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segunda-feira, 30 de abril de 2018

OS LUSÍADAS - dimensão exemplar da história narrada







A história narrada em Os Lusíadas tem uma dimensão exemplarpor apresentar factos e figuras como modelos a seguir, bem como atitudes a evitar (estas em menor número).



Os Lusíadas, Canto VI, estâncias 95 a 99.


1



5




95
Por meio destes hórridos perigos,
Destes trabalhos graves e temores,
Alcançam os que são de fama amigos
As honras imortais e graus maiores;
Não encostados sempre nos antigos
Troncos nobres de seus antecessores;
Não nos leitos dourados, entre os finos
Animais de Moscóvia zibelinos;


Comenta agora o Poeta que é por meio de tais perigos, trabalhos pesados e pavores que os verdadeiros amigos da fama alcançam as honras e dignidades. Não é à custa de nobreza dos antepassados, deitados em camas douradas, entre peles de zibelina,


10




15


96
Não cos manjares novos e esquisitos,
Não cos passeios moles e ouciosos,
Não cos vários deleites e infinitos,
Que afeminam os peitos generosos;
Não cos nunca vencidos apetitos,
Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,
Que não sofre a nenhum que o passo mude
Pera algũa obra heróica de virtude;


nem com manjares novos e requintados, nem com passeios preguiçosos, nem com os prazeres que efeminam, nem com os apetites não contrariados e tão amimados pela fortuna, que não consentem que alguém altere a rotina da sua vida para realizar um feito heroico.




20





97
Mas com buscar, co seu forçoso braço,
As honras que ele chame próprias suas;
Vigiando e vestindo o forjado aço,
Sofrendo tempestades e ondas cruas,
Vencendo os torpes frios no regaço
Do Sul, e regiões de abrigo nuas,
Engolindo o corrupto mantimento
Temperado com árduo sofrimento;


Mas sim buscando à força do seu braço honras a que chame suas próprias, velando de noite, vestindo o aço, aguentando tempestades, vencendo o frio maléfico do sul, engolindo a comida estragada a que o trabalho dá sabor;

25




30



98
E com forçar o rosto, que se enfia,
A parecer seguro, ledo, inteiro,
Pera o pelouro ardente que assovia
E leva a perna ou braço ao companheiro.
Destarte o peito um calo honroso cria,
Desprezador das honras e dinheiro,
Das honras e dinheiro que a ventura
Forjou, e não virtude justa e dura.


forçando o rosto assustado a mostrar-se impassível diante da bala que assobia e atinge o companheiro. É assim que o coração cria um calo que lhe dá honra e lhe permite desprezar as honrarias e dinheiro fabricadas pela Sorte e não pela Virtude.

98,8
“Virtude” está usada no sentido de Valor, especialmente o guerreiro.



35




40
99
Destarte se esclarece o entendimento,
Que experiências fazem repousado,
E fica vendo, como de alto assento,
O baxo trato humano embaraçado.
Este, onde tiver força o regimento
Direito e não de afeitos ocupado,
Subirá (como deve) a ilustre mando,
Contra vontade sua, e não rogando.

É assim que o entendimento se esclarece. É a experiência que dá a serenidade com que ele, de alto, observa o confuso e baixo comportamento dos homens. E aquele que alcança este nível, se vigorar a lei, justa, subirá a posições de mando, não por pedidos, favores, mas por mérito, contra sua vontade.

Fonte:
Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, Lisboa, MNE/IC, 2003.
Segue-se a ortografia adotada na edição referida.
Fonte:
Luís de Camões, Os Lusíadas, edição organizada por António José Saraiva com paráfrase do texto e vocabulário, Porto, Figueirinhas, 1978.

Glossário

afeitos (verso 38) – afetos.
animais [...] zibelinos (verso 8) – peles caras de animais de regiões frias.
corrupto (verso 23) – deteriorado, apodrecido.
deleites (verso 11) – prazeres suaves.
destarte (versos 29 e 33) – deste modo, assim.
hórridos (verso 1) – horríveis.
ledo (verso 26) – alegre.
Moscóvia (verso 8) – região norte da Rússia.
pelouro (verso 27) – bala de metal para arma de fogo.
torpes (verso 21) – que entorpecem, que enfraquecem.
ventura (verso 31) – sorte.

Questionário

Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. Nos versos de 17 a 28, referem-se qualidades que permitem aos «que são de fama amigos» (v. 3) atingirem as «honras imortais e graus maiores» (v. 4).
Indique quatro dessas qualidades, fundamentando a resposta com citações textuais pertinentes.

2. Explicite a intenção crítica manifestada pelo poeta nos versos de 5 a 16, relacionando-a com o uso da anáfora.

3. Sintetize a opinião defendida pelo poeta nos versos de 29 a 32.

4. Explique de que modo a última estrofe transcrita ilustra a mitificação do herói em Os Lusíadas.

Cenário de respostas

1. [Na resposta você deve indicar quatro das qualidades solicitadas, fundamentando a resposta com citações textuais pertinentes.]
Os «que são de fama amigos» evidenciam, entre outras, as qualidades seguintes:
– determinação – «Mas com buscar, co seu forçoso braço» (v. 17);
– esforço – «forçoso braço» (v. 17);
– combatividade – «Vigiando e vestindo o forjado aço» (v. 19);
– coragem – «Vigiando e vestindo o forjado aço» (v. 19);
– resistência – «Sofrendo tempestades e ondas cruas» (v. 20); «Vencendo os torpes frios no regaço / Do Sul, e regiões de abrigo nuas» (vv. 21 e 22);
– abnegação – «Engolindo o corrupto mantimento / Temperado com árduo sofrimento» (vv. 23 e 24);
– firmeza – «E com forçar o rosto, que se enfia, / A parecer seguro» (vv. 25 e 26).

2. [Na resposta você deve explicitar, adequadamente, a intenção crítica manifestada pelo poeta nos versos de 5 a 16, relacionando-a com o uso da anáfora.]
Nos versos de 5 a 16, o poeta desvaloriza, por oposição aos «que são de fama amigos», aqueles que:
– vivem à sombra da glória dos antepassados (vv. 5 e 6);
– se entregam ao prazer, ao luxo, à avidez e à preguiça (vv. 7 a 12);
– não resistem ao vício (vv. 13 a 16).
O uso da anáfora reforça esta intenção crítica, ao sublinhar, pela repetição da negativa, aquilo que deve ser rejeitado – «Não encostados…» (v. 5); «Não nos leitos…» ( v. 7); «Não cos manjares…» (v. 9); «Não cos passeios…» (v. 10); «Não cos vários…» (v. 11); «Não cos nunca…» (v. 13).

3. [Na resposta você deve sintetizar, adequadamente, a opinião defendida pelo poeta nos versos de 29 a 32.]
O poeta defende que os verdadeiros heróis são aqueles que adquirem uma capacidade de resistência e um sentido da honra que os faz desprezar as recompensas e os privilégios imerecidos.

4. [Na resposta você deve explicar, adequadamente, o modo como a última estrofe ilustra a mitificação do herói em Os Lusíadas.]
Na última estrofe, o herói é caracterizado como aquele que:
– adquiriu serenidade com a experiência – «repousado» (v. 34) –, pelo que se distancia do homem comum – «embaraçado» (v. 36);
– ascende a um «alto assento» (v. 35), de onde observa, com distância, os comuns mortais – «O baxo trato humano» (v. 36);
– se tornará ilustre por merecimento e não por cálculo (vv. 39 e 40);
– será reconhecido, nos territórios onde as leis forem justas, como alguém capaz de governar (vv. 37 a 39).

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário, Português - 12.º Ano (Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de março), Prova Escrita 639, 1.ª fase. Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), 2012.



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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CAMÕES - numa mão sempre a espada e noutra a pena

Retrato de Camões pintado em Goa, 1581.

LUÍS DE CAMÕES E «OUTRA COISA»
Por: Frederico Lourenço

Diz-se que, nos remotos anos salazaristas, não se podia dizer em Coimbra que Camões era um poeta maneirista, porque isso daria a entender que ele era amaneirado, o que por sua vez corria o risco de resvalar também para «outra coisa». Quando Vítor Manuel Aguiar e Silva apresentou aqui a sua tese sobre Maneirismo literário na literatura portuguesa (isto antes do 25 de Abril), o catedrático de Literatura Portuguesa avisou-o de que, em relação a Camões, não poderia contar com o seu apoio. Para o antigo catedrático do tempo do salazarismo, Camões definitivamente não era maneirista. Era o cantor da gesta portuguesa, da glória dos Descobrimentos. Ponto final.
No entanto, Camões está longe de ser aquilo que os Ministros da Educação de Salazar quiseram ver nele. A poesia de Camões está cheia de situações que, se virmos o que elas são por baixo da superfície, nos deixam de boca aberta perante o facto de a Inquisição ter autorizado a publicação d' Os Lusíadas.
Hoje fala-se em tons acesos sobre se um homem se pode sentir uma mulher ou se uma mulher se pode sentir um homem. Camões estava muito à frente de tudo isso.
Todos conhecemos o famoso verso do Canto VII d' Os Lusíadas: «numa mão sempre a espada e noutra a pena», com que Camões se descreve a si próprio.
A maior parte da pessoas pensa: ah, pois! O grande herói da Índia, dos Descobrimentos, do Império! A espada e a pena, as armas e as letras!
Só que não é nada disso. A espada de que fala Camões é outra espada. É a espada dada por um pai à filha para ela se suicidar. Porquê? Porque ela engravidou do próprio irmão.
Leiamos a citação toda: «Qual Cânace que à morte de condena, / Numa mão sempre a espada e noutra a pena».
Tudo está em percebermos quem é esta Cânace, a quem Camões se compara. Ora Cânace é uma figura das «Heróides» do poeta romano Ovídio, muito lido e imitado por Camões em toda a sua obra. Os versos de Camões são uma recriação dos seguintes versos de Ovídio: «na mão direita segura o cálamo; na outra segura a espada impiedosa» (Heróides 11,3).
Com estas palavras, pois, Camões está a colocar-se na pele de:
1) uma mulher;
2) apanhada numa situação tão extrema da sua vida;
3) grávida do próprio irmão;
4) que acaba de receber do pai a espada para se suicidar.
Mas a questão complica-se ainda mais. Temos de ver agora que os versos do Canto VII d' Os Lusíadas retomam, por sua vez, os seguintes versos do Canto V: «numa mão a pena e noutra a lança».
Quem é aqui o alter-ego de Camões? Júlio César. Basta ir ver a estância 96 do Canto V. E não é difícil percebermos que Camões tem gosto em se identificar com a figura de Júlio César, pois também César era um autor de quem se dizia que salvara os seus escritos a nado.
No entanto, este mesmo Júlio César também era referido nas biografias antigas romanas, conhecidas na época de Camões, como homem de todas as mulheres e mulher de todos os homens.
Juntemos a isto o Canto III d' Os Lusíadas, em que Camões se compara a Orfeu, por sua vez explicitamente referido no Canto X das «Metamorfoses» de Ovídio como autor (em latim «auctor») de amores homossexuais.
Dizem que, nas sociedades repressivas como era o Portugal de Camões dominado pela Inquisição, quanto mais inteligentes os textos menos os censores os vão entender. Felizmente, o poema de Camões é tão inteligente que, em 2017, ainda estamos a tentar entendê-lo.

Frederico Lourenço, Coimbra, 2017-10-11
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1929266907323222&id=100007197946343

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O ideal de homem virtuoso é, para Camões, o daquele que, como ele, for possuidor de «honesto estudo / Com longa experiência misturado». Camões é o herói humanista d' Os Lusíadas.


            

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Amor é fogo

Javier Calleja

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem dor.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário por entre a gente;
É um nunca contentar-se de contente;
É cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanas amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões


Audição do poema:


Amor é  fogo que arde sem se ver (Luís Represas & João Gil)




Linhas de leitura:
  • A utilização da forma verbal «é», ao longo do soneto, revela que o sujeito poético procura definir o Amor. A repetição dessa forma verbal indica que o Amor é um conceito difícil de definir, obrigando-o a recomeçar.
  • O Amor desperta no sujeito poético sentimentos contraditórios, bons e maus («é contentamento descontente»; «é dor que desatina sem doer»).
  • A metáfora é usada para definir expressivamente o Amor («Amor é um fogo»).
  • O oximoro é o recurso expressivo dominante no poema, sendo usado para mostrar as contradições que o Amor provoca («é ter com quem nos mata, lealdade»).
  • A expressão «fogo que arde» é um pleonasmo porque a palavra «arde» repete uma ideia já presente na palavra «fogo».
  • O último terceto tem uma estrutura diferente das estrofes anteriores, pois o sujeito poético interrompe as tentativas de definição do Amor, não entendendo como pode ser um sentimento tão bom, presente nos nossos corações, sendo tão contraditório.




Sugestão de escrita expressiva e lúdica:
  • Escreve uma quadra em que continues a definir o amor, utilizando metáforas e oximoros, à semelhança de Luís de Camões. Mantém a estrutura utilizada pelo poeta, iniciando o primeiro verso por «Amor é» e os restantes por «é». Tenta igualmente respeitar o esquema rimático abba. 
(Adaptado de P8 Português – 8.º Ano, Ana Santiago e Sofia Paixão, Texto Editora, 2012)


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O QUE É O AMOR?
Esta foi a pergunta feita a um grupo de crianças de 4 a 9 anos, durante uma pesquisa feita por profissionais de educação e psicologia.
Emocione-se e divirta-se com as respostas!
  • "Amor é quando alguém te magoa, e tu, mesmo muito magoado, não gritas, porque sabes que isso fere os sentimentos da outra pessoa." Mathew, 6 anos 
  • "Quando minha avó ficou com artrite, e deixou de poder dobrar-se para pintar as unhas dos pés, o meu avô passou a pintar as unhas dela, apesar de ele também ter muita artrite." Rebecca, 8 anos 
  • "Amor é quando uma menina põe perfume e o menino põe loção pós-barba, e depois saem juntos e se cheiram um ao outro." Karl, 5 anos 
  • "Eu sei que minha irmã mais velha me ama porque ela dá-me todas as suas roupas velhas e tem que sair para comprar outras." Lauren, 4 anos 
  • "Amor é como uma velhinha e um velhinho que ainda são muito amigos, apesar de se conhecerem há muito tempo."  Tommy, 6 anos 
  • "Quando alguém te ama, a forma de dizer o teu nome é diferente..." Billy, 4 anos 
  • "Amor é quando tu sais para comer e ofereces as tuas batatinhas fritas sem esperar que a outra pessoa te ofereça as batatinhas dela." Chrissy, 6 anos 
  • "Amor é quando minha mãe faz café para o meu pai e toma um gole antes, para ter certeza que está ao gosto dele." Danny, 6 anos 
  • "Amor é quem está com a gente no Natal." Bobby, 5 anos 
  • "Se queres aprender a amar melhor, deves começar com um amigo de quem não gostas." Nikka, 6 anos 
  • "Quando contas a alguém alguma coisa feia sobre ti próprio, e ficas com medo que essa pessoa por causa disso deixe de gostar de ti, aí ficas mesmo surpreendido, quando descobres que não só te continuam amando, como ainda te amam mais!" Samantha, 7 anos 
  • "Há dois tipos de amor: o nosso amor e o amor de Deus. Mas o amor de Deus consegue juntar os dois." Jenny, 4 anos 
  • "Amor é quando a nossa mãe vê o nosso papai chegar suado e mal cheiroso, e ainda diz que ele é mais bonito que o Robert Redford!" Chirs, 8 anos 
  • "Durante a minha apresentação de piano, eu vi o meu pai na plateia, acenando-me e sorrindo. Era a única pessoa que fazia isso, e eu não sentia medo." Cindy, 8 anos 
  • "Amor é quando dizes a um rapaz que a camisa que ele usa é muito bonita, e ele a veste todos os dias." Noelle, 7 anos 
  • "Não deveríamos dizer amo-te a não ser quando realmente o sentimos. E se sentimos, então deveríamos expressá-lo muitas vezes. As pessoas esquecem de o dizer" Jessica, 8 anos 
  • "Amor é abraçar-se, amor é beijar- se." Patty, 8 anos 
  • "Quando amas alguém, os teus olhos sobem e descem, e pequenas estrelas saem de ti!" Karen, 7 anos 
  • "Amor é quando o teu cão te lambe a cara, mesmo depois de o teres deixado sozinho o dia inteiro." Mary Ann, 4 anos


 (Repassado por correio eletrónico em 2003-02-24)



      

sexta-feira, 10 de junho de 2016

biblioteca camoniana ou glosa a mote próprio


Seus olhos, Garrett
, ilustração de Marta Madureira, 2012



Quando meus olhos teus olhos olharam
E o meu rosto no teu rosto pousou
Todo o sonho que os sonhos ousaram
Logo se desvaneceram no que sonhou

Nada nesta vida assento merece
Tudo nesta vida é ousio fugaz
Nada fica e tudo esmorece
Tudo passa e não satisfaz

Nada é certo e tudo é incerto
Assim gira o que da vida pensamos
Querendo segurar o que segurar não podemos
Que tudo é incerto é o que de certo temos

E mais não é e para pouco serve
O que de certo temos no incerto
Desta vida o incerto leve como certo

O desconcerto deste mundo
É já desacerto no meu lembrar
No concerto incerto de sonhar
O que por certo tomei no teu olhar


Fernando Martinho Guimarães
Ponta Delgada, 2016-06-10


Ao desconcerto do mundo, Camões, ilustração de Marta Madureira, 2012

segunda-feira, 9 de maio de 2016

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE


Marta Madureira (2012)


Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.
 
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa [a] que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

Luís de Camões, Rimas, texto estabelecido, revisto e prefaciado
 por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005, p.170.

Fortuna – destino; conjuraram – aliaram; sobejaram – bastaram; discurso – decurso; mal fundadas – infundadas; duro génio – destino cruel, insaciável.

Linhas de leitura:
  • Estamos perante um soneto em verso decassilábico heroico, com rima interpolada e emparelhada nas quadras e interpolada nos tercetos, segundo o esquema rimático ABBA / ABBA / CDE / CDE, sendo de assinalar o ritmo ternário do 1.º verso.
  • Marcas de um discurso autobiográfico: uso da 1.ª pessoa do singular nos determinantes, pronomes e formas verbais (por exemplo, meus, minha, mim, passei, tenho, me, Errei, minhas, vi, meu); as referências ao percurso de vida («Errei todo o discurso de meus anos»).
  • Neste relato autobiográfico, o sujeito poético atribui as causas da sua perdição aos erros que cometeu, ao seu destino infeliz e ao amor intenso, sendo que o amor, por si só, seria suficiente para a sua perdição.
  • Os três termos dados no primeiro verso são desenvolvidos nos versos seguintes.
  • As expressões «Tudo errei» (2.ª quadra) e «Errei todo o discurso de meus anos» (1.º terceto) sintetizam a forma como o sujeito poético olha para a sua vida passada.
  • Na 2.ª quadra, o sujeito poético apresenta as consequências do seu passado de sofrimento no momento presente, a saber: a dor e o sofrimento passados foram tão intensos que impedem, no presente, o simples desejo de felicidade.
  • No 1.º terceto, o sujeito poético identifica-se como o verdadeiro culpado por tudo o que passou, porque considera que os seus erros impediram-no de ter outro destino traçado.
  • O amor, que já tinha sido referido na 1.ª quadra, reaparece no último terceto associado a «breves enganos» (i.e., as desilusões amorosas que terá sofrido).
  • Processos usados na construção do sentido disfórico do soneto: em primeiro lugar, o léxico selecionado pelo autor é fortemente indicativo de disforia: «em minha perdição»; «a grande dor»; «as magoadas iras»; «errei». O uso do pronome indefinido «tudo» («tudo passei») e do quantificador «todo» («Errei todo o discurso de meus anos») introduzem uma nota de extremismo no balanço negativo, nota que aliás se repete no verso «De amor não vi senão breves enganos». A acumulação no primeiro verso do soneto pode também considerar-se como um processo de construir a disforia já que a junção das três causas negativas poderá constituir um meio de as intensificar.
  • A interjeição «Oh!» acompanhada de uma frase exclamativa e de tipo imperativo estão ao serviço da expressão de um desejo que o sujeito poético gostaria de ver realizado: o de que as vinganças do destino acabem. Assim, os sentimentos presentes na interjeição que introduz os dois últimos versos são os de amargura, alguma revolta e necessidade de pôr fim ao sofrimento do próprio sujeito poético.




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