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domingo, 6 de abril de 2014

AS FADAS (Antero de Quental)


  
           
               
AS FADAS 

As fadas… eu creio nelas! 
Umas são moças e belas, 
Outras, velhas de pasmar… 
Umas vivem nos rochedos, 
Outras, pelos arvoredos, 
Outras, à beira do mar… 

Algumas em fonte fria 
Escondem-se, enquanto é dia, 
Saem só ao escurecer… 
Outras, debaixo da terra, 
Nas grutas verdes da serra, 
É que se vão esconder… 

O vestir… são tais riquezas, 
Que rainhas, nem princesas 
Nenhuma assim se vestiu! 
Porque as riquezas das fadas 
São sabidas, celebradas 
Por toda a gente que as viu… 

Quando a noite é clara e amena 
E a lua vai mais serena, 
Qualquer as pode espreitar, 
Fazendo roda, ocupadas 
Em dobar suas meadas 
De ouro e de prata, ao luar. 

O luar é os seus amores! 
Sentadinhas entre as flores 
Ficam-se horas sem fim, 
Cantando suas cantigas, 
Fiando suas estrigas, 
Em roca de oiro e marfim. 

Eu sei os nomes de algumas: 
Viviana ama as espumas 
Das ondas nos areais, 
Vive junto ao mar, sozinha, 
Mas costuma ser madrinha 
Nos batizados reais. 

Morgana é muito enganosa; 
Às vezes, moça e formosa, 
E outras, velha, a rir, a rir… 
Ora festiva, ora grave, 
E voa como uma ave, 
Se a gente lhe quer bulir. 

Que direi de Melusina? 
De Titânia, a pequenina, 
Que dorme sobre um jasmim? 
De cem outras, cuja glória 
Enche as páginas da história 
Dos reinos de el-rei Merlim? 
Umas têm mando nos ares; 
Outras, na terra, nos mares; 
E todas trazem na mão 
Aquela vara famosa, 
A vara maravilhosa, 
A varinha de condão. 

O que elas querem, num pronto, 
Fez-se ali! parece um conto… 
Mesmo de fadas… eu sei! 
São condões, que dão à gente 
Ou dinheiro reluzente 
Ou joias, que nem um rei! 

A mais pobre criancinha 
Se quis ser sua madrinha, 
Uma fada… ai, que feliz! 
São palácios, num momento… 
Beleza, que é um portento… 
Riqueza, que nem se diz… 

Ou então, prendas, talento, 
Ciência, discernimento, 
Graças, chiste, discrição… 
Vê-se o pobre inocentinho 
Feito um sábio, um adivinho, 
Que aos mais sábios vai à mão! 

Mas, com tudo isto, as fadas 
São muito desconfiadas; 
Quem as vê não há de rir, 
Querem elas que as respeitem, 
E não gostam que as espreitem, 
Nem se lhes há de mentir. 

Quem as ofende cautela! 
A mais risonha, a mais bela, 
Torna-se logo tão má, 
Tão cruel, tão vingativa! 
É inimiga agressiva, 
É serpente que ali está! 

E têm vinganças terríveis! 
Semeiam coisas horríveis, 
Que nascem logo no chão… 
Línguas de fogo, que estalam! 
Sapos com asas, que falam! 
Um anão preto! um dragão! 

Ou deitam sortes na gente… 
O nariz faz-se serpente, 
A dar pulos, a crescer… 
É-se morcego ou veado… 
E anda-se assim encantado, 
Enquanto a fada quiser! 

Por isso quem por estradas 
For, de noite, e vir as fadas 
Nos altos, mirando o céu, 
Deve com jeito falar-lhes, 
Muito cortês e tirar-lhes 
Até ao chão o chapéu. 

Porque a fortuna da gente 
Está às vezes somente 
Numa palavra que diz. 
Por uma palavra, engraça 
Uma fada com quem passa 
E torna-o logo feliz. 

Quantas vezes já deitado, 
Mas sem sono, inda acordado 
Me ponho a considerar 
Que condão eu pediria, 
Se uma fada, um belo dia, 
Me quisesse a mim fadar… 

O que seria? Um tesoiro? 
Um reino? Um vestido de oiro? 
Ou um leito de marfim? 
¿Ou um palácio encantado, 
Com seu lago prateado 
E com pavões no jardim? 

Ou podia, se eu quisesse, 
Pedir também que me desse 
Um condão, para falar 
A língua dos passarinhos, 
Que conversam nos seus ninhos… 
Ou então, saber voar! 

Oh, se esta noite, sonhando, 
Alguma fada, engraçando 
Comigo (podia ser?) 
Me tocasse co’a varinha 
E fosse minha madrinha, 
Mesmo a dormir, sem a ver… 

E que amanhã acordasse 
E me achasse… eu sei! me achasse 
Feito um príncipe, um emir!… 
Até já, imaginando, 
Se estão meus olhos fechando… 
Deixa-me já, já dormir!
          
Antero de Quental
          
          
VOCABULÁRIO:
          
Bulir: mexer.
Chiste: piada.
Discernimento: inteligência.
Discrição: prudência.
Estriga: porção de linho, formando uma pequena meada, que se põe de cada vez na roca, para se fiar. 
Jasmim: nome de uma flor.
Meada: porção de fios enrolados na dobadoura; há meadas de algodão, de lã, de linho, de seda. 
Portento: maravilha.
          
          
TEXTOS DE APOIO
Revela-nos o poema segredos só conhecidos de poucos adultos, apenas daqueles que ainda sabem que a Cinderela casa mesmo com o Príncipe e acreditam que: “a fortuna da gente / Está às vezes somente / Numa palavra que diz; / Por uma palavra, engraça / Uma fada com quem passa, / E torna-o logo feliz.”

Mas cuidado, pois as fadas quando se zangam: “têm vinganças terríveis! /Semeiam coisas horríveis, / Que nascem logo no chão… / Línguas de fogo que estalam! / Sapos com asas que falam! / Um anão preto! Um dragão!



 Ou deitam sortes na gente… / O nariz faz-se serpente, / A dar pulos, a crescer… / É-se morcego ou veado… / E anda-se assim encantado, / Enquanto a fada quiser!”



*


É de 1883 a edição do Tesouro Poético da Infância, organizado e prefaciado por Antero, uma espécie de «lira infantil», colhida nos Romanceiros e Cancioneiros e nos poetas do século, com especial relevo para João de Deus, não se esquecendo igualmente de introduzir alguns poetas brasileiros como Castro Alves, Casimiro de Abreu e sobretudo Junqueira Freire cuja poesia o entusiasma a ponto de o considerar um dos primeiros poetas do seu século se não tivesse morrido aos 24 anos. Para este livro, Antero escreveu um encantador poema de 23 sextilhas As Fadas, o que para ele, «poeta do género apocalíptico, teria constituído um verdadeiro tour de force».
        
O essencial sobre Antero de Quental, Ana Maria Almeida Martins, 
Lisboa, Lisboa Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985, p. 33.
        
*
             
Há quem defenda que a literatura infanto-juvenil se inicia nos séculos XVII e XVIII com os contos de fadas, fábulas e adaptações de obras de aventuras (Perrault, La Fontaine, Fénelon, Swift) com o objectivo de educar, moralmente, jovens e crianças.
Mas foi nos séculos XIX e XX que a literatura infantil desabrochou, como afirma José António Gomes (Para uma história da literatura portuguesa para a infância e a juventude.Lisboa: Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, 1998, p. 69): “é no século XIX que assistimos à verdadeira génese de uma literatura para a infância em Portugal. Muitos investigadores defendem que a literatura infantil surgiu em Portugal no século XIX com a geração de Antero de Quental, Eça de Queirós e Guerra Junqueiro. Todavia, outros contradizem essa asserção”.
        
Ana Maria Pereira Vieira Barbosa, Análise das Representações de género e seus valores na Literatura Infanto-Juvenil e na Formação da Criança, tese de mestrado apresentada à Universidade do Minho, 2009, p. 21
        


             
LEITURA ORIENTADA DO POEMA “AS FADAS”
           
1. Preenche a coluna B, de maneira a responderes aos elementos da coluna A, de acordo com os versos 1 a 70 do poema “As fadas”:
          


A


B


• Onde vivem as fadas




• Um exemplo de rima, neste poema




• Como ocupam as fadas o seu tempo




 Uma comparação




• Número de estrofes do poema


          
2. As fadas têm grandes poderes.
Copia do texto palavras/expressões onde se diz o que as fadas dão às crianças, para as tornar:
• ricas;
• sábias.
          
3. “as riquezas das fadas / São sabidas, celebradas / Por toda a gente que as viu…” (versos 16-18). Diz a que riquezas se referem o poeta nesta expressão.
          
4. Imagina como se sentiria um menino que visse a sua fada madrinha e escreve duas palavras que descrevam o seu estado de espírito.
          
5. Escreve duas quadras sobre fadas, considerando os seguintes aspetos:
• compara-as a alguma coisa (objeto, elemento da natureza, pessoa, animal, cor, …);
• usa uma onomatopeia (por exemplo, em relação à varinha de condão);
• expressa os teus sentimentos sobre esses seres imaginários;
• escreve os versos a rimar.
          
Etapas 5. Língua Portuguesa 5º Ano. Livro de Testes
Madalena Relvão, Graça Trindade e Mª de Lourdes Santos. Edições Asa, 2011.
                    
           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/04/06/fadas.aspx]

sábado, 5 de abril de 2014

LOGOS (Antero de Quental)


Gilbert Garcin, "A ruptura".

  

               
               
      LOGOS
     
      Ao sr. D. Nicolas Salmeron.
     
     Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
     E, o que é mais, dentro em mim ‑ que me rodeias
     Com um nimbo de afetos e de ideias,
     Que são o meu princípio, meio e fim...
     
     Que estranho ser és tu (se és ser) que assim
     Me arrebatas contigo e me passeias
     Em regiões inominadas, cheias
     De encanto e de pavor... de não e sim...
     
     És um reflexo apenas da minha alma, 
     E em vez de te encarar com fronte calma 
     Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te...
     
     Falo-te, calas... calo, e vens atento...
     És um pai, um irmão, e é um tormento
     Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te!
               
Antero de Quental
               
               
               
TEXTOS DE APOIO À LEITURA DO POEMA
               
Este soneto de madurez leva o título do vocábulo grego para se referir à inteligência, à palavra em tanto que fruto dum processo de razoamento. A composição vai adicada ao filósofo e político espanhol do XIX, Nicolas Salmeron.
Este soneto António Sérgio inclui-o no Ciclo “Da Metafísica” e a este crítico nos remetemos para o analisar (218-219). O Logos é o movimento da Razão, a Ideia hegeliana, é dizer, o princípio que no nosso intelecto pensa as coisas e a causa objetiva que as produz. O Logos toma consciência de fazer parte no nosso espírito e de aí o afirmar o poeta que “estás dentro de mim”, que “és um reflexo da minha alma.” Cala-se ele quando nós falamos, porque somos nós então quem por ele se exprime; fala quando nos calamos, porque se manifesta nesse caso pelos nossos atos. Nós somos apenas uma determinação do Logos, e por isso Antero lhe chama “tirano”, se bem que ao mesmo tempo “pai” e “irmão”. Adora-o, porque é o Deus-Ideia em que ele próprio vive. Ademais disso, tivemos ocasião de lembrar, outrossim, que a atividade do Logos segue o esquema triádico: 1º, posição dum conceito; 2º, posição de um conceito negativo desse; 3º, negação desta negação, posição da síntese. E por isso percorrer o caminho do Logos significa passar por “não” e “sim”, como se diz no soneto. Mas note-se que a “negatividade” dá-nos o outro, e não o contrário; dá-nos um qualquer diferente; não determina nada; e de aí – ao que supomos – a inanidade da lógica hegeliana.
Pode interpretar-se o pensamento do Hegel, no que respeita ao Espírito e à Natureza, como vendo aí duas realidades distintas, e a função do Logos dentro de tal pressuposto que seria a de superar este dualismo básico. Como Natureza e Espírito, todavia, não constituem duas simples abstrações vazias, dois conceitos tomados como absolutos e por isso contrários e coincidentes (como os do “ser” e “não-ser”), senão que duas concretas realidades, ‑ o Logos não pode constituir aqui, com a Natureza e com o Espírito, uma tríada dialética tese-antítese-síntese, e terá de encarar-se como certo quê obscuro onde radica Natureza e de onde procede o Espírito, ‑ o que o torna análogo ao Inconsciente do Hartmann. E talvez seja isto uma forma aceitável de nos figurarmos como Antero passou de um ao outro (do Logos de Hegel ao Inconsciente do Hartamann) e de fazermos a aproximação do presente soneto com outros seus em que se nos fala do Inconsciente.
           
                
Gilbert Garcin, "Le Charme de l'Au-delà", 2012

É assim que o espírito, sem sair de si, se cria e fecunda continuamente, compenetrando-se cada vez mais com a sua própria essência, extraindo dela, da sua infinita virtualidade, momentos cada vez mais completos e mais ricos de ser, até atingir a mais alta consciência de si. Reconhece-se então idêntico com o eu absoluto e independente de toda a fenomenalidade: concebe Deus como o tipo da sua mesma plenitude, concebe e sente a vida moral como a esfera da realização desse ideal. A realização desse ideal aparece-lhe agora como o seu fim último, aquele de que os fins anteriormente propostos, limitados e transitórios, eram só imagem e preparação. Este fim último, porém, sendo imanente, confunde-se com a perfeição do seu mesmo ser.
Antero de Quental, 
Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX
           
*
                 
O misticismo anteriano não é, pois, o da união com Deus, mas o da transformação do próprio indivíduo em eu absoluto, em puro Deus imanente. Este misticismo, como "sentimento e como doutrina", consiste na ascensão ao absoluto, na absolutização do eu, implicando, pois, desmaterialização, libertação do eu empírico que é fonte do sofrimento, dos desejos e da dor, em busca de um outro eu impessoal, absoluto, todo razão e vontade pura, verdadeira substância. Só nesta "ascese búdica" é possível a identidade plena do eu com o seu próprio ideal. O misticismo ativo de Antero consiste em praticar a vida como quem sabe que cada ato é um momento do absoluto.
O Deus anteriano não é o do cristianismo, o transcendente, mas o imanente, que existe no homem e urge descobrir porque "o homem é um Deus que se ignora […] e o Deus da Humanidade é o mesmo homem: e o seu ideal, a religião da Vida".
Deus, tal como em Hegel, realiza-se e ganha consciência de si no homem. Objetiva-se e historiciza-se em esferas gradativas da natureza e ganha verdadeira consciência de si no homem. É um Deus progressivo, princípio espiritual, não sendo, por isso, um Deus-Pessoa. Esta relação íntima entre Deus e o homem resultou das influências da teologia germânica e da sua ligação com o budismo e com a conceção hegeliana de devir. Se Deus é o Bem Supremo, e se este existe no homem, então, entre o homem e Deus não existe qualquer diferença substancial. Deus não tem consciência de si, só pelo homem ela se revela. Este problema, aliás já referido, pode ser encontrado em Hartmann que, como se afirmou, exerceu influência no pensamento de Antero.
Manuel Tavares e Mário Ferro, Guia do Estudante de FilosofiaLisboa, Editorial Presença, 1992, pp. 120-1 21
               
               
                
Gilbert Garcin, "Le funambule", 2002



            
OS SONETOS DE ANTERO DE QUENTAL
5
Substancialmente, estes Sonetos são, na sua maioria, meditações e reflexões do Poeta sobre a sua situação individual ou sobre a situação humana em geral, de abandonado e perdido, crente e desesperado, revoltado e resignado, de busca e ânsia, e da sua atitude de interrogador e cético, contemplativo, meditativo e cismador.
Deus e o Divino, a fé, a dúvida e a descrença, o prazer e o tormento do pensar, a incerteza e o abismo insondável da existência, o enigma e o sentido da vida e da morte, o Ideal e a realidade, o tédio do mundo e a redenção, o mistério do Ser e do Não-Ser: — estes são os temas principais dos sonetos através de todos os ciclos, não formulando os poemas os resultados do vivido e sofrido, da contemplação, do pensamento e da meditação, mas é o próprio processo do viver e do sofrer, do contemplar, pensar e meditar que neles se manifesta, o sentimento transformado em ideia clara e definida, e a ideia transformada em sentimento.
O elemento característico destes sonetos é o movimento, o seu dinamismo intrínseco, que nuns leva do inicio afetivo até à afirmação sentenciosa ou à extinção indefinida, e noutros, da afirmação simples até â exclamação clamorosa ou hínica, partindo na sua maioria de interrogações ou terminando em interrogativas.
Ao primeiro destes grupos pertencem os sonetos A J. Félix dos Santos, com os versos iniciais:
Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!
             
e o final:
Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro,
O futuro uma sombra mentirosa;
             
Lacrimae Rerum, com o começo:
Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
             
e o fim:
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a Noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas...

É tudo, em torno a mim, dúvida e luto,
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das cousas tenebrosas…;
             
Comunhão, que principia por
Reprimirei meu pranto!... Considera
Quantos, minh’alma, antes de nós vagaram,
Quantos as mãos incertas levantaram
Sob este mesmo Céu de luz austera!

—Luz morta! amarga a própria primavera!—
             
acabando por
Seguirei meu caminho confiado
………………………………………………………
Na humilde fé de obscuras gerações,
Na comunhão dos nossos pais antigos.
             
Do segundo grupo fazem parte os sonetos Aspiração, com o princípio
Meus dias vão correndo vagarosos
Sem prazer e sem dor (...),
             
e o fim:
(...) sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bem-direi esta tristeza! —
             
Nocturno, com a calma inicial dos versos
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...,
             
e o fervor da invocação no terceto final:
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém! —
             
Acordando, com os versos iniciais
Em sonho, s vezes, se o sonhar quebranta
Este meu vão sofrer, esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céu a minh’alma sobe e canta,
             
e o final:
Os meus Cantos de luz (...)
São sonho só, e sonho o meu amor!
             
Em Velut Umbra, a curva dinâmica vai de
Fumo e cismo! Os castelos do horizonte
Erguem-se à tarde, e crescem de mil cores,
E ora espalham no céu vivos ardores,
Ora fumam, vulcões de estranho monte...
             
até
Oh nuvens do Ocidente, oh cousas vagas,
(…) como a vós
Beleza e altura se me vão em fumo!
             
Mea Culpa principia pela afirmação
Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo inseto e seixo,
             
acabando pela exclamação:
A Natureza é minha mãe ainda:
É minha mãe... Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir; se estou desesperado,

Se não há que me aqueça esta frieza,
Se estou cheio de fel e de tristeza,
E de crer que só eu seja culpado!
             
Voz interior, depois dos versos iniciais
Embebido num sonho doloroso,
Que atravessam fantásticos clarões,
Tropeçando num povo de visões,
Se agita meu pensar tumultuoso...
             
culmina nos versos
Com um bramir de mar tempestuoso
………………………………………………………..
………………………………………………………..
Rodeia-me o Universo monstruoso,
             
para se extinguir com o terceto
Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e afirma o Bem!
             
e finalmente, Na Mão de Deus, com os versos iniciais
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração,
             
termina por
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
             
De interrogações partem e interrogativos são os sonetos A M. C. com o princípio
Porque descrês, mulher, do amor da vida?
             
e o verso final
Se descrês, em que hei de eu crer agora? —
             
Ideia V, com a estrofe inicial
Mas a Ideia quem ê? Quem foi que a viu
Jamais, a essa descoberta peregrina?
Quem lhe beijou a sua mão divina?
Com seu olhar de amor quem se vestiu?—
             
Divina Comédia, com o introito
Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando o. deuses Invisíveis
Os homens clamam: — «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! (...)
             
e a reversão final:
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: —«Homens! porque t que nos criastes?
             
Terminam em interrogativa os sonetos A Santos Valente, com o terceto
Ah, se Deus acendeu um foco intenso
De amor e dor em nós, na ardente lida,
Porque a miragem cria… ou porque a leva? —
             
Amaritudo, com os versos finais:
Oh minh’alma, que creste na virtude!
O que será velhice e desalento,
Se isto se chama aurora e juventude? —
             
No Turbilhão, com os tercetos
Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões miseráveis e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!
             
Os vários elementos da afirmação, interrogação e exclamação confundem-se, completando-se e intensificando-se reciprocamente, em Ignoto Deo:
Que beleza mortal se te assemelha,
Oh sonhada visão desta alma ardente,
Que refletes em mim teu brilho ingente,
Lá como sobre o mar o sol se espelha?

O mundo é grande — e esta Ansia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu pobre crente
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro… nua e velha...

Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos..

Pura essência das lágrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! se és verdade,
Descobre-te, visão, no céu ao menos! —
             
em
Lamento
Um dilúvio de luz cal da montanha:
Eis o dia! eis o sol! o esposo amado!
Onde há por toda a terra um só cuidado
Que não dissipe a luz que o Mundo banha?

Flor a custo medrada em erma penha,
Revolto mar ou golfo congelado,
Aonde há ser de Deus tão olvidado
Para quem paz e alívio o Céu não tenha?

Deus é Pai! Pai de toda a criatura;
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre é lembrado...

Ah! se Deus a seus filhos dá ventura
Nesta hora santa... e eu só posso ser triste...
Serei filho, mas filho abandonado ! —
             
em
             
A Germano Meyreles
Só males são reais, só dor existe;
Prazeres só os gera a fantasia;
Em nada, um imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos num bem, que a mente cria,
Que outro remédio há aí senão ser triste?

Oh! quem tanto pudesse, que passasse
A vida em sonhos só, e nada vira...
Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fora tão ditoso que olvidasse...
Mas nem seu mal com ele então dormira,
Que sempre o mal pior é ter nascido! —
             
em
             
Oceano Nox
Junto do mar (...)
…………………………..
………………………………….
………………………
(...) sentei-me tristemente,
Olhando o ceu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das cousas, vagamente...

Que inquieto desejo nos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que Ideia gravitais?—

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...
             
O carácter do movimento é ainda acentuado pela frequência Invulgar doenjambement que se encontra em todos os Sonetos sem exceção, estendendo-se em alguns até a todos os versos, como acontece em PsalmoSepultura Romântica, A Ideia IIEspectros e O que diz a Morte.
             
6
             
O movimento como elemento característico destes Sonetos relaciona-se com o antitetismo que, de acordo com a estrutura deste género, está também na origem daqueles em que o movimento se manifesta menos acentuado por interrogações e exclamações.
São característicos a esse respeito títulos tais como Diálogo, Tese e Antítese, Disputa em Família Luta, e igualmente a palinódia de A um Crucifixo de 1862 pelo soneto do mesmo título, de 1874. Os monólogos Amor vivo, Mea Culpa, Voz do Outono, Estoicismo, Comunhão, Solemnia Verba são expressões da luta interior do Poeta; Ignoto Deo, Divina Comédia, Ignotus e Logos, do seu conflito com Deus; os grupos de A Ideia I-VIII, Espiritualismo I-II e Elogio da Morte I-VI, têm estrutura dialética. Em trinta e nove dos cento e nove sonetos do volume, o antagonismo é marcado por «mas» (ao lado de «contudo», «entanto», «porém», em quatro, por «e» adversativo, em sessenta e sete por outros meios: contra-afirmações, imperativos ou meras antíteses. Mesmo o último soneto do volume, Na Mão de Deus, no intuito do Poeta o seu termo estética e filosoficamente conciliador, é, nesta sua função, determinado pelo antagonismo que nele aparece reconciliado.
As noções de Antero são impregnadas de antagonismos intrínsecos. Deus, procurado, acreditado e suplicado, é ao mesmo tempo o Ser que se oculta no infinito, que se esquiva, insondável e eternamente silencioso, que estabelece a lei da busca da Verdade e igualmente a contrária, que torna vã toda a sua pesquisa:
É lei de Deus este aspirar imenso...
E contudo a ilusão impôs à vida,
E manda buscar luz e dá-nos treva! (A Santos Valente),
             
e
Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da Verdade,
Em vez de luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento,

É lei também, embora cru tormento,
Buscar, buscar sempre a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento (A João de Deus).
             
Assim, aparece como «fantasma» odiado e amado (O inconsciente), como «tirano», «grande», «forte», «terrível», potência receada, inimigo da liberdade que busca a Verdade, e todavia como «vã banalidade» (Disputa em Família), ser que a si próprio ainda não se «encontrou» (Ignotus). A síntese deste conceito de Deus invisível, mas presente, que domina no íntimo da alma, que está na origem dos sentimentos e das noções, apenas Imaginado e todavia receado, invocado e silencioso, inexorável e todavia adorado, aparece no soneto
Logos
     Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
     E, o que é mais, dentro em mim ‑ que me rodeias
     Com um nimbo de afetos e de ideias,
     Que são o meu princípio, meio e fim...
     
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     És um reflexo apenas da minha alma, 
     E em vez de te encarar com fronte calma 
     Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te...
     
     Falo-te, calas... calo, e vens atento...
     És um pai, um irmão, e é um tormento
     Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te!
             
Cristo ficou privado da imortalidade, definitivamente humilhado e aniquilado, «morto», pela divinização (Palavras dum certo Morto). Por outro lado, o triunfo da Razão extática ao proclamar que Deus morreu, é apenas a expressão da «eterna, trágica ironia» de Deus (Quia aeternus).
O Homem, por sua vez, submetido à lei que lhe impõe buscar a verdade e daquela que torna vã esta mesma aspiração, é dilacerado pela fé e pela dúvida, pela confiança e pela revolta. As suas interrogações perdem-se, inatendidas, no vácuo, respondem-lhe apenas o eco das próprias dúvidas e tristezas e o silêncio impassível, e em vez de encontrar a luz da Verdade, o espírito ansioso perde-se na escuridão impenetrável. […]
                 
Ler mais: “Os Sonetos de Antero de Quental” in Estudos Vol. II, Albin Eduard Beau. Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra Editora, 1964, pp. 278-288. (Tradução de Die Sonette von Antero de Quental,publicado em «Portugiesiche Forschungen der Görresgesellschaft, Erste Reihe: Auísätze zur portugiesischen Kulturgeschichte», II. Münster, 1961)
               
               
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/04/05/logos.aspx]