Contei
meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do
que já vivi até agora.
Tenho
muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma
bacia de jabuticabas.
As
primeiras, ele chupa displicente, mas, percebendo que faltam poucas, rói até o
caroço.
Já não
tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não
quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me
com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares,
talentos e sorte.
Já não
tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre
vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não
tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade
cronológica, são imaturos.
Detesto
fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de
secretário-geral do coral.
As
pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu
tempo tornou-se escasso para debater rótulos; quero a essência, minha alma tem
pressa...
Sem
muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana,
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera
eleita antes da hora, não foge da sua mortalidade.
Só há
que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
CARTAS PARA UM LADRÃO DE LIVROS (EX CONFISSÕES DE UM LADRÃO DE LIVROS)
Pense num jovem gay da periferia de São Paulo obcecado por Carmen Miranda que se transformou, segundo a Polícia Federal, no maior ladrão de livros raros do Brasil. Imagine os truques que lhe possibilitaram pilhar as principais bibliotecas do país, à caça de obras encomendadas a peso de ouro por colecionadores milionários. Dimensione a vaidade de um autêntico anti-herói de humor impagável. Visualize seus tórridos casos de amor na penitenciária de Bangu, onde ele também se fartou em jantares nababescos com um improvável colega de pavilhão, o banqueiro Salvatore Cacciola. Laessio Rodrigues de Oliveira é daqueles personagens talhados para provar que a realidade é capaz de superar - de longe - a ficção. As imagens provocativas do parágrafo anterior provam que a montanha-russa de acontecimentos de sua biografia faria corar de inveja até o mais fecundo dos roteiristas. O melhor de tudo é que Laessio é real, de carne e osso, e sua escalada no crime pode ser atestada por matérias jornalísticas, inquéritos policiais e processos judiciais. Só que ele tem mais a dizer e está disposto a revelar, de cara limpa para uma câmera, o passo a passo da metamorfose que o levou de ajudante de pizzaiolo em São Bernardo do Campo (SP) a merchant de raridades com direito a motorista particular e apartamento em Higienópolis, bairro de elite da capital paulista. Ao longo de sua caminhada, Laessio compôs um portfólio incalculável: das primeiras edições de clássicos da literatura nacional, como Machado de Assis, a retratos da fauna, da flora e da paisagem brasileira feitos por artistas europeus do calibre de Debret e Rugendas. Obras valiosíssimas e, inacreditavelmente, sujeitas ao mofo e ao abandono nas prateleiras das bibliotecas país afora. Ainda que por caminhos tortos, Laessio evidencia a necessidade de o Brasil cuidar de sua própria história. A história de Laessio Rodrigues de Oliveira é impressionante demais para ser verdadeira. Só que é. Por essa razão, merece ser contada em grande estilo.
Como menino pobre apaixonado por Carmen Miranda se transformou no 'maior ladrão de livros raros do Brasil'
Carlos Juliano Barros*, Especial para a BBC Brasil, 2017-10-06
Image captionLaéssio Rodrigues de Oliveira é considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país
Eu só vi Laéssio chorar em duas ocasiões.
A primeira foi por raiva, quando um cliente fechou a porta em sua cara e ele, sem dinheiro para comprar sequer um sapato novo, sentiu-se humilhado. Já a segunda foi por amor - ao ler uma carta com um pedido de casamento enviada pelo namorado, detido em um presídio no Rio de Janeiro. Na maior parte do tempo, Laéssio não é de se lamentar. Um senso de humor abusado é seu traço mais marcante.
Considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país, Laéssio Rodrigues de Oliveira entrou na minha vida em uma tarde de setembro de 2012, quando recebi uma ligação a cobrar vinda do complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste da capital fluminense, com um pedido insólito: um exemplar da biografia de Carmen Miranda escrita por Ruy Castro. "Essa história toda começou por causa dela", resumiu.
O telefonema era uma resposta à primeira das dezenas de correspondências que trocaríamos ao longo das temporadas esparsas que Laéssio passaria em cadeias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Desde 2004, ele já deu entrada cinco vezes no sistema prisional. Ao todo, contabiliza quase uma década atrás das grades, sempre acusado do mesmo crime: pilhar acervos de Norte a Sul do país à caça de todo tipo de papel antigo de alto valor.
O leque de obras furtadas atribuído a Laéssio impressiona pela raridade e pela variedade. Vai das fotografias do funeral de Dom Pedro 2º, inclui um dos primeiros atlas do Brasil feito por um cartógrafo holandês do século 17 e passa por primeiras edições autografadas por cânones da literatura nacional. O crème de la crème das obras roubadas, no entanto, são os originais de desenhos feitos por artistas como o francês Jean-Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas, que no século 19 viajaram o país para retratar paisagens e personagens do Brasil colonial. Hoje, um álbum completo de Debret, por exemplo, não sai por menos de US$ 300 mil.
Desde março deste ano, Laéssio está preso no Rio de Janeiro, depois de ser condenado em primeira instância na Justiça Federal a mais dez anos e sete meses de prisão pelo furto de obras raras do Museu Nacional e do Museu Histórico Nacional, também no Rio. Ainda cabe recurso.
Image captionPor pilhar acervos de norte a sul do Brasil, Laéssio tornou-se procurado
Dinheiro
"Minha história toda foi pobre. Ser rico é bom. É ótimo. Não estou falando 'ser riquíssimo', como esse povo que fica rico demais e aí vira essa palhaçada, essa desigualdade do c*ralho. Mas ser independente, morar bem, fazer o que quer, entendeu?"
Num intervalo de duas décadas, Laéssio trocou o anonimato do balcão de uma padaria em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, pelas manchetes de jornais de todo o país. Montou três bancas de antiguidades e um sex shop batizado de Mae West em homenagem à atriz americana que "era tipo a Dercy Gonçalves", segundo ele. Também se especializou em Biblioteconomia e fez negócios com gente graúda.
Laéssio não ficou milionário, mas ganhou dinheiro suficiente para comprar um confortável apartamento no Largo do Arouche, no centro de São Paulo. Também se permitiu pequenos luxos, como vestir um terno Armani, passear com o ex-marido a bordo de um Audi A3 ou de um Chrysler PT Cruiser e custear um imóvel no Guarujá, litoral paulista.
"Eu vivia num mundo encantado. Eu era uma bicha louca, desvairada, achava que aquilo nunca iria acabar, que nunca iria dar problema", confessa. Entretanto, torrou tudo tentando acertar as contas com a Justiça.
Desde aquela primeira ligação a cobrar que Láessio me fez em 2012, acumulei - além de incontáveis cartas - pilhas de processos judiciais, dezenas de horas de gravação e centenas de páginas de anotações feitas durante entrevistas em diversos locais, incluindo duas penitenciárias. Laéssio só topou me confidenciar sua história para que ela não ficasse encarcerada nas colunas policiais. "Eu não matei ninguém, cara. Vou me arrepender de quê? De que adquiri um monte de livro velho?"
'O que é que a baiana tem?'
A mãe de Laéssio é uma senhora miúda de 62 anos que trabalha passando roupa e cuidando de idosos. Ela tem o costume de concluir as frases com um simpático "num sabe?" carregado de sotaque nordestino. Refere-se ao mais velho dos seis filhos - que criou sozinha a partir dos 31 anos de idade - como "Grandaião", apesar de a compleição física de Laéssio nem de longe botar medo em quem quer que seja. "A família não quer nem saber desse assunto. É uma pena", lamenta, antes de cair num choro envergonhado.
Image captionDesenhos feitos por artistas como o francês Jean-Baptiste Debret chegam a valer US$ 300 mil, evidenciando escala de valores que mercado de obras raras movimenta.
Laéssio nasceu em Teresina, em 15 de janeiro de 1973. Ainda criança de colo, mudou-se com a família do Piauí para São Bernardo do Campo. O pai trabalhava como eletricista. Quando bebia, costumava bater na esposa e era confrontado pelo primogênito, cujos trejeitos tiravam seu sono. O menino até chegou a ser levado a uma consulta médica para corrigir o suposto desvio. Mas não adiantou: depois que o pai morreu atropelado em uma rodovia, Laéssio saiu do armário, aos 15 anos de idade.
A mãe conta que desde muito cedo Laéssio era fissurado por gibis e jornais - inclusive, tinha o costume de empilhá-los no meio da sala. "Ele é muito inteligente, conversa sobre qualquer assunto", diz. De fato, Laéssio é capaz de discorrer por horas em tom professoral sobre cinema, música e todo tipo de arte vintage.
Foi uma obsessão adolescente pela atriz e cantora Carmen Miranda que levou Laéssio a mergulhar no universo dos papéis antigos. Depois de escutar O que é que a baiana tem? pela primeira vez no rádio, decidiu colecionar tudo o que estivesse ao seu alcance sobre a artista. "Talvez seja aquilo que ela mesmo diz na música: 'tem graça como ninguém'. Aquela brejeirice, como Dorival Caymmi disse uma vez, me dominou", explica.
Para alimentar a compulsão de fã, Laéssio passou a furtar. O primeiro crime aconteceu no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo. Ao colocar os pés na biblioteca da instituição, nem precisou vasculhar as estantes. Seu olhar foi instantaneamente capturado pelo sorriso de Carmen Miranda estampado na capa de uma revista Fon Fon da década de 1940, em cima de uma mesa. Com a adrenalina a mil, certificou-se de que ninguém o vigiava, enfiou o exemplar na mochila e saiu andando.
"Aí comecei a minha peregrinação pelas bibliotecas. Tudo que era revista com a Carmen Miranda na capa eu saí levando. Comecei a ter paixão por aquilo", relata.
Por volta de 1996, Laéssio conheceu seu primeiro cliente, Abel Cardoso Júnior, falecido escritor radicado em Sorocaba (SP) e autor de A Cantora do Brasil, biografia menos badalada da artista. "Vendi todo meu acervo para ele. Larguei um emprego na prefeitura para viver disso", relembra.
O primeiro problema com a polícia também remonta a essa época. Certa vez, enquanto enchia a bolsa com revistas antigas no Arquivo Geral do Estado de São Paulo, foi flagrado por seguranças e conduzido a uma delegacia. Acabou liberado depois de gabaritar um quiz sobre Carmen Miranda feito pelo delegado e de jurar em vão que jamais voltaria a surrupiar uma biblioteca.
Image captionRevista O Cruzeiro com Carmen Miranda na capa: Laéssio ficou obcecado pela artista.
Comércio
Eis que Laéssio resolveu empreender: comprou uma barraca na Feirinha do Bixiga, tradicional reduto de colecionadores de antiguidades em São Paulo, e fez sociedade com o dono de uma banca de revistas pornôs na esquina das avenidas Ipiranga e São João. Seu métier eram publicações antigas sobre cinema, como Cena Muda e Cine Arte, e jornais com manchetes sobre a proclamação da República e a abolição da escravatura.
Além de atrair personalidades, como o ator John Herbert e o cineasta Zé do Caixão, as bancas de Laéssio também passaram a ser frequentadas por funcionários de bibliotecas oferecendo antiguidades de procedência duvidosa. "Eu não vou ser hipócrita: tinha coisas que eu estava comprando que sabia que eram roubadas", afirma. Laéssio, então, sentiu a necessidade de diversificar os canais de venda. Aconselhado por clientes, resolveu desbravar leilões de papéis raros. "Uma vez, paguei R$ 10 num leque de carnaval dos anos 1930 na Feirinha do Bixiga, depois coloquei no leilão e ele foi vendido por quase R$ 500", exemplifica.
No começo dos anos 2000, um dos mais prestigiados leilões era o da extinta livraria Universal, no centro do Rio de Janeiro. Criada por Joaquim Monteiro de Carvalho, empresário que participou da fundação da Klabin e das negociações que trouxeram a Volkswagen para o Brasil, a Universal era um convescote de amantes das artes dispostos a investir pesado em obras exclusivas.
"Eu comprava coisas na Feirinha do Bixiga e ia levando para a Universal. Aí, um dia o gerente me falou: 'por que você não coloca livros? Dá mais dinheiro!' Eu respondi: 'pô, eu não entendo de livro, não'", narra.
Aquela conversa representou uma virada na vida de Láessio. Para subir o sarrafo dos negócios, chegou à conclusão de que precisava se capacitar. "Foi por isso que eu fui fazer Biblioteconomia. Porque eu queria minha parte em ouro", interrompe a si próprio com um sorriso de canto de boca pelo ato falho. "Em ouro, não... em livro velho, tá entendendo?"
Quando fala da Universal, Láessio se expressa em um tom que mescla nostalgia e deslumbre. "Era passatempo de gente rica. Lá, eu me sentia madame", define. De fato, o perfil dos colecionadores que circulavam pelos leilões era tão refinado quanto ecumênico. Lá, podia-se cruzar com George Ermakoff, ex-presidente da companhia aérea Rio Sul; Jorginho Guinle, playboy de ofício e suposto affair de Marilyn Monroe; Manoel Portinari, sobrinho do célebre pintor modernista e fanático pelo poeta Manuel Bandeira; Pedro Corrêa do Lago, bibliófilo e ex-presidente da Biblioteca Nacional; e Ruy Souza e Silva, captador das obras que compõem a Brasiliana do Instituto Itaú Cultural e ex-marido de Neca Setúbal, herdeira da maior instituição financeira do país.
"Naquela época, os leilões eram presenciais. Dois ou três dias antes, as pessoas examinavam os livros. Não se levava gato por lebre de jeito nenhum", garante Margarete Cardoso, uma das principais especialistas do mercado de obras raras do país. Por mais de meio século, ela trabalhou na livraria Kosmos, loja de raridades que funcionava no mesmo prédio da Universal, na Rua do Rosário, centro do Rio. "As pessoas iam aos leilões e aí serviam vinho, salgadinho, para ficar uma coisa bem chique mesmo. Mas isso tudo acabou. Com a internet, mudou bastante", diz.
Image captionDocumentarista autor deste texto trocou diversas cartas com Laéssio na prisão
Fragilidades
Laéssio é relativamente viajado - afirma ter visitado Buenos Aires, Nova York e Paris e sonha com uma cerimônia de casamento em Lisboa. Mesmo assim, tem certeza de que o Rio de Janeiro é o melhor lugar do mundo. "A Mangueira e o Salgueiro precisam de mim, posto que eu me desmando e me transformo ao som da bateria de uma dessas escolas de samba", ele me escreveu em dezembro do ano passado, quando estava preso em São Paulo pela quarta vez e fazia planos de passar o carnaval de 2017 em sua cidade de coração.
É justamente no Rio de Janeiro que Laéssio deixou mais digitais. Isso se explica pelo fato de a antiga capital federal concentrar os mais importantes acervos com obras de arte e documentos raros sobre o Brasil, como o Museu Nacional, o Palácio do Itamaraty, o Jardim Botânico e a Biblioteca Nacional. Mas ele também é acusado de crimes em outros Estados, como Bahia, Pará, Paraná e São Paulo. Nunca responde sozinho - em geral, é tido como o mentor intelectual de quadrilhas montadas para dilapidar acervos. "Para pegar livro, não é preciso matar ninguém, sequestrar ninguém. Sou alheio a violência, não gosto de violência", ressalta.
Entretanto, ele já foi condenado por envolvimento com um grupo armado que rendeu funcionários e roubou obras de arte de um centro cultural em Campinas, em agosto de 2013. Apesar de não ter participado diretamente da ação, o processo lhe rendeu sua terceira passagem - de quase dois anos - pelo sistema prisional.
Basicamente, Laéssio é um especialista em furtos. Segundo os inquéritos policiais, suas técnicas variavam de acordo com a ocasião. Passando-se por pesquisador e aproveitando a distração de funcionários, livros e revistas eram escondidos em mochilas ou sob casacos largos. Em caso de obras de dimensões avantajadas, como álbuns de gravuras, páginas eram arrancadas a navalhadas e enroladas como pergaminhos. Subornos a seguranças para facilitar sua entrada também eram um modus operandi comum.
Mas havia também métodos menos ortodoxos - um deles era sugestivamente apelidado de "Efeito Borboleta". Uma pessoa de corpo delgado e elástico o suficiente para se acomodar em um gaveteiro de biblioteca se escondia dentro do móvel durante horas, aguardando o fim do expediente para sair do casulo e recolher o material previamente selecionado. "Não faltava ar dentro do gaveteiro?", perguntei espantado a um colega de Laéssio que certa vez me descreveu os detalhes da metamorfose. "Para quem já ficou em solitária na cadeia, isso é moleza", ele devolveu sem pestanejar.
Na avaliação de Carlos Aguiar, procurador do Ministério Público Federal que conduziu as investigações de uma das duas ações que ainda correm contra Laéssio na Justiça Federal do Rio, sistemas de segurança falhos das bibliotecas, devido a orçamentos apertados, misturados com uma dose de desorganização das instituições, facilitaram os crimes.
Image caption"Minha história toda foi pobre. Ser rico é bom. É ótimo. Não estou falando 'ser riquíssimo', como esse povo que fica rico demais e aí vira essa palhaçada, essa desigualdade do caralho. Mas ser independente, morar bem, fazer o que quer, entendeu?", diz Laéssio
"O Laéssio aprendeu a furtar se aproveitando dessas fragilidades", analisa o procurador. "Eu me lembro que mandei ofício solicitando que adotassem providências. Eles não tinham sequer catalogado o material. Sequer sabiam qual era o acervo que eles possuíam", afirma Carlos Aguiar, recordando-se do caso específico da Biblioteca Nacional, dez anos atrás.
De lá para cá, segundo o procurador, a série de furtos fez com que os sistemas de segurança das instituições fossem incrementados.
Na biblioteca do Museu Nacional, por exemplo, um retrato de Laéssio - ao estilo faroeste - ainda hoje decora a mesa de vigilantes. Dos arquivos da instituição foram levadas a navalhadas dezenas de gravuras de aves desenhadas pelo naturalista francês Louis Jean Marie Daubenton no século 18.
"Eram coisas maravilhosas", atesta Alberto Cohen, pioneiro na organização de leilões de papeis raros no Rio de Janeiro. Em abril de 2004, as obras foram arrematadas em um evento organizado por ele no bairro de Ipanema por cerca de US$ 30 mil. Semanas depois, o leiloeiro tomou conhecimento pelos jornais de que as gravuras haviam sido furtadas do Museu Nacional.
"O Laéssio me deu um trabalho danado", conta entre risos tímidos que abafam ainda mais sua voz rouca. "Eu caí na história dele. Ele me convenceu de que tinha conseguido aquilo na banca de jornal dele. Ele entendia do assunto mesmo", justifica-se. Alberto, então, procurou a Polícia Federal, devolveu o material e reembolsou os clientes. Porém, afirma não ter recuperado o dinheiro adiantado a Laéssio. "Como todo um-sete-um, vigarista, ele é muito boa gente. Eu não tenho raiva dele, apesar de ele ter me dado um prejuízo louco", finaliza.
Notoriedade
O jovem estudante Raskólnikov - protagonista de Crime e Castigo, clássico de Fiódor Dostoiévski - construiu uma teoria curiosa para limpar a própria consciência, depois de roubar e assassinar uma idosa agiota. Segundo ele, figuras como Napoleão Bonaparte só se consagraram como extraordinárias porque ousaram correr riscos e até mesmo derramar sangue em nome de ideais de grandeza. Dessa forma, a História - com H maiúsculo - se encarregaria de absolvê-las de eventuais condenações morais.
Feitas as devidas adaptações, o raciocínio de Laéssio bebe da mesma fonte da ética particular de Raskólnikov. "Uma coisa que eu comecei a praticar desde cedo foi a leitura de biografias. Sempre me encantaram as pessoas que vieram para o mundo tanto para o bem quanto para o mal", introduz Laessio. "Aí eu pensei: Caraca! Será que eu vou vir para a merda deste mundo para passar batido, só para fazer volume?"
Em março deste ano, Laéssio foi detido pela quinta vez depois de ser condenado em primeira instância na Justiça Federal pelo furto de obras raras do Museu Nacional e do Museu Histórico Nacional, ambos no Rio de Janeiro. A sentença foi proferida 13 anos depois dos crimes e o condenou a mais uma década de cárcere. De acordo com a Defensoria Pública da União, que já recorreu da decisão, um dos ilícitos imputados a Laéssio - o furto de revistas antigas do Museu Histórico Nacional - já havia sido considerado prescrito em outro processo e, portanto, não poderia ter sido novamente julgado.
"Laéssio está pagando desproporcionalmente caro, especialmente em relação a outros envolvidos e em relação às penas estipuladas no Código Penal", afirma o advogado José Carlos Abissamra Filho, que há poucos meses assumiu a defesa de Laéssio. "O que parece é que ele têm sido tratado como bode expiatório de males sociais não atribuíveis a si, o que é, evidentemente, ilegal."
Um mês após a última detenção, Laéssio entrou novamente no radar da polícia: é o suspeito de um furto na biblioteca da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de fazer um inventário, a instituição divulgou que 303 títulos haviam sido levados de seu acervo, acredita-se, durante uma reforma do prédio em 2016. Dentre as peças subtraídas, há originais dos Sermões do Padre Antônio Vieira e fotos do começo do século passado de índios da Amazônia. O material é estimado em até R$ 500 mil.
A relação de Laéssio com o sistema prisional é um capítulo à parte. Nos cinco anos que passou em Bangu, por exemplo, ele chegou a montar uma biblioteca na penitenciária depois de solicitar doações a diversas editoras. A inspiração veio do trabalho realizado por Dilma Rousseff no período em que a ex-presidente ficou presa durante a ditadura militar. Em agosto, Laéssio virou notícia novamente ao mandar uma carta à direção da Biblioteca Nacional solicitando livros para o presídio em Japeri onde se encontra atualmente detido - o pedido foi revelado na coluna de Ancelmo Gois, no jornal O Globo, com o título "cara de pau".
Com a bagagem de quase uma década atrás das grades, Laéssio teve de se adaptar à vida no cárcere, mesmo sem colocar uma gota de álcool na boca ou usar qualquer tipo de droga, itens tão acessíveis nos presídios. E, por dominar a norma culta da língua e conhecer o Código Penal (cursou a faculdade de Direito por quase dois anos), ele mata o tempo redigindo pedidos de indulto e de progressão de regime para colegas detentos.
Certa vez, referindo-se em tom de brincadeira à significativa população de homens que fazem sexo com homens nas penitenciárias, ele me disse com seu típico ar debochado: "meu medo não é ser preso. Meu medo é ficar pobre. Com dinheiro, a cadeia pode virar a gozolândia".
Em uma de suas últimas correspondências endereçadas a mim, Laéssio queixou-se de certa perseguição por parte da Justiça e da imprensa: "só me falta ser acusado de roubar novamente o quadro da Mona Lisa, nesses tempos modernos, posto que o mesmo já completou os seus 100 anos que foi furtado pela última vez no Louvre. Mas fique tranquilo que eu jamais orquestrarei tal ação, uma vez que eu já me dou por cansado e velho demais para continuar nessa vida".
*Carlos Juliano Barros assina com Caio Cavechini a direção do documentário 'Cartas para um Ladrão de Livros', que estreia no Festival do Rio no dia 9 de outubro
http://www.bbc.com/portuguese/geral-41479149
Fóruns Centrais
Fórum Ministro Mário Guimarães 18ª Vara Criminal JUÍZO DE DIREITO DA 18ª VARA CRIMINAL JUIZ(A) DE DIREITO TERESA DE ALMEIDA RIBEIRO MAGALHÃES ESCRIVÃ(O) JUDICIAL JAIR ALVES VIEIRA EDITAL DE INTIMAÇÃO DE ADVOGADOS RELAÇÃO Nº 0022/2017 Processo0092309-31.2016.8.26.0050- Ação Penal - Procedimento Ordinário - Receptação -LAESSIO RODRIGUES DE OLIVEIRA- Vistos.Ratifico o recebimento da denúncia, pois preenche os pressupostos previstos no art.41doCódigo de Processo Penal. Pelos elementos de prova existentes, não é caso de absolvição sumária, sendo mister a realização da audiência de instrução e julgamento.Continuam presentes os requisitos que autorizaram a conversão do flagrante em preventiva, mantendo a decisão anterior por seus próprios fundamentos. Analisando a Folha de Antecedentes verifico que há inúmeros processos/ inquéritos envolvendo o acusado em casos de crimes patrimoniais contra órgãos públicos, como é o caso da Biblioteca Mário de Andrade, Museu Nacional do Rio de Janeiro, etc. Justamente para resguardar a ordem pública, entendo que a prisão preventiva se justifica, eis que há indícios mínimos de autoria e materialidadeDesigno Audiência de Instrução e julgamento para o dia 02/02/2017, às 16:00, intimem-se as partes e as testemunhas arroladas pela defesa/acusação. Requisite-se o preso.Verifico que a vítima do suposto fato é uma universidade pública de prestígio, sendo de se confiar em sua imparcialidade na avaliação de seu próprio acervo. Defiro parcialmente as diligências solicitadas pela defesa, determinando que a USP seja ofendida para responder por escrito, no prazo de 10 dias as seguintes indagações (algumas perguntas acrescentadas por este magistrado).I - Qual é o ano dos livros recuperados no curso do inquérito, se é possível estimar seu valor em mercado, o número de obras similares que existem no próprio acervo da USP.II - Informações sobre o local físico dentro da biblioteca em que estavam tais livros (qual o departamento, se é permitido o acesso de público externo), mencionando os meios de controle existente para a segurança do acervo. No mesmo prazo, deverá a USP juntar ao processo cópia do procedimento/sindicância instaurado diante do sumiço das obras em questão. Intime-se - ADV:EDUARDO JOAQUIM MIRANDA DA SILVA(OAB 168706/SP)
A
poesia não tem lugar nobre para acontecer, não é só o mármore, como os
parnasianos, como os cultores do monte Parnaso, pensavam. A poesia não só tem
locais ou materiais nobres. Ela usa os mais diferentes materiais. Não há
vulgaridade para ela. Você pode restaurar. É um trabalho intenso. É um trabalho
construtivista. Não um construtivismo de cem anos atrás. É um construtivismo
dos nossos tempos. De quem está com os olhos novos para o novo, com os ouvidos
abertos. E também com capacidade de estar lendo diferentes tradições. Não ficar
ensimesmado, isolado.
Waly Salomão, documentário
Pan-Cinema Permanente, dir. Carlos
Nader, 2008
Cronista de primeira água, reaccionário por excelência, orgulhoso anti-comunista. A propósito da edição portuguesa da biografia escrita por Ruy Castro, Bruno Vieira Amaral recorda o anjo pornográfico.
Quando Ruy Castro publicou O Anjo Pornográfico, em 1992, o biografado tinha morrido há doze anos, mas foram os vivos que deram voltas na tumba: mulher e filhos de um lado, irmãs do outro, num Fla-Flu rodriguiano. No ano passado, Ruy Castro esteve em Portugal para promover o lançamento de Chega de Saudade e contou ao Observador qual foi a reacção da família quando a biografia de Nelson Rodrigues foi publicada: “Os dois lados ficaram contra mim.” Bom sinal.
Nelson Rodrigues tinha marcado uma época no jornalismo e no teatro brasileiro. Era um dramaturgo conceituado, algumas das suas peças tinham sido adaptadas ao cinema, como o premiado Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, e um cronista de primeira água, fossem as crónicas confessionais, políticas ou desportivas, ou até tudo ao mesmo tempo. Era também o reaccionário por excelência, o orgulhoso anti-comunista, e exibia o ódio que os seus detractores lhe dedicavam como o maior galardão da sua carreira. Mas, doze anos após a sua morte, era uma figura praticamente esquecida, símbolo apagado de um outro tempo, de um outro mundo. As peças teatrais eram levadas a sério, mas o resto da sua produção literária era desvalorizado. Se nas suas crónicas melancólicas Nelson Rodrigues chorava o desaparecimento do Rio da sua infância, lembrando com afecto anacrónico as escarradeiras e as viúvas machadianas, no início dos anos 90, a escarradeira, a viúva machadiana, era ele.
A biografia de Ruy Castro reabilitou-o, trouxe para o presente aquele sujeito que parecia ter nascido velho e de cigarro no canto da boca (apesar de se definir como um eterno menino). A reabilitação foi tal que muitos, incapazes de esquecer o apoio de Nelson à ditadura militar e a misoginia inequívoca de certas tiradas, acusaram o biógrafo de “limpar” a imagem do biografado, de o transformar num herói. O único problema dessas críticas é que ignoravam o conteúdo factual do livro: o que está n’O Anjo Pornográfico é Nelson Rodrigues na sua totalidade, tanto quanto é possível uma vida caber em 500 páginas. Ruy Castro disse que não escondeu “a vaidade, os exageros, as brigas pessoais”. Podemos acrescentar as antipatias, embora passageiras, as sacanagens, perdoáveis, as amizades traídas, e depois reatadas, as caricaturas ferozes, mas de uma obsessão ternurenta. Um hagiógrafo omitiria de bom-grado essas zonas cinzentas da personalidade do escritor e traria para primeiro plano as suas qualidades, sobretudo as literárias. Mas como seria possível falar de um homem com uma vida tão cheia, de tragédias familiares a fracassos profissionais, sem abordar as contradições que alimentavam o seu talento? As zangas, as birras e os ódios não eram menos geniais do que as suas melhores páginas. Nelson Rodrigues era tão melodramático quanto algumas das suas crónicas, rápido na ira e rápido na paixão, capaz da auto-comiseração e do flagelo, senhor de uma perversidade de fundo sentimental. Moderação não era palavra do seu léxico e, apesar do requinte estilístico ou do abuso de certas fórmulas (normal de quem vivia da escrita como um “remador do Ben-Hur”), parecia sempre absolutamente genuíno, mesmo quando mentia.
Translúcido canalha
Uma das fontes de Ruy Castro foi, como não podia deixar de ser, a produção literária e cronística do próprio biografado. Sobretudo nas crónicas, o tema de Nelson era, quase sempre, a sua vida, as suas obsessões, as suas amizades, os seus desgostos, relidos com um exagero que podia trair os factos, mas nunca o temperamento. Será que Nelson Rodrigues escreveu aos oito anos uma composição em que narrava a vingança sanguinária de um marido traído e que a professora premiou o texto? Ruy Castro acredita que sim, embora não tenha outras fontes. Se Nelson escreveu, não se sabe, mas não restam dúvidas que poderia ter imaginado. Talvez o que muitos entenderam como “santificação” do escritor tenha sido o facto de o biógrafo não censurar abertamente certos comportamentos menos honrosos. Mas quem é que quer um biógrafo moralista que abra parêntesis para reprovar a conduta do morto? Seria preciso um canalha daqueles que povoam os contos de Nelson Rodrigues para se entregar a tão infame tarefa. Seria preciso um “translúcido canalha”, como o próprio Nelson se chegou a retratar.
Essa impressão de que a biografia é demasiado reverente terá mais que ver com os méritos literários do biógrafo. De facto, a “culpa” é de Ruy Castro, do seu talento de biógrafo e investigador, de cronista e historiador desengravatado, capaz de recriar épocas com um aparente à-vontade que leva o leitor a questionar-se se o seu talento não será o espiritismo. “Para Mário Rodrigues, em 1920, as coisas estavam ficando azuis como um domingo de regatas” ou “Mário Filho tinha cabelos e sobrancelhas vermelhas. Não um vermelho qualquer, cor de ferrugem, mas um desses vermelhos vivos e sangrentos, que às vezes se pensa que só existem em almofadas”: que leitor, por mais insensível que seja, pode ler passagens semelhantes sem esboçar um sorriso de admiração, agradecimento e boa inveja?
Ainda em defesa da inocência de Ruy Castro, diga-se que o tratamento que dispensou a Nelson Rodrigues foi o mesmo que dispensou à Bossa Nova (Chega de Saudade), a Garrincha (Estrela Solitária), a Carmen Miranda (Carmen) ou à cidade do Rio de Janeiro (Carnaval no Fogo). Lemos cada um desses livros e o retrato pessoal e de época é tão minucioso e envolvente que temos vontade de voltar atrás no tempo e salvar aquela gente toda, salvar Carmen da depressão, salvar Garrincha do álcool e salvar Nelson Rodrigues… bem, Nelson não precisava que o salvassem de nada porque ele transformou tudo o que lhe aconteceu noutra coisa superior, talvez com a excepção do sofrimento do filho mais novo, Nelsinho, preso e torturado durante o período do regime militar. Essa foi a sua grande derrota, a ponto de, na altura, ter feito um lancinante apelo ao presidente João Figueiredo: “Solte esses moços, Figueiredo. Por favor, Figueiredo, solte meu filho”. Deve notar-se que Nelson Rodrigues defendia o regime justificando-se com o facto de não acreditar que havia tortura. A verdade foi-lhe revelada da forma mais dolorosa e cruel.
De resto, os seus sofrimentos, como a morte trágica do irmão Roberto, assassinado por uma bala destinada ao pai, foram sendo incorporados na sua obra contínua, nas suas crónicas e ficções. Até a fiel úlcera se tornou personagem recorrente nos seus artigos. Ruy Castro nem precisou de analisar a obra com o rigor que seria exigível a um estudioso para nos mostrar a grandeza dessa obra. O próprio biógrafo se demite dessa tarefa na introdução: “Esta é uma biografia de Nelson Rodrigues, não um estudo crítico. […] O que se conta em O Anjo Pornográfico é a espantosa vida de um homem – um escritor a quem uma espécie de imã demoníaco (o acaso, o destino, o que for) estava sempre arrastando para uma realidade mais dramática do que a que ele punha sobre o papel.” A prova de obra e vida serem duas partes que se iluminam entre si como raramente acontece é que a publicação da biografia marcou o início do justo reconhecimento de Nelson Rodrigues como um dos grandes escritores, tout court, do século XX brasileiro. E consagrou Ruy Castro como o príncipe dos biógrafos de língua portuguesa.
A infância
Todo o homem é um exilado da infância. Não foi Nelson Rodrigues que escreveu a frase, mas poderia ter sido. Muitas das suas crónicas e contos eram a continuação da infância por outros meios. Se era um escritor de obsessões – Cláudio Mello e Souza chamava-o de “flor de obsessão” – muitas remontavam à infância. O título da biografia é retirado de uma frase de Nelson:
“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco de fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”
Nasceu no Recife, mas cresceu no Rio de Janeiro, começando por uma rua cujo topónimo, Alegre, era enganador visto que a história do lugar abundava em mortes e consequentes velórios e enterros. Nelson cedo revelou um interesse mórbido pelos funerais, no que seguia o resto da população, cujo desejo de emoções fortes era alimentado pelo espectáculo do sofrimento de mulheres que tinham perdido os filhos ou das viúvas, que viam a sua sinceridade minuciosamente escrutinada pelos vizinhos. Não descartando o peso da sua própria personalidade precocemente retorcida, o seu fascínio pela morte e todos os seus rituais pode atribuir-se a este ambiente tétrico que facilmente se inscrevia na ultra-sensibilidade das mentes infantis.
O jornalismo
A Nelson só faltou nascer numa redacção. O pai, Mário Rodrigues, era jornalista e, quando Nelson tinha treze anos, tornou-se proprietário de um das duas dezenas de jornais do Rio, “A Manhã”, que contava entre os seus colaboradores externos com Monteiro Lobato, o autor do “Sítio do Picapau Amarelo”. Nelson estreou-se aí na secção de polícia, na altura das mais importantes de qualquer jornal.
O repórter policial era uma figura respeitada na redacção e o seu dever deontológico era o de apimentar qualquer notícia com liberdade poética, mesmo que os crimes passionais já de si contivessem pormenores escabrosos para deliciar de horror os leitores. Sem uma ERC à perna, o jornalista, quando acontecia chegar ao local do crime ainda antes da polícia, julgava-se no “direito de vasculhar as gavetas da família e surripiar fotos, cartas íntimas e róis de roupa do falecido”. Nelson aderiu entusiasticamente a estas práticas, que incluíam a obrigatoriedade da hipérbole.
Quando já era um nome célebre, lamentava que os jornalistas não mentissem tanto como outrora. Por necessidade, escreveu quilómetros de prosa para os jornais ao longo de toda a vida e, a partir dos anos 60, tornou-se uma celebridade televisiva com participações em debates desportivos. Nunca se sentou para escrever a grande obra. Sentava-se para escrever a crónica seguinte e foi assim, à vista de toda a gente e sem que ninguém visse, que escreveu a sua grande obra.
Os amores
O “grande tarado” casou com Elza sem que se conhecessem na intimidade. Casaram-se pelo civil mas só consumaram a união uma semana depois, já após o casamento pela igreja. Ele tinha 27 anos. A recuperar da tuberculose contraída poucos anos antes, Nelson sofria também de “tuberculose literária”, um romantismo em que cada adjectivo depositava uma pequena mancha de sangue na página, em que cada exagero tinha como acompanhamento musical um asfixiante ataque de tosse, como se pode ler nas cartas que escrevia à noiva enquanto esteve internado num sanatório:
“Se eu pudesse – se os Deuses o permitissem – teria assistido hoje ao teu despertar. E, então, teria feito uma festa de luz, de cor, de aroma. Eu transportaria para tua alcova toda a vibração musical da aurora, todo o estremecimento solar.”
A culpa não era da febre, Nelson Rodrigues era mesmo assim. Do casamento nasceram dois filhos, Joffre (em homenagem ao irmão de Nelson, que tinha morrido de tuberculose) e Nelsinho. Em 1961, Nelson apaixonou-se por Lúcia Cruz Lima, de vinte e cinco anos, menina da alta sociedade, “leve e delicada como Audrey Hepburn” e casada. Dois anos depois, com Lúcia grávida, foram viver juntos, enfrentando a desaprovação de meio mundo. Nelson era experiente em tragédias pessoais, mas não estava preparado para o que vinha aí: por complicações no parto, a filha, Daniela, a “menina sem estrela”, ficou com paralisia cerebral, “jamais iria andar ou articular um movimento. Também seria muda. E irreversivelmente cega”. A grande paixão da idade madura, que tinha contornos de enamoramento juvenil com direito ao ódio da família da mulher e tudo, ficava assim marcada por um sofrimento inominável. Separaram-se em 1969, após oito anos juntos.
Nelson ainda conheceria um último amor, uma jovem de 22 anos, Helena Maria, de quem o separavam muito mais do que os 35 anos de diferença. A relação com Heleninha era de um romantismo piedoso, como a de uma enfermeira com o seu paciente, mas Nelson disse que era o seu “terceiro amor eterno”, atirando as restantes paixões para a gaveta das tempestades passageiras. Como sempre contraditório e exagerado, haveria ainda de escrever uma dedicatória a outra mulher (“A Ana Lúcia, meu último amor”) e em 1977, perto do fim da vida, regressou ao primeiro amor. Elza recebeu-o como se tivesse estado sempre à espera dele.
As polémicas
Se era Nelson Rodrigues que inventava polémicas ou se, a partir de certa altura, eram as polémicas que vinham ter com ele, é caso para intermináveis discussões. Desagradar a todos e ser perseguido era o seu dom e a sua sina. Era uma tendência que vinha de longe e que despertara até a cólera do próprio pai. Em 1928, Mário Rodrigues promoveu o filho, então de imberbes quinze anos, da secção policial do jornal “A Manhã” para a página 3, a dos editoriais. Nelson agradeceu a oportunidade atacando o falecido intelectual e político (sim, coisas do passado) Rui Barbosa, grande ídolo do seu pai. O pai, furioso, recambiou-o para a secção de polícia.
Quando o insultavam pelo seu reaccionarismo, Nelson Rodrigues lembrava, com vaidade, que tinha sido o autor brasileiro mais censurado da sua época. Quando, em 1966, publicou O Casamento (o seu único romance originalmente publicado em livro e não como folhetim e que foi recentemente publicado em Portugal pela Tinta-da-China), as portas do inferno abriram-se. O livro foi proibido e ninguém, da esquerda que o odiava à direita a que supostamente pertencia, o defendeu. O jornal “O Globo”, onde Nelson escrevia diariamente, publicou um editorial na primeira página a defender a proibição do livro que “atentava contra os princípios basilares da nossa organização social, e entre esses o do matrimônio.” O reaccionário atrevia-se a denunciar a hipocrisia da sociedade e, como paga, recebia ou o silêncio de toda a classe intelectual, progressista ou conservadora, ou mesmo a condenação pública.
Em 1968, a censura proibiu a peça Toda Nudez Será Castigada, mas aí Nelson já contou com o apoio de figuras relevantes do meio teatral. Nos últimos anos de vida, a virulência das polémicas diminuiu. Até aqueles que eram alvos dos seus ataques desculpavam-lhe a contundência, atribuindo-a aos deveres da personagem em que Nelson se tornara. Outros faziam a distinção entre o cronista ácido e o homem que, na intimidade, era generoso e de bom coração. É verdade que ele era assim, mas havia alguma condescendência nessa observação, a condescendência reservada aos párias que a sociedade não pode dispensar.
Bruno Vieira Amaral, http://observador.pt/especiais/o-tarado-romantico-a-vida-de-nelson-rodrigues/, 2017-09-02
A ÚLTIMA ENTREVISTA DE NELSON RODRIGUES
Entrevista concedida em 26 de julho de
1980. Nelson Rodrigues morreria alguns meses depois
Em
entrevista ao repórter J. J. Ribeiro, do jornal “O Opiniático” (órgão de
destacada relevância na imprensa marrom e sensacionalista de Minas Gerais), o
jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues fala de seus amores e suas paixões —
incluindo aí o seu time do coração, o Fluminense. Além de abordar temas
referentes à política, ao Brasil e aos brasileiros, ao ser humano em geral, à
sua vida e sua trajetória como escritor, entre outros assuntos não menos
contundentes. Aos 66 anos de idade, morando em um apartamento em Copacabana, de
frente à avenida Atlântica, o velho Nelson apresenta-se com o mesmo tom
debochado e exagerado de sempre. Impondo a sua presença e aquele seu jeito
peculiar e característico de se expressar e de se fazer entender: olhar
insondável e apático; voz grossa e embolada; gestos vagarosos e ornamentais
como os de um peixe colorido num aquário. Sem deixar, portanto, de esboçar
certo entusiasmo e de exibir uma imagem de opulência física de causar inveja a
qualquer um. Apesar de estar com a saúde um tanto quanto abalada, uma vez que
ainda se recupera de uma colite ulcerática, doença essa que por pouco não o
matou. As palavras tiradas da boca do entrevistado são as mesmas utilizadas em
suas crônicas, contos, romances, peças teatrais, e difundidas por outros meios
de comunicação (televisão, rádio e periódicos).
J. J.
R. — Como foram os primeiros anos de sua
vida?
Nelson Rodrigues — “Nasci em Pernambuco, a 23 de
agosto de 1912, e permaneci em Recife até os cinco anos. Depois vim para o Rio
de Janeiro, para onde trouxe minhas primeiras sensações da boca e do nariz: o
gosto de pitanga e do caju e o cheiro do cavalo de estábulo. Mesmo considerando
o mundo um péssimo anfitrião e a viagem a mais burra das experiências humanas,
voltei a Pernambuco na mocidade, retornando à infância e às profundas
sensações”.
J. J.
R. — Como surgiu seu desejo de escrever?
Nelson Rodrigues — “A rigor, meu primeiro texto
foi escrito na Escola Prudente de Morais aos sete anos de idade. Na época, sou
considerado gênio por alguns, um tarado em potencial pelas professoras, e um
maluco pelas alunas. A professora resolveu que não íamos escrever nada sobre
estampas de vacas e pintinhos. Que podíamos fazer uma história de nossa cabeça,
para ver quem era melhor. Ganhamos eu e um outro garoto que escreveu sobre um
rajá montado no seu elefante favorito. Eu escrevi um texto que já me definia,
um texto sobre o adultério. Minha primeira ‘A Vida Como Ela É…’ Um sujeito que
entra em casa inesperadamente, abre o quarto e vê a mulher nua e um vulto
pulando pela janela e desaparecendo na noite. O cara puxou a faca e matou a
mulher”.
J. J.
R. — Qual importância da escrita em sua
vida?
Nelson Rodrigues — “Se eu não escrevesse, seria
um desgraçado. A rigor, se você examinar bem, todos os meus personagens são
tristes. Salvo algum esquecimento, não vejo ninguém alegre”.
J. J.
R. — E a leitura, representa algo de fundamental
em sua atividade de escritor?
Nelson Rodrigues — “Acho que ter cultura é
importante para um dramaturgo. Ler muito, nem que seja um único livro, como ‘O
Idiota’, ‘Crime e Castigo’, ‘Ana Karenina’ ou ‘Guerra e Paz’. Quando comecei a
escrever, a única peça que eu conhecia bem — palavra de honra — era ‘Maria
Cachucha’, de Joracy Camargo. Eu lia muito, de maneira voraz e ininterrupta.
Mas só romances”.
J. J.
R. — E o que o senhor diria para os
leitores?
Nelson Rodrigues — “Deve-se ler pouco e reler
muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos
perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia”.
J. J.
R. — Como foi o seu primeiro contato com
o jornalismo? E o que é ser jornalista?
Nelson Rodrigues — “Quando entrei, pela primeira
vez, numa redação, acabava de fazer dez anos. Com a trágica inocência das
calças curtas, tive a sensação de que entrava numa outra realidade. As pessoas,
as mesas, as cadeiras e até as palavras tinham um halo intenso e lívido. Era,
sim, uma paisagem tão fascinante e espectral como se redatores, mesas, cadeiras
e contínuos fossem também submarinos. Com o tempo, houve uma progressiva
acomodação óptica entre mim e os vários jornais onde trabalhei. E as coisas
passaram a ter a luz exata. Sempre restou em mim, porém, um mínimo do deslumbramento
inicial”. — Ligeira pausa para acender o cigarro e dar a primeira tragada. —
“Eu fui para a reportagem de polícia aos treze anos. Ora, por quê? A
preferência pelo assunto já era uma antecipação de minha obra. A reportagem
policial vai transformar-se para sempre num dos elementos básicos de minha
visão de vida. Através dela tive intimidade com a morte (que sempre me
apavorou) e nela vi um cadáver pela primeira vez. O jornalismo, daí em diante,
passou a ser vital para mim. Tinha, entretanto, intenções literárias — ser
romancista, a principal delas. Veio o teatro, porém”. — Com volubilidade
evocativa: — “Até hoje, os seres da redação ainda me parecem de um certo
dramatismo e têm não sei que toque alucinatório. Estou pensando em Gide e no
seu gemido adolescente: — ‘Eu não sou como os outros! Eu não sou como os
outros!’”. — De modo exasperado e suplicante: — “Nós, de jornal, também estamos
meio-tom acima da rígida normalidade”.
J. J.
R. — Como o senhor traduz o jornalismo?
Nelson Rodrigues — “Nós, da imprensa, somos uns
criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos
de ‘ilustre’, de ‘insigne’, de ‘formidável’, qualquer borra-botas”.
J. J.
R. — O senhor faz uso de diversos
pseudônimos… Quem é Susana Flag?
Nelson Rodrigues — “A Susana Flag nasceu quando
eu entrei para os Diários Associados. O Fred Chateaubriand disse que ia comprar
um romance americano para publicar em capítulos. Eu me propus a fazer a
experiência de escrever uma história em folhetim. O Fred argumentou: — ‘Fazer
experiência nas minhas costas?’ Está bem, eu falei, então vai ser para valer. E
escrevi Meu Destino é Pecar, que alcançou logo um sucesso enorme. Eu gosto
muito do livro. Acho que carrego a nostalgia do folhetim. E tenho bossa para
escrever folhetim”.
J. J.
R. — E como foi a sua opção pelo teatro?
Nelson Rodrigues — “‘A Família Lero-Lero’, de
Magalhães Júnior, fazia um sucesso danado. Eu pensei comigo que o Magalhães
estava ganhando uma nota firme, por que eu não podia ganhar dinheiro com uma
peça do gênero? Fui para casa decidido a fazer uma chanchada. Escrevi a primeira
e segunda páginas, a peça tomou conta de mim e saiu uma coisa tenebrosa: um
mendigo humano, espectral, paralítico e a mulher que foge com o chofer. (…) E
fui procurar empresário. Quem me ajudou foi um amigo de meu irmão Mário Filho,
o Vargas Neto. Estávamos em pleno Estado Novo e pelo fato de se chamar Vargas
tinha todas as portas abertas automaticamente. Ele escreveu uma carta para o
diretor do Serviço Nacional de Teatro me chamando de Tchekhov para cima. Dois
meses depois estreava ‘A Mulher sem Pecado’. Um dia vi o Santa Rosa saindo do
teatro. Ele foi tão generoso, tão cálido, que se ouviu um barulho: era minha
cara batendo no chão. O maior espanto que tive na vida literária. Voltei
deslumbrado para casa. No domingo, ele publicou uma crítica ou uma crônica com
o seguinte título: ‘Nelson Rodrigues descobriu o Teatro Moderno’”.
J. J.
R. — O que há de peculiar em seu trabalho
como dramaturgo?
Nelson Rodrigues — “‘Com Vestido de Noiva’,
conheci o sucesso; com as peças seguintes, perdi-o, e para sempre. Não há nesta
observação nenhum amargor, nenhuma dramaticidade. Há, simplesmente, o
reconhecimento de um fato e sua aceitação. Pois a partir de ‘Álbum de Família’
— drama que seguiu a ‘Vestido de Noiva’ — enveredei por um caminho que pode me
levar a qualquer destino, menos ao êxito. Que caminho será este? Respondo: de
um teatro que se poderia chamar assim — ‘desagradável’. Numa palavra, estou
fazendo um ‘teatro desagradável’, ‘peças desagradáveis’. No gênero destas,
incluí, desde logo, ‘Álbum de Família’, ‘Anjo Negro’ e a recente ‘Senhora dos
Afogados’. E por que ‘peças desagradáveis’? Segundo já disse, porque são obras
pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na
plateia” — esboça um olhar sarcástico.
J. J.
R. — O que é o teatro, na sua opinião?
Nelson Rodrigues — “A menos histórica, a mais
pré-histórica das artes” — exprime vigorosamente.
J. J.
R. — Como foi a estreia da peça
“Perdoa-me por me Traíres”, e como ela foi recebida pelo grande público? Dizem
que ela foi bastante polêmica, para não dizer turbulenta?
Nelson Rodrigues — “Senhoras grã-finérrimas
subiam nas cadeiras e assoviavam como apaches. Meu texto não tinha um mísero
palavrão. Quem dizia os palavrões era a plateia. No camarote, o então vereador
Wilson Leite Passos puxou um revólver. E, como um Tom Mix, queria, decerto,
fuzilar o meu texto. Em suma: eu, simples autor dramático, fui tratado como em
filme de bangue-bangue se trata de ladrão de cavalos. A plateia só faltou me
enforcar num galho de árvore. (…) Insisto em dizer que estava isento, imaculado
de medo. Lembro-me de uma santa senhora, trepada numa cadeira a esganiçar-se:
‘Tarado! Tarado!’. (…) Mas se as damas subiam pelas paredes como lagartixas
profissionais; se outras sapateavam como bailarinas espanholas; e se
cavalheiros queriam invadir a cena — aquilo tinha que ser algo de mais
profundo, inexorável e vital. Perdoa-me por me Traíres forçara na platéia um
pavoroso fluxo de consciência. E eu posso dizer, sem nenhuma pose, que, para
minha sensibilidade autoral, a verdadeira apoteose é a vaia. Dias depois, um
repórter veio entrevistar-me: — ‘você se considera realizado? Respondi-lhe:
‘Sou um fracassado.’ O repórter riu, porque todas as respostas sérias parecem
engraçadíssimas” — risos.
J. J.
R. — Se o senhor tivesse de definir o
aplauso, ou até mesmo a vaia, diria o quê?
Nelson Rodrigues — “A plateia só é respeitosa
quando não está a entender nada”. — E arremata, dizendo: — “A grande vaia é mil
vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os
admiradores corrompem”.
J. J.
R. — O que o senhor tem a dizer sobre o
ser humano?
Nelson Rodrigues — “O ser humano é o único que se
falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até
morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal
envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano
pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o
mundo”. — Aparenta desânimo. — “O ser humano, tal como imaginamos, não existe”.
— Expressa-se, de forma veemente: — “É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele
tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a
mão no rosto, reconhecer a própria hediondez”. — Diz enquanto retira um cigarro
do maço e manipula um isqueiro: — “Somos aquela pureza e somos aquela miséria.
Ora aparecemos varados de luz, como um santo de vitral, ora surgimos como
faunos de tapete”. — Engrossando e reforçando o timbre de voz: — “Só não
estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.”
— Neste instante, aproxima-se e em voz baixa, fumando mais um cigarro: — “O
homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por
exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o
empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.” —
Silêncio prolongado. — “O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais
um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os
defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi
um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: ‘Senhoras e
senhores, eu sou um canalha’”. — E, em tom eloquente: — “Não há nada que fazer
pelo ser humano: o homem já fracassou”.
J. J.
R. — O senhor não aposta, não acredita no
ser humano?
Nelson Rodrigues — “Só acredito nas pessoas que
ainda se ruborizam”.
J. J.
R. — E na bondade?
Nelson Rodrigues — “Só acredito na bondade que
ri. Todo santo devia ser jucundo como um abade da Brahma”.
J. J.
R. — O que mais incomoda o ser humano?
Nelson Rodrigues — “Nada nos humilha mais do que
a coragem alheia”.
J. J.
R. — Na verdade, o que é o homem?
Nelson Rodrigues — “O homem é um menino perene”.
J. J.
R. — Para o senhor, que importância tem o
dinheiro?
Nelson Rodrigues — “Dinheiro compra tudo, até
amor verdadeiro”. — E emenda, fazendo um muxoxo: — “Há homens que, por
dinheiro, são capazes até de uma boa ação”.
J. J.
R. — E a respeito do amor?
Nelson Rodrigues — “Quem nunca desejou morrer com
o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar”. — De maneira inopinada, eis que
esclarece: — “A doença me reaproximou, por exemplo, da minha mulher Elza.
Estávamos separados havia quinze anos. Hoje ela cuida de mim, nós nos amamos. É
o que eu sempre disse: o verdadeiro amor é eterno, pode ser interrompido, por
razões circunstanciais, mas é eterno”.
J. J.
R. — Na sua opinião, o que é a beleza?
Nelson Rodrigues — “A beleza interessa nos
primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual”.
J. J.
R. — E o que dizer acerca das mulheres?
Nelson Rodrigues — “Ou a mulher é fria ou morde.
Sem dentada não há amor possível”.
J. J.
R. — E sobre as mulheres, na atualidade?
Nelson Rodrigues — “Nunca a mulher foi menos
amada do que em nossos dias”.
J. J.
R. – É verdade que toda mulher gosta de
apanhar?
Nelson Rodrigues — “Toda mulher gosta de apanhar,
apenas as neuróticas reagem”.
J. J.
R. — Qual a importância de se ter filhos?
Nelson Rodrigues — “Um filho, numa mulher, é uma
transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora”.
J. J.
R. — Como definir o casamento?
Nelson Rodrigues — “Só um débil mental pode
casar-se na presunção de que o casamento é divertido, variado ou simplesmente tolerável.
É divertido como um túmulo” — disse com o olhar atônito e extraviado. — “O
casamento é o máximo da solidão com a mínima privacidade”. — E agora diz em
alto e bom som: — “Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo
para que um casal chegue às bodas de prata”.
J. J.
R. — Numa relação, o que de fato importa?
Nelson Rodrigues — “Não damos importância ao
beijo na boca. E, no entanto, o verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na
boca. A verdadeira posse é o beijo, e repito: — é o beijo na boca que faz do
casal o ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal”.
J. J.
R. — Algum recado para as mulheres?
Nelson Rodrigues — “Era preciso que alguém fosse
de mulher em mulher anunciando: ser bonita não interessa, seja interessante”.
J. J.
R. — E para os homens?
Nelson Rodrigues — “Se um dia a vida lhe der as
costas, passe a mão na bunda dela”.
J. J.
R. — E para os casais, alguma dica?
Nelson Rodrigues — “A maioria das pessoas imagina
que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: — o importante é a
pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.
J. J.
R. — E no que diz respeito à sexualidade
humana?
Nelson Rodrigues — “Se todos conhecessem a
intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”.
J. J.
R. — Nós todos, somos indecentes,
vulgares e imorais?
Nelson Rodrigues — “Só o rosto é indecente. Do
pescoço para baixo podia-se andar nu”.
J. J.
R. — Sobre o adultério?
Nelson Rodrigues — “Como dever, como obrigação, a
fidelidade é uma virtude vil”. — E como se desabafasse: — “A fidelidade devia
ser facultativa”. — Além de revelar: — “É preciso trair para não ser traído”.
J. J.
R. — Sobre a adúltera?
Nelson Rodrigues — “Não existe família sem
adúltera” — responde com ironia. E continua com as suas divagações: — “Nenhuma
mulher trai por amor ou desamor. O que há é o apelo milenar, a nostalgia da
prostituta que existe na mais pura”. — Olhando atentamente para o repórter: —
“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que,
devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável
fronteira”. — E mostrando o dedo indicador: — “Tudo passa, menos a adúltera.
Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém
falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém”.
J. J.
R. — E a Família?
Nelson Rodrigues — “A família é o inferno de
todos nós”. — E, aliás, tenta explicar: — “Toda família tem um momento em que
começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um
dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado
louco. Tudo ao mesmo tempo”.
J. J.
R. — Falemos agora da virtude e daqueles
que o praticam?
Nelson Rodrigues — “Perfeição é coisa de
menininha tocadora de piano” — expondo-se, exultante. — “O puro é capaz das
abjeções inesperadas e totais e o obsceno, de incoerências deslumbrantes”. —
Reflete por alguns segundos e despeja: — “Não acredito em honestidade sem
acidez, sem dieta e sem úlcera”. — Toma fôlego e dá prosseguimento ao
raciocínio: — “O ‘homem de bem’ é um cadáver mal informado. Não sabe que
morreu”. — E numa alegação afirmativa: — “Falta ao virtuoso a feérica, a
irisada, a multicolorida variedade do vigarista”.
J. J.
R. — E o que é ser canalha?
Nelson Rodrigues — “Hoje é muito difícil não ser
canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e
coletivo”. — E, por fim, ainda acrescenta: — “O brasileiro, quando não é
canalha na véspera, é canalha no dia seguinte”.
J. J.
R. — Como o senhor vê o brasileiro?
Nelson Rodrigues — “O brasileiro não está
preparado para ser ‘o maior do mundo’ em coisa nenhuma. Ser ‘o maior do mundo’
em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e
sufocante responsabilidade”. — E, sendo, categórico: — “O brasileiro é um
Narciso às avessas, que cospe na própria imagem”.
J. J.
R. — Como o senhor define o Brasil?
Nelson Rodrigues — “Já descobrimos o Brasil e não
todo o Brasil. Ainda há muito Brasil para descobrir. Não há de ser num relance,
num vago e distraído olhar, que vamos sentir todo o Brasil. Este país é uma
descoberta contínua e deslumbrante”.
J. J.
R. — E a Europa? E o europeu?
Nelson Rodrigues — “O europeu ou é um Paul Valéry
ou uma besta!”. — Continuando a frase após breve distração, com coisas e
objetos do seu entorno: — “… a Europa é uma burrice aparelhada de museus. (…)
Ao passo que o Brasil é o analfabetismo genial!”.
J. J.
R. — E nós os mineiros — em alusão
ao meu conterrâneo e nosso colega de profissão, bem como ao seu mais fiel e
dedicado amigo Otto Lara Resende —, o que de fato somos?
Nelson Rodrigues — “O Otto Lara está certo. O
mineiro só é solidário no câncer” — gargalhadas e risos estrepitosos.
J. J.
R. — E em relação ao bairro de
Copacabana, local onde o senhor atualmente reside?
Nelson Rodrigues — “Copacabana vive, por semana,
sete domingos”.
J. J.
R. — Para o senhor, o que representa o
boteco?
Nelson Rodrigues — “O boteco é ressonante como
uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele”.
J. J.
R. — Vamos falar agora de sua grande
paixão, o futebol?
Nelson Rodrigues — “O futebol é passional porque
é jogado pelo pobre ser humano”. — Dizendo de modo exclamativo: — “Eu sempre
digo que uma peleja não é o seu placar. Muitas vezes, o que importa é o que o
placar não diz, o que o placar não confessa”. — Entre inquieto e provocativo: —
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz
literatura, política e futebol com bons sentimentos”. — Fazendo pose, com outro
cigarro a tiracolo. — “A mais sórdida pelada é de uma complexidade
shakespeariana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque
evidentíssimo do sobrenatural…”.
J. J.
R. — Nos fale então sobre o “Sobrenatural
de Almeida”?
Nelson Rodrigues — “Amigos, dizia Horácio que há
mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Esta aí
uma clara alusão ao Sobrenatural de Almeida. Se Horácio fosse torcedor
rubro-negro diria a mesma coisa, por outras palavras: — ‘Há coisas na vida do
Flamengo que só o Sobrenatural de Almeida explica’”. — Pausa, para uma tosse
rápida e seca. — “Os idiotas da objetividade não vão além dos fatos concretos.
E não percebem que o mistério pertence ao futebol. Não há clássico e não há
pelada sem um mínimo de absurdo, sem um mínimo de fantástico. Por exemplo: — O
que está acontecendo com o Flamengo. E não só com o rubro-negro. Com o Botafogo
também”. — Mais uma pausa, para o pigarro e um gole d’água. — “O curioso é que
o Sobrenatural andava sumido. Ou melhor dizendo: — não tinha imprensa. Ora, nós
sabemos que sem promoção ninguém é nada neste país. O sujeito pode ser um gênio
da cabeça aos sapatos. Mas ou sai nos jornais, ou passará a vida rosnando de
impotência e frustração. Era justamente o que estava acontecendo, nos últimos
tempos, com o Sobrenatural de Almeida. Os jornais o sepultavam num cavo
silêncio”. — Cala-se, meditabundo, e recomeça: — “Hoje, o Sobrenatural mora num
quarto infecto, em Irajá. E pior: – todas as manhãs, ao acordar, tem de entrar
na fila do banheiro coletivo. Daí o seu horror aos homens e aos clubes. Seu
campo de ação está limitado ao futebol. Podia gostar de um clube. Não. Quer ver
a caveira de todos. No momento, derrama seus malefícios sobre o Flamengo e
sobre o Botafogo”.
J. J.
R. — E sobre o Flamengo?
Nelson Rodrigues — “Cada brasileiro, vivo ou
morto já foi Flamengo por um instante, por um dia” — sorri levemente. _ “Se
Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a
história do povo brasileiro” — continua com o seu leve sorriso sarcástico. —
“Supõe-se que todas as alegrias se parecem. Mas a verdade é que a alegria
rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é funda, ou mais
dilacerada, ou mais santa. Só sei que é diferente…”.
J. J.
R. — E sobre o seu time do coração, o
Fluminense?
Nelson Rodrigues — “Eu vos digo que o melhor time
é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos
respondo: pior para os fatos”. — Levantando-se e estendendo os punhos,
excitado: — “Se quereis saber o futuro do Fluminense, olhai para o seu passado.
A história do tricolor traduz a predestinação para a glória. A grande Guerra
seria apenas a paisagem, apenas o fundo das nossas botinadas. Enquanto morria
um mundo e começava outro, eu só via o Fluminense”. — E de forma ainda mais
exacerbada, espalhafatoso nos gestos e no jeito de se comportar, agitado e
impulsivo: — “Ser tricolor não é uma questão de gosto ou opção, mas um
acontecimento de fundo metafísico, um arranjo cósmico ao qual não se pode — e
nem se deseja — fugir”. — E com um brilho diferente no olhar: — “O Fluminense
nasceu com a vocação da eternidade… tudo pode passar… só o tricolor não passará
jamais”. — Permanece então exaltado, e acende outro cigarro. — “Se o Fluminense
jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar”. — Dá uma tragada furiosa no
cigarro, soltando e expelindo, do fundo do seu peitoral, bastante fumaça junto
com o seu vozeirão inconfundível: — “Sou tricolor, sempre fui tricolor. Eu
diria que já era Fluminense em vidas passadas, muito antes da presente
encarnação”.
J. J.
R. — E o que dizer sobre os dois times,
Flamengo e Fluminense? E o Fla-Flu?
Nelson Rodrigues — “O Flamengo tem mais torcida,
o Fluminense tem mais gente!” — acalmando-se um pouco, menos excitado e
delirante. — “Grandes são os outros, o Fluminense é enorme”. — A tosse seca
interrompe novamente a sua explanação. — “Pode-se identificar um tricolor entre
milhares, entre milhões. Ele se distingue dos demais por uma irradiação
específica e deslumbradora”. — E com a voz trêmula e quase embargada pelo
cigarro: — “Nas situações de rotina, um ‘pó-de-arroz’ pode ficar em casa
abanando-se com a Revista do Rádio. Mas quando o Fluminense precisa de número,
acontece o suave milagre: os tricolores vivos, doentes e mortos aparecem. Os
vivos saem de suas casas, os doentes de suas camas e os mortos de suas tumbas”.
— Com ar e postura de barítono italiano: — “Uma torcida não vale a pena pela
sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do
sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte de paixão”. —
E, ao final, descarrega: — “Quando começou o Fla-Flu? Eu diria — O Fla-Flu não
tem começo. O Fla-Flu não tem fim. O Fla-Flu surgiu quarenta minutos antes do
nada. E aí então as multidões despertaram”.
J. J.
R. — E por falar em paixão, como o senhor
a definiria?
Nelson Rodrigues — “Sem paixão não dá nem para
chupar picolé”.
J. J.
R. — A paixão pode ser de alguma maneira
prejudicial?
Nelson Rodrigues — “Nada mais cretino e mais
cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única
que é capaz de imbecilizar o homem”.
J. J.
R. — Fale um pouco sobre os políticos?
Nelson Rodrigues — “Eu me nego a acreditar que um
político, mesmo o mais doce político, tenha censo moral”.
J. J.
R. — Para o senhor, o que representa a
figura de um líder?
Nelson Rodrigues — “O líder é um canalha. Dirá
alguém que estou generalizando. Exato: estou generalizando. Vejam, por exemplo,
Stálin. Ninguém mais líder. Lênin pode ser esquecido, Stálin, não. Um dia, os
camponeses insinuaram uma resistência. Stálin não teve nem dúvida, nem pena.
Matou, de fome punitiva, 12 milhões de camponeses. Nem mais, nem menos: — 12
milhões. Era um maravilhoso canalha, e, portanto, o líder puro”. — Para e
pensa, e logo depois avança com as palavras: — “E não foi traído. Aí está o
mistério que, realmente, não é mistério. É uma verdade historicamente
demonstrada: — o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina
e dinamiza massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: — ponham um santo
na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá
ninguém, e repito: — ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na
mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável”. — Breve
interrupção na fala, para daí expor em sequência: — “Instantaneamente, outros
pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto”.
J. J.
R. — Como é que o senhor se posiciona
politicamente? Na direita, esquerda ou centro?
Nelson Rodrigues — “Hoje, o sujeito prefere que
lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário”. — Além de declarar com
frêmito e indignação: — “Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não
presta”.
J. J.
R. — Como é que o senhor se coloca diante
do comunismo?
Nelson
Rodrigues — “O homem só é
feliz pelo supérfluo. No comunismo, só se tem o essencial. Que coisa abominável
e ridícula”. — E adverte, com elevada dose de escárnio e agudo senso de humor:
— “O pior de tudo que pode haver é realmente o comunismo. Se o Brasil caísse no
domínio comunista, por 48 horas que fosse, eu estourava os miolos”.
J. J.
R. — E sobre aqueles que se dizem
libertários?
Nelson Rodrigues — “Ah, os nossos libertários!
Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não.
Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas
cada qual tem no bolso a sua ditadura”.
J. J.
R. — E com relação às feministas?
Nelson Rodrigues — “As feministas querem reduzir
a mulher a um macho mal-acabado”.
J. J.
R. – Como o senhor explicaria a
psicanálise?
Nelson Rodrigues — “Entre o psicanalista e o
doente, o mais perigoso é o psicanalista” — disse, querendo imitar a postura, o
gestual e a mímica, convencional e caricata, de todo terapeuta, seja ele
freudiano ou não, lacaniano e/ou de diferentes matizes conceituais e teóricas.
E atuando com a mesma desenvoltura e o mesmo caráter performático: — “O
cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou
melhor: — dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses”.
— Mudando agora de postura: — “’Segundo o Otto Lara Resende, não se deve mexer
na alma’. E fui mais longe, ao observar que a análise é um risco de vida, uma
janela aberta para o infinito. Tudo se torna maravilhosamente possível. Eu
conhecia uma menina, delícia de garota, que com três meses de análise queria
matar; em seguida, quis morrer. E uma noite ia despejando água quente no ouvido
do marido etc. etc”.
J. J.
R. — Censura — é hoje mais implacável?
Nelson Rodrigues — “Não admito censura nem de
Jesus Cristo” — e apontando para o alto, numa clara exibição (ritualística e
teatralizada) de louvor e de reverência. Para logo em seguida, pontuar: —
“Todos os presidentes, inclusive depois de 1964, me massacraram. A censura usa
um tratamento discriminatório contra mim”. — E desabafa, notadamente abalado
emocionalmente, como se as palavras não tivessem força e nem ânimo para que
fluíssem solenemente do fundo de sua garganta: — “O meu horror à tortura e à
censura é tão grande ou maior do que o de vocês. Por uma série de motivos. Eu
tenho um filho que está preso e condenado a cinquenta anos. Tenho, portanto, de
ter uma posição muito nítida”.
J. J.
R. — Nos conte mais acerca da situação do
seu filho?
Nelson Rodrigues — “Parece que meu filho, como
seus companheiros, não aceita o indulto. Acho isso de uma inocência que me dá
vontade de sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho”.
J. J.
R. — Que conselho dar aos jovens?
Nelson Rodrigues — “Jovens: envelheçam
rapidamente!”.
J. J.
R. — Qual foi, no seu entendimento, o
grande acontecimento do século 20?
Nelson Rodrigues — “O grande acontecimento do
século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. — Silêncio profundo e
grandiloquente. — “Em nosso século, o ‘grande homem’ pode ser, ao mesmo tempo,
uma boa besta”. — Outro intervalo, para mais um gole d’água e acender o quarto
e, talvez, o último cigarro a ser desbragadamente consumido nesta entrevista. —
“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos
melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao
idiota ou o idiota o extermina”.
J. J.
R. — Como é que o senhor define sua
personalidade, sua maneira de ser? E como é o homem Nelson Rodrigues?
Nelson Rodrigues — “O sujeito mais romântico que
alguém já viu. Desde garotinho sonho com o amor eterno. Na minha infância
profunda os casais não se separavam. Havia brigas, agressões de parte a parte,
insultos pesadíssimos, mas o casal não se separava. A separação era uma
tragédia. Em último caso, a mulher apelava para o adultério. Sou romântico como
um pierrô suburbano. Diga-se de passagem, eu sou suburbano. Tenho a alma do
subúrbio. Deodoro, Vaz Lobo — um estilo de vida. Um estilo apaixonante”. — E
faz algumas ponderações, do tipo: — “De vez em quando, alguém me chama de ‘flor
de obsessão’. Não protesto, e explico: — não faço nenhum mistério dos meus
defeitos. Eu os tenho e os prezo (estou usando os pronomes como o Otto Lara
Resende na sua fase lisboeta). Sou um obsessivo. E, aliás, que seria de mim,
que seria de nós, se não fossem três ou quatro ideias fixas? Repito: — não há
santo, herói, gênio ou pulha sem ideias fixas”. — Não cessa de tagarelar, mesmo
com a respiração um pouco ofegante e a fala entrecortada em razão do cigarro
preso à boca, já quase finalizado: — “Sou um menino que vê o amor pelo buraco
da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o
buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre
fui) um anjo pornográfico”. — E acentua, com poucas palavras: — “Um ex-Narciso
que tem horror à própria imagem”.
J. J.
R. — E o que é a morte?
Nelson Rodrigues — “A morte é anterior a si
mesma”.
J. J.
R. — E qual seria então o seu epitáfio,
já escolheu?
Nelson Rodrigues — “’Aqui jaz Nelson Rodrigues,
assassinado pelos imbecis de ambos os sexos”’.