Não me chamo Platão nem Aristóteles e não tenho qualquer competência filosófica ou teológica para falar sobre a existência e natureza da alma. Feita esta advertência, deixem-me falar-vos da minha alma (pois sobre a vossa seria presunção pronunciar-me).
Pessoalmente, não tenho dúvida de que o meu corpo veio ao mundo apetrechado dessa coisa que nunca a medicina legal encontrará na eventualidade de eu vir a ser autopsiado. Não sei se a minha alma continuará viva depois de eu morrer e não sei se já estava viva antes de eu nascer. As explicações religiosas sobre a alma (sejam elas cristãs, hindus ou outras) deixam-me perplexo, numa recusa de dar o mergulho no oceano da fé irracional, que é mar onde já não me apetece nadar.
No entanto, sinto que a minha alma não existe independentemente da existência de um Ente Divino (aqui o alemão dá tanto jeito, com o seu género neutro: “Göttliches Wesen”), a que por vezes chamei Deus e agora não chamo nada, preferindo que tudo o que se passa entre Ele e a minha alma aconteça sob a capa do anonimato.
Às vezes parece-me impossível que, depois da minha morte, a minha alma parta para Ele porque não imagino que Lhe sirva de alguma coisa. Ele havia de querê-la para quê? Até porque quando eu morrer ela estará tudo menos assepticamente limpa, antes de mais porque não sou daqueles que acreditam ser a alma uma coisa cuja brancura deva ser salvaguardada a todo o custo pela lixívia da castidade.
Não, a minha alma quando eu morrer não estará inexperiente de vivências sexuais ou amorosas, nem de vivências que foram sexuais e amorosas. Porque a alma – pelo menos a minha –, se serve para alguma coisa, serve essencialmente como órgão do auto-conhecimento; e nesse processo o sexo e o amor têm um papel fundamental a desempenhar. E cá para mim, sem essas vivências a minha alma evaporar-se-ia à minha morte bem “coisinha”, para não dizer mesmo parvinha.
O corpo, na verdade, é como o disco externo da alma. Estão sempre ligados e é ele que faz em grande parte o trabalho dela. Goethe escreve “infindável é o trabalho que a alma nos exige” (Ifigénia na Táurida). Mas sem o corpo, sem as coisas próprias do corpo, esse trabalho fica por fazer. Adaptando a metáfora desportiva sugerida por Platão, quando assemelha a alma a um auriga que tem de controlar dois cavalos, o corpo tem de estar em forma para cumprir esse trabalho infindável até ao fim. Por isso a incontinência alcoólica, tabágica, cafeínica, glicémica, psicofarmacológica, erótica etc. impede o corpo de estar em forma para assumir o trabalho da alma, o que é muito diferente de dizermos que, a bem da alma, não devemos beber, fumar, comer ou fazer amor. Claro que devemos beber, comer, tomar café e fazer amor.
Os padres gregos da igreja, como João Clímaco e outros, aconselhavam a martirização do corpo como forma de subir a escada que leva ao céu. Já antes Platão dissera que os prazeres são como pregos que impedem a alma de se libertar do corpo. Ora bem: libertar do corpo. Será que é isso que ela quer? Desligá-la do corpo não será desligá-la da tomada, da sua única fonte vital de energia? No fundo, não terá a alma tanto a beneficiar do corpo, como o corpo tem a beneficiar da alma?
O corpo não é o inimigo da alma. É essa a minha crença. Ambos precisam do mesmo sustento, que a ambos “liberta”: a verdade. Não falo de uma verdade teológica, filosófica ou outra. Falo apenas da limpidez autêntica da verdade, em todos os nossos actos, gestos e palavras. Assim, o inimigo da alma não é o corpo; o inimigo da alma é o contrário da verdade.
Esta é uma daquelas questões que, cedo ou
tarde, todos os poetas enfrentam. A resposta mais frequente, mais falha de imaginação
e de verdade, assegura que a poesia não serve para nada. Alguns poetas, em
especial os portugueses, acrescentam a seguir que também a vida não serve para nada,
etc.
Na origem, a poesia era uma disciplina da
magia. Servia para encantar. Continua a ser assim, embora, no sentido literal,
poucas pessoas ainda exercitem essa antiquíssima arte. Uma tarde, em Benguela,
conheci uma das derradeiras praticantes. Almoçava com amigos, e amigos de
amigos, num desses quintalões antigos, carregados de frutos, e de boa sombra,
da cidade das acácias rubras. A determinada altura escutei um sujeito que se referiu
a uma tal Dona Aurora:
− A velha receita poesias.
− Recita − corrigi.
O homem, um oficial do exército, encarou-me,
irritado:
− Não senhor! Receita! Dona Aurora receita
poesias. Resolve problemas de amor, amarrações, mau-olhado, tudo com versinhos.
Fiquei interessado. Anotei o endereço da curandeira
num guardanapo e na manhã seguinte bati-lhe à porta.
Dona Aurora morava na Restinga, num casarão,
em madeira, muito maltratado. A velha senhora, miúda, muito magra, vestia de cor
de rosa. Toda a sua força parecia residir na cabeleira, a qual mantinha uma
vigorosa rebeldia juvenil. Convidou-me a entrar. Móveis dos anos 50, muito
gastos. Estantes carregadas de livros velhos. Aproximei-me. Poesia, e mais
poesia: Florbela, Camões, Vinicius, José Régio, Sophia, Drummond, Manuel
Bandeira, tudo misturado, num bem-aventurado desrespeito a fronteiras políticas,
estéticas e ideológicas. «O meu marido sempre gostou de poesia», justificou-se:
«Eu, menos. Foi só depois de ele morrer, há 30
anos, que descobri o poder dos versos.»
Acontecera um pouco por acaso – contou. Uma
tarde deu-se conta de que certos sonetos parnasianos (os mais trabalhosos) a ajudavam
a vencer a insónia. Mais tarde, que João Cabral de Melo Neto, a partir de «O
cão sem plumas», era muito eficaz no combate à cefaleia. Pouco a pouco foi
desenvolvendo um método. Combatia a prisão de ventre lendo alto a Sagrada
Esperança. Mantinha o quintal livre de ervas daninhas, percorrendo-o, ao
crepúsculo, enquanto soprava devagar «O guardador de rebanhos».
Numa cidade pequena não tardou que tais
excentricidades lhe trouxessem, primeiro inimigos, e depois devotos seguidores
e pacientes. Hoje, ela recebe a todos, ricos e pobres, na sala onde me recebeu
a mim. Ouve as suas queixas, levanta-se, percorre as estantes, e regressa com a
solução. «Quem me procura mais são mulheres querendo reconquistar os maridos.
Recomendo que lhes murmurem, enquanto dormem, algum Neruda, às vezes Camões,
outras Bocage.»
Dona Aurora não aceita dinheiro pelos serviços
prestados. «Não sou eu quem cura», explicou-me, «é a poesia».
José
Eduardo Agualusa (texto) e Pedro Vieira (ilustração), Ler, maio de 2012
(adaptado)
José Eduardo Agualusa
A CURA PELA PALAVRA
A boa poesia acende clarões no cérebro Há dois anos, surgiu na Inglaterra um curioso
objeto literário, "The novel cure", que poderíamos traduzir como
"A cura pelo romance". O livro, da autoria de Susan Elderkin e Ella
Berthoud, tem como subtítulo "An A-Z of literary remedies", ou seja,
"Um receituário literário de A a Z". A ideia é muito boa: receitar
literatura para um vasto leque de males, da melancolia e depressão ao excesso
de peso.
O livreiro português José Pinho, um dos
proprietários da bonita e extravagante livraria lisboeta Ler Devagar
inspirou-se no livro de Susan Elderkin e Ella Berthoud para criar um projeto
ainda mais arrojado: uma farmácia literária. A farmácia deverá funcionar no
átrio de um futuro centro de medicinas alternativas, a instalar num velho
hospital de Lisboa, atualmente desativado. O paciente dirige-se ao farmacêutico
literário (biblioterapeuta), dá conta das suas queixas, e recebe o remédio ou
remédios, dois ou três livros, que poderá utilizar ali mesmo, comodamente
instalado num dos quartos da instituição, ou levar para casa. Parece o devaneio
feliz de um sonhador, e é, com a diferença de que José Pinho leva os sonhos a
sério. Foi dele a ideia louca de transformar Óbidos, pequena e belíssima
povoação histórica, cercada de muralhas, a 70 quilômetros de Lisboa, numa vila
literária, com 11 livrarias, instaladas nos locais mais insólitos, desde uma
antiga igreja a um mercado de frutas. Os principais compradores são os milhares
de turistas brasileiros que visitam a vila e ficam encantados com as livrarias.
Há alguns anos publiquei um conto numa revista
literária sobre uma senhora que receitava poesia como tratamento para todo o
tipo de males. Serviu-me de modelo para a personagem uma vizinha belga que,
quando eu era criança, lia versos, em voz alta, para as flores do seu jardim.
Eu via-a, em certos fins de tarde incandescentes, passear ao longo do muro, com
um livro aberto entre as mãos. Detinha-se aqui e ali, para recitar, debruçada
sobre o fulgor das rosas, sonetos em francês e português. Ao vê-la, ao escutar
o eco misterioso daqueles versos, eu intuía ali uma força antiga. Talvez as
flores dela não crescessem mais frescas nem com mais vigor, mas eu acreditava
que sim.
Circula pelas redes sociais um estudo da
Universidade de Liverpool segundo o qual a poesia é muito mais estimulante para
o cérebro, e mais útil na resolução de problemas, do que a chamada literatura
de autoajuda. Mesmo ignorando a legitimidade do documento em causa, acredito
nas suas conclusões. Livros de autoajuda costumam ser — os menos ruins —
simples compilações enfadonhas de lugares-comuns. A boa poesia surpreende,
acende clarões no cérebro, provoca e desafia.
A poesia, é sempre bom lembrar, começou por ser
uma especialidade da magia. Magos declamavam os seus versos para convocar
espíritos, acordar remotas forças, criar acontecimentos através do verbo. A
palavra vento era o próprio vento. O som que enche a palavra sombra encheria de
penumbra o coração dos inimigos — e por aí afora.
Quase todos os meninos são poetas. Manoel de
Barros confessou, em várias entrevistas, ter roubado versos prontos aos próprios
filhos. Nada que surpreenda um pai ou uma mãe. Quem quer que tenha filhos
pequenos conhece a experiência de redescobrir o brilho da língua através da
poesia involuntária que os baixinhos praticam todos os dias. Infelizmente, o
que a generalidade dos sistemas de ensino faz é tirar a poesia de dentro das
crianças. Crescer é, assim, perder poesia. Talvez por isso temos tendência a
adoecer à medida que nos afastamos da infância — e da poesia. Acredito que a
exposição prolongada à poesia é suscetível de provocar alterações irreversíveis
no espírito de qualquer pessoa. Crianças que crescem ouvindo dizer poesia
correm o risco de nunca se transformarem inteiramente em adultos, ou, pelo
menos, em adultos conformados (e doentes). Eventualmente, continuam sendo poetas
a vida inteira.
As versões em português (portuguesa e brasileira)
do livro de Susan Elderkin e Ella Berthoud devem chegar nos próximos meses às
livrarias e serão distintas uma da outra, pois incluem receitas próprias,
adaptadas às diferentes realidades nacionais. A tentação de prolongar o jogo é
enorme. Cada um de nós pode criar o seu próprio receituário. Por exemplo, para
prevenir e tratar a intolerância religiosa, epidemia em crescimento no Brasil,
eu recomendaria Jorge Amado. Para escritores que estejam sofrendo um surto de
bloqueio criativo, ao invés de “I capture the castle”, de Dodie Smith, proposto
pelas inglesas, aconselho “O livro do desassossego”, de Bernardo Soares. Sei,
por experiência própria, que funciona muito bem.
José Eduardo Agualusa, "A cura pela palavra", 29/06/2015,
Saiba o que acontece em seu cérebro quando você lê poesia
Poesia são dardos em forma de palavras que vão direto para a parte mais emocional do nosso cérebro. Há poemas que despertam um tsunami emotivo real e nos arrepiam, como “A Primeira Elegia”, de Rainer Maria Rilke, cujos versos dizem:
“A beleza é nada mais que o princípio do terrível,
Aquilo que somos apenas capazes de suportar,
Aquilo que admiramos porque serenamente deseja nos destruir,
Todo anjo é terrível. ”
Rilke descreveu o terror que sentimos quando adquirimos um conhecimento mais amplo, o momento em que ficamos mais conscientes de nossas limitações e da complexidade do mundo, e percebemos tudo o que não entendemos, conscientes daquilo que nunca iremos compreender. É uma possibilidade bela e sedutora, mas também muito assustadora.
A poesia tem a capacidade de enviar poderosas mensagens emocionais e ativar a reflexão, ainda que seja certo dizer que o maior prazer que sentimos ao ler um poema, como quando desfrutamos de uma obra de arte, não provém de uma reflexão profunda, mas de sensações que nós experimentamos. Na verdade, Vladimir Nabokov disse que não se deve ler com o coração ou com o cérebro, mas com o corpo.
Pesquisadores do Instituto Max Planck de Estética Empírica se propuseram a explorar mais a fundo as influências da poesia em nosso cérebro, e os resultados de seu estudo são fascinantes.
A poesia gera mais prazer, a nível cerebral, que a música.
Pesquisadores pediram a um grupo de pessoas, alguns liam poesia com frequência, para ouvir poemas lidos em voz alta. Alguns dos poemas pertenciam a conhecidos poetas alemães como Friedrich Schiller, Theodor Fontane e Otto Ernst, apesar de que foi dada a opção para os participantes escolherem algumas obras, incluindo autores como William Shakespeare, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Nietzsche, Edgar Allan Poe, Paul Celan e Rilke.
Enquanto os voluntários escutavam os poemas, os pesquisadores registravam o ritmo cardíaco, expressões faciais e até mesmo os movimentos dos pelos sobre a pele. Além disso, quando as pessoas sentiam um arrepio, elas eram instruídas a avisar, pressionando um botão.
Curiosamente, todas as pessoas, mesmo aquelas que não tinham costume de ler poesia, relatavam calafrios em algum momento durante e leitura, 40% sentiram arrepios várias vezes. Estas são respostas similares àquelas que experimentamos quando escutamos música ou assistimos a uma cena de um filme que gera grande ressonância emocional.
No entanto, as respostas neurológicas estimuladas pela poesia eram únicas. Os dados mostraram que ao tomar contato com os poemas, partes do cérebro usualmente desativadas quando expostas ao estímulo de filmes e música foram despertadas.
Os neurocientistas descobriram que a poesia cria um estado que chamaram de “pré-relaxamento”; ou seja, que provoca uma reação de prazer gradativo a cada estrofe escutada. Na prática, ao invés da emoção nos invadir repentinamente, como quando escutamos uma canção, a poesia gera um crescendo emocional que começa até 4,5 segundos antes de sentirmos o arrepio.
Curiosamente, esses picos emocionais ocorriam especificamente em trechos dos versos, como no final das estrofes e, acima de tudo, no final da poesia. É uma descoberta muito interessante, especialmente considerando-se que 77% dos participantes que nunca tinha escutado um poema também mostraram as mesmas reações e sinais neurológicos que antecipavam os focos emocionais da leitura.
A poesia estimula a memória, facilita a introspecção e nos relaxa.
Neurocientistas da Universidade de Exeter escanearam os cérebros de um grupo de participantes enquanto liam conteúdos diferentes, desde um manual de instalação de ar-condicionado, passando por diálogos de novela, até sonetos e poemas.
Estes pesquisadores descobriram que o nosso cérebro processa a poesia de forma diferente que a prosa. É ativada uma “rede de leitura” peculiar que abraça diferentes áreas, entre elas, aquelas responsáveis pelo processamento emocional, ativadas fundamentalmente pela música.
Eles também perceberam que a poesia estimula áreas do cérebro associadas com a memória, como o córtex cingulado posterior e o lobo temporal médio, áreas que são despertadas quando estamos relaxados, ou introspectivos.
Isto demonstra que existe algo muito especial na estrutura do texto poético que gera prazer. Na verdade, a poesia é uma expressão literária muito especial que transmite sentimentos, pensamentos e ideias, praticando síntese métrica, trabalhando rimas e aliteração.
Portanto, não faz mal inserir um poema por dia em nossa rotina
"Luísa Sobral embrulhou emoção q.b. numa balada de piano-bar com bom fumo. As notas certas, os intervalos certos. o tempo exato para que o espaço que vai dos graves aos agudos deixasse todos à espera do verso seguinte. Como se faz num argumento bem feito para conquistar audiências em quantidade, “Amar pelos Dois” deixa o ouvinte pendurado, à espera da boa desgraça romântica que a letra vai confessar a seguir, e depois, e depois."
Rita Cipriano e Tiago Pereira http://observador.pt/2017/05/14/salvador-e-luisa-a-sobralvisao-ganhou-por-todos/
Salvador Sobral e Luísa Sobral cantam "Amar pelos dois":
Tributo à prestação portuguesa no Festival da Canção Eurovisão 2017:
Español
English
Si un día alguien
te pregunta por mí,
dile que viví
para amarte.
Antes de ti,
solo existía cansado
y sin nada que ofrecer.
Mi amor,
escucha mis oraciones.
Te pido que regreses,
que me vuelvas a querer.
Sé que no se ama
en soledad,
quizás puedas volver a quererme
poquito a poco.
Si tu corazón no quiere ceder,
no quiere enamorarse,
no quiere sufrir,
sin planificar lo que vendrá después,
mi corazón
puede amar por los dos.
If someday someone
Asks about me
Tell them I lived
To love you
Before you
I only existed
Tired and with nothing to give
My love
Hear my prayers
I ask you to come back
To want me again
I know
It takes two to love
Maybe slowly
You can learn again
If your heart
Doesn't want to give in
Doesn't feel the passion
Doesn't want to suffer
Without making plans
For what will come next
My heart
Can love for the both of us
Français
Deutsch
Si un jour quelqu'un
Me demande
Dîtes que j'ai vécu
Pour t'aimer
Avant toi
Je n'ai qu'existé
Fatigué et sans rien à donner
Chérie
Entends mes prières
Je demande que tu reviennes
Que tu me veuilles à nouveau
Je sais
Que l'on ne peut aimer seul
Peut-être lentement
Tu apprendras de nouveau
Si ton coeur
Ne veux pas ceder
Ne veux pas sentir la passion
Ne veux pas souffrir
Sans faire de plans
Que viendrait-il ensuite
Mon coeur
Peut aimer pour deux
Wenn eines
Tages jemand
nach mir fragt
sag ihm, ich lebte
dich zu lieben
vor dir
existierte nur ich allein
müde und ohne alles
Schatz
höre mein Gebet
ich bitte dich, komm zurück
sag dass du mich liebst
ich weiß,
dass du dich nicht allein lieben kannst
vielleicht kannst du langsam
alles wieder lernen
wenn dein Herz
nicht zu mir will
keine Leidenschaft fühlt
nicht mehr leiden will
ohne Pläne
was als nächstes geschieht
dann kann mein Herz
lieben für zwei
Quem não gosta - mesmo que o negue até ao limite - de uma boa canção de amor? De que falamos quando falamos de uma “boa” canção de “amor” e, já agora, dos critérios que a colocam num patamar em que é apreciada e partilhada por uma maioria, que com ela se identifica e sonha?
Uma boa canção de amor tem um toque de virtude e encanto, não raras vezes associado a doses de altruísmo, abnegação e sacrifício sem precedentes. Há maior prova de amor do que dar sem pedir nem esperar reciprocidade, como nas relações ideais, ou suficientemente boas, entre pais e filhos? Ou dar sem olhar a meios, com grandeza e heroísmo, à semelhança do que sucede nas histórias de amor romântico?
Há uma inegável poesia em tudo isto. Um cheirinho a Florbela Espanca nessa atitude de “ser mendigo e dar como quem seja rei do reino de aquém e de além dor”. Mas, será isto amor? E porque é que amar assim tem, quase sempre, a ingratidão como certa por parte do outro?
AMAR DEMAIS
Chama-se a isto amar demais. Não sou eu que o digo, é uma senhora americana que cunhou a expressão, em 1985, quando publicou Mulheres Que Amam Demais. Dois anos mais tarde, o livro de auto-ajuda converteu-se num bestseller à escala mundial e a californiana, hoje com 71 anos, viu a sua obra ser traduzida em 30 línguas e com mais de três milhões de cópias vendidas.
Quando o livro foi publicado em Portugal, questionei a designação, já que o amor não se mede em quilos, nem noutra unidade do género, sendo por isso um tanto ou quanto impreciso considerar que é demais ou de menos. Por outro lado, sendo cada humano dotado de uma cabeça e um coração, não deixa de soar um tanto ou quanto invasiva a ideia de pensar ou de amar por dois. Ou por três, e por aí fora. A menos que se seja ingénuo, masoquista ou mártir. Amar demais refere-se a um síndroma, a uma espécie de doença a que se convencionou chamar codependência. Trata-se de alguém que alimenta a dependência de outro para satisfazer carências próprias, ainda que nem sempre tenha consciência disso. Se tivesse, não ficaria atrelada a um relacionamento assente numa assimetria que só pode correr mal e acabar pior.
CODEPENDER É SOFRER
Amar por terceiros é uma adição, um vício. Codependência não é interdependência (que implica paridade e reciprocidade). Quando uma das partes precisa da outra para exercer sobre ela alguma forma de controlo, ainda que mascarada de dedicação, é o princípio do fim. E porquê? Porque é negar o que o outro sente, diz ou dá a entender. É acreditar que querer é poder e que quando um quer, o outro não precisa de concordar para algo acontecer e permanecer. É uma forma de omnipotência, uma ilusão insustentável a médio prazo, que acabará por desfazer-se com estrondo, quando a parte que deixa de ter voz decide tomar medidas drásticas e bater com a porta, de forma a não deixar margem para dúvidas.
A partir desse momento, é a neura total, o abatimento, o vazio insuportável. No pico da depressão, surge a oportunidade para questionar tudo, uma e outra vez, e compreender o que não estava certo desde o início: fazer tudo, literalmente tudo, por alguém, e viver exclusivamente em função desse alguém, como a única forma de não sentir-se abandonado. Ou abandonada, já que este tipo de situação parece ser mais comum no sexo feminino. Não foi por acaso que serviu de tema de eleição para o filme Ele Não Está Assim Tão Interessado, dos argumentistas de O Sexo e a Cidade, Greg Behrendt e Liz Tuccillo, lançado em 2009: se a norma for interpretar os sinais emitidos pelo sexo oposto, nas cenas de sedução, como um “sim”, ou se “dourar a pílula” é um modo de vida, tal dá azo a situações caricatas, que levam a rir para não chorar.
LIBERDADE SEM MEDO
Amar demais - ou amar por terceiros - pode parecer uma prova de amor infinita, mas esconder um profundo desespero. Quando essa atitude é manifestamente “em excesso” face a alguém, ela pode revelar precisamente o oposto: o amar-se “em débito”, o não ser capaz de gostar suficientemente de si e de respeitar as suas próprias necessidades, fazendo impossíveis em nome de um imaginário bem maior.
Como sair do ciclo vicioso, do padrão repetitivo que, quase sempre, é aprendido na infância, com aqueles de quem se depende completamente para poder sobreviver? Quantas vezes é preciso reviver, noutros relacionamentos, o mesmo medo - terror, até - do abandono, para se perceber que o amor genuíno não se compra nem se impõe e, menos ainda, se sobrepõe ao de um semelhante? A codependência afetiva supera-se, mas pode implicar ajuda profissional, sob a forma de psicoterapia ou outra, em que a pessoa se sinta segura e se permita ensaiar outras maneiras de relacionar-se, consigo em primeiro lugar. Sem medo de ficar sozinha, sem receio de ser rejeitada por ser como é, ou sentir que a sua auto estima ou valor pessoal só depende daquilo que dá, e que é a moeda de troca para ser acolhida, aceite ou simplesmente tolerada pelo outro.
Clara Soares (jornalista e psicóloga)
http://visao.sapo.pt/opiniao/psicologia-quotidiana-clara-soares/2017-05-30-Porque-nao-e-bom-amar-pelos-dois
As fases do amor são uma:
a primeira, a primeira, a primeira.
Nada no amor vai além da primeira fase
‑ a voltagem do encontro ‑
com nenhum futuro além da primeira fase.
Arruma-se a casa, limpa-se a fuligem
do passado, todos os sóis são convocados
para a hora sem volta da primeira fase:
é ali onde o amor marca o encontro
da emboscada com o acaso.
É neste momento da primeira fase
que o tempo se alarga, e morre-se de amor
no eterno da primeira fase. Tudo, tudo é
tudo é convocado: o hálito com suas
aragens, o incêndio do corpo
exaurindo as margens, a chama do sopro
com suas linguagens. E não há conjeturas
sobre os limites da primeira fase, a não ser
o horror do fim, o abismo do fim que reside
no infinito da primeira fase.
Paulinho
Assunção, Novos poemas
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O amor tem cinco fases. Mas a maioria das pessoas fica
estagnada na terceira
Depois de 40 anos de pesquisa clínica, o famoso
psicólogo Jed Diamond concluiu que a maioria das pessoas encontra, de facto, a
sua ‘cara-metade’. Mas, para que o relacionamento funcione é preciso superar
cinco fases inevitáveis da vida a dois. O problema é que, como o psicólogo
aferiu, a maioria das pessoas fica-se pela terceira fase e termina a relação.
De acordo com Jed Diamond e como
explica no seu siteMenAlivepara conseguir um amor verdadeiro e
duradouro é preciso passar por estas fases:
1.
Paixão.
Fase em que se sente extasiado pelas hormonas da
felicidade, em que projeta todas as suas expectativas no parceiro e em que não
consegue ver nenhum defeito nessa pessoa.
2.
Início oficial da relação.
Quando se começa uma união estável ou se dá o
casamento o amor torna-se mais forte. Começam a viver juntos, a conhecer-se
melhor e a influenciar os aspetos da vida do outro. É um momento de união e de
alegria.
3.
Desilusão.
Este é o momento em que todas as esperanças são
destruídas. Parece que os sentimentos estão a desaparecer, a outra pessoa
torna-se demasiado previsível e o seu comportamento começa a irritá-lo. Quer
fazer afastar-se durante um tempo ou mesmo pôr fim à relação. E é aqui que
muitas pessoas dão o amor como morto e deixam de se esforçar por uma relação
que parece já não lhes trazer felicidade há muito.
4.
Superação da crise ecriação
do amor verdadeiroe
duradouro.
Se conseguir ultrapassar a terceira fase com segurança
chega esta em que as ilusões que estava a projetar no seu parceiro desaparecem
e começa a ver a pessoa que está à sua frente e não a imagem que criou dela. Se
a aceitar como ela é e compreender os seus pequenos defeitos conseguirão ajudar
um ao outro e passar para a fase do amor verdadeiro e criar uma parceria real.
5.Utilizar
o poder de ambos para mudar o mundo.
Sabendo que conseguiram ultrapassar todas as vossas
diferenças e mal-entendidos e de que encontraram uma ligação profunda e forte
entre vocês, sentem que têm força para mudar o que quer que seja, são uma
equipa imbatível. Mais do que viver juntos, vivem juntos por um propósito e
trabalham e pensam como um só.
Nas
últimas décadas, com o surgimento de técnicas como a tomografia computadorizada
por emissão de pósitrons e a ressonância magnética funcional, os
neurocientistas começaram a investigar assuntos como o amor, a atração e a
monogamia; áreas que até então tinham prevalência de estudos psicológicos e
sociológicos. Desta forma, eles foram à busca de respostas para perguntas como
o porquê nos apaixonamos e o porquê escolhemos uma pessoa específica.
Psicólogos definiram três
diferentes fases para um relacionamento amoroso: 1) paixão/romantismo, 2) amor
passional e 3) companheirismo; além do rompimento, que pode ocorrer durante
esse percurso, sendo que cada uma apresenta suas próprias características (Figura
1).
Figura 1: Esquema ilustrando as fases do amor e suas respectivas durações: 1) paixão/romantismo, 2) amor passional e 3) companheirismo. O rompimento, que pode ocorrer durante esse percurso, também está representado, sendo mais comum que ocorra entre as fases 2 (amor passional) e 3 (companheirismo).
A primeira fase, relativamente
curta (aproximadamente 6 meses), apresenta grandes variações hormonais de
oxitocina e vasopressina que são importantes hormônios que regulam áreas do
sistema de recompensa do cérebro (Figura 2), complexa rede de neurônios que é
ativada quando fazemos atividades que causam prazer.
Figura 2: Localização das principais áreas envolvidas no relacionamento amoroso: núcleo Accumbens; núcleo pálido ventral e área tegmental ventral.
Boer e colaboradores1,
da Universidade de Groningen, na Holanda, publicaram em 2012 um artigo de
revisão bastante interessante sobre as perspectivas neurobiológicas atuais do
amor e afeição.
Os autores relatam diversos
estudos realizados com o objetivo de elucidar a base neurobiológica da
monogamia, a maioria deles comparando duas diferentes espécies de ratazanas
(monogâmicas e promíscuas), em que estas áreas e regiões adjacentes
demonstraram alterações em sua ativação durante a fase inicial do amor
(romântica). Estas áreas estão intimamente ligadas à dopamina, outro importante
neurotransmissor para o sistema de recompensa.
A relação entre a dopamina e a
monogamia foi demonstrada no encéfalo destes animais em que, após infusão
moderada deste hormônio no núcleoAccumbensda
espécie promíscua, elas passaram a apresentar comportamento monogâmico. É como
se seu companheiro ou companheira que é muito assanhado(a) passasse a ser a
pessoal mais fiel à você!
Além do sistema de recompensa
cerebral, foram observadas alterações na atividade de regiões corticais que se
associam às experiências emocionais, principalmente o medo, sentimento que
diminui quando estamos próximos às pessoas amadas; as experiências negativas e
de julgamento, observado na incapacidade de julgarmos honestamente o caráter de
quem amamos; e de percepção sobre a evolução dos sentimentos e intenções da outra
pessoa.
A segunda fase, a fase passional,
compreende até o primeiro ano de relacionamento.Nesta fase, a oxitocina e a
vasopressina estão envolvidas na formação de um relacionamento sólido. Estas
alterações geram os sentimentos de segurança, calma e equilíbrio.
Em 2013, Scheele e colaboradores2
avaliaram a ação da administração intranasal de oxitocina (OXT) no sistema de
recompensa dopaminérgico, através da apresentação da foto da parceira em
comparação com a de outras mulheres exemplificadas adiante.
Foram selecionados 40
participantes do sexo masculino, adultos, não fumantes que estavam em um
relacionamento amoroso heterossexual por mais de 6 meses, solteiros e sem
filhos que, portanto, estavam vivenciando a segunda fase do amor, o amor
passional.
Foram realizados dois estudos, um
de Descoberta (DSC) e um de Replicação (RPL) (Figura 3), cada um com 20
sujeitos. Trinta minutos antes de começar o teste, estes foram aleatoriamente
selecionados para receberem OXT intranasal ou Placebo (PLC).
No DSC, foram apresentadas a foto
da parceira, de uma mulher desconhecida (com igual grau de beleza) e a figura
de uma casa como controle, pois esta não é considerada um estímulo facial.
Já no RPL, a figura da casa foi
substituída pela foto de uma mulher familiar que conhecia o participante há, no
mínimo, 30 meses.
Figura 3: Exemplificação da realização dos estudos, contendo o tipo de estudo (verde), imagens utilizadas (azul) e substância utilizada (laranja).
Ambos os
estudos utilizaram a Ressonância Magnética Funcional (RMf) para visualizar o
contraste de ativação cerebral quando cada uma das fotos foram apresentadas,
além de ser avaliado o grau de atratividade e recompensa para cada foto.
O efeito da OXT foi evidenciado
quando houve o aumento de ativação pela visualização da parceira e decréscimo
de ativação pela visualização da foto da mulher desconhecida no núcleoAccumbens(NAcc) e na Área Tegmental Ventral
(ATV), o que intensificou o sentimento de recompensa pela parceira quando a
foto foi apresentada. Isto aumentou a ativação da área de recompensa, sendo
ainda o ATV recentemente sugerido como área de ação da oxitocina para salientar
os estímulos socialmente relevantes.
A ativação da ATV sofreu
decréscimo, em ambos os estudos RPL e DSC, após o tratamento com OXT, o que
pode contribuir para os relacionamentos duradouros, pois demais mulheres se
tornam menos atrativas, porém não foram realizados estudos comportamentais para
validação desta hipótese.
Quando comparado à casa, figura
neutra, com a parceira no tratamento com placebo (PLC), notou-se ausência de
forte resposta neural, pois a casa não é uma figura tão recompensadora quanto
uma mulher desconhecida com igual grau de beleza que sua parceira.
Nos homens envolvidos em
relacionamentos amorosos o aumento de oxitocina (OXT) sinaliza a proximidade,
apoio social, contato íntimo ou sexo como atividades muito mais gratificantes
se compartilhadas com sua parceira.
Através destes estudos,
verificou-se a possível influência da OXT no aumento da atração facial, da
comunicação entre o casal durante discussões e da fidelidade masculina através
do distanciamento das demais mulheres.
Contudo, neste estudo não foram
analisados os efeitos da OXT na ansiedade e no humor, sendo necessárias
análises mais sensíveis que possam detectar alterações mais sutis. Podem também
ter ocorrido alterações inconscientes de afetividade, pois não foram coletados
dados psicológicos.
A terceira fase, companheirismo,
é caracterizada pela diminuição da paixão e o aumento de comprometimento com o
parceiro, o que se assemelha a um sentimento de amizade. A oxitocina e a
vasopressina mantêm seu papel, sendo os hormônios dominantes para manter o
relacionamento.
Contudo, não podemos classificar
todas as relações amorosas desta maneira, pois um terço dos casamentos acaba em
divórcio e outros relacionamentos chegam ao fim, ainda entre as primeiras
etapas, sendo mais comum na transição da fase passional para o companheirismo.
Neste período, a intimidade entre os casais decai e o compromisso é o maior
laço entre o casal, tornando assim a relação frágil.
Ao avaliar a atividade cerebral
de pessoas que haviam terminado seus relacionamentos recentemente, foi
observada uma alta atividade em outras regiões do sistema de recompensa
dopaminérgico que estão associadas a recompensas incertas e respostas
tardias,caracterizando o sentimento de incertezas de futuro1.
Os estudos realizados na
tentativa de elucidar as bases neurobiológicas do relacionamento amoroso ainda
são escassos, apesar do interesse crescente de cientistas e pesquisadores da
área de Neurociências e dos recentes avanços das técnicas de imagem. Muitos
deles, realizados em animais, talvez não possam ser transpostos ao homem, mas
com certeza ajudam a compreender este campo ainda tão pouco explorado. Embora
seja um estudo bem complexo, o amor nos seres humanos é um interessante tópico
que merece ser aprofundado no sentido neurobiológico, levando a novas
descobertas nos próximos anos.
Referências
1. de Boer A, van Buel EM, Ter Horst GJ. Love Is More Than Just a Kiss: A Neurobiological Perspective
on Love and Affection. Neuroscience. 2012 Jan 10;201:114-24. PubMed PMID:
ISI:000299400700011. English.
2.
Scheele D, Wille A, Kendrick KM, Stoffel-Wagner B, Becker B, Gunturkun O, et
al. Oxytocin enhances brain reward system responses in men viewing the face of
their female partner. P Natl Acad Sci USA. 2013 Dec 10;110(50):20308-13. PubMed
PMID: ISI:000328061700077. English.
"O grande erro do século XX foi acharmos que o amor era só um sentimento, que vai e vem. Na realidade, é um ato de vontade e inteligência"
José Carlos Carvalho
Entrevista ao psiquiatra e escritor
espanhol Enrique Rojas, o homem do momento em Espanha
O homem
de quem se fala em Espanha, pelos seus livros de autoajuda, veio a Lisboa
munido de mais um título que promete alargar os mais de três milhões de
exemplares vendidos, desde que apostou na escrita sobre dirigida ao cidadão
comum. SOS Ansiedade (Matéria Prima, 186 págs., €15) tem todos os ingredientes
para seguir o caminho dos outros títulos editados em Portugal (Não te rendas! e
Vive a tua vida). Aos 68 anos, o diretor do Instituto Espanhol de Investigação
Psiquiátrica de Madrid conversou com a VISÃO sobre o que faz de nós pessoas
menos ansiosas, mais felizes e capazes de amar com inteligência. Entre
consultas e digressões, nuestro hermano preside ainda à Fundação Rojas-Estapé,
que acompanha gratuitamente jovens com perturbações de personalidade e baixos
recursos económicos.
A psiquiatria está-lhe no sangue?
O meu pai, o meu primo, a minha irmã são psiquiatras e a
minha filha é psicóloga. “Rojas” é igual a “psiquiatria”.
E como é viver com isso?
Hoje podemos dizer que o psiquiatra vende paz,
tranquilidade, ilusão e felicidade. Porém, contactar diariamente com situações
pessoais duras, graves e complicadas produz erosão. Combatê-las passa por
cultivar algo para relaxar. Eu faço pintura abstrata: quando me sinto esgotado
vou para o estúdio e dedico-me a essa paixão. Além disso ouço música e faço
desporto.
Doutorou-se com um trabalho sobre suicídio e
perturbações de personalidade. Como as define?
São desequilíbrios psicológicos decorrentes de feridas passadas
não saradas e de um baixo nível de autoestima. Na investigação que fiz, com o
meu pai, numa amostra de pessoas que tentaram suicidar-se mas não o
conseguiram, concluí que estas pessoas tinham também baixa confiança em si
mesmas, oscilações de humor e não conseguiam desfrutar da vida, convertendo
problemas em dramas. Se juntar a isso a depressão, que se faz acompanhar de
sintomas como melancolia, sentimentos negativos, pessimismo e ansiedade,
percebe-se como surge o desejo de se matar.
A ansiedade pode agravar essa predisposição?
O problema da ansiedade é a adrenalina em excesso a circular
entre os neurónios, que se manifesta no plano físico: taquicardia, suores
frios, excesso de suco gástrico, sensação de falta de ar, tremores nas mãos. As
crises ansiosas são um tsunami de ansiedade que dura minutos em que estão
presentes vários medos: de morrer, de enlouquecer, de perder o controlo. O
último é o mais frequente.
Como se gere a ansiedade, de modo a que não
tome conta da vida?
É preciso parar e perguntar-se três coisas que constituem a
base de uma personalidade equilibrada: “Quem sou”, “para onde vou” e “com
quem”. Tal implica saber o que se quer e ter ultrapassado as feridas do
passado. Ajuda ter um projeto de vida realista, dar às coisas que acontecem a
importância que de facto têm, com sentido de humor e resiliência. Isso é ser
uma pessoa madura, que aprende com as derrotas e cresce como ser humano. A
ansiedade pode ser positiva, criativa, mas também negativa, se impedir uma vida
normal: a pessoa está sempre mal com o trabalho, os amigos, o cônjuge.
O que fazer quando se fica enredado nas malhas
desta “aminimiga”?
Se for endógena, ou seja, resultar de um desequilíbrio
bioquímico, combate-se com fármacos e psicoterapia. Caso seja exógena, com
origem no exterior, a psicoterapia pode ajudar. Sabemos que a causa da
ansiedade é externa quando se manifesta, entre outras coisas, na constante
falta de tempo, no ritmo frenético e no vício do trabalho, do móvel ou da net.
A solução para pôr termo a isto está em aprender a dizer “não”. Cortar as
ambições excessivas também dá muita paz, tal como colocar ordem nos horários,
na casa.
Os estudos mostram que a ansiedade é muito
comum na meia--idade.
Isso é um sintoma de que algo correu mal na vida daquela pessoa? Ou é uma
questão social?
Na Europa avançou-se mais em 15 anos do que num século. A
velocidade é muito grande. As coisas correrão melhor se nos lembrarmos de três
coisas fundamentais, que são o amor, o trabalho, a cultura e a amizade. Não há
felicidade sem amor nem amor sem renúncia. Se amarmos o que fazemos no trabalho
sabemos que estamos na via certa. A cultura, que é conhecimento, liberta-nos. O problema começa quando deixa
de haver tempo para isto, só o há para as redes sociais... De modo que não se
sabe quem é Pessoa, Saramago. Quando perdemos a curiosidade ficamos mais
pobres.
Saltamos de uma coisa para outra, fica tudo
mais plano, ou digitalizado, por assim dizer.
Gosto muito dessa expressão. O “aplanar”. A cultura é a capacidade de ir contra a
corrente e seguir a estética da inteligência. Quanto à amizade, Dom Quixote,
mais importante que Cervantes, dizia que a felicidade não está no destino mas
no meio do caminho. Sancho Pança, por seu turno, tinha esta máxima: “Amigo que
não dá e faca que não corta, se se perder não importa.” Os verdadeiros amigos
são poucos. A falta de tempo prejudica as amizades.
É possível cultivar a felicidade e prevenir a
doença sozinho no frenesim em que vivemos?
Sim, mas é difícil na era do stresse, da depressão e do
desamor. E da apatia, que é a indiferença perante a vida. Por isso é que os
psiquiatras e psicólogos se converteram em conselheiros de cabeceira. Só quem
está pouco informado é que pensa que ir ao psi é para quem é doente ou louco.
Se a sociedade em que estamos é de fast food, a psicologia é uma espécie de
slow food. A ideia é sermos capazes de nos encontrarmos a nós mesmos, sozinhos
ou com a ajuda de alguém. Isso requer tempo.
O mindfulness ou a atenção plena, podem
combater a trilogia da ansiedade depressão-desamor da sociedade atual?
Poder, pode, mas parece-me que necessitamos de uma visão
mais abrangente, sobretudo no que se refere à gestão do amor. O grande erro do
século XX foi acharmos que o amor era só um sentimento, que vai e vem. E que
era um monólogo. Na realidade, o amor maduro é um ato de vontade e de
inteligência.
Cultiva a inteligência amorosa na sua vida?
(Risos) Faço por isso, sou casado há 33 anos! Se eu fosse
uma águia com duas cabeças direcionadas para o passado e para o futuro, a
primeira diria que a felicidade é ter boa saúde e má memória; a segunda, que é
ter ilusões. Ficamos velhos quando olhamos mais para trás do que para a frente
e a memória toma o lugar da ilusão.
Mas se olhar muito para o futuro pode perder o
chão, ou desiludir-se entretanto, certo?
Para que isso não suceda, há que distinguir entre metas, que
são gerais, e objetivos, que são mensuráveis e concretos. Um exemplo. Meta:
quero emagrecer. Objetivos: perder um quilo por semana, cortar nos hidratos de
carbono e nas gorduras animais, andar uma hora diariamente.
Pode dar um exemplo que envolva as relações
humanas?
Imagine uma crise conjugal. Meta: Resolver o problema com o
parceiro. Objetivos: deixar para trás as queixas do passado, aprender a
perdoar, evitar discussões desnecessárias, não converter um problema num drama,
ter uma sexualidade partilhada e sem monotonia.
Esta lógica aplica-se às adversidades e à
forma de evoluir com elas, sem se ir abaixo?
Sim. Os perdedores que assumem a derrota e começam de novo
conseguem fazê-lo. Veja o caso de Steve Jobs, que se arruinou na vida por duas
vezes e chegou a estar viciado em cocaína e heroína. Chama-se a isto
resiliência. Tal como o caso do pescador mexicano que esteve perdido no
Pacífico durante 438 dias, chegando a beber a sua urina e a comer as próprias
unhas para sobreviver. Saiu da experiência cheio de amor. E Nelson Mandela, 28
anos de encarceramento e sujeito a tortura. Aí escreveu uma grande obra sobre a
liberdade.
Impressiona e inspira, sem dúvida. Porém, a
comparação pode ter o efeito contrário e puxar o outro para baixo… Algo do tipo
“Se eles são tão bons, serei eu tão mau?”
A mensagem a reter é só esta: não dar o flanco e começar de
novo. O autor espanhol Unamuno, em Diário Íntimo, diz: “Não te dês por vencido,
nem a um vencido; não te mostres como um escravo, nem mesmo a um escravo”. Fui
buscar a mensagem da campanha de Tony Blair, “não te rendas”, que por sua vez
já tinha ido buscar a ideia a Churchill. Se não se consegue fazer isto sozinho,
há que procurar alguém para que nos ajude a seguir em frente.
É possível desenvolver a resiliência com
livros de autoajuda?
Em certos casos, a psicoterapia e a farmacologia são
incontornáveis. Eu sigo um modelo de psicoterapia cognitivo e comportamental,
que assenta na ideia de que podemos mudar o nosso comportamento se modificarmos
as nossas crenças. Neste ponto da adversidade e da resiliência, creio que os
leitores beneficiam de orientações específicas que os possam encaminhar em
fases importantes da vida.
O que responde a quem lhe pergunta: “Porque me
sinto tão mal se tudo me corre tão bem?”
O material não é tudo. Para estar bem tenho de estar bem
comigo, saber o que quero e o que pretendo mudar na minha vida.
No seu livro afirma que a saúde é o silêncio
da corporalidade e que cada corpo é um semáforo. O que quer dizer com isto?
A cara espelha aquilo que somos. A face e as mãos anunciam a
vida como projeto. Voltando ao tema da ansiedade, ela manifesta-se por duas
vias. O caminho do corpo expressa-se através de sintomas como a queda de cabelo
(alopécia), problemas gástricos, musculares, respiratórios. O caminho da mente
traduz-se em fobia ou em obsessões. Se uma pessoa tem crises de pânico num
avião, apetece-lhe gritar e fica descontrolada, ao longo da semana é natural
que desenvolva medo de voltar a voar. O pânico converte-se numa fobia, um medo
intenso que a leva a evitar ou a adiar a viagem. Já as obsessões levam a pessoa
a querer mudar o corpo de forma compulsiva, com tratamentos, cirurgias, em
várias partes do corpo: hoje a cara, amanhã o peito, a perna.
A obsessão com a imagem revela um problema
sério na mente, nos afetos, até?
Cuidar muito o que está fora e descuidar muito o que está
dentro é um indicador que de que algo não está bem e isso leva a outras doenças
como a vigorexia, a bulimia, a anorexia.
A questão psicossomática não é mais do que o
corpo a revelar o que a mente não consegue processar?
Um conflito psicológico crónico manifesta-se no plano físico.
Se não se resolve pode aparecer sob a forma de dispepsia, depois gastrite e,
mais tarde, culminar numa úlcera.
Porque diz que os problemas psicossomáticos
são mais comuns em personalidades fortes?
Quem se considera forte não gosta de mostrar o que sente.
Guarda para si, esconde, mantém silêncio.
O que significa, para si, uma personalidade
saudável e madura?
Na ultima revisão do DSM (Manual de Diagnóstico de
Transtornos Mentais), as perturbações de personalidade aparecem classificadas
como uma modalidade e já não uma doença. Os americanos, que mandam no mundo e
lideraram esta revisão [associação Americana de Psiquiatria], entendem que é
quase impossível diagnosticar alguém como imaturo porque, na população, a
imaturidade está em todas as partes e nenhuma. De resto, a nova edição
espanhola do livro de autoajuda de Wayne Dyer (As Suas Zonas Erróneas, na
tradução portuguesa) cujo prefácio, escrito por mim, começa justamente assim:
“O que é uma personalidade imatura?”
Como o mito do amor romântico pode arruinar sua vida amorosa
O conceito de 'amor ideal' é uma criação cultural, mas mesmo assim perseguimos o inatingível, nos frustramos e nos sentimos inadequados quando não o alcançamos.
Em 1997, o psicólogo social Arthur Aron, da Universidade Estadual de Nova York, desenvolveu e publicou um estudo em que afirmou ser possível fazer com que duas pessoas desconhecidas se apaixonassem uma pela outra em poucas horas.
Ele mesmo teria atingido resultados positivos em laboratório. A técnica era relativamente simples: Aron desenvolveu 36 perguntas que os dois indivíduos deveriam responder um para o outro. No fim do questionário, os dois deveriam se encarar em silêncio por quatro minutos contados no relógio. E voilà: paixão enlatada, segundo ele.
As 36 perguntas são simples, mas obrigam os indivíduos a se exporem emocionalmente e pessoalmente. Vão desde “Se você pudesse jantar com qualquer pessoa do mundo, quem seria?” até “Qual o papel do amor e do afeto na sua vida?”.
O estudo conduzido por Aron é baseado na ideia de que demonstrar vulnerabilidades mútuas é capaz de cultivar proximidade e intimidade. O pesquisador identificou um padrão na construção de relacionamentos amorosos estáveis: transparência, entrega e sinceridade constantes, crescentes, recíprocas e pessoais. A lista de perguntas desenvolvida por ele tem como objetivo conduzir essa troca.
“Todos nós temos uma narrativa sobre nós mesmos que apresentamos para os outros, mas as perguntas do Dr. Aron fazem com que seja impossível usar essa narrativa.” Mandy Len Catron (Colunista do The New York Times)
A proposta de Aron ganhou manchetes em 2015, quando o jornal The New York Times publicou texto da colunista Mandy Len Catron em que ela disse ter-se apaixonado por alguém usando a lista de perguntas em um encontro.
Com
ela, voltaram ao debate os questionamentos em torno da ideia de amor romântico.
Se vulnerabilidade mútua pode levar à paixão, onde fica a ideia de uma
alma-gêmea? Na desconstrução do conceito de amor ideal ao qual nos agarramos
culturalmente todos os dias, há a possibilidade de entender as frustrações com
a vida amorosa (ou a falta dela) e o número cada vez mais alto de divórcios nas sociedades ocidentais.
A
manufatura do amor
No ocidente, a noção moderna de amor
romântico conceitua uma sensação mágica, incomparável. Geralmente, ele é
descrito como um encontro de almas que acontece por pura sorte — predestinação,
talvez — que responde às angústias e aos desejos mais básicos da vida.
O amor romântico idealizado se
apresenta como a resposta à dúvida principal sobre o sentido da existência. Há,
fundamentalmente, a ideia de completude: sem o outro, seremos eternamente
incompletos.
Essas sensações não foram inventadas.
Essa descrição do amor apareceu repetidas vezes ao longo da história. É
possível encontrá-la, primeiro, na definição de amor descrita pelo filósofo Platão, na Grécia antiga, e em
outras descrições no Império Romano, no Japão Feudal e na Grécia.
No fim do século 17, a literatura
ganhou outras narrativas mais contundentes que exaltavam o amor romântico. Os
exemplos mais emblemáticos são o de Tristão e Isolda e Romeu e Julieta, que
descrevem histórias de amantes que se viam diante de obstáculos — e essas impossibilidades
eram um combustível para esse amor.
Até então, o amor romântico que
tomamos como regra no ocidente aparecia somente em narrativas pontuais. O
conceito do casamento, em si, não envolve “amor” na concepção. Casamentos foram
criados para serem instituições econômicas, alianças forjadas para fortalecer e
concentrar poder ou dinheiro.
Foi o romantismo, resumido nos ideais
da Revolução Francesa, que culminou no surgimento da ideia de que o amor avassalador,
único e mágico era um direito e um dever de todo ser humano, uma parte
fundamental - talvez nossa única real motivação. Um dos filósofos responsáveis
por essa mudança de pensamento foi o francês Jean Jacques Rousseau.
O projeto do filósofo tinha como base
a ideia tradicional de família como a conhecemos. Ele criticava relações
baseadas em perpetrar poder ou fortunas, que para Rousseau, impediam a
construção de uma sociedade altruísta e ideal.
O filósofo acreditava que o amor
conjugal — a constituição de uma família baseada no amor romântico — era o
único caminho para que indivíduos se dispusessem a sacrificar os próprios
interesses para o benefício comum, resultando em uma sociedade melhor.
A relação conjugal defendida por
Rousseau previa que o amor e o sexo andassem juntos, porque a busca de sexo
fora do casamento significava a busca por valores egoístas, como conquista e
vaidade, e não a felicidade alheia e o benefício da sociedade.
Foi a idealização de Rousseau que
reuniu em uma só instituição os conceitos de amor, sexo, felicidade e
casamento. Antes dele, tudo era vendido separadamente.
A idealização de Rousseau reuniu em
uma só instituição os conceitos de amor, sexo, felicidade e casamento. Antes
dele, tudo era vendido separadamente.
Já na Revolução Industrial, mesmo com
a formação da família nuclear, formada por pai, mãe e filhos, o casamento ainda
não tinha muito a ver com amor. A propagação definitiva do amor romântico
idealizado veio com o surgimento da cultura de massa da televisão e do cinema, que
transformou em produto o mito do amor romântico: isso começou nos anos 1940, e
bons exemplos são filmes como “O Vento Levou” e “Casablanca”.
Pela primeira vez, uma sociedade
inteira - a ocidental - passou a acreditar que o amor romântico, culminando em
um relacionamento e depois em um casamento feliz, duradouro, monogâmico e
sexualmente ativo, era a forma ideal de se relacionar com o outro.
Até hoje, a cultura pop — dos filmes
à música, passando pela literatura e pela internet - é profundamente baseada
nesses ideais.
Uma
conta difícil de fechar
É fácil constatar que essa
idealização está fadada a criar frustração. O conto de fadas ainda é usado,
consciente ou inconscientemente, como referencial para qualquer relacionamento
amoroso na sociedade ocidental.
“Presumimos que, comparado ao amor
romântico, qualquer outro tipo de amor entre duas pessoas que se relacionam de
maneira amorosa seria frio e insignificante”, escreve o psicanalista Robert A.
Johnson, no livro “We - A Chave da Psicologia do Amor Romântico”.
O mito do amor romântico idealiza o
outro e atribui a ele características inexistentes. O conceito sugere que, se você se apaixona
por alguém, essa é a pessoa que vai suprir todas as suas necessidades.
Daí a ideia de que o parceiro no qual
devemos mirar é alguém que provoca uma paixão avassaladora que nos faz sentir
completo, nos satisfaz sexualmente, desperta em nós a vontade de morar junto
para o resto da vida e dividir todos os aspectos dela — negócios, patrimônio,
amigos e aspirações — só com aquela pessoa, além de ter filhos, tudo isso sendo
felizes o tempo todo.
Todos os especialistas em
comportamento e psicologia social concordam: é responsabilidade demais para
colocar sobre uma pessoa só. Não há pessoa ou fenômeno nenhum capaz de fazer todas essas
coisas.
No entanto, porque o conceito é dado
como real e possível, nos cobramos a vida toda para buscar, encontrar e sentir
o tal amor romântico ideal. E se alguma dessas coisas dá errado no processo,
nos sentimos inadequados, fracassados ou culpamos o companheiro.
“Quando não realizamos o ideal
imaginário do amor, buscamos explicar a impossibilidade culpando a nós mesmos,
aos outros ou ao mundo, mas nunca contestando as regras comportamentais, sentimentais
ou cognitivas que interiorizamos quando aprendemos a amar. [...] o amor-paixão romântico
encampou a ideia de felicidade emocional, criando seus párias e cidadãos de
primeira classe.” (Jurandir Freire Costa, Psicanalista e autor do livro "Sem Fraude Nem Favor: Estudos Sobre o Amor
Romântico")
A ideia do amor romântico considera
que paixão e amor são sentimentos permanentes, duradouros e que simplesmente
surgem do nada. A ciência já sabe alguma coisa sobre o que chamamos de paixão:
trata-se de um fenômeno neuroquímico caracterizado pela influência de substâncias
como adrenalina, dopamina e serotonina no cérebro e no corpo.
Essas substâncias são liberadas por
glândulas quando nos relacionamos de alguma forma com alguém por quem nos
sentimos fisicamente ou afetivamente atraídos.
O contato físico e os estímulos
mentais trocados com o outro alimentam a liberação dessas substâncias, mas
calcula-se que o fenômeno químico — que já foi até comparado ao efeito de drogas, porque vicia — possa durar
de poucos dias a até um ou dois anos. E só.
As 36 perguntas desenvolvidas pelo
psicólogo Arthur Aron são um atalho para gerar intimidade e fomentar a
liberação de algumas dessas substâncias químicas.
Mas o estímulo inicial só pode levar
a um relacionamento e à construção de um afeto real caso os dois envolvidos no
questionário escolham continuar a troca e a construção desse afeto.
Quando não estamos mais tomados pelo
coquetel de hormônios e ficamos diante das dificuldades cotidianas impostas
pela convivência com o outro, o relacionamento foge do esperado. A lista do
amor romântico ideal não prevê a necessidade de esforços, construção diária,
concessões e nem contempla os defeitos do outro como obstáculos.
“O amor não aconteceu simplesmente para nós. Estamos apaixonados
porque escolhemos isso.” (Mandy Len Catron, colunista do New York Times, sobre as 36 perguntas para se apaixonar.)
Pelo mesmo motivo, quando um
companheiro falha em suprir algum item da lista do amor romântico ideal,
identifica-se que não pode ser amor verdadeiro e há a sensação de que o
relacionamento é disfuncional. Isso vale para tradições como dividir a casa
com o cônjuge, ser monogâmico e ter filhos, por exemplo.
Na mesma linha, qualquer outro
formato de relacionamento — cônjuges que não vivam na mesma casa, casais que
não planejam ter filhos, relacionamentos abertos — ganham status de tabu. Se há
uma cultura de massa vendendo uma lista de critérios para ser feliz em um relacionamento,
é desagradável ser confrontado com pessoas que se dizem felizes mesmo depois de
terem escrito uma lista nova.
“O condicionamento cultural é muito
forte. Chegamos à idade adulta sem saber se nossos desejos são nossos ou se
aprendemos a desejá-los. Mas estamos vivendo um modelo [o amor romântico
idealizado] que não dá conta da realidade contemporânea, que não dá mais
respostas satisfatórias”, teoriza Regina Navarro Lins, psicanalista e escritora
especializada em relacionamentos em entrevista ao Nexo.
Para ela, a cultura ocidental nas
últimas duas décadas está passando por um momento de busca por individualidade.
“Hoje, a grande viagem do ser humano e do jovem é estar dentro de si mesmo,
investir em seu potencial, suas habilidades, se conhecer”, explica.
O amor romântico ideal bate de frente
com essa tendência, porque prega o oposto. Para Navarro Lins, isso abre espaço
para que mais pessoas escolham como querem viver relacionamentos e indica que o
conceito de amor romântico dá sinais de que pode estar saindo de cena. Um
indício seria o surgimento de relacionamentos abertos e de relações
poliamorosas — relacionamentos fechados mas compostos de três ou mais
indivíduos.
Os modelos novos propõem um formato
que, diante do tradicional, parece loucura: a pessoa que você escolhe para se
relacionar não é aquela com quem você é obrigado a passar o resto da vida, ter
filhos, dividir a casa. Pode existir uma para cada, aliás.
A partir daí, a obrigação de fazer o outro feliz sai do cônjuge e vai para o indivíduo e suas
escolhas. Regina acredita que o fim do mito do amor romântico como cultura
massificada é fundamental para que as pessoas sejam mais felizes e realizadas
com a vida amorosa. “Pode demorar, mas estamos caminhando pra isso”, conclui.