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domingo, 25 de junho de 2017

O ganho de uma perda, por Frederico Lourenço

Na foto: Florian Magnenet no papel de Saint-Loup e Stéphane Bullion no de Morel
 no bailado de Roland Petit “Proust ou les intermittences du coeur”
A pessoa que amamos é a metade que nos falta para nos sentirmos completos? Esta pergunta obteve uma resposta positiva num trecho que faz parte do Banquete de Platão, no qual a raça humana é entendida como descendente de seres que tinham quatro olhos, quatro braços, quatro pernas: tudo a dobrar. Zeus cortou esses seres ao meio, fazendo assim com que cada metade ande desesperadamente à procura da metade que lhe falta. O desejo de completude é a explicação do amor.
Quando nos apaixonamos por alguém, faz parte da sintomatologia própria da paixão percepcionarmos a pessoa amada como a peça que faltava para nos sentirmos inteiros. A descarga louca de dopamina no nosso cérebro que ocorre quando o ente amado sente em relação a nós o mesmo que sentimos em relação a ele dá-nos, de facto, a ilusão de que a proximidade dele e a união sexual com ele nos faz inteiros. Era a metade que nos faltava, era a pessoa de que andávamos à procura, toda a vida esperámos por ela e agora: ei-la!
No entanto, quem já tem meio século de idade e já se apaixonou diversas vezes (sempre com a mesma sintomatologia) sabe que é contrário à lógica que possa haver tantas metades sobresselentes de si mesmo a pulular aí pelo mundo. Essa ideia da pessoa que nos torna inteiros tem mesmo de ser uma ilusão. Apesar de tudo, a proposta algo humorística de Platão de que se encontram no amor as metades tresmalhadas do mesmo corpo faz algum sentido quando estamos a falar do amor entre pessoas do mesmo sexo. Todos já reparámos em tantos e tantos casais de lésbicas e de gays cujo aspeto exterior sugere imediatamente a ideia do desdobramento da mesma pessoa. Como se eu e o meu hipotético namorado formássemos um casal constituído por dois Fredericos. Muitos casais de gays obedecem, de facto, a esse paradigma: mesma roupa, mesma barba, óculos iguais, mesma composição corporal (gorda ou magra ou atlética), etc.
Esta questão é interessante porque, muitas vezes, se víssemos individualmente os dois Fredericos antes de se terem conhecido, as semelhanças não seriam assim tantas. A relação em si – a intimidade sexual e todas as outras intimidades – é que vai cumulativamente concretizando esse processo. De forma lapidar, Camões chamou-lhe “transforma-se o amador na coisa amada”.
Bom, estou aqui a falar em dois hipotéticos Fredericos, mas no caso do Frederico real que assina este texto nunca se deu esse fenómeno de transformação em termos de morfologia exterior, pelo simples facto de os meus namorados até hoje terem sido completamente diferentes de mim no que toca a aparência física. Nunca ninguém olhou para mim a desempenhar o meu papel enquanto parte de um casal para dizer “olha que par de clones!”. Isso não significa, porém, que o verso “transforma-se o amador na coisa amada” não tenha feito sentido muitas vezes na minha vida passada, a ponto de sobre esse tema ter escrito um livro de poesia, Clara Suspeita de Luz (Lisboa, Caminho, 2011).
Nesse livro, o sujeito lírico procura lidar com a perda do amante por meio da estratégia “doravante passarei a ser tu”. Lendo nas entrelinhas dos versos (“sentirei o teu cheiro quando despir a camisa...”), percebemos que o Eu agora veste roupa igual à do namorado, usa o mesmo perfume, os mesmos óculos e o mesmo corte de cabelo. Literalmente o que se diz é “afinal a tua partida não me privou de ti, / se reencontro a cada momento o teu ser em mim, / se ao ver-me no espelho eu vejo o teu reflexo”.
De acordo com a ideia platónica das metades desencontradas, o que sucede ao Eu lírico de Clara Suspeita de Luz é duplicar-se de modo a ser ele próprio as duas metades. “Perder-te permitiu-me descobrir que sou tu, / que és eu em tudo o que em ti amo e amei”.
Dizer de quem amamos “és tu certamente o mais eu de mim” implica ao mesmo tempo um longo processo de descoberta desse “eu”. Quase se poderia dizer que, quando nascemos, a pessoa mais estranha (em sentido de “stranger”) com quem temos de lidar somos nós mesmos. Viver e crescer é aprender a conhecer essa pessoa. Curiosamente, nada nos traz mais próximos de nós mesmos do que amar outra pessoa. Quando o amante de Clara Suspeita de Luz se refere ao nome do namorado perdido como “o teu nome com que hoje a mim mesmo me nomeio”, isso não significa que – por hipótese – um Frederico tenha passado a chamar-se Francisco, mas que esse Frederico passou a ser duplamente Frederico. É o que, noutro poema do mesmo livro, se chama o “ganho de uma perda”.

Frederico Lourenço, O Lugar Supraceleste, Lisboa, Livros Cotovia, 2015.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Más Leituras


     Partindo de dois versos sugestivos de um dos poemas da obra Chuva de Época, «Escrever e ler/é escrever mal e ler mal», o título do projeto Más Leituras corresponde a uma subversão provocatória do significado de «mal»/«má»: aqui, uma «má leitura» consiste numa proposta de recriação apolínea de itinerários possíveis, suscitados pela receção de cada um dos seis textos selecionados. No conjunto, as «más leituras» deste projeto são experiências de apreensão daquilo que o poeta José Maria de Aguiar Carreiro designa por “riqueza multiplicada/ que sai esbaforida” dos textos e que se constitui como reduto privilegiado do/a leitor(a).

Eduarda Maria da Silva Ribeiro Mota, Más Leituras - Projeto Final do Seminário de Materialidades da Literatura II, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, julho de 2011.




DA RETICÊNCIA AO FACTO

Da reticência ao facto
tudo é repetição, segmento deposto,
correcção.

Escrever e ler
é escrever mal e ler mal.

O facto é sempre o que se vê:
letras de lua e de sol
gavião que sai de feridas e se interpreta

o primor da fala, a sabedoria poética.



praia da Ribeira Quente, ilha de São Miguel, Açores, 2006. José Carreiro



AUSÊNCIA 

À luz gelada do amanhecer
ele toma a direcção da praia
a força do mar arrima-o um pouco
ao imo prestado pelos elementos
observa a fúria da areia que voa
açoita a cara empurrando-o
a procurar abrigo.
Sim, que ausência.

Rolam tumultuosas mas lentamente
as letras para sua própria ordem
por imposição incendiária de montanhas
de rios e de cidades.
Sim, muitos deixam as ilhas
areias cristais e buscam continuamente
forma onde repousar.

– Sim, dir-me-ás tudo isso
mas eu não sei o que quero nem o que faço

para que tudo se represente igual sempre igual a si mesmo.




“Má Leitura” como processo (in)voluntário de colagem.


Pretende-se realçar que cada leitor(a) encerra em si mesmo(a) um conjunto quase infinito de potenciais atualizações de um arquivo individual em devir. Aqui a leitura é construída por meio da convergência de duas componentes do arquivo do/a leitor(a): a biblioteca e a música popular açoriana pós-autonomia.


INSULARIDADES

“Mãe-Ilha”, de Natália Correia
“Ilhas de Bruma”, de Manuel Medeiros Ferreira

à luz gelada do amanhecer
da ilha que me deram e eu não quis

toma a direção da praia
a tosca ilhoa
seu gesto, cãibra de garça interrompida

só o vento ecoa mundos na lonjura

sim, muitos deixam as ilhas
de bruma
onde as gaivotas vão beijar a terra

e buscam continuamente
forma onde repousar

parti p’rás índias do meu estranho caso
mas trago o mar imenso no meu peito

nas veias corre-me basalto negro
ao pasto e à onda me unirei sincera
para que tudo se represente igual
sempre igual a si mesmo

Eduarda Maria da Silva Ribeiro Mota, Más Leituras - Projeto Final do Seminário de Materialidades da Literatura II, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, julho de 2011.


praia do Porto Formoso, ilha de São Miguel, Açores, 2009. José Carreiro.



MÃE ILHA

I

Limão aceso na meia-noite ilhada,
O relógio na torre da Matriz
Põe o ponteiro na hora atraiçoada
Da ilha que me deram e eu não quis.

Mas, ó de alvos umbrais Ponta Delgada!
Meu prefixo de pastos, a raiz
É de calhau e de onda encabritada:
Um triz de hortênsia e estala-me o verniz.

Atamancada em fama a tosca ilhoa,
Só na praça e no prelo é de Lisboa,
Seu gesto, cãibra de garça interrompida.

No mais, o osso campesino e duro
É fervor, é fogo e fé que juro
Ao lume e às flores da Graça recebida.

II

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que p’ra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti p’rás Índias do meu estranho caso
– ó danos que dos versos sois o engaste! –
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canto dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e à onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.

Natália Correia, Sonetos Românticos, 1990


Fotografia de José Carreiro. Ribeira Grande, 2014-01-04

ILHAS DE BRUMA

Ainda sinto os pés no terreiro
Que os meus avós bailavam o pezinho
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos

Se no falar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
E no coração a ardência das caldeiras

Trago o roxo a saudade esta amargura
Só o vento ecoa mundos na lonjura
Mas trago o mar imenso no meu peito
E tanto verde a indicar-me a esperança

É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra (Refrão)

Letra de Manuel Medeiros Ferreira



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

El Bosco


O Jardim das Delícias Terrenas, tríptico de Hieronymus Bosch
   Vídeo do grupo musical Bosco em homenagem ao pintor Hieronymus Bosch. O poema de Rafael Alberti "El Bosco" sobre os detalhes de "O Jardim das Delícias" que inspiraram o poeta. Duas obras primas de dois grandes artistas, frente a frente (09/09/2016):





A ti, fingida realidad del sueño.
A ti, materia plástica palpable.
A ti, mano, pintor de la Pintura
Rafael Alberti




El Diablo hocicudo,
ojipelambrudo,
cornicapricudo,
perniculimbrudo
y rabudo,
zorrea,
pajarea,
mosquiconejea,
humea,
ventea,
peditrompetea
por un embudo.

Amar y danzar,
beber y saltar,
cantar y reír,
oler y tocar,
comer, fornicar,
dormir y dormir,
llorar y llorar.
Mandroque, mandroque,
diablo palitroque,

¡Pío, pío, pío!
Cabalgo y me río,
me monto en un gallo
y en un puercoespín,
en burro, en caballo,
en camello, en oso,
en rana, en raposo
y en un cornetín.
Verijo, verijo,
diablo garavijo.

¡Amor hortelano,
desnudo, oh verano!
Jardín del Amor.
En un pie el manzano
y en cuatro la flor.
(Y sus amadores,
céfiros y flores
y aves por el ano.)
Virojo, pirojo,
diablo trampantojo.

El diablo liebre,
tiebre,
notiebre,
sepilipitiebre,
y su comitiva
chiva,
estiva,
sipilipitriva,
cala,
empala,
desala,
traspala,
apuñala
con su lavativa.

Barrigas, narices,
lagartos, lombrices,
delfines volantes,
orejas rodantes,
ojos boquiabiertos,
escobas perdidas,
barcas aturdidas,
vómitos, heridas,
muertos.
Predica, predica,
diablo pilindrica.

Saltan escaleras,
corren tapaderas,
revientan calderas.
En los orinales
letales, mortales,
los más infernales
pingajos, zancajos,
tristes espantajos
finales.
Guadaña, guadaña,
diablo telaraña.

El beleño,
el sueño,
el impuro,
oscuro,
seguro
botín,
el llanto,
el espanto
y el diente
crujiente
sin
fin.
Pintor en desvelo:
tu paleta vuela al cielo,
y en un cuerno,
tu pincel baja al infierno.

Rafael Alberti Merello (1902-1999)


   
Guillermo de Torre llama 'onomapinturas' (1970, 732) a estos recursos neologísticos graciosos y grotescos, es decir, onomatopeyas que no tienen por objeto imitar sonidos de la naturaleza sino evocar particularidades pictóricas, traduciendo adecuadamente la forma de volver pictórica la poesía.
No sólo en los neologismos destaca la combinación de dos motivos pictóricos dispares e insólitos (perniculimbrudo, peditrompetea, mosquiconejea) que representan verbalmente las caricaturescas combinaciones que pululan en los cuadros de El Bosco, es también el ritmo precipitado y sin aliento de los versos el que acierta a reflejar la atmósfera ajetreada y confusa tan típica de los cuadros del pintor flamenco. Experimentamos realmente una “transpoetización” en el sentido de que el poeta es capaz de verter en signos fonéticos, semánticos y métricos lo que el pintor realizó con sus invenciones de formas y colores. Además nos hace sentir el desasosiego y el ambiente de angustia y amenaza que caracteriza muchos cuadros de El Bosco, impregnados, sin embargo, siempre de un deje de ironía y caricatura.

"La líricopintura. Sobre las interferencias entre lírica y pintura", Kurt Spang, Impossibilia Nº3, págs. 233-245 (abril 2012)






Poderá também gostar de colecionar figuras de Hieronymus Bosch:

‘Tree Man’ By Hieronymus Bosch From ‘Garden of Earthly Delights’

Devil On Night Chair ‘by Hieronymus Bosch from ‘Garden of Earthly Delights’

‘Blue Flutist’ by Hieronymus Bosch

‘Bird With Letter’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Monster’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Freak with Beard’ by Hieronymus Bosch

‘Choir’s Devil’ from ‘John at Patmos’ by Hieronymus Bosch

Bird Monster with Castle Body’ by Hieronymus Bosch

‘Fish With Tower’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Fat Belly with Dagger’ by Hieronymus Bosch

‘Helmeted Bird Monster’ by Hieronymus Bosch from ‘Garden of Earthly Delights’

Bird in Blue Egg
http://dangerousminds.net/comments/collectable_hieronymus_bosch_figurines

domingo, 6 de novembro de 2016

As pessoas sensíveis


Ilustração de Sónia Oliveira, 2013

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)





Neste poema denuncia-se a exploração social dos mais pobres.
A expressão “as pessoas sensíveis” é irónica, porque as pessoas descritas ao longo do poema, ao viver da exploração dos que trabalham, não são, por isso, sensíveis em relação ao próximo. É precisamente a utilização do advérbio conectivo "Porém", com valor adversativo, na primeira estrofe, que evidencia a intenção crítica do sujeito poético em relação à hipocrisia das pessoas ditas “sensíveis”.
Na segunda estrofe, o sujeito poético denuncia as condições precárias em que algumas pessoas vivem, que só têm uma roupa que seca no corpo, quer quando chove quer quando fica suada. Portanto, cabe aos pobres o trabalho de matar as galinhas para os ricos comerem, dando-lhes de bandeja o produto do seu trabalho. É por isso que “O dinheiro cheira a pobre” - expressão esta que subentende a crítica ao comportamento das “pessoas sensíveis” que desprezam o cheiro a suor de quem trabalha por elas e para elas. Nesta linha de pensamento, o sujeito poético mostra-se contundente na terceira estrofe, quando denuncia inequivocamente a exploração dos trabalhadores humildes por aqueles que só pensam no lucro, tais como os “vendilhões do templo” invocados na quarta estrofe, bem como todos aqueles que apregoam os valores defendidos pela religião, mas que vivem em função dos bens materiais.
Relembrando a afirmação de Jesus Cristo no Gólgota, no momento da crucificação, “Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem", o sujeito poético procede a uma distorção destas palavras no último dístico do poema. Ao contrário da referência bíblica, estas “pessoas sensíveis” estão a ser julgadas por algo que fizeram conscientemente e, por isso, não há perdão para a sua falta de escrúpulos.





Poderá também gostar de:

O Nome das Coisas, Sophia de Mello Breyner Andresen. Documentário da Panavideo para a RTP,  2007:






sexta-feira, 10 de junho de 2016

biblioteca camoniana ou glosa a mote próprio


Seus olhos, Garrett
, ilustração de Marta Madureira, 2012



Quando meus olhos teus olhos olharam
E o meu rosto no teu rosto pousou
Todo o sonho que os sonhos ousaram
Logo se desvaneceram no que sonhou

Nada nesta vida assento merece
Tudo nesta vida é ousio fugaz
Nada fica e tudo esmorece
Tudo passa e não satisfaz

Nada é certo e tudo é incerto
Assim gira o que da vida pensamos
Querendo segurar o que segurar não podemos
Que tudo é incerto é o que de certo temos

E mais não é e para pouco serve
O que de certo temos no incerto
Desta vida o incerto leve como certo

O desconcerto deste mundo
É já desacerto no meu lembrar
No concerto incerto de sonhar
O que por certo tomei no teu olhar


Fernando Martinho Guimarães
Ponta Delgada, 2016-06-10


Ao desconcerto do mundo, Camões, ilustração de Marta Madureira, 2012

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Estudantes do século 16 parodiam OS LUSÍADAS


Paródia ao primeiro canto dos Lusíadas de Camões
 por quatro estudantes de Évora em 1589.

Lisboa : [s.n.], 1880. - 36 p. ; 17 cm
http://purl.pt/6586/5/#/0



PARÓDIA AO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DE CAMÕES
POR QUATRO ESTUDANTES DE ÉVORA EM 1589.

LISBOA.
NA TYPOGRAPHIA DE G. M. MARTINS.
Rua do Ferregial de Baixo, 22.
1880.


As honras da parodia só ás obras do genio costumam conceder-se. A divina Iliada foi parodiada em um poema heroi-comico tão antigo, que geralmente se attribue ao proprio Homero; ainda que Suidas lhe dá por auctor a Pigres, irmão da Rainha Artemisa. N'esse poema, intitulado a _Batrachomyomachia_, a terrivel lucta dos Gregos e Troianos é reproduzida no maravilhoso combate dos ratos e das rãs. Esta corôa burlesca ainda faltava ao rival de Homero, quando o poeta Scarron _primeiro_ marido da famigerada Marqueza de Maintenon, se lembrou de cantar:

    ...... cet homme pieux,
Qui vint chargé de tous se Dieux
Et de Monsieur son père Anchise,
Beau vieillard à la barbe grise, etc.

A grande obra do unico homem de genio que talvez tenha produzido a nossa terra, não podia isentar-se d'este fado inherente ás grandes celebridades. Eram apenas passados dezoito annos depois da publicação dos _Lusiadas_--ainda a reputação de Camões não estava consagrada pelos seculos, quando alguns homens engenhosos comprehenderam que aquella obra immortal era uma d'aquellas a que a parodia era devida. O resultado de seus trabalhos não é de certo para comparar com nenhuma das espirituosas producções que ficam mencionadas; mas ainda assim não é esta inteiramente destituida de merecimento. Francisco Soares Toscano, bem conhecido dos litteratos pelo seu _Parallelo de Principes_, escreveu uma interessante noticia sobre esta obra, em que nos conta o curioso modo por que ella foi composta. Quatro estudantes da Universidade d'Evora costumavam sair a passear, ás tardes, aos arrabaldes da cidade, levando comsígo os Lusiadas. Chegados a um verde ferrageal, sentavam-se a uma fresca sombra, e se abria a sessão parodiadora. Assim como a engelhada e disforme mascara de uma velha megéra cobre o rosto radiante de formosura de uma elegante _Coquette_, para mais fazer realçar seus encantos, quando deixe cair aquelle hediondo disfarce; assim o immortal poema devia ser desfigurado por aquelles travessos estudantes. Os Gamas, Castros e Albuquerques tinham de ceder seu logar aos Catigelas, Lunas e Barbanças, barões sem duvida tão assignalados nos combates de Baccho como ess'outros nos de Marte.

Dois mezes durava aquella sessão extraordinaria; e já tão continuados passeios davam que fallar aos estudantes e tambem dariam que entender á Santa Inquisição d'Evora, se aquella sociedade secreta não fosse composta, como de facto o era, de quatro theologos, e tão orthodoxos, que um d'elles veio a ser Inquisidor Geral. Mas por fim appareceu a mysteriosa obra dos quatro patuscos, como hoje lhe chamaria um academico, e não sei se já então lhe chamavam. A este modo de composição de sociedade e ás muitas emendas que depois soffreu dos curiosos, como adverte Toscano, se deve talvez a confusão do enredo d'este poema.
Parece que seus collaboradores tinham principalmente em vista inverter ao _de-vinho_ cada verso que entrava em discussão, sem attender á coherencia do todo. É provavel que se propozessem a celebrar os mais famosos bebedores Evorenses, aos quaes alludissem, e talvez nomeassem por seus proprios nomes ou apellidos. Toscano, que os devia conhecer, assim o indica quando diz que tinha feito varias cotas a esta parodia para melhor se entender. Com effeito na est. XXX se faz menção de um _Pero Vaz_, que provavelmente é o mesmo christão-novo, bebado perdido, auctor do epigramma latino de que falla a noticia. Infelizmente para a historia da _Borracheologia Lusitana_, cotas e epigramma tudo se perdeu.

Os collaboradores d'esta innocente profanação litteraria não são inteiramente desconhecidos. _Manoel do Valle de Moura_, natural de Arrayolos no Alemtejo, doutorou-se em Theologia na Universidade d'Evora, e chegou a ser Arcebispo d'esta diocese e Inquisidor geral. Contava vinte e cinco annos quando concorria para esta composição, e chegou a uma avançada idade. Além da obra _De Encantationibus et Ensalmis_, de que falla Toscano, e outras de não menor utilidade, Barboza o faz auctor de uma _Illustração á primeira Ode de Camões_. De certo não fez pouco Sua Rev.^{ma} se conseguiu lançar alguma luz sobre aquelle confuso ou estropeado poema. Nem _Bartholomeu Varella_, nem o Licenciado _Manoel Luiz_, tiveram a honra de encher as columnas da Bibliotheca Lusitana; mas João Baptista de Castro de ambos faz menção no seu Mappa de Portugal. Não é comtudo a Varella, como elle pensa, que cabem os louvores que lhe dá por esta composição burlesca. Manoel Luiz Freire--que assim lhe chama um Padre Francisco da Cruz, citado por Castro,--se deve ter como o principal e mais chistoso collaborador desta obra. As unicas noticias biographicas que d'elle sabemos, são as apontadas por Toscano em sua noticia. O quarto dos theologos, e ao que parece o mais theologo de todos, foi o pobre _Luiz Mendes de Vasconcellos_, cujo ronceiro estro só lhe pôde inspirar um unico verso.
Não se confunda este obscuro individuo com o auctor do _Sitio de Lisboa_ e da _Arte militar_, supposto fossem contemporaneos. Um dedicou-se á Egreja, o outro ás armas.

Esta parodia chegou a alcançar certa celebridade, ainda que até agora nunca fosse impressa. Eis-aqui o que d'ella diz Faria e Souza, falando de outra de um soneto de Garcilasso, attribuida a Camões: «Lo que mi poeta hizo conquel soneto de Garcilasso, pasándose de tanta gravedad a tanta picardia, hizo otro ingenio Portuguez con el canto 1.º de su Lusiada, intitulándole _Borrachera_; porque celebra en él á algunos aficionados del vino; y las mas de las otavas son bueltas á este proposito con gran felicidad.» E depois de dar como amostra os quatros primeiros versos da 1.^a oitava, prosegue: «El canto 2.º continuó (y no con menos felicidad) _Antonio de Magallanes y Menezes_, señor de la Ponte da Barca, que este ano de 1645, aqui en Madrid, me referió algunas estancias. Yo, quando en mi mocedad atendia á esto, bolvi tambien algunas, de que se me acuerdan los primeros quatro versos de la 90 del canto 5.º, que son:

Da boca de facundo capitão, &c.

y mi rebuelta dice deste modo:

Da boca do fecundo borrachão
Pendendo estavam todos bem bebidos,
Quando deu fim a grande inundação
Dos altos copos grandes e subidos!»

(_Comment. ás Rim. Tom. 1.º pag. 354_).



"Andrew", Jim Ferringer (2014)



FESTAS BACCHANAES:

CONVERSÃO DO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DO GRANDE LUIZ DE CAMÕES VERTIDOS DO HUMANO EM O DE-VINHO POR UNS CAPRICHOSOS AUCTORES: S.

O DR. MANOEL DO VALLE, BARTHOLOMEU VARELLA, LUIZ MENDES DE VASCONCELLOS, E O LICENCIADO MANOEL LUIZ, NO ANNO DE 1589.

*       *       *       *       *

NOTICIA.

Esta obra da conversão do primeiro canto do poema de Luiz de Camões se fez no anno de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o _Dr. Manoel do Valle_, deputado da Santa Inquisição, que compôz o livro dos Ensalmos em latim, que agora imprimiu: outro foi _Bartholomeu Varella_, natural de Vianna, junto a Evora, o qual falleceu, que era irmão de Diogo Pereira, que foi este anno ás Côrtes, que El-rei D.
Filippe II fez em Lisboa, por Procurador d'esta cidade de Evora. Foi Bartholomeu Varella clerigo e grandissimo poeta. O terceiro foi _Luiz Mendes de Vasconcellos_, criado do Arcebispo D. Theotonio; o qual posto que não era poeta, se achou ao fazer da obra; e só fez um verso, que é o ultimo da oitava 17; porque estando elles suspensos no cuidado de completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

_Porque este é o que aguenta a velha idade_, acudiu o dito Luiz Mendes, concluindo:

_Desterrando a agua-pé d'esta cidade._

O quarto e principal auctor foi o Licenciado _Manoel Luiz_, Bacharel; e este anno de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor d'esta obra, e a fez quasi toda, ou o melhor d'ella.

Quando a fizeram eram então todos theologos; e ás tardes, acabado o estudo, sahiam pela porta de Machede, e assentados em um ferrageal, iam traduzindo para a bebedice as taes oitavas de Camões, fingindo uma embarcação de Lisboa para Evora, como Camões a de Portugal para a India Oriental; e compozeram a tal obra dentro em dois mezes, no cabo dos quaes sahiram com ella: sendo que já os estudantes suspeitavam de alguma applicação (posto que não soubessem de certo o que era) pelos verem ir todas as tardes para fóra dos muros, e communicarem seus papeis, sem darem conta d'isso a ninguem.

Finalmente, sahida a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e lendo-a o Padre Ferrer, castelhano (varão doutissimo da Companhia, do qual o Dr. Manoel do Valle traz uma carta no seu livro) e fallando-se n'ella, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca sahira nem elle vira, se não fosse tão suja.

Depois, como se divulgou, cada um a quiz emendar como entendia, d'onde vem andarem hoje as copias com tanta diversidade de leituras. Porém eu, esta que aqui vae, a trasladei do proprio original e letra de Bartholomeu Varella, que está em poder do Chantre da Sé d'esta cidade, Manoel Severim de Faria, que a houve do dito Varella, e lhe fiz algumas cotas para intelligencia da obra.

Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu _Francisco Soares Toscano_ o fiz aos 10 de Janeiro de 1619.


FESTAS BACCHANAES.

ARGUMENTO.
_Fazem concilio os bebados de porte,
Oppõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;
Favorece-os o Catigela forte,
No Lamarosa tem seu lava-dente.
De inveja Lyeo lhes busca a morte,
Descendo a Monte-mór contra esta gente,
Que vê em rio Mourinho a acção traidora,
E a Peramanca chega vencedora_.

I.
Borrachas, borrachões assignalados,
Que de Alcochete junto a Villa Franca,
Por mares nunca d'antes navegados
Passaram inda além de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforçados,
Mais do que se permitte a gente branca,
Em Evora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:

II.
Tambem as bebedices mui famosas
D'aquelles que andaram esgotando
O imperio de Baccho, e as saborosas
Agoas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valerosas
Se vão das leis do reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baccho, e não Marte.

III.
Cessem do Novellão, do gran Barbança
As grandes bebedices que fizeram;
Cale-se do Rangel e do Carrança
A multidão dos vinhos que beberam,
Que eu canto d'outra gente e d'outra lança,
A quem frascos de vinho obedeceram:
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro beber mais alto se alevanta.

IV.
E vós, bacchanaes nymphas, pois creado
Em mim tendes a sêde tão ardente,
Se sempre em largo copo espraiado
Festejei vosso vinho alegremente,
Dae-me agora um bom papo despejado
Para beber á perda co'esta gente,
Porque de vossas agoas Baccho ordene
Um rio para bebados perenne.

V.
Dae-me uma vasilha mui cheirosa,
Seja de bom licor, não saiba a arruda,
De Peramanca seja que é gostosa,
O peito esforça, a côr ao gesto muda;
Dae-me igual nome ás tassas da famosa
Gente vossa que Baccho tanto ajuda;
Que se espalhe, e se cante no universo,
Se tanta bebedice cabe em verso.

VI.
E vós, Fernan Gonçalves, segurança
Das festas de Lyeo em esta idade,
Podeis atravessar com confiança
Quantas adegas ha n'esta cidade:
Vós, mano, nosso amor, nossa esperança,
A quem só promettemos lealdade,
Pois Baccho a nós vos deu por cousa grande,
Seja a medida assim de quem a mande.

VII.
Vós só tendes o ramo florescente
Da arvore de Cybele mais amada,
Que nenhuma nascida em Benavente
Ou pelo rio abaixo até Almada.
Vêde-o nas toalhas, que presente
Vos mostra a bebedice já passada,
Nas quaes vivas lembranças vos deixou
O que de vinho mais se carregou.

VIII.
Vós, alto taverneiro, cujo imperio
O bebado em se erguendo vê primeiro,
Ou beba n'este nosso hemisferio,
Ou beba lá n'esse outro derradeiro:
E nem por isso sente vituperio
O fidalgo, o estudante, o cavalleiro,
Antes o Turco, o Mouro, e o Gentio
Lhes pêza não beber do vosso rio:

IX.
Inclinae por um pouco a magestade,
Que no azamboado rosto vos contemplo,
Quando fordes c'os mais d'esta cidade
Offertar-vos a Baccho no seu templo:
Os olhos da real bebecidade
Ponde no borrachão, vereis exemplo
De amor de vossos vinhos saborosos
Por bebados louvados espantosos.

X.
Então vereis se sois bem conhecido
De todos os amigos de Falerno;
Que não é pouco ser obedecido
No estio, primavera, outono, inverno:
Ouvi, vereis o nome engrandecido
D'aquelles de quem sois senhor superno;
E julgareis qual é mais excellente
Se ser do mundo rei, se de tal gente.

XI.
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas
Fantasticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
Bebedices dos vossos são tamanhas,
Que excedem as sonhadas fabulosas,
Que excedem ao primeiro vinhateiro,
E a Baccho inda que fôra verdadeiro.

XII.
Por estes vos darei um Claudio fero,
Que fez a Peramanca tal serviço,
Um fulano Coutinho, que de mero
A borracha para elle só cubiço.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Uns doze que sobre um pobre chouriço
Entornaram tão rijo que de cama
Um monte lhes serviu d'esterco e lama.

XIII.
E se a troco de Nun'alvres e Barbança
Ou do Luna quereis igual memoria,
Vêde primeiro a Pedro, cuja lança
No beber escurece qualquer gloria;
E aquelle que do enxame a segurança
No copo só quiz ter, por ter victoria;
Aquelle Diogo, invicto cavalleiro,
Que em quatro não é quarto, mas primeiro.

XIV.
Nem deixarão meus versos esquecidos
Aquelles que na sêde gastadora
Se fizeram no copo tão subidos,
De Lyeo a bandeira vencedora:
Um Daniel fortissimo e os temidos
Lacaios, por quem sei que sempre chora
Da Chamusca e Louredo o vinho forte,
E outros a quem Thetis causa a morte.

XV.
Em quanto a estes canto, e a vós não posso,
Bom Fernando, que não me atrevo a tanto,
Essa mão alargae ao vinho vosso,
Dareis materia a nunca ouvido canto.
Começarão a fugir d'agoa do poço
Os que em vêl-a sómente tem espanto,
Que em pagodes, merendas e jantares
Empinar querem só de Baccho os mares.

XVI.
Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Frio, que usar de vós lhe não é dado;
Pelo contrario o barbaro gentio
Com desejo de ver-vos 'stá squentado;
Peramanca o vermelho senhorio
Vos tem s'enviuvaes apparelhado;
Que pois em dar seus bens sois brando e tenro,
Deseja de comprar-vos para genro.

XVII.
De Castella se veem n'essa morada
Agoas de duas côres deleitosas,
Quando a nossa cidade está esgotada,
Inda que o gesso as faz menos gostosas;
C'o licor novo espera ser tirada
A reima das entranhas sequiosas,
Porque esse é o que aquenta a velha idade
Desterrando a agoa-pé d'esta cidade.

XVIII.
Mas em quanto com novo não me alento,
Reparti com os pobres que o desejam;
Ide largando d'elle, com intento
Que seus poucos reales vossos sejam.
Assi recolhereis o nosso argento,
E de todos aquelles que festejam
Por tal ordem a Baccho celebrado,
Que costumam beber cada bocado.

XIX.
Já de lá d'Alcochete caminhavam,
As fermosas borrachas apertando,
E depois de vasias as largavam,
Outras d'outro licor melhor tomando,
De branca escuma os copos se mostravam
Cubertos ao beber não lhe assoprando;
Mas as agoas nem doces, nem salgadas
D'ellas vistas não foram nem provadas.

XX.
Quando Francisco, bebado espantoso,
Que em copo, frasco, taça é eminente,
Se ajuntou em conselho, desejoso
De dar favor a toda aquella gente.
Pisando esse caminho tão famoso
Da rua das adegas prestemente,
Convocados da parte do entornante
Por um já n'outro tempo bom tocante.

XXI.
Deixam dos sótãos frios o aposento
Que para beber n'elles lhe foi dado,
Obedecendo logo ao mandamento
De um bebado tão nobre e tão honrado.
Alli se acharam juntos n'um momento
No bairro de Reimonde celebrado,
Os da Porta d'Avis e outros onde
As suas casas grandes tem o Conde.

XXII.
'Stava Francisco alli sublime e dino,
Vermelho como os raios de Vulcano;
Por sceptro tinha um copo crystalino
De cheiroso licor, mas não d'este anno;
Da boca lhe sahia um ar tão fino,
Que em vinho convertêra um tigre hyrcano;
Dos ramos tinha c'rôa rutilante
Em que tornou a Daphne seu amante.

XXIII.
Em lagariças, dornas assentados,
Cubertos de mosquitos que voavam,
Os mais bebados são agasalhados,
Sem ordem nem razão se assentavam.
Precedem os menores aos honrados;
E assi uns pelos outros se trocavam:
Quando Francisco alto assi dizendo,
Com tom de voz começa grave e horrendo:

XXIV.
Moradores de donde antigamente
Teve Sertorio casa e certo assento,
Se do grande beber da forte gente
De Baccho não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
Como é dos fados grandes certo intento
Que por elles s'esqueçam Castelhanos,
Flamengos, Allemães, Italianos.

XXV.
Já lhe foi, bem o vistes, concedido
A um bebado d'estes mais pequeno
Sogigar Caparica e ter bebido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Camarate lhe tem obedecido,
Póvos se lhe mostrou brando e sereno;
Para que é mais cansar? cousa é notoria
D'Ourem e Figueiró levaram gloria.

XXVI.
Deixo, bebados, toda a fama antiga
Que lá dentro em Lisboa uns alcançaram,
Quando com dez Tudescos n'uma briga
No nosso officio tanto se afanaram.
Tambem deixo a memoria que os obriga
A grande nome quando se tomaram
C'um soldado Hollandez, c'um Biscainho,
Quando a carga do frasco era só vinho.

XXVII.
Agora vêdes bem que vem bebendo,
E cada qual já traz seu couro leve,
Pelas charnecas sêccas, não temendo
Sequidão dos Pegões, a mais se atreve;
Que havendo tantos já que as partes vendo
Onde o copo comprido tem por breve,
Inclinam seu proposito e porfia
A ver os vinhos que Evora teria.

XXVIII.
Promettido lhe tem Baccho o governo
Da rua das adegas celebrada,
Onde vinhos lhe tem que os de Falerno,
Os do Rhim, ou de Alcache tem em nada.
Bem sabeis que se vem chegando o inverno,
Esta gente vem sêcca e esgotada,
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada Peramanca que deseja.

XXIX.
E porque, como ouvistes, tem passados
Na viagem tão asperos perigos,
Tantos vinhos vinagres esgotados,
Nas Vendas novas, nos Pegões antigos;
Que sejam determino agasalhados
Entre as quintas aqui de seus amigos,
E enchendo cada qual a sua bota
Comecem a seguir sua derrota.

XXX.
Taes palavras Francisco assi dizia,
Quando todos sem ordem respondendo,
Na sentença um do outro differia,
Razões diversas dando e recebendo.
Mas Pero Vaz alli não consentia
No que Francisco disse, conhecendo
Que esqueceria um bebado eminente
Se cá viesse beber aquella gente.

XXXI.
A bebados ouvira que viria
Uma gente de copo tão estranha,
Pela charneca, a qual esgotaria
Tudo quanto Louredo e Lagem banha;
E com beberes novos venceria
A todos os famosos d'Allemanha.
Altamente lhe dóe perder a gloria
Na taça em que de todos tem victoria.

XXXII.
Vê que de Evora teve sogigado
Os bebados e o vinho, e nunca caso
Lhe tirou por insigne ser louvado
Té dos imigos d'agoa do Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu tão celebre nome em negro vaso
D'agoa do esquecimento, se lhe chegam
Os bebados insignes que navegam.

XXXIII.
Sustentava contra elle o Catigela,
Affeiçoado á gente bebedana,
Por quantas bebedices vira n'ella,
Jantando em Alcochete uma semana.
Affeiçoado vem da gente bella,
Que por brazões os copos tem ufana,
De quem a lingua é tal, se o copo empina,
Que ora parece grega, ora latina.

XXXIV.
Estas cousas se movem em uma cêa
Onde apenas um ao outro s'entende,
Um d'elles tem a vinda em boa estrêa,
Outro ás picheladas a defende;
Assi que um pela infamia que recêa,
E outro pelo gasto que pretende,
Porfiam, arrebessam, permanecem,
A quasquer seus amigos favorecem.

XXXV.
Qual o fervente mosto em talha escura,
Quando a tinta lhe lançam espremida,
Por aqui, por alli sair procura
Com impeto e braveza desmedida;
A adega brame toda co'a fervura,
Bota o bagulho fóra a escuma erguida,
Tal andava o tumulto levantado
Entre um bebado e outro apaixonado.

XXXVI.
Mas um que a esta gente sustentava,
E d'entre todos elles mais bebia,
Ou porque o amor do vinho o obrigava;
Ou porque o seu beber o merecia,
Tremelicando alli se levantava,
Olhando a quem primeiro brindaria;
Um borrachão famoso pendurado,
Trazia ao tiracolo ao esquerdo lado.

XXXVII.
Do pichel a viseira rutilante
Levantada, de vinho branco e puro,
Por dar-lhe de beber a pôz diante
De Francisco com taes armas seguro,
E dando uma pancada penetrante
C'o grande borrachão no sólo duro,
O chão tremeu, e um d'elles de torvado,
Uma gran vez tomou sobre um bocado.

XXXVIII.
E diz: Ó bebado alto, a cujo imperio
Os vinhos obedecem que encerraste,
Se aquelles que em ti buscam refrigerio,
Cujo beber soberbo tanto amaste,
Não queres que padeçam vituperio,
Pois que esta adega hoje lhe mostraste,
Não ouças mais, pois bebado és direito,
A quem em bebedices é suspeito.

XXXIX.
Porque se o copo aqui se não mostrasse
Vencido d'esta gente e infamado,
Bem fôra que aqui Baccho o sustentasse,
Que o territorio seu deixa esgotado,
Mas esta tenção sua agora passe,
Porque em fim vem de estomago danado;
E nunca beba mais vinho de Beja
Quem do beber alheo tem inveja.

XL.
E tu pois que padre és da borracheza,
Não consintas que bebam por canada;
E porque mostres mais tua grandeza,
Com pipas, quartos seja agasalhada:
Tragam-lhe alguns leitões lá da deveza
De conserva azeitona e retalhada,
Sardinha de Liceira que é conforme
Que a sêde se repare e se reforme.

XLI.
Como isto disse o bebado famoso
O grão Francisco ledo consentiu,
E uma taça de vinho mui cheiroso
Logo sobre elles todos esparsiu.
Cada um pelo caminho desgostoso
Da rua das adegas se partiu,
Providos de beber seus instrumentos
Tornaram para os frios aposentos.

XLII.
Em quanto este conselho na famosa
Adega se passou, aquella gente
Pisando a charneca sequiosa
Beber deseja d'Evora a agoa-ardente.
E chegando á Amieira lamarosa,
Onde o caminho vem de Benavente,
Se algum licor trazia de Lyeo,
Sem gota lhe ficar alli o bebeo.

XLIII.

Tão rijamente os odres despejavam
Como em terra que tem de vinho abrigo;
Mas se tanto bebiam confiavam
No Thomé dos Pegões que era amigo.
Á desejada venda já chegavam
Onde os abraça o seu compadre antigo;
E em signal que da vinda se alegrava,
Novos vinhos que tinha lhe mostrava.

XLIV.

Vasco Bagulho que era o capitão
Que ás Bacchanaes venturas se offerece,
De soberbo e altivo borrachão,
A quem fortuna em copo favorece,
Para se aqui deter não vê razão,
Que a terra não dá vinho ao que parece.
Por diante passar determinava
Mas impediu-lh'o o vinho que chegava.

XLV.

Eis que apparece logo em companhia
Uma recova d'asnos de Castella,
Que gran copia de vinho lhe trazia,
Que foi fermosa vista, cousa bella.
Alvoroçam-se todos de alegria,
Desejam já provar a causa d'ella:
Que tal será o vinho alli diziam,
De que logares estes o trariam?

XLVI.
Os seus borrachões eram de maneira
Que pipas pareciam mui compridas,
Agasalha-os com festa a taverneira
Por suas taças ver melhor providas,
O vinho bota em vasos de madeira.
Enchendo do restante as mais medidas.
Senta-se á meza logo em continente,
Para beber tambem com esta gente.

XLVII.
E do que os Castelhanos vem providos
Começam a comer todos sentados,
Que uns d'azeitonas vem apercebidos,
Outros de uns pexinhos bem salgados.
E os que de manjares vem despidos,
Começam a mandar vir alhos assados,
E sobre isto aos outros vão brindando,
Os castelhanos vinhos festejando.

XLVIII.
Estando assi comendo, eis que chegavam
Outros que lhes pediam que esperassem,
Porque para beber desafiavam
Os mais famosos tres que alli se achavam.
Vinho trazem tambem, o qual gavavam,
Pedindo aos assentados que provassem:
Para provar do vinho um fóra salta,
Que no beber aos outros mais se exalta.

XLIX.
Não tem descarregado a agoa-ardente,
Quando o que saltou fóra já bebia;
Começa de gaval-o á sua gente,
Dizendo que parece malvasia.
O tarverneiro então em continente
Tal gente recebeu com alegria.
Enchem vasos de vinho e do que deitam
Os que vem e os que estão nem gota engeitam.

L.
Comendo alegremente perguntavam,
Com lingua onde as palavras se detinham,
D'onde era o licor branco que gostavam
E se vermelho entre elle tambem tinham.
De Castella os marranos lhe tornavam
Que si, e suas mercês de donde vinham?
Disse um d'elles: De junto a Benavente,
Vimos a Evora a beber sómente.

LI.
De Riba-tejo temos já provado
Os vinhos, e as adegas temos visto,
Caparica deixamos esgotado
_Molto sudando nel glorioso acquisto_.
E de um bebado somos tão amado,
Tão querido de todos e bem quisto,
Que não no largo mar com leda fronte,
Mas de vinho entraremos n'uma fonte.

LII.
E por mandado seu buscando vamos
A terra que Louredo em torno rega,
Depois que os quartos todos esgotamos
Da Telha, Lavradio, Aldea-gallega.
Mas já razão parece que saibamos,
Se entre vós a verdade se não nega,
Quem sois, que vinho é este que buscaes,
E se tendes do d'Evora alguns signaes.

LIII.
Somos, um dos do vinho lhe tornou,
Estrangeiros na terra e na nação,
Que os proprios são aquelles que criou
A terra que sovado come o pão.
A lei cega tivemos que ensinou
Aquelle descendente de Abrahão,
Que vinho não bebeu quente nem frio;
_Intendami chi può, che m'intend'io_.

LIV.
Esta pequena venda aonde estamos
É de nossa passagem certa escala,
Onde ás vezes taes vinhos nós gostamos,
Que acontece ficar homem sem falla.
E por ser terra esteril procuramos,
Cada vez que passamos, visital-a.
Comem aqui e bebem tanto a pique,
Que prometto que o Fuentes cedo enrique.

LV.
E pois que tantos odres despejaes
Se d'Evora buscaes o vinho ardente,
Guiando-vos irei, té que sejaes
Postos em Monte-mór seguramente,
Onde será bem feito que vejaes
O tridentino André que é o bebente
Que essa terra governa, e que vos veja,
Para que d'alguns vinhos vos proveja.

LVI.
Dizendo isto o Mourisco carregou
Os seus odres, deixando a companhia,
D'ella e do vendeiro se apartou;
Bebe cada um sua vez por cortezia;
Os novos companheiros acceitou
Com mostras de prazer e d'alegria,
Dizendo a cada um que caminhasse,
E quem beber quizesse que o tomasse.

LVII.
A noite se passou na leda frota
Com estranha alegria não cuidada,
Por acharem em terra tão remota
A venda nova d'elles desejada.
Disse o Mourisco alli: Venga la bota!
Na castelhana lingua d'elle usada.
Elles que no beber tanto se esmeram,
A seu mandado logo obedeceram.

LVIII.
Do vinho alegres côres rutilavam
Pelas taças de vidro crystallino;
As velhas azeitonas que lhes davam
Festejam mais que flôres e boninas,
Da venda os taverneiros s'espantavam
Do cheiro e do sabor das agoas finas,
Porém a demais gente não provava
O bom licor que entre esta se brindava.

LIX.
Mas assi como a Aurora marchetada
As fermosas borrachas lhe mostrou
Áquella gente meia atordoada,
Cada qual d'elles sua vez tomou.
Começa a embebedar-se a camarada,
Que de fermosos frascos se adornou,
Para beber com festa e alegria
C'o bebedor da terra que partia.

LX.
Partia alegremente, desejando
De beber já com gentes tão ufanas,
Que por charnecas sêccas caminhando,
Vem a beber em terras Transtaganas.
A borracha que traz vem empinando
Do licor que se vende não com canas.
Já chega, mas sem gota o Tridentino;
E quem sem gota está é bem mofino.

LXI.
Recebem-no alli alegremente,
O Mourisco com sua companhia,
E dá-lhe d'azeitonas um presente,
Que para tal effeito já trazia.
Dá-lhe sardinha frita; salta o ardente
Licor, com que elle tem tanta alegria.
Tudo o Marques contente bem recebe,
Mas triste está com ver que ninguem bebe.

LXII.
Estava o Granadino mui confuso
Com ver que não tem já de vinho nada,
Com que brinde ao bebente, como é uso,
Que para o receber fez tal jornada.
Reprende o companheiro seu abuso,
Pois sequer não deixára uma canada
Para enxaugoar a boca ao que trazia
Do fresco Monte-mór a alegre via.

LXIII.
Porque em chegando diz que ver deseja
Do vinho os instrumentos; que não crê
Que tão honrada gente alli esteja,
Sem terem pelo menos agoa-pé.
Mas os outros a quem nada sobeja
Do licor da boa planta de Noé,
Aos vendeiros pedem que alli 'stavam,
Das fundagens que para si guardavam.

LXIV.
E disse um d'elles: pois que em tal sazão
Viemos que entre nós nem gota havia,
Quero-vos dar alguma informação
De nós, em quanto o vinho lá se avia.
Posto que granadino é de nação
Este homem que nos serve aqui de guia,
Perto está de Lisboa a patria nossa,
Buscamos Peramanca amada vossa.

LXV.
Deixamos esgotado todo o imperio
Que Baccho em nossas terras tem visivel;
Vimos correndo agora este hemispherio,
Porque beber por lá não é soffrivel:
E posto que sofframos vituperio,
Por um largo beber tudo é soffrivel:
Que melhor é vergonha em quem bebeu,
Que a dôr por não soffrer q'outrem soffreu.

LXVI.
Porque bastava só vinho infinito,
Que não ha nem gota já na companhia,
Que é tal, e no beber tem tal esp'rito,
Que inda um Tejo de vinho esgotaria.
Se as vasilhas quer ver como tem dito,
Cumprido esse desejo te seria:
Vasias as verás, que eu me obrigo
Que sempre assi 'starão, s'imos comtigo.

LXVII.
Isto dizendo mostram diligentes
Os vasos com que apagam as seccuras;
Mostram fermosos frascos e as pendentes
Borrachas que em caminhos são seguras:
Os odres nas medidas differentes,
Cobertos d'encouradas vestiduras:
Outras borrachas trazem por aljavas,
De còrno copos grandes, taças bravas.

LXVIII.
Chega n'isto o vendeiro diligente
Com as suas fundagens saborosas;
Bebe d'ellas André alegremente,
Desafiando as gentes tão famosas.
Mas d'entre elles um bebado valente
Responde-lhe que as gentes valerosas
Não sahiam a um; e com razão,
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

LXIX.
Mas d'isto que André Marques bem notou
E de tudo o que ouviu no copo attento,
Um odio certo n'alma lhe ficou
Uma vontade má de pensamento.
Nas obras e no gesto o não mostrou,
Mas com risonho e ledo fingimento
Tratal-os brandamente determina,
Até que mostrar possa o que imagina.

LXX.
Piloto lhe pedia o capitão
Por quem podesse a Evora ser levado,
Polo qual lhe daria um borrachão
De vinho de Valbom que é extremado.
André lh'o prometteu, mas com tenção
De peito venenoso e tão danado,
Que a morte, se podesse, n'este dia
Em logar de piloto lhe daria.

LXXI.
Tal odio lhe ficou e má vontade
Da resposta que aquelle lhe tornou,
Que agoa lhe ordena dar com falsidade
Em logar do licor que Noé deixou.
Oh que caso cruel! oh que maldade!
Que de uma só palavra que soltou
D'este que elle buscava como amigo
O faz ficar seu perfido inimigo!

LXXII.
Partiu-se n'isto André, sem companhia
Dos bebados que tinha despedido,
Com engano seu e grande cortezia,
O gesto ledo a todos e fingido.
Já sobre seu asninho se subia
Com vinho de que ia apercebido,
E quando se desceu no aposento
Não levava a borracha mais que vento.

LXXIII.
Da rua das adegas o Thebano,
Que da parternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento tão ufano,
Ser do seu bom André aborrecido,
No pensamento cuida um falso engano
Com que seja de todo destruido.
E em quanto isto n'alma imaginava
Um borrachão tomando assi fallava.

LXXIV.
Está do Fado já determinado
Que em tantas bebedices tão famosas
Se tenham d'estes bebados achado,
As suas taças sempre victoriosas;
E eu Baccho tão sublime e tão honrado
Bebado, e mais de partes tão honrosas,
Hei de soffrer que o Fado favoreça
Outrem por quem meu copo se escureça?

LXXV.
Já quizeram os Fados que tivesse
Esta genta victoria n'esta parte,
Cujos campos o Tejo reverdece;
E que com tanto vinho não se farte!
Pois não se ha de soffrer que o Fado desse
A tão poucos tamanho esforço e arte,
Que venham beber vinho transtagano,
Abatendo o gran nome do Thebano.

LXXVI.
Não será assi: porque antes que chegado
Seja Vasco Bagulho, astutamente
Lhe será tanto engano fabricado,
Que nunca beba d'Ev'ra o vinho ardente.
A Monte-mór irei, e o indignado
Peito rovolverei do bom bebente:
Porque sempre per via irá direita
Aquelle que no vinho agoa não deita.

LXXVII.
Isto dizendo irado e quasi insano
N'esse Monte-mór fresco se desceu,
Onde tomando a fórma e gesto humano,
Para onde estava o Marques se moveu:
E por melhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
De Talha-manco muito seu valido,
Um Taverneiro velho conhecido.

LXXVIII.
Estando assi bebendo co'elle a horas
Á sua falsidade accommodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras.
Estas que ora de novo são chegadas,
Que das gentes nas vendas moradoras
Correndo a Fama veio que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que sob capa de paz sempre ancoravam.

LXXIX.
E sabe mais, lhe diz, como entendido
D'estes bebados tenho bagulhentos,
Que deixam Riba-tejo destruido
Em beber com incendios violentos:
E trazem já de longe o engano urdido
Contra nós; que todos seus intentos
São para os nossos vinhos esgotarem,
E pipas, toneis, quartos, despejarem.

LXXX.
E tambem sei que tem determinado
Da virem buscar vinho aqui mui cedo,
Mas ter-lhe-hemos um tal ardil traçado
Que não cheguem a ver o de Louredo.
Á justiça darás logo recado
Que estes galantes prenda, que sem medo
Pelo caminho roubam, pela estrada,
E só com furtos bebem na jornada.

LXXXI.
E se assi não tivermos d'este feito
Impedido o caminho totalmente,
Eu tenho imaginado no conceito
Outra manha e ardil que te contente.
Manda-lhe aqui dar guia que de geito
Seja astuto no engano e tão prudente,
Que os leve adonde sejam submergidos,
Onde a agoa dê fim a seus sentidos.

LXXXII.
Tanto que estas palavras acabou,
O Tridentino André, bebado velho,
Os braços ao pescoço lhe lançou,
Agradecendo muito o tal conselho.
Em se apartando d'elle concertou
Para os poder prender todo o apparelho,
Com que em puro desgosto lhe tornassem
D'Evora o vinho puro que buscassem.

LXXXIII.
E busca mais para o cuidado engano
Um homem que d'alli com elle mande,
Sagaz, astuto, sabio em todo o dano,
De quem fiar se possa um quarto grande.
Diz-lhe que acompanhando o Alcochetano
Por ribeiras, por charcos com elle ande,
Que se d'aqui passar, que lá adiante
Vá cahir onde nunca se levante.

LXXXIV.
Já o carro d'Apollo caminhava
Pelo nosso horizonte, quando erguido
O bom Vasco c'os seus determinava
De vir por vinho á terra apercebido.
Os borrachões a gente desatava,
Corre-se cada qual não ter bebido;
E do que á venda veio novamente
Beberam todos logo em continente.

LXXXV.
Assi se vem chegando junto á terra
Para tomar o vinho necessario;
Mas o Marques o vinho todo encerra
Só pelo não beber o seu contrario.
Porém Vasco Bagulho que não erra
Em não se fiar d'este adversario,
Apercebido vem como podia
E entra em Monte-mór com alegria.

LXXXVI.
O grão Marques que o vê logo desmaia,
Diz á Justiça que ande apparelhada
De pistolete, chuça e azagaia,
De rodela, de casco e boa espada;
E que em dando recado logo saia,
Porque tome esta gente atordoada.
E para que melhor isto se faça
Vae-se beber com elles per negaça.

LXXXVII.
Bebendo André co'a gente sequiosa,
Andam os beleguins fóra espreitando,
E co'a chuça e azagaia perigosa
Ao Marques se entraram acenando.
Mas a gula que estava desejosa
De beber, sem recado vão entrando.
Qualquer se lança ao copo tão ligeiro,
Que nenhum dizer póde que é primeiro.

LXXXVIII.
Qual pobre ajuntamento d'estudante
De quatro, cinco ou seis de camarada
Que vê que é pouco o vinho e não bastante,
Que ha para todos só uma canada;
Qualquer d'elles pertende andar diante,
Por lhe não tocar vez esfarrapada:
Tal pressa ha nos de fóra e nos da terra,
Mas todos se vão já chegando á serra.

LXXXIX.
Eis no estomago o fumo se levanta
Da furiosa e quente companhia,
Que de tal modo bebem que se encanta
O vendeiro que o vinho lhes vendia.
A multidão dos fumos era tanta
Do vinho que á cabeça lhes subia,
Que logo o Alcaide foge de medroso,
De que o Marques ficou mui desgostoso.

XC.
Não deixam os que ficam sua empreza,
Mas o muito que bebem mal os trata,
Que se o beber tomavam por defeza,
Esse mesmo beber os desbarata.
Alegres ficam todos sem tristeza,
Já julgam a amizade por barata,
E trocam seus enganos á porfia
Pelo amor que do vinho lhes nascia.

XCI.
Vae-se cada um a casa retirando,
Porque quer vomitar muito apressado;
Quem arrota, e alli vae engulhando,
Na boca mette a mão desatinado.
O vendeiro fugiu, desamparando
A venda, do beber amedrontado;
Gloriam-se os que ficam do seu braço
Que a tantos afugenta em breve espaço.

XCII.
Uns deixam por alli suas espadas,
Dos outros quem a leva não o sente;
Quem se deixa cair ás tres passadas,
Quem bebe o vinho e o deita juntamente.
Arrombam as medidas ás pancadas,
Á parede se arruma o mais valente;
Assim que a gente d'antes inimiga
Com tão alto beber se torna amiga.

XCIII.
Passando isto, fica a camarada
Com gosto de haver feito tal empreza;
Manda logo fazer de vinho agoada,
Porque d'alli não quer outra riqueza.
Ficou a alma do Marques magoada,
No odio antigo mais que nunca acceza;
E vendo sem vingança tanto dano,
Sómente estriba no segundo engano.

XCIV.
Torna-se a elles, tendo-a já cozido,
Levando alguns refrescos que ha na terra,
Com um frasco de vinho mui comprido,
Mas sob capa de paz armado em guerra.
Piloto lhe offerece conhecido,
Dizendo que em taes vias jámais erra,
Com o qual se fizesse o que esperava,
Que a Evora os levaria confiava.

XCV.
O gran Vasco Bagulho, a quem convinha
Fazer já seu caminho desejado,
Que Borrachões não poucos cheos tinha,
Para buscar Louredo tão amado;
Recebendo o piloto que lhe vinha,
Foi d'elle alegremente agasalhado.
Despede-se com gran contentamento,
C'o guia, sem saber o falso intento.

XCVI.
Dest'arte despedida a gente honrada,
Começou a seguir o falso guia.
Não tinham meia legoa bem andada,
Quando do bom caminho se desvia.
O bom Vasco que não cahia em nada
Do grande engano que este tal lhe urdia,
D'elle mui largamente se informava
A que parte Louredo lhe ficava.

XCVII.
Mas o guia instruido nos enganos
Que o malvado do Marques lh'ensinára,
Leva-os por partes onde crueis danos
E morte em fim em agoas lhe prepara.
Diz-lhes que vão contentes, vão ufanos,
Que mui prestes verão a terra cara;
Porque elle caminhava por tal via,
Que cedo a Peramanca os levaria.

XCVIII.
E diz-lhes mais, com falso pensamento,
Que esta via por mais breve tomou,
Posto que um rio tem, mas sem tormento
E sem perigo sempre se passou.
O Bagulho que a tudo estava attento,
Muito com estas novas se alegrou;
E com grandes copadas lhe rogava
Os levasse por donde o porto estava.

XCIX.
O falso guia, porque determina
Dar-lhe porto, mas não qual elle pede,
Posto em Rio Marinho lh'o imagina
N'um pégo que em altura os mais excede.
Aqui o engano e a morte lhe maquina,
Para que tal beber com pressa véde;
E para o porto verem logo os chama
Onde lhe arma perderem vida e fama.

C.
Já para lá inclina a leda frota
E em chegando ao rio da cilada,
Um descalça o sapato, o outro a bota,
Para ir buscar a morte não cuidada.
Chega um bebado n'isto, que remota
Lhe parece esta gente e enganada,
E com duras palavras reprehendia
D'entrarem em tal pégo a ousadia.

CI.
Mas o malvado guia conhecendo
Ser manifesto o engano, n'um instante,
Se vae por uns outeiros acolhendo,
Corrido de não ir a sua ávante.
Os outros que ficavam 'stão tremendo,
Cuidando qu'inda o engano era diante;
Mas o que os tirou d'elle, mui contente
Lhes diz que irá com elles juntamente.

CII.
Ficam todos então com alegria,
Bebem e dão de beber ao que os guiava.
Um olha para o ceo, e diz que via
Mais luas do que d'antes costumava.
Duas luas a mi, Senhor, dizia,
Ao Mouro, ao infiel que vos aggrava.
Outro a um tronco diz; bebei, Senhora,
Senão deitar-vos-hei os olhos fóra.

CIII.
E tendo esta ribeira já passada,
Onde os quiz afogar o falso guia,
A torre appareceu n'uma assomada
Onde matou Giraldo a má vigia.
Á mão direita fica situada
Uma povoação de que bebia
A gente principal da nossa idade,
Peramanca é o nome da cidade.

CIV.
E sendo o capitão aqui chegado
Estranhamente ledo, porque espera
De ser alli mui bem agasalhado
Dos refrescos que ha n'aquella terra:
Eis vem frascos de vinho com recado
De Diogo que sabe a gente que era,
Porque Baccho já d'antes o avisára
Que de bom vinho alli os regalára.

CV.
Agasalha-os a todos como amigos;
Preza-se já cada um de fallar certo,
Dando conta de todos os perigos,
Que em caminho passaram tão desertos.
Não curam de lhe dar uvas nem figos,
Mas o licor que deixa o olho esperto.
Quer imitar cada um o gran Barbança
Que pôz n'este licor sua esperança.

CVI.
Aqui já vem tomar, livre d'engano
Anda esta gente pouco conhecida,
E debaixo de um vil e pobre panno
Tão alta bebedice anda escondida,
Quem bebe vinho velho, quem d'este anno,
D'um e d'outro s'entorna sem medida.
E assi favoreceu o Ceo sereno
A quem deixou por vinho o seu terreno.

FIM.




The Project Gutenberg EBook of Paródia ao primeiro canto dos Lusíadas de Camões por quatro estudantes de Évora em 1589, by Anonymous
Title: Paródia ao primeiro canto dos Lusíadas de Camões por quatro estudantes de Évora em 1589
Author: Anonymous
Release Date: December 20, 2006 [EBook #20149]
Language: Portuguese
Character set encoding: ISO-8859-1
Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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