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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

No meio do caminho da nossa vida ou o valioso tempo dos maduros


Gilbert Garcin, "Le funambule", 2002


O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupa displicente, mas, percebendo que faltam poucas, rói até o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos; quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge da sua mortalidade.
Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim basta o essencial.

Mário de Andrade





segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A Estranha Ordem das Coisas, António Damásio

ENTREVISTA A ANTÓNIO DAMÁSIO




"Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre, respondo: na minha área, é Shakespeare"


Cada vez mais biólogo e menos neurocientista, António Damásio insiste nas humanidades para formar homens e cientistas. No seu mais recente livro dá primazia aos sentimentos como formadores de consciência e motor da ciência, e refere a necessidade de um pacto global sobre educação.


ISABEL LUCAS,  2017-11-05

O que leva um estudante a levantar a mão quando o professor lhe fala de um tema que o intimida? Como reagirão as gerações que cresceram com as redes sociais, quando precisarem de tempo, mais tempo, do que o imediato? Estamos a viver uma crise na actual condição humana diz António Damásio no seu mais recente livro, A Estranha Ordem das Coisas, que dá prioridade aos sentimentos. Na vida, na ciência, na cultura. Horas depois de aterrar em Lisboa não esconde a emoção perante a edição portuguesa da Temas e Debates. Sorri. Pega no livro de quase 400 páginas, olha a contracapa e retrai a vontade imediata de ver tudo ali. Mais tarde confessará que é um chato com o português. Escreve em inglês, pensa em inglês, mas o português é a sua língua. Quando, ao longo da conversa, na oralidade, lhe sai um vocábulo em inglês trata de arranjar a tradução certa, sobretudo se for para descrever um sentimento. É que são os sentimentos o que está antes de tudo no livro que dedica à sua mulher, Hanna Damásio, e na conversa onde haverá de dizer, já desligado o gravador, que também fala alemão e namora em italiano. "É a língua do amor", refere. Como aprendeu? "A ouvir as óperas de Verdi." 


Começa este livro, que vem na continuidade dos anteriores, por esclarecer o que chama de uma “ideia simples”, “como usamos os sentimentos para construir a nossa personalidade”. Peço-lhe que descreva, brevemente, o protagonista deste A Estranha Ordem das Coisas, os sentimentos?

Há a realidade científica daquilo que penso que são os sentimentos, mas há também uma mais alargada ligada a um tema que estamos [com a mulher, Hanna Damásio] a tratar por estes dias para uma conferência sobre ética. Parte dos sentimentos que temos como experiência têm a ver com as coisas mais valiosas da nossa vida; com todas as coisas sobre as quais podemos ter uma valência, as que verdadeiramente contam: vida, doença, dor, sofrimento, morte, desejo, amor, cuidado com o outros [to care]. E, ao mesmo tempo, crimes, medos, raivas, ódios, que têm a ver com o contrário das boas coisas da vida e que podem levar à perda [da vida], e, se não à perda da vida, ao sofrimento. Praticamente todas as coisas que governam ou desgovernam a nossa vida são normalmente transmitidas por uma valência de bom ou mau; de agradável ou desagradável, de recompensa ou punição. São essas que constituem o grande personagem dos sentimentos. Os sentimentos são representações do estado da nossa vida, mas representações qualificadas. Um dos problemas que mais me inquietam é essa impossibilidade que as pessoas têm tido de perceber que a inteligência – ou a nossa mente – vai só até um certo ponto e a partir daí tem de ter uma qualificação. Essa qualificação aparece em termos de agradável ou desagradável, de bom ou de mau, e é isso que faz a grande distinção entre a inteligência humana no sentido mais completo e a mente humana. À inteligência artificial, por exemplo, falta isso. Infelizmente as pessoas não se têm dado conta. Sou um adepto de inteligência artificial e tudo o que esse campo de tecnologia e de ciência nos tem trazido, mas é pena que poucas pessoas dentro desse mundo tenham compreendido que a inteligência artificial tal como é compreendida é uma pálida ideia daquilo que é a inteligência humana no seu real.  

Ou seja, o humano, muito por via dos sentimentos, não pode ser replicado artificialmente.

De certeza que não pode ser nem simulado! Há uma grande diferença entre simulação e duplicação. O que a inteligência artificial faz, e muito bem, é uma simulação, e com capacidades extraordinárias, muito superiores àquelas que temos. A capacidade de inteligência no sentido mais directo e algorítmico que temos hoje em dia em matéria de memória, de estratégias de raciocínio é extraordinária. Faltam é essas outras qualidades que temos na nossa inteligência e que são absolutamente necessárias e extremamente realistas, porque têm a ver com aquilo que a vida é. Enquanto a vida concebida no sentido da inteligência artificial não tem nada a ver com aquilo que a vida é. A vida é outra coisa.

E o que é a vida?

É uma coisa venerável, confusa, efusiva. A grande arte dá-nos isso e a grande literatura dá isso extraordinariamente. Quando não se inclui essa componente de confusão, efusividade, aquilo que pode ser qualificável de bom ou de mau, perde-se uma grande parte do que é a vida. Por isso, e para acrescentar uma nota à sua pergunta anterior, os sentimentos como personagem são as representações, aquilo que está na nossa experiência mental quando estamos a viver uma vida real. E ao mesmo tempo uma forma de nos alertarem para aquilo que está a correr bem ou mal no sentido mais amplo do termo: a vida dentro de um organismo. Um organismo vivo, que tem bons momentos e maus momentos, que tem todas as variações e flutuações que vêm do seu metabolismo e que, porque tem mente e tem consciência – que é uma coisa que nós temos e as bactérias não – vai poder ter acesso a esse relato daquilo que está a correr bem ou mal. 

No livro, fala da consciência da morte como definidor dessa humanidade, o sentimento de fim, que faz com que o homem encare a dor de outra maneira. A consciência da finitude é, desse modo, formadora não apenas de uma maneira de estar socialmente, como também criadora de uma linguagem. Como é que se transpõe esse saber da morte, muito vezes olhado como transcendência, para a ciência e muito concretamente para a biologia?  

Tem sido difícil tratar essa questão. Uma das grandes barreiras é que a ciência, com a sua natural preocupação com a objectividade, teve enorme dificuldade em aceitar coisas que parecem extremamente subjectivas e confusas, com muitas variações, que é difícil de agarrar no sentido mais objectivo do termo. O facto de que os sentimentos são naturalmente subjectivos.

Isso tem sido matéria dos seus livros.

Sim, ando há 20 anos a explicar que sentimentos não são emoções. Mas é extraordinária a resistência. As coisas espantosas que dizem... falam de hearts and minds! Esperem um pouco: hearts and minds? O coração é a emoção, mas querem mesmo dizer coração? E querem mesmo dizer mente sem coração? As confusões são extraordinárias. Mas talvez o ponto mais importante é que as emoções são públicas. Quando está contente e se ri, ou quando está triste, quando está irritada tudo isso aparece na sua máscara. Aparece no rosto e no corpo. Quando se sente irritada ou triste ou alegre isso aparece unicamente em si. Você é a única pessoa que tem acesso a essa informação no sentido real. É uma experiência privada. Você pode simular a representação pública, mas essa distinção explica em grande parte porque é que as pessoas estão muito mais confortáveis quando falam de emoção: porque é público, porque é observável, enquanto os sentimentos têm de ser observáveis por dentro. Mas não estão de forma alguma fora do campo da ciência. É possível a cada um de nós fazer as observações, fazer o resumo dessas observações que é um campo científico e filosófico a que se chama fenomenologia. Portanto, temos a possibilidade de fazer as nossas próprias observações, partilhá-las com os outros, fazer comparações e fazer descrições o mais completas possível. Não há qualquer limitação do ponto de vista científico. Não há limitação da objectividade com que se pode estudar a subjectividade. E é isso que as pessoas não compreendem. 

Sintetizando, fala de sentimentos e consciência, de emoções, de sensações.

Três coisas diferentes. Sensação é o que permite detectar a presença de um estímulo – e que as bactérias e as plantas também têm – e que gera uma resposta. Depois há certas respostas mais complexas. Em organismos simples, se tocar na criatura ela retrai-se. É a mesma reacção que terá se alguém a assustar, uma reacção emocional. Há reacções conservadas ao longo de biliões de anos e que são emocionais, reacções de movimento. O centro da palavra emotion é motion. Se alguém lhe perguntar a diferença entre emoção e sentimento agarre-se à palavra motion; o movimento está do lado das emoções e se está do lado das emoções está-se do lado daquilo que é visível para os outros. Sensação, no seu básico, não tem nada a ver com a emoção propriamente dita. A emoção é uma reposta complexa de movimento em relação a um estímulo que foi sentido e depois há o sentimento, que é a experiência mental daquilo que se passou no organismo quando houve sensação e emoção. São três graus. Um é extremamente simples, outro já é mais complexo, em que há uma resposta, e ainda um outro em que há o apreender consciente e mental daquilo que foi a resposta e que se passou no organismo. São mundos diferentes.

Podemos dizer que estamos no campo da subjectividade. É isso que o estimula do ponto de vista científico?

Sim, é extremamente importante. O que eu quero é dar objectividade científica àquilo que é uma coisa subjectiva, que é no fundo a definição da consciência. Grande parte do problema da consciência é o problema da subjectividade. É por isso, aliás, que é tão extraordinariamente difícil de perceber; é por isso que as pessoas têm enormes conflitos e desacordos sobre o que é a consciência. Cada vez mais estou absolutamente convencido que não é possível distinguir tecnicamente sentimento e consciência. O sentimento, muito possivelmente, foi o princípio da consciência do ponto de vista evolutivo. O sentimento com a sua natural subjectividade e tudo isso se estendeu a outras subjectividades: subjectividade do que está no exterior – eu tenho subjectividade em relação a si neste momento, mas também tenho subjectividade em relação ao meu interior. Por exemplo, sei neste momento que estou um bocado cansado, fiz uma viagem de 15 horas e estou fora da hora em que deveria estar. Tenho essa subjectividade. E tenho a subjectividade em relação a si, às paredes desta sala, ao que estou a ouvir atrás de mim. O que temos é uma grande possibilidade, muito rica, de juntar subjectividades dentro da nossa mente. A nossa mente é toda feita de subjectividades. 

Esse é também o campo da arte.

Sim. E eu sou um apaixonado da literatura. A literatura é o modo mais rico, de todos os que temos, de entrar dentro da subjectividade de outra pessoa e de nos fazer perceber o que pode ser a outra pessoa, muito mais do que o cinema, do que o teatro, porque a situação em que estamos a ler é... devemos estar sozinhos e com um texto que podemos parar a qualquer altura. Pode ler um parágrafo e parar e pensar e retomar e reler. Não pode fazer isso com um filme a não ser que estrague tudo. Tecnicamente pode, mas ninguém vê um filme dessa maneira. A parte da experiência de ver um filme é vê-lo na continuidade de um determinado período de tempo.  

Como cientista, a literatura pode ser-lhe útil – pese a ambiguidade da palavra – neste estudo?  

Absolutamente. Tudo é útil, umas coisas mais do que outras, mas a literatura é extraordinariamente útil porque é uma entrada muito rica na mente, uma entrada que utiliza a vida subjectiva, os sentimentos. É muito curioso, quando se olha para as humanidades de uma forma geral, e para as artes vê-se como têm sido laboratórios de estudos. As pessoas não se aperceberam ainda de que uma boa parte do que se passa no mundo da grande arte é uma espécie de prefácio para o estudo científico dos seres humanos. Quando não havia uma estrutura laboratorial científica, as pessoas já estavam a...

Elaborar?

A elaborar. E a literatura tem sido um grande contributo. Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre respondo: na minha área, é Shakespeare. 

Está lá tudo? 

Praticamente tudo. Pelo menos esboçado. O que se tem é de desenvolver. Quer sejam as peças históricas, as tragédias ou as comédias, a própria poesia. Praticamente tudo aquilo que interessa, todos os grandes temas, estão lá. Entre as milhares de coisas que gostaria de escrever – se calhar não terei tempo –, seria fazer qualquer coisa com a neurociência ou a neurobiologia cognitiva vistas através do Hamlet e do Otelo. O Hamlet é praticamente suficiente. É tão rico e está tão cheio daquilo que conta... E talvez meter o Falstaff pelo meio para ficar mais completo.[risos]

Um dos capítulos do livro é sobre a crise do actual, “a actual condição humana”. Escreve: “Considerar os nossos dias como sendo os melhores de sempre seria preciso que estivéssemos muito distraídos”. Esta “crise” também é causa de uma certa resistência de parte de muitos cientistas em incluir as humanidades nas suas investigações?

A resposta é que há essa resistência, mas não da parte de todos. Há também quem adopte, quem veja o valor, o interesse, muitas vezes talvez porque na sua própria vida pessoal percebem que é importante e acabam por ser seduzidos por essas possibilidades. Se as pessoas trabalham em áreas muito microscópicas daquilo que é a ciência, mesmo que seja ciência humana, é mais difícil fazer a passagem directa. E não é uma coisa que se deva sequer criticar. É perfeitamente compreensível. Mas certas pessoas da minha geração, e até de algumas gerações a seguir, têm um enorme apreço pelas humanidades dentro da ciência. Não se devem fazer generalizações, mas é verdade que tem havido uma certa resistência e também alguma resistência militante. Em certas áreas, quando pessoas das humanidades olham para o contributo da teoria da evolução ou da genética... há tantos erros, tanta complicação, por exemplo a forma como parte desses conhecimentos levou a teorias sobre os seres humanos, da eugenia até aos extremos piores da exploração racista. Claro que há razões para as pessoas terem tido durante algum tempo uma certa rejeição e depois muitas vezes também têm o pavor do reducionismo. É um grande pavor também da parte das humanidades e, portanto, rejeitam que a ciência possa trazer alguma coisa de tão importante como aquilo que as humanidades têm trazido em matéria de compreender o que são os seres humanos. 

Neste livro levanta duas ou três vezes esse problema...

Porque eu não tenho qualquer espécie de desejo de reduzir aquilo que são os seres humanos no seu mais sublime à ciência abstracta. Pelo contrário. Aquilo que acho, e cada vez acho mais e neste livro é a primeira vez que me apercebo, é isto: quando se ligam sentimentos à cultura, por um lado, e sentimentos à homeostasia e aos princípios da vida, o que estamos a fazer é a enriquecer a ligação entre a cultura e a vida. Ao contrário de reduzir, estamos a aumentar, a fazer com que esse fio seja mais visível. 

A palavra homeostasia cruza todo o livro. Ela é completamente definidora do que é o humano? 

É completamente definidora do que é um ser vivo.O ser humano precisa de ter não só os imperativos da homeostasia nos seus aspectos mais complexos, mas também desenvolvimentos que vêm com a multicelularidade, o aparecimento dos sistemas nervosos e depois o extraordinário desenvolvimento da capacidade dos sentimentos, consciência de mente com imagens... 

Sobre a capacidade de criar imagens, escreve que “todas as imagens do mundo exterior são processadas de forma paralela às reações afectivas... ", e depois apela a um exercício: “pensemos na maravilha alcançada pelo nosso cérebro ao lidar com imagens de tantas variedades sensoriais, de origem externa e interna, ao ser capaz de as transformar nos filmes da nossa mente. Em comparação, a montagem de um filme é uma simples brincadeira.” 

Exacto. Mas faço essencialmente uma abordagem crítica. Quando no início de tudo me falou da genealogia deste livro, há vários temas que venho a tratar há muitos anos, mas que agora me parecem, alguns, perfeitamente claros, e em que também tenho a coragem de dizer exactamente aquilo que penso sem estar com rodeios por poder ofender alguém que achasse que era pateta e novo de mais para estar a dizer coisas. Agora já posso dizer tudo o que me apetece. 

Pode-se dizer que os sentimentos são fundadores da ciência? 

Possivelmente são. São pelo menos motivadores. Neste livro há três papéis que dou aos sentimentos, ou ao afecto em geral. Primeiro, motivadores, depois monitores e depois negociadores. Os sentimentos intervêm nesses três pontos. São coisas diferentes. Uma é motivar, outra é a monitorização e a outra é a negociação de quando as coisas correm mal ou bem de mais. Há constantemente ajustes. Há pessoas que perante dois advogados a discutirem um contrato ou dois políticos a discutirem um tratado são capazes de pensar que isso está a acontecer num plano puramente intelectual; não está. Acontece num plano intelectual e acontece com toda a miríade de alterações que têm a ver com a forma como uma das pessoas apresenta o argumento e como a outra o recebe. Tudo isso é uma negociação que está a ser feita não só num plano de conhecimento e razão, coisas que se podem dizer objectivas e frias, mas também nesse outro plano que tem a ver com a forma como a negociação está a correr do ponto de vista afectivo. Essa é a realidade. Tem o exemplo espectacular do que se tem estado a passar nestes últimos dois anos com movimentos de populismo, de racismo em toda a parte. Muitas vezes, a forma como esses problemas são apresentados gera reacções de zanga e protesto puramente emocionais. Uma das coisas extraordinariamente curiosas é que quando as pessoas falam de emoções falam quase sempre do ponto de vista negativo das emoções. Muitas vezes acham que há o lado objectivo, o do bom raciocínio, e depois as emoções, más, que tornam as coisas irracionais. É um disparate completo, porque é limitar o âmbito das emoções ao negativo. Há emoções muito positivas; ter compaixão, gratidão, desejo de ajudar, cooperar. O amor! o desejo pelo amante, o amor pela criança que se está a criar. 

É desse preconceito que vem a distinção entre inteligência e inteligência emocional?

Sim. As emoções muitas vezes ajudam a tomar a decisão e muitas vezes trazem o conhecimento, o discernimento, o destilar de uma série de conhecimentos que temos, uma vez que foram aplicados e qualificados. A intuição é uma maneira de fazer linha recta para a solução do problema sem andar por todas as fases intermédias. Essa intuição vem de uma forma emocional. Tudo isto tem imensa graça. As pessoas que descobriram o big data falam de como um grupo de computadores pode ler uma enorme quantidade de dados e tirar uma conclusão extremamente nova, verificando que aquilo é o que se deve fazer. Mas isso que o computador está a fazer é aquilo que a intuição humana faz há milhões de anos. O nosso cérebro é um big data system que tem imenso conhecimento do que é a nossa vida interior fisiológica e sobre o que é, e tem sido, a nossa vida em geral. E esse big data system está constantemente a dar-nos um dado institucional que é extremamente importante para a nossa vida. Tudo isso vem do lado das emoções e faz parte do que se poderia chamar inteligência emocional. Não uso o nome porque não acho que haja uma inteligência emocional e uma não emocional. Há inteligência. 

Começa o capítulo dedicado à crise actual dizendo que nunca tivemos tanta informação nem tanta possibilidade de sermos felizes, mas... E critica os media públicos e o seu modelo lucrativo de negócio, reduzindo a qualidade de informação; questiona o valor de entretenimento aplicado à história jornalística e afirma: "Embora a literacia científica e técnica nunca tenha estado tão desenvolvida, o público dedica muito pouco tempo à leitura de romances ou de poesia, que continuam a ser a forma mais garantida e recompensadora de penetrar na comédia e no drama da existência, e de ter oportunidade de reflectir sobre aquilo que somos ou podemos vir a ser. Ao que parece não há tempo a perder com a questão pouco lucrativa de, pura e simplesmente, ser.” Que cultura é esta que parece rejeitar a criação de pensamento e se fica pela emoção? 

Historicamente, quando se vê o que tem sido a marcha dos seres vivos, há coisas que são previsíveis e outras que não são. E depois há certas coisas que acontecem, em que as pessoas não apreendem nem prevêem as consequências. O que se está a passar, por exemplo com a Internet e as redes sociais, é uma entrada extremamente larga dentro das mentes. É uma coisa que entra dentro de nós e que tem o poder de modificar a forma como pensamos e nos comportamos. 

A sociabilização. 

Exacto. Há uma entrada dentro do que somos do ponto de vista mental a um nível completamente diferente de outras tecnologias. Não é tão somente um telefone. É o telefone e a possibilidade de entrar num mundo de conhecimento de forma imediata. Ter essa informação toda é extraordinário mas o que temos de pensar é o que acontece com as pessoas que só têm vivido com isso e não tiveram a possibilidade de se desenvolver com mais distância em relação ao que se está a passar nessa rapidez de tecnologia. Há também o problema do que vai acontecer quando as pessoas ficarem sem tempo para reflectir sobre o que estão a viver. Vão ter a possibilidade de ter tudo muito rapidamente, a quantidade de informação é enorme e a maneira de resolver os conflitos tem de ser diferente. E vai ser mais complicada porque não há tempo para o discernimento. É possível fazer o contra-argumento: é o problema que temos por sermos de uma geração anterior e não termos crescido com isso, e os cérebros das pessoas que já cresceram com isso estão adaptados. Isso é verdade em parte, mas não quer dizer que essas novas pessoas que cresceram dessa maneira não tenham ao mesmo tempo reduzido a sua possibilidade de olhar para o mundo de uma forma mais calma e mais completa e reflectida. É um problema em aberto, que tem de ser estudado, e não o tem sido porque tudo está a acontecer agora.  

Usa as expressões “bancarrota espiritual” e “bancarrota moral” para classificar o que está a acontecer. 

E poderia juntar aqui a trigger warning, que está ligada a tudo isso. Por exemplo, numa aula pode haver uma discussão sobre violência ou sobre sexo e um aluno levanta a mão a dizer trigger warning, i dont feel safe anymore. É uma concepção da vida como se a pessoa pudesse viver protegida de tudo o que não é conveniente e, ao mesmo tempo, ficar sem a possibilidade de perceber o que se está a passar e de se defender inteligentemente. O presidente actual da Universidade de Chicago tem escrito sobre isso e diz que eles rejeitam isso ao abrigo do trigger warning e isso é uma remoção da educação e nós, como universidade, não vamos deixar que os nossos estudantes sejam amputados e fiquem sem a possibilidade de responder inteligentemente às ameaças. Tudo isto são problemas para serem estudados. É relativamente fácil olhar para a situação e reconhecer que o progresso é extraordinário, as possibilidades são magníficas e ao mesmo tempo também temos de reconhecer que precisam de ser estudadas para ver se podem correr melhor. As razões pelas quais as coisas não correm bem serão imensas mas há possibilidades. A questão que referia há pouco, do ser, é tão importante e parte do pressuposto de se conseguir estar consigo próprio e observar a maravilha da existência sem preocupações com aquilo que vem antes ou depois. É uma capacidade unicamente humana. 

Estamos há muito tempo a conversar e pergunto-lhe o que é que isto tudo tem a ver com biologia? 

Há biologia em variadíssimas áreas. A biologia no que diz respeito à nossa violência ancestral. Somos primatas, a nossa herança é a de animais... e trazemos a autodestruição connosco. Falo de Freud e da ideia de auto-destruição. Ele chama a atenção para uma coisa que é muito real  e que as pessoas muitas vezes querem esquecer: a ideia de que somos capazes de violência. E há uma ideia que é consequente a essa e tem a ver com a educação, com o facto de que a única maneira de resolver o problema da nossa violência natural e de como naturalmente as pessoas querem estar com aqueles que são parecidos e não com os diferentes. Tem de haver um plano de educação extraordinário, uma espécie de super-plano de investimento global que não tem sido feito por razões que são também históricas e sociopolíticas. 
O mundo é dividido, depois há uma crise económica, uma crise política que leva a migrações, essas migrações trazem dificuldades e há reacções contra e não há possibilidade de coordenar globalmente um plano educacional. Para mim não é uma ideia mítica, acho possível. Não é possível só com as Nações Unidas. Tem sido possível em certos períodos. Os Estados Unidos, com todos os seus problemas, tiveram uma acção extraordinária no pós-guerra. Há um período que não é de paz completa, em que houve um investimento em reconstruir países e permitir que houvesse um alargamento da educação e da maneira de compreender outros que são diferentes. É uma grande projecto que, em parte, funcionou, tem funcionado, mas que neste momento está a ser ameaçado. 

Já viveu no Iowa, em Chicago, agora vive em Los Angeles. Da sua experiência pessoal, as diferenças acentuaram-se entre esses três mundos geográficos. Há um país muito dividido. Um centro que se sente esquecido e as margens liberais. 

Há muitas semelhanças com as experiências europeias. Nos EUA é uma coisa mais orgânica. Sempre tiveram enormes divisões geográficas. Há uma narrativa histórica que conseguiu compensar e impor um bom funcionamento em conjunto à volta de certos mitos e neste momento há uma fragilidade das relações, há fenómenos económicos extraordinariamente importantes e há uma evolução de tempos diferentes em diversas comunidades. Mas veja a Europa, encontra exactamente os mesmos problemas – que na Europa são muito velhos e um pouco esquecidos. Isso está dentro do que são os seres humanos; os seres humanos a criarem um grupo, uma história com determinados hábitos, determinadas preferências e a forma como aceitam, ou não, que isso possa ser suplantando. 

A entrevista encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO
URL: https://www.publico.pt/2017/11/05/ciencia/entrevista/antonio-damasio-1791116


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O neurocientista António Damásio

NEUROCIÊNCIAS

Sem educação, os homens “vão matar-se uns aos outros”, diz António Damásio

Neurocientista lança novo livro em Portugal.

PÚBLICO - LUSA, 2017-10-31

O neurocientista António Damásio advertiu que “se não houver educação maciça, os seres humanos vão matar-se uns aos outros”. O neurocientista português falava no lançamento do seu novo livro A Estranha Ordem das Coisas, que decorreu esta terça-feira em Lisboa, na Escola Secundária António Damásio, e defendeu perante um auditório cheio que é preciso educarmo-nos para contrariar os nossos instintos mais básicos, que nos impelem a pensar primeiro na nossa sobrevivência.

“O que eu quero é proteger-me a mim, aos meus e à minha família. E os outros que se tramem. [...] É preciso suplantar uma biologia muito forte”, disse o neurocientista, associando este comportamento a situações como as que têm levado a um discurso anti-imigração e à ascensão de partidos neonazis de nacionalismo xenófobo, como os casos recentes da Alemanha e da Áustria. Para António Damásio, a forma de combater estes fenómenos “é educar maciçamente as pessoas para que aceitem os outros”.

A Escola Secundária António Damásio foi o sítio escolhido pelo neurocientista português para lançar em Portugal a sua nova obra, que volta a falar da importância dos sentimentos, como a dor, o sofrimento ou o prazer antecipado.

“Este livro é uma continuação de O Erro de Descartes, 22 anos mais tarde. Em ‘O Erro de Descartes’ havia uma série de direcções que apontavam para este novo livro, mas não tinha dados para o suportar”, explicou António Damásio, referindo-se ao famoso livro que, nos finais da década de 90, veio demonstrar como a ausência de emoções pode prejudicar a racionalidade.

O autor referiu que aquilo que fomos sentindo ao longo de séculos fez de nós o que somos hoje, ou seja, os sentimentos definiram a nossa cultura. António Damásio disse que o que distingue os seres humanos dos restantes animais é a cultura: “Depois da linguagem verbal, há qualquer coisa muito maior que é a grande epopeia cultural que estamos a construir há cem mil anos.”

O neurocientista acredita que o sentimento – que trata como “o elefante que está no meio da sala e de quem ninguém fala” – tem um papel único no aparecimento das culturas. “Os grande motivadores das culturas actuais foram as condições que levaram à dor e ao sofrimento, que levaram as pessoas a ter que fazer alguma coisa que cancelasse a dor e o sofrimento”, acrescentou António Damásio.

“Os sentimentos, aquilo que sentimos, são o resultado de ver uma pessoa que se ama, ou ouvir uma peça musical ou ter um magnífico repasto num restaurante. Todas essas coisas nos provocam emoções e sentimentos. Essa vida emocional e sentimental que temos como pano de fundo da nossa vida são as provocadoras da nossa cultura.”

No novo livro o autor desce ao nível da célula para explicar que até os microrganismos mais básicos se organizam para sobreviverem. Perante uma plateia com centenas de alunos, o investigador lembrou que as bactérias não têm sistema nervoso nem mente mas “sabem que uma outra bactéria é prima, irmã ou que não faz parte da família”.

Perante uma ameaça, como um antibiótico, “as bactérias têm de trabalhar solidariamente”, explicou, acrescentando que, se a maioria das bactérias trabalha em prol do mesmo fim, também há bactérias que não trabalham. “Quando as bactérias (trabalhadoras) se apercebem que há bactérias vira-casaca, viram-lhes as costas”, concluiu o neurocientista, sublinhando que estas reacções são ao nível de algo que possui “uma só célula, não tem mente e não tem uma intenção”, ou seja, “nada disto tem a ver com consciência”.

E é perante esta evidência que o investigador conclui que “há uma colecção de comportamentos – de conflito ou de cooperação – que é a base fundamental e estrutural de vida”.

Durante o lançamento do livro, o investigador usou o exemplo da Catalunha para criticar quem defende que o problema é uma abordagem emocional e não racional: “O problema é ter mais emoções negativas do que positivas, não é ter emoções.”

URL: https://www.publico.pt/2017/10/31/ciencia/noticia/sem-educacao-os-homens-vao-matarse-uns-aos-outros-diz-antonio-damasio-1791034

sábado, 14 de outubro de 2017

ESCADA SEM CORRIMÃO

 


ESCADA SEM CORRIMÃO

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p’rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão-Ferreira, "Escada sem corrimão", in Antologia Poética [1948-1983]



VOCABULÁRIO:
lastro (verso 12) – peso que se mete no porão de uma embarcação, para lhe aumentar a estabilidade.

QUESTIONÁRIO:
1. Identifica um verso da primeira estrofe que ajude a compreender o comportamento descrito no verso «Quem tem medo não a sobe.» (verso 9). Justifica a tua escolha.
2. Se o nome «chão» (verso 4) for considerado metáfora de «ignorância», como se poderá interpretar o verso «Vai a caminho do Sol» (verso 3)?
3. Explica de que modo os versos «Os degraus, quanto mais altos, / mais estragados estão.» (versos 5 e 6) podem caracterizar o ciclo de vida de um ser humano.
4. Tendo em conta o significado da «escada», no poema, o que nos diz sobre a vida o verso «Sobe-se numa corrida.» (verso 13)?
5. Imagina que, na tua Escola, estão a ser reunidos textos para duas antologias de poesia com os títulos seguintes: I - POESIA COM ENIGMAS; II - POESIA SOBRE O TEMPO. Em qual dessas antologias publicarias o poema «Escada sem corrimão»? Justifica a tua opção, com base na leitura que fizeste desse poema.

GAVE, Exame Nacional n.º 22, 2006, 1.ª chamada. Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 209/2002, de 17 de outubro

CHAVE DE RESPOSTAS:
1. O verso “É uma escada em caracol” põe em evidência o perigo para quem sobe tal escada, pois a cabeça fica a andar à roda. Ou: O verso “e que não tem corrimão” mostra que a escada é perigosa por falta de apoio. Ou Uma escada que “Vai a caminho do Sol” é uma escada tão íngreme e alta que será difícil subi-la.
2. Significa que há a intenção e o esforço para se sair da “ignorância” e alcançar o conhecimento, apesar do percurso ser difícil.
3. À medida que a vida passa, as condições do ser humano degradam-se e, consequentemente, aumentam as dificuldades para subir os degraus mais altos da escada da vida.
4. O verso indica que a perceção que se tem da vida é que ela passa muito depressa.
5. Publicá-lo-ia na antologia “Poesia com Enigmas”, pois o texto assenta numa metáfora da vida humana, constituindo, assim, um enigma para o leitor decifrar. Ou: Publicá-lo-ia na antologia “Poesia sobre o Tempo”, uma vez que o texto refere a passagem do tempo na vivência do ser humano.
http://www.eidh.eu/exames-13_14/9_ano_portugues/resolucao/2006_1C_SOL.pdf


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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Homens imprudentemente poéticos

E a sua poesia? Depois de vários romances, que lugar está reservado a ela?
Valter Hugo Mãe - Estou tentando disciplinar a minha poesia, porque estou achando que ela ficou muito fofoqueira. Minha poesia estava virando um diário, um tipo de coisa aberta. Então entrei em conflito. Não é que não esteja interessado em escrever, talvez tenha a ver com o género. Mas pretendo lançar um livro com as minhas poesias, talvez seja no Brasil também, eu vou fazer agora, depois do novo romance.




VALTER HUGO MÃE: A POESIA EM ‘HOMENS IMPRUDENTEMENTE POÉTICOS

A Origem do Sol e o começo da Poesia

As mulheres iluminam o caminho

“O artesão protestava: a neve derrete, é só água. Matsu respondia: eu sei. Com o leque que me fizeste perco a sede.”

A parábola dos opostos

Um escritor imprudentemente poético “sem paciência para dar confiança às agruras da vida”

“Homens imprudentemente poéticos” é o título do novo romance de Valter Hugo Mãe. “O tempo não tem respeito. É um malcriado. Deve haver algum bicho que come dias, mas, ao mesmo tempo que fui roubado, sinto que estou no momento mais harmonioso e apaziguado”

"Homens imprudentemente poéticos”, o mais recente romance do escritor Valter Hugo Mãe, chegou esta segunda-feira às livrarias de todo o país. O pré-lançamento foi feito este domingo na Casa da Música, no Porto, entre amigos e centenas de leitores que se deslocaram até lá para conhecerem um pouco mais acerca da obra que nos conduz até uma floresta labiríntica no Japão.
O evento, que contemplou atividades relacionadas com a obra do escritor durante todo o dia, serviu sobretudo para assinalar os 20 anos de carreira literária. Na sessão de apresentação, a amiga e jornalista Teresa Sampaio juntou-se ao escritor numa conversa sempre espontânea. Valter Hugo Mãe, com 45 anos completados esta semana, é assim: imprudentemente poético. Por vezes a fazer o público soltar gargalhadas e noutras com momentos de profunda introspeção.
Embora diga não ser muito dado a efemérides, encontra algo de “obsceno” na passagem dos anos. “O tempo não tem respeito. É um malcriado. Deve haver algum bicho que come dias, mas, ao mesmo tempo que fui roubado, sinto que estou no momento mais harmonioso e apaziguado”, afirmou o escritor, nascido em Angola mas que adotou as Caxinas como o local onde pertence.
Ainda durante a infância, imaginou e convenceu-se de que iria morrer aos 18 anos. “Mas não deu.” Agora que já está “cotinha”, confessa-se nostálgico, mas garante que não fica em casa “a ouvir música para cortar os pulsos” e diz que o tempo o fez “desimportar” de muita estupidez. “Perdi a paciência para dar confiança às agruras da vida, que vão acontecendo a ver se nos tramam. Há coisas que acontecem para que eu sofra e eu não sofro. Não tenho paciência”, disse, motivando um aplauso geral.
Valter Hugo Mãe tem “muito lucidamente a ideia de que não vamos conseguir ser aquilo que sonhamos ser”, mas “eventualmente a vida dá-nos outras coisas que superam o que poderíamos ter esperado”. Procura meditar sobre a morte e tenta convencê-la a ser menos cruel. “Mas ela continua a ser uma besta.”
Do divino tem uma conceção muito própria e considera que a “espiritualidade não tem de ser uma miséria”. Se se cruzasse com Deus na rua, acredita que só o cumprimentaria, apesar de ter “a sensação de que ele já foi comer arroz de caril lá a casa muitas vezes”.


“OS LIVROS SÃO O CAMINHO PARA DENTRO DA ESCURIDÃO”


Sobre o novo romance, editado pela Porto Editora, conta que surgiu da vontade de “regressar à vertigem da descoberta e de um momento inaugural”. Quase como se estivesse a escrever o seu primeiro livro, embora saiba que “nenhum regresso é inteiro”, porque “regressar é assumir que algo se suspendeu e se perdeu”, frisou Valter Hugo Mãe.
O método de escrita mudou e é muito “aflitivo”. “Ao invés de ficar a corrigir coisas dentro do corpo do texto, eu simplesmente afasto-o e começo-o outra vez”, explicou acerca do seu processo criativo. Pretende que a obra tenha “uma pulsão tão espontânea quanto possível” e acredita que os livros são feitos daquilo que o escritor pressente e que está oculto. “Os livros são o caminho para dentro da escuridão”, sintetizou Valter Hugo Mãe.
E o seu mais recente trabalho é a prova disso mesmo. Trata-se de uma incursão até a um Japão profundo e até a uma floresta labiríntica, situada no sopé do Monte Fuji. É conhecida como a “Floresta dos Suicidas” e no livro fica a sensação de se estar a entrar num lugar tumular e sagrado, onde a beleza e o grotesco coabitam.
“No Japão um suicida não é visto como um fraco ou um desistente. É visto como alguém que entendeu a sua vida por completa e entendeu estar preparado para se entregar à natureza”, explicou o escritor.
“Homens imprudentemente poéticos” é um livro onde residem pessoas cansadas das ideias e aborda temas como a memória, a gestão da felicidade, a luta entre o bem e o mal e, por fim, a redenção. As duas personagens centrais são dois vizinhos: Ítaro, um artesão, e Saburo, um oleiro. Nutrem um pelo outro uma inimizade crescente, mas respeitam-se. “São inimigos de boa-fé”, explicou o romancista.
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http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-10-03-Um-escritor-imprudentemente-poetico-sem-paciencia-para-dar-confianca-as-agruras-da-vida


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Entrevista
Valter Hugo Mãe: "Não gostaria de viver um livro meu"

O novo romance de Valter Hugo Mãe, "Homens imprudentemente poéticos", é lançado no domingo na Casa da Música e chega segunda-feira às livrarias.
Ambientado no Japão, o livro pode ser entendido como uma parábola sobre a vida e a forma como nos relacionamos com o outro. Fala sobre a inimizade de dois artesãos japoneses mas também fala de amor incondicional. Um livro atravessado por uma floresta suicida, pela miséria e por uma aldeia onde um quimono adeja ao vento.

Este romance pareceu-me um tanto sombrio. Concorda?
Não tenho essa ideia. Os meus livros são sombrios no sentido em que não sei escrever sem deitar mão da tragédia. Eu vejo este livro como meditado, aprofundado. É uma tragédia que parece que implode. Que vai promovendo uma explosão e que, o que acontece, é uma dinâmica contrária em que as personagens parecem progredir para se confinarem. O que elas fazem tem mais a ver com uma interioridade do que com uma expansão.


Não gostaria de viver um livro meu

Neste "Homens imprudentemente poéticos" há cenas violentas. Um dos personagens fura os próprios olhos. Porquê o fascínio pelo extremo?
Sim. Há uma fisicalidade. Acho que tenho isso. Eu não posso ver sangue no meu quotidiano. Não gostaria de viver um livro meu. Mas, na ficção, tenho essa necessidade de tornar as coisas garridas. Até um pouco extremas, no sentido de criar uma demasia. As coisas pendem para um certo exagero. Como se utilizasse a caricatura. Vou acentuando traços, elementos.

Cada vez mais a sua forma de escrita surpreende. Há palavras que parecem deturpadas mas que funcionam como tal. Reinventa expressões...
É muito importante para mim o lado poético da linguagem. Escrever um romance como se pudesse, não exatamente ser um poema, mas manter a poeticidade em cada frase. Disciplinar cada frase para que ela me forneça a sua maior beleza, ainda que possa discursar sobre o grotesco, ou sobre a dificuldade, ou sobre o medo. Quero que o discurso seja feito na maior beleza possível.


Acho que tenho uma certa coleção de romances possíveis [...] que estão à espera de vez

O seu romance anterior tinha a Islândia como cenário. Neste é o Japão. Porquê esta escolha?
Esta era uma das hipóteses de há muito tempo. O Japão é o fascínio português de sempre. Desde há séculos que Portugal tem esse destino de se apaixonar pelos antípodas nipónicos. E eu sempre encarei a possibilidade de escrever um livro ambientado naquela ilha. Quando termino um determinado romance fico disponível para escolher o caminho do seguinte. E as hipóteses estão diante de mim, como procurando seduzir-me. Acho que tenho uma certa coleção de romances possíveis. E então, quando termino um, os romances possíveis comparecem à ideia e estão como que à espera de uma vez. De uma atenção. Depois da Islândia eu pensei que seguir para um universo tão distinto como o do Japão, e, ao mesmo tempo, manter-me numa ilha, era muito aliciante.

E foi?
Foi interessante viajar dos fiordes do oeste islandês para Quioto. Foi uma estranheza que me redobrou os sentidos. Porque dentro do texto, eu enquanto autor, passava como alguém de sentidos apurados. Como se, através das palavras, estivesse efetivamente observando um mundo distinto.

Fala numa floresta dos suicidas que, ao que sei, existe mesmo. O que o fascinou no tema para o introduzir no livro e fazer dele quase um assunto central?
A floresta existe no sopé do monte Fuji. A partir de meados do século XX tornou-se comum que as pessoas entrem na orla da floresta atando uns cordéis às árvores. Entram por um labirinto para meditarem acerca da decisão de morrerem. Muitos regressam, outros não. E aquele lugar acaba por ser conhecido pela floresta dos suicidas. No Japão, é claro que o suicídio não é incentivado, mas, historicamente, o suicídio tem uma componente honorável. É como se fosse uma questão de maturação de uma ideia. Um gesto maduro, ao contrário de um gesto de desespero como nós europeus o vemos.

Há algo fulcral no romance. Não é uma personagem mas tem impacto semelhante. Um quimono...
Exatamente. O quimono da senhora Fuyu. Isto acontece porque eu gosto muito de trabalhar as presenças ausentes. Gosto dessa dimensão algo fantasmagórica de algumas personagens, que são intuídas a partir de elementos, mais do que pela presença física ou pela ação delas mesmas. E a senhora Fuyu acaba por atravessar o romance inteiro, não porque participe nele, mas porque o seu quimono é pendurado todos os dias num certo espantalho para ficcionar a presença dela. A mim, enternece-me a ideia de que o seu marido viúvo, o oleiro Sabu, possa todos os dias escolher aquela pequena ilusão de que a sua esposa ainda o observa enquanto ele modela o barro ou cultiva flores.


Acho que tenho pouca paciência para a limitação da vida

O romance conta a história de dois vizinhos que se odeiam. Mas no final há um certo sentido de redenção. Está de acordo?
Creio que sim. Sinto isso. No meio daquela inimizade talvez eles aceitem um pouco o destino e aceitem o convívio. Talvez até pela contingência de serem vizinhos, talvez pela contingência de lhes calhar não conviver com mais ninguém. Gosto dessa ideia de as pessoas, ainda que antagónicas, acabem por conquistar a capacidade de convívio.

Está a fazer 20 anos de vida literária. O Valter desdobra-se um mil e uma coisas. É vocalista da banda Governo, escreve poesia, escreve para crianças, foi autor de fanzines, esteve ligado à edição. Este título "Homens imprudentemente poéticos" não é também um pouco o seu autorretrato?
Na verdade sou dramaticamente imprudente e com tendências poéticas. Acho que tenho pouca paciência para a limitação da vida. A vida limita-nos em muitos aspetos. Somos limitados por todos os motivos. Cada dia nos impõe a necessidade de uma conquista qualquer. Nem que seja motivação para nos levantarmos, para estarmos minimamente saudáveis da cabeça, para o encontro com os outros. E nada é adquirido. Tudo é de facto um pressuposto do esforço. E tenho isso muito claro para mim. Que a vida tem que ver com querer, com vontade e com essa motivação para sermos o que nos aprouver ser.

Nestes 20 anos como olha para tudo o que lhe foi acontecendo?
Estes 20 anos são uma surpresa como talvez a vida de toda a gente seja. Talvez nos encontremos sempre num lugar relativamente improvável. Somos versões improváveis do que éramos. Somos, a cada passo, a versão improvável de nós mesmos. E eu não esperaria ou não poderia preparar-me para o sentido em que as coisas acabaram por acontecer. Até porque, eventualmente, o que de fundamental acontece surge de forma espontânea. Subitamente, a vida parece que dá um passo por nós. E, por isso, o modo como vejo o tempo que decorre desde a apresentação do meu primeiro livro tem a ver sobretudo com a surpresa. Sinto-me surpreendido e admirado com quem posso ser hoje.


Tenho alguma propensão para o encontro com o público, para o encontro com as pessoas

Como olha para estas homenagens que lhe fazem?
Devíamos celebrar os autores. Normalmente celebramos quando eles estão muito velhos ou morrem. Eu ainda sou mais ou menos jovem e nem sequer estou muito gordo. Estou só um bocadinho. Mas fico muito grato que exista quem possa querer celebrar este tempo, este percurso, celebrar estes livros. Fico muito grato que o público apareça, que o público acompanhe, leia os livros. Mas tenho pena que de facto se crie uma convicção de que a literatura não permite convívio. Não permite a proximidade. Como se os autores precisassem de ser manifestamente austeros, enclausurados, esquisitos socialmente. Penso que no fundo toda a gente é esquisita. Não conheço ninguém que seja propriamente mais normal do que eu, no sentido em que as pessoas que conheço são bem capazes de fazerem coisas ainda mais bizarras das que eu possa fazer. E eu, até por gratidão, tenho alguma propensão para o encontro com o público, para o encontro com as pessoas.

Isso reflete-se também na sua interação com redes sociais. Tem tempo para isso tudo?
Não tenho. Mas vou respondendo. Há sempre um momento de insónia ou de descontração em que penso ser oportuno dar alguma satisfação às pessoas que têm o cuidado de me seguir, que têm o cuidado de me perguntar algo. Isso significa que estão interessados em alguma coisa que tem a ver comigo. Em alguns momentos, o Facebook é muito especial. O que as pessoas me dizem, o que me contam, a reação que têm com os meus livros. Acho estranho que alguém que faça determinado tipo de trabalho, que inevitavelmente seja para um público, não queira saber qual o efeito que isso tem, não queira comentar. Acho até mal-educado. Por isso, quando alguém me aborda pela impressão que os meus livros lhe causaram, eu fico sobretudo grato. Todos sabemos o que implica pararmos a sobrevivência do dia-a-dia, conseguirmos gerir isso ao ponto de nos permitirmos reservar horas, às vezes por vários dias, para ler um livro. Por isso, alguém que o faça por um livro meu merece o meu respeito. E, de alguma forma, merece a minha atenção.


Os romances são de tal maneira violentos na minha vida [...] que confiscaram a poesia

Tem lançado sobretudo romances. E a poesia em que pé é e que está?
A poesia está disseminada pelos romances. Foi confiscada por eles. Os romances são de tal maneira violentos na minha vida, tornaram-se tão importantes no meu quotidiano, que confiscaram a poesia. Por isso, ela existe, continua a fazer muito sentido na minha vida - talvez seja mesmo o eixo fundamental da minha consciência literária -, mas vai misturada com as personagens, com os enredos e com o aparato da ficção.

E como tem gerido, no meio disto tudo, a sua banda, a "Governo"?
A banda está muito "geringonçada". Foi o primeiro governo "geringonça" do país. Mas vai funcionando. Os meus colegas têm muita vontade de prosseguir. Estamos a alterar algumas canções para que sejam menos agudas, porque a minha voz está mais grave.

Mais "grave e sério", como no verso de Camões?
Mais grave e velho. Já não tenho a voz de rouxinol dos meus 19 anos. Mas estamos a fazer uns ensaios. Temos muitas canções novas. Dá-me sempre vontade de mudar as coisas todas, de fazer outras letras, porque fico muito farto das minhas. Gosto das canções mas não gosto de estar sempre a cantar a mesma coisa. Gostava de ter letras novas para cada dia, para cada ensaio. Seria interessante que alguém tivesse a paciência de escrever letras todos os dias.


Acho que as pessoas [nas Caxinas] gostam de mim. Mas gostam sem me ligarem nenhuma

O Valter é cada vez mais conhecido, aparece muito na comunicação social. O relacionamento nas Caxinas tem acompanhado esse mediatismo?
Nas Caxinas estou sossegado. As pessoas não me ligam nenhuma desde sempre. Acho que gostam de mim, mas gostam sem me ligarem nenhuma. Aliás, esta é uma das formas mais interessante de gostarmos de alguém, que é deixarmos a pessoa em paz. Ando para lá de um lado para o outro. Sinto-me tão invisível nas Caxinas que nem me penteio quando vou para a rua. Posso sair de pijama que ninguém vai reparar. E isso é muito confortável. Para alguém que pode ter alguma visibilidade, viver num lugar onde não sente o peso dos olhares, não sente o peso do juízo, não é policiado, é um privilégio. Então, eu adoro as Caxinas. Adoro o facto de não se importarem muito comigo.

Portanto, também nem repararam que agora usa barba?
Se calhar não repararam que sou eu. Devem pensar: "quem é este velhinho com uma barba grisalha, tão fofinho?" Devem achar que sou giro mas não percebem de facto que sou o Valter. Há pessoas que ainda não estão habituadas a este visual e que, quando as cumprimento, não me reconhecem. Tenho de lhes dizer quem sou.


Se eu soubesse que ter esta barba criava esta imagem, teria barba desde os meus 16 anos


Têm-lhe dito que a barba lhe fica bem?
Exatamente por isso. As pessoas estavam habituadas a que eu fosse feio. Não estão preparadas para a minha beleza de agora. Estou há dois anos e tal com esta barba e nunca mais a tiro. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Se eu soubesse que ter barba criava esta imagem, teria barba desde os meus 16 anos. Tinha-me poupado a todos os traumas da adolescência. Tenho um ódio às 'gilettes' que me enganaram a vida toda. Pensava eu que estava a fazer uma grande coisa cortando a barba e, de repente, tenho assim uma certa síndrome de George Cloney. Sou aquele tipo de homem que em velho fica lindo. O que é bom. É ótimo. Mais vale ser lindo em velho do que nunca mais ser. Então, agora, eis que chegou a minha vez.

O visual deu-lhe outro estatuto, é isso?
Tem sido uma coisa incrível a reação das pessoas. Sinto inclusive algum efeito nas coisas mais pragmáticas. Por exemplo, entro numa loja e agora mostram-me as coisas boas. Antigamente qualquer zurrapa servia para me mostrarem. Hoje não. Mostram-me logo as coisas boas.

Falando em dinheiro. Vive-se bem da escrita?
Não. Mas eu tenho a sorte de viver e de não ser mau. Mas isso também acontece porque não me sujeitei a uma mudança drástica de hábitos. Não compro carros, por exemplo, não mudei de restaurantes. Os restaurantes onde vou são, provavelmente, os mesmos a que ia quando tinha 23 anos e os meus pais me davam 10 euros para gastar em quatro dias. Por isso, sou mais ou menos disciplinado. E um felizardo. Diria até que sou um privilegiado no sentido em que posso viver dos direitos de autor. Sei que num país pequeno como o nosso, em que fazer sucesso diz respeito a quantidades muito circunscritas, chegar-se um pouco ao estado em que estou é absolutamente gratificante.

20 ANOS DE EDIÇÕES
Para celebrar os 20 anos de livros de Valter Hugo Mãe, a Porto Editora preparou dois grandes eventos. As iniciativas, que duram todo o dia, acontecem no Porto e em Lisboa. Domingo, véspera da publicação do livro, a Casa da Música, no Porto, recebe o primeiro evento, que contará com a participação de figuras como Teresa Salgueiro, Ana Deus ou Adolfo Luxúria Canibal, para além de diversos académicos de diferentes proveniências e ainda de momentos dedicados às crianças. A 8 do mesmo mês, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, o evento, que tem contornos semelhantes aos da iniciativa do Porto, contará com nomes como Márcia, Ana Bacalhau ou Pedro Lamares.




Valter Hugo Mãe: “Não gostei da minha adolescência, não aconselho a ninguém”
De jovem perdido a um dos autores portugueses mais bem sucedidos. Valter Hugo Mãe publicou o primeiro livro há 20 anos. Numa entrevista de vida, recorda como deixou a advocacia e encontrou um caminho.

No princípio era a poesia. Desde que era um menino de oito anos, de camisola de lã castanha, a viver em Paços de Ferreira. Aos 25 anos, já caxineiro de coração e de morada, Valter Hugo Mãe publicou a sua obra de estreia, Silencioso Corpo de Fuga. Hoje, o autor não gosta do que lê naqueles primeiros poemas editados. Mas foi a materialização desse livro que o fez acreditar que podia ser bom em alguma coisa. Foi há 20 anos.
Antes dessa descoberta, teve de suportar uma adolescência solitária. Jura que destruiu todas as fotografias suas desse tempo, porque era “horroroso”, tinha a cara “cheia de espinhas” e, por baixo delas, um ar desalentado, de quem não era feliz. Aos 17, ainda corava se uma rapariga bonita lhe dirigia a palavra. Quem diria que, em 2007, esse mesmo rapaz teria coragem suficiente para saltar completamente nu de um carro, num domingo à tarde, em plena Avenida da Liberdade de Braga, para uma sessão fotográfica. Os olhos que não se cruzaram com a cena insólita nesse dia podem sempre pousar na capa do livro Pornografia Erudita. Lá está Valter Hugo Mãe, nu, num livro lançado pouco antes de vencer o Prémio José Saramago, que mudaria tudo.
Entre o mais antigo livro e o mais recente, Homens Imprudentemente Poéticos, que a Porto Editora faz sair na segunda-feira, 3 de outubro, muita coisa aconteceu. Valter Hugo Lemos, o homem por detrás do pseudónimo, fez em setembro 45 anos de idade. Nada mau para quem dizia que ia morrer antes dos 40, sem qualquer maleita a justificar o palpite. Ultrapassada a meta, agora diz ao Observador acreditar que “daqui a 20 anos” já está morto. O facto de ter nascido em Angola após a morte de um irmão tornou a morte um tema presente. Ter tido como prenda de aniversário uma gripe também não ajuda. “Não lido nada bem com a ideia de perder capacidades”, assume.
O pai morreu há 16 anos. Não tem problemas em admitir que é um menino da mamã, D. Antónia, com quem passeia de mão dada pelas ruas. No capítulo da família falta-lhe o filho que há já alguns anos não esconde que gostava de ter. “Há coisas que não acontecem”, diz, resignado. Este domingo, a mãe do escritor deverá estar na Casa da Música, no Porto, para assistir a um dia inteiro de programação que pretende celebrar os 45 anos de vida do filho, mais os 20 anos de edições literárias. A apresentação do livro propriamente dita acontece às 17h30, com sessão de autógrafos posterior. As celebrações estendem-se ao Teatro S. Luiz, em Lisboa, no dia 8 de outubro.
Além dos livros, o homem que, em 2012, venceu o Prémio Portugal Telecom para melhor romance do ano, com A Máquina de Fazer Espanhóis, também pinta e canta. Os últimos anos não lhe permitiram continuar com a banda Governo, que formou com dois músicos dos Mão Morta, por causa de uma lesão nas cordas vocais provocada por um grito. Mas Valter está melhor e em breve deverá ser submetido a uma pequena cirurgia, que o obrigará a um voto de silêncio. “Depois desses 30 dias, em princípio volto a ser um rouxinol”.
04:23
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Há pouco, nos intervalos entre fotografias, aproveitou cada segundo morto para cantar. Os livros são a sua vida, mas a música também foi e é importante, com uma face mais visível chamada Governo, que formou com dois músicos dos Mão Morta e com quem chegou até a atuar em Paredes de Coura. Tem saudades de cantar?
Tenho. O que aconteceu foi, segundo o otorrino, que terei dado um berro qualquer e fiz uma lesão nas cordas vocais em que desenvolvi um pólipo. A partir desse instante fui enrouquecendo, perdi os meus agudos. Eu estava muito surpreso com a elasticidade vocal que tinha — e que não sabia que tinha, foi com a banda que eu acabei por percebê-lo –, por isso tenho muitas saudades. De vez em quando ainda ensaiamos, mas fazemos uma espécie de versão para velhinho das músicas que temos. Retiramos-lhes o ar mais circense, de funambulista. Neste momento, sou uma espécie de memória de uma voz interessante.
Noto que está muito menos rouco.
Estou muito melhor, fiz terapia da fala, tenho estado a disciplinar a respiração e, sobretudo, nunca mais gritei. Nem chamo por alguém se o vir na rua. Se vir alguém com quem quero muito falar, sou incapaz de gritar neste momento. Vivo com essa dimensão um pouco frustrante porque é incapacitante, no sentido em que parece que nos retiram a liberdade de expressão, até de festa. Enquanto as pessoas cantam todas os parabéns eu canto uma oitava abaixo, fico a fazer de baixo. Pareço aquele indivíduo que veio para assustar [risos].
Disse-me que os Governo têm ensaiado. Faz parte dos vossos planos regressarem ao ativo?
A ideia é, eventualmente durante 2017, gravarmos uma série de canções novas. Por isso, tenho de continuar com esta disciplina, com esta terapia. Devo começar a ser seguido por um novo otorrino porque estou a ser mais ou menos encaminhado para a hipótese de fazer uma operação, que é uma cirurgia mínima em que retiram esse pólipo, digamos assim. Terei de ficar 30 dias sem falar e, depois desses 30 dias, em princípio volto a ser um rouxinol.
Sem falar nem cantar. Como é que se sente em relação a isso?
Pode ser uma disciplina interessante, essa do silêncio obrigatório. Pode ser que eu aprenda… Eu sou um observador, de qualquer maneira. Talvez consiga regressar a um estádio de pura fruição, porque não poderei protagonizar praticamente nada e, por isso, serei um espectador.

Valter Hugo Mãe revelou ao Observador que, depois de uma paragem devido a problemas graves nas cordas vocais, a banda Governo que fundou com dois membros dos Mão Morta vai voltar. © Paulo Pinto / D.R.
É um homem de letras, com vários livros publicados em diferentes géneros literários, mas também letras escritas para canções e para peças de teatro. Há quem diga que uma imagem vale mais do que mil palavras. Talvez seja exagerado, mas há de facto uma imagem icónica na sua carreira: a da capa do livro de poesia Pornografia Erudita, em que surge em nu integral. Como é que isto acontece?
Esse tempo da minha vida é muito mudador. Eu necessitava… Eu fui obrigado a uma mudança e necessitei de mudar ainda mais, ou seja, de reenquadrar a minha vida e de reencontrar as minhas forças. Creio que tomei algumas atitudes que tinham que ver com a manifestação de personalidade, de solidificação da minha individualidade, da minha solidão. Aparecer nu na capa de um livro não deixa de ser agressivo, e se é agressivo talvez seja uma agressão a alguém, mas era uma agressão que eu necessitava, era assim um protesto que eu precisava de fazer. Como se eu me estivesse a reapossar da minha inteireza. Como se eu tivesse decidido: “Pertenço apenas a mim, faço apenas o que eu quiser fazer e, por isso, devo obedecer apenas ao pudor que a minha ética me impõe.”
O livro saiu em 2007, pouco antes de vencer o importante Prémio José Saramago.
É um tempo em que tudo na minha vida entra em convulsões e eu proponho-me estar preparado para entrar em outra fase da minha vida. E de facto outra fase começou. Eu não saberia qual, não poderia estar exatamente à espera que acontecesse assim, mas aconteceu e fiquei muito grato. Foi muito feliz. Eu só gostava de ser mais atlético para estar melhor na fotografia porque, de resto… Talvez se eu fosse mais atlético as pessoas iam tramar-se porque iam ver-me nu mais vezes. Acho que complicamos demasiado coisas que são atributos perfeitamente naturais, aquilo que tem de ver com a pura natureza. Por isso, não devemos permitir que a cultura, por mais esplendorosa que seja, nos destitua da natureza. Eu gosto dessa fotografia. Só gostava de estar mais bonito.

A capa do livro de poesia “Pornografia Erudita” foi como que um grito, uma manifestação de personalidade de que Valter Hugo Mãe ainda hoje se orgulha.
O que é que na sua vida entrou em convulsão?
Eu tinha deixado de ser editor na Quasi, andava meio à deriva. Os meus romances tinham sido publicados [O Nosso Reino, em 2004, e O Remorso de Baltazar Serapião, em 2006] mas sem um sucesso comercial a assinalar. Os livros só começaram a vender mais depois do Prémio Saramago e hoje vão vendendo sempre, mas aquela altura antes do Prémio havia um sucesso na crítica, havia um carinho da crítica inclusive, mas não havia muito público. Eu até compreendia isso, porque não entendo os meus livros como sendo propriamente fáceis, como sendo sucessos óbvios e, por isso, estava perfeitamente apaziguado com o facto de ser um autor menos conhecido, menos bem sucedido no que diz respeito ao aparato das vendas.
Mas, ao mesmo tempo, a minha vida estava meio estagnada. Eu achava que precisava de encontrar um emprego que fosse viável, porque tinha deixado de ser editor fazia já dois anos. Precisava de cair na real. Das duas uma: ou virava um trabalhador convencional, funcionário de alguma coisa, ou então outra coisa qualquer. Exatamente ao mesmo tempo da publicação da Pornografia Erudita, enviei vários currículos, aproximei-me de várias pessoas, deixando saber que estaria à procura de um emprego qualquer. Claro que queria muito estar dentro do universo da cultura mas, na altura, nenhuma porta se abriu, curiosamente. Enquanto fui coeditor na Quasi, publicámos talvez 400 títulos, em quatro ou cinco anos, desde o Caetano Veloso ao Mário Soares, da Adriana Calcanhoto ao António Ramos Rosa. Publicámos mesmo muita gente. E a sensação que se tem quando se ocupa um cargo destes e se trabalha com gente deste nível é a de que temos amigos, e que, se de repente precisarmos de alguma coisa, conhecemos as pessoas, elas sabem como trabalhamos e isso talvez nos abra alguma porta, talvez suscite o interesse de alguém. A verdade é que não. Foi uma coisa que me marcou muito, essa fratura, porque eu lembro-me bem que assinei o contrato de venda da minha parte na Quasi a 14 de dezembro de 2004. O meu primeiro romance tinha saído em setembro.
Saiu para se dedicar à escrita?
Não, eu e o Jorge Reis-Sá é que não nos entendíamos mais. Sobretudo, ele entendeu que não dava mais porque eu, de alguma forma, achava que o projeto era precioso, e era precioso para os dois, por isso eu nunca conseguiria tirar-lhe aquilo.
Tirar-lhe a hipótese de tornar a Quasi mais comercial, é isso?
Eu até aceitei, nós editámos algumas coisas muito mais comerciais, que eram típicas talvez das preferências do Jorge. Talvez não seja justo dizer as preferências, mas tinham que ver com a ansiedade que o Jorge tinha de ter uma empresa de sucesso, o maior sucesso possível. E a minha postura na vida era muito diferente, tinha mais que ver com o poder pagar as minhas contas, que, devo dizer, nunca foram muito diferentes nem naquela altura nem nesta altura, por isso o ganhar mais ou menos dinheiro nunca me levou a ter gastos mirabolantes.
"Passei a ter menos amigos, que é uma coisa que eu acho que qualquer adulto aprende depressa e eu aprendi mais devagar."
O Jorge queria dar esse passo e, para mim, não era fundamental. Em alguns momentos fomos dando, mas o ponto-chave para a minha saída foi o Jorge ter achado que eu devia sair. Quando, no meio de todas as discussões que nós tínhamos, eu acreditava que seria quase criminoso impor-lhe uma saída. O projeto era tão importante para cada um de nós que eu nunca lho roubaria. E foi tal a desilusão por ele ser capaz de me querer fora, que eu achei que inviabilizava a possibilidade de continuarmos sobretudo a ser amigos.
E saí. Mas saí morto. Absolutamente destruído de desilusão e de tristeza, porque deixava um projeto pelo qual dei tudo, e que em pouco tempo tinha trazido à minha vida uma alegria e uma sensação de realização profundas. E por isso, quando saí, mais trágico se tornou perceber que, a partir do dia 14 de dezembro, praticamente só a minha mãe me ligava. Enquanto até ao dia 13 de dezembro eu por vezes tinha de esconder o telefone, porque não conseguia cinco minutos de uma conversa direta com ninguém, porque a cada cinco minutos tinha alguém a telefonar-me e a dizer que me adorava, e que queria que eu jantasse, ou almoçasse, ou fosse de férias, ou fizesse fosse o que fosse.
Ficou um vazio.
De repente, todas essas pessoas desapareceram. Com o tempo, algumas voltaram. E, quando digo algumas, digo quatro ou cinco. As outras 800 pessoas que faziam parte daquela rotina desapareceram completamente.
Que lição é que fica disso? Neste momento imagino que o seu telefone toque de cinco em cinco minutos. Passou a ficar de pé atrás com as pessoas?
Fiquei só a perceber que… Por exemplo, quando alguma pessoa desocupa um cargo, é despedida de alguma coisa, é nesse momento que eu me aproximo mais. É nesse momento que eu me disponibilizo e agradeço à pessoa o que ela fez por mim. Porque senti que foi isso que talvez me tenha magoado mais, as pessoas não terem percebido que, durante aqueles anos, eu estive profissionalmente ligado a elas mas que também me envolvi de uma forma amiga, fui sobretudo um amigo. E pronto. Passei a ter menos amigos, que é uma coisa que eu acho que qualquer adulto aprende depressa e eu aprendi mais devagar.
Ainda tenho algumas confusões, mas não me arrependo rigorosamente de nada, ou seja, aqueles anos na Quasi parecem-me assim uma encarnação anterior, porque a fratura, o corte com o que vem a seguir na minha vida é tão gigante, o facto de todas aquelas pessoas, gente que eu admirava muito, terem desaparecido substancialmente da minha vida dá a sensação que eu tive de recomeçar a partir de um outro referencial, como se de repente precisasse de gostar de outras pessoas, porque as pessoas de quem eu tinha gostado não souberam, ou não me quiseram, acompanhar. Eu acho que as pessoas têm uma ideia pobrezinha dos outros. Têm tendência para achar que quando alguém falha em algum momento, quando alguém sai de algum projeto que é bem-sucedido, como era naquela altura a Quasi, as pessoas devem ter achado que eu me destruí por algum motivo e que por isso eu seria inválido dali para a frente. Provavelmente muita gente, e uma ou duas pessoas até me disseram isso, achavam que nunca mais se ouviria falar de mim. Hoje em dia é tão engraçado que o que se fala de mim é bastante para a maior parte das pessoas nem sequer saber que eu algum dia fui editor na Quasi. A importância que a Quasi teve na minha vida, comparada com o que os meus livros hoje importam para mim, é uma importância quase residual.
"Eu posso entrar no restaurante que quiser, mandar vir o que quiser e não fico preocupado. A questão é que eu vou sempre ao mesmo restaurante. Vou ao mesmo a que ia quando era miúdo. Não mudei de hábitos. Por isso, eu faço, compro e gasto as coisas, basicamente, que gastava quando contava os tostões."
Em 2006 criou outra editora, Objecto Cardíaco, mas faliu. Envolve-se em várias iniciativas mas, retirando tudo isso, consegue viver bem só da escrita dos seus romances e da sua poesia?
Consigo.
Será um caso raro em Portugal.
Sou um caso raro. Mas é como digo, não sou deslumbrado. Uma vez o Herman José perguntou-me: “O menino agora já pode ir jantar ao restaurante sem olhar para a ementa?” Posso. Eu posso entrar no restaurante que quiser, mandar vir o que quiser e não fico preocupado. A questão é que eu vou sempre ao mesmo restaurante. Vou ao mesmo a que ia quando era miúdo. Não mudei de hábitos. Por isso faço, compro e gasto as coisas que gastava quando contava os tostões. E não é uma questão de avareza, é porque, pura e simplesmente, o que me preocupa na vida não é uma espécie de escalada de marcas ou de produtos, ou seja do que for. Se eu conseguir fazer uma boa fotografia com um casaquinho de 35 euros, provavelmente não me vão ver a comprar casacos de 500 ou 600 euros.
Voltando à fotografia, ao seu grito, já antes tinha andado nu pela Avenida da Liberdade em Braga, em plena luz do dia, não foi?
Foi por causa dessa fotografia. Só que as fotografias que eu fiz na Avenida da Liberdade não ficaram bonitas, digamos. Não é que aquela tenha ficado particularmente bonita, mas as de Braga não eram interessantes. Eu fiquei com um andar de pato, porque estava nervoso — eu ando um pouco com os pés à Charlie Chaplin –, e a única fotografia que era minimamente legível e que tinha algum interesse, eu estava com os pés um para cada lado e estava-me a rir. Era ridículo, porque de repente saltei de um carro, completamente nu, para o separador central da Avenida da Liberdade, era domingo, estava tudo em passeio, as pastelarias cheias, as pessoas começaram todas a apontar o dedo e eu comecei-me a rir! Não consegui manter-me sério [risos]. Então a fotografia, enquanto obra de arte, ficou imprestável. Mas foi uma experiência que eu aconselho grandemente às pessoas, a de andarem nuas na Avenida da Liberdade em Braga.
Isso não é atentado ao pudor?
Não. Atentado ao pudor é bater-se nas crianças, roubar e fazer-se mal, essas coisas assim que a gente vê no YouTube. Aquilo que o YouTube normalmente não mostra é que é a natureza. O que o Facebook e o YouTube não gostam é que tenhamos uma dimensão natural, prefere que sejamos todos sinteticamente padronizados.

© Foto cedida ao Observador por Valter Hugo Mãe
Cresceu e ainda vive no Norte de Portugal. Mas nasceu em Angola, na cidade de Henrique de Carvalho (atual Saurimo), de onde saiu com dois anos e meio. Tem alguma memória de lá?
Não. O que acontece é que fui criando uma ficção com aquilo que ouvia contar, porque saí de lá com dois anos. Há cerca de três anos voltei lá, fui ver a terra onde nasci. Tirei milhentas fotografias e quis muito incluir uma de Saurimo porque aquilo que muito marcou nesta visita foi a maneira como as pessoas me pediam, ansiosamente, que as fotografasse. A impressão que elas têm é que o visitante que as fotografa, e que transporta as fotografias para fora dali, permite que eles, de algum modo, viajem. É a viagem de que eles são capazes, uma ilusão de serem reconhecidos por outros povos, de serem encontrados por outros povos. Isso é muito impressionante porque é transversal a toda a gente em Saurimo, e que contrasta grandemente com o que acontece depois em Luanda. Na capital já não podemos sequer olhar para as pessoas, que elas ficam ofendidas.
Em Saurimo somos acolhidos, somos celebrados como visitas e, se tivermos uma máquina mão, toda a gente nos pede, da criança ao mais velho, para os fotografar. Fiquei muito impressionado com o mercado, que é muito precário mas, ao mesmo tempo, muito festivo. Em que as pessoas, que não têm praticamente nada, expõem uma boa disposição e uma alegria que é muito difícil para nós descodificarmos. Temos incomensuravelmente melhores condições de vida do que eles e não fazemos aquela festa na rua. Não temos uma autorização para a alegria.
Porquê? Culpa da herança católica?
Culpa de tudo. Desta predação financeira em que vivemos, da necessidade de trabalharmos até velhinhos, da necessidade de tudo ser pago. Tudo quanto poderia ser considerado, e é, vital para a nossa vida devia ser disponibilizado tendencialmente de forma gratuita. E estamos num processo inverso. Tenho pena porque, no fundo, em Angola eles vivem naquela miséria mas procuram e acedem a muita coisa selvagem, digamos assim. Habitam ou, sobretudo, sobrevivem nessa dimensão não comercial. Não é que eu esteja contra a comercialização das alfaces para fazer salada, mas é pena que compremos as alfaces e não consigamos ser felizes. E eles têm de arranjar maneira de andar quilómetros para arranjar as alfaces e conseguem ser felizes com isso.
Qual é a memória mais antiga que tem da sua infância?
É de um dia muito especial. Lembro-me do 25 de Abril de 1974, embora tivesse dois anos e meio.
Então tinha acabado de chegar a Portugal?
Exatamente nessa altura o meu pai estava de férias e tinha vindo passar uma temporada, creio que três meses, a Portugal e a França. Nós tínhamos estado um mês em França e tínhamos chegado cá uma semana antes do 25 de Abril, creio. Nesse dia, o meu pai tinha uma reunião no Banco de Portugal, em Lisboa, porque ele era funcionário bancário em Angola e estava a tratar de um pedido de transferência para Portugal.
Ele já tinha percebido que o clima social e político podia mudar muito em breve?
Nada, nada, não sabíamos de nada. A minha família estava de férias.
Então se foram apanhados cá de férias, nunca mais voltaram à cidade de Henrique de Carvalho, à vossa casa?
Nós nunca regressámos. Ficou tudo lá. A minha relação com Angola tem muito de imaginário porque não havia quase nada, nunca tivemos a casa com bonecos de pau-preto ou marfins, não havia nada. Só pouquíssimas fotografias, um colar da minha mãe e uma moeda, talvez. Coisas que a minha trazia com ela. E as fotografias que existem, raríssimas, foram enviadas pela minha mãe aos meus avós. Como esta que eu trouxe do batizado.


Em 1974, a família veio de férias a Portugal e apanhou a Revolução, pelo que não mais voltou a Angola. Ficou lá tudo. Valter Hugo Mãe só tem duas fotografias desse tempo. © Foto cedida ao Observador
Voltemos então à sua memória do 25 de Abril.
O que acontece nesse dia foi que, como o meu pai tinha a reunião no Banco e eu era muito pequeno, acompanhei os meus pais na viagem de carro. Contam-me que os meus avós maternos também terão ido. Eu não me lembro deles nesse dia mas lembro-me de estar a brincar num parque de diversões ao lado do Banco de Portugal e de o meu pai aparecer subitamente dizendo que ouviu tiros. Fizemos a viagem a noite inteira e não se ouviu rádio, por isso ninguém se apercebeu do que estava a acontecer naquele dia. O meu pai então aparece, e disso eu lembro-me, aflito, gritando que havia uma guerra, e a minha mãe a tomar-me no colo e a correr aflita comigo. Lembro-me de haver um escorrega e um menino com quem eu estava a brincar, e de essa aflição súbita de termos de fugir porque havia uma guerra.
É engraçado que a sua primeira memória seja o início da democracia.
Tenho um certo orgulho, porque com a minha idade ninguém se lembra de onde estava, não é? E eu de alguma forma sei. Uma vez escrevi um texto dizendo que era o dia em que a minha cabeça nasceu, porque a minha memória mede-se desde esse dia para cá. Nasci com a liberdade.
Tem duas irmãs e um irmão mais velho. Houve um irmão que não conheceu, Casimiro, que morreu antes de o Valter nascer. Foi muito mimado por causa disso?
Não, não, não, acho que não. A minha família é unida e presente, mas acho que até esse mito do filho mais novo é um pouco injusto porque muitas das vezes o mais novo é o que está mais distante das urgências da família. O que acontece é que a diferença de nove ou 10 anos que vai de mim para a minha irmã mais velha fez com que ela estivesse muito mais atempada com os assuntos dos meus pais, e que fosse muito mais solicitada do que eu. Os filhos mais novos são deixados a um certo abandono de crescimento, porque se supõem crianças durante muito mais tempo pelos pais, os pais deixam-nas infantis mais tempo.
Teve uma infância e uma adolescência felizes?
Mais ou menos. Na infância as crianças são capazes de ser felizes com qualquer coisa, não é? E eu fui. Acho que encontrava ali uns pontos, umas possibilidades. Mas, pelo facto de ter perdido um irmão antes de nascer, aquela presença dessa ausência, para uma criança, era muito forte. Fazerem-nos visitar um túmulo era muito forte. Eu tive sempre uma certa tendência trágica. Mas como tinha uma prova de que a verdadeira tragédia era outra coisa, como por exemplo a morte concreta do meu irmão, sempre achei um motivo para continuar, ou seja, tive sempre uma visão disfórica, ou desconfiada, da vida, no sentido em que tenho uma certa desconfiança da alegria profunda. Ao mesmo tempo também não fico quieto, não sou nada passivo, não me deixo abater no sentido de entrar em depressão. Posso entristecer com coisas piores que a vida me traz, mas não sou depressivo. Muito pelo contrário, curo-me como uma espécie de lucidez, como um alerta. Por oposição à infância, tive uma adolescência mais estranha. Não gostei da minha adolescência, não aconselho a ninguém.

Com sete ou oito anos, pouco antes de se mudar de Paços de Ferreira para as Caxinas, em Vila do Conde. © Foto cedida ao Observador por Valter Hugo Mãe
Numa entrevista à Ler, em 2013, descreve uma adolescência muito insegura até para a idade.
Foi muita insegura.
Disse: “Eu achava que ia morrer virgem, que era tão feio que nunca ninguém me tocaria…”
Era.
“…achava que nunca arranjaria emprego, que levaria milénios para aprender a fazer alguma coisa”. Achava que ia morrer cedo. “A minha vida só começou a fazer sentido mais tarde.” Porquê este sentimento trágico?
Nem sei como é que não morri. Tudo era uma demora, tudo o que eu queria não havia, não se fazia.
O que é que queria, o que é que lhe faltava?Não tinha dinheiro para comprar as coisas que eu queria, não tinha livros, não podia viajar, eventualmente não tinha amigos, não tinha os amigos certos, não entendia muito bem as pessoas… Eu queria estudar coisas que não se ensinavam na escola, queria falar de coisas mais profundas, achava os miúdos da minha idade muito infantis, não conseguia identificar-me com os da minha idade. Dava-me bem com velhinhos, sempre fui o amigo favorito dos pais e das mães de todos os meus amigos, porque, se calhar, quando ia a casa deles tinha melhores conversas com os pais deles do que com os meus amigos.
Sentia-se deslocado.
Sentia-me completamente desfasado de quem era e de quem era obrigado a ser. Era como se a vida me obrigasse a estudar uma palermice na escola e eu queria ler livros incríveis, muito mais enriquecidos. Aquilo que me propunham parecia-me quase destituído, como se fosse para burros. Então, a minha adolescência foi muito descasada de tudo. Muito solitária. Por isso é que acabou por ser insegura, porque, a dada altura, a gente fica com a sensação de que a culpa é nossa e de que somos imprestáveis. Se o comum dos cidadãos faz qualquer coisa e alegra-se com isso, porque é que eu não conseguia divertir-me com as mesmas coisas? Parecia que estava à espera que começasse outro tipo de Humanidade.
A insegurança física também fazia parte do problema? Das fotografias que me trouxe, passa dos oito anos para a idade adulta.
Sim, destruí tudo, era horroroso, cheio de espinhas!
Não guardou mesmo nenhuma fotografia da sua adolescência?
Não. Infelizmente, há uma amiga que deve ter montes de fotos minhas. Mas eu qualquer dia vou lá e roubo-as. Eu era muito desajeitado, tinha um ar muito desalentado. Não é que hoje tenha um ar mais entusiástico, mas eu hoje sei que sou uma pessoa resolvida e propensa à felicidade. Quando me vejo com 13, 14, 15 anos, vejo-me tão desalentado que acho que são fotografias muito tristes. Não gosto delas.
Quando é que a sua vida começou a fazer sentido?
Talvez ali depois do curso. Durante o curso já comecei a poder encontrar e a poder definir coisas. Um curso universitário já permitia um embate mais ideológico e superior, em que, de repente, mesmo que as pessoas fossem ainda meio imaturas, estavam mais obrigadas à maturidade. Nem que fosse por obrigação, era esperada uma outra conduta, uma outra conversa. Mesmo os próprios estudos, porque estudar Direito é muito aliciante ao nível das teorias. Eu gostava muito de toda a dimensão teórica do Direito.
"Estava condenado a ser um advogado sofredor, sempre a ser enganado pelos seus próprios constituintes. Foi muito melhor começar a publicar poesia."
Como é que a criança e o adolescente que queria ler livros incríveis acaba a ler o código civil? Não teria sido muito mais natural ir logo estudar Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, que foi o que estudou a seguir?
Os livros na sua perspetiva mais processual são chatos. Mas os fundamentos teóricos do Direito são verdadeiramente a grande disciplina humana que é importante estudar. Por isso, a teoria, a filosofia do Direito, o sabermos porque é que é razoável vivermos organizados numa forma de Estado, porque é que é legítimo existir um Estado. Tendencialmente deveríamos ser bichos à solta. Porque é que nascemos subjugados a um determinado sistema? Porque é que aceitamos, ou somos obrigados a aceitar, um determinado sistema? A fundamentação deste tipo de questões é muito interessante.
Ao curso da Universidade Moderna seguiu-se o estágio. Como é que correu?
Eu gostei de fazer o estágio. Mas foi um pouco desconchavado porque eu já não queria muito a prática do Direito. Percebi que mudar o mundo a partir do Direito ser-me-ia muito difícil. Queria muito influir de uma forma benigna na vida das pessoas, mas era complicado porque o aparato, o teatro do Direito, digamos assim, é muito formal. É muito burocrático, cheio de hierarquias que, na maioria das vezes, a verdade é tão cerimoniosa que acaba por ser meio desumana. É como se precisássemos de aceitar a ignorância como fazendo parte da Justiça. E a mim custava-me muito. Aquilo que eu sei, sei, aquilo em que acredito, acredito. Se passar a acreditar noutra coisa, passo a acreditar noutra coisa. Custa-me muito dizer que gosto de alguma coisa que não gosto, ou dizer que foi alguém que roubou quando eu sei que não foi…
Viu-se em situações em que teve de mentir?
Não. Na verdade eu acreditei sempre nas pessoas, as pessoas é que me mentiam muitas vezes. Tive o caso de um senhor que partiu o nariz à vizinha. Apareceu-me a chorar, muito arrependido, eu quase chorei com ele no tribunal, e disse-lhe: “O senhor só precisa de dizer isso ao juiz, que está muito arrependido e vai pedir desculpa à senhora.” E ele só me pedia: “Ajude-me, ajude-me!” Quando chegou lá dentro, admitiu ao juiz que partiu o nariz à vizinha e que partiria outra vez. Não tinha nada cara de choro e eu senti-me completamente defraudado. Senti-me o pior dos advogados porque não sabia nem quem era a pessoa que eu estava a defender, não entendi nada daquilo. Quando o juiz pediu que eu argumentasse, eu disse: “Olhe, peço que se faça justiça.” Apetecia era dizer “peço que você lhe parta o nariz também”, mas era advogado dele e não podia solicitar isso [risos]. Aliás, não podia promover agressões físicas a ninguém.
A fraude foi tão grande, senti-me tão desmontado, que percebi que lidar com um caso concreto nem sempre é para mim. Porque diante das pessoas eu sou muito crédulo. Se as pessoas me disserem uma coisa eu não me gasto a duvidar. Talvez seja a minha postura na vida: como normalmente respondo ao que me perguntam, presumo que me digam também a verdade. Estava condenado a ser um advogado sofredor, sempre a ser enganado pelos seus próprios constituintes. Foi muito melhor começar a publicar poesia.
Quando é que começou a escrever?
Muito cedo, era um menino. Antes de saber o nome das coisas já eu escrevia, já tinha poemas antes que alguém me falasse de poemas. E escrevia pequenas histórias. A partir da publicação do meu primeiro livro de poesia, aos meus 25 anos, há alguma coisa em mim que parece entrar numa categoria de conquista, de realização. Como se eu deixasse de ser aquela espécie de patinho feio à deriva. Como se, de repente, eu pensasse: “Pronto, posso não ser grande coisa, mas um estropício enjeitado por absoluto também não devo ser. Foi aí que eu comecei a perder um bocado a vergonha, deixei de corar quando as meninas falavam comigo — que eu com 17 anos corava. Se fosse uma menina bonita eu ficava atrapalhadíssimo, não sabia o que responder. As miúdas bonitas são terríveis, porque ficamos atrapalhados [risos]. Acho que os livros, as histórias, as ficções, as personagens acabaram por me explicar que toda a gente tem os seus anseios e creio que os livros me ofereceram uma espécie de igualdade.

Valter Hugo Mãe conseguiu publicar o primeiro romance pela editora Temas e Debates, em 2004. Depois, passou pela QuidNovi e Objectiva. © Ricardo Castelo / Observador
Como é que se dá a publicação desse primeiro livro?
Isso acontece perto do fim do curso, eu já estava a começar o estágio quando sai o livro, creio. Fui a Coimbra porque tinha lá umas pessoas amigas, alguém sabia que eu gostava muito de poesia e disse-me que havia uma pequena livraria numas galerias da Rua da Sofia que só vendia poesia. Eu fui lá, comprei um livro porque não tinha dinheiro para comprar dois e havia lá uma moça com quem fiquei a falar durante duas horas. No fim da conversa ela perguntou-me se eu escrevia poesia. Eu tinha gostado tanto de conversar com ela, porque ela gostava tanto de poesia, que não tive coragem de lhe mentir e disse que sim. Ela perguntou-me se os podia ler e eu pensei: bom, eu vivo em Vila do Conde e ela em Coimbra, talvez não seja muito perigoso expor-me porque, se ela não gostar, eu não vou ter de a ver todos os dias. Talvez eu nunca mais venha a Coimbra.
Quando cheguei a casa, fiz um esforço suplementar para rever os meus poemas e organizei assim uma espécie de livro, com um título, e enviei-lhe. Em dois dias, ela telefonou-me a dizer que tinha gostado muito e que gostava de publicar. Eu fiquei muito confuso porque não tinha percebido que ela não era só empregada na livraria. Ela era a dona da livraria que também era uma pequena editora de poesia, chamada A Mar Arte. A senhora chama-se Elsa Ligeiro e publicou os meus dois primeiros livros. Dos quais eu hoje não gosto, mas que foram fundamentais para que eu pudesse acreditar que alguma coisa aconteceria na minha vida. Porque eu nunca procuraria uma editora. Eu sonhava com os outros poetas, imaginava como seria incrível a vida deles, mas nunca sonhei isso para mim, porque achava que estava tão distante… Eu era tão improvável para conseguir qualquer coisa que nunca teria a arrogância de sonhar com algo tão grande.
Na primeira Granta Portuguesa afirmou que a nudez física que estampou no livro Pornografia Erudita nunca será tanta quanto a que experienciou na poesia. Porquê?
A poesia é horrível, conta tudo. É malcriada.
Não conta também um bocadinho nos seus romances?
Mas nos romances ninguém percebe nada, eu digo que é a tia não sei das quantas e as pessoas sabem lá se aquilo é uma transfiguração ou se é uma máscara, não é? Agora a poesia, mesmo que nós queiramos inventar uma personagem, as pessoas leem aquilo como sendo autobiográfico. Então, a maior palermice surreal que não significa nada, as pessoas acham que aquilo é o nosso pensamento mais profundo, e por isso é terrível.
Mas para se sentir despido é porque disse verdades…
Claro, porque disse coisas, misturo coisas e, às vezes, as coisas mais terríveis são as verdadeiras e as mais discretinhas só estão ali para confundir. As pessoas normalmente acreditam mais depressa nas discretinhas, porque acham sempre: “Não… Ele nunca diria aquilo.” É interessante esse jogo mas, ao mesmo tempo, ao fim de uns anos é esquisito, porque nós mudamos muito. Eu fiz 45 anos e por isso estou mais velho do que alguma vez achei que algum dia fosse.

"Dava-me bem com velhinhos, sempre fui o amigo favorito dos pais e das mães de todos os meus amigos" © Ricardo Castelo / Observador
Costumava dizer que não chegava aos 40 anos. Por esta altura já leva cinco anos de bónus…
Já estou com cinco anos de bónus para lá de todas as promessas de morte. Com 45 anos uma das coisas que percebo hoje é que o que as pessoas me fizeram há 10 anos, de bom ou de mau, é algo que fica absolutamente no passado. Não corresponde necessariamente a nada do presente. Significa o quê? Que alguém que foi terrível comigo há 20 anos pode ser hoje uma pessoa encantadora.
Chateia-o ter eternizado isso na poesia, é por isso que não gosta?
Exatamente. E aborrece-me de vez em quando olhar para poemas que manifestam uma espécie de culpa minha ou culpa dos outros, ou tristeza minha ou tristeza dos outros, ou alegria minha ou alegria dos outros, que não existe mais, que não faz mais sentido, que eu julgava que fosse uma coisa perene, identitária, e que, afinal, era só uma circunstância de época. Por isso, os poemas parece que se desatualizam e a poesia não se deve desatualizar. Talvez a minha má relação com a minha poesia neste momento tenha que ver com isso, com achar que os poemas se desatualizaram como se estivesse a falar de coisas absurdas que perderam o sentido. Uma das provas, por exemplo, é a montanha de poemas que dediquei a pessoas, eventualmente em 100 dedicatórias que fiz talvez só 10 é que eu mantenha e 90 eu pasmo. Penso assim: “Mas como é que eu dediquei isto a este estafermo?”
Por exemplo?
Pessoas que estão para lá… Algumas sabem, pessoas que se zangaram comigo, que me roubaram dinheiro, que me roubaram coisas, que me roubaram livros, que me agrediram.
Que o agrediram?!
Sim sim… Houve pessoas que me roubaram dinheiro, por exemplo. E que me roubaram livros em casa.
Amigos?
Não, se fossem meus amigos não me tinham roubado livros. Primeiras edições maravilhosas que eu tinha de pessoas que me deram, de autores de sonho, e de repente desaparecem-me de casa porque outras pessoas mos levaram. E eu penso assim: isto é possível que me aconteça?
Tentou resolver essas questões com as pessoas?
Não, envelheci. E tenho outros livros lindos.
Então os poemas afinal podem ser um bom ajuste de contas…
Agora eu devia escrever uns poemas a dizer quem é que me roubou os livros. É triste porque a gente envelhece e… Eu não guardo propriamente rancor. Há aquela tristeza no tempo. Mas muitas vezes sinto uma alegria profunda quando sei — ou porque as reencontro ou porque alguém me conta — que se encontraram na vida, que se apaziguaram com as suas próprias sortes e que hoje têm um papel na sociedade bonito. Porque eu sei que são boas pessoas. Gosto disso, compreendo e, no fundo, fico sempre à espera que o mesmo tenha acontecido a todas as pessoas menos simpáticas que eu conheci.
Falar em agressões é muito forte. Tem algum exemplo concreto?
São coisas normais. Eu quando saí da Quasi, por exemplo, houve um poeta que publicou um livro numa outra editora, de quem eu era amigo, de quem gostava profundamente, eu telefonei-lhe várias vezes. Ele lá me atendeu e eu disse: “Quero muito o teu livro.” Ele prometeu que me enviava e nunca me enviou. O livro era de edição limitada, eu percebi naquele momento que ele não enviou e fiquei estupefacto, porque era alguém que eu tinha na minha vida com alguma intimidade, embora fosse um poeta que eu editasse. Porque é que ele não me enviou o livro e porque é que ele decidiu pura e simplesmente eliminar-me da vida dele? Acho que ele deve ter pensado que eu, tendo saído da editora, morreria 15 dias depois e por isso nunca seria um empecilho na vida dele. Foi o Vasco Gato.
O Vasco Gato é inclusive amigo de muitos meus amigos, tanta gente diz que ele é uma pessoa tão querida, tão querida. Eu fui profundamente amigo do Vasco Gato, na altura ele entrou na Quasi porque tinha um livro na Assírio & Alvim à espera de ser editado há mais de um ano e a notícia que ele tinha é que o livro levaria outro ano para ser editado. Eu conversei que o Jorge Reis-Sá, o Jorge aceitou, liguei ao Vasco e disse: “Vasquinho, como sabes nós gostamos muito de ti, gostamos muito do que tu escreves, se tu me deixares editar o teu livro de poemas novo eu prometo que numa semana o livro está impresso, por isso não vais esperar um ano, esperas uma semana. Ele entusiasmou-se, disse que ia fazer um telefonema e ligou para o Manuel Rosa. O Manuel Rosa lá o desvinculou, eu editei o livro do Vasco Gato numa semana, passando por cima de todos os planos editoriais que pudéssemos ter, passando por cima de todas as pessoas que estariam à espera de ter um livro editado na Quasi e com quem estávamos comprometidos. Em menos de sete dias o livro estava impresso e estava nas mãos do Vasco. O empenho que eu tive com o Vasco, que é um exemplo só, foi mais do que profissional, foi um empenho pessoal, foi um empenho de alguém que se abeirou dele como amigo. E foi um empenho meu, embora fôssemos dois na editora, o que se passou com o Vasco passou-se comigo, foi uma coisa pessoal, minha.

Foi editor na Quasi Edições, de Famalicão, mas saiu em rutura com Jorge Reis-Sá em 2004. © Ricardo Castelo / Observador
Por isso, quando em 2004 eu saí, ele edita um pequeníssimo livro chamado Lúcifer de edição limitada, talvez de 100 exemplares, não sei, e eu ligo-lhe para o telemóvel várias vezes e ele não me atende. Quando me atende eu digo: “Vasco, como estás?”, porque para todos os efeitos eu tinha dele a imagem de um amigo. Digo-lhe: “Eu quero o teu livro, ainda por cima eu sei que é edição limitada, eu quero um, eu compro, eu isto ou aquilo, seja o que for, mas eu quero ter o teu livro.” Ele disse-me: “Ah sim, mas são poucos exemplares.” E eu percebi. Eu não conseguia acreditar que alguém que supostamente era meu amigo também, e por quem eu tinha tido um gesto pessoal de cuidado e de empenho, não conseguia acreditar que me estivesse a negar um livro. Eu não estava dentro das 100 pessoas a quem ele reconhecia uma importância bastante, e isso é uma coisa…
Eu saí da Quasi há 12 anos, vi o Vasco para aí há 7 anos pelo canto do olho e, claro, fiz de conta que não o vi. Agora toda a gente me diz que ele é um bom rapaz. Mas também é verdade que um amigo nosso sabe desta história e que lha contou e que ele nunca foi capaz de pegar no telemóvel ou escrever um e-mail e dizer assim “olha Valter, tens razão, neguei-te a porcaria de um livro de 7,50 euros”.
E agressões físicas, houve?
Houve casos de uns empurrões porque às vezes confronto as pessoas, se as vejo digo: “Olha, mas tu é que não sei quê, não sei quantos?” O Albano Martins por exemplo era um poeta que eu editava, eu saí da editora e nunca mais me disse nada. Uns anos mais tarde viu-me e começou aos berros comigo, ele e a mulher dele. E ela assim a dar-me no ombro como a quem, “você nunca mais disse nada”, e eu assim “eu é que nunca mais disse nada? Eu escrevi uma carta a dizer que me afastei da Quasi, não me lembro de receber uma resposta”. Eu enviei uma carta às pessoas dizendo “muito obrigado por terem trabalho comigo, não estou mais ao serviço desta editora, continuarei por cá, o meu telefone é este como vocês sabem, qualquer coisa que precisem, avisem”. Não me lembro de o Albano Martins me ter escrito uma carta de resposta.
Talvez ele não tenha recebido, às vezes há mal entendidos.
Recebeu recebeu, pelo correio e recebeu por e-mail. E falou sobre o assunto com o Jorge. Como eu era o editor dele e era eu que tratava dos livros dele, ficou-lhe muito mal não me ter dito assim “olha, espero que estejas bem, e obrigado por me teres aturado e me teres editado os livros”. Que inclusive, só davam prejuízo.
Vem aí um livro com ajustes de contas, como alguns que têm marcado a rentrée literária este ano?
Não, é esta entrevista. Nunca disse isto a ninguém. Mas olha, fica dito, eles estão aí vivos, podem-se defender.
Às vezes são mal-entendidos de simples resolução…É, mas é o suficiente para, por exemplo, nunca mais ter conseguido pegar num livro do Vasco Gato. Não me sinto bem a pegar, lembro-me daquele desprezo e já não me sinto bem. Tenho pena porque temos muitos amigos em comum, claro, o circuito da poesia é mínimo. Quem gosta de poesia em Portugal são meia dúzia de pessoas e por isso encontramo-nos todos. Ainda no outro dia, comentando com o Pedro Lamares, ele me dizia: “O Vasco Gato é das pessoas que eu mais amo em Lisboa, das pessoas com quem mais estou”. Lamento, e eu adoro o Pedro Lamares, sou muito amigo dele.
"Não [acredito em deus]. Já tive convicções, mas agora acho que não. Acho que seria até indecente haver vida após a morte."
Numa entrevista à Actual, em 2011, admitiu que ‘roubou’ a ideia das minúsculas ao Al Berto. E que, quando sonhou ser poeta, sonhou ser como ele. O que é feito desse sonho?
Não deixei de ter o sonho de ser um poeta como o Al Berto. Eventualmente os meus romances dão a poesia que eu faço e até acho que o Al Berto até pudesse gostar dos meus livros e pudesse ter respeito por isso. Ainda conheci muito epifanicamente o Al Berto e ele foi muito cuidadoso comigo, teve muita atenção. Fascinava-me pela sua tragicidade, era um poeta que conversava sobre o que escrevia sobre um desalento profundo, e isso inspirava-me muito, marcava-me muito, identificava-me muito com ele. Claro, a forma como eu digo que, em miúdo, sonhei ser como ele não significa que eu tivesse de ser exatamente o Al Berto, não estaria em causa ser um substituto de ninguém, mas sim ser quem sou.
A crítica literária recebeu muito bem o seu romance de estreia, O Nosso Reino, de 2004. Houve, no entanto, muitas perguntas sobre o porquê de ter abolido as maiúsculas nos seus textos. Ainda há quem reaja ao seu nome exclamando “ah, o escritor das minúsculas”, embora agora elas estejam presentes. Lamenta ter afastado leitores mais puristas da ortografia, que dizem não conseguir lidar com a sua antiga escrita? Ou isso não tem qualquer relevância?
Não, não posso lamentar o que faço por convicção. Seria como lamentar aquilo em que eu acredito. Proporciona-me outras experiências, não significa que tenha deixado de acreditar nas coisas que fiz. Fiz uma tetralogia, o ciclo fechou-se e proporcionou-se começar outra coisa, estar disponível para ser outra pessoa e tanto quanto possível, outro escritor.
Além da confusão das minúsculas, um escritor da sua geração, João Tordo, contou-me que, no princípio, havia quem ficasse confuso com o seu nome. E que houve uma vez que o convidaram para uma conversa e puseram duas cadeiras em palco: uma para o Valter Hugo e outra para a Mãe.
Aconteceu muitas vezes as pessoas acharem que eu ia acompanhado com a minha mãe, bem no inicio, do tempo da poesia. Ate mesmo em reservas de hotel, às vezes eu chegava e tinha dois quartos. Era muito estranho, somos um país tão conservador que nem nos nomes estamos preparados para alguma diversidade. Aconteceram várias peripécias cómicas porque as pessoas não estavam preparadas, mas depois descobri que há uma senhora, uma artista coreógrafa, que nunca cheguei a encontrar, mas que se chamava Rosa Mãe. E julgo que no caso dela o apelido era de família.
O Nosso Reino é uma história muito marcada pela culpa e a fatalidade da religião. O Valter teve uma educação católica. Acredita em Deus? Na vida após a morte?
Não. Já tive convicções, mas agora acho que não. Acho que seria até indecente haver vida após a morte.
Porquê?
Porque se houvesse alguma coisa, devia ser-nos explicada devidamente. O mistério perante algo tão grande é um pouco obsceno, a não ser que Deus tenha criado isso e tenha morrido. Porque se ele anda aí, sabe disso e não diz, é um pouco perverso.

Em 2007, recebeu o Prémio Saramago das mãos do próprio Nobel da Literatura. © D.R.
Em 2007 venceu o Prémio José Saramago, com o seu segundo romance, O Remorso de Baltazar Serapião. Contou-me que ele lhe deu um conselho: “não faças o que os outros te pedem”. Tem conseguido segui-lo?
Não. Às vezes faço o que os outros me pedem. Nada que me destitua de ser quem sou, mas algumas coisas que eventualmente vão devorando a minha natureza para tentar corresponder ao que me é pedido. Por exemplo, às vezes tenho de executar tarefas, ou fico comprometido porque tenho de prestar favores e tenho de adiar a escrita dos meus livros, ou vou adiando a imersão do meu mundo porque estou a fazer apresentações de livro ou prefácios a que não consegui dizer que não, ou a compor alguma coisa para uma revista ou um jornal que não consegui negar, ou a fazer uma viagem que não me convinha fazer mas com a qual me comprometi. As pessoas ao longo dos anos vão criando laços connosco e criam laços até de gratidão. Por vezes o facto de estarmos ligados com alguém implica que tenhamos tarefas com isso, tenhamos a agenda completa. Tenho cada vez mais a urgência de desaparecer. Se repararmos, alguns dos autores mais expostos acabam por se tornar autores escassos, fazem duas entrevistas extensas, mas não fazem todas as entrevistas, não fazem senão uma apresentação pública.
É tempo de dar um passo atrás na exposição pública?
Sinto que preciso de disciplinar isso, sim. Que já é fundamental na minha vida o ter de dizer que não, de definir um período no qual estou disponível para conversar e fazer as promoções e corresponder aos pedidos de bibliotecas e imprensa. Preciso depois de me fechar outra vez, de regressar a um quotidiano, de regressar à família, aos amigos, estar em casa e regressar às minhas leituras.
Com um prémio com tanta visibilidade, as solicitações multiplicam-se. Depois do Prémio Saramago veio O Apocalipse dos Trabalhadores, entre a tragédia e a comédia, depois A Máquina de Fazer Espanhóis, carregado de tristeza, depois surge então O Filho de Mil Homens, onde já se nota alguma alegria, em 2013 chega A Desumanização, mais seco. O que esperar agora de Homens Imprudentemente Poéticos?
Para mim, este livro reflete um pouco sobre a ternura da inimizade. Tem que ver com uma certa conquista do convívio com o inimigo, não propriamente derrotar o inimigo, mas aprender a ter o seu convívio, criar um apaziguamento com os nossos antagonistas.
Pode explicar-me o significado do título?
Não gostaria de esgotar o título. Os meus títulos são sempre pistas, ou são formas de criar uma certa curiosidade. Não gosto que o título se explique, gosto que o título seja um patamar de conquista do leitor. Por isso o livro vai fornecer a cada leitor uma completude maior ou menor para cada um. Há pessoas que leem os meus livros e nem sequer encontraram o titulo dentro do livro. Há sempre uma pagina onde eu me dirijo diretamente à expressão do título, mas há pessoas que na vertigem da leitura não deram conta. É como se ele de alguma forma desafiasse o leitor a construir a sua própria definição.
Quando lança um livro novo, há leitores que percorrem as páginas para tentarem estabelecer paralelos entre a ficção que escreve e a sua vida. Que paralelismos prevê que as pessoas possam vir a fazer neste novo livro?
Não tem correspondência. Se quiserem delirar para encontrar-me no meio destes japoneses, tudo bem, mas não tem um traço autobiográfico. Existirão sensibilidades, desde logo sensibilidades poéticas ou estéticas, porque são minhas e o livro tem a minha visão poética. Mas não conta nada sobre a minha vida, não explica a minha biografia, eu não estou factualmente no livro.
Porque escolheu adicionar “Mãe” ao seu nome? Em homenagem à sua mãe?
É um programa literário, um ponto de vista perante a arte, a literatura, que tem que ver com o querer aludir à literatura como um processo de conhecimento do outro. E na extremidade de quem é o outro estão as mães, a mãe é o indivíduo mais distante de quem um homem pode ser. Um homem pode assumir uma infinidade de papéis que possam tanger os papéis da mulher, mas não pode nunca chegar perto, experimentar o papel extremo da maternidade. É uma decisão que a biologia deixou como sendo das mulheres e a maternidade acaba por aludir ao individuo mais distante de quem eu sou. Isso em termos literários define a amplitude da Humanidade, define a universalidade, essa pretensão de universalidade que a literatura ou que a arte tem.
Continua a viver nas Caxinas?
A minha casa é numa espécie de topo das Caxinas, um pouco mais afastada da praia, mas foi o apartamento que eu consegui comprar pelo pouco dinheiro que eu queria gastar [risos]. Por isso, comprei um apartamento baratinho que fica a ver as Caxinas, sim, mas legalmente já não pertence. Eu pus uma placa à entrada de casa a dizer: “Esta casa também fica no coração das Caxinas”. E as minhas janelas dão para as Caxinas todas.
Não teve medo quando saiu de Paços de Ferreira e foi para as Caxinas? Era uma zona com uma fama complicada…
Era e disseram-me que eu ia ser morto e fatiado aos bocadinhos. Cheguei lá cheio de medo, até depois perder as peneiras e perceber que ninguém me fazia mal. Hoje em dia, se tiver de ser frontal como eles são, também sou. É uma excelente escola para vida nas Caxinas, nas Caxinas não há paciência para mariquices. A vida é como é e as pessoas sofrem demasiado, trabalham demasiado e sofrem demasiado. O mínimo que merecem é a dignidade de lhes dizerem a verdade, se forem para lá com muitos rodeiozinhos é que corre logo mal.

2015 começou de forma especial para Valter Hugo Mãe, que ganhou em Vila do Conde o seu retrato feito por Vhils. © Foto cedida ao Observador
Por isso é que continua a viver ali?
Por isso é que continuo a estar ali. Entendo-me bem. Ninguém me chateia, ninguém me bajula, ninguém me pede nada. Gosto de estar ali, reconheço aquilo como uma espécie de normalidade. As pessoas trabalham, saem à rua, divertem-se, falam umas com as outras e pronto, não há jogos. Comigo, pelo menos, não há jogos estranhos, aproximações estranhas, insinuações estranhas. Não sinto nos caxineiros a capacidade de dizerem de mim uma coisa pela frente e dizerem outra por trás. Se eles não gostarem de mim, dizem-me na cara. Não mandam recado nem infernizam a vida da minha mãe, por exemplo. Eu fui para o centro de Vila do Conde, onde tive uma casa durante um tempo, mas pirei-me logo dali. Eu ia com a minha mãe na rua e perguntavam-lhe se ela era minha esposa, quem era ela. Achavam estranhíssimo eu andar de mão dada com a minha mãe na rua.
A propósito do livro: foi ao Japão? Disse-me que gostava das coisas diretas, sem mariquices, à moda das Caxinas. No entanto, essa frontalidade está nos antípodas da cultura e da mitologia japonesas, tão presentes no seu livro. No Japão, raramente se diz não e há que saber ler os silêncios. Evita-se o conflito ao máximo.
Estive no Japão duas vezes, fiz as perguntas que devia fazer, visitei um artesão, visitei uma floresta dos suicidas, fiz uma certa observação, com este livro a acontecer. Nao tenho de viver com essa forma de ser japonesa, mas atrai-me essa distinção. O Japão, o que tem de esplendoroso é um certo esplendor da cordialidade. Acho que a grande lição do Japão é essa, podermos ser antagónicos, contrários ao outro, mas termos aprendido a capacidade de o respeitar. E esse respeito pelo oposto, como o respeito pelo inimigo, para mim é uma lição. de vida.
"Acho que daqui a 20 anos já estou morto. Tenho pouca convicção de ser longevo, de vir a ter uma vida muito extensa."
É frequente vê-lo a si e à D. Antónia a passearem de mão dada aqui pelo Porto. Pode dizer-se que ela é o amor da sua vida?
É, num certo sentido é. A minha mãe fez muito por nós, resistiu muito por nós, conseguiu segurar quatro filhos sem ter estudos, só com a terceira classe. Acho que o que a minha mãe passou, tendo perdido um filho e tudo, merece que nós a protejamos e que a celebremos enquanto ela pode aproveitar as coisas. Eu adoro ir com a minha mãe e oferecer-lhe coisas, por exemplo. Se calhar não compro para mim algo mais caro mas, para a minha mãe, se eu puder, não me custa nada pagar. Talvez seja verdade que eu gaste mais dinheiro com ela do que comigo. Ver a minha mãe bem, protegida, faz-me melhor do que estar eu bem. E, hoje em dia, talvez seja mais eu que tenha de tomar conta dela do que ela conta de mim.
E outros amores, teve muitos?
Não, sou um indivíduo muito rejeitado, solitário, abandonado.
No período da adolescência, acredito. Mas hoje em dia?
Sim, mas as pessoas hoje aproximam-se de mim muito iludidas, têm uma imagem externa de mim. Mas depois se calhar acham que a minha vida é só poeminhas e coisinhas sensíveis. E depois não é.
Há algum sonho que tenha abandonado?
Creio que não. Se o tive, talvez ainda o tenha, se é alguma coisa que não esteja consumada, ainda venha a ser. A menos que seja a vontade de aprender línguas estranhas, adoraria aprender árabe, mas sei que não vou aprender árabe. Vamos tomando consciência de que talvez a vida não nos possa proporcionar esse empenho, não será mais possível que eu possa disponibilizar largos anos a aprender essa língua.
No passado fim de semana completou 45 anos. Lida bem com o passar do tempo, da idade?
Não, não lido nada bem. Não gosto da ideia de ter 45 anos e sentir que não fiz tudo quanto me apetecia ter feito aos 30 ou aos 20, e estar de alguma forma cansado e sentir o corpo alterado, sentir o corpo cada vez mais contra mim, mais exigente, chamando-me a atenção, como se de repente o corpo fosse um assunto quotidiano. Quando se tem 20 anos o corpo não é um assunto, usamo-lo sem respeito, sem necessidade de manutenção e de meditação. Aos 45 anos o corpo já exige atenções profundas, e a tendência será ir piorando. Não lido nada bem com a ideia de perder capacidades e de perder tempo.
Mantém o sonho de ainda vir a ser pai? Há alguns anos que verbaliza esse desejo.
Mantenho.
Porque é que ainda não conseguiu realizá-lo? Percebeu tarde que queria ter um filho?
Não aconteceu, pronto. As coisas são assim. As vidas das pessoas vão passando e há coisas que não acontecem. Como podia ter emigrado e não emigrei, como fui escritor e não funcionário público. Talvez gostasse de ter sido professor, achei sempre que fosse a profissão mais lógica para mim, sentir-me-ia muito bem trabalhando na formação dos alunos, dos mais jovens, sempre achei que teria muita vocação para esse papel, de ajudar na formação das pessoas. Mas a vida vai-nos mostrando outras opções e acabamos por ser quem somos mais do que quem julgávamos que íamos ser.
Se isto fosse uma entrevista de emprego, perguntava-lhe onde se vê daqui a 20 anos.
Acho que daqui a 20 anos já estou morto. Tenho pouca convicção de ser longevo, de vir a ter uma vida muito extensa.
Sara Otto Coelho, Observador, 2016-10-02, http://observador.pt/especiais/valter-hugo-mae-nao-gostei-da-minha-adolescencia-nao-aconselho-a-ninguem/