segunda-feira, 27 de abril de 2020

O mito de Sísifo e o poema de Miguel Torga: o "até breve" de José Alberto Carvalho | Jornal das 8 | TVI Player




O mito de Sísifo e o poema de Miguel Torga: o "até breve" de José Alberto Carvalho | Jornal das 8 | TVI Player: No final do Jornal das 8 de domingo, José Alberto Carvalho fez uma alusão ao mito de Sísifo: a lenda da mitologia grega acerca do mais arguto dos seres do Olimpo, que enganou o próprio Zeus e também o deus da morte, representado "numa espécie de escultura cinética que representa um movimento perpétuo".
A escultura em Lego inspirou um poema profundo e nobre do português Miguel Torga, que o jornalista partilhou nesta altura, à luz da experiencia social e individual que temos vivido.
 É com isto que quero dizer "até breve", concluiu José Alberto Carvalho.


SÍSIFO

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga [1977], Diário: Vols. XIII a XVI. Lisboa: D. Quixote, [s.d.], p. 20.

Este poema não devia ter sido esquecido, porque ajuda quem o leia a perceber que não há nada de errado em começar de novo, pelo contrário, e também porque sugere que a loucura talvez seja a forma mais sã de sermos humanos.
Através da interpelação de uma segunda pessoa que tanto pode ser o próprio poeta, que consigo fala, como o leitor, que assim é implicado por aquele, este breve poema retoma o mito de Sísifo para construir uma espécie de hino à vida tal como ela se afigura à maioria de nós: uma demanda pejada de vicissitudes.
Todavia, este é um hino bastante melancólico, até porque, associado ao mito mais óbvio, surge outro, o de Tântalo, cujo castigo consiste na perpétua tentativa frustrada de alcançar os frutos que saciariam a sua fome. Assim se justifica que o poeta se/nos aconselhe a ir “colhendo / Ilusões sucessivas no pomar”: trata-se de frutos que, se não são proibidos, pelo menos são apetecíveis. Porém, não são totalmente satisfatórios: por mais que desfrutemos deles, “nenhum fruto” se exime da sua falsidade. Daí que o poeta/leitor/ser humano “nunca [fique] saciado”.
Dir-se-ia que o que sucede neste poema é semelhante ao que se passa no conto “Cegarrega”, também de Miguel Torga: retomam-se as narrativas clássicas para lançar sobre elas uma luz renovada, que tende a pôr em causa interpretações levianas ou pré-fabricadas a que nos tenhamos, porventura, habituado. O conto de Os Bichos recupera a fábula de Esopo, elogiando a louvável perseverança da cigarra, com a qual o poeta se identifica, e pondo em evidência a mesquinha insensibilidade da formiga, que não sabe (ou não quer) apreciar o triunfo que representa esse ruído estridente, que “até azamboa a gente”. O poema “Sísifo”, por seu turno, retoma o mito do rei de Éfira, condenado a empurrar um rochedo até ao topo de uma colina, no Inferno, durante toda a eternidade, já que este rolaria pela encosta abaixo sempre que estivesse prestes a chegar ao cume.
Recomeçar, nesta lenda grega (tal como no suplício de Tântalo), é, pois, uma terrível condenação. No poema, contudo, surge como uma espécie de conselho sábio oferecido por alguém que, desde logo, recomenda que a tarefa seja encarada com tranquilidade e vagar (“Se puderes, / Sem angústia e sem pressa”). E podemos concluir que existe a intenção de suavizar o carácter árduo e possivelmente frustrante de um percurso continuamente repetido, por meio de uma atitude mais optimista, que valoriza os aspectos positivos do esforço empreendido: o “homem” a quem o poeta se dirige é incentivado a assumir-se como senhor do seu destino e a usufruir das sucessivas oportunidades que a vida lhe oferece, na busca de realização.
Assim, o verbo recomeçar vê-se aqui aliviado da carga pesada, negativa, que os dois mitos gregos lhe conferem, para se converter numa poderosa forma de exercer a vontade própria, através da qual é possível alcançar a valorização pessoal e moral, por meio da autonomia (“os passos que deres […] Dá-os em liberdade”), da perseverança (“Enquanto não alcances / Não descanses”), da exigência (“De nenhum fruto queiras só metade”), da sabedoria (“Vendo / Acordado, / O logro da aventura”) e da hombridade (“És homem, não te esqueças!”).
Esta “aventura” não deixa de ser uma armadilha de enganos permanentes: o “pomar” está cheio de frutos que, mesmo depois de alcançados e degustados na totalidade, deixarão na boca humana um sabor a falsidade. As “Ilusões sucessivas” são para “colher”, sim. Porém, é crucial que as saibamos identificar como tal. Digamos que esse é o primeiro patamar da lucidez.
Condicionados que somos por toda a espécie de limitações, fraudes e quimeras, podemos, ainda assim, orgulhar-nos do “caminho” que escolhemos, contanto que saibamos ter a sensatez necessária para nos aceitarmos (ou reconhecermos) como somos, por mais insano que o nosso percurso de vida se afigure: “Vendo / Acordado, o logro da aventura”. Cada um de nós pode sentir-se infeliz, mas poderá sempre encontrar dentro de si a satisfação de se saber livre e saudavelmente louco. É esse o segundo patamar.
“És homem, não te esqueças!” – isto é: humanidade não é apenas consciência, é também livre arbítrio. É através da lucidez que se adquire o direito de ser dono da sua própria loucura: «Só é tua a loucura / Onde, com lucidez, te reconheças». E neste aparente paradoxo reside o expoente máximo da liberdade humana, e mesmo da humanidade, o traço distintivo da nossa espécie. Afinal, graças ao dom da consciência, só nós temos a capacidade para reconhecermos que somos insanos. De resto, sem loucura, o homem não seria mais do que um ser puramente racional. Ou, nas palavras de D. Sebastião, escritas pela pena de Fernando Pessoa: «besta sadia, / Cadáver adiado que procria».


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sábado, 25 de abril de 2020

Avenida da Liberdade

“Um homem com uma bandeira de Portugal sobe a Avenida da Liberdade em Lisboa, por volta das 15 horas, altura em que anualmente se realiza um desfile comemorativo do 25 de Abril de 1974 e que, devido à pandemia da Covid-19, não pôde ter lugar.”
É assim que o fotógrafo José Sena Goulão, da agência Lusa, descreve a sua fotografia do 25 de abril de 2020.




Há 46 anos, Carlos Alberto Ferreira integrou a coluna de Salgueiro Maia que deteve Marcelo Caetano no Quartel do Carmo. Serviu Sá Carneiro e Fidel Castro e nunca deixou de comemorar a Liberdade na rua, nem neste ano em que um vírus mandava ficar em casa. Isolado, protagonizou a fotografia que se tornou um ícone deste 25 de Abril. (Expresso, 2020-04-28)



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quinta-feira, 23 de abril de 2020

SLAM E POESIA

O poetry slam é um fenómeno de escala global e de inscrição local que se alarga numa estrutura essencialmente horizontal na qual as comunidades têm a função de organizar, dinamizar e mobilizar as pessoas. É um fenómeno que, no contexto da performance e da poesia, permite o exercício identitário da própria comunidade e do slammer e, talvez, o exercício cívico de contestação. (Liliana Vasques)




O poetry slam pode ser descrito como um evento dedicado à leitura-performance de poesia que obedece a um formato de competição entre poetas-slammers. Teve o seu início nos E.U.A. e acontece, geralmente, em bares e associações ou cooperativas com vertente cultural. À exceção de eventos nacionais e internacionais, o poetry slam é criado e dinamizado a nível local, nas cidades, e é comum o nome da cidade designar o Poetry Slam que aí se organiza – Boston Poetry Slam, Poetry Slam Mainz, Poetry Slam Barcelona, Poetry Slam Coimbra. Em cada cidade é organizado com uma regularidade (semanal, mensal, etc.) variável, num espaço que acolhe organizadores e participantes todas as semanas, todos os meses.
Para que um poetry slam se realize tem que existir um local que o acolha, tem que se conjugar a presença de apresentador(a)/host, slammers, público e júri e utilizar o formato de competição. A competição só é possível com um número mínimo de slammers (3) e de membros do júri (normalmente um número ímpar, 3 ou 5). Durante a semana ou mês anterior, os slammers fazem a sua inscrição através das redes sociais podendo, também, fazê-lo no próprio evento desde que o n.º de inscritos assim o permita. Os bares e associações conjugam o poetry slam na programação daquela noite e, por essa razão, o n.º de slammers ultrapassa, na maioria dos casos, os 10/12 e evento em si tem uma duração média de 90/120 minutos. Em termos gerais, a competição organiza-se desta forma:
- cada slammer deve preparar 3 textos da sua autoria
- dependendo do n.º de inscritos, podem ser feitas 2 ou 3 rondas
- o apresentador identifica os participantes, constitui o júri que será composto por pessoas do público que se voluntariam para o efeito e que não são amigas e/ou conhecidas dos slammers e explica as regras da competição
. para cada ronda é sorteada a ordem de participação
. cada slammer tem um limite de tempo para a leitura/performance do texto de 3 minutos e não pode utilizar adereços para o efeito
- o júri vota cada performance numa escala de 0 a 10, com utilização de casas decimais
- no final de cada ronda o/a apresentador/a divulga o resultado das votações do júri (para cada performance é feita uma média, excluindo as pontuações mais alta e mais baixa) e anuncia os slammers apurados para a ronda seguinte
- o/a slammer vencedor recebe um prémio simbólico oferecido pelo bar ou resultante de patrocínios conseguidos pelos organizadores do Poetry Slam.
Qualquer pessoa se pode inscrever nesta competição e não existe seleção de participantes, à exceção da ordem de inscrição quando há um nº muito elevado de inscritos. Cada slammer deve preparar 3 textos para a 1ª ronda, meia-final e final. “3,2,1 SLAM!” é o mote dado pelo host para o início de cada performance e para a contagem do tempo.
As orientações gerais da competição são, geralmente, adaptadas pelas organizações, que introduzem alterações relacionadas com o contexto específico do seu Poetry Slam. Marc Smith (2009: 10) refere que “cada Poetry Slam e apresentador são autónomos e livres de tomar as suas decisões” sendo que a grande maioria “adere aos princípios estabelecidos por escolha própria, não porque são compelidos por uma autoridade superior”. Na coexistência de particularidades e adaptações, observamos, também, a circulação de informação e recursos, de slammers e de público entre as organizações e os eventos de poetry slam. Algo comum e transversal é o facto de os organizadores estarem previamente envolvidos na/com a poesia e serem poetas e slammers noutros eventos. Muitos começaram a organizar Poetry Slams depois de terem participado num. Depois do primeiro Poetry Slam em Chicago, foi assim que chegou a Nova Iorque com Bob Holman e a Boston com Patricia Smith.
No decorrer de um poetry slam, a participação e intervenção são fundamentais. Para além da ação dos/das slammers, o/a host/apresentador(a), as pessoas do júri e o público determinam o desenrolar do evento. Se quisermos descrever um slam no qual participámos, vamos certamente falar da reação do público, do “jeito” do/da apresentador/a, das pontuações que o júri atribuiu. O/A apresentador orienta o decorrer do slam, garante que todos/as os/as slammers participam pela ordem sorteada, que o júri se constitui e que todas as pontuações são efetuadas e registadas. Contudo, ele/ela também dá o ‘tom’ e o ‘ritmo’ ao slam. Quando apresenta os slammers, e interpela público e júri, fá-lo com uma forma e estilo próprio que cabem na informalidade e desinstitucionalização que este formato reclama para a poesia. Ele ou ela faz parte da identidade ‘daquele’ slam. No mesmo sentido, júri e público são incentivados à reação e à intervenção. Pelo host, que pede a reação tanto à performance como à pontuação. Pelo slammer, que mobiliza estratégias do teatro, da música, da performance: call and response, beatbox, pedido ao público para fazer sons ou dizer palavras, etc. Ao contrário de outros eventos de poesia, o poetry slam é barulhento, caótico e enérgico. A separação entre slammer e público diluise e este coloca-se perante uma audiência que dialoga com ele e que participa na própria performance.
Com a criação de mais eventos e o reforço de redes mais ou menos organizadas, a par do âmbito local, foram surgindo competições nacionais e internacionais organizadas por Associações, Ligas e Fundações, em diferentes países (Inglaterra, França, Alemanha, etc.). Refiram-se, por exemplo, a PSI (Poetry Slam Inc.), a Hammer & Tongue, a Ligue Slam de France. A Poetry Slam Inc. é uma organização sem fins lucrativos criada em 1997, sediada no Illinois (E.U.A.), que é responsável pela certificação de Poetry Slams do país e, segundo a própria, de qualquer país do Mundo. Os eventos certificados pela PSI seguem regras estabelecidas pelo Conselho Executivo que resumem a visão dos fundadores do poetry slam. Para além disso, a PSI toma como funções a criação e reforço da comunidade de poetas, o crescimento do poetry slam, a promoção da educação e da criatividade. Da mesma forma, a Hammer & Tongue, criada em 2003 por Steve Larkin, organiza eventos regulares em várias cidades de Inglaterra que culminam numa final anual. A grande maioria dos países onde se dinamiza o poetry slam tem um encontro anual de competição entre slammers de eventos locais em território nacional. Outras associações têm promovido competições de poetry slam europeias e internacionais, através da rede criada com as organizações de diferentes países. O circuito de participantes neste tipo de competição acontece, usualmente, desta forma: em cada país é realizado um evento nacional de poetry slam em que participam slammers apurados em eventos locais de diferentes cidades, os slammers que ganham os eventos nacionais “representam”, depois, o seu país numa competição europeia ou internacional organizada por uma associação e/ou organização de poetry slam no país de acolhimento. Em França, encontramos 3 organizações de competições publicamente divulgadas como europeias: a Ligue Slam de France (constituída em 2009) promove o poetry slam no território francês e organiza a Coupe de La Ligue Slam de France (http://coupe.ligueslamdefrance.fr/) ; a Federation Française de Slam Poésie (FFDSP) organiza, desde 2006, a Coupe du Monde de Slam Poésie (grandslam2015.com); a associação Slam Tribu organiza o Reims Slam D’Europe (http://www.slamtribu.com/slam-d-europe/).
O poetry slam tem uma natureza local. Uma competição nacional ou internacional acontece porque antes se cria uma rede de competições em diferentes cidades, locais ou regiões. Isso traduz-se numa variação que atravessa as dimensões local, nacional e internacional. Significa, também, que falamos de Poetry Slams com identidades múltiplas, com particularidades e características próprias – “em vez de ser um género homogéneo, o slam assume formas distintas em cada novo contexto para o qual é levado, à medida que é reconstruído em linha com estilos, tradições, convenções e questões locais (Gregory, 2009: 32). Mais, em cada Poetry Slam local confluem vários estilos de escrita e de performance, diferentes gostos e critérios de escolha e valoração de um texto, de um poema, de uma performance:
«O conteúdo do poetry slam é tão diverso quanto os poetas que atuam [e quanto o(s) público(s) que ouvem, veem, avaliam], deixando-nos frequentemente com uma imagem instantânea de um tempo, um sítio, uma cultura particulares» (Wiesenhofer, 2008: 1).
 Muitas organizações continuam a conjugar a competição com o microfone aberto – momento que acontece antes ou depois da competição entre slammers e que se caracteriza pela partilha livre de poemas e pela ausência de regras e condições. Outra variação relativa ao formato é o anti-slam que convida à inversão das regras do poetry slam: as performances devem exceder os 3 minutos, o slammer pode usar adereços e deve tentar fazer a pior performance que conseguir - ganha quem tiver a pontuação mais baixa. O regulamento do poetry slam, mantendo características nucleares, é também adaptado, por exemplo, na forma de calcular a pontuação2 de cada performance e na escolha dos jurados. Para além disso, quando analisamos a atividade de Slams locais durante o ano verificamos a presença frequente de convidados que, na sua grande maioria, são elementos ‘fortes’ da comunidade (poetas, slammers de outros Poetry Slams do mesmo país ou de outros países) ou que, de alguma forma, cruzam o seu trabalho com a poesia e com o poetry slam. Identificamos, também, a realização de slams temáticos (gothic slam, drama slam, etc.), de slams que exploram problemas da sociedade (violência, racismo, política, etc.), outros que se concentram, até, em meios diferentes da voz e da oralidade – como é o caso do vídeo slam/film slam – para trabalhar o poema, as palavras em conjugação com a imagem e o movimento.
_____________
2 Esta pontuação está definida como o “Dewey Decimal Slam System of Scorification”, escala numérica de 10 pontos semelhante à utilizada nos desportos olímpicos.


Ler mais: 3, 2, 1! – O Poetry Slam em Portugal. Mapeamento e análise dos primeiros anos, Liliana Alexandra Ferreira Vasques. Dissertação de mestrado em Educação Artística apresentada na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2016.
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quarta-feira, 8 de abril de 2020

Receção de Florbela Espanca e Judith Teixeira, em Portugal, nos anos 20 do séc. XX



SOB A MIRA DA IMPRENSA: MULHER, LITERATURA E JORNAL EM PORTUGAL NOS ANOS 20.
Autor: Suilei Monteiro Giavara
Coautor: Michelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento

1. Contextualização
Atualmente, os trabalhos cujo escopo é o trinómio mulher/literatura/jornal têm trazido para o debate importantes questões relacionadas a este espaço de produção cultural do qual as mulheres estiveram por muito tempo alheias.
Em Portugal, a partir da segunda metade do século XIX, a imprensa exerceu um importante papel no desenvolvimento cultural, político e intelectual do país, tornando-se o suporte predileto dos escritores para a divulgação das suas ideias. Em muitos casos, a credibilidade de um escritor era fruto da divulgação de um texto seu pela imprensa, ou, no caminho inverso, a confiança do público-leitor em um determinado periódico derivava da presença de um ou outro escritor no seu rol de colaboradores.
Naquele período de transformações sociais e políticas, os jornais eram os responsáveis por ajustar “a perceção social das realidades” e os escritores, imbuídos de ideologias que os faziam adotar a missão de profetas, buscavam encaminhar o povo para um “novo mundo”. (RAMOS, 2001, p. 48) Uma rápida consulta aos periódicos no início do século XX (1919 a 1926) pode confirmar que essa “missão profética” da imprensa perdurou por mais tempo e as campanhas em favor da república, contra ou a favor da liberação do aborto, pela moralização política e outras questões que dividiam a opinião pública eram temáticas não só noticiadas, mas também debatidas, abundantemente nas colunas dos jornais de caráter generalista.
A presença das mulheres neste universo intelectual de predominância masculina, portanto, só pode ser vista como uma vitória conseguida a duras penas – no sentido figurado e próprio do termo -, pois requereu muita coragem e desprendimento, às vezes até monetário – para verem suas criações levadas a público. Mais do que isso, o destemor delas foi o agente da expansão do seu espaço de voz para além do limiar doméstico, fazendo, consequentemente, emergirem ações tentaculares e conjuntas que buscavam assegurar o direito à igualdade de género nas várias instâncias do conhecimento. Antecipadamente, vale lembrar que, nos idos da década de 20, a presença da mulher no universo letrado - inclusa aí a imprensa - era reconhecidamente ampla, esboçando as primeiras letras da história da mulher portuguesa na imprensa.
Esse sistema de influências, já no final do século XIX, fora apontado por Ramalho Ortigão quando, juntamente com a precariedade do sistema educacional que não preparava a mulher para as suas funções de mãe e de esposa, ele condenou as influências da literatura francesa nos hábitos da mulher portuguesa, atribuindo a esta literatura o ônus pela crescente onda de adultério que se instalava na sociedade.
Contudo, também nas primeiras décadas do século seguinte, essa “ligação perigosa” da mulher com a palavra – tanto como leitora quanto como enunciadora – era um receio que ocupava espaço nas discussões empreendidas pela intelectualidade em diversos jornais do período. Um bom expoente deste panorama histórico-social é um artigo presente no jornal A Época, órgão dirigido por José Fernando de Sousa – vulgo Nemo – que declaradamente optava por uma vertente doutrinária ligada ao catolicismo. Sob a assinatura de Júlia Lopes de Almeida, o texto, embora apresente um tom precavido quanto à literatura, não só ressalta os “benefícios” que ela pode trazer para a mulher, principalmente quanto à função desta como educadora, mas também deixa perceber uma inquietação muito similar à de Ortigão. Vejamos o texto:
Ler para ensinar
O livro é um amigo: n’elle temos exemplos e conselhos, n’elle um espelho onde tanto as nossas virtudes como os nossos erros se reflectem. Repudial-o seria loucura, escolhel-o é sensato.
A estante de uma mulher de espírito e de coração, isto é, de uma mulher habilitada a aprehender e conservar o que ler; que souber que isso a instrue, a torna apta para dirigir a educação dos filhos, dando-lhes superioridade e largueza de vistas; a estante de uma mulher inteligente e cuidadosa que ama os seus livros não como mero adorno de gabinete, mas como a uns mestres sempre consoladores e sempre justos, – essa estante é um altar onde o seu pensamento vai, cheio de fé, pedir amparo numa hora de desalento, e conselho num momento de dúvida. [...]
Aprender para ensinar! Eis a missão sagrada da mulher.
É preciso para isso que a sua leitura seja sã e bem feita.
O gosto bem educado transmitir-se há sem mácula e sem esforço aos filhos. [...]
Vamos, minhas amigas; comecemos a ler, mas com cuidado.
*
A mulher, que é um ente infinitamente melindroso, sensível, vibrátil, delicado, tem o dever de adorar a poesia. (ALMEIDA, 1922, p. 3)

As colocações da autora, que são condizentes com o seu status de escritora e, portanto, defensora da leitura, deixam vislumbrar um sintoma da falência do projeto educacional burguês para a mulher que investiu na formação, mas burlou o acesso a ocupações em que essa formação poderia ser necessária, instituindo uma situação complicada, uma vez que as mulheres, agora não mais alheias à cultura letrada, ainda não podiam usufruir dos mesmos privilégios dos homens. Isso pode ser comprovado se observarmos, por exemplo, as academias literárias do período nas quais a presença de mulheres era quase inexistente.
Para a autora, o problema da leitura em específico, exigia certa parcimónia – “Repudial-o seria loucura, escolhel-o é sensato” – pois, de facto, em uma nação que desejava prosperar e em que muitas mulheres já haviam adquirido um grau mesmo que elementar de alfabetização - algumas delas, inclusive, já estavam a lutar para ingressar nos liceus e universidades - não seria mais possível fazer com que permanecessem alheias à leitura. Por outro lado, embora a figura de Júlia Lopes de Almeida seja associada por alguns estudiosos a uma causa de certo modo feminista, a função pedagógica que ela atribui à literatura na formação da mulher como “dona de casa”, acaba por coadunar-se com a conceção burguesa de educação feminina cujo principal objetivo era prepará-la não somente para desempenhar condignamente a sua “santa missão”, mas também para ser a alegoria do sucesso da conjuntura burguesa.
No Diário de Notícias, órgão da imprensa que tinha o propósito de ser o mais neutro possível, a coluna “De mulher para mulher”, rubricada por Gabriela Castelo Branco, era uma seção onde o público-leitor feminino podia encontrar conselhos práticos para o dia-a-dia das mães e donas-de-casa em geral, bem como outros aspetos referentes ao universo doméstico ou feminil. No texto ora em evidência, já no subtítulo – “A missão da mulher portuguesa na Literatura, na Arte e no Lar” – a autora subtilmente promove a associação da cultura da mulher com o ambiente doméstico. No entanto, do mesmo modo que usa um tom ufanista para exaltar o poder do ser feminino no “destino” da humanidade, seja como incentivadora dos “feitos heroicos” dos homens ou como “responsável” direta por tais factos numa clara adesão ao pensamento positivista, ela diz que proporcionalmente as mulheres também são capazes de provocar neles as maiores “baixezas” e “ações malignas”.
Mesmo afirmando que o advento da modernidade produzira inegáveis mudanças no perfil feminino e, por isso, era impossível desejar que a mulher do século XX tivesse o mesmo espírito abnegado e compassivo de outrora, Castelo Branco não deixa de incentivar que suas leitoras se aplicassem a ter um comportamento estoico a fim de “fazer do momento que passa um sorriso de Bondade, um cântico de fé, um turíbulo de Arte e de Beleza.”
Especificamente com relação à literatura, a autora assegura que a mulher:
cultiva[va] já uma mão quasi varonil, ela pode ser a paladina dos valores ideais, da moralidade, da perseverança e da fé num melhor futuro. Ela deve dar à literatura esse “graal” subtil e feminino que se semelha ao perfume duma flor. Sobretudo ser mulher no pudor, na abstenção do materialismo, no cultivo das nobres aspirações. (BRANCO, 1925, p. 2)

O uso do vocábulo “varonil” para atestar que as mulheres haviam adquirido uma maior desenvoltura na arte de escrever, além de reafirmar a ideia de que o padrão universal usado para medir a qualidade da escrita produzida por elas continuava a ser as obras masculinas, também admite que, por esse motivo, as mulheres estavam habilitadas a se tornarem “paladinas” da moralização do país. Mais do que isso, a insistência com que ela ressalta os valores “morais” e a ênfase no “pudor” como virtude feminina faz do seu texto uma cópia quase fiel do Emílio, em que Rousseau afirma que a natureza deu à mulher o pudor para conter-lhe os “desejos ilimitados” e também quando ele diz que uma mulher que não cumpre o papel moral dado pela natureza ao sexo “dissolve a família e quebra todos os elos da natureza.” (ROUSSEAU, 1990, p.185)
O que se percebe aqui é um desmesurado cuidado com a mensagem transmitida pela literatura e com os efeitos que ela poderia provocar na mentalidade feminina, apesar das concepções inovadoras acerca do fenómeno literário. Em todos esses textos fica evidente uma preocupação em usar a literatura para “forma(ta)r” o ser feminino para ser e pensar como “mulher”. Trata-se, portanto, de uma discursividade que se constrói sobre parâmetros morais, o que é uma incipiência com relação aos caminhos que a literatura já havia percorrido até aquele momento, como se todos os avanços em torno do assunto fossem processos alheios às mulheres "literatas”, como muitos taxavam pejorativamente as escritoras.

 

2. Um “coro de pasmaceiras”: Florbela Espanca e Judith Teixeira nos periódicos
A presença de Florbela Espanca e de Judith Teixeira nos periódicos não foi tão frequente como a de outras escritoras como Beatriz Delgado, Cândida Ayres de Magalhães, Fernanda de Castro, Branca da Gonta Colaço, Laura Chaves, Mercedes Blasco (Colombine), Virgínia Vitorino e outras cujos nomes estampavam nas páginas dos jornais diários de Lisboa durante semanas.
Renata Soares Junqueira assegura que o relacionamento de Florbela com a crítica desde o princípio não foi marcado por "nobre feitos". Para ela, a maior parte das apreciações relativas ao trabalho da poetisa foi feita por pessoas que "demonstraram pouca aptidão à verdadeira crítica literária." (JUNQUEIRA, 1992, p. 27) Acresce ainda o facto de que tais críticos, em grande parte das vezes investidos de pré-julgamentos acerca da vida de Florbela, acabavam por ler a obra a partir desse mote. De facto, as poucas referências à Florbela Espanca nos periódicos permitem traçar um esboço do quão sua passagem abalou o universo letrado português. Embora a qualidade da sua obra não tenha sido desmerecida em vários dos textos a seguir, as críticas comumente não passavam de cordialidades, ou de um “coro afinado de pasmaceiras”, conforme assegura Maria Lúcia Dal Farra em "O Affaire Florbela Espanca". (DAL FARRA, In: ESPANCA, 1996, p. 10) que, quando não trazem à tona aspectos reprováveis de sua biografia, contentam-se simplesmente com exaltar-lhe a capacidade de expor o "sentimento" de modo tão tenaz, passando ao largo pelo aspecto erótico.
Do Livro de Mágoas, por exemplo, o colunista Armando Ferreira em A Capital mais não faz do que lamentar o facto de Florbela não ser tão conhecida quanto Cândida Ayres de Magalhães, cuja obra, Trevas Luminosas, foi prefaciada por Maria Amália Vaz de Carvalho, ou de ela não ter um "nome de família" que lhe garantisse uma entrada fácil na galeria das escritoras então prestigiadas, mas não se digna a sequer citar um verso da obra que pudesse demonstrar a subentendida qualidade literária de Florbela. (FERREIRA, 1919, p.1)
Também uma coluna anónima de O Século ressente-se da tristeza demonstrada pela poetisa na referida obra, principalmente porque Florbela vivia "ainda em plena mocidade”. Mais do que isso, o articulista diz que este livro é um “mimo”, que Florbela trabalha “magnificamente o soneto” e, sem se desviar da maioria das apreciações feitas aos versos escritos por mulheres, diz que ela coloca em sua obra “toda a ternura, todo o sentimento de uma alma de mulher. [...] Escreve versos simples e n'eles se mostra bem feminina.” (O Século, 1919, p.2)
Como já mencionou Maria Lúcia Dal Farra em seu já mencionado texto, (DAL FARRA, In ESPANCA, 1996, p. 10) a poetisa só conheceu a simpatia de amigos próximos como, por exemplo, João Botto de Carvalho, seu colega de classe na Faculdade de Direito de Lisboa, que lhe dedica uma coluna em A Capital em que declara a sua amiga como a primeira poetisa portuguesa. Ao longo do texto, para censurar a posição da crítica em relação à Florbela, Botto assegura que são consideradas "grandes artistas" aquelas poetisas para quem "a vida apenas as interessa[va] pelo prisma do amor", temática que, na visão dele, já estava desgastada e elas não conseguiam dar-lhe uma "nova tonalidade" como o fez a poetisa alentejana. Ao final da coluna, faz uma breve menção ao Livro de Máguas, ressentindo-se de que a crítica não o tenha dado a devida atenção e merecimento. (CARVALHO, 1922, p. 2) Como é possível verificar, embora no texto Botto faça juz à amizade de ambos, ele também não vai além das louvaminhas de costume.
E também foi Botto de Carvalho quem, em 1923, escreveu um texto n'A Capital (CARVALHO, 1923, p. 1) em rebate a uma crítica ao Livro de "Sóror Saudade" publicada à página 190 da Ilustração Portuguesa do dia 10 de fevereiro do referido ano. Em seu texto, o colega de turma da poetisa questiona A. de A. – signatário da crítica – sobre os motivos que o levaram a elogiar a obra Namorados, de Virgínia Vitorino, em uma recensão destinada à obra florbeliana, afirmando, inclusive, que esta teria sido a fonte de inspiração para a poetisa alentejana. No entanto, o próprio Botto assegura que isso não seria possível, pois, em 1919, portanto um ano antes da edição da obra de Vitorino, Florbela já lançara Livro de Mágoas contendo apenas sonetos. A indignação de Botto de Carvalho reside principalmente no facto de o outro crítico literário enaltecer a obra de Vitorino, simplesmente para menosprezar a de Florbela Espanca, contudo sem estar devidamente inteirado dos factos.
Sobre esta segunda obra, também em uma breve nota referente aos "Livros novos" o jornal O Século exalta, além do "requintado lirismo" dos versos, a "forma curada" e a capacidade da poetisa de versejar baseada em "delicadíssimos conceitos", o que a colocava "entre as poetisas de maior merecimento da nossa terra." (Anônimo, 1923, p. 5) O Diário de Notícias, na seção "Cronica literária" também enaltece Livro de "Sóror Saudade" como uma obra "cheia de sentimento e emoção" em que os possíveis defeitos são compensados "pela largueza da inspiração, sensibilidade verdadeiramente feminina e sinceridade com que descreve os melhores impulsos de sua alma." Por fim, o escritor diz que todos os sonetos da citada obra têm "um pensamento elevado e traduzem, sem exceção, uma ideia nobre e cheia de ternura." (Anônimo, 1923, p. 4).
Já o jornal católico A Época, também em um pequeno comentário acerca dos livros recém-chegados para apreciação, elogia a capa e diz que "contem versos lindos". Contudo, menospreza o facto de nele predominar "demasiado exuberante o sentimento amoroso." (Anônimo, 1923, p. 03). Semanas depois, entretanto, o diretor José Fernando de Sousa, vulgo Nemo, escreve um longo artigo sobre as poetisas portuguesas iniciando com um comentário nada convidativo acerca do facto de que todas as obras a que tivera acesso tinham sido compostas exclusivamente de sonetos: "Fartura de bombas e de sonetos; é o que se vê. Não sei qual prefira." (SOUSA, 1923, p. 3). Prossegue associando a monotonia do ritmo da leitura ao do comboio em que viajava, ao que diz ter sido um "verdadeiro feito de Hércules." Depois, inicia uma crítica também nada afável à temática amorosa que ele considera perniciosa para as jovens moças, pois as desvia de suas reais virtudes. Ao fim da primeira parte do texto, questiona se no momento estava a haver uma:
nova irrupção de romantismo, que da vida só conhece o amor alheio a quaesquer deveres, egoísta, sensual, sob o diáfano manto da carnalidade espiritualisada, ignorante da moral, sem uma elevada concepção do destino, sem preocupações da família, do lar, da sociedade, da religião? Acaso a mulher deixou de ser filha, esposa e mãe para ser apenas amante? (SOUSA, 1923, p. 3)

Toda essa introdução feita por Nemo prepara de antemão o leitor para a recensão que virá acerca deste segundo livro de poesias de Florbela Espanca de que ele elogia a "musica do verso heroico, fluido como o murmuro fio de água serpenteando mansamente entre flores." (SOUSA, 1923, p. 3) Apesar disso, essa apreciação amistosa logo cede lugar a uma crítica ácida em que o resenhador caracteriza a obra como uma blasfêmia devido às "hyperboles amorosas", afirmando que Florbela tem "atitude de escrava de harem" e que ela é "uma alma ignorante dos seus altos destinos". Além disso, ajuíza que o livro é “digno de ser recitado em honra da Vênus impudica” e que a poetisa deveria purificar os lábios com "carvão ardente." Enfim, desfere o golpe final ao afirmar que “é um livro mau o seu, um livro desmoralizador.” (SOUSA, 1923, p. 3, col. 2) Embora o julgamento realizado por este último periódico seja o mais depreciativo deles, é o único que se detém a apreciar as senhas do que futuramente refulgiria na derradeira obra da poetisa, Charneca em Flor: a capacidade de verbalizar sensações eróticas sem intimidação.



Acerca da produção poética de Judith Teixeira, a despeito de toda polêmica envolvendo a apreensão de seu primeiro livro, Decadência (1923), em grande parte, as recensões restringiam-se a elogiar o esmero e o luxo da edição, mas viam o “estro pouco vulgar em poetizas” como um diferencial que lhe garantiria "um perfeito êxito", como assegura uma nota, denominada "Livros novos", em O Século. (Anônimo, 1923, p.2)
Em outra apreciação, sem deixar de elogiar “o belíssimo papel” e a composição, Matos Sequeira diz que Decadência parece uma obra de “uma senhora, embora já corresse por ahi que podia ser de um homem”. Como já foi dito, havia uma conveniência que, de certa forma, autorizava certos temas na escrita feminina, mas proibia outros. Assim, Sequeira afirma que não pôde, "por pudor próprio", comentar o conteúdo do livro que, a seu ver, era inconveniente aos padrões morais da época e, mais do que isso, que teve de escondê-lo tão logo este lhe chegou às mãos. (SEQUEIRA, 1923, p.1)
Uma das poucas recensões mais racionais acerca da apreensão e da obra judithiana foi assinada por Antonio de Monsanto numa coluna intitulada "Livros proibidos", em que ele considera o ato um extremismo "contraproducente", pois "o gérmen de dissolução continua alastrando, sem que um ligeiro obstáculo embargue a sua acção deleteria." Exclusivamente com relação aos livros, Monsanto se mostra indignado com o panfleto Sodoma Divinizada, de Raul Leal, denominando-o "aborto literário"; e, por não conhecer Antonio Botto, mostra-se lacunar em relação ao Canções. De Decadência, não foge à regra de elogiar a elegância da edição e afirma não haver motivo para alarde, visto que na obra "aparte um ou outro incidente profano mais audacioso, sempre estilizado com elevação, emotividade, delicadeza" não há nada que fira o "pretendido pudor dos leitores." Pelo contrário, conforme ele assegura, os versos de Judith Teixeira são "todos recortados em ondeantes contornos musicais, levantando-se, por vezes, um fremito de tortura, uma pulsação de dor, impessoal e abstracta, que logo se transfunde e se perturba em voluptuosidade impenitente." (MONSANTO, 1923, p. 1)
Na mesma linha, Luiz Oliveira Guimarães também enfatiza o primor da edição e, de imediato, faz questão de afirmar que não estava “absolutamente de acordo com certas conclusões de Judith Teixeira”, referindo-se aí à sua temática pagã e ao pessimismo que há em alguns poemas. Contudo, a crítica se esvai na opinião evasiva de seu autor que considera “preferível” que a obra dela fosse menos “decadente e menos triste e cantasse, em vez da morte, a sua mocidade radiosa e triunfante”. (GUIMARÃES, 1923, p.1 a) Poucos dias depois, o colunista faz referência a uma nova produção de Teixeira, Castelo de Sombras, que ele inicia com uma comparação entre a poética judithiana e a de Beatriz Delgado, segundo seu ponto de vista, aquela é mais "intelectual" e "profunda, pois "procura descortinar os mistérios da alma", enquanto esta se mantém na "epiderme". Por fim, assegura que este livro "marca sobre o primeiro um triunfo incontestável." (GUIMARÃES. 1923, p. 01 b)
Depois desse tempo, a presença de Judith permaneceu ofuscada até ela lançar seu derradeiro livro de poemas, Nua. Poemas de Bysancio, a que A Capital, em nota anônima de poucas linhas, assegura "um êxito colossal". (Anônimo, 1926, p.1). Também o Diário de Notícias faz uma referência lacônica a esta obra, afirmando que nela a poetisa acentuou "com mais relevo" os notáveis dotes de artista revelados nas anteriores, pois "descreve com a maior emoção as lutas em que se debate a sua alma de mulher […]." (Anônimo, 1926, p. 2)
Por fim, merece destaque a coluna publicada em A Capital, pois é uma das poucas que reconhece a apurada sensibilidade lírica de Judith Teixeira, bem como a sua perceção estética invulgar, por isso o autor do texto denomina-a "poetisa-artista" cujos versos apresentam uma "linguagem rica de imagens, muito variada e harmoniosa", um pensamento traduzido em "frases engenhosamente atraentes" e um sentimento expresso através de "palavras animadas e coloridas". Enfim, a obra "tem o lirismo da alma, a ardência do corpo – e a fantasia do sonho. É completo." (Anônimo, 1926, p. 01)
Como podemos perceber pelas poucas resenhas expostas, o erotismo presente na obra de ambas, quando não é tratado de forma depreciativa, é quase que apagado totalmente, como se fosse um aspecto irrelevante na composição das mesmas. Entretanto, esse silêncio não pode ser menosprezado, uma vez que é uma forma de não trazer à tona justamente o diferencial de ambas, fazendo-as com isso permanecer em um âmbito menos valorizado no contexto literário português.

Referências bibliográficas:
ALMEIDA, Júlia Lopes de. “Os livros”. A Época, Lisboa, 03 de ago. de 1922, p. 3, col 1 e 2.
Anônimo. O Século, Lisboa, 10 de ago. de 1919, p.2, col 6.
_____. “Livros novos”, O Século, 17 de fev. de 1923, p.2.
_____. A Época, Lisboa, 06 de mar. de 1923, p. 03, col. 03.
_____. “Livros Novos”. O Século, Lisboa, 11 de mar. de 1923, p. 5, col 2.
_____. “Crónica literária”, Diário de Notícias, Lisboa, 29 de mar. de 1923, p. 4.
_____. A Capital, Lisboa, 05 de mai. de 1926, p.1.
_____. Diário de Notícias, Lisboa, 18 de mai. de 1926, p. 2.
_____. A Capital, Lisboa, 21 de jun. de 1926, p. 01.
BRANCO, Gabriela Castelo. “De mulher para mulher”. Diário de Notícias, Lisboa, 14 de dez. de 1925, p. 2.
CARVALHO, João Botto de. A Capital, Lisboa, 07 de jan. de 1922, p. 2, col 1.
_____. A Capital, Lisboa, 16 de fev. de 1923, p. 1, col. 6 e 7.
DAL FARRA, Maria Lúcia. “O affaire Florbela Espanca”. In: ESPANCA, Florbela. Poemas. Maria Lúcia DaI Farra (org.). 1. ed.. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p.p. 10-26
FERREIRA, Armando. “A semana literária”. A Capital, Lisboa, 9 de ago. de 1919, p.1.
GUIMARÃES. Luís Oliveira. “O que se escreve e o que se lê”. A Capital, Lisboa, 19 de mai. de 1923, p.1. a
_____. O que se escreve e o que se lê. A Capital, 26 de mai. de 1923, p. 01 b
MONSANTO, António. “Livros proibidos”. A Capital, Lisboa, 22 de mar. de 1923, p. 1
RAMOS, Rui. História de Portugal. v. 6, (Dir.) José Mattoso. Lisboa: Editorial Estampa, 2001.
ROUSSEAU, Jean- Jacques. Emílio. V. 2, Mira-Sintra: Europa-América, 1990.
SEQUEIRA, Matos. O Mundo, Lisboa, 28 de fev. de 1923, p.1
SOUSA, José Fernando de. A Época, Lisboa, 01 de abr. de 1923, p. 3, col. 1.

Fonte:

“Sob a mira da imprensa: mulher, literatura e jornal em Portugal nos anos 20”, Suilei Monteiro Giavara e Michelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento. Congresso Internacional da Associação Internacional de Professores de Literatura Portuguesa (24.: 2014: Campo Grande, MS). Anais do 24º Congresso Internacional de Professores de Literatura Portuguesa, 20 a 25 de outubro de 2013, Campo Grande/MS/Brasil [recurso eletrónico] / Santos, Rosana Cristina Zanelatto... [et al.], organizadores. – Campo Grande: Ed. UFMS, 2014.

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terça-feira, 7 de abril de 2020

As Minhas Horas (T. Pascoaes) e Hora Absurda (F. Pessoa)

Teixeira de Pascoaes

AS MINHAS HORAS

I
Horas de dúvida cruel e de tortura,
Que se abraçam a mim, geladas, a tremer...
E levam no seu peito, impressa a tinta escura,
A efígie dolorosa e humana do meu ser.
Horas em que o Passado, o ermo, o solitário,
Nos visita e nos fala em voz de cinza e poeira...
Ei-lo surgindo, além, mais alvo que um sudário,
E, como Hamlet, traz, nas mãos, uma caveira.
Horas em que nos pesa a velha e doida herança,
O remorso velhinho em luta contra nós.
E somos pequenina e lívida criança,
Entre espectros hostis de trágicos avós!
Momentos de saudade eterna, quando tudo
Volve para o meu rosto um vago rosto ausente...
Quando, em alma despida e coração desnudo,
Eu ando ao vento frio e choro intimamente.
E logo me disperso em formas espectrais.
Sou aparência vã da Dor que me consome.
Sou alguém que a si mesmo exclama: nunca mais!
E, súbito, se vê fantástico e sem nome.
Dias mortos de Inverno os céus escurecendo...
Erma terra ao luar, cadáver insepulto.
Negra noite molhada e lúgubre, gemendo,
Que em nosso coração parece tomar vulto.
Horas de indiferença e inerte calmaria,
Isentas de prazer, de angústias, fome e sede,
Em que sou, de mim próprio, a máscara vazia,
Meu retrato pintado a sombra, na parede.
Horas falsas de cor em pardos tons de mágoa,
Em que de tudo, tudo, assim nos desprendemos,
Como a água a deixar em névoa a própria água...
E a dor de não sofrer, a dor maior, sofremos!
Horas em que abandono as regiões divinas...
Triste, desencantado, exposto às tempestades,
Sob a treva a chover dum céu, todo em ruínas,
Onde pairam — que horror! — defuntas Divindades!
Sou a lástima eterna! A humana voz sangrando,
Sem um eco de amor que, ao longe, a repercuta!
Voz, num deserto imenso e negro, suplicando!
Sempiterna oração que nenhum Deus escuta!

Momentos de aventura, ímpetos sobre-humanos...
Ó viagens no mar! Ó praias do Nascente!
E gostavam de olhar meus olhos lusitanos
Água e céu, água e céu, indefinidamente!
Desejei afrontar os grandes temporais!
Num relâmpago ver o teu perfil, ó Morte!
Ver as ondas bailar em loucas saturnais,
Ter por único amparo a frágil mão da Sorte!
Horas em que sonhei, nas ruínas, meditar;
Nesses templos de pedra e sombra, à luz da Lua,
Onde algum velho Deus, pobre fantasma a errar,
Pára, junto de nós, e é fria estátua nua...
E sonhei vaguear, saudoso e solitário,
Sob um luar nascido em montes da Judeia...
Ver, em sombra espectral, o drama do Calvário
E a representação fantástica da Ceia!
Ver Marta, Salomé, nas trevas da Paixão!
E, aos pés da cruz, tombado, o corpo de Maria.
Ver, à nublosa luz de íntima invocação,
O que viu Madalena, à clara luz do dia...
Ser nómada! Viver errante! Que aventura
Nesses desertos da Ásia! Eu vejo, dentro em mim,
Planícies de aridez extensas de brancura;
Ermos que a Sede alonga em areais sem fim!
E desejei perder-me entre as florestas virgens!
Ser homem primitivo, em luta contra as feras!
E cercado, a tremer, de pálidas vertigens,
Meus olhos sepultar na boca das crateras!
O negro e doido encanto, em nós, a rir, a rir!
Dir-se-á que nos deslumbra ardente labareda!
Que prazer não seria, ó meus irmãos, sentir
Num abismo sem fundo uma perpétua queda!
Momentos de delírio e de desvairamento,
De grandes sensações que se apagavam logo!
Momentos em que fui mais louco do que o vento.
Fazendo, à minha vida, o que ele faz ao fogo.
O trágico destino! Horror! Fatalidade!
Almas que andam, de dia e noite, embriagadas.
Sensíveis para além da Sensibilidade
E vivas para além das cousas animadas!
Ai de nós! Ai de nós! Vede que estranha sorte!
Cair, cair, cair, sem descansar jamais...
E esse espaço que vai do nascimento à morte
É a hora em que o profundo Abismo contemplais!

II
Horas em que eu medito, absorto e comovido,
Na branca solidão da noite misteriosa,
Sob a Lua a emanar etéreo mármor' fluido,
Que é um sepulcro evolado em sombra luminosa.
Momentos em que anima os pobres versos meus
A luz espiritual, que, em névoas, resplandece,
Quando, de joelhos, rezo e a tarde me entristece
E o meu ansioso olhar quase descobre Deus.
Momentos em que vivo o sonho, oculto e mudo,
Sonhado em cada cousa humilde, que se esconde;
Quando vejo crescer, crescer, diante de tudo,
Essa interrogação a que ninguém responde!
Momentos em que sou o incompreendido, o eleito,
Sentindo-me afogar na torva escuridade...
E toco a Imperfeição, a fim de ser perfeito,
Porque entender a treva é ser a claridade.
E posso contemplar o Abismo; ver-lhe o fundo!
E trémulo de medo, ébrio de horror e encanto,
Oferto a Deus, à Dor e aos astros o meu canto,
Ao percorrer sozinho a noite deste mundo.
E vou cantando o amor e a terra abençoada,
Quando a Esperança inflora os arvoredos nus,
E o sorriso dum Anjo, além, é madrugada,
E todo o espaço vibra em comoções de luz!
E sou nuvem de sonho, ao vento que perpassa.
A divina Pureza, a Infância original,
A essência da Alegria, o espírito da Graça
E a presença da Dor, sombria, já carnal...
Horas em que me exalto e elevo intimamente.
Nos meus olhos, um astro acorda: uma oração,
Uma lágrima pura, à luz do sol, tremente,
Uma gota de orvalho, em brasa, na amplidão...
Horas em que me enleva o marulhar das fontes.
A dor da água aflora, em mimos de verdura.
Manhãs de Abril, doirando os pobrezinhos montes,
Esboçam o perfil sagrado da Ternura.
Horas em que meu ser, subindo além da Vida,
Mostra a sua figura, ao longe, esplendorosa;
Aqui, na terra obscura, é feia e dolorosa,
E lá, cristal aceso e pérola incendida!
Horas em que a Verdade às almas se revela...
Horas de Eternidade e graça repentina,
Quando ouço murmurar a mais longínqua estrela
E o silêncio em que desce, ao mundo, a voz divina.
Horas em que uma fonte, humilde, que chorava,
Deu formas de harmonia ao meu primeiro canto...
Dos meus lábios nascido, em pleno céu, pairava,
Caótico de sombra e de nocturno espanto!
Horas em que, sofrendo, a Divindade imploro;
E sinto, no meu peito, o coração aflito!
E há Serafins bailando, ao som da Lira de ouro
Que a gente vê brilhar, à noite, no Infinito...
Horas vivas de luz, de amor e de esperança
Que infloram, ao passar, as bordas dos caminhos...
E fico extasiado a ouvir, como em criança,
A alegria do sol cantar nos passarinhos!
Horas de oiro em que sou igreja alumiada.
Íntima aleluia etérea me deslumbra...
Surge, d'além da serra, a Deusa da alvorada,
E o seu perfil, lá fora, alveja na penumbra.
Horas que são irmãs da Hora derradeira.
Em que a terra nos abre o seio todo em flor.
E alcançamos, enfim, presença verdadeira
E somos nós, enfim, diante do Senhor.

Teixeira de Pascoaes, Terra Proibida, Coimbra, Tip. França Amado, 1899 [1900] (1.ª ed.).




Lírico, Teixeira de Pascoaes canta «ingenuamente» impressões, estados de alma, coisas imaginárias: os «lugares santos» da infância, a montanha, a fonte (...) a névoa que sobe do rio (...) o amor que se estende à Natureza inteira. Dissolve o mundo em alma e melodia (...) Por temperamento ou vocação, Pascoaes é muito mais um solitário que um homem convivente. Individualista estreme, exigente de autenticidade (...) repudia a personagem social que os outros nos levam a representar, a máscara em que nos anquilosamos; (...) dá-se à contemplação, olha para dentro de si. Mas que descobre dentro de si? Além de imagens vácuas, algo de impalpável, que não consegue apreender.
Todavia, o lado cristão, e até franciscano, da sua delicada sensibilidade leva-o a interessar-se pelas dores e injustiças do mundo. Se virmos bem, há uma constante social na sua obra (...) uma simpatia universal, um amor que se estende, fraterno, a todas as criaturas, abraçando os pobres e os tristes do mesmo modo que as árvores, as pedras humildes e as estrelas. Amor de natureza religiosa, radicado num profundo respeito pelo mistério de todas as almas.
Longamente, obsidiantemente, até ao último alento, Pascoaes há-de reelaborar os seus temas, aprofundar (...) a sua «filosofia» ou concepção intuitiva do Universo (...) Todas as «verdades» que Pascoaes proclama, em prosa e verso, com a segurança dum iluminado, não passam, afinal, de momentos dum processo dialéctico sem fim.
Se as suas visões são quiméricas, Pascoaes professou toda a vida a Quimera com uma fidelidade assombrosa, marca duma excepcional qualidade humana (...) Não veio trazer-nos «soluções», mas «inquietação».
Do Prefácio de Jacinto do Prado Coelho
Obras Completas de Teixeira de Pascoaes. Poesia. Volume IBelo; À Minha Alma; Sempre; Terra Proibida. Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho. Amadora, Livraria Bertrand, [1965].


Se o eu é uma espera, a saudade pode ser morada?
por: Roberta A. P. de F. Ferraz

Passamos agora à leitura do segundo poema de Pascoaes, “As Minhas Horas”, do livro Terra Proibida, de 1899. O próprio título já desencadeia uma sequencia de possibilidades de começo de leitura: trata-se das ‘horas que são minhas’? ‘Horas que eu guardo, conservo, que eu saúdo, possuindo-as’? ‘Horas em que sou? Que possuo a mim mesmo?
O longo poema, em seus vórtices de claro-e-escuro, é também um exemplo interessante da poética pascoaesiana, em todo seu estilo ‘vocacionado’ ao drama epifânico, em suas exclamações e torrentes, nas imagens paradigmáticas da totalidade e da relação entre poema (voz/canto) e mundo intensamente projetada na ‘imensidão íntima’ do sujeito lírico. Com métrica regular, explora o verso alexandrino, em sua versão já mais livre, próxima à maneira como vinha sendo trabalhada pelos simbolistas; com rimas alternadas ABAB/CDCD ao longo dele todo, o poema nos embala numa toada de ‘barco ébrio’, em tom grandiloquente e efusivo. O poema, dividido em duas partes, começa assim:
I
Horas de dúvida cruel e de tortura,
Que se abraçam a mim, geladas a tremer...
E levam no seu peito, impressa a tinta escura,
A efígie dolorosa e humana do meu ser.
Horas em que o Passado, o ermo, o solitário,
Nos visita e nos fala em voz de cinza e poeira...

Há todo um universo escuro, noturno, doloroso, que assalta o sujeito num abraço frio, revelando-o a si mesmo, em “efígie dolorosa”, por meio de um contato com o ‘coração destas horas’, seu centro, feito de “tinta escura”. A hora, portanto, abre-se à escrita escura de si própria, iniciada pela tessitura de uma efígie, que pode ser compreendida como medalha ilustre com que se lembra de alguém (de si próprio, no caso) ou, mais radicalmente, apenas como um ‘retrato’, uma ‘imagem’, representação. O sujeito em espera, na fruição de suas horas, reflete sobre as coisas que o refletem em retorno, um retorno, em primeiro momento, bastante perturbador. Estas horas são as horas em que o passado ‘fala’, vem em ‘visita’, perante o qual, imerso nele, o sujeito se sente mínimo, como uma criança pálida “e somos pequenina e lívida criança, / entre espectros hostis e trágicos de avós!”. É neste ‘terror-maravilhoso’ que mora o eixo dramático da ambiguidade da saudade, pois é nesta situação, que o sujeito saúda o que cantar. São estes os “Momentos de saudade eterna, quando tudo / Volve para o meu rosto um vago rosto ausente”.
O presente em si, fora da visitação do assombro, é apenas tempo de espera, humano em demasia. Espera não da morte, mas da compreensão das origens e dos fins, e mais: espera dessas horas, em que o presente submerge no assombro de um tempo outro, mais que passado, um fóssil do passado; e se mistura com tudo, perdendo a sua especificidade carnal de nula espera. A Saudade é esta ponte afetiva, o sentimento visionado, revelado, do além, que a tudo contagia e dissolve. Mas muito mais que biográfico ou familiar, muito mais que até humano, esse ‘além’ busca a fagulha, a centelha, o princípio total da criação. Para corresponder a uma organicidade, uma ‘naturalidade’, o poema se faz com um sentido rítmico processual, de desenrolar sequenciado, em que as coisas, ao se tocarem, se consubstanciem, em eterna mutação. Ainda na parte I do poema lemos:
Horas de indiferença e inerte calmaria,
Isentas de prazer, de angústias, fome e sede,
Em que sou, de mim próprio, a máscara vazia,
Meu retrato pintado a sombra, na parede.
Horas falsas de cor em pardos tons de mágoa,
Em que de tudo, tudo, assim nos desprendemos,
Como a água a deixar em névoa a própria água...
E a dor de não sofrer, a dor maior, sofremos!
Horas em que abandono as regiões divinas...

Aqui podemos, tirando o tom grandioso e autopenitente, ouvir quiçá um eco de Pessoa, quando diz que são horas “Em que sou, de mim próprio, a máscara vazia, / Meu retrato pintado a sombra, na parede”. Novamente a efígie, o retrato, volta à cena, a reafirmar a imagem “dolorosa e humana do meu ser”. Depois de levado a cabo esse processo de alheamento pela saudade, essa perda do sensível e de si, abre-se, num painel, como numa visão ou um cinema transcendental, o real aventuroso (ainda parte I):
Momentos de aventura, ímpetos sobre-humanos...
Ó viagens no mar! Ó praias do Nascente!
E gostavam de olhar meus olhos lusitanos
Água e céu, água e céu, indefinidamente!
Desejei afrontar os grandes temporais!
Num relâmpago ver o teu perfil, ó Morte!
Ver as ondas bailar em loucas saturnais,
Ter por único amparo a frágil mão da Sorte!
Horas em que sonhei, nas ruínas, meditar;
(...)
E sonhei vaguear, saudoso e solitário,
Sob um luar nascido em montes da Judeia...
Ver, em sombra espectral, o drama do Calvário
E a representação fantástica da Ceia!
Ver Marta, Salomé, nas trevas da Paixão!
E, aos pés da cruz, tombado, o corpo de Maria.
Ver, à nublosa luz de íntima invocação,
O que viu Madalena, à clara luz do dia...
Ser nómada! Viver errante! Que aventura

A partir desta ‘hora’, equilibrados os contrários entre exaltação e queda, o transe se inicia e o sujeito embarca na viagem, em que segue o poema, e numa vivência dinâmica da natureza e da história, revive cenas míticas e fundadoras do seu próprio assombro: dos mares nunca dantes navegados, lusitanos, ao Calvário com seus episódios bíblicos, sempre em companhia de mulheres (Marta, Salomé, Maria e Madalena), que o cercam como se ele encarnasse o próprio Cristo “em sombra espectral”.
A meditação, depois da viagem e de sua queda, transforma-se em prece, oração, quando seu “olhar quase descobre Deus”. Com um tom mais acalentador, de recolho do vivido (em transe) e remeditação sobre ele, vê-se como a escrita se enovela em si mesma, servindo-se de alimento a mais escrita, numa espiral em que a voz, mesmo se cansando, hora ou outra, é dotada de um fôlego excessivo, que se traduz na imensidão do próprio poema. A ‘quase’ descoberta de Deus expande na voz a pergunta sem resposta, “Quando vejo crescer, crescer, diante de tudo / Essa interrogação a que ninguém responde!”, e faz do sujeito poético o “incompreendido, o eleito” que oferta “a Deus, à dor e aos astros o meu canto / Ao percorrer sozinho a noite deste mundo”:
É então que, ao tocar no fundo da mudez de qualquer resposta, o poema se transmuta em força generosa, de renascimento. É bastante interessante notar o tom intenso das movimentações entre alto e baixo que o poema apresenta, movimento que busca de uma harmonia entre as coisas, um romântico casamento, lembrando William Blake, entre céu e inferno. E o poema finaliza, apoteótico, crente de si mesmo, potente de seu canto:
Horas em que me exalto e elevo, intimamente.
Nos meus olhos, um astro acorda: uma oração,
(...)
E fico extasiado, a ouvir, como em criança,
A alegria do sol cantar nos passarinhos!
Horas de oiro em que sou igreja alumiada.
Íntima aleluia etérea me deslumbra...
Surge, d’além da serra, a Deusa da alvorada,
E o seu perfil, lá fora, alveja na penumbra.
Horas que são irmãs da Hora derradeira,
Em que a terra nos abre o seio todo em flor.
E alcançamos, enfim, presença verdadeira
E somos nós, enfim, diante do Senhor.

Este poema religioso culmina com o aparecimento da estrela matutina, uma Vênus que é mãe e guia de toda a sensibilidade pascoaesiana, fundindo nela Amor e Saudade, vindo com a aurora. É com a figura feminina desta deusa tutelar que o real se reveste de “presença verdadeira” e finalmente, o encontro esperado se cumpre, e o sujeito, já coletivizado em “nós”, não é mais uma sombra-quase, mas um ‘mundo todo’ diante, frente a frente, com o Senhor.

A saudade em Pascoaes e Pessoa, uma leitura de As Minhas Horas de Teixeira de Pascoaes com Hora Absurda de Fernando Pessoa

Chamemos à roda Fernando Pessoa. O poema “Hora Absurda”, publicado na revista Exílio, em 1916, mas contendo rubrica com a data de 1913, imbui-se também de uma atmosfera decadente-simbolista, conforme propagada pelo editorial da revista.
Ressaltamos que, neste brevíssimo estudo, exercitamos uma leitura do poema pessoano num diálogo crítico com o poema analisado de Pascoaes, e com todo o universo eloquentemente entusiasmado das estéticas em que fusionam e imbricam sujeito, mundo, poema. Na “Hora Absurda”, já de início, nenhuma hora é de ninguém. O constante uso do pronome possessivo, por Pascoaes, é aqui já imediatamente, no primeiro verso, deslocado para um ‘tu’, implicando o leitor no poema e/ou uma personagem outra a quem o poema se dirige, ou seja, negando a assoberbada referência a qualquer eu. O poema começa assim:
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia... e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

O tom jocoso, de blague com a sonoridade escancaradamente de influência simbolista, com versos longos que variam de 13 a 17 sílabas, porém trazendo à memória, pelo recurso das sílabas tônicas, o andamento do alexandrino, já nos mostra, de cara, um poema moderno, em que são somados aos procedimentos decadentista-simbolistas as ideias que Pessoa vinha desenvolvendo com o sensacionismo e o interesccionismo, trazendo ao ‘sutil e ao complexo’, com que caracterizara a nova poesia portuguesa, a ‘ideação complexa’, ou seja, o raciocínio meticuloso elaborado na criação. O poema abre apontando um ‘tu’ que, portanto, já nos projeta para fora do poema pelo poema, para fora de um lirismo de um sujeito, ou ainda, para um sujeito fora de si.
As imagens, dispostas como estão, conduzem ao grotesco e ao riso nervoso, quando, por exemplo, após um verso pseudo-sentimental como “Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...” aparece a afirmação de que “minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia”. A ideia de ‘pintar a paisagem’ desta hora que seria uma hora mística na sensibilidade afetada do neorromantismo, verte-se de plena irrealidade, onde a cor “erra”. Assim, desmascarando a volúpia transcendental de ‘certas horas’ vagueadas por sujeitos embebidos da musicalidade onírica, o poema vai, imagem por imagem, desconstruindo-as, tirando-lhe as partes, desmembrando-as, numa sucessão de desencontros, revelando não mais um sujeito que plasma, pela voz, o real, mas, em seu revés, um sujeito ‘qualquer’ que, entediado ou moroso, só pode lhe pode continuar as sequelas ou então fingir paraísos:
Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p’la maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...
Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Íntimo desta hora absurda, o sujeito ordena-lhe que “Abra todas as portas e que o vento varra a ideia / que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões”, ou seja, intima-a a acabar com a sua ‘farsa nebulosa’, que se deixe arejar. E, voltando a encenar o dramalhão estético, voltando a falar da ‘alma’, deixa-a afogar na imagem da caverna em maré cheia, rompendo com o platonismo visionário de qualquer gente fora ou dentro da caverna: fora ou dentro da caverna, só há o mar. A ideia de ‘sonhar’ esta ‘hora absurda’ parece-lhe um carro de bufões, uma “caravana de histriões”. O ridículo assola, portanto, todo e qualquer transcendentalismo, e o ridículo dele é o ridículo do sujeito que o vocifera, pois, como revela o poema, o eu e a hora são tambem um ‘tu’ em escombros: “Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora / E a Hora é de assombro e toda ela escombros dela”. Ao assombro do sujeito de “As minhas horas”, de Pascoaes, respondem-lhe os escombros do assombro, pois, sem a elasticidade da ‘imensidão íntima’ do sujeito de cariz romântico, este sabe que “No meu céu interior nunca houve uma única estrela”.
O poema segue, fora de ciclo, sem qualquer laço de continuidade entre sujeito-poema-mundo, apresentando fragmentos de cenas, pequenas totalidades em ruínas, que só nos leva a constatar a relatividade constitutiva de tudo, a ausência de compreensão e de realização, para além do poema, de sujeito e realidade. As coisas são do poema e ainda assim, são em ‘cacos’. Num sem sentido que se alastra feito erva daninha, pelo desenrolar do poema, do qual “ninguém” sente saudades:
(...)
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

Apesar do abandono parecer dor (fingir-se dor a dor que deveras sente), a primeira vez em que o poema nomeia a palavra saudade, é para negá-la, ou quando muito relativizá-la, através da cesura: “Ninguém ergue o olhar da estrada / E sente saudades de si”. O enjambement dos versos reforça uma ambiguidade interessante, já que o verso “E sente saudades de si”, aparentemente positivador da saudade, tem seu sujeito no verso anterior, cortado, o “ninguém. Apesar da beleza decadente de um palácio em ruínas e do clima crepuscular-outonal da paisagem, “ninguém ergue o olhar da estrada”. E a estrofe é arrematada por um dos versos que mais fortes da obra pessoana: “Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada”. Ironia fina, quando o sujeito, assemelhando a paisagem à escrita, diz, numa imagem belíssima, que está a “frase mais bela cortada”...
Quando reaparece o termo ‘saudade’, na escrita da hora absurda, novamente ela é negativa, um não-ser que a constitui. A saudade aqui, em Pessoa, não é ponte de contemplação das horas, que leva o sujeito ao encontro das coisas. A saudade aqui é sempre um não: ou uma falta que não se preenche, ou uma falta que não se tem. As coisas desistem, não insistem na mágoa da distância. Não hã no poema qualquer pretensão de salvar qualquer coisa de sua infalível derrocada:
Ergueram-se a um tempo todos os remos... Pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar... Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Independentemente do poema pessoano fazer-se ou não, num diálogo de fato, como o poema de Pascoaes, fica claro para nós que o poema de Pascoaes é representativo desse imaginário que Pessoa vem, habilmente, decalcar com ironia, mostrando o seu distanciamento estético, por meio de um, digamos, pastiche dele. Imbuído de traços futuristas, o apelo do corte segue afirmativo:
É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

As serras que acalmavam, em Pascoaes, a paisagem e convidavam à escalada aqui não passam de máquinas que gemem um “ruído brusco”. Depois de inventariar as diversas ocorrências possíveis a uma “hora absurda”, desarticulando-as de um sentido unificador, o poema se inclina, como uma prece (em paralelismo portanto, em pastiche, com o fôlego pascoaesiano) que é mais uma resignação, não saudade. Pára a chuva dentro da hora (que é o sujeito) e o retrato deste rosto em fragmentos deixa que lhe caia por sobre, a “tarde rica”. O que se abre no vasto do céu não é um azul promissor, um face-a-face com qualquer divindade, mas “um grande sorriso imperfeito” que se dá, ao sujeito, como prece. Ou seja: a prece, aqui, é o real; o sonho, a fuga, o além não passam de máscaras de inutilidade: “A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece”. Após esta constatação, no paradoxo que é próprio da poética pessoana, há a projeção, a ideação, de alguma coisa. Porém o que se projeta não é mais a vida subjetivada em expansão, mas o desejo de ser ‘coisa’, o desejo de se plasmar num simples objeto sem vida, que mal se vê, mas se advinha feito de luz e de beleza: “Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!..”, ou então, “Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...”. O sonho deste sujeito, vejam, não é ser a ‘bandeira de glória’, mas as ‘duas cores’ dela, apenas as cores. O abandono inorgânico e a renúncia vivida esteticamente, podem ser, enfim, um modo de ‘descansar’ do excessivo tônus com que o sujeito, no seu canto ainda romântico, se autoinvestia, clamando aos brados um real, que, já se sabe, é falido e não responde. No entanto, ainda, esta consciência da ‘recusa’ não chega a aplacar o sujeito:
O que é que me tortura?... se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...

A ‘efígie’ retorna, do poema pascoaesiano, “As minhas horas”, de uma composição intensa de sombra-e-luz, a este ‘grand finale’ do poema pessoano, que nada conclui, suspendendo o poema em si mesmo, legando-nos um retrato que é rastro de reticências, que não funcionam apenas como sinal de prolongamento ou continuidade, mas sim como hora absurda, em que suspensos, descobrimos que, se a hora não tem fundo, não tem fundamento, não tem princípio (mas tem fim), e nada podemos conhecer.
Depois de percorrido o contato intenso com o nada, ‘hora saudosa’ em sua faculdade germinadora, potente e dramática, em Pascoaes; e o nada em seu desfigurante vácuo pessoano, ‘hora absurda’, desiludido e lucidamente consciente; trazemos de volta o poema de Eliot, antes de sua entrada nos corredores indo dar ao roseiral: “O que poderia ter sido é uma abstração / Que permanece, perpétua possibilidade, / Num mundo apenas de especulação”(ELIOT, 2006, p.5).
Duas formas de uma (talvez) (mesma) ausência? O seu lado positivo, chamado saudade, em Pascoaes, entregando-se ao estertor de um mundo já quiçá insustentável pelo arrimo romântico, e o seu lado negativo, reativo, negador da saudade, não necessariamente pela falta de saudade, mas mais pela falta que constitui a saudade, ‘falta’ que permanece em ‘falta’, ou seja, que não virá preencher a si própria, como num passe de mágica poética. Há, sim, saudades no ‘Cancioneiro’ pessoano, íntimos diálogos não parodiados estabelecidos com a energia outonal, melancólica e passadista louvada por Pascoaes. Para este trabalho, porém, escolhemos trabalhar mais o ponto de dissenso entre essas relações, que um e outro traçam, na habitação e convívio com as estéticas finisseculares e o apelo de ‘ausência’ que elas sustentam.

Fonte:
Roberta A. P. de F. Ferraz, “A saudade em Pascoaes e Pessoa, uma leitura de As Minhas Horas de Teixeira de Pascoaes com Hora Absurda de Fernando Pessoa” Congresso Internacional da Associação Internacional de Professores de Literatura Portuguesa (24.: 2014: Campo Grande, MS). Anais do 24º Congresso Internacional de Professores de Literatura Portuguesa, 20 a 25 de outubro de 2013, Campo Grande/MS/Brasil [recurso eletrónico] / Santos, Rosana Cristina Zanelatto... [et al.], organizadores. – Campo Grande: Ed. UFMS, 2014.



HORA ABSURDA   | Fernando Pessoa

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida pela maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia... a Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...

Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-Outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros...
E que querem ao lado aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...

Porque me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes... Ainda
Há rastos de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...

Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...

Ergueram-se a um tempo todos os remos... Pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar.. Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Porque não há-de ser o Norte o Sul?... O que está descoberto?...

E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Porque não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque —
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há-de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã — como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave. como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema — Vitória!

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...

4-7-1913
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). 
 - 21.
1ª publ. in Exílio , nº 1. Lisboa: Abr. 1916.


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