» (Tiago 3:8) e a segunda para a acepção de «ferrugem» (5:2). Note-se que a conotação associada a «īós» em grego é quase sempre negativa; mas temos uma excepção curiosa na expressão para designar o mel, que Píndaro inventa num dos seus poemas: «veneno [īós] inofensivo das abelhas».

Também em latim, «vīrus» tem quase sempre uma conotação negativa; contudo, o poeta Estácio, no séc. I d.C., surpreende-nos ao referir um «vírus benigno» com propriedades medicinais, que pode ser colhido «nos campos dos Árabes» (Estácio, «Silvae», 1.4.104).

Que «vīrus» será esse em concreto? Estácio não nos diz. O facto de lhe chamar «benigno» leva a crer que será bem diferente do nosso coronavírus, que, fiel à história mais antiga das palavras que o compõem, tem percorrido em flecha o mundo inteiro.

Um último pensamento: vários autores romanos (Horácio, Plínio [tio], Marcial) aplicaram ao substantivo «vírus» o adjectivo «grave». Esperemos que este vírus que agora nos ocupa se reveja mais na sua identidade homérica de flecha... e que acabe por se tornar, já agora, como escreveu Píndaro, μεμφής: inofensivo.

Frederico Lourenço, Coimbra, 2020-03-07
***

Lembra-se do que sentiu quando, a meio da infância ou no princípio da adolescência, lhe oferecerem aquele caderno com um pequeno cadeado, onde supostamente poderiam caber todos os seus segredos e pelo caminho tudo o que lhe viesse à cabeça? Quem sabe, voltar a esta experiência talvez funcione como um antídoto para os dias de incerteza em que agora mergulhámos e, por isso, lhe deixamos este desafio: comece a escrever um diário, se possível já a partir de hoje.

Pode aproveitar um caderno que tenha por casa ou utilizar o seu “fiel” computador. O meio para o caso não é relevante. O que importará mesmo é fazer o seu relato deste tempo que poderá ser único pelas piores razões, mas que também nos vai desafiar a darmos o que de melhor possamos ser capazes.

E sabe que escrever um diário pode ajudar a que tal aconteça? Foi o que descobriu uma equipa de psicólogos norte-americanos, num estudo realizado no princípio do século. Afirmam eles, num artigo publicado no Journal of Experimental Psychology, que quando se está passar por um acontecimento traumático ou particularmente stressante, “a nossa capacidade de concentração não é a que deveria ser” e por isso se torna muito difícil definir “estratégias de enfrentamento” que permitam lidar com situações que escapam de todo à rotina e para as quais não existem respostas automáticas.

Mas depois de terem trabalhado com cerca de uma centena de voluntários, esta mesma equipa chegou à conclusão que para isto há um remédio fácil à mão: “Uma coisa tão simples como escrever cerca de 20 minutos sobre os problemas que nos estão a afectar pode ter efeitos importantes não só na saúde física e mental, como também em termos de capacidades cognitivas” e permitir assim enfrentar melhor situações que sejam particularmente difíceis.

Por outro lado, escrever um diário vai permitir-lhe que se lembre mais tarde dos pormenores de que estes dias também irão ser feitos e passar o testemunho a outros. Como se tem vindo a comprovar, para o curso da História também têm entrado a concurso estes pequenos “nadas” do quotidiano. Que só permanecem no tempo se foram registados: a memória acaba por não ser uma boa amiga para este efeito.

Está à espera de quê? Não aproveite estes dias de confinamento para tentar resolver tudo o que se foi acumulando por fazer em casa e comece a escrever sobre este novo quotidiano. Até porque neste mundo em overdose de imagens, as palavras poderão ter sempre “um poder curativo”.

Clara Viana, “Escrever um diário é um antídoto para tempos de incerteza”, Público, 2020-03-16

***


Francesca Morelli: ecco cosa ci sta spiegando il virus

Credo che il cosmo abbia il suo modo di riequilibrare le cose e le sue leggi, quando queste vengono stravolte.
Il momento che stiamo vivendo, pieno di anomalie e paradossi, fa pensare...
In una fase in cui il cambiamento climatico causato dai disastri ambientali è arrivato a livelli preoccupanti, la Cina in primis e tanti paesi a seguire, sono costretti al blocco; l'economia collassa, ma l'inquinamento scende in maniera considerevole. L'aria migliora; si usa la mascherina, ma si respira...
In un momento storico in cui certe ideologie e politiche discriminatorie, con forti richiami ad un passato meschino, si stanno riattivando in tutto il mondo, arriva un virus che ci fa sperimentare che, in un attimo, possiamo diventare i discriminati, i segregati, quelli bloccati alla frontiera, quelli che portano le malattie. Anche se non ne abbiamo colpa. Anche se siamo bianchi, occidentali e viaggiamo in business class.
In una società fondata sulla produttività e sul consumo, in cui tutti corriamo 14 ore al giorno dietro a non si sa bene cosa, senza sabati nè domeniche, senza più rossi del calendario, da un momento all'altro, arriva lo stop.
Fermi, a casa, giorni e giorni. A fare i conti con un tempo di cui abbiamo perso il valore, se non è misurabile in compenso, in denaro. Sappiamo ancora cosa farcene?
In una fase in cui la crescita dei propri figli è, per forza di cose, delegata spesso a figure ed istituzioni altre, il virus chiude le scuole e costringe a trovare soluzioni alternative, a rimettere insieme mamme e papà con i propri bimbi. Ci costringe a rifare famiglia.
In una dimensione in cui le relazioni, la comunicazione, la socialità sono giocate prevalentemente nel "non-spazio" del virtuale, del social network, dandoci l'illusione della vicinanza, il virus ci toglie quella vera di vicinanza, quella reale: che nessuno si tocchi, niente baci, niente abbracci, a distanza, nel freddo del non-contatto.
Quanto abbiamo dato per scontato questi gesti ed il loro significato?
In una fase sociale in cui pensare al proprio orto è diventata la regola, il virus ci manda un messaggio chiaro: l'unico modo per uscirne è la reciprocità, il senso di appartenenza, la comunita, il sentire di essere parte di qualcosa di più grande di cui prendersi cura e che si può prendere cura di noi. La responsabilità condivisa, il sentire che dalle tue azioni dipendono le sorti non solo tue, ma di tutti quelli che ti circondano. E che tu dipendi da loro.
Allora, se smettiamo di fare la caccia alle streghe, di domandarci di chi è la colpa o perché è accaduto tutto questo, ma ci domandiamo cosa possiamo imparare da questo, credo che abbiamo tutti molto su cui riflettere ed impegnarci.
Perchè col cosmo e le sue leggi, evidentemente, siamo in debito spinto. Ce lo sta spiegando il virus, a caro prezzo.

“Ecco cosa ci sta spiegando il vírus”, Francesca Morelli, 2020-03-10





Reflexão da psicóloga Francesca Morelli
(Tradução)

Acredito que o cosmos tem sua própria maneira de equilibrar as coisas e suas leis, quando elas estão perturbadas.
O momento em que estamos a viver, cheio de anomalias e paradoxos, faz-nos pensar...
Numa época em que as mudanças climáticas causadas pelos desastres ambientais atingiram níveis preocupantes, a China em primeiro lugar, e muitos países depois, são forçados a congelar; a economia entra em colapso, mas a poluição diminui consideravelmente. O ar melhora; você usa a máscara, mas respira...
Num momento histórico em que certas ideologias e políticas discriminatórias, com fortes referências a um passado mesquinho, estão sendo reativadas em todo o mundo, chega um vírus que nos faz experimentar que, em um instante, podemos nos tornar os discriminados, os segregados, os presos na fronteira, os portadores de doenças. Mesmo que a culpa não seja nossa. Mesmo que sejamos brancos, ocidentais e viajando em classe executiva.
Numa sociedade baseada na produtividade e no consumo, em que todos corremos 14 horas por dia atrás do desconhecido, sem sábados nem domingos, sem mais vermelhos no calendário, de um momento para o outro, vem a paragem.
Parados, em casa, dias e dias. Para contar com um tempo cujo valor perdemos, se não for mensurável em compensação, em dinheiro.
Ainda sabemos o que fazer com ele?
Numa fase em que o crescimento dos filhos é, por necessidade, muitas vezes delegado a outras figuras e instituições, o vírus fecha as escolas e obriga-as a encontrar soluções alternativas, para voltar a colocar mães e pais junto dos filhos. Obriga-nos a começar uma nova família.
Numa dimensão onde as relações, a comunicação, a sociabilidade são jogadas principalmente no "não-espaço" da rede social virtual, dando-nos a ilusão de proximidade, o vírus tira-nos a verdadeira proximidade, a verdadeira proximidade: sem tocar, sem beijar, sem abraçar, à distância, no frio do não-contacto.
Quanto é que tomámos estes gestos e o seu significado como garantidos?
Numa fase social em que pensar no próprio jardim se tornou a regra, o vírus envia-nos uma mensagem clara: a única saída é a reciprocidade, o sentido de pertença, a comunidade, o sentimento de fazer parte de algo maior para cuidar e que pode cuidar de nós. A responsabilidade partilhada, o sentimento de que o destino não é só de vocês, mas de todos à vossa volta depende das vossas ações. E que tu dependes deles.
Então, se pararmos de fazer caça às bruxas, pensando de quem é a culpa ou por que tudo isso aconteceu, mas pensando no que podemos aprender com isso, acho que todos nós temos muito o que pensar e nos comprometer.
Porque com o cosmos e suas leis, obviamente, temos uma dívida de gratidão.
O vírus está a explicar-nos, a um grande custo.


“Isto é o que nos explica o vírus”, Francesca Morelli. Título original: “Ecco cosa ci sta spiegando il vírus”, VITA.IT, 2020-03-10










Lisboa ainda



Lisboa não tem beijos nem abraços

não tem risos nem esplanadas

não tem passos

nem raparigas e rapazes de mãos dadas

tem praças cheias de ninguém

ainda tem sol mas não tem

nem gaivota de Amália nem canoa

sem restaurantes sem bares nem cinemas

ainda é fado ainda é poemas

fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa

cidade aberta

ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste

e em cada rua deserta

ainda resiste.


Manuel Alegre, poema escrito em 20 de março de 2020



A VIDA TRIUNFA EM CASA 

 

Esta ausência não foi por nós pedida, 

este silêncio não é da nossa lavra, 

já nem Pessoa conversa com Pessoa, 

com o feitiço sempre imenso da palavra 

Este tempo só é o nosso tempo 

porque é nossa a dor que nos sufoca 

e faz de cada dia a ferida entreaberta 

do assombro que esquivando-se nos toca 

Esta ausência é dos netos, dos filhos, dos avós, 

é a casa alquebrada pelo medo, 

é a febre a arder na nossa voz 

por saber que o mal a magoa em segredo 

Este silêncio é um sussurro tão antigo 

que mata como a peste já matava; 

vem de longe sem nada ter de amigo 

com a mesma angústia que nos castigava 

Esta ausência é uma pátria revoltada 

que se fecha em casa sempre à espera 

que a febre não a vença nem lhe roube 

a luz mansa que lhe traz a Primavera 

Esta casa somos nós de sentinela,

à espera que a rua de novo nos console 

e que festeje debruçada à janela 

a alegria que só nasce com o sol 

Esta ausência mais tarde há-de ter fim, 

por nada lhe faltar nem inocência; 

que se escute o desejo de saúde 

anunciando que vai pôr fim à inclemência 

Que se abram as portas e as janelas, 

que o medo, derrotado, parta sem destino 

por ser esse o sonho colorido 

que ilumina o riso de um menino. 

 

José Jorge Letria, 20 de março de 2020

https://expresso.pt/coronavirus/2020-03-21-Jose-Jorge-Letria-escreve-poema-sobre-o-covid-19-A-Vida-Triunfa-em-Casa



INTERTEXTUALIDADE  |  PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER

NÓS 

I
Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E a Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

II
Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

III
Se acaso o conta, ainda a fronte  se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar  dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvamo-nos na fuga.

IV
Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

V
Pela manhã, em vez dos trens  dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges  dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na city, que desterros!

VI
Sem canalização, em muitos burgos  ermos,
Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.
E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

VII
Uma iluminação a azeite de purgueira ,
De noite amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons de inferno outros arruamentos.

VIII
Porém, lá fora, à solta, exageradamente,
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica , potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!

IX
Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

X
Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste de ouvir falar em órfãos e em viúvas,
E em permanência olhando o horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.

XI
Ele, dum lado, via os filhos achacados ,
Um lívido flagelo e uma moléstia  horrenda!
E via, do outro lado, eiras , lezírias , prados,
E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

XII
E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!


Cesário Verde

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