DA CRÍTICA
Por Rui Zink, na sua página do Facebook, partilhando a crítica de cinema
de Luís Miguel Oliveira “Alejandro Gonzalez Iñárritu: o vendedor de banha da
cobra”, Público, 29/02/2016.
Toda a gente conhece
a anedota do crítico de cinema: se ele não gosta, então é de ver. Durante anos
assustaram-me críticos que não conseguiam ver um filme como ele era, sentiam sempre necessidade de estar a
corrigir o autor, e a dizer para onde eles achavam que o filme devia ir, qual o
tema que devia tratar, etc. Em suma: queriam que aquele filme fosse outro. Este
tipo de crítica em literatura também existe, mas por acaso sempre foi menos
caricatural que a de cinema. Na crítica literária há antipatias e simpatias,
mas são evidentes, sobretudo quando a autores locais, e até certo ponto
transparentes, até porque conhecemos as pessoas. Há tempos houve aquela do
melhor amigo a elogiar o melhor amigo, a não fazer uma nota de interesses e,
até, a dar cinco estrelas. E há já 15 anos pôs-me de mau humor uma recensão que
uma moça do Expresso fez, a criticar Os Surfistas por «não ser suficientemente
surreal», ignorando por completo que a minha intenção era precisamente a
contrária: evitar, num livro com uma energia colectiva (os e-leitores votavam e
participavam), cair na armadilha do delírio total. O meu grande desafio era o
de conseguir apesar dos sucessivos «boicotes» e «armadilhas» fazer um livro
coeso. O caos e o absurdo guardo-os para quando faço as coisas sozinho.
Mas, para um
livro, a pior crítica é o silêncio. Muitos dos meus livros tiveram-na, anos e
anos a fio, e sei que muitos autores a têm. É chato ser invisível, quando
publicamos um texto. Publicar implica querer público. Pode não ser muito, mas é
isso que implica.
Estou no entanto já a divagar. Do que eu queria falar era da crítica de cinema. Há anos fiquei abananado quando um moço, o Luís Miguel Oliveira, disse que no Batman 2 de Nolan não havia «uma ideia de cinema» que fosse. Fiquei banzado: pensei que a presença do Heath Ledger como Joker fosse uma ideia, tal como a inovação técnica de aplicar o Imax a cenas de acção humanas (e arranjar alguém que conseguisse carregar uma câmara de 60 quilos). Habituei-me a lê-lo e reparei num pormenor que me pareceu cómico: ocasionalmente, havia não só filmes que o irritavam, mas realizadores que o irritavam. E eu não compreendia. Como podia uma pessoa ter uma reacção tão visceral a alguém que está tão distante?
Estou no entanto já a divagar. Do que eu queria falar era da crítica de cinema. Há anos fiquei abananado quando um moço, o Luís Miguel Oliveira, disse que no Batman 2 de Nolan não havia «uma ideia de cinema» que fosse. Fiquei banzado: pensei que a presença do Heath Ledger como Joker fosse uma ideia, tal como a inovação técnica de aplicar o Imax a cenas de acção humanas (e arranjar alguém que conseguisse carregar uma câmara de 60 quilos). Habituei-me a lê-lo e reparei num pormenor que me pareceu cómico: ocasionalmente, havia não só filmes que o irritavam, mas realizadores que o irritavam. E eu não compreendia. Como podia uma pessoa ter uma reacção tão visceral a alguém que está tão distante?
O Eduardo Prado
Coelho, de quem fui turbulento aluno, tal como ele foi meu brilhante e cabotino
professor, irritava-se comigo. Foi uma certa animosidade que se manteve até
que, nos seus últimos anos de vida, nos tornámos vizinhos e, suponho eu, nos
cansámos de nos zangar. Ocasiões houve em que quase tomámos café juntos e eu
lhe passei e ele me passou o jornal: ambos éramos sovinas e generosos a esse
ponto. O Eduardo sempre me pareceu o mais injusto dos críticos. O mais
poderoso, também. Na sua coluna, fazia e desfazia escritores. Espantava-me que
nem uma linha tivesse escrito sobre poetas da minha eleição: o caso mais
flagrante o do Alberto Pimenta. Sobre a Ana Hatherly não faço ideia se
escreveu. Era espantosamente volúvel quando se tratava de mulheres. E isto não
é um elogio: ainda hoje não compreendo como críticos que se pretendem lúcidos
perdem a lucidez quando lhes fazem olhinhos. Talvez seja a síndrome do sedutor
seduzido, sei lá.
O Eduardo também
gostava muito de cinema. Livros, mulheres e cinema, não sei se por esta ou por
outra ordem. Isto tudo para dizer que, tal como alguns críticos de cinema,
também ele se irritava com autores.
Durante anos vi
estas antipatias pessoais como enfraquecedoras, uma espécie de diminuição
moral. Talvez ainda as veja. E vagamente cómicas, quando dirigidas a pessoas
que não conhecem e que estão noutra parte do mundo (Lerá Nolan as críticas de
Luís Miguel Oliveira?)
Agora estou
menos seguro. Há que admirar a paixão. E há que apreciar - mesmo que
discordemos - alguém que gosta tanto da arte sobre a qual escreve ao ponto de
tomar alguns sucessos ou insucessos como afrontas ou glórias pessoais.
Também a mim O
Renascido exasperou um pouco. Exibicionismo barroco a mais - secura a menos. Ou
seja: manipulação do olhar do espectador, puxar pela manga, mas de forma mais
cínica e menos descarada que o simpático trapalhão Terry «Monty Python»
Gilliam. Acontece que o Iñarritu Paganini filma mesmo virtuosamente. E o filme
mostra imagens - imagens em movimento, movimento de imagens - que não tínhamos
visto juntas. Vê-se que interiorizou uma porrada de mestres, os rouba com a
lata de um Tarantino mas não se fica por aí, vai mais longe. O Renascido
cumpre, malgré tout, a regra da arte: quem conta um conto acrescenta um ponto.
(Esta genial frase popular aplicar-se-ia, inicialmente, ao facto de a cultura
oral ir distorcendo os factos numa história, mas cai que nem uma luva à
definição de arte-que-vale-apena.)
Talvez não
pareça, mas este texto é um elogio da crítica.
Alejandro Gonzalez Iñárritu: o vendedor de banha da cobra
Iñárritu no clube de John Ford e Mankiewicz, a ganhar duas vezes seguidas? É um fenómeno, o mexicano, e há que lhe reconhecer o mérito devido aos bons vendedores de banha da cobra.




