Mostrar mensagens com a etiqueta Condição Humana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Condição Humana. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Cancioneiro de Natal, David Mourão-Ferreira


Banksy, "A cicatriz de Belém", Cisjordânia, 2019


Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal, 1971


Banksy, Birmingham, 2019

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Poesia e Cuidados Paliativos

Wanda Rossi de Carvalho

Hoje recebi um poema.

Hoje falarei sobre a Sra Wanda Rossi de Carvalho. Sei que não posso falar de pacientes com os nomes reais, mas não comentarei sobre a doença dela. Ela merece o crédito de sua história.

Dona Wanda tem 94 anos. É uma poetisa. Fez o hino de Bandeirantes (uma cidade aqui do lado de Londrina). Presidente da União Brasileira de Trovadores - seção Bandeirantes.

A cada 6 meses comparece no consultório. Reclama da demora (independente se estou atrasado ou não). Chama-me de bravo (por mais que me esforce para não ser, pelo menos não com ela…). Fala que está muito idosa, mas chega andando, a cabeça ótima.  Sempre me entrega um poema novo. Na hora de ir embora digo que o retorno é em 6 meses, e ela diz que vai estar morta até lá, porque está muito velhinha. Isso se repete já faz 6 anos.

Desta vez deu-me um poema sobre o natal, mesmo sendo na época em que estamos. Isso porque acha que não me verá mais. Igual o que sempre faz desde que a conheço…

Presente de Natal

Sonhei dar-te um presente,
Mas não sei o que darei…
Tens riqueza, tens amigos,
E até mesmo o que eu não sei.
Lembrei de dar-te a saudade
Mas com certeza já a tens,
Pensei na felicidade
Mas não mais a encontrei!
À venda estava a piedade
Mas esta sei que já tens…
E se eu te desse a verdade
Presente de grande poder.
São todos eles tão belos…
Se guardados com carinho,
Mesmo grande ou pequenino
Faz do teu sonho um menino!…
Um presente nobre me ocorre:
E se eu te desse o amor?
Dentro deles guardarias
Tudo bem que a vida for!!!

Obrigado pelo poema, dona Wanda. Até ao próximo semestre.


[Nota: a poetisa Wanda Rossi de Carvalho faleceu em 04-10-2014]
***

Aprendendo a Morrer com Mario Quintana



Continuo a insistir: a poesia é um dos poucos redutos onde podemos aprender um pouco da arte de morrer. Não isso que vemos na TV, as mortes cenográficas, dolorosas, dramáticas. Nem a morte que vemos nos hospitais, os abandonos nos quartos, o lidar com o corpo vivo porém morto à vida num leito de UTI.
Falo de preparação, não como uma espera ansiosa mas que tematiza o morrer como algo que expressa também o meu viver para que ele seja mais intenso, porque sabemos agora focar o existente como seu real valor de singularidade e beleza. E quem nos ajuda a (re)encontrar esse valor é a percepção de que a morte faz parte do viver.
Hoje falaremos de Mario Quintana. Para mim este poeta gaucho tem a virtude de tornar pesada uma pena e leve um cofre de banco. Mostra sutilezas e complexidades ocultas naquilo que vemos todos os dias e que aprendemos a não "ver" mais. Mario Quintana extrai ouro daquilo que nos acostumamos a chamar de banalidade.
Quintana falou muito sobre a morte, fez inclusive piada dela ao nos lembrar que “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Então, não temos mais que nos preocupar com o fato dos lençóis ficarem sujos com a terra do nosso calçado, aliás, talvez a morte seja isso mesmo, a ausência total das preocupações e, por isso, exercício pleno de uma liberdade que não se exercita.
Quintana pode ser um ótimo companheiro de jornada se quisermos discutir a morte. Recomendo essa discussão a todos e, particularmente, aos trabalhadores de saúde, já que eles, muito provavelmente, cuidarão do nosso morrer. A questão é: como estão cuidando hoje em dia? Minha resposta é afirmar que o cuidar não pode estar reduzido a mera monitoração de sinais clínicos, de um corpo reduzido a suas funções biológicas. As pessoas à beira da morte perdem a singularidade, se transformam em massas biológicas à beira da dissolução. Nós somos muito mais do que isso!
O morrer grita pelo exercício de outras necessidades: expressa os quereres especialmente reservados para o fim da vida, pela simples razão que são percebidas como sinais da despedida do mundo e de tudo que amamos. Assim, quando formos falar de morte nos hospitais, por que não pensarmos em Mario Quintana? Vejam por exemplo este soneto:

Minha Morte Nasceu…

          (Mário Quintana para Moysés Vellinho)

Minha Morte nasceu quando eu nasci
Despertou, balbuciou, cresceu comigo
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi

Já não tem aquele jeito antigo
De rir que, ai de mim, também perdi
Mas inda agora a estou sentindo aqui
grave e boa a escutar o que lhe digo

Tu que és minha doce prometida
Nem sei quando serão nossas bodas
Se hoje mesmo… ou no fim de longa vida

E as horas lá se vão loucas ou tristes
Mas é tão bom em meio as horas todas
Pensar em ti, saber que tu existes

(Fonte: QUINTANA, Mario. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)

Quanta leveza para um tema costumeiramente denso e amedrontador… a morte como um ente que nos acompanha desde o nascimento… como uma namorada de infância com quem um dia, cedo ou tarde, nos casaremos. Já utilizei este poema para estimular trabalhadores de saúde em rodas para tematizarem as suas experiências pessoais com a morte, suas primeiras lembranças. O resultado foi muito bom. As pessoas trouxeram recordações, expressaram lutos mal elaborados, produziram ligações com as experiências de morte vividas no cotidiano.
Como todo tabu, depois que percebemos que não haverá necessariamente punições por quebrá-lo, a porta se escancara e as pessoas meio que perdem o medo, pelo menos de falar, e percebem que o medo da morte e do morrer que as deixa tão vulneráveis, na verdade é o medo de todos. Assim, nos tornamos fortes quando percebemos que o medo é algo que pertence ao mundo, elemento que tipifica a condição humana.

Mas Quintana tem mais a nos dizer:

Este quarto

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto…

Que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! Imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim…

(Fonte: QUINTANA, Mario. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)

Aqui, Mario Quintana apresenta a percepção da morte por quem está morrendo ou, pelo menos, uma idealização do que ela deveria ser. O olhar do moribundo parece expressar esperança nas promessas de um céu que significa descanso, o fim das dores e sofrimento. Compara a morte a este mesmo céu que a semelhança do dia, cede espaço para a noite inexorável, um manto que nos cobre e nos livra da ansiedade de saber que é o fim. Novamente, uma bela metáfora da morte que nos afasta das representações terríveis e dolorosas.
A partir dessa leitura as pessoas podem ser estimuladas a falar das experiências que vivem nos hospitais, no cotidiano do trabalho, podem compartilhar os sentidos que tem dado a morte, as percepções do que seriam a mortes dolorosas (física e psiquicamente) e como poderiam atuar para minimizar a dor e vulnerabilidade de pacientes e familiares.
Vamos terminando por aqui, encerrando da melhor maneira possível, claro, com Mario Quintana:


INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!"

 Erasmo Ruiz, 09/07/2009
http://redehumanizasus.net/6987-aprendendo-a-morrer-com-mario-quintana/#sthash.93dGk4Ga.dpuf




¿Por qué necesitamos poesía en cuidados paliativos?


Objetivo: Practicar la poesía: La necesidad de darle voz a la experiencia del final de la vida es compartida por pacientes, familias, cuidadores y profesionales de la salud así como por la comunidad.

Los paliativistas necesitamos aprender de la poesía el poder de las palabras, los símbolos y las metáforas para capturar o transformar la experiencia de enfermedad de los pacientes.

Público objetivo: Numerosos profesionales de la salud se han acercado a la poesía, para rescatar de ella el ancestral contenido curativo e imaginativo que esconde cada una de nuestras palabras.

Relevancia del tema para el congreso: Es un tema original y revelador que indaga nuestra esencia en conexión con el lenguaje. La capacidad sanadora de la poesía nos permite desarrollar la conexión empática o la presencia compasiva. Sanadora en sí misma, la poesía actúa también sanando al sanador a causa del viejo rol natural que tiene el arte. Este género envuelve un mundo de creatividad e imaginación que conlleva en sí el fruto de nuestro deseo humano por descubrir el sentido del mundo y de nuestras vidas.

Relevancia del tema para la región: El acercamiento al género literario nos dará herramientas para nuestra propia sanación, para volvernos en el instante preciso a la requerida humanidad y al íntimo acercamiento hacia el que sufre.

Resumen: ¿Por qué necesitamos poetas en Cuidados Paliativos? Porque existen dos tipos de poetas: los que publican y los inéditos. Los que publican cantan el canto del espíritu humano. Los inéditos son el canto que cantan los primeros. Ambos son necesarios en Cuidados paliativos.

Se trabajará durante la sesión el tema de la práctica de la poesía con la premisa de que “la poesía no es de quien la escribe sino de quien la necesita”. Se intentará generar un ambiente de alto contenido espiritual: leyendo, escribiendo, discutiendo e internalizando poesía se puede encontrar un medio de autoconocimiento, en especial cuando es usado en el trabajo en equipo.

Los paliativistas necesitamos aprender de la poesía el poder de las palabras, los símbolos y las metáforas para capturar o transformar la experiencia de enfermedad de los pacientes.

Se explorará con lecturas de fragmentos de poetas latinoamericanos -Olga Orozco, Jaime Sabines, Luis Cardoza y Aragón, Pablo Neruda, Jorge Boccanera, Hugo Padeletti, etc.- acompañados de imágenes, la aptitud del hombre para permanecer en medio de la incertidumbre, del misterio y de las dudas, sin irritarse y sin un ansia exacerbada por llegar al hecho y la razón. Es decir, la sabiduría de tolerar no saber. Renuncia que por cierto no es abandono sino, por el contrario, perseverancia en la búsqueda. Pero también implica humildad, entrega al otro y desprendimiento material e intelectual. En otros términos, es esta capacidad la que da genera la empatía, el colocarse en el lugar del otro, el considerar la función decodificadora del receptor de acuerdo a sus propios médios.

Vilma Tripodoro, "¿Por qué necesitamos poesía en cuidados paliativos?" IX Congreso Latinoamericano de Cuidados Paliativos, Santiago, Chile, 2018-04-12, http://cuidadospaliativos.org/ix-congreso/encuentros-con-expertos/

Papel TE VOY A ACOMPAÑAR HASTA EL FINAL




Why we need more poetry in palliative care


Abstract

Objectives: Although many well-known poems consider illness, loss and bereavement, medicine tends to view poetry more as an extracurricular than as a mainstream pursuit. Within palliative care, however, there has been a long-standing interest in how poetry may help patients and health professionals find meaning, solace and enjoyment. The objective of this paper is to identify the different ways in which poetry has been used in palliative care and reflect on their further potential for education, practice and research.

Methods: A narrative review approach was used, drawing on searches of the academic literature through Medline and on professional, policy and poetry websites to identify themes for using poetry in palliative care.

Results: I identified four themes for using poetry in palliative care. These concerned (1) leadership, (2) developing organisational culture, (3) the training of health professionals and (4) the support of people with serious illness or nearing the end of life. The academic literature was mostly made up of practitioner perspectives, case examples or conceptual pieces on poetry therapy. Patients’ accounts were rare but suggested poetry can help some people express powerful thoughts and emotions, create something new and feel part of a community.

Conclusion: Poetry is one way in which many people, including patients and palliative care professionals, may seek meaning from and make sense of serious illnesses and losses towards the end of life. It may have untapped potential for developing person-centred organisations, training health professionals, supporting patients and for promoting public engagement in palliative care.

Elizabeth A. Davies, "Why we need more poetry in palliative care". 
Inscrição”, José M. A. Carreiro, Chuva de Época, Ponta Delgada, 2005
Viagem na Família”, José M. A. Carreiro, Folha de Poesia, 21-02-2007
A médica que prescreve poesia na lida diária com a morte”, Publicado em Ex-alunos, Gente da USP, Perfil, USP Online Destaque, por Redação em 9 de maio de 2012
Prescrição de Poesia, blogue de Claudia Quintana,
Unos poemas Paliativos, simples y algo educativos”, Eduardo Bruera. V Congreso Latinoamericano  de Cuidados Paliativos 15-18 de Marzo Buenos Aires, Argentina
A cura pela palavra”, Folha de Poesia, 01-07-2017




sábado, 24 de março de 2018

Um amargo dia mundial da poesia



Ontem, dia mundial da poesia (e da luta contra a discriminação racial), dirigi-me à Casa Fernando Pessoa, em campo de ourique, onde se ia proceder à leitura de Tabacaria em língua caboverdeana e ao lançamento duma edição bilingue, promovida por uma associação de afro-descendentes de lisboa.
Afazeres pouco poéticos fizeram com que eu chegasse alguns minutos depois da hora aprazada para o início da sessão. Uma tarjeta amarela, em inglês e português (Pessoa teria gostado), avisava que não seriam permitidas mais entradas. Remoendo as minhas razões, resolvi tocar à campainha. Logo um diligente vigilante acudiu à porta, dizendo educadamente que por razões de segurança não seriam admitidas mais entradas.
 Não sei quem dirige hoje a Casa Fernando Pessoa, nem quem lá trabalha, mas pedi ao vigilante se podia chamar alguém responsável, pois poderia ser alguém que eu conhecesse, dado que em tempos fui assíduo frequentador da Casa, concebi um programa para uma quinzena da cultura caboverdeana, fui convidado de um dia mundial da poesia, onde recitei excertos da Ode Marítima traduzida por mim para caboverdeano (numa casa cheíssima, com gente até nas escadas), fui convidado de um «Dias do Desassosego», com escritores brasileiros e portugueses (sendo um 10 de junho, fiz a minha abertura com um soneto de Camões traduzido por mim para caboverdeano), a biblioteca da casa possui alguns dos meus livros, por mim oferecidos, sou tradutor de Pessoa para o caboverdeano, utilizando o seu alfabeto oficial (uma antologia intitulada Na Sol di Nhas Angústia esteve pronta para sair em 2007, aquando da passagem de Francisco José Viegas pela casa e ainda hoje aguarda edição), ainda a semana passada o número de inverno da revista LER, dirigida pelo mesmo Fancisco José Viegas, publicou uma montagem minha da Ode Marítima em caboverdeano, razões não para ter algum tratamento privilegiado, mas apenas justificativas do interesse que eu tinha naquela sessão onde seria lido e apresentado  Tabacaria na minha língua materna, poema que eu próprio traduzi em 2007, e que aqui vos ofereço na versão de então.
 Passados instantes entrevi, pela fresta da porta meio aberta, uma senhora de fogachos loiros nos cabelos, que entretanto descera até ao patamar da recepção, falar com o vigilante, acenando que não com a cabeça. Logo este se dirigiu a mim, que se encontrava do lado de fora, dizendo: «Lamentamos, cavalheiro, por razões de segurança...». Gostei muito, eu simples poeta, de ser tratado por «cavalheiro», pois a minha aparência não deixava dúvidas: devido ao frio eu vinha trajado de sobretudo castanho-claro, finas luvas castanho-escuro, cachecol verde-escuro, chapéu preto à Pessoa. Quando já ia embora pelo passeio do outro lado da rua, sorrindo como o Esteves sem metafísica, vi aproximarem-se duas senhoras, cujo tez ainda divisei no lusco-fusco de fim de inverno, e sem delongas sumiram casa adentro. Sorri mais uma vez, com um sorriso triste, alvitrando, para meu consolo, que talvez se tratasse do múltiplo Fernando, reencarnado, não heteronimicamente mas em carne e osso, em femininas figuras, e teria vindo indagar ao que vinha tanta gente de pele escura e linguajar estranho.
 Aconteceu num dia mundial da poesia – e sou poeta. Aconteceu na cidade de lisboa – e dediquei-lhe em livro um monumento de palavras intitulado Lisbon Blues. Foi no bairro de campo de ourique, e estavam os meus livros numa feira no jardim da parada. Aconteceu na Casa Fernando Pessoa, e sou tradutor dele. Foi num dia mundial contra a discriminação racial e senti-me profundamente preto.

José Luiz Tavares
Lisboa, 22 de março de 2018
https://santiagomagazine.cv/index.php/cultura/1299-um-amargo-dia-mundial-da-poesia



TABAKARIA

N ka nada.
Nunka n ka ta ser nada.
N ka pode kre ser nada.
Trandu kel li, n ten dentu di mi tudu sonhu di mundu.
//
Janelas di nha kuartu, di nha kuartu di un-dus milion di mundu ki ningen 
                                                                                       ka sabe é kenha        
 (I s'es sabeba é kenha, kuse k'es sabeba?),
Nhos ta da pa un rua undi ninhun pensamentu ka ta txiga,
Rial, inpusivelmenti rial, sertu, diskonhisidamenti sertu,
Ku misteriu di kusas baxu di pedras ku seris,
Ku morti ta poi umidadi na paredi i kabelu branku na omis,
Ku distinu ta konduzi karosa di tudu pa strada di nada.
//
Oxi n sta dirotadu, sima ki n sabe verdadi.
Oxi n sta odja klaru, sima ki n sta pa n more,
I n ka tenba más armundadi ku kusas
Sinon un dispidida, ki ta bira es kaza i es ladu di rua
Fileras di karuaji dun konboiu, i un partida pitadu 
Di dentu di nha kabesa
I nhas nerbu sakudidu ku osu ta xukalia na ta bai.
N sta spantadu oxi, sima kenha ki pensa i atxa i skese.
Oxi n sta divididu entri lialdadi ki n debe
Tabakaria di kel otu ladu di rua, sima kusa rial pur fora,
I sensason ma tudu é sonhu, sima kusa rial pur dentu.
//
N fadja na tudu kusa.
Komu n ka fase ninhun prupózitu, si kadjar tudu era nada.
Skola k'es da-m
N dixi d'el pa janela di trás di kaza.
N ba ti txada ku prupostus tamanhu,
Mas so erbas ku arvis ki n atxa la,
I ora ki tenba algen era igual a kes otu.
N ta sai di janela, n ta xinta nun kadera. Na kuze ki n al pensa?
Kuze ki n sabe di kel ki n ta fase ben ser, mi ki n ka sabe kuze ki n é?                                                                                                   
Ser kel ki n ta pensa? Mas n ta pensa ma mi n é tantu kusa!
I ten tantus ki ta pensa ser mesmu kusa ki ka pode ten tantus!
Jeniu? Nes mumentu ten mil sérebrus ta sunha ta atxa, sima mi, ma
                                                                                        es é jeniu,
I kenha ki sabe, stória ka ta marka nen un,
Ka ten sinon strumu di tantu konkista futuru.
Nau n ka ta akridita na mi.
Na tudu manikómiu ten dodus maluku ku tantu serteza!
Mi ki n ka ten ninhun serteza, mi é más sertu o menus sertu?
Nau, nen na mi....
Na kantu kuartu pertu di seu i kuartus ka pertu di seu di mundu
Nes ora ka sta jenius pa-es-propi ta sunha?
Kantu aspirason altu nobri i tomadu ku klareza —
Sin, verdaderamenti altu nobri i tomadu ku klareza —,
I kenha ki sabe si pusível di rializa,
Ka ta odja nunka sol ta ratxa rial nen es ka ta atxa obidu di algen?
Mundu é pa kenha ki nanse pa konkista-l
I non pa kenha ki ta sunha ma pode konkista-l sikre e ten razon.
N ten sunhadu más ki kusas ki Napulion fase.
N ten pertadu na petu, k'é ka rial, más umanidadi ki kristu.
N ten fetu, sukundidu, filuzufia ki ninhun Kant ka skrebe.
Mas mi é, i si kadjar n ta ser senpri, kel di kuartu pertu di seu,
Sikre n ka mora na el;
N ta ser senpri kel ki ka nanse pa kel li;
N ta ser senpri apenas kel ki tinha kolidadis;
N ta ser senpri kel ki djuntu dun paredi sen porta e spera p'es abri-l 
                                                                                                     porta
I kanta kantiga d'infinitu nun kapuera,
I obi vos di dios nun posu tapadu.
Kre na mi? Nau, nen na nada.
Pa natureza dirama-m riba di kabesa ta arde
Si sol, si txuba, kel bentu ki ta atxa-m kabelu
I restu ki ta ben si ben, o ten ki ben, o dexa di ben.
Skravus kardíaku di strelas,
Nu ta konkista mundu interu antis d'e  labanta-nu di kama;
Mas nu ta korda i el fitxadu
Nu ta labanta e ka ta djobe nen pa nos,
Nu ta sai di kaza i el é tera interu,
Djuntadu ku sistema solar i karera nhu santiagu i indifinidu.
//
(Kume xukulati, minina,
Kume xukulati!
Odja ma ka ten más metafízika na mundu sinon xukulati.
Odja ma tudu rilijion ka ta nxina sinon faze fatiota.
Kume, minina tudu ntoladu, kume,
Si n podeba kume xukulati ku o-mesmu verdadi ki bu ta kume!
Mas mi n ta pensa i, na ta tra papel di prata, k'e di fodja di stanhu,
N ta bota tudu pa txon, sima n ten botadu bida):
//
Mas o-menus ta fika di margura di kel ki nunka n ka ta ser
Kaligrafia rápidu d'es versus
Portal kebradu pa inpusível.
Mas o-menus n konsagra pa mi un disprezu sen lágrimas,
Nobri pelu menus na jestu largu ki n ta fúlia
Kel ropa xuxu ki mi n é, sen rol, pa kusas na ses kontise,
I n ta fika la na kaza sen kamiza.
//
(Bo, ki bu ta konsola, ki bu ka izisti i purisu bu ta konsola,
Ó deuza grega, konsebedu sima un státua bibu,
Ó patrísia rumana, ki más nobri i más disdisgrasada é npusível                                                                              
Ó prinseza di trovadoris, ton gentil i kulurida,
Ó markeza di séklu dizoitu, dikotadu la lonji,
Ó kes mudjeris freska, famadu, di tenpu di nos pai,
Ó n ka sabe kuse k'é mudernu — n ka ta konsebe ben kuse —
Tudu kel li, seja kuse ki bu é, pode nspiradu pa nspira!
Nha kurason é un baldi dispixadu.
Sima kes ki ta invoka spritu ta invoka spritu, n ta invoka
Mi propi i n ka ta atxa nada.
N ta txiga pa janela i n ta odja rua ku un klareza total.
N ta odja lojas, n ta odja paseius, n ta odja karus ta pasa,
N ta odja kriaturas bibu ki ta kruza bistidu,
N ta odja katxor ki tanbé izisti
I tudu kel li ta peza-m sima ki n kondenadu bai pa lonji,
I kel li tudu é stranjeru sima tudu kuza.)
//
N vive, n studa, n ama, ti n akridita,
I ka ten algen ki ta pidi zimola ki n ka ta inveja oxi so pamodi el é ka mi
N ta odja pa ratadju di kada un, si txagas i mintira,
N ta pensa: si kadjar nunka bu ka vive nen bu ka studa nen bu ama nen 
                                                                                      bu ka kridita
(Pamodi é pusível fase rialidadi di tudu kel li sen fase nada di kel li);
Si kadjar n izisti apenas sima un lagartu ki kortadu rabu
I k'é rabu pa la di lagartu ta ramexe manenti.
//
N fase di mi kuse ki n ka sabe,
I kusé ki n podeba fase di mi n ka fase.
Kel domino ki n bisti staba eradu.
N fika konxedu logu pa kenha ki n ka era i n ka disminti, i n perde.
Kantu n razolbe tra maskra,
E staba pegadu na nha rostu.
Kantu n tra-l i n djobe na spedju
Dja n staba bedju.
N staba moku, dja n ka sabeba bisti domino ki n tra.
N bota maskra fora i n durmi na kau bisti
Sima un katxor ki jerensia ta tolera
Pamodi e ka ta fase ninhun mal
I n ta ba skrebe es stória pa n prova ma mi é sublimi.
Isensia muzikal di nhas versu inútil,
N ta kreba atxaba-bo sima kusa ki n faseba,
I n ka fikaba senpri dianti di tabakaria dipadianti,
Ta kalka ku pe konsiensia di sta izisti
Sima un tapeti ki un mokeru tropesa n'el
O un kapaxu ki siganus furta i ka baleba nada.
//
Mas donu di tabakaria txiga porta i e fika na porta.
Ku diskonfortu n djobe-l ku kabesa tortu
I ku diskonfortu di nha alma ta ntende mal.
El e ta more i mi n ta more.
El e ta dexa tabuleta, mi n ta dexa versus.
Nun sertu altura tabuleta ta more tanbé i rua undi ki tabuleta stevi,
I kel língua ki versus foi skritu na el.
Dipos ta more kel planeta ta da boita undi tudu kel li kontise.
Notus satéliti dotus sistema kualker kusa parsedu ku algen
Ta kontinua ta fase kusa parsedu ku versus ta vive baxu di kusas
                                                                     parsedu ku tabuletas,
Un kusa senpri dianti di kel otu,
Senpri un kusa ton inútil sima kel otu,
Inpusível senpri ton stúpidu sima rial,
Misteriu di fundu senpri ton sertu sima sonu di misteriu di superfisi
Senpri kel li senpri otu kusa o nen un kusa nen otu.
//
Mas un omi entra na tabakaria (pa kunpra sigaru?)
I rialidadi ki ta faze sentidu kai di rapenti riba di mi.
N arma labanta si xeiu di forsa, konvensidu, umanu,
I n sta ba tensiona skrebe es versus undi n ta fla u-kontráriu.
Ora ki n sta pensa skrebe-s n ta sende un sigaru
I na sigaru n ta saboria libertason di tudu pensamentu.
N ta sigi fumu di sigaru sima ki n sta sigi un rota singular,
I n ta goza, nun mumentu konpitenti i di sensason,
Libertason di tudu spekulason
I konsiensia ma metafízika é un konsikuensia di sta mal-dispostu.
//
Dipos n ta deta pa trás na kadera
I n ta kontinua ta fuma.
Timenti Distinu ta pirmiti-m kel li n ta kontinua ta fuma.
//
(Si n kazaba ku fidju-fémia di mudjer ki ta lababa-mi ropa
Si kadjar n ta serba filis).
N ta bisti kel li n ta labanta di kadera. N ta bai janela.
//
Omi sai di tabakaria (ta ba ta mete troku na djilbera?).
Ah, n konxe-l: é Stevis sen metafízika.
(Donu di tabakaria txiga porta)
Sima ki pur un instintu divinu Stevis vira e odja-m.
E fase-m adios ku mo, n grita-l adios o Stevis, i universu
Rakonstrui pa mi sen idial nen speransa, i Donu di Tabakaria poi ta suri.  

Rinxoa, abril di 2007