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terça-feira, 12 de junho de 2018

Aqui Portugal é diferente

Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
minha mãe era ninfa, meu pai chuva de lava
mestiça de onda e de enxofres vulcânicos
sou de mim mesma pomba húmida e brava.
Natália Correia, Cântico do País Emerso

Nas veias corre-me basalto negro
Manuel Medeiros Ferreira,“Ilhas de Bruma”

Ao pasto e à onda me unirei sincera
Natália Correia, “Mãe-Ilha”





«Há quase 600 anos que aqui estamos e, desde o início, a evidência foi que, aqui, Portugal é diferente.
Nuns casos, por nós, noutros, por outros, aqui, Portugal é diferente.
Não esquecemos de onde viemos, nem ignoramos onde estamos.
Mas, sobretudo, sabemos quem somos.
A História e a Geografia deram-nos forma, mas é o “intenso orgulho na palavra Açor”, nas palavras de Sophia de Mello Breyner, que dá o sopro de vida a esta identidade que empunhamos.
E esse orgulho não é vão, nem é vazio.
É, desde logo, o orgulho que pode ter, é o orgulho que tem quem aqui resiste.
A tempestades e a terramotos;
A vulcões e a piratas;
De quem já resistiu à fome, às pragas, à solidão e, em alguns casos, ao esquecimento;
Resiste e persiste, reconstruindo, reerguendo, refazendo.
Esse é o orgulho de quem tem uma aguda consciência de si próprio.
E essa aguda consciência de nós próprios – talvez por estarmos sós na vastidão do Atlântico ou, talvez, simplesmente, por em tantas voltas da vida, termos estado simplesmente sós -, é, no fundo, quase como que a chama eterna, o fogo sagrado que anima o Povo Açoriano.
E neste “intenso orgulho na palavra Açor” está também o orgulho do que demos e do que damos pelo nosso País.
Demos Presidentes da República, cientistas e militares;
Demos embaixadores, ministros e escritores;
Demos pensadores, políticos e poetas;
Demos Homens e Mulheres desconhecidos que, nas Américas e não só, pelo seu suor e pelas suas lágrimas, afirmaram e afirmam Portugal aí;
Demos guarida ao último reduto da nacionalidade e fomos ponto de impulso para as batalhas pela modernidade;
Demos homens e demos jovens que, por Portugal, deixaram a sua vida num qualquer campo de batalha, e que, mesmo quando aí não deixaram a vida, em muitos casos, deixaram partes de si próprios, do corpo ou do espírito.
E tudo isto fizemos sem nunca impormos condições nem moedas de troca.
Tudo isto fizemos “com um intenso orgulho na palavra Açor”.
E, se tudo isso demos no passado, hoje continuamos a dar.
Os Açores são terra de mar.
Damos dimensão estratégica e damos importância pela terra que temos e pelo mar que trazemos.
Nesta nova fronteira, que já suscita a cobiça de muitos, Portugal é o que é, porque os Açores são o que são.
Damos empenho e damos território na construção de pontes e parcerias para a paz, para a ciência e para o conhecimento.
Damos testemunho de uma Autonomia que foi, é e quer mais ser por causa dos desafios que já venceu, mas, sobretudo, por causa dos desafios que quer vencer.
Damos presença em áreas de vanguarda da exploração e do conhecimento espacial, reforçando a importância e a mais valia de Portugal.
E é por tudo isto, e por tanto mais, que não podem restar dúvidas que, aqui, Portugal é diferente.
E não queremos que deixe de ser Portugal, mas também não queremos que deixe de ser diferente.
Porque esta nossa diferença não nos diminui em nada.
Porque, no fundo, é esta nossa diferença, do que somos como Povo e como Região, que faz Portugal mais forte!
E é por tudo isto que hoje digo, que hoje podemos dizer,
Vivam os Açores!
Viva Portugal!»

Intervenção do Presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, proferida em 2018-06-09, em Ponta Delgada, na receção ao Corpo Diplomático, no âmbito das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

domingo, 18 de março de 2018

25 anos sem Natália Correia, a mulher da língua de fogo



Um quarto de século da morte da escritora, editora e deputada que animou tertúlias famosas no mítico Botequim. Lembramo-la com a ajuda de biógrafas, estudiosas da sua obra e quem a conheceu de perto.

“As causas, as pessoas do coração e do sonho, e da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação”. Assim lembra Fernando Dacosta Natália Correia, em O Botequim da Liberdade, livro cujo título recupera a afamada tertúlia do bar do Largo da Graça. Continua a sua evocação em termos extremos – porque era extremada a figura que pretendeu retratar: “Sabia indignar-se com grandeza – e indignar os outros à sua altura. Era uma mulher inigualável. Nos caprichos, nos excessos, nas iras, nas premonições, nos exibicionismos, na sedução, na coragem, na esperança. Cantava, dançava, declamava, improvisava, discursava, polemizava como poucos entre nós alguma vez o fizeram”.
Há 25 anos, a 16 de Março de 1993, morreu, com 69 anos, uma figura maior da vida intelectual portuguesa, com obra vasta e diversificada, e uma personalidade excessiva, ora generosa ora colérica, em terra associada ao comedimento e à brandura no espírito, na pose e no gesto. Usar a expressão “saiu de cena” não é descabido – porque Natália era uma performer, alguém que representava o que deveras era. E que assim se apresentava no bilhete de indentidade, referindo-se ao arquipélago onde nascera e que em si permanecera:
“Sou da ilha das línguas de fogo. Com elas aprendi a metrificar o espírito. O indizível”.
Ângela Almeida, escritora e investigadora, doutorada em Literatura Portuguesa com uma tese sobre a simbólica da ilha e do Pentecostalismo em Natália Correia, caracteriza assim a relação que esta mantinha com as ilhas açorianas: “Conforme a própria autora escreveu em documento inédito, tinha uma relação ‘visceral’ com os Açores, muito especialmente com a ilha-mãe”. Lembre-se que a autora de “Mátria” e “A Ilha de Circe” viveu na ilha de São Miguel até aos 11 anos, indo depois viver para Lisboa na companhia da mãe e da irmã. Esses anos muito a terão marcado. Diz Ângela Almeida, que, além de ter feito a pesquisa na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada dos inéditos, escreveu a introdução e as notas dos recém-reeditados livros Descobri que Era Europeia – Relato de Viagem aos EUA em 1950, e Entre a Raiz e a Utopia (Ponto de Fuga): “Como viveu na ilha natal um templo de pleno amor, paz e liberdade, tendo cedo conhecido o culto do Espírito Santo, visionava nas ilhas aquilo a que chamava ‘o último reduto da portugalidade’”.
Ana Paula Costa, autora da Fotobiografia de Natália Correia (Dom Quixote, 2006), abre as páginas da Poesia Completa e lê um sublinhado que fez quando preparava o trabalho:
“Basta cerrar os olhos e fixá-los na constelação das turmalinas mais rápidas do sangue para saber que a ilha é a mãe que se fecha na sua insânia de morta a percorrer impudicamente as nossas artérias.”
O excerto é retirado de A Mosca Iluminada, de 1972.
O abandono da ilha. A viagem aos Estados Unidos (1950). O casamento com Alfredo Machado (“o amor da sua vida”, para muitos). A amizade com António Sérgio, Almada Negreiros e Vitorino Nemésio. A criação do Botequim e todas as tertúlias que lá se fizeram. A amizade com Sá Carneiro que também incluía a admiração pela circunstância de ter assumido perante a sociedade a sua relação com Snu Abecassis.
Estes são alguns dos momentos da biografia da autora de A Madona destacados por Ana Paula Costa. Ângela Almeida acrescenta outros: todo o tempo vivido num ideal cooperativista, ao lado de figuras como António Sérgio e Urbano Tavares Rodrigues, lutando sem medo contra a ditadura, não obstante os livros apreendidos, e a condenação em tribunal pela publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. A  esperança que viveu com a chegada da Revolução do 25 de Abril e o desencanto posterior, quer pelo domínio comunista que se seguiu, quer por nunca ter sentido que os ideais tivessem sido realmente alcançados. “Ainda a sua acção interventiva, desde tenra idade, a favor do integral cumprimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e da Paz, enquanto direito universal, que só poderia ser trazido pelo Amor”.
A sua afamada passagem pela Assembleia da República, na qualidade de deputada, e as intervenções que a tornaram conhecidas – como do poema do “Morgado” – não são, no entender de Ana Paula Costa, o que de mais importante se terá passado na sua vida. Lembra o que escreveu sobre o assunto:
“Não tenho qualquer espécie de carreira. Fui deputada porque me pediram para introduzir o discurso cultural no Parlamento, o que fiz nunca abdicando de me dedicar à minha obra literária que se desdobra em vários géneros”.
Mulher de paixões, valorizava muito a amizade. Um dos seus amigos fundamentais foi David Mourão-Ferreira, que dizia que ela era a irmã que nunca havia tido. David Ferreira, filho do autor de “As Lições do Fogo”, recorda essa irmandade. Conheceu-os como irmãos de temperamentos muito diferentes, irmãos pela camaradagem e pela convergência em matérias muito importantes: contra o Estado Novo e contra qualquer condicionamento estético e ideológico (“contra o pior neo-realismo, por isso”), contra o puritanismo e a moral burguesa, novos e abertos ao novo mas sem paciência para o modernaço, poetas, estudiosos e divulgadores da poesia de outros séculos, atraídos pela música e sem preconceitos contra o fado. E europeus convictos.
As reedições da Ponto de Fuga
David Mourão-Ferreira admirava-lhe a coragem e foi sua testemunha quando Natália encontrou problemas com a Justiça. “Depois da Revolução”, conta David Ferreira, “tiveram trajectórias parecidas: próximos do PS a certa altura, afastando-se depois (a Natália aproximando-se do Sá Carneiro, o meu pai do Eanes), reaproximando-se do Mário Soares no fim”. Foi a suspensão pelo Conselho de Redacção d’’A Capital’ de um artigo de Natália Correia que levou David Mourão-Ferreira a demitir-se, em 1975, do cargo de director do jornal.
David Ferreira, que após o trabalho na edição discográfica durante quase 40 anos se dedica hoje à realização de vários programas na Antena 1, lembra, a propósito, um serão histórico que juntou Vinicius de Moraes e Amália Rodrigues, nascido num jantar de Vinicius em casa de David Mourão-Ferreira, ao qual Amália não pôde comparecer por estar constipada, acabando por lhe pedir para se dirigirem à sua casa. “Eram muitos em casa do meu pai nessa noite. Uns tinham vindo ao jantar, outros vieram depois para estar com o Vinicius. E como nessa altura moravam perto acabou tudo em casa da Amália”.
Só faltou o material de gravação adequado para registar o encontro. Mas o seu tio Rui Valentim de Carvalho também apareceu e combinaram logo repetir o serão, agora preparados para gravar um disco. “A Natália, claro, era um dos amigos que desceram da Estrela para a Rua de São Bento”. Na sequência disso, veio a gravar vários discos, entre 1968 e 1974 (uns para a Valentim de Carvalho e outros para a Sassetti) de poesia sua e de poesia medieval (um deles com a própria Amália).
O juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça e ex-ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio, autor dos romances O Chamador e O Homem que Escrevia Azulejos (ambos editados pela Quetzal), define com estas palavras a sua relevância: “Da poesia, do teatro, do romance, mas também da política, da intervenção cívica, fez lugares para si, púlpitos para o discurso da transcendência que apontava como desígnio das gentes. Desprezando o banal, renegando o vulgar, a sua luta travava-se no palco das ontologias, ali, onde a verdade não conhece concessões”.
Laborinho Lúcio foi um dos frequentadores do Botequim, aonde afluíam, entre outros, políticos, intelectuais e artistas. Refere que “era má a notícia, dada à entrada pelo barman, de que ‘a senhora dona Natália hoje não vem’”. Sem Natália, o Botequim era apenas um bar. Aí, afirma, “ao contrário do julgamento de muitos, todos eram figurantes. Vedeta, era só ela”. Discutia-se política, políticas e políticos, acontecimentos mundanos, paixões reveladas, segredos espreitados, revelações literárias, temas que haveriam de ser assunto de todos, conspirava-se. “Natália tinha, porém, a palavra final retirada do desassombro com que pensava e dizia o que pensava”. A poesia chegava mais tarde e ficava reservada para os resistentes, para os que ficavam para a ouvir. E, recorda Álvaro, Natália cantava. “Era então que voltavam as Ilhas, e o canto popular açoriano enchia a voz sonora, de um timbre perfeito, envolvendo todos na emoção de uma interpretação culta e sentida”.
O ex-ministro da República para os Açores (2003-2006) salienta um ponto essencial na sua tempera: “Natália escolhia. Tomava partido. Distinguia e agia de acordo com as escolhas que fazia”. Não gostava de Juízes, diz. “Bramava contra o Plenário. Ficara-lhe a revolta desde os tempos da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, do julgamento, da condenação. E não deixava que a memória se apagasse no registo do processo que lhe haviam movido pela edição de Novas Cartas Portuguesas”.
Até que um dia, depois de aturada resistência, que teve o Botequim como palco, aceitou participar num debate sobre ética e estética, no âmbito da formação de magistrados, a decorrer na respectiva escola, na vizinhança do bar. E tudo mudou. Segundo relatos de amigos, a partir daí passou a dividir os juízes em dois grupos, os “Plenários” e os “Outros”. “E destes, dos ‘Outros’, vários passaram a acorrer também ao Botequim onde, no entanto, nunca se sentiram dispensados de fazer prova de que o eram realmente”.
Depois de uma vida de múltiplas actividades, da escrita (do teatro à poesia, passando pelo romance e pelo ensaio) à edição, do jornalismo à política, e após muito pensar o país, a Europa e o mundo com fervor utópico e uma perspectiva apaixonada, progressista e exigente, ficou com um sentimento dividido em relação a Portugal. Ângela Almeida usa a seguinte formulação para o caracterizar: um sentimento “de encanto pelas raízes da nossa Portugalidade, onde se aloja a nossa interioridade” e aquilo que classifica como “um profundo e crescente desencanto pelo desaire neo-liberal europeu, a que naturalmente Portugal não escapou”. Era, diz, “verdadeiramente pessoana, apesar de tudo, aguardava a Hora”.
Que legado deixa a autora de Sonetos Românticos e de O Dilúvio e a Pomba? Para Ângela Almeida, o seu legado literário funde-se com o seu ideal ético. “Longe dos poetas das torres de marfim, escreveu que a literatura serve a vida e, por isso,  defendia a síntese agregadora de todas as antinomias e de todas as antíteses existenciais, que dariam lugar ao Absoluto heterodoxal, através da fusão dos  contrários, viabilizada pelo Amor incondicional, a que chamou Espírito”. Essa era, acrescenta, a morada da libertação da alma universal: longe de qualquer espécie de ortodoxia, o ser humano teria que divinizar-se pelo fogo (agregador) de Pentecostes. “Foi esse ideal de libertação humana, através dessa fusão dos contrários, que a fez estudar e amar o Trovadorismo (onde a mulher é dignificada), o Romantismo e o Surrealismo. A sua corrente literária era a sua voz pessoal”. A estudiosa realça um aspecto pouco conhecido: “Há uma profunda unidade temática entre a obra édita e a obra inédita de Natália Correia. Como se a inédita provasse o pensamento de Natália ou vice-versa”. A mesma realização do Amor Total, “muito importante para o mundo de hoje, onde as diferenças ainda não são respeitadas, antes alvo de balas de variada ordem. Veja-se o que aconteceu recentemente no Brasil, que é de gelarmos”.
Recententemente, Ana Paula Costa conheceu uma jovem professora de Português e História que não sabe quem é Natália Correia. E teme que não seja a única. É por isso que deseja que a autora que morreu há 25 anos seja descoberta pelas novíssimas gerações e mais conhecida e respeitada pelas entidades responsáveis pelo impulso de uma divulgação que, acha, ainda não começou. Considera A Madona” um romance admirável, muito pouco lido e estudado. E classifica a sua poesia, pautada por um ecletismo de forma e conteúdo, como um tesouro nacional. “O ensaio que escreveu reflecte momentos e circunstâncias do pensamento português no século XX e terá que ser, mais cedo ou mais tarde, objecto de estudo por parte dos académicos ou de jovens autores que tenham a preocupação de conhecer a herança que lhes coube”.
Ao falar do seu legado ético, nomeia a palavra “verdade”, mesmo que ultrapasse os contornos do razoável ou do politicamente correcto. “A verdade poética que, para ela e segundo ela, não é corrompível”. A professora e escritora pensa muitas vezes no que poderia dizer e escrever sobre algumas questões com que nos debatemos hoje.
A citação é recuperada por Álvaro Laborinho Lúcio. Disse Natália Correia, na linha do pensamento de Pascal, que a verdadeira moral se atinge apenas quando ela se ri da própria moral. Eis uma proclamação, remata, que bem pode ouvir-se ainda hoje, recordando-a, de pé, braço direito ao alto, voz no peito, projectada, junto ao balcão, ali, onde ela e o seu Botequim se confundiam, e agora se confundem para sempre, num só ser.
Nuno Costa Santos, "25 anos sem Natália Correia, a mulher da língua de fogo", 17-03-2018
https://observador.pt/especiais/25-anos-sem-natalia-correia-a-mulher-da-lingua-de-fogo/
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A Ponto de Fuga reedita "Descobri que era Europeia", a propósito dos 25 anos da morte da autora açoriana. Do livro fazem parte inéditos como este diário nos EUA em 1983 que o Observador revela.


“Descobri que era Europeia” é o conjunto de textos publicados originalmente em 1951 nos quais Natália Correia refletia sobre a sua primeira viagem aos Estados Unidos, sobre a descoberta de um mundo diferente e com as impressões de uma viagem marcante. É este livro que é reeditado agora, pela Ponto de Fuga, a propósito dos 25 anos da morte da autora, a 16 de Março de 1993. Nesta reedição estão incluídos inéditos, como este diário sobre um regresso à América, mais de 30 anos depois, em representação do então Presidente da República, o general Ramalho Eanes. O Observador faz a pré-publicação de um excerto desta reedição de “Descobri que era Europeia”, que chega às livrarias esta sexta feira, dia 16.

1. Voo Lisboa–Nova Iorque

3/6/1983

“E cá vou até à América do Norte, para representar o Presidente da República nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
Se ele soubesse quanto isto me custa!
Missa, parada, entrega de condecorações, e toda a banda de solenidades que são um susto para a alma de um poeta. Mas como poderia recusar a incumbência? Esse homem tem-me cumulado de manifestações de carinho e de apreço pela minha obra. Talvez um dia se perceba que a força de alma que tem permitido a Eanes conduzir sem grandes abalos o barco ébrio desta democracia é o seu respeito pela cultura, pela gente que a faz, sobretudo pelos poetas, que são os verdadeiros sacerdotes de uma cultura eminentemente poética.
Mas cá vou neste interminável voo suavizado pelo caviar, pela lagosta, pelo foie gras trouffé e pelo champanhe que a primeira classe proporciona. A par dos sorrisos das hospedeiras que são as gueixas deste vê se te avias que é o transporte aéreo. Sempre que o utilizo, previno-me com leitura sentimental. É o meu antídoto contra o desencanto de um viajar ofegante, apertadinho no bojo do dragão aéreo. Desta vez a receita é um livro sobre os amores de Venceslau de Morais. Imaginem que escolha! No fundo, bem acertada. Neste desamar gerado pela pressa, de que o avião é um produto tecnológico, sabe bem o refrigério de amores românticos, convulsões de alma, pieguices, maravilhas de um ridículo sublime que nos fez mais humanos.
Mas agora reparo que a bata que as hospedeiras puseram para servir a refeição está amarrotada, e os seus sapatos já não têm aquele chique que era a marca da mulher portuguesa, requintadíssima no calçar. Isso deve ter alguma coisa que ver com um Portugal que se amarrota por não ter gosto nenhum para acompanhar o tal progresso que tem como apoteose o foguetório da bomba atómica. Pois é esse Portugal que eu vou representar junto das comunidades portuguesas na América. Que dizer-lhes? Que o país é a bem-aventurança dos piores, o paraíso dos parasitas, o picadeiro dos garanhões das ganâncias partidárias? Impossível transmitir-lhes este desconsolo nacional. Mas que lhes direi? Que os amores do exilado Venceslau de Morais me inspirem, pois vou falar para exilados.
E não seremos nós todos portugueses exilados? Mesmo na Pátria. Sobretudo na Pátria, que por isso mesmo é a Pátria da Saudade.

2. Voo Nova Iorque – Califórnia

11/6/1983

— Thanks for having chosen the friendly skies.
«Obrigada por ter escolhido os céus amigos» — isto diz uma voz repugnantemente açucarada no avião.

Esta sociedade está pior do que nunca. Em relação há 30 anos, quando cá estive e me horrorizei o suficiente para escrever o Descobri que Era Europeia, tem a mais (ou a menos) o computador, que é o prolongamento da sua imbecilidade. Desde que cá cheguei, esse monstro só comete erros comigo. No Intercontinental, em Nova Iorque, tinha uma mensagem à minha espera. Isto me disseram, indicando-me que fosse até à secção do computador que tinha registado a mensagem. Quando lá cheguei, o monstro tinha-se avariado. Adeus, mensagem.
Ontem, no Plaza, em Boston, pedi na portaria para me acordarem às oito da manhã, porque tinha de seguir para a Califórnia. Nada de enganos, portanto. A rececionista informou-me de que essa função de acordar era com o computador. Mas que estivesse descansada. Seria acordada às oito em ponto. Pois bem.
Às cinco e trinta da manhã, uma vozinha sadicamente alegre desperta-me pelo telefone, cantando a saudável alegria do despertar!
E cá vou, de voo para a Califórnia, nesta América onde um criptonazismo põe God bless América onde o boche berrava Deutchland über alles. Esta gente está realmente convencida de que, para além deles, nada mais há no mundo. Chama-se a isto imperialismo por ignorância.

3. Voo Califórnia – Nova Iorque

13/6/1983

E cá vou, liberta, enfim, da missão cumprida. Fui recebida em todas as comunidades, particularmente Newark, Boston e Califórnia, como a «pessoa que melhor representou o Presidente da República até hoje». Eanes não esperava outra coisa quando me escolheu para lhe servir de embaixadora neste universo de portugueses, onde a palavra quente de um poeta faz mais lume do que o discurso sisudo com as linhas do calculismo de um político.
Mas confirmou-se a minha opinião de que (isto no meu instante contacto com os cônsules que aqui me mimosearam com a vénia dirigida ao Presidente da República) a diplomacia é o caminho mais curto para a homossexualidade. Algumas exceções, claro, mas quase todos eles, ainda que casadinhos, papais, machões, em suma, desse terrorismo moral que é a família, não conseguem libertar-se dos gestos amaricados adquiridos na escola das Necessidades. Portanto, uma pose. Nada de prática, presumo.
São Francisco é uma cidade redonda, feminina, por entre a simetria e linearidade esquizofrénica das grandes cidades norte-americanas, excetuando Washington. Cidade com «seios» como a Lisboa das colinas, é natural que seja a capital dos gays.
Aqui no avião, um penoso esforço em primeira classe, para a técnica fazer vénia do banquete em caviar, patés, queijos da mais escolhida table de fromages francesa, etc., mas tudo tão estreitinho. Como é exíguo este mundo da amplitude transnacional conquistada pela navegação aérea. Num pulo, está-se noutro continente, mas o meio para lá chegar é uma claustrofobia, um enlatado humano.
Os portugueses da Califórnia são os mais enraizados nos Estados Unidos da América. Contudo, fazem um esforço de memória para defenderem as origens que os diferenciam neste império da igualização.
América! Num lado, arrumada na jardinagem, no golfe e no jogging, o que é bom para a saúde, para a candidatura a Matusalém. Embora o jogging, horrenda velocidade com a língua de fora e calções acuecados a que esta gente se dedica depois de sair do emprego, os faça cair cardiacamente como tordos. Mas lá vão, convencidos de que correm para a longevidade bíblica. No outro lado, destempera-se a América em taradinhos sexuais e ridículas fantasias que satisfazem a sua impenitente possidoneira.
Agora reparo. No meu lado vai uma bêbeda. Desde que entrou neste avião, ele foi o champanhe, os cocktails, os vinhos, os conhaques, um sei lá o quê. Tipo completo de frustrada do cinema americano. Sou talvez cruel com este país. Deve haver uma razão que não consigo trazer à consciência, mas irrita-me a arrogância do seu infantilismo.

4. Voo Nova Iorque – Lisboa

14/6/1983

Este voo é mesmo voo. Com asas, libertação de incumbências solenes que me ataram a têmpera.
Por exemplo: as condecorações que tive de entregar em nome do Presidente da República, com discurso custosamente apropriado, em São Francisco, na cerimónia que encerrou as comemorações do 10 de Junho.
E cá vou de regresso ao lar, que, para mim, é os meus livros, a minha muita papelada — notas aqui, projetos ali, desabafos, poemas larvares, contos que nunca farei, pétalas filosóficas de uma rosa mística que estou sempre a unir num amanhã adiado.
Mas o meu lar é também o meu velhinho querido, única paixão da minha vida, que me atura há dezenas de anos com um respeito paternal, rabugento, pela minha loucura.
Antes de partir, peguei ao acaso em alguns livros para ler de viagem. Um deles, li-o há muito tempo. E como estou na fase de ler com olhos maduros o que traguei com olho verde de rapariga, eis-me relendo, neste voo de doce retomo, essa entre magistral e maçadora redundância camiliana que é o Andam Faunos pelos Bosques, do Aquilino. (Esta prosa vai mal-arranjada, muitos cortes e emendas, porque as interrupções da hospitalidade aérea da primeira classe são muitas: o cocktail, o appetizer, o cravo, como florido desejo de boa viagem da TWA, etc…) Mas os Faunos repõem-me na atmosfera camiliana de boa fêmea para cama de padre. E foi isso que vim encontrar nas comunidades portuguesas da Nova Inglaterra, onde a bênção do pároco, indispensável em todas as sociedades, por mais laicas que sejam, tem a contrapartida saudavelmente erótica do cura com amásia.
Em mais de um núcleo (não os nomeio para não os comprometer perante a hierarquia) encontrei a imagem do velho abade dado às comidas e à fêmea. Num deles, num sarau cultural ingenuamente inserido nas comemorações do Dia de Portugal, tocava piano sob a batuta do dedo da barregã, aliás vivíssima, lá das Beiras, que era também a autora de deliciosas comédias, tais como o Retratista. Nesta farsa, arrancada ao inconsciente coletivo, no qual o ato de tirar o retrato é figuração mágica de roubar a imagem, a tal amásia do cura já pouco chegava, no desfecho aloucado da ação, ao nonsense do Ionesco e quejandos.
Também noutra comunidade tive de dar a direita a um reverendo que, no beber, no comer e no arregalar do olho (acompanhado por confessa fala de entusiasmo sexual) para a fornada de carnes, era uma maravilha de portuguesa idoneidade clerical. Sou decisivamente a favor deste padre minhoto e transmontano que Camilo tão bem pintou no seu opíparo romancear de coisas efetivamente lusas que não dispensam o recorte erótico-pagão do sacerdote comilão e femeeiro.
Lembro, a propósito, que, quando estava, há anos, em Viana do Castelo, por ocasião da cantata (com libreto meu) D. Garcia, incluída no X Festival de Vilar de Mouros, o padre Dulcino, que dirigia o coro — beleza de homem, cuja castidade (?!) era um mistério e um flagelo para as serrãs que o perseguiam —, pôs-me em contacto com uma série de abades que eram um primor no canjirão de vinho e na anedota picante.
De um deles, numa seroada em que fomos cear depois do ensaio, ouvi eu esta história, ao que ele disse verdadeiríssima e recente, passada ali para os lados de Caminha: tendo o pároco passado a pente fino todas as belezas da terra, solteiras e casadas, a diocese, instada por queixas dos maridos vitimados pela sanha viripotente do abade, deu-lhe guia de marcha para outra paróquia. O malandreco do cura mandou tanger os sinos para reunir o povo no adro e bota esta discursata, endereçada aos zeladores das pudendas partes das esposas:
«Eu cá me bou. Mas muitos cornos vos deixo.»
Isto passou-se nos anos 60, e é bem o espelho camiliano deste sacerdócio de pénis arrebitado que é a única energia que mantém os portugueses de pé. E também a mesa, não esqueçamos. Isto escrevo saboreando umas colheradas de caviar, que é petisco pelo qual quase me disponho a vender a alma ao diabo. Isto disse um dia ao Octávio Pato, que não era propriamente o demo, antes homem simpático, riso pronto de comunista aberto, à coca de eventuais simpatias ou menores antipatias pelo PCP. Estávamos na deprimente cantina self-service da Assembleia da República, onde a bicha para o chá ou o café com leite do intervalo dos trabalhos é bem a penalização merecida por indivíduos que se prestam a essa carneirada. Sempre que eu ali descia (descer é o termo), vinham-me nostalgias dos meus requintes gastronómicos. E para me aliviar da lixeira daquele péssimo chá (que fazer?, não dispenso esta bebida da Gorreana da minha infância micaelense), self-servido em condições tão humilhantes para o aprumo com que se deve beber o que nos sabe bem, desatava a chamar em altos e refinados apetites pelo meu caviar. De uma dessas vezes, o Octávio Pato, com ironia proselitista, atiçou-me:
— Isso é o menos. Venha para o PC, que tem todo o caviar que lhe apetecer.
— Todo?
— Bom… — hesitou ele.
— Então, nada a fazer — reclamei. — É que eu só seria comunista enquanto comesse caviar. Uma vez papado o acepipe, adeus comunismo. Não vale a pena mandar-me o caviar. Como vê, seria um péssimo negócio.
Rimo-nos, e por aí ficou a minha cómica adesão gastronómica ao marxo-leninismo.
Era esta a democracia nos bastidores da Assembleia da República. Uma civilidade que, infelizmente, não transparecia nos debates maniqueus do hemiciclo.
Quanto à democracia na América do Norte, é a do aperto de mão. Que tédio! Os mayors não perdem uma oportunidade, festarola, comemoração, seja o que for, para marcarem presença, com a mão estendida para todas as bandas, na prostituição da conquista do voto.
Todos muito amigos dos portugueses, os muitos mayors que vi e conheci nas diversas comunidades, por ocasião das festividades do 10 de Junho! É o és! O que eles andavam era na caça do voto, de manápula aberta e espetada para o aperto de mão que atrai votantes. Que diferença entre esta democracia do Tome lá o bacalhau e o nosso desprezo europortuguês por essa forma meretrícia de pescar eleitorado. É claro que este nosso ceticismo é o mesmo adversário da democracia que não passa sem esses ingredientes hipócritas de dar a cada um, no aperto de mão, a importância que ele não tem.
Mas que fazer?! As velhas árvores genealógicas são frágeis. Não suportam o peso grosseiro desses frutos dos povos sem história. É esta a nossa fraqueza. Somos um povo de pulhas antiquíssimos. Preferimos o punhal cinzelado pela elegância de atitudes, mesmo desdenhosas desse bem comum que é a democracia, à vulgaridade do aperto de mão que caça o voto.”






"Pré-publicação. Quando Natália Correia representou Ramalho Eanes na América", Observador, 15-03-2018

quinta-feira, 15 de março de 2018

Daniel Gonçalves

丁文杰 - Wenjie Ding, 2020-09-01




a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento

olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti

aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio

comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar

enrolei-me na minha sombra
e
esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos

a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa


Daniel Gonçalves, Revista Neo n.º 9, Ponta Delgada,
Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, 2009


***

(poema com mário cesariny: como uma canção desesperada)

estou a dizer-te que já todos os poetas inventaram o amor
que nas minhas mãos o amor é apenas silêncio que vaza

que o amor não pode ser mais belo do que este verso:
antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa

estou a dizer-te que se tinha que te escrever uma carícia
nenhuma palavra há que não tenha quebrado já a sua asa

talvez acabes por perceber na doçura de todo este carinho
que não tenho mais música por onde possas subir até mim
ou madressilvas para te estenderes por todo o meu verão

estou a dizer-te que nunca soube dizer-te como te amar
como se regressasse a um instante em que fui apenas pedra
ou borboleta impassível colorindo o seu efémero coração

estou a dar-te à boca as poucas carícias que saem da minha
como se eu pudesse inventar um verso no lugar de um beijo
e talvez acreditasse que o amor tem sempre um novo aluvião



***

demorei metade da minha vida a perceber que o nosso
amor nunca existiu, era apenas um poema inédito, num
livro cosido à mão, manuscrito com a caligrafia de um
coração cego. podes esquecer-me sem remorso, podes
voltar a passar por mim na rua, podes voltar a dar-me
flores, não importa, deixei de acreditar na eternidade,
estou de acordo com o meu corpo que envelhece. podia
morrer agora mesmo, sem ti, tudo teria valido a pena
da mesma maneira, tu por fora de mim, tu por mim
dentro, a cidade connosco, a cidade deserta, o tempo
num segundo, a vida escoando como uma pérola através
da geleia do dia. agora sei que este é o último poema em
que te toco, a partir de amanhã, serás outra pessoa.

Daniel Gonçalves, Poesia Reanimada, Artes e Letras, 2014

***

todas as manhãs deviam ser primavera, todas as tardes verão, todas as noites outono, todas as madrugadas inverno, sair de casa e ter o chão como em dia de romaria, o meu ombro feliz de se mostrar aos pássaros, a alegria em cada flor aparecida e saber que vou poder almoçar no jardim, deitar-me no colo do parque e esperar que o sol me queime o cansaço, todos os dias assim.
Daniel Gonçalves, Poesia Reanimada, Artes e Letras, 2014

***

     quando morreste a noite deixou de morder os lábios das rosas ficaram sem o cântico aterrador do silêncio o peso das estrelas como um pisa papéis a torturar uma lista de sonetos por fazer

     quando morreste a manhã deixou de cuidar do seu cabelo liso encrespou contra o espelho que sabia de cor a tua mágoa azul como quilha encravada num naufrágio lento boiando sozinho
     quando morreste a tarde deixou de se inclinar sobre os frutos ficou às escuras a música que saía de dentro dos teus pássaros calou-se o bule que cozia a paciência da loucura com cidreira como remédio que tomamos quando a tristeza vem de repente
     quando morreste o tempo deixou de contar as crianças na rua brincando com os gatos e com as formigas e com a tua solidão
     e tudo ficou suspenso a virar folhas sobre o livro por escrever calando a filosofia fechando de vez as janelas secando a casa


Revista Grotta n.º 1. Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2016

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Hora da Poesia

Na Hora da Poesia (2018-02-14), Conceição Lima, Duarte Luz e Rui Diniz dão voz a poemas de Chuva de Época, de José Maria de Aguiar Carreiro:

Conceição Lima entrevista José Maria de Aguiar Carreiro:



ENTREVISTA

Conceição Lima - Curta biografia. Desde quando a Poesia? A poesia foi fruto de influência de algo ou alguém ou impôs-se? O que o empurra para a escrita poética? Acha que a poesia é inerte ou traz missão? Quais os poetas que poderão ter influenciado os seus gostos na escrita poética?

José Carreiro - Nasci numa freguesia do concelho de Nordeste da ilha de São Miguel.
Aos 15 anos, sem pedir autorização aos meus pais, preenchi a pré-inscrição para o ingresso no ensino secundário na cidade situada na outra ponta da ilha. O meu pai acedeu à determinação e passei a viver durante a semana num quarto alugado em Ponta Delgada, numa casa partilhada. Os fins-de-semana passava-os em família.
Depois veio o ensino superior na Universidade de Lisboa. Conto com uma bolsa de estudo do governo regional e com o apoio possível do meu pai. Poderia cursar na ilha, mas queria ampliar os horizontes.
O Fernando Pessoa estudado no 12.º ano é determinante na descoberta da poesia. Enquanto adolescente, identificava-me com a dualidade interior do poeta.
É no décimo segundo ano que começo a escrever um diário, onde incluía alguns versos entre os derrames e reflexões sobre o dia. Os cadernos foram-se acumulando. Em 1990, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, faço uma pequena seleção de poemas, a maior parte abandonada na nova seleção de 1992.
No início dos anos 90, participo, em Lisboa, num I Encontro de Jovens Escritores, promovido pela Sociedade Portuguesa de Autores. Creio que, dos presentes, poucos tinham publicado alguma coisa, talvez uns três ou quatro, se tanto. Nas jornadas deram-nos conselhos, um dos quais foi não termos pressa em publicarmos.
Nesse Encontro, tivemos oportunidade de conviver com alguns autores: lembro-me de jantar com a Natália Correia e de irmos à discoteca com o Al Berto. Belos momentos.
Entretanto, a seleção de 1992 foi sendo ampliada, cortada e recortada, trabalhada até à data da publicação, em 2005, já em Ponta Delgada, para onde fui lecionar após ter terminado o curso.
Quanto a leituras, sou “um sensível e agradecido leitor”, como disse uma vez Jorge Luis Borges.  Outros poetas formaram o meu gosto pela poesia: Camilo Pessanha, Sophia Andresen, Jorge de Sena, Herberto Helder, Joaquim Manuel Magalhães são alguns dos nomes.
Chuva de Época faz parte do pasmo inicial perante a vida.
Move-me para a escrita a estilização do real: uma frase, uma sonoridade, uma pintura, uma escultura, um elemento arquitetónico, uma cena ou uma coreografia, enfim, o mundo mediado pela arte. Por exemplo, uma fotografia de Sebastião Salgado pode funcionar, para mim, como uma arte de desbloqueio.
Aprecio o apontamento caricatural, o alegórico, a metáfora. E o nonsense.
junho de 2017


2018-02-14

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

GROTTA #2

A Revista literária Grotta – Arquipélago de Escritores é editada pela Publiçor 
sob chancela Letras Lavadas. Direção de Nuno Costa Santos. Dezembro de 2017

No seu número 2 a revista Grotta aprofunda a sua vocação para reunir quem escreve no território açoriano e fora dele. Volta a juntar um respeito pela tradição literária, uma atenção à pluralidade de vozes e à comunicação com outros lugares.
O dossiê dedicado à Literatura de Porto Alegre é uma forma de celebrar, hoje, a nossa ancestral ligação com a capital do Rio Grande do Sul, com necessidade de uma boa actualização, lugar fundamental para os Açores e os açorianos.

Há uma longa entrevista com Eduíno de Jesus, que partilha com os leitores a sua vida literária e a forma como vê o mundo, em respostas pensadas e cuidadas. E inspiradoras, sempre.
Continua-se a fazer conviver respirações de tempos diferentes. Textos sobre Natália Correia de autores premiados (Carolina Bettencourt). Uma peça, de Victor Rui Dores, sobre o rico suplementarismo literário açoriano, narrativas na primeira pessoa de personagens de séries televisivas que aterram no espaço da ilha e contos ao desafio, escritos por novos autores. Poemas de nomes como Renata Correia Botelho e Rui Machado e slam poetry de Carla Veríssimo.
Urbano Bettencourt, num texto de referência aqui incluído, Escritas insulares - fragmento e derivas, trata da «condição insular como uma oscilação entre a permanência e a errância, entre o auto-centramento e a deriva que leva à descoberta». A prosa começa com uma citação de Michelet: «A Inglaterra é uma ilha». Uma ilha para a qual viajamos e que pisamos com vagar através da poesia de Ken Smith, traduzida por Hugo Pinto Santos (autor, relembre-se, da tradução dos poemas irlandeses do primeiro número da grotta).
Este número está amplamente ilustrado por dois artistas plásticos - Paula Mota e João Decq - que valorizam muitíssimo a edição, transportando-a para um território que pretende ocupar: o do diálogo entre artes, o da conversa entre linguagens diferentes e complementares. 
A revista Grotta é dirigida por Nuno Costa Santos e conta com coordenação editorial de Diogo Ourique. A edição é da Letras Lavadas.

"Sinopse" in https://www.wook.pt/livro/revista-grotta-n-2-nuno-costa-santos/21291958

***

 
a menos que pudéssemos
soletrar esta noite
desditosa
segredada
que nos range
entre os dedos e o papel

a ver se assim
decomposta
lhe encontramos
uma sílaba quente
qualquer coisa tónica
que nos acorde.

Renata Correia Botelho
Grotta n.º 2, Letras Lavadas, dezembro 2017. ISBN: 9772184166001


***

Nuno Costa Santos: "Há várias formas de se ser açoriano"

Nuno Costa Santos fotografado na Casa dos Açores, em Lisboa  |  PAULO SPRANGER/GLOBALIMAGENS

Chegou o número dois da Grotta, a "revista-livro" açoriana. O diretor Nuno Costa Santos encara os Açores como "lugar de encontros" e está confiante nos novos autores que germinam na revista literária que, esta semana, é lançada em Ponta Delgada.

Ele é escritor e guionista mas a convocatória para esta entrevista foi como diretor da Grotta, revista literária de timbre açoriano. O segundo número é lançado esta semana em Ponta Delgada, na Solmar, uma livraria cúmplice. Nuno Costa Santos não assina nenhum artigo nesta edição, mas na primeira deixou uma ponta solta em Monóculo. Saiu para comprar um pijama (faltava-lhe a inspiração para as primeiras linhas do romance que queria escrever) e descobriu nos jornais que "Lisboa é a melhor cidade portuguesa para se viver pela terceira vez consecutiva" - soube depois, segundo um ranking da Monocle. Seguiu caminho e deu de caras com a Casa Ferrador fechada. Para sempre. Após 84 anos de atividade. Sem pijama (e sem conforto), resolveu mandar um email à Monocle: "O mundo precisa de saber do fecho do Ferrador". Ainda não recebeu resposta, mas ele não tem pressa. Não surpreende. A Grotta - o nome alude, também, a um fenómeno geológico das ilhas - é, claramente, feita com vagar, contrariando o "tempo tecnológico". Ali aportam autores de vários paradeiros, idades e sensibilidades. O arquipélago como semente e marca, de quem está e de quem não está.

O que é a Grotta - não é "apenas" uma revista de literatura açoriana pois não?
A Grotta é uma revista literária que, assumindo a sua raiz açoriana, é aberta a todas as formas literárias de várias partes do mundo, desde que passem no nosso sempre subjetivo critério de pertinência editorial e de qualidade. Não temos medo de assumir o regional e até achamos que num universo que quer ser à força toda "global" e "cosmopolita" é importante atender ao local e ao regional, sem complexos. A palavra grota, que vem da designação que nos Açores se dá às ribeiras que, a partir de certa altitude, se tornam em regos longos e fundos, no território nacional só é usada no arquipélago. Sabemos que também é usada no Brasil. Como tem um duplo t - no nosso título, sob sugestão do vulcanólogo Victor-Hugo Forjaz - remete para uma formulação arcaica do termo e para a sua origem italiana. Entre os Açores e a Itália, com passagem por todo o lado. O subtítulo é Arquipélago de Escritores, que começa por ser o arquipélago açoriano, onde há, desde tempos imemoriais, muita gente que escreve e publica, mas acaba por se constituir como a família, espalhada por todo o lado, de escribas.
Entre os autores que colaboraram nas duas primeiras edições, há autores nascidos nos Açores. Mas outros com origens continentais. Na sua biografia diz-se "açoriano nascido em Lisboa". A Grotta vem, também, questionar o que é isso de ser açoriano?
Os Açores são um lugar de encontros muitos e penso que essa vocação marcará ainda mais o arquipélago nos próximos anos. Nesse sentido a Grotta é uma revista que alberga romeiros de todas as proveniências. Não direi que há um questionamento mas sim um aprofundamento de uma certa maneira. No primeiro número tivemos um diálogo com a Irlanda, através da edição em português de poemas de autores irlandeses contemporâneos. Neste número o diálogo mais evidente é com os escritores que escreveram sobre a cidade de Porto Alegre, que aqui é apresentada com diferentes temperaturas e vozes. No meu caso, essa nota representa um preciosismo biográfico. Os meus pais, açorianos, estavam a viver em Lisboa quando nasci. E depois voltaram à sua terra. Mas, sim, para nós ser açoriano é uma condição que não é exclusiva daqueles que nasceram no território das ilhas e que aí vivem. Há várias formas de se ser açoriano, cada vez mais evidentes num mundo de vasta circulação.
Encontramos novas e mais antigas gerações de escritores em vários registos - prosa, poesia, ensaio, fotografia, ilustração. São trabalhos, inéditos, que esperavam uma brecha para se mostrar?
Sim, são trabalhos que encontram aqui uma oportunidade. Este é um espaço que se abre e os pode acolher. A maior parte dos trabalhos é inédita. As pessoas têm escrito e ilustrado propositadamente para a Grotta. Também já publicámos trabalhos - no caso, ensaios fotográficos - que já estavam prontos antes da ideia de se fazer a revista. Foram convocados e aqui ganharam um sentido outro.
Victor Rui Dores, faz neste número uma breve resenha do "suplementarismo cultural dos Açores", em que saúda uma nova geração de autores empenhada na construção de um espaço cultural novo - geração essa "com mais imaginação que memória, gente que passa mais tempo nas redes sociais do que nas tertúlias dos cafés". Gente "que ainda não escreveu as suas obras maiores e de quem muito há ainda a esperar". Como vê esta nova geração?
Vejo esta nova geração como um grupo que tem o dever de estar à altura daquilo que as gerações anteriores fizeram: criar um corpo consistente de obras, diversas e representativas do esforço de uma época literária. Há que também retratar o que são os Açores hoje na sua multiplicidade, nos seus contrastes. Para isso é preciso trabalhar, pesquisar histórias, ir fazer investigação. E ler. É preciso desligar mais vezes o facebook para perseguir um exercício de disciplina diária na escrita - só esse é que poderá trazer resultados consistentes. A Grotta gostava de contribuir para que esse trabalho se faça de forma mais visível e com mais vozes.
Os Açores têm na sua biografia alguns nomes grandes da literatura portuguesa. Os autores que chegam são reféns ou herdeiros?
Uma mistura. São reféns quando estão demasiado presos à influência dos nomes do cânone. E herdeiros quando já se libertaram e, assumindo a herança, têm o seu sangue próprio. Depois há a questão, que deve ser considerada, de uma parte da comunidade de leitores e observadores ser um pouco dada à comparação fácil. É humano. É como querer comparar à força o neto ainda a mudar de voz ao avô que morreu com uma aura de qualidades. Nesses casos o melhor é, para quem ouve comparações escusadas, concentrar a atenção na sinfonia dos pássaros das ilhas.
Lançou em 2014 a Transeatlântico (Companhia das Ilhas). O que aconteceu a esta publicação?
A Transeatlântico ficou em pousio depois da primeira experiência. E com o descanso da Transeatlântico resolveu avançar-se com a Grotta, publicação de outro catálogo sediado nos Açores.
Em que consiste Açores Arquipélago de escritores, que acontecerá entre 26 e 28 de abril de 2018?
Sobre o evento, ainda não posso adiantar pormenores porque ainda há uma série de assuntos por definir. Mas posso dizer que será um gesto promovido pela Grotta e que, como encontro, manterá as características fundamentais do espírito da revista. Acolhimento açoriano, arquipélago de escritores, respeito pela tradição literária, comunicação com outras partes do mundo, diálogo entre artes.
Quando sairá a Grota n.º 3?
No final de 2018 teremos o número 3. Até lá é questão de ir tendo ideias e ir convocando os autores para enviarem textos. Leva tempo porque a Grotta é uma revista-livro com bastante conteúdo e muitos pormenores.
A Monocle respondeu-lhe ao email sobre o encerramento da Ferrador?
Ainda não respondeu. Deve estar preocupada em fazer mais um ranking. Mas eu espero. Um antigo cliente do Ferrador não tem qualquer tipo de pressa gourmet.

Marina Almeida, Diário de Notícias, 2018-02-11
https://www.dn.pt/artes/interior/nuno-costa-santos-ha-varias-formas-de-se-ser-acoriano-9115889.html

***



GROTTA . Uma adenda

(o que eu poderia ter dito ontem, se a gripe não me tivesse impedido de participar, na Livraria Solmar, na apresentação da revista Grotta). 

1. Quem conhece uma grota sabe que deve evitar a todo o custo cair numa: pelos estragos corporais, por vezes irremediáveis, a que se sujeita e pela dificuldade em ser de lá removido. Constrangimentos da geologia.
Por mim, caí muito bem nesta «Grotta» que o Nuno Costa Santos & companheiros vêm talhando desde há 2 anos. E não tenho qualquer pressa em sair.
Encontro aqui um exemplo daquela «encruzilhada» de que falava Carl Sagan e que prolonga a melhor tradição das revistas e suplementos literários açorianos. 
No final dos anos de 1930, um intelectual açoriano propunha que se implementasse na imprensa local suplementos e páginas literárias, só preenchidos com autores açorianos…A primeira parte da proposição era excelente; a segunda uma idiotice pegada, demonstrativa de que ele não aprendera nada de nada com a imprensa açoriana, que desde os seus inícios, no século XIX, sempre abriu um grande espaço à literatura, cruzando línguas e culturas, géneros e discursos heterogéneos, em diálogo com os autores locais. 

2. O meu texto incluído neste n.º 2 de «Grotta» nasceu no aeroporto de Guarulhos, na longa tarde do dia 8 de Novembro de 2016 e numa conversa com o Nuno Costa Santos, enquanto mais a norte no continente um estafermo juntava os votos que o levariam à Casa Branca. 
Em Porto Alegre, o Nuno tinha-me oferecido o n.º 1 da Grotta, eu já lera alguma parte dela (em particular o texto de Pedro Santo-Tirso), e por isso, quando ele me convidou a participar no número seguinte, pensei logo no que queria escrever (embora sem saber ainda os contornos precisos da coisa). Depois, ele trazia consigo o n.º 122 da revista «piauí» com uma reportagem/ensaio sobre Naipaul, e achei então que teria de escrever a partir dos «outros», os que sempre se mantiveram fiéis ao espaço insular, sem abdicarem do seu lugar no mundo. Das Caraíbas aos Açores e ao Mediterrâneo, há um pensamento insular em que as diferenças acabam por pôr em relevo as afinidades e as confluências. 

2.1 O resultado disso foi um texto intitulado «Escritas insulares: fragmentos e derivas». É um breve ensaio político-literário, dado que no interior da literatura se questiona a realidade histórica, concreta, da ilha e o(s) pensamento(s) sobre ela, o modo como ela ousa pensar-se (ou, por negação, se demite de pensar-se, à espera que outros o façam por ela). Tudo isso no pressuposto de que um «pensamento insular» tem de ser gerado e gerido a partir do seu interior ou segundo um ponto de vista adoptado a partir do interior da ilha. O resto é paisagem e macaquice para embasbacar incautos & desprevenidos. 

2.2 Para sossego das almas embaraçadas: «Escritas insulares: fragmentos e derivas» não é um trecho de catecismo ou de cartilha, por isso não obriga a nada nem ninguém. É apenas uma análise construída a partir de dados, que neste caso são textos. E na literatura como noutras coisas, supõe-se, os dados devem prevalecer sobre os esquemas prévios e o preconceito.
Urbano Bettencourt, Facebook, 2018-02-16

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