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terça-feira, 18 de junho de 2019

Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo (Fernando Pessoa)

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Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo
Onde há paisagens que não pode haver.
Tão belas que são como que o veludo
Do tecido que o mundo pode ser.

Bem sei. Vegetações olhando o mar,
Coral, encostas, tudo o que é a vida
Tornado amor e luz, o que o sonhar
Dá à imaginação anoitecida.

Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento
Que ali agita os ramos em torpor
Passa de leve por meu pensamento
E o pensamento julga que é amor.

Sei, sim, é belo, é longe, é impossível,
Existe, dorme, tem a cor e o fim,
E, ainda que não haja, é tão visível
Que é uma parte natural de mim.

Sei tudo, sei, sei tudo. E sei também
Que não é lá que há isso que lá está.
Sei qual é a luz que essa paisagem tem
E qual a rota que nos leva lá.

20-09-1934
Poema publicado pela primeira vez em Novas Poesias Inéditas. Lisboa, Ática, 1973. Esp., env. 62B-25, original manuscrito a tinta; datado; não assinado.


QUESTIONÁRIO:

1. Nas três primeiras estrofes, o sujeito poético descreve um lugar idealizado.
Apresente duas características desse espaço e exemplifique cada uma delas com uma transcrição pertinente.

2. Explique o conteúdo dos versos 3 e 4 e relacione-o com a temática pessoana em evidência no poema.

3. Explicite dois sentidos das anáforas e das suas variantes (versos 1, 5, 9, 13, 17 e 19), tendo em conta o desenvolvimento temático do poema.


RESPOSTAS:

1. Apresenta, adequadamente, duas características do espaço descrito no poema, exemplificando cada uma delas com uma transcrição pertinente (Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes):
espaço de sonho/espaço da imaginação – «Onde há paisagens que não pode haver» (v. 2)/«Sei, sim, é belo, é longe, é impossível» (v. 13)/«E, ainda que não haja» (v. 15);
espaço belo, suave e acolhedor – «Tão belas que são como que o veludo» (v. 3);
espaço perspetivado como promessa de felicidade – «tudo o que é a vida / Tornado amor e luz» (vv. 6-7);
espaço propiciador da ilusão do amor – «Passa de leve por meu pensamento / E o pensamento julga que é amor» (vv. 11-12).

2. Explica o conteúdo dos versos 3 e 4 e relaciona-o com a temática pessoana em evidência no poema, abordando dois tópicos de resposta adequadamente (Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes):
a afirmação da consciência de que o espaço descrito existe apenas no sonho;
a afirmação da certeza de que o espaço descrito é um espaço de felicidade, mas também de que, sendo fruto do sonho, é inacessível;
a afirmação da consciência de que o sonho é inerente à essência do sujeito poético.

3. Explicita, adequadamente, dois sentidos das anáforas e das suas variantes, tendo em conta o desenvolvimento temático do poema (Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes):
a afirmação da consciência de que o espaço descrito existe apenas no sonho;
a afirmação da certeza de que o espaço descrito é um espaço de felicidade, mas também de que, sendo fruto do sonho, é inacessível;
a afirmação da consciência de que o sonho é inerente à essência do sujeito poético.

Fonte: Exame Final Nacional de Português. Prova 639, 1.ª Fase, Ensino Secundário. IAVE - Instituto de Avaliação Educativa, I.P., 2019. 12.º Ano de Escolaridade - Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho


domingo, 24 de março de 2019

NÉVOA, Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, Diário dos Açores, 1930-07-17, p. 1.



O poema de Fernando Pessoa que andou esquecido durante 80 anos


A nova edição da poesia em vida por Fernando Pessoa inclui pela primeira vez o poema “Névoa”, que foi publicado nos Açores em 1930 e que por lá ficou esquecido até que um investigador o descobriu.

Em 1930, Fernando Pessoa publicou num do jornal açoriano um poema até então inédito. “Névoa” apareceu junto a “Minuete Invisível”, que tinha sido apresentado pela primeira vez no primeiro (e único) número da Portugal Futurista, e a um texto de apresentação assinado pelo jornalista Rebelo de Bettencourt. Depois dessa data, o poema não voltou a ser publicado. Caiu no esquecimento, até que um investigador o encontrou, por acaso, mais de 80 anos depois. Agora, entrou finalmente para o corpus pessoano, ao ser incluído no mais recente volume da edição crítica da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM).
A única versão que se conhece de “Névoa” foi publicada na página “Letras” do Diário dos Açores, o mais antigo jornal diário do arquipélago, a 17 de julho de 1930, cinco anos antes da morte de Pessoa. O suplemento trazia um texto sobre o poeta, intitulado apenas “Fernando Pessôa”, retirado do livro O Mundo das Imagens: Crónicas, de Rebelo de Bettencourt. O jornalista açoriano, seis anos mais novo do que Pessoa, tinha participado na Portugal Futurista com um texto sobre Santa-Rita Pintor, de quem era amigo. A revista, publicada em 1917, “excedia tudo quanto em audácia e originalidade se tinha até então publicado”, de acordo com o próprio Bettencourt.
Enquanto redator principal da Lisboa Galante, Rebelo Bettencourt tinha defendido, contra Sousa Lopes, que os pintores modernistas deviam ser representados no Museu de Arte Contemporânea. Um ano antes, em 1928, tinha publicado pela editora Ressurgimento o livro de onde foi retirado o excerto usado pelo Diário dos Açores, onde descreveu a obra de Fernando Pessoa, um poeta que tinha “o dom de pensar”, como “fragmentária”. “As suas imagens são ainda pensamentos, e o próprio ritmo dos seus versos é também uma série de ideias – ideias postas em música”, referiu no texto reproduzido pelo diário açoriano, fundado em 1870.
Considerando que a personalidade de Pessoa era “tão complexa ou tão completa” que tinha de se desdobrar em Álvaro de Campos, o jornalista considerou que a obra do poeta estava praticamente esquecida, mas que “o seu espírito original e criador, a subtileza do seu pensamento” não haveriam de “morrer tão cedo”. “Antes estarão sempre, como amparo e guia, ao lado de todos quantos, sentindo na sua inteligência a necessidade quase física de ser uma outra coisa, mais completa e perfeita, nele hão-de sentir o precursor dum grande movimento e a origem duma nova vida”, declarou.

O poema que foi esquecido e descoberto por acaso

Depois da sua publicação no Diário dos Açores, “Névoa” ficou esquecido durante várias décadas, até que o investigador e editor Vasco Rosa o encontrou. Questionado pelo Observador sobre a descoberta, Rosa admitiu já não se lembrar ao certo em que circunstâncias se deparou com o poema, mas que provavelmente terá sido por causa de “qualquer pesquisa que estava a fazer na época, sobre Raul Brandão ou sobre António Dacosta”, dois autores sobre os quais tem vindo a trabalhar.
“Fui folhear anos a fio esse jornal açoriano e tendo encontrado o poema verifiquei no exaustivo inventário pessoano organizado por José Blanco que não estava identificado, e em seguida que não estava em qualquer outro livro, do Fernando Pessoa ou dos heterónimos”, afirmou o investigador, salientando que “a vantagem de se percorrerem exaustivamente publicações periódicas é que se vão encontrando curiosidades variadas, e como a imprensa açoriana é tida como periférica, a ninguém pareceu útil ir ver o que por lá havia”.
Vasco Rosa sugeriu a sua publicação aos editores da Pessoa Plural, Paulo de Medeiros e Jerónimo Pizarro, que estava então a arrancar. Foi assim que, 82 anos depois de ter aparecido nas páginas do Diário dos Açores,que “Névoa” voltou a ser publicado no n.º 1 da revista de Estudos Pessoanos editada pela Brown University, Warwick University e Universidad de los Andes. “Para mim, é sempre muito gratificante passar a outros o que lhes pode ser útil nos seus próprios trabalhos”, afirmou Rosa, que acredita que a “originalidade” do poema se deve “certamente a Armando Côrtes-Rodrigues, o amigo açoriano de Pessoa e um dos elementos de Orpheu”. Côrtes-Rodrigues, que participou nos dois números da revista modernista, terá, presumivelmente, conhecido Rebelo de Bettencourt.
Luiz Fagundes Duarte, responsável pela edição crítica dos poemas publicados em vida por Fernando Pessoa que inclui pela primeira vez “Névoa”, acredita que é “pouco provável” que uma descoberta como a que foi feita por Vasco Rosa se repita. “Pessoa já foi de tal maneira esquadrinhado que qualquer texto assinado por ele, publicado em qualquer algures, dificilmente passaria despercebido”, afirmou, em entrevista ao Observador, admitindo, no entanto, que este poema “em concreto” tinha permanecido “esquecido”. “Por isso, devemos ser cuidadosos e admitir, sempre, que o corpus pessoano, mesmo o publicado em vida, pode não estar fechado.”
O poema, na íntegra:
“A névoa involve a montanha,
Húmido, um frio desceu.
O que é esta mágoa estranha
Que o coração me prendeu?
Parece ser a tristeza
De alguém de quem sou actor,
Com fantasiada viveza
Tornada já minha dor.
Mas, não sei porquê, me dói
Qual se fora eu a ilusão;
E há névoa em tudo o que foi
E frio em meu coração.”

A primeira edição crítica dos poemas publicados em vida e da Mensagem

Desde 1988, quando foi criado o grupo de trabalho responsável pelas edições críticas da obra de Fernando Pessoa, a INCM já publicou mais de duas dezenas de livros. Desta lista não constava, no entanto, a Mensagem. A primeira edição crítica da obra foi apenas publicada pela INCM no passado mês de fevereiro, juntamente com os outros poemas que o poeta deu a conhecer em vida. A edição é de Luiz Fagundes Duarte, que coordena a coleção das obras completas de Vitorino Nemésio, publicadas pela mesma editora em parceria com a açoriana Companhia das Ilhas.
Fernando Pessoa era “um rapaz planeado” e “muito produtivo”, mas durante a sua vida só publicou 129 poemas, entre 1902 e 1935. Poemas soltos mas também alguns conjuntos, com título e coesão interna, mas compostos em momentos diferente, como explicou Fagundes Duarte na introdução do novo volume da INCM. A Mensagem, por exemplo, é composto por poemas escritos entre 1913 e, provavelmente, 1934. Isto significa que o único livro publicado pelo poeta, um ano antes da sua morte, ocupou dois terços de toda a sua carreira literária.
Isto significa que em Mensagem e Poemas Publicados em Vida é possível encontrar textos de períodos muito diferentes, que “Fernando Pessoa, num dado contexto histórico, social e estético, entendeu publicar com o seu nome”. O volume, que foi apresentado no passado dia 12 de março na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, está dividido em três partes:
  • Uma primeira, composta pelos poemas, soltos ou em pequenos conjuntos, publicados entre 1902 e 1935, ano da morte de Pessoa, “respeitando os conjuntos e a devida cronologia de publicação”, como frisou Fagundes Duarte;
  • Uma segunda, onde foi colocada a Mensagem com a sua estrutura original;
  • E uma terceira, com as traduções feitas e publicadas por Pessoa, organizadas por ordem cronológica de publicação.
Além de “Névoa”, o volume tem outras novidades. Uma delas é a publicação de cinco poemas em francês e em inglês: “Trois Chansons Mortes”, publicados na revista Contemporânea em janeiro de 1923, e “Meantime” e “Spell”, dados a conhecer na The Athenaeum (Londres), a 30 de janeiro de 1920, e na Contemporânea, em março de 1923. O livro inclui também as traduções feitas por Pessoa, nomeadamente de poemas dos uruguaios Ramón de Santiago e Alejandro Margariños Cervantes.

Rita Cipriano, Observador, 2019-03-23



     Poderá também gostar de:

Desce a névoa da montanha,
Desce ou nasce ou não sei quê...
Minha alma é a tudo estranha,
Quando vê, vê que não vê.
Mais vale a névoa que a vida...
Desce, ou sobe: enfim, existe.
E eu não sei em que consiste
Ter a emoção por vivida,
E, sem querer, estou triste.

2-9-1935
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).
  - 134.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Ode Triunfal, Álvaro de Campos

     Tem sido seleta, desde sempre, a escolha dos versos da Ode Triunfal a constar nos manuais escolares portugueses.

   Apresenta-se aqui, em vídeo e por escrito, a versão não truncada e "politicamente incorreta" da Ode Triunfal.



A célebre Ode de Álvaro de Campos encerrou a edição "Ler é Fernando Pessoa", do Bairro dos Livros, a 8 de Junho de 213, que celebrou os 125 anos do nascimento do autor de "Mensagem", com uma maratona de 125 poemas lidos e interpretados pelo actor e divulgador de poesia Nuno Meireles. Este poema, o 125º do dia, foi lido às portas da Livraria Moreira da Costa, ao final da noite, depois de mais de 6 horas de leituras públicas nas livrarias da cidade.




             ODE TRIUNFAL

1
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
2
Tenho febre e escrevo.
3
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
4
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
6
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
7
Em fúria fora e dentro de mim,
8
Por todos os meus nervos dissecados fora,
9
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
11
De vos ouvir demasiadamente de perto,
12
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
13
De expressão de todas as minhas sensações,
14
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
16
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
17
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
18
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
19
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
21
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
22
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
23
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
24
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
26
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
27
Ser completo como uma máquina!
28
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
29
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
31
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
32
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
33
Fraternidade com todas as dinâmicas!
34
Promíscua fúria de ser parte-agente
35
Do rodar férreo e cosmopolita
36
Dos comboios estrénuos,
37
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
38
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
39
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
41
Horas europeias, produtoras, entaladas
42
Entre maquinismos e afazeres úteis!
43
Grandes cidades paradas nos cafés,
44
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45
Onde se cristalizam e se precipitam
46
Os rumores e os gestos do Útil
47
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
48
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
49
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
50
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
51
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
52
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
53
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
54
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
55
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
56
Pela minh’alma dentro!
57
Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
58
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
59
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
60
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
61
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
62
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
63
De algibeira a algibeira!
64
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
65
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
66
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
67
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
68
Que andam na rua com um fim qualquer;
69
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
70
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
71
E afinal tem alma lá dentro!
72
(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)
73
A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
74
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
75
Agressões políticas nas ruas,
76
E de vez em quando o cometa dum regicídio
77
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
78
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!
79
Notícias desmentidas dos jornais,
80
Artigos políticos insinceramente sinceros,
81
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
82
Duas colunas deles passando para a segunda página!
83
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
84
Os cartazes postos há pouco, molhados!
85
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
86
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
87
Como eu vos amo de todas as maneiras,
88
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
89
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
90
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
91
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!
92
Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
93
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
94
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
95
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
96
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!
97
Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
98
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
99
Olá grandes armazéns com várias secções!
100
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
101
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
102
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
103
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
104
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
105
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
106
Amo-vos carnivoramente.
107
Pervertidamente e enroscando a minha vista
108
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
109
Ó coisas todas modernas,
110
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
111
Do sistema imediato do Universo!
112
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!
113
Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
114
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
115
Na minha mente turbulenta e encandescida
116
Possuo-vos como a uma mulher bela,
117
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
118
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
119
Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
120
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
121
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
122
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
123
Orçamentos falsificados!
124
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
125
E um parlamento tão belo como uma borboleta).
126
Eh-lá o interesse por tudo na vida,
127
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
128
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
129
E o mar antigo e solene, lavando as costas
130
E sendo misericordiosamente o mesmo
131
Que era quando Platão era realmente Platão
132
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
133
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.
134
Eu podia morrer triturado por um motor
135
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
136
Atirem-me para dentro das fornalhas!
137
Metam-me debaixo dos comboios!
138
Espanquem-me a bordo de navios!
139
Masoquismo através de maquinismos!
140
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!
141
Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
142
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!
143
(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
144
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
145
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
146
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.
147
E ser levado da rua cheio de sangue
148
Sem ninguém saber quem eu sou!
149
Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
150
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
151
Hilla! hilla! hilla-hô!
152
Dai-me gargalhadas em plena cara,
153
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
154
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
155
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
156
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
157
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
158
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
159
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
160
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
161
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
162
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
163
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
164
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
165
Nas ruas cheias de encontrões!
166
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
167
Que emprega palavrões como palavras usuais,
168
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
169
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
170
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
171
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
172
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
173
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
174
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
175
Para quem nenhuma religião foi feita,
176
Nenhuma arte criada,
177
Nenhuma política destinada para eles!
178
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
179
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
180
Inatingíveis por todos os progressos,
181
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!
182
(Na nora do quintal da minha casa
183
O burro anda à roda, anda à roda,
184
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
185
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
186
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
187
E havemos todos de morrer,
188
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
189
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
190
Do que eu sou hoje...)
191
Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
192
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
193
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
194
De todas as partes do mundo,
195
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
196
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
197
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
198
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!
199
Eh-lá grandes desastres de comboios!
200
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
201
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
202
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
203
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
204
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
205
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
206
E outro Sol no novo Horizonte!
207
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
208
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
209
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
210
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
211
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
212
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
213
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
214
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.
215
Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
216
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
217
Engenhos brocas, máquinas rotativas!
218
Eia! eia! eia!
219
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
220
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
221
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
222
Eia todo o passado dentro do presente!
223
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
224
Eia! eia! eia!
225
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
226
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
227
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
228
Engatam-me em todos os comboios.
229
Içam-me em todos os cais.
230
Giro dentro das hélices de todos os navios.
231
Eia! eia-hô! eia!
232
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
233
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
234
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
235
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
236
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
237
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
238
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
239
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

                        Álvaro de Campos, Londres, 1914 — Junho.

6-1914
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
 - 144.
1ª publ. in Orpheu, nº1. Lisboa Jan.-Mar. 1915. Lacunas completadas segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993


Por fim uma homenagem: “Ode Triunfal” censurada em manual de Português

Alunos do 12.º ano chibaram-se depois de se darem conta de que o manual da Porto Editora lhes tinha sonegado alguns versos do poema de Álvaro de Campos




Faz mais de um século, o número inaugural de Orpheu deu para o incómodo, algum estardalhaço e suspeitas, mas falar num escandâlo seria ter para referência medidas um tanto provincianas, quando o que houve mais foi chacota nos jornais de Lisboa. A Fernando Pessoa ou a Álvaro de Campos, e aos outros, chamaram-lhes degenerados, paranóicos, maluquinhos, destinando-os a Rilhafoles. Isto em março de 1915, quando a “Ode Triunfal” esteve entre os gritos nesse espantoso coro que da Orpheu fez um decisivo passo das vanguardas. Hoje, quando os mesmos versos são entoados como um enfebrecido “Pai Nosso” nas missas escolares, com tantos palmos de terra em cima, e depois da canonização literária, se lidos em sociedade, alguns continuam a apresentar as unhas um pouco grandes, e é natural a tentação de ir lá com um corta-unhas. Chega-se ali ao verso 153 e damos com “automóveis apinhados de pândegos e de putas”, mas, se isso ainda escapa, o que dizer, um pouco mais abaixo, dos versos 169 e 170, quando o poeta tem o descaramento de ver as filhas de gente ordinária e suja, que, aos oito anos (credo!), “masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada”. E se tal indecência ainda fosse só uma constatação... mas pelo meio o javardola ainda o exalta, dizendo-nos que o acha belo e que o ama. Raios o partam!
Assim se justifica que, ao reproduzir o célebre poema num dos manuais escolares de Português do 12.º ano, da Porto Editora, prudentemente, os autores – Noémia Jorge, Cecília Aguiar, Miguel Magalhães – tenham optado por rasurar os três versos da versão dirigida aos alunos, mantendo-os na versão do professor, para que este decida se deve abordar na sala de aula estas passagens que “têm linguagem explícita e se relacionam com a prática da pedofilia”. Isto lê-se no comunicado em que a Porto Editora vem explicar os critérios usados na edição do manual “Encontros”, depois da notícia do “Expresso”, que no domingo avançava a perplexidade de uma turma de 12.º ano – e sublinhe-se que é miudagem que entrou já na maioridade ou está à beira disso – ao identificar a omissão dos versos no manual quando escutou uma versão áudio da “Ode Triunfal”. Expoliados, parece que os putos não se contiveram, deram com a boca no trombone. Na versão higienizada do poema não havia direito a ver passar os automóveis apinhados de pândegos e de putas, e no que toca a mexer com pedofilia é o que se sabe.
Agora, abra-se o livro no capítulo da ingenuidade dos educadores. Seja que livro for, desde que instruído nas coisas do mundo, e vamos saber o que é que miúdos de 18 anos têm a aprender dos professores, ou a ensinar-lhes, no que toca ao género de coisas sórdidas que não deixam de colorir e perturbar a ordem. Impôs-se a “preocupação didático-pedagógica” ao respeito pela integridade do poema. Porquê? No seu comunicado, a Porto Editora diz que “a diferença entre livro do professor e livro do aluno assenta no pressuposto de que cada docente tem um papel central na preparação e na organização das suas aulas, em função das características específicas de cada turma”. E ainda adianta: “Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos.”
Aí está, preto no branco, o perigo: a possibilidade de o poema ser fator de desestabilização ou raptar a atenção dos alunos. E mais, com as palavras do poeta, poderíamos exclamar: Se a obscenidade não o fosse! E se o poeta não houvesse mandado às malvas tão grandes cuidados, mas se tivesse ficado pela cauta sentença que acena de longe às coisas do mundo, ao invés de ir investigar com os sentidos úteis e mais à flor do idioma, talvez houvesse sido só mais outro funcionário, entregando-se diligentemente ao pecado, o verdadeiro, diz Valéry, que é escrever para um público, então não haveria nem Pessoa nem Campos para ninguém, nem o do colapso nervoso, e da existência absurda que de um fio puxa e faz desabar toda esta tão recta e sensaborona existência, e nem o depravado, que podia encher a boca, e ficar-se por essa “noite abolida onde, ferido, o assassino conversa com o seu crime”. 
Ao i, Vasco Silva, editor dos quatro costados, “nome indissociável da edição de Fernando Pessoa”, disse que considerava tudo isto um “disparate”. Que se queriam aquele poema, não lhe viessem cortar as unhas, e se era demais o desconforto que podia causar na sala de aula, então que fossem buscar outro. Lembrou que na edição das “Poesias de Álvaro de Campos”, da Ática, que saiu em 1944, e possivelmente com o fundado receio de que fosse apreendida, também as “putas” passaram em pontas, percebendo-se o que lá estava, mas limando a garra. Já o verso 170 foi todo ele à vida, à semelhança do que agora se fez. E aproveitando a aberta, o editor chamou-nos a atenção para uma passagem das “Páginas de Estética e de Teoria Literárias”, que incluiu na recente edição que preparou para a E-Primatur – “Não Cites Pessoa em Vão” –, em que o poeta lembra que “a arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais”. E, para que não subsistam dúvidas, remata: “A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo.”
Mas se, por uma vez, e ainda que involuntariamente, Pessoa foi alvo de uma homenagem sentida e honesta, já que, sem reais constrangimentos que a isso obrigassem, se viu censurado, decidiram fazer-lhe as unhas para não causar perturbação da ordem nas salas de aula do país, talvez valha a pena pensar numa alternativa à “Ode Triunfal”. A “Saudação a Walt Whitman” seria uma hipótese, pela forma como exalta o predecessor: “De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,/ Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,/ Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,/ Concubina fogosa do universo disperso,/ Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas/ Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,/ Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,/ Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,/ Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,/ E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus! (...)”
Diogo Vaz Pinto, Jornal i, 14/01/2019