Os “[a]dolescentes repentinos”, mesmo que pessoas, são animais, e saliento que a única logia deste fragmento de Flash é a que se lê em “zoológicos”. Animalizados, portanto, os “adolescentes” não sabem, como Patrícia, “nada, nada, nada!”, “apenas o tormento de um excesso/ giratório”, ou seja, apenas a condição debruçada de sua própria condição excessiva, portanto dionisíaca, fundida à natureza.
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é o que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
‑ disse ela.
Herberto Helder, A MORTE SEM MESTRE, 2014.
*
Herberto Helder avisa, em nota
prévia, que tudo o que possa parecer acidental neste livro é, na verdade,
intencional. E depois, logo no começo, uma poesia diz que todos os erros
ortográficos ou de sentido são propositados, "um grão de sal aberto na
boca do bom leitor impuro", versão herbertiana do "leitor hipócrita,
meu semelhante, meu irmão".
Que coisas serão essas que podem
parecer acidentais mas não o são? A mudança de chancela, da clássica Assírio
para a Porto Editora? A capa personalizada, com a caligrafia do autor? O CD que
acompanha o livro e onde Herberto lê alguns poemas com voz cansada, ansiosa e
tranquila? E o que são os "erros ortográficos", além dos habituais
acentos de uso idiossincrático, ou talvez de uma resistência ao acordês?
Finalmente, o que significa um "erro de sentido", para mais num poeta
onde nunca é exactamente o "sentido" (discursivo) que nos fascina?
Tantas advertências servem talvez para nos recordar que, mude o que mudar,
estes são ainda "poemas quando se vai com a mão/ e bufam e arranham
logo", poemas indóceis, não domesticáveis, soberanos.
Tudo parece aqui intencional,
incluindo os supostos "erros", incluindo esta visibilidade invisível
da última fase, que começou há uns bons anos com as fotografias de um Herberto
mais velho do que aquele que conhecíamos de outras imagens; com as sucessivas
antologias e poemas escolhidos, completos ou rasurados; com as edições pequenas
que esgotam logo e se tornam um "fenómeno"; e nestes últimos dois
livros, assumidamente pré-póstumos, com uma referencialidade inédita. Há
telemóveis nestes poemas e discursos vários políticos: "uma reforma de
pilha-galinhas", "não me queixo de nada no mundo senão do preço das
bilhas de gás", e esse divertido "aparecem em toda a parte uns gajos
que, faz favor", "desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha". Esses
são os poemas mais curiosos, mas não os mais fortes. Curioso também, ou mais
que isso, é o facto de Herberto dizer que nunca tentou sequer um
"resquício metafísico" e depois escrever um poema em que Jesus é
personagem. Curiosa, ou mais, é a confissão de que os seus poemas são
"seus" de um modo que os filhos nunca podem ser, uma vez que os
poemas não são entidades diferentes mas uma única pessoa (o que é, aliás, um
resquício metafísico).
Porém, no essencial, "A Morte
sem Mestre" é um prolongamento temático de "Servidões".
O poeta canta "o alvoroço mental
deste fim de idade", e várias vezes diz que o "velho" é um
"estupor", um "cabrão", lembra-nos os seus 83 anos, mas
também declara: "é que eu estou vivo e estremeço ainda". Mais do que
um manual de morte, de Tanatos, esta colectânea é uma celebração de Eros:
grande parte dos poemas são odes priápicas, de linguagem entusiasta e
desabrida, exclamativa e vernácula, reiterativa e quase bíblica, quase
"poema sumério", ou quase Bataille, odes vorazes a mulheres, meninas
e putas, "femeazinhas" de todo o género e feitio, longilíneas,
espessas, sedosas, árduas, amaras, bravas, humílimas, subtis, nuas, vestidas,
violentas, descalças, catorzinhas, inspiradas, revoltas. Herberto evoca uma
"primeira noite no começo do mundo" e outros dias e noites, antigos e
modernos, e nesses poemas a "coisa amada" é ainda uma labareda, um nó
de sangue na garganta de um homem velho, uma "verdade última", uma
última ciência.
Crítica literária de Pedro Mexia, Expresso, 2014-06-13
O trabalho da morte
Crítica literária de António Guerreiro | 11/06/2014 - 00:00
Herberto Helder aproximou-se, como nunca antes, do inumano e do Mal, traduzindo o sensível em demoníaco e encarando a morte sem elevações poético-metafísicas.
Neste novo livro de Herberto Helder, a poesia está do lado da exigência de tudo dizer. De dizer, antes de mais, o que faz estremecer os homens: a morte. Chamemos-lhe uma exigência inumana, também sobre-humana, para afastarmos do horizonte qualquer hipótese de, em qualquer momento do livro, haver uma porta de entrada para o humanismo — muito poético e muito tagarela — da morte amestrada. A morte sem mestre é outra coisa, é uma “porcaria obscena”, como dizia Bataille, autor que, juntamente com Sade, muito facilmente podemos fazer comparecer na leitura destes poemas. “Sade e Bataille, meus próximos”, seria uma epígrafe plausível para este livro, onde Herberto Helder parece ter radicalizado e gritado em voz alta uma prescrição que já tinha sido sussurada em Servidões, e que consiste em baixar a metafísica. Baixar a metafísica significa, neste caso, seguir as vias de um baixo materialismo e permanecer nesse nível de baixeza. Se pensarmos na elevadíssima entoação órfica a que acedeu desde o início a poesia de Herberto Helder, à altura de conceitos cheios de sublimidade como o de “poesia absoluta”, se pensarmos que ela permitia uma equiparação entre a metáfora e a metafísica, então é obrigatório reconhecer que estamos agora num mundo completamente diferente — um mundo que, inaugurando-se com uma invocação obscena, “Oh Anjo Príapo, oh Nossa Senhora Côna!”, tem no seu centro a dimensão burlesca da carne e do corpo. Até ao limite de um poema que fala da soberania de um “rei terrífico com voz política”: “tragam-me as putas todas, religiosas, profanas ou outras,/ o meu pénis tem o tamanho de um ceptro/ (e ergue o ceptro que tem cerca de metro e meio,/ e na verdade o sexo dele é até maior um pouco),/ traspasso-as da côna ao coração/ (e que mulher não tremeria de pânico e oculto gozo?),/ e assim passa ele o tempo e o medo e o mundo”. E, a seguir, este curto poema: “e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,/ vou morrer como um cão deitado à fossa!”.
A morte sem mestre, que se manifesta cruamente sem mediações nem idealizações, suscita o tema obsceno e jocoso, como nalguma poesia trovadoresca. E faz emergir a questão de uma “eloquência vulgar”, própria da comédia — e não da tragédia — da vida e da morte (De Vulgari Eloquentia, recordemos, é um título de Dante, quase um tratado sobre a commedia). E, retomando a alusão à poesia trovadoresca, talvez seja pertinente recordar que o “poema contínuo” herbertiano pode muito bem referir-se à oda continua da poesia occitana, que designava a estrutura métrica e musical de um canto, onde era impossível encontrar um ponto onde quebrar ou dividir a stanza. A Morte sem Mestre, apesar das divisões, pode ser lido como um poema único. Digamos assim: como o corpo das “fêmeas ininterruptas” (também esta assimilação do poema a um corpo se encontra na poesia trovadoresca). Há uma regra biopoética aqui formulada que está não do lado da vida, mas do lado do “trabalho artesanal da morte”: “filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas/ que escreveste contra tudo, pais e filhos,/ lugar e tempo,/ filha é aquela que despes dos pés à cabeça,/ perdendo os dedos nos nós que tem pelo cabelo abaixo,/ e só pelo desejo que te traz de viver ou morrer dela,/ desejo de ser o mesmo punho de cinza/ deitado à espuma nos extremos da terra,/ filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando dormem (…)”.
Os poemas são escritos “contra” todas as regras da bienséance e as disposições humanistas. Chegado a este livro, Herberto Helder mostra, com toda a clareza que o abaixamento da metafísica permite, o seu lado de poeta-energúmeno (não, isto não é um insulto), solitário, singular e sem família poética, tendo como únicos ascendentes os poemas escritos numa língua morta. O genial poeta-energúmeno concebe a poesia como uma forma aguda do Mal. E o Mal tem para ele um valor soberano. O Mal é o que dia-boliza o sím-bolo. Devemos, pois, levar muito a sério estes dois versos: “o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,/ morro dentro dele sem força para respirar”. E, perante este livro, muito desorientados se deverão sentir os leitores que não passam sem os bons ofícios simbólicos da poesia. O Mal é a força informe que trabalha a língua e lhe dá a sua violência; o Mal é o inumano que habita, como um fundo inapagável, o humano, é a sua miséria “natural”, a sua perversão polimorfa de criança mal-educada que resulta em poeta-energúmeno entregue à tarefa prostitucional da poesia. Este poeta do Mal, demoníaco, entrega-se ao trabalho da morte, com uma ira errante dirigida à sua época, e escreve o seu próprio epitáfio, em tom jocoso, no final de uma elegia: “e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo/ menos sem grandes achaques físicos, o todo vosso/ burro com palha pouca e fora de uso, quer dizer:/ uma reforma de pilha-galinhas e poeticamente/ enterrado vivo (….)”.
Nota: Este livro é incomensurável, no modo como se expõe. No mais alto grau, não lhe servem nenhumas estrelas, mesmo que o critério seja o da comparação com livros anteriores do autor.
Novo livro de Herberto Helder surpreende, deslumbra e irrita
Por Luís Miguel Queirós | 13/06/2014 - 09:21 (actualizado às )
Apenas um ano após Servidões, Herberto Helder regressa com A Morte Sem Mestre. Alguns gostam muito, outros acham que é um livro falhado.
O mais recente livro de Herberto Helder, A Morte Sem Mestre, lançado esta segunda-feira com a chancela da Porto Editora — numa edição que inclui um CD com cinco poemas ditos pelo autor —, está a dividir opiniões, mesmo entre leitores que tinham apreciado sem reservas o anterior Servidões (2013). Num poeta que parecia ter-se tornado, sobretudo desde a publicação de A Faca Não Corta o Fogo, em 2008, um caso de consenso crítico quase absoluto, este acolhimento díspar é desde logo surpreendente.
Mas A Morte Sem Mestre é um objecto suficientemente estranho para provocar reacções desencontradas. Há um efeito de exposição da circunstância biográfica ainda mais radical do que em Servidões, passagens cuja força parece residir num exasperado e despido confessionalismo – “e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,/ vou morrer como um cão deitado à fossa!” –, mas também alguns desses poemas que, logo à primeira leitura, e antes de quaisquer digestões mais reflectidas, sabemos imediatamente que são geniais. Pela energia e pelo ritmo, pelo poder imaginativo, pela invenção verbal, mas também por um efeito de estranheza que é paradoxalmente acompanhado pela intuição de que batem certo com a mais funda verdade da obra. Poemas que não se pode imaginar mais ninguém a escrever, mas para os quais nunca estamos preparados, mesmo que tenhamos lido toda a poesia do autor.
O Ípsilon pediu a alguns poetas e ensaístas que lessem A Morte Sem Mestre e nos confiassem as suas primeiras impressões. Entre aqueles a quem o texto mais imediatamente fascinou conta-se o poeta Gastão Cruz, que fala de “extraordinário fulgor” e de “uma dinâmica que absorve, e absolve, quaisquer eventuais asperezas”. O ensaísta Carlos Mendes de Sousa acha “muito forte” a “fúria” com que o poeta “incorpora na sua poesia a questão da idade”, e também ele sublinha a “consistência e unidade” do livro, achando que o seu andamento global redime aquilo que, numa primeira leitura, lhe tinham parecido instantes de “um certo afrouxamento”.
A ensaísta Rosa Maria Martelo vê aqui novamente confirmado “o génio criador indiscutível” do poeta, mas distancia-se dos que valorizam sobretudo o efeito de conjunto. “Embora os diálogos internos aproximem alguns dos poemas, e apesar de serem retomados temas dos últimos dois livros, os poemas parecem ganhar, cada um por si, mais autonomia do que era habitual nos livros de Herberto Helder”, defende.
Já o poeta Manuel de Freitas, mesmo ressalvando que “seria injusto afirmar-se que A Morte Sem Mestre é um mau livro”, vê nele “uma espécie de mero post-scriptum apressado e pouco convincente” de Servidões. E opinião não muito diversa tem o ensaísta Osvaldo Silvestre: trata-se, diz, de um livro “mais curto e menos estruturado do que os dois anteriores”, e “habitado pela urgência de se dar a público num estado que poderia ser o de um caderno de esboços”, ou do “esboço de um livro por vir”.
Uma controvérsia que, note-se, abrange apenas o texto de Herberto Helder, já que a edição do livro e a estratégia de marketing da Porto Editora, essa, a julgar pelas pessoas que ouvimos e pelos comentários que vão surgindo nas redes sociais, parece estar a conseguir irritar bastante consensualmente os leitores portugueses de poesia.
A Morte sem Mestre, diz Osvaldo Silvestre, “parece pensado para piorar de vez o caso Herberto Helder”, no sentido em que “uma vida que é uma ética” se confundiria agora, na prática, com a lógica daquilo mesmo que sempre se propôs combater. E enumera: “a reincidência na ambígua política da tiragem única, que é uma boa estratégia de produção de raridades, a passagem à editora industrial, o silêncio da recusa acompanhado do bónus da Voz”. Uma alusão ao CD que acompanha o livro, e que Silvestre considera “muito dispensável, ao contrário das gravações antigas do poeta”.
Se uns passavam bem sem o CD, e outros defendem que as gravações deviam ter sido editadas, Carlos Mendes de Sousa é uma excepção: gostou mesmo destas leituras, que ouviu na TSF. “Foi uma surpresa muito boa”, diz, sublinhando que aprecia o sotaque madeirense e “aquela maneira de Herberto Helder dizer os poemas, com aquele grão e com um ritmo que é só dele”.
Engrenagem manhosa
Rosa Maria Martelo, tal como acha que este é um livro “desabrido” e “extremo”, do qual “não é fácil falar de imediato”, também tem dificuldade em “entender muito do que foi acontecendo” nos dias que antecederam o lançamento. Refere-se às “precárias gravações da voz do poeta divulgadas na TSF”, à “publicação simultânea de uma edição deServidões num ebook incaracterístico”, e ainda ao “marketing tanto mais agressivo quanto aparentemente desnecessário”. E já depois de ter visto o livro impresso, constatou que o suposto papel craft que reproduziria o modo como Herberto Helder encaderna os seus livros é, afinal, “um papel de luxo a imitar, num gesto kitsch, um papel de embrulho”.
Várias outras objecções se poderiam levantar a esta edição. A ideia de reproduzir na sobrecapa a caligrafia do autor lembra um pouco de mais as novas capas que a Porto Editora concebeu para os livros de José Saramago. A opção de acondicionar o disco no início do volume torna o livro mais difícil de folhear, e talvez se tivesse podido dispensar a indicação “inclui CD de oferta”. Finalmente, por muito que se possa questionar a sobrecapa, só podemos rezar para que os leitores a conservem e que, daqui a algum tempo, o livro não comece a aparecer sem ela nos alfarrabistas, porque a capa dura interior, com o nome do autor e o título inscritos num círculo a imitar um CD, é bastante pior.
Desconcertante é também o anunciado lançamento de Servidões em ebook. Herberto Helder, como se sabe, nunca quis ver os seus livros reeditados, preferindo actualizar os volumes da poesia completa, opção discutível, mas à qual não será alheio o facto de ter sido sempre reescritor compulsivo. Digamos, pois, que não parece muito crível que esta reedição virtual – limitada no tempo, como uma promoção de supermercado –, tenha saído da sua cabeça.
Manuel de Freitas censura toda a “estratégia comercial e promocional” em torno do livro. “É como se Herberto Helder se tivesse tornado, graças à aura que o passou a envolver, uma sinédoque deletéria, o nome único em que se passou a aglutinar, para o vulgo, a ideia e a prática de poesia”. E cita autores de “idêntica grandeza”, como António Barahona, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Carlos Poças Falcão ou João Miguel Fernandes Jorge, que “nunca terão livros em pré-venda” e para os quais imagina que este “espectáculo” seja “um bocadinho deprimente”. Salvaguardando que “o autor pode até não ter culpa”, defende que estamos perante “uma engrenagem manhosa, inimiga a todos os títulos daquilo que nos habituámos a entender e a respeitar como poesia”.
Numa metáfora cinéfila, digamos que entre os dois protagonistas – o poeta e a editora – parece faltar uma certa química. Uma frase de Fénelon que a Porto Editora ostenta, como se fora um lema, na parede de um espaço de recepção do seu edifício, e que chamou a atenção de Rosa Martelo – “A leitura deve ser para o espírito, como o alimento para o corpo, moderada, saudável, e digerível” – simboliza bem a previsível disfuncionalidade deste enlace. É que se a leitura “também pode ser isto”, como Martelo reconhece, é difícil pensar-se num poeta mais imoderado e indigesto do que Herberto Helder.
Mas se o próprio trajecto do autor ajuda a justificar as reacções emotivas que esta mudança de chancela está a provocar – a ponto de a sua saída da Assírio & Alvim estar a ser vista como uma espécie de apostasia –, também seria sensato não se perder de vista que, no fim de contas, um poeta são os seus poemas, esses é que são os seus “veros filhos”, como o autor lhes chama num dos mais extraordinários poemas deste livro.
E convenhamos que é mais plausível imaginar este Herberto furioso com o envelhecimento, esse “cabrão do velho no deserto, último piso esquerdo”, cujos poemas falam agora de retretes e abjecções afins, a borrifar-se para a decepção que possa estar a infligir aos seus fiéis – até pela consciência de que o controle sobre a obra acabaria sempre por lhe escapar irremediavelmente das mãos –, do que presumi-lo uma delicada alma inocente a deixar-se transviar pelos demónios do mercado”.
O caminho da “impuração”
O próprio livro, alternando uma rudeza de fractura exposta com passagens de uma invenção desenfreada, não foi certamente pensado para ser um objecto agradável, e não surpreende que provoque perplexidades e desconfortos.
Para Manuel de Freitas, “depois da violenta inflexão ocorrida em Servidões”, este livro parece tentar “manter o tom”, mas “os resultados revelam-se por vezes frouxos ou previsíveis”. Freitas acha também que alguns destes versos “soam mal” e se “engasgam na forma e no sentido, como se não tivessem levedado tempo suficiente”. E cita passagens como “que faz um leão senão /que se transforma numa estrela”, ou “a espuma a espumar no ar”, ou o “estrela/estela” que fecha um poema.
Osvaldo Silvestre não nega que A Morte Sem Mestre tem bons poemas, “que retomam o melhor dos dois livros anteriores”, e que “ajudam a relançar a eterna questão do lugar do poema” no “macro-livro ou poema contínuo” de Herberto Helder. Mas é nessa perspectiva que considera que é “um livro derrotado pelos seus melhores poemas”.
Gastão Cruz, que tinha 20 anos em 1961, quando saíram A Colher na Boca e Poemacto – e quando ele próprio se estreou com A Morte Percutiva – recorda que pertence “a um tempo que viu deslumbradamente surgir a poesia de Herberto Helder”. E é por isso com alguma naturalidade que admite que a evolução estilística que marca a fase mais recente do poeta, iniciada com A Faca não Corta o Fogo, lhe suscitou algumas interrogações”. É duplamente insuspeito, portanto, quando diz que, apesar de “algumas passagens que o desequilibram”, A Morte sem Mestre, que considera “um único poema”, lhe causou “uma impressão tão intensa” que o persuadiu de que é “desse desequilíbrio, desse excesso, porventura dessa imperfeição”, que a obra “retira uma parte do seu extraordinário fulgor”.
Talvez Rosa Martelo não se afaste muito do que diz Gastão Cruz quando lembra que Herberto Helder “sempre viu no erro a possibilidade de um surpreendente acerto: o acerto de uma ‘impuração’”, neologismo que descreve bem o movimento deste livro, que abre significativamente com um “apelo ao ‘bom leitor impuro’”. E deixemos a última palavra a Gastão Cruz: “A morte poderá não ter mestre, mas a poesia tem-nos, e Herberto Helder está, indubitavelmente, entre os seus maiores”.
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil em cima pela treva das palavras.
Herberto Helder, A Colher na
Boca (1961) Apud Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.
FALEMOS DE CASA...
Digamos que certo rei
D. João V, por virtudes de sucessão, se agilizava e a visão de franciscano
estreitasse ao reconhecer os pulmões temperados de um varão sucessor, as
implicações, ampliando a lente sobre a Vila de Mafra, seriam de uma dimensão
sombria.
Em redor desse edifício
‑ Convento, violento em porte e de ostentação suficiente para incomodar futuros
habitantes, irrompeu o casario, e com o vagar das obras que duram reinados, de
vulgares abrigos, tomaram a perenidade de outros materiais.
Digamos que o viajante
se depara com este espaço, admitindo ainda que o órgão ressoa das profundezas
da tubagem, e que o barroquismo se completa com carrilhões soando das veias de
metal.
Não estarão extintas,
as casas, soçobrando perante a obra feita?
Que outra respiração surge da terra, o fôlego dos
arquitetos, o eco dos passos perdidos; a chama de uma vela que se contrai
enquanto dedos franciscanos compilam segredos em volumes, tomos, memórias?
Erguidas as casas,
ressoa a memória que as pedras exalam.
A sensação de que a
mancha urbana estancou, embora a fenda persista, assustadora se olhada com incisão provocadora;
nasce do sentido trágico dos homens a avaliar a pulsação de acordo com as
inovações que se erguem como gigantes. Ainda que escola, casa de cultura, atração,
biblioteca infinita, o Convento marca com uma perícia avassaladora, a
persistência, a determinação do homem ‑ o arquiteto.
O
casario rebenta em pequenas frações, não concentrado em linha de força concorrente;
disperso, rege-se pela dimensão do coração de pedra central, rosácea concêntrica,
que numa tensão centrípeta estende a cal tentacular.
E se o espectro do abandono, paira sobre os traços,
no mapa de contornos, a cifra mágica pela qual se rege a reordenação do espaço, está na planta, na
fachada, na pedra, na cal. As casas não se podem extinguir, como o fogo, desfazendo-se
no pó dos dias; elas assombram, porque memória viva, porque metáfora, porque suspensão.
Quando se fala em recuperação, a
reconstrução é possível, mas importante é o readquirir funcionalidade, utilização, para
que reconhecidamente o passado desperte o urbano. A reordenação do tempo, o
refazer do espaço, são ofícios árduos, e os melhores reflexos desse labor são os espelhos da memória. Do
outro lado desse espelho, estão as respostas que o passado deixou traçadas nas
vilas esquecidas, aí onde ardem as memórias com maior fulgor que as obras
imperfeitas, que à força da diferença, carecem de fim.
Esta Vila só pelo facto de
existir contamina o passado e o futuro, reage compulsivamente, ainda que quase imóvel tremendo na córnea, ela
rebenta em
convulsões
de esperança,
da senda sagrada do regresso. E por mais nostálgico que
possa ser o
olhar
português, ele brilha e reconhece a força dos astros, encontra matizes claros
de outras terras, de outras gentes; porque o enigma envolve as pequenas vilas,
de passagem, ou perdidas na sofreguidão da terra.
É
a
imperfeição geométrica do casario, urdida pela força do Convento, que torna a
construção menos atroz, menos divina e terrível, contra a simetria que se urdem
os labirintos. E a dimensão dessa força, que deve ser enquadrada no organismo urbano,
respeitando a fornalha do tempo para moldar novas perspetivas, que ressoem como
os carrilhões: a nostalgia e ousadia na interpelação de deus, dos deuses...
Falemos de casas...
“Falemos de casa...”, Alexandra Negrão.
In: Lusíada. Arquitectura. -
0872-6256. - N. 1 (2001), p. 25-29
“Conferência dos Pássaros”
- espetáculo de site specific e vídeo
dança promovido pela Amálgama e integrado no II Congresso dos Saberes Antigos. Claustro
Norte do Palácio Nacional de Mafra, 24 de setembro, pelas 18h00.
Herberto Hélder, "Prefácio" in A Colher na Boca ApudPoesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990
«O soneto é uma casapoética.Em
nenhuma outraformafixa o lirismo
sabe conter-se tão amoldado, tãojusto na medidaque o veste e tãolivrenosmovimentos de respiração
e de gestoquelhe apontam o exterior
de que é abrigo
e olhar. Medidas
e casassãogosto e desejo
de cadaum,
massempre
se pode determinar o maioroumenorespaçoque
delimita o canto habitável e a maioroumenorfolgaque define a propriedadeou o empréstimo.
Formas de rigor
no estarlivre,
emsuma. Com
as adaptações subjectivas quesempre
condicionam a liberdade dos outros (a do género) pelanossa e lhe
conferem o rigor do exacto momentoque vivemos. Assim
o soneto, depois
da grandefortunaclássica e simbolista que soube conquistar, se vê preterido pelas formas
anárquicas da des-“ocupação do espaço” contemporâneo, num sistema de substituições[…]».
Mª Alzira Seixo, Discursos do Texto,
Amadora, Livraria
Bertrand, 1977, pp. 283-284.
*
«[…] o soneto é uma estrutura e é uma unidade de tratamento da
linguagem poética, constituindo uma descida vertical na pesquisa e na construção
do poema considerado como um objecto.»
E. Melo e Castro, depoimento a O Tempo e o Modo, 59, p. 383.
*
O que há no soneto?Uma unidade perfeita: desenha-se cada
ideia parcial deper si, mas não tão independente das outras que não haja
entre elas relação, até que afinal, juntando tudo num só se apresenta por todos
os lados simultaneamente como em resumo, o fecho –chave de ouro! Dai, a unidade. E simplicidade?
Toda: as partes conservam estreito laço entre si, é só um sentimento, só uma
ideia; não são várias, mas vários lados: a unidade final funde-os num todo.
Anterode Quental, «Prefácio à Edição dos Sonetos de 1861».In:
Antero deQuental,Sonetos, Organização, introdução e notas de Nuno
Júdice, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002,p.
230.
1988
Observem que o poema de Avelino de Araújo só usou palavras no título. O texto, em si, é construído na associação visual da imagem que compõe o corpo do poema com as duas palavras do título. Analisando esta combinação temos o desenho de uma cerca de arame farpado, a palavra apartheid e a palavra soneto. E a indicação do contexto histórico da produção do texto remonta ao ano de 1988. A leitura mais imediata que o texto provoca – entre outras possíveis – é a que relembra o significado de apartheid, o regime político de segregação racial que imperou na África do Sul até os anos 90. No apartheid eram determinadas as áreas das cidades em que os negros poderiam viver e em quais eles poderia circular. Se ultrapassassem os limites estabelecidos eram violentamente reprimidos pela polícia. A palavra soneto, por sua vez, evoca a forma fixa mais clássica de poesia: o poema com 14 versos, distribuídos em duas estrofes de 4 versos (dois quartetos) e duas estrofes de 3 versos (dois tercetos). É a forma em que estão distribuídas as linhas que formam a imagem do corpo do texto. Linhas que são fios de arame farpado, objeto usado para fazer cercas que delimitam propriedades… ou que formam cercados para animais.
Com a associação da imagem do arame farpado disposto numa cerca de quatro-quatro-três-três às palavras apartheid e soneto Avelino de Araújo nos diz muito sobre o regime doapartheid: esse regime segregacionista, ao confinar seres humanos a áreas restritas, trata-os como animais. Três palavras e uma imagem foram suficientes para construir este sentido.
PROPOSTA DE ESCRITA RECREATIVA, EXPRESSIVA E LÚDICA:
O soneto seguinte foi escrito por
Florbela Espanca, mas encontra-se incompleto.
Completa-o de forma lógica, mantendo o
tom poético (linguagem conotativa) e respeitando as seguintes características:
Os versos
são decassilábicos;
O esquema
rimático é ABAB BABA CCD EED;
Os versos
encontram-se agrupados em quatro estrofes (duas quadras e dois tercetos);
O último
terceto termina com chave de ouro.
Vaidade
Sonho que
sou a Poetisa eleita,
Aquela que
_________________,
Que tem a
inspiração _________________,
Que reúne
num _________________ a imensidade!
Sonho que
um verso meu tem claridade
Para encher
_________________! E que de leita
Mesmo
aqueles que morrem de _________________!
Mesmo os de
alma profunda e _________________!
_________________
que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de
_________________ vasto e profundo,
Aos pés de
quem _________________ anda curvada!
E quando
mais no céu eu vou _________________,
E quando
mais no alto ando _________________,
Acordo do _________________...
E não sou _________________...
Florbela Espanca
(Para)Textos. Caderno de Atividades – Língua Portuguesa 8.º Ano. Ana Miguel de Paiva, Gabriela Barroso de Almeida, Noémia Jorge, Sónia
Gonçalves Junqueira. Porto Editora,
2012, p. 71.