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sexta-feira, 24 de março de 2017

Um quarto dos poemas é imitação literária



Um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da
magnificência do mundo
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na
pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro

Herberto Helder (in Servidões, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013; Poemas Completos, Porto: Porto Editora, 2014)
Poema dito por Fernando Alves (TSF-Rádio Notícias, maio de 2013)
  
[…] apesar de ser «dos poetas mais lidos e assimilados, porquanto a marca da sua presença aparece nas mais variadas obras dos autores mais variados, e com uma assiduidade que chega a tornar-se maçadora» (Maria Estela Guedes), Herberto Helder «não tem antes nem depois, apesar de muitos o tentarem imitar» (Joana Emídio Marques); «Não há na poesia portuguesa pós-Pessoa nenhum poeta que tenha exercido um tal poder de atração e gerado tantos epígonos. E nenhum mais absolutamente impossível de imitar com proveito» (Luís Miguel Queirós); «Nos grandes poetas, ela [a imitação] tende para o impossível, ou então é insuportavelmente trôpega. (…) Essa impossibilidade de imitar valiosamente aquilo que mais apeteceria imitar é quase um sinal indubitável da soberana realidade de uma poesia» (Paulo Tunhas).
Sobre tudo isto, Herberto Helder disse, com um requinte, uma subtileza e uma precisão descritiva (e digo-o sem exagero nem ironia) que não está ao alcance de todas as inteligências: «Quanto mais contrabandeado, melhor se verá nele a força natural da singularidade» (prefácio a Uma Faca nos Dentes).
João Pedro Jorge, “Herberto Helder: sociologia de um génio”, Observador, 2015-04-08.





Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada
já posso dizer tudo.
Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que algum pouco depois
estarei morto
e só de o pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já só vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.
E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do quanto alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno
e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo.
 
Herberto Helder (in Servidões, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013; Poemas Completos, Porto: Porto Editora, 2014)
Poema dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em maio de 2013)

quinta-feira, 23 de março de 2017

O que faz de um poema... um poema?


Dando-se o caso de se tratar de um poema, o que é que nele é poesia?

Publicado a 20/03/2017
What exactly makes a poem … a poem? Poets themselves have struggled with this question, often using metaphors to approximate a definition. Is a poem a little machine? A firework? An echo? A dream? Melissa Kovacs shares three recognizable characteristics of most poetry.
Lesson by Melissa Kovacs, animation by Ace & Son Moving Picture Co., LLC.

terça-feira, 21 de março de 2017

Jorge de Sena - Carta a um jovem poeta





Meu caro jovem poeta
Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.
De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.
Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.
Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & C.a? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência… Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.
A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.
Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.
Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de monstro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.
Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província)

Jorge de Sena

*

Datada de 29 de agosto de 1966, esta 'carta' foi enviada ao poeta Walmir Ayala (1933-1991), para uma antologia temática que permanece inédita (Cartas aos jovens poetas brasileiros).
O texto foi publicado pela primeira vez no JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias, de Lisboa, a 10 de novembro de 1981, p. 5
A Correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena (3. ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010) nos traz alguns dados sobre o texto, a seguir transcritos.
De Lisboa, a 27 de junho de 1966, escreve Sophia: "Do Brasil vim com a incumbência de reunir colaboração portuguesa para o volume organizado pelo Walmir Ayala. O Walmir Ayala vai incluir "uma carta a um jovem poeta" que a Cecília Meireles deixou inédita. Encarecidamente lhe peço para este volume a "sua carta a um jovem poeta". Creio que é a primeira vez que no Brasil se publica um livro escrito simultaneamente por portugueses e brasileiros. A ideia parece-me óptima." (p.99)
Do Wisconsin, a 30 de agosto de 1966, responde Sena: "Só agora me foi possível compor a carta que me é solicitada pelo seu convite e do Walmir Ayala. Aqui lha mando — é uma coisa muito amarga e muito rude, mas por certo temperará o conjunto. Espero que lhe agrade como sincera coisa minha" (p.102).

http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/escritos-pessoais/carta-a-um-jovem-poeta/

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O mais importante na vida, por António Botto


António Botto


O mais importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.


António Botto (1897-1959), "O mais importante" in Canções (1920)





Manuela de Freitas in «Poemas de Bibe» [em parceria com Mário Viegas] (1990)
Tradução para inglês de Fernando Pessoa em: «Songs» (1930) / Translation by Fernando Pessoa
Música: Bernardo Sassetti (1970-2012), "Inocência - Movimento I"



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

El Bosco


O Jardim das Delícias Terrenas, tríptico de Hieronymus Bosch
   Vídeo do grupo musical Bosco em homenagem ao pintor Hieronymus Bosch. O poema de Rafael Alberti "El Bosco" sobre os detalhes de "O Jardim das Delícias" que inspiraram o poeta. Duas obras primas de dois grandes artistas, frente a frente (09/09/2016):





A ti, fingida realidad del sueño.
A ti, materia plástica palpable.
A ti, mano, pintor de la Pintura
Rafael Alberti




El Diablo hocicudo,
ojipelambrudo,
cornicapricudo,
perniculimbrudo
y rabudo,
zorrea,
pajarea,
mosquiconejea,
humea,
ventea,
peditrompetea
por un embudo.

Amar y danzar,
beber y saltar,
cantar y reír,
oler y tocar,
comer, fornicar,
dormir y dormir,
llorar y llorar.
Mandroque, mandroque,
diablo palitroque,

¡Pío, pío, pío!
Cabalgo y me río,
me monto en un gallo
y en un puercoespín,
en burro, en caballo,
en camello, en oso,
en rana, en raposo
y en un cornetín.
Verijo, verijo,
diablo garavijo.

¡Amor hortelano,
desnudo, oh verano!
Jardín del Amor.
En un pie el manzano
y en cuatro la flor.
(Y sus amadores,
céfiros y flores
y aves por el ano.)
Virojo, pirojo,
diablo trampantojo.

El diablo liebre,
tiebre,
notiebre,
sepilipitiebre,
y su comitiva
chiva,
estiva,
sipilipitriva,
cala,
empala,
desala,
traspala,
apuñala
con su lavativa.

Barrigas, narices,
lagartos, lombrices,
delfines volantes,
orejas rodantes,
ojos boquiabiertos,
escobas perdidas,
barcas aturdidas,
vómitos, heridas,
muertos.
Predica, predica,
diablo pilindrica.

Saltan escaleras,
corren tapaderas,
revientan calderas.
En los orinales
letales, mortales,
los más infernales
pingajos, zancajos,
tristes espantajos
finales.
Guadaña, guadaña,
diablo telaraña.

El beleño,
el sueño,
el impuro,
oscuro,
seguro
botín,
el llanto,
el espanto
y el diente
crujiente
sin
fin.
Pintor en desvelo:
tu paleta vuela al cielo,
y en un cuerno,
tu pincel baja al infierno.

Rafael Alberti Merello (1902-1999)


   
Guillermo de Torre llama 'onomapinturas' (1970, 732) a estos recursos neologísticos graciosos y grotescos, es decir, onomatopeyas que no tienen por objeto imitar sonidos de la naturaleza sino evocar particularidades pictóricas, traduciendo adecuadamente la forma de volver pictórica la poesía.
No sólo en los neologismos destaca la combinación de dos motivos pictóricos dispares e insólitos (perniculimbrudo, peditrompetea, mosquiconejea) que representan verbalmente las caricaturescas combinaciones que pululan en los cuadros de El Bosco, es también el ritmo precipitado y sin aliento de los versos el que acierta a reflejar la atmósfera ajetreada y confusa tan típica de los cuadros del pintor flamenco. Experimentamos realmente una “transpoetización” en el sentido de que el poeta es capaz de verter en signos fonéticos, semánticos y métricos lo que el pintor realizó con sus invenciones de formas y colores. Además nos hace sentir el desasosiego y el ambiente de angustia y amenaza que caracteriza muchos cuadros de El Bosco, impregnados, sin embargo, siempre de un deje de ironía y caricatura.

"La líricopintura. Sobre las interferencias entre lírica y pintura", Kurt Spang, Impossibilia Nº3, págs. 233-245 (abril 2012)






Poderá também gostar de colecionar figuras de Hieronymus Bosch:

‘Tree Man’ By Hieronymus Bosch From ‘Garden of Earthly Delights’

Devil On Night Chair ‘by Hieronymus Bosch from ‘Garden of Earthly Delights’

‘Blue Flutist’ by Hieronymus Bosch

‘Bird With Letter’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Monster’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Freak with Beard’ by Hieronymus Bosch

‘Choir’s Devil’ from ‘John at Patmos’ by Hieronymus Bosch

Bird Monster with Castle Body’ by Hieronymus Bosch

‘Fish With Tower’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Fat Belly with Dagger’ by Hieronymus Bosch

‘Helmeted Bird Monster’ by Hieronymus Bosch from ‘Garden of Earthly Delights’

Bird in Blue Egg
http://dangerousminds.net/comments/collectable_hieronymus_bosch_figurines

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

INSÓNIA


Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê…

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos

Caspar David Friedrich, "O viajante sobre o mar de névoa", 1818



O primeiro sofredor de insónia de que a literatura ocidental nos dá conta é nada menos que Zeus. Já por aí se pode inferir que o problema não escolhe as suas vítimas consoante a sua dignidade ou importância, mas toca a tod@s. Tanto sofre de insónia o bilionário deitado na sua cama em Park Avenue como o pobre no seu covil. No início do Canto II da Ilíada, a insónia de Zeus tem, ainda, uma característica amarga que todos os insomníacos conhecem: é tão desesperante sentirmos a meio da noite que, no mundo inteiro, a única pessoa que não está a dormir somos nós. Sobretudo se estamos deitados na cama ao lado de alguém que está a dormir – como no caso de Zeus, mais uma vez, no referido episódio da Ilíada.
No entanto, se olharmos para a literatura grega no seu todo, vemos que a insónia (γρυπνία) nem sempre é vista em termos exclusivamente negativos. A insónia é sentida como dádiva grata para aqueles que se dedicam à arte da palavra. O facto de o poeta não conseguir dormir de noite é um bom motivo para se sentar à luz da candeia, a burilar e aperfeiçoar os seus versos. Uma poeta do século III antes de Cristo saúda o aparecimento do grande poema de Arato sobre astros e constelações como fruto da insónia do poeta. Para se escrever poesia que valha a pena, é preciso queimar as pestanas. A mesma ideia aparece muitos séculos mais tarde no filme Rich and Famous de George Cukor, quando Jacqueline Bisset no papel de uma escritora diz “if your writing doesn’t keep you awake all night it won’t keep anyone else awake either”.
Na literatura grega mais tardia – já da época cristã – os padres do deserto elogiam muito essa graça divina que é a insónia, já que alegadamente nada faz melhor à alma do que privar o corpo de sono. Esta ideia, formulada por João Clímaco na sua Escada do Paraíso, não é obviamente partilhada pela psicologia moderna, que vê a coisa pela perspectiva contrária: nada faz tanto mal à alma como não dormir. O sono é fundamental.
Uma das razões pelas quais os padres do deserto desaprovavam o sono tinha a ver com a vulnerabilidade do cérebro humano a imaginações eróticas quando é abraçado pelos braços de Morfeu. Todos os pensamentos que conseguimos afugentar ou recalcar durante o dia são como melgas que esperam apenas que adormeçamos para logo atacar. Claro que não cabe aqui um relato de todos os sonhos eróticos que já tive na minha vida (felizmente esquecem-se com uma facilidade enorme), mas quantas e quantas vezes não acordei estarrecido com o facto de ter sonhado ter ido para a cama com alguém cuja atracção erótica à luz do dia nunca se me impusera. Estes sonhos são especialmente incomodativos para pessoas que de dia negam a sua verdadeira orientação sexual, dado que, no mundo do sonho, não é certamente com mulheres que sonha o gay recalcado, casado e pai de filhos. Para homens que procuram viver um quotidiano de castidade por razões de índole religiosa (ou porque são padres ou monges ou porque optaram, enquanto leigos, pela castidade), haverá fases das suas vidas em que a insónia – como modo de escapar a desagradáveis sonhos sexuais – será uma amiga assaz bem-vinda.
Por isso, na sua fascinante Escada do Paraíso (escrita em grego em inícios do século VII depois de Cristo), o monge João Clímaco escreve o seguinte: “a insónia mantém o espírito puro. O monge que não dorme combate a luxúria; o que dorme, dorme com ela. A insónia é a supressão da luxúria, é a libertação das fantasias em sonho. O monge que sofre de insónia é um pescador de pensamentos: no silêncio da noite consegue apanhá-los mais facilmente”.
Ceder ao sono, neste ideário ascético, é visto como sinal de fraqueza, como incapacidade de superar as exigências do corpo, como incapacidade de lhes sobrepor as razões da espiritualidade e do intelecto. Mas, por outro lado, dormir é tão bom! Muitas vezes na minha vida me tenho insurgido contra visitas inoportunas da insónia, mas até hoje tenho optado por lidar com ela de forma amigável, sem tentar vencê-la por meios químicos. Já me aconteceu estar toda a noite na cama de olhos fechados, mas – como o pescador de pensamentos de João Clímaco – completamente acordado. E claro que já me exasperei com quem ressonava beatificamente ao meu lado. Hoje aceito que na minha idade é normal dormir menos, e esforço-me por acolher, cada noite, a presença alternada no meu quarto desses dois amigos gregos que me acompanharão até ao fim da vida: o sono (πνος) e a insónia (γρυπνία). Desde que quem durma ao meu lado não ressone, tudo bem.
(na foto: a minha cadela Thisbe claramente desagradada há muitos anos por eu estar a dormir – e ela não)

Frederico Lourenço, "Insónia",  Facebook24-11-2016



INSÓNIA

Ó retrato da morte, ó noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.

Bocage



OS ANJOS DA MEIA NOITE

PHOTOGRAPHIAS

Quando a insônia, qual lívido vampiro,
Como o arcanjo da guarda do Sepulcro,
Vela à noite por nós,
E banha-se em suor o travesseiro,
E além geme nas franças do pinheiro
Da brisa a longa voz ...

Quando sangrenta a luz no alampadário
Estala, cresce, expira, após ressurge,
Como uma alma a penar;
E canta aos quizos rubros da loucura
A febre - a meretriz da sepultura
A rir e a soluçar...

Quando tudo vacila e se evapora,
Muda e se anima, vive e se transforma.
Cambaleia e se esvai...
E da sala na mágica penumbra
Um mundo em trevas rápido se obumbra...
E outro das trevas sai...

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Então... nos brancos mantos que arregaçam
Da meia-noite os Anjos alvos passam
Em longa procissão!
E eu murmuro ao fitá-los assombrado:
São os Anjos de amor de meu passado
Que desfilando vão...

Almas, que um dia no meu peito ardente
Derramastes dos sonhos a semente,
Mulheres, que eu amei!
Anjos louros do céu! virgens serenas!
Madonas, Querubins ou Madalenas!
Surgi! aparecei!

Vinde, fantasmas! Eu vos amo ainda;
Acorde-se a harmonia à noite infinda
Ao roto bandolim ...

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E, no éter, que em notas se perfuma,
As visões s'alteando uma por uma...
Vão desfilando assim!...

1.ª SOMBRA

MARIETA

Como o gênio da noite, que desata
O véu de , rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos... Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata

O seio virginal que a mão recata,
Embalde o prende a mão... cresce, flu
Sonha a moça ao relento... Além na
Preludia um violão na serenata!...

...Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! oh palor! oh pranto! oh medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta. . .

2.ª SOMBRA

BÁRBORA

Erguendo o cálix que o Xerez perfuma.
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de Valquíria... alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, tão vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e músicas respira...
No lábio - um beijo... no beijar - um hino;

Harpa eólia a esperar que o vento a fira,
— Um pedaço de mármore divino...
— É o retrato de Bárbara - a Hetaira. —

3.ª SOMBRA

ESTER

Vem! no teu peito cálido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!
Enrola-te na longa cachemira,
Como as judias moles do Levante,

Alva a clâmide aos ventos - roçagante...
Túmido o lábio, onde o saltério gira...
Ó musa de Israel! pega da lira...
Canta os martírios de teu povo errante!

Mas não... brisa da pátria além revoa,
E ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir... e parte... e voa. . .

Qual nas algas marinhas desce um astro...
Linda Ester! teu perfil se esvai... s'escoa...
Só me resta um perfume... um canto... um rastro...

4.a SOMBRA

FABÍOLA

Como teu riso dói... como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do pássaro maldito,
Que em sânie de cadáveres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva
Um soluço de amor pungente, aflito...
Fabíola!... É teu nome!... Escuta é um grito,
Que lacerante para os céus s'eleva!...

E tu folgas, Bacante dos amores,
E a orgia que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores...

É sangue, que referve-te na taça!
É sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!

5.ª e 6.ª SOMBRAS

CÂNDIDA E LAURA

Como no tanque de um palácio mago,
Dous alvos cisnes na bacia lisa,
Como nas águas que o barqueiro frisa,
Dous nenúfares sobre o azul do lago,

Como nas hastes em balouço vago
Dous lírios roxos que acalenta a brisa,
Como um casal de juritis que pisa
O mesmo ramo no amoroso afago....

Quais dous planetas na cerúlea esfera,
Como os primeiros pâmpanos das vinhas,
Como os renovos nos ramais da hera,

Eu vos vejo passar nas noites minhas,
Crianças que trazeis-me a primavera...
Crianças que lembrais-me as andorinhas! ...

7.ª SOMBRA

DULCE

Se houvesse ainda talismã bendito
Que desse ao pântano - a corrente pura,
Musgo - ao rochedo, festa - à sepultura,
Das águias negras - harmonia ao grito...,

Se alguém pudesse ao infeliz precito
Dar lugar no banquete da ventura...
E tocar-lhe o velar da insônia escura
No poema dos beijos - infinito...,

Certo. . . serias tu, donzela casta,
Quem me tomasse em meio do Calvário
A cruz de angústias que o meu ser arrasta!. . .

Mas ,se tudo recusa-me o fadário,
Na hora de expirar, ó Dulce, basta
Morrer beijando a cruz de teu rosário!...

8.ª SOMBRA

ÚLTIMO FANTASMA

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso ...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso! ...

Onde nos vimos nós? És doutra esfera ?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?

Quem és tu? Quem és tu? - És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!

Castro Alves, Santa Izabel, agosto de 1870