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domingo, 11 de abril de 2010

EL INGENIO DE CERVANTES


    
   
   
EL QUIJOTE
   
Dulcineia
por ti é doce a viagem
o rebento sensual para que fomos criados
por ti não chegará ao fim o dizer dos rios
nem haverá sombras que se arrastem
alastrem sobre mim
sem que aceite a queda de sangue
e luz primeira
não será densa a floresta que desbravamos
a arte ou a prática do deus que nos consome.
   
De que elemento somos feitos para que me acometa
sobre montes e moinhos com armas extemporâneas
e descanses nas frentes ribeiras do campo?
   
Da garganta sai a acidez libertária
por palavras semiabertas à voz.
Congeminações, inquietações de um lugar
prolongam-se sobre o dia.
   
Eu sou o bem amado que recobre o sonho
e investe a saída visionária adjectiva.

   
Chuva de Época,Ponta Delgada, 2005.
   
   
   

    

   

     Decorado com motivos cervantinos, El Ingenio de Cervantes possui uma biblioteca com Quijotes escritos em mais de vinte idiomas diferentes.


José Carreiro em El Ingenio de Cervantes, 30-03-2010




    [Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2010/04/11/quijote.aspx]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

OS ANIMAIS-TEXTOS

"Admirável gado novo", José Carreiro (Feteira Grande, 30-05-2011)




Belas letras resistem como podem
   
Sem intuitos de publicação, a escrita poética surgiu-lhe em meados dos anos 90. Os textos que sobreviveram à passagem do tempo e da lima vieram a lume em 2005, quando já tinha 35 anos. Esta é a história do início de carreira de José Maria de Aguiar Carreiro, jovem poeta micaelense.
  
O escritor afirma preferir ver-se como “um leitor, mais do que aquele que escreve. Creio que a composição de poesia se intensificou quando me apercebi de que aquilo que criara me havia ultrapassado. Num dos poemas chego mesmo a constatar que os textos têm vida própria:”
   
Apascentados textos alimentam-se
são levados à água, à quantidade necessária.
Por vezes puxados, regressam teimosos
e seguem à frente, a meio ou atrás,
cansados, distraídos consigo.
Os animais-textos são queridos, amados mesmo,
por vezes feridos como exemplo de certas implicações.
Mas quem os escreve já não participa da riqueza multiplicada
que sai esbaforida de si.
E tornam-se maiores, disparados em muitas dimensões
para maior ou menor gáudio de seu criador,
o homem pequeno que solve.
   
Até ao momento, José Maria de Aguiar Carreiro já publicou um livro, Chuva de Época, com o apoio da Direcção Regional da Cultura. Entretanto, participou numa Antologia de Poesia Açoriana, publicada na Letónia, e tem colaborado em revistas com índole literária, como por exemplo: Arte & Manhas (Angra do Heroísmo), Magma (Lajes do Pico), Arraianos (Santiago de Compostela), Big Ode (Almada), Seixo Review Artes & Letras (Canadá) e da revista Neo, da Universidade dos Açores.
   
Como principal óbice ao trabalho dos escritores açorianos, o poeta aponta o facto de “estarem longe dos centros de decisão e influência, pois as barreiras editoriais e de distribuição são altas”. Sobre o momento da literatura açoriana, José Carreiro diz que “dos Açores há vários escritores a publicar quer no Arquipélago quer no continente ou mesmo no estrangeiro. À semelhança de momentos anteriores, parece-me que as ‘belas letras’ resistem como podem”. Em termos futuros, e logo que possível, o autor afirma que “os animais-textos que escaparem a Cronos verão a luz do dia”.
    
Editoras privadas são bem vindas
   
Um dos maiores problemas que se coloca aos autores açorianos é a falta de apoios para publicaram os seus trabalhos. Sobre este tema, José Maria de Aguiar Carreiro diz que “nas ilhas, entidades públicas como a Direcção Regional da Cultura, o Instituto Açoriano de Cultura e as câmaras municipais têm um quê de mecenatismo. A nível privado, as recentes editoras sediadas nos Açores são bem vindas. Desejo-lhes prosperidade e vida longa”.
    
Entrevista ao jornal Expresso das Nove, 19 de Fevereiro de 2010
    

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2010/02/19/animaistextos.aspx]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

AUSÊNCIA

praia do Porto Formoso, ilha de São Miguel, Açores, 2009. José Carreiro.



     
À luz gelada do amanhecer
ele toma a direcção da praia
a força do mar arrima-o um pouco
ao imo prestado pelos elementos
observa a fúria da areia que voa
açoita a cara empurrando-o
a procurar abrigo.
Sim, que ausência.
    
Rolam tumultuosas mas lentamente
as letras para sua própria ordem
por imposição incendiária de montanhas
de rios e de cidades.
Sim, muitos deixam as ilhas
areias cristais e buscam continuamente
forma onde repousar.
    
– Sim, dir-me-ás tudo isso
mas eu não sei o que quero nem o que faço
para que tudo se represente igual sempre igual a si mesmo.
     
      
poema dito por Olegário Paz ¯



praia da Ribeira Quente, ilha de São Miguel, Açores, 2006. José Carreiro




 [Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2010/02/11/ausencia.aspx]