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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

DIONISO

              
               
                 
CORO
[…] 
De Cibele, a Grande Mãe,
celebrando as orgias,
o tirso agitando freneticamente
e coroando-se de hera,
a Dioniso atende.
Eurípides, As Bacantes78-82
      
        
          
        
EPODO
Está-se bem nas montanhas, depois das corridas dos tíasos,
quando se cai por terra,
envergando a sacra nébride, buscando
o sangue de um bode imolado, a graça da omofagia,
para as frígias e lídias montanhas avançando, ao sinal de Brómio,
Evoé!
Do solo escorre leite, escorre vinho, escorre das abelhas
o néctar!
Tal um vapor de incenso da Síria,
o sacerdote de Baco empunhando
a ardente chama no topo da vara
de pinheiro, incita
à corrida, e às danças
quem anda errante impele,
com seus brados estimula,
os delicados cabelos flutuando ao vento...
Entre gritos de Evoé, ele clama:
Ide, Bacantes!
No esplendor do Tmolo que rola torrentes de ouro,
celebrai a Dioniso
pelo rufar dos tamboris,
glorificando o deus Evoé com Evoés,
em gritos estridentes ao modo frígio,
quando o sacro loto de melodioso tom
fizer ecoar os sacros acordes dos folguedos, em uníssono
c'os espíritos alucinados, para a montanha, para a montanha!
Então, plena de deleite, como a poldra que com a mãe
vai pascer, a Bacante seus pés velozes em saltos agita...
Eurípides, As Bacantes135-161
          
        
AS BACANTES
        
EPODO
Mostra-te como touro, ou um dragão de múltiplas cabeças,
ou um leão ardente como a chama!
Eurípides (480-406 a. C.), As Bacantes1017-1018
Trad. Maria Helena da Rocha Pereira
Lisboa/São Paulo, Verbo, 1973
Série «Clássicos gregos e latinos»
           
           
 AS BACANTES / Dioniso
          
BACANTES é uma superprodução da UZYNA UZONA, sob direção de Zé Celso Martinez Corrêa. >>
        
Dioniso
        
        



  

Mythos: Sátiro. 7th February 2013 por Carmelo Blázquez Jiménez ( El Carretereño Errante ) 

        

terça-feira, 21 de abril de 2009

MEDEIA



MEDEIA
     
(Recitando o texto de Eurípedes.) «Jasão, perdoa-me o que disse. Tens de suportar este génio violento. Partilhamos tantas recordações do nosso amor!» Eu ralho comigo mesma, «Como és doida, Medeia, teimas em te queixar, quando o que os outros pretendem é levar a vida da melhor maneira possível, teimas em te queixar, erguendo-te contra o Rei e contra o teu próprio marido.»
[…]
«A vossa mãe está fora do Mundo», dizes calmamente enquanto enches o cachimbo, «e há quase vinte anos que anda agarrada como um abutre à carcaça de Medeia. Como e dorme com os seus demónios, de que outra coisa quer ela saber?» E os pequenos ouvem-te. O mais velho pelo menos ainda te presta atenção, vendo no pai aquilo que pretende ser, um «pragmático» com a ambição toda que cabe nesta palavra»
[…]
«A chuva desta noite espalhou pela terra as azeitonas antes que amadurecessem.» O texto de Eurípedes não contém, mas deveria conter, uma fala assim. Bem mais felizes terão sido essas mulheres antigas, descidas de um reino de taças de veneno e de tronos derrubados, desgrenhando a cabeleira no ventre dos seus amantes. Pariam em sangue, em sangue assassinavam.
[…]

Durante muitos anos tive aquele pesadelo. O homem, jovem de mais para mim, erguia-se na última fila da plateia. Disparava três vezes. Eu caía na grande luz do palco. E o público levantava-se para me aplaudir.
    
    
MÁRIO CLÁUDIO, MEDEIA
Lisboa, Publ. Dom Quixote, 2008
    

     
[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2009/04/21/medeia.aspx]  


domingo, 13 de maio de 2007

CÂNTICO DOS CÂNTICOS, ARTE DE AMAR & EROTISMO




      
Canticum Canticorum ou Canticum Salomonis é um texto poético de linguagem fortemente figurativa e sugestiva, cuja acção se situa em Jerusalém ou nos seus arredores, em plena Primavera. Provavelmente, o Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão como também é conhecido o texto) é proveniente de poemas nupciais cujo ritual durava sete dias.
                 
As interpretações medievais do conteúdo literário do Cântico dos Cânticos, tanto as talmúdicas (judaicas) como as dos cristãos, remetem para uma interpretação alegórica que se afasta do erotismo que o poema evoca.
                
Assim, as duas leituras mais usuais do Cântico dos Cânticos interpretam-no:
                
·         como metáfora do relacionamento do povo hebreu com o seu Deus, através da união de dois amantes numa relação livre e desprovida de culpa;
                
·         como descrição de um quadro que remete para uma relação sensual do amor entre dois jovens amantes.
                
  
  
                                                                                                            
                
                
Ela:
          
A voz de meu amado! Ei-lo que chega,
correndo pelos montes,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um gamo
ou a um filhote de gazela.
Ei-lo que espera,
por detrás do nosso muro,
olhando pelas janelas,
espreitando pelas frinchas.
Fala o meu amado e diz-me:
Cântico 2, 8-10
            
Ele:
              
Os teus lábios destilam doçura, ó minha noiva;
há mel e leite sob a tua língua,
e o aroma dos teus vestidos
é como o aroma do Líbano.
És um jardim fechado, minha irmã e minha esposa,
um jardim fechado, uma fonte selada.
Os teus rebentos são um pomar de romãzeiras
com frutos deliciosos,
com alfenas e nardos,
nardo e açafrão,
cálamo e canela,
com toda a espécie de árvores de incenso,
mirra e aloés,
com todos os bálsamos escolhidos.
Cântico 4, 11-14
            
Ela:
           
Levanta-te, vento norte;
vem, vento do sul;
vem soprar no meu jardim.
Que se espalhem os seus perfumes.
O meu amado entrará no seu jardim
e comerá os seus frutos deliciosos.
Cântico 4, 16
          
O meu amado desceu ao seu jardim,
ao canteiro dos aromas,
para apascentar nos jardins
e para colher os lírios.
Eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim,
ele é o pastor entre os lírios.
Cântico 6, 2-3
             
Bíblia sagrada. Para o terceiro milénio da encarnação. Versão dos textos originais.Difusora Bíblica / Franciscanos Capuchinhos 4ª ed. revista sob a direcção de Herculano Alves, 2003
             
         
                                    
         
       
Meinrad CraigheadCântico dos Cânticos  (1966)
                
                       
          
Cântico dos Cânticos tal como a Arte de Amar (Ars Amatoria) de Ovídio foram, em tempos idos, os livros de mesa-de-cabeceira de damas e cavalheiros...
                
Arte de Amar, obra de conteúdo arejado, foi particularmente apreciada na Antiguidade. No período medieval a sua leitura foi feita sobretudo às escondidas, sendo de novo valorizada a partir do Renascimento.
               
“Compósita mistura de Bíblia profana, de Manual de Bordo e de Livro de Cozinha para uso dos aprendizes do amor, a Arte de Amar tem vivido clandestinamente sob o alçado de escrivaninhas devotas, ocupado os mais secretos lugares no topo das estantes mais veneráveis, transitado de mão em mão sob a capa de sucessivas gerações de estudantes, pernoitado em celas de conventos e em celas de prisões, em castelos, em palácios e em estalagens, em boudoirs de cocottes e em tendas de campanha, em bordéis, em solares, em escolas, em beliches de transatlântico e em compartimentos de caminho de ferro...” – éDavid Mourão-Ferreira quem o assegura no prefácio a uma versão que procura obedecer mais a certos ritmos internos do que a uma opressiva literalidade. Em 1969, numa ardência de época, ele e Natália Correia ofereciam-nos esta tradução:
          
                

                
              
Tal como o povo, tal como o juiz
e o selecto senado se rendem à eloquência,
à arte embaladora das palavras
as mulheres não opõem resistência.
Mas os recursos oculta do teu verbo;
evite o teu discurso o tom pedante.
Só um pobre de espírito faria
um pomposo discurso à sua amante.
Muitas vezes foi uma carta causadora
de se tornar odioso o seu autor.
Que o teu estilo seja natural
e as palavras comuns, embora ternas.
À mulher que escreveres procura dar
naturalmente a impressão
de que te está a ouvir falar.
             
Despoja-te do orgulho
se queres ser amado longo tempo.
                
O amor ainda jovem é inseguro,
o uso o fortifica e o tempo o torna firme
se o amante o souber alimentar. […]
Que a tua bela se habitue a ti! […]
Que a tua amiga te veja e ouça sempre.
Que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
               
Ovídio e Corina, por Agostino Carracci, séc XVI
                 
É no leito, acredita,
que a Concórdia, sem armas, eternamente habita.
A cama é o lugar onde nasce o perdão.
As pombas que ainda há pouco se batiam
unem os bicos e o seu arrolhar
é o amor a falar.
                
Nasce o prazer naturalmente e não
duma artificial provocação.
Para que jorre a fonte do prazer
é necessário que o homem e a mulher
igualmente o partilhem.
Odeio o coito quando não é mútua
a desvairada entrega dos amantes.
             
Apressar o termo da volúpia,
acredita, não é conveniente,
mas depois de atrasos que a demorem
chegar à meta insensivelmente.
E antes de encontrares aquela região
onde as carícias têm melhor acolhimento
não te impeça o pudor de a afagar.
Como os raios do sol quando são reflectidos
no espelho da água transparente,
nos olhos da amante, esse trémulo brilho
tu verás cintilar.
Depois virão as queixas, os gemidos,
doces rumores, um murmúrio terno,
as palavras que convêm ao amor.
Mas as velas não abras mais do que a tua amiga
não a deixes para trás e que ela se antecipe
à tua marcha também não lhe concedas.
Que a meta seja atingida ao mesmo tempo.
São guindados ao cume da volúpia
o homem e a mulher quando vencidos
ficam na cama, sem forças, estendidos.
Se o vagar deixa toda a liberdade
e o medo não obriga a apressar o acto,
eis a conduta que convém seguir.
Mas se houver perigo no tardar,
a toda a força mete os remos
e dá de esporas ao cavalo
lançado a toda a brida.
               
Arte de Amar, Ovídio (43 a.C-17 d.C.)
tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira, 1969
                
Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/05/13/cantico.aspx



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A Arte de Amar e os livros num poema de Afonso X, o Sábio: “Ao daiam de Cález eu achei” (“Ao deão de Cadiz eu achei”), por Carlos Mendonça Lopes (pseudónimo), viciodapoesia.com, 2016-04-15.


  "História do Cântico dos Cânticos em Portugal", Arnaldo Pinto Cardoso. Didaskalia XXII, 1992.