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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A posteridade de Jorge de Sena está nas mãos de cada um de nós. (Jorge Fazenda Lourenço)


ENTREVISTA A JORGE FAZENDA LOURENÇO
POR TERESA CARVALHO, 04/06/2018

Foi a 4 de Junho de 1978 que desapareceu Jorge de Sena, já aquele que haveria de ser o mais empenhado estudioso da sua obra o admirava. Ao i, Jorge Fazenda Lourenço, poeta, professor de literatura e, até 2016, coordenador-editor das Obras Completas de Sena, revelou que quanto mais lê, fala ou escreve sobre o autor de “Metamorfoses” mais cresce o seu desconhecimento dele, como se o poeta lhe escapasse nas palavras que sobre ele de si se desprendem.

À distância de quase quatro décadas do desfecho de uma vida de andanças e mágoas, que tantas vezes emergem nos seus poemas, ora com ironia, ora com um lirismo dilacerado, ora ainda com uma rudeza sarcástica, inconformada, furiosa, já Jorge de Sena escrevia o seu primeiro “Epitáfio”: “Eu sou daquela espécie/ de quem se diz depois da morte:/ - a sua melhor obra foi morrer”.
A morte foi encontrar em Santa Barbara, na Califórnia, não tinha ainda completado 60 anos, o escritor indómito cujo vulto literário deitava demasiada sombra neste rectangulozinho de estrategas e carreiristas. Não se cansou o poeta de reivindicar a dignidade de ser quem era e como era. Dignidade - um outro nome de poesia, como propôs já Eduardo Lourenço.
Faz hoje 40 anos que Jorge de Sena desapareceu. A data é redonda como um seixo, mas quase tudo o resto se furta à regularidade, à lisura, à harmonia das formas comuns. A começar pelo seu trajecto existencial: difícil, acidentado, eriçado de angulosas e tristes surpresas, incompreensões, baixezas, traições, perfídias literatas, impossibilidades, a do regresso à pátria incluída. Tudo somado, faz avultar aquela “dor de haver nascido em Portugal / sem mais remédio que trazê-lo n’alma”.
Considerava-se um exilado mesmo antes de sair de Portugal, em 1959, por ocasião de um colóquio que lhe serviu de pretexto para se exilar no Brasil, depois da participação numa acção revolucionária mal sucedida. Andou terras e gentes, coleccionou nacionalidades como camisas se trocam. “Poeta-peregrino, expulso de cidade em cidade”, fez da poesia o seu grande lugar de viver. A um mês da morte recebe da secretaria de estado dita da Cultura o primeiro convite oficial (leu bem) para vir trabalhar para Portugal como director do Teatro D. Maria II. Queria aceder ao convite, mas já a vida se lhe gastara.
Não tendo embora conhecido Jorge de Sena, acabou por manter com ele um trato próximo, íntimo. Quando é que se iniciou esta convivência? Como é que tudo começou?
Jorge de Sena era para mim um poeta de que já tinha ouvido falar. Até que, no final dos anos 70 (do século passado!), saiu uma sucessão fabulosa de obras suas: “Os Grão-Capitães”, em 1976; a edição isolada de “O Físico Prodigioso”, a sequência “Sobre esta praia...”, e a reedição de “Poesia-I”, em 1977; as duas “Dialécticas da Literatura”, em 77 e 78; “Antigas e Novas Andanças do Demónio”, “Poesia-II” e “Poesia-III”, em 1978; e, finalmente, “Sinais de Fogo”, em 1979. Fiquei completamente varado pelo poeta; e digo poeta, porque em tudo o que ele escreveu é sempre legível o trabalho de um poeta. E em 1982 comecei a escrever sobre “o meu poeta”. Precisava de extravasar toda aquela admiração.
E o que é que escreveu?
Em geral, pequenas críticas aos livros que Mécia de Sena estava publicando depois da morte dele, faz agora 40 anos. O entusiasmo dos textos devia ser grande (a qualidade não sei), de tal modo que a Mécia quis saber de mim junto do Jacinto Baptista, que tinha sido meu professor de jornalismo e me aceitou como colaborador do semanário “O Ponto” (um jornal esquecido). Foi, portanto, através do Jacinto Baptista, o jornalista mais culto que eu conheci, que eu entrei em contacto epistolar com Mécia de Sena, que vim a conhecer, pessoalmente, quando ela veio a Portugal em 1984. A partir desse ano, e de uma forma gradual, como numa relação que se vai construindo e crescendo, fui ficando seu colaborador cada vez mais próximo. E temos uma longa correspondência. Em 1988, a Mécia desafiou-me a ir para Santa Barbara trabalhar no espólio do marido e estudar na Universidade da Califórnia, onde estive cinco anos. E aí a nossa cumplicidade aprofundou-se, num contacto, afectivo, quase quotidiano.
Soube que, entretanto, deixou de manter contacto com Mécia de Sena. O que aconteceu?
A última vez que estive com Mécia de Sena, foi em 2011, em Santa Barbara, para acertarmos pormenores de próximas edições da obra de Jorge de Sena. Mécia de Sena nasceu a 16 de Março de 1920. O peso dos anos era já então evidente. Continuámos a corresponder-nos por carta e a falar de vez em quando ao telefone. Numa das nossas últimas conversas, recordando os nossos mais de 30 anos de colaboração, Mécia de Sena falou-me de “como nos tínhamos feito um ao outro”. Até que, em meados de 2015, começaram a surgir barreiras à comunicação impostas pela família. Mécia de Sena estaria num processo de demência, desencadeado ou acelerado por uma queda numa época de Natal. Entretanto, a família obtém a sua interdição legal, considerando-a incapacitada para a condução da obra e não oferecendo qualquer mediação aos seus amigos, mesmo aos mais chegados. Um corte. Abrupto. Cruel. Como quem apaga alguém. Para sempre.
O convívio com o poeta já leva décadas, mas disse já que quanto mais lê e escreve sobre Jorge de Sena mais o seu desconhecimento dele aumenta. Quer explicar?
O que eu tenho percebido é que o conhecimento de uma obra como a de Jorge de Sena cresce com o conhecimento que vamos tendo de nós próprios e da humanidade de que somos feitos, incluindo nela a literatura e as artes, numa espécie de inter-relação que é singular a cada leitor, e que faz da obra do poeta um objecto singular também para ele, leitor. Nesse sentido, quanto mais conhecemos, mais fica por conhecer; mais ignorantes somos do objecto que queremos compreender. É como numa relação amorosa: quanto mais conhecemos a pessoa amada, menos sabemos dela, e, por isso, mais desejamos conhecê-la, e conhecê-la mais profundamente, pois esta forma de conhecimento é também uma forma de auto-conhecimento.
O Jorge Fazenda Lourenço é o que habitualmente chamamos um especialista de Jorge de Sena. Por cá, não é raro encontrarmos especialistas com uma ideia muito própria da literatura: um vasto domínio dividido em leiras, ou canteirinhos, com cercas à volta, espécie de feudos. E que ninguém se lembre de as galgar!, entrando assim em propriedade privada. Revê-se no retrato ou torce-lhe o nariz?
Bem, como já reparou pela resposta anterior, eu não me vejo como especialista de nada, embora o meu ego seja impressionável. Se a palavra não estivesse tão depreciada, eu diria que sou um amador da obra (sublinho, da obra) de Jorge de Sena. Aceitemos, portanto, que sou um estudioso. Talvez por ter andado tresmalhado em Medicina, ligo muito a ideia de especialista à ideia de órgão e de doença. Jorge de Sena não é, para mim, uma doença. É uma das pessoas mais vivas da minha vida. Não é uma doença, nem é uma obsessão que me impeça de apreciar outros criadores. Antes pelo contrário. Foi Jorge de Sena que me levou a descobrir uma infinidade de poetas, pintores, músicos e pensadores por ele traduzidos e estudados, ou com os quais estabeleceu um diálogo poético, criativo, como em “Metamorfoses” e “Arte de Música”.
Os seus trabalhos, de maior o menor fôlego, têm provado que o discurso académico pode ser claro sem perder a densidade. Este esforço tem sido importante na divulgação da obra de Sena?
É-me difícil responder a esta sua pergunta, porque ela contém um elogio, para mim, um enorme elogio, que agradeço. A tentativa de aliar clareza e densidade creio que pode ser lida em todos os textos meus, que não são apenas sobre Jorge de Sena. Pode estar relacionada com a minha faceta de professor de literatura. É, sem dúvida, resultado de uma aprendizagem, mas não é uma atitude estudada, com esta ou aquela finalidade. A clareza de exposição torna a densidade mais clara; e a densidade do pensamento busca as profundezas da claridade. De resto, não me considero um divulgador da obra de Jorge de Sena, e também não um académico (palavra que, para mim, ainda tem conotações serôdias). Eu sou um estudioso e, portanto, um leitor, mesmo quando estou na sala de aula, e o que procuro é transmitir o prazer e a dor de sentir e de pensar com os versos e as prosas de outra pessoa, e como nisso há uma responsabilidade política (cidadã), ética e estética.
Mesmo quem de Jorge de Sena conhece apenas aqueles poemas mais célebres, estará familiarizado com o “retrato falado” que dele chegou, incólume, até ao século XXI: um ser irascível, feroz, sarcástico, nem sempre capaz de se manter na circunferência da compostura, um escritor com o sentimento da genialidade própria, que se celebrava a si mesmo, que não se coibiu sequer de indicar em que secções da história literária portuguesa merecia ser citado, louvado e ensaiado. Convenhamos que não é uma imagem muito simpática …
Sim, conheço bem a “lenda negra” de Jorge de Sena. Mas conheço igualmente um sem número de pessoas, de diferentes países, que ficaram com uma percepção dele completamente diferente: um homem amável, cortês, solidário, convivial, atento aos outros, respeitador de diferenças ideológicas, políticas, comportamentais. E, sim, por vezes o contrário disto: intolerante face à miséria, sobretudo intelectual, à traição, à falsidade, à mediocridade, à intolerância de uns quantos. Por certo que Jorge de Sena foi um homem com defeitos e qualidades, como cada um de nós. E quanto a modéstias, se estamos bem recordados, o único modelo de modéstia de todo o século vinte português foi o ditador de Santa Comba. Eu sempre achei que, quanto mais contraditória, mais interessante uma pessoa é. Desde que, é claro, não tenhamos de viver com ela quotidianamente. E contudo, a sua obra revela uma cuidada atenção ao outro, às fragilidades da condição humana, à urgência de amor e de liberdade como princípios fundadores da dignidade humana, como é raro encontrar-se.
Terá aquela imagem contribuído para uma certa posição de desvantagem de Jorge de Sena, face, por exemplo, a uma Sophia ou a um Eugénio de Andrade, muito mais presentes na nossa cena literária?
As comparações são sempre difíceis, porque delicadas. Mas não creio que seja esse o ponto. Repare que Jorge de Sena viveu exilado durante quase 19 anos, desde Agosto de 1959, com vindas esporádicas a Portugal, a partir de 1968, vindas essas que acabavam por, paradoxalmente, servir de reforço à sua condição de exilado. Este é, aliás, um dos muitos paradoxos da condição de exilado. Embora estivesse presente na nossa “república das letras” como poeta publicado, é sempre mais vantajoso, em termos sociais, que é o domínio da “cena literária”, estar em cena, e não fora de cena. Estar dentro e não fora do palco.
Não acha que boa parte dos escritores de hoje, muito embora não o confessem, se têm em alta conta literária?
Não gostaria de fazer apreciações generalistas ou generalizantes. Até porque a questão se pode aplicar a uma infinidade de escritores de épocas anteriores, alguns deles tidos como primeiras figuras das “cenas literárias” do tempo em que viveram. Creio que o que mais importa, nisto como noutras coisas, é descobrirmos os nossos contemporâneos, independentemente do tempo cronológico que marcou as suas vidas. Em termos literários, ou artísticos, essa é que é a verdadeira vida. A vida que fazemos com aqueles que cada um de nós traz na ponta da língua.
Curiosamente, o Jorge Fazenda Lourenço, que também é poeta, acaba de publicar, na Companhia das Ilhas, “Azares da Poesia”. O livro quer ser lido como um auto-retrato?
Sim, ainda que um auto-retrato provisório, uma vez que ele é a fixação de um instante, ou melhor, de uma intermitência de momentos discursivos, cuja necessidade é ditada pelo acaso. O momento de me olhar e perceber que, passados os 60 anos, eu sou aquilo que os meus poemas, incluindo as minhas traduções de poesia, e os meus ensaios fizeram de mim, reconhecendo, ao mesmo tempo, que a construção desse rosto tem sido feita da inter-acção, verificável, dessas duas formas poéticas. O livro é, aliás, um primeiro volante desse auto-retrato de um poeta em construção. O segundo, também constituído por poemas e ensaios, estará mais centrado na figura de Jorge de Sena. Espero poder publicá-lo para o ano, para o centenário do poeta.
Nunca foi fácil a relação de Jorge de Sena com a crítica, que começou por considera-lo “infinitamente mais inteligente que poeta propriamente dito”. Que queria isto dizer? Era o sinal de uma incompreensão?
Sim, incompreensão, sobretudo, em relação à poesia, confundindo-a com o lirismo sentimental. E, é claro, um estratagema para desvalorizar a poesia de Jorge de Sena, fingindo elogiar os seus dotes de crítico literário. Afinal, ele não era engenheiro civil? Fiz já a crítica dessa crítica num texto incluindo em “Matéria Cúmplice”, de 2012. O preconceito tinha, aliás, o condão de juntar Jorge de Sena a nomes maiores da poesia portuguesa, como Luís de Camões e Fernando Pessoa.
Num tempo em que a figura do polemista é uma espécie em extinção, que faria hoje Jorge de Sena à sua veia de polemista? Acha que a consideração das conveniências terá ditado o fim desse interessante género que é polémica literária?
Creio que a polémica literária correspondeu a uma necessidade de enfrentamento político e cultural. Era uma resposta à falta de abertura ou de democratização da chamada “república das letras”, que, ainda por cima, era coisa de machos. Provavelmente, já não faz sentido. E, por isso, o que existe hoje nas redes sociais é um enredo, um entretém, um simulacro, com as excepções que sempre há, é claro. Discutem-se personalidades, à moda antiga, mas raramente se discute literatura.
Havia no autor de “Metamorfoses” um frenesi criativo: poesia, prosa, teatro, ensaio, traduções, antologias, prefácios … tudo! Escrevia com o furor de quem teme morrer no dia seguinte?
É isso mesmo. Como se não houvesse outro dia. Como em Mozart, por exemplo. A arte contra a morte. O que, para quem suspeita, como Jorge de Sena, que não há outro mundo senão este, é crucial. A arte e o amor, num anelo invencível. A poesia como desejo de amor; o amor como desejo de poesia.
Mécia de Sena abriu-lhe o espólio e a biblioteca de Jorge de Sena. O que por lá encontrou: o caos, a ordem ou qualquer coisa de intermédio?
Eu cheguei a Santa Barbara em Março de 1988. Já sabia, pela correspondência que vínhamos mantendo, que Mécia de Sena estava a organizar de forma profissional, criteriosa, o espólio de Jorge de Sena, o que lhe permitiu, em apenas dez anos, publicar novos ou reeditar mais de trinta livros, o que dá uma média anual e um ritmo de trabalho impressionantes, para mais numa época em que as provas tipográficas circulavam ainda por correio postal. Todos os volumes, editados ou a editar, ou ainda em projecto, organizados em pastas individuais, os manuscritos dactilografados e fotocopiados, para suprir acidentes ou extravios, e as pastas arrumadas em grandes arquivadores de metal, com gavetas. Dezenas. No escritório, no quarto, na lavandaria, no corredor que ligava este compartimento à cozinha. Todos os géneros literários, incluindo a vasta correspondência, com cada pasta para o seu destinatário, mas também o arquivo fotográfico, cronologicamente organizado, ou mesmo pastas e arquivadores cheios de programas de conferências, congressos e outras actividades em que Jorge de Sena participara de algum modo. E ainda programas de concertos musicais, objectos pessoais, relativos ou não à vida profissional, como escritor e professor. Tudo o que, parecendo menor, ajudaria (ajudará?) a dar um contexto, a tornar mais viva, a obra e a vida do seu bem-amado Jorge de Sena.
É verdade que a casa de Santa Bárbara era uma espécie de centro editorial para a publicação das obras do poeta?
Sim. Quando em 1988 cheguei a Santa Barbara, encontrei, no número 939 da Randolph Road, um verdadeiro centro de investigação e edição da obra de Jorge de Sena, que, ainda por cima, oferecia pensão completa a quem necessitasse. Mécia de Sena foi (será sempre) não só a figura tutelar de várias gerações de investigadores, de diferentes nacionalidades, como a grande editora de Jorge de Sena, tendo realizado um notabilíssimo trabalho intelectual, produzindo um vasto conjunto de prefácios, introduções e notas críticas, fundamentais para o entendimento da sua obra, com grande influência na recepção crítica que ela vem tendo desde 1978.
Como é que foram estes anos de trabalho em torno da organização e edição da obra de Sena? Quais as principais dificuldades que enfrentou?
Embora colaborando de perto com Mécia de Sena desde 1984, é só entre 2009 e 2016 que, por delegação sua, assumi a coordenação da edição das obras completas, de que a Guimarães Editores, por dificuldades conhecidas do grupo Babel, acabou por publicar apenas doze volumes. A grande dificuldade foi conseguir estabelecer um ritmo de publicação que respondesse, num espaço de tempo razoável, de mais ou menos dez anos, à edição da totalidade da obra de Jorge de Sena, incluindo parte significativa da sua correspondência (de que saíram apenas dois volumes). Era um projecto ambicioso, no qual me empenhei com todo o suor, inteligência, diplomacia e alma, mas que não foi possível concretizar, nem sequer em termos de ritmo de publicação.
Era um projecto. Já não é? Não haverá outras editoras interessadas em continuá-lo?
Neste momento, a edição da obra de Jorge de Sena está a cargo da filha mais velha, a qual tem ideias e critérios divergentes dos da mãe, sobretudo no que toca à publicação da correspondência, grande parte dela inédita. Afastada Mécia de Sena, e uma vez que eu fazia equipa com ela, afastado estou. Creio que a publicação da obra terá sido entregue ao Grupo Porto Editora.
Mécia de Sena é a mulher que qualquer escritor preocupado com o destino dos seus escritos quereria ter. Tendo em conta todo o seu trabalho – e a importância de Jorge de Sena na cultura portuguesa – não lhe parece estranho que, ao longo destes anos, o Estado português tenha respondido sempre com “silêncio e escuridão – e nada mais”?
Em 2009, Mécia de Sena doou à Biblioteca Nacional de Portugal o espólio de Jorge de Sena, incluindo a sua biblioteca particular e um conjunto significativo de objectos pessoais. Houve uma primeira cerimónia de entrega, em Abril desse ano, de uma parte do espólio, que estava à guarda da Fundação Calouste Gulbenkian, e, segundo julgo saber, a parte maior e restante foi já transportada de Santa Barbara para Lisboa, estando tudo, creio que ainda, em processo de catalogação.
Sabemos que Jorge de Sena traçou a régua e esquadro um programa de posteridade que o empenho de Mécia de Sena, e o seu próprio, haveriam de continuar. Passados 40 anos da morte do poeta, podemos dizer que esse plano deu certo? Ou será Sena ainda um poeta demasiado contemporâneo para podermos avaliar?
Traçar a régua e esquadro um programa de posteridade, por parte de Jorge de Sena, é uma expressão totalmente desadequada, e até cruel, que vi já utilizada por outra gente. Acontece que, após o grave ataque cardíaco que Jorge de Sena sofreu em 1976, e perante a extrema fragilidade da sua saúde, o poeta começa a preparar a publicação da sua obra com a consciência de um tempo limitado de vida, como, infelizmente, se veio a verificar. Para além dos livros publicados em 1977-78, o que ele conseguiu organizar foi muito pouco, como se calcula. Depois é que vem o planeamento de Mécia de Sena. A posteridade de uma obra é uma consequência, não se antecipa. A posteridade de Jorge de Sena está nas mãos de cada um de nós. É responsabilidade de todos e de cada um. A posteridade de um autor é uma questão literária, mas é também uma questão política, de cidadania.
Poucos poetas terão produzido, como Jorge de Sena, uma imagem tão viva, tão magoada do exílio. O que é que nele era diferente?
Não sendo o único, Jorge de Sena é um dos grandes poetas do exílio, na longa tradição que vem de Ovídio e Dante, e seguramente um dos maiores da língua portuguesa. Como diz Edward Said, o exílio é uma condição terminal. A poesia de exílio de Jorge de Sena dá continuidade, como também no caso de Camões e da sua glosa do salmo 136, àquele canto de exílio ansiando por uma Jerusalém celeste ou terrestre, pelo regresso a paraísos perdidos, pela restauração de uma condição divina que não é deste mundo. Exílio interior, exílio político (físico, existencial) e exílio metafísico, exílio dentro e fora da pátria, em Portugal, no Brasil, nos Estados Unidos, eis a conjunção de exílios que diz o poeta Jorge de Sena: “exílios exilados de exilada terra”.
Por fim: quer dirigir-se aos seus contemporâneos?
Creio que as minhas respostas podem valer como tal.


Teresa Carvalho, Jornal i, 04/06/2018

terça-feira, 24 de abril de 2018

A literatura de resistência de Sophia Andresen e Jorge de Sena



Leia os poemas «Quem a tem…» e «Noutros Lugares» de Jorge de Sena (1919-1978) e «Carta(s) a Jorge de Sena» de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004).

  
«QUEM A TEM…»

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo

me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Jorge de Sena (1956)



 NOUTROS LUGARES 

Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas de solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exatamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

e do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

Jorge de Sena (1967)


CARTA(S) A JORGE DE SENA

I
Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde

II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

III
Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
— Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

IV
E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

Sophia de Mello Breyner Andresen (1989)



Por forma a elaborar uma análise temática comparativa das composições poéticas acima transcritas apoie-se no plano esquemático da mesma análise a seguir facultado:

Tema das três composições: o exílio.

Leitura de superfície, em que os poemas são interpretados individualmente:
Tema(s):
«Quem a tem…»
 
Noutros Lugares
Carta(s) a Jorge de Sena
·       Liberdade
(verdade livre).
·       Desconcerto da vida;
·       Mudança provocada pela passagem inexorável do tempo;
·       Solidão.
·       Saudade;
·       Morte/perda de um amigo.

Meditação dolorosa
 


Pranto por alguém; lamentação; queixume.
 

Leitura profunda, tendo por base a temática social na poesia portuguesa da segunda metade do século XX:

Tema:
EXÍLIO – distância da
pátria
|
Lugar                                            Nacionalidade                                                 Inserção
      |                                                               |                                                                |     
 (espaço disponível para ser ocupado)
(grupo social unido por uma comunhão de civilização, por uma tradição histórica e por aspirações comuns)
 
                    (adaptação)                        
 
«Quem a tem…»
Noutros Lugares
Carta(s) a Jorge de Sena
 
Eu vs. Eles
EU:
·       “saber/qual a cor da liberdade”;
·       reclama um(a) lugar/pátria:
      -  “desta terra em que nasci”;
      -  “aqui”.

ELES:
·       “Trocam tudo em maldade”;
·       “escondam tudo”;
·       “me queiram cego e mudo”.
·       Experiência comum (1.ª pessoa do plural).
·       Tentativa de explicação do desajustamento entre o sujeito poético e os outros (vv. 38-39).
·       Busca/demarcação de um espaço/lugar:
      - “lugar”, “lugares”, “noutros lugares”, “lugares acabam”;
      -  “praias desertas”.
·       “emigrante” (Caracterização: sujeito dividido entre a pátria que ama mas deixou e a terra em que está; uma espécie de exilado);
·       “legítimo português de novecentos”;
·       “Moraste[] a tua ausência”;
·       “estar”;
·       “voltarias”;
·       desejo de reaver um tempo perdido.


      


Leia, atentamente, o excerto da «Arte Poética III» e o poema «25 de Abril» de Sophia de Mello Breyner Andresen por forma a elaborar uma análise temática comparativa dos textos a seguir transcritos, considerando o seu grau de representatividade de uma época e a obediência ou não a algum sistema literário vigente.

A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é realidade vivida, integra-se no tempo vivido.
 Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética III, 1964


25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, 1974

 *


Cenário de resposta:

Plano esquemático da análise temática comparativa de dois textos contemporâneos de temática social / comprometida.

Na elaboração da análise temática comparativa dever-se-á ter em conta três aspetos:

1. Análise do excerto da «Arte Poética III» e do poema «25 de Abril» de Sophia de Mello Breyner:

«Arte Poética III»
 
«25 de Abril»
·         Identificação do tema: liberdade de escrita
·         Levantamento de campos léxico-semânticos e análise dos mesmos:
-        comunhão da poesia com a realidade vivida;
-        a poesia é uma moral, uma busca de justiça;
-        independência da poesia face a qualquer código, lei ou programa que lhe seja exterior.
·         Identificação do tema: liberdade.
·         Levantamento de campos léxico-semânticos do poema e análise dos mesmos:

      25 de Abril   =
.   madrugada esperada
.   dia inicial
.   emergência da obscuridade
.   liberdade
.   completude


2. Grau de representatividade de uma época:

«Arte Poética III»
 
«25 de Abril»
·         A data de produção (1964) e, por extensão, a «Arte Poética III» supõem:
-   Vivência de 48 anos de ditadura: repressão, censura, limites à liberdade;
-   Movimento Neorrealista.
·         O poema e a data de produção (1974) supõem:
-   Vivência de 48 anos de ditadura: repressão, censura, limites à liberdade;
-   Revolução;
-   Explosão de liberdade.


3. Comparação temática comparativa dos dois textos, tendo em conta o contexto histórico:

·         O poema «25 de Abril» comprova a convicção da poetisa enunciada na «Arte Poética III», porque:
-   reflete uma experiência;
-   tem como coordenada fundamental a busca de justiça/ espera de liberdade;
-   não está vinculada a nenhuma ordem externa, seja ela de índole literária (Neorrealismo) - repare-se no acentuado grau de abstração das composições; ou de índole política (Fascismo) - a proferição/ escrita/ publicação da «Arte Poética III» consubstancia (e prova) o próprio enunciado.

 

TEXTOS DE APOIO SOBRE A POESIA DE EXÍLIO DE JORGE DE SENA

 
 
O último período do exílio de Jorge de Sena estende-se de sua chegada aos Estados Unidos, em 1965, até seu falecimento no ano de 1978 e, poeticamente, põe à mostra o esfacelamento da relação do escritor com a sua pátria, a descrença nos seus conterrâneos e no processo de redemocratização de Portugal. É também um período de profundas transformações no cenário político de seu país. Salazar retira-se definitivamente do controle português em 1968, deixando para Marcelo Caetano a difícil missão de comandar uma nação à beira do colapso social e propondo uma certa “abertura” política, como última tentativa de manutenção do sistema de governo.
Todavia, para o escritor, o que chamava sua atenção naquele momento era a onda de exilados políticos que se dispersava mundo afora, devido, entre outros motivos, às ditaduras impostas nas América Central e do Sul, sendo ele próprio uma vítima. «Noutros lugares», escrito em Madison, e datado de 21de janeiro de 1967 traz-nos a reflexão sobre o próprio sentimento de não-pertencer do exilado, a necessidade premente de mudança, a rutura das relações sociais, e, ao mesmo tempo, o apego às pessoas ou coisas. Importante atentar ao facto de que, novamente, neste poema, apresenta-se alguém a quem é negado qualquer sopro de felicidade. 
Flávia Tebaldi Henriques de Queiroz, A poesia de exílio de Jorge de Sena, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006
 
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Os últimos quatro anos da sua vida nos Estados Unidos conheceram períodos de exaltação, desânimo, depressão e desespero, que sincronizaram com acontecimentos da sua vida pessoal (saúde precária, nascimento de um neto com graves deficiências cardíacas, etc.) e também com os acontecimentos políticos em Portugal. O gráfico errático, nevrótico e frequentemente alarmante dos acontecimentos políticos no nosso país, a seguir ao 25 de Abril, e a total «marginalização» do escritor pelos vários poderes que se foram sucedendo em roda-livre, preocupavam-no e amarguravam-no. Numa carta a Rui Knopfli, datada de 5 de março de 1975, de Santa Barbara, Jorge de Sena comentava: «É verdade: a revolução portuguesa, após os momentos de alegria. mergulhou-me numa infinita tristeza. Não é só a preocupação com a democracia social que eu desejava ver estabelecida em bases de absoluta liberdade, e que vejo francamente ameaçada por uma impetuosa cegueira comunista que, mesmo do ponto de vista do PC, se deveria considerar catastrófica. E também o ver e sentir que cada vez mais se perdem as oportunidades ou o interesse de publicar para um público que não é informado senão dos e pelos oportunistas do momento. E, embora fosse muito difícil eu considerar uma transferência minha para Portugal, é a dor, não a ambição ferida, que nunca a tive, de encontrar-me totalmente marginalizado pelas ‘facções’ ou pela universidade, que não precisam de mim para ajudar a reconstruir o país. Nem vale a pena mencionar os pequenos jogos mesquinhos para levar-se as pessoas a crer que fui eu quem recusou os mundos e fundos que ninguém concretamente me ofereceu... Com tudo isto, eu que já estava a atravessar uma crise neurovegetativa dos diabos, fiquei em petição de miséria, e só cobro ânimo para o trabalho da universidade, que tem sido muito.» Jorge de Sena focava aqui um ponto importante e dilacerantemente delicado: era óbvio que dificilmente poderia ele transferir-se e a uma tão grande família, ainda de si dependente, para um Portugal que não poderia oferecer-lhe situação alguma «capaz» de o manter. Mas a ninguém competia fazer estes cálculos e decidir, por ele, o que mais lhe convinha. A sua recusa era quase certa, mas devia ter-lhe sido dado, a ele, o privilégio de recusar. Era o mínimo que a pátria portuguesa lhe devia, pelo muito de bom que por ela fizera, mesmo tendo-a abandonado e frequentemente agredido. De resto, o abandono da pátria paga-se fundo, com a espécie de suicídio lento que é o exílio — substituto do outro suicídio que teria sido ficar. Para naturezas profundas e profundamente impacientes, trata-se simples e cruelmente da escolha impossível entre duas longas torturas: It is suicide to be abroad. But what is it to be at haine... what is it to be at home? A lingering dissolution. («É um suicídio vivermos fora do nosso país. Mas o que é estarmos no nosso país... o que é estarmos no nosso país? Uma lenta dissolução.» — Samuel Beckett in All that fall.) Jorge de Sena escolhera a primeira forma de suicídio a bem da obra — e ganhou a aposta, perdendo-a em todos os outros pelouros em que não podia senão perder. Porque o exílio só poderia ser resolvido ou compensado com aquele mítico regresso que nunca acontece, por não poder acontecer, a um lugar que já lá não está, para um reencontro com pessoas, hábitos e afeições, que também se mudaram ou simplesmente mudaram. Não se regressa nunca, em círculo, ao ponto de partida. A ilusão da possibilidade do círculo é desbaratada pela verificação de que o círculo se volveu espiral. O ponto de regresso é apenas um ponto homólogo e não um ponto coincidente: fica sempre mais acima ou mais abaixo — o «paraíso perdido» (mesmo o paraíso amargo que toda a vida se desprezou) ilude a nossa busca do tempo perdido. Disto mesmo suspeitara o autor, em 1967, num dos seus mais belos e mais pungentes poemas: «Noutros Lugares» (21.01.1967).
E seis anos mais tarde (15.03.1973), já bem mais perto do final da vida, num poema escrito em Londres, voltava à mesma ruminação obsessiva:
Não muitos terão tido a vida inteira
esta febre de andar por vários mundos
buscando ansioso o nada nosso e deles
que ao menos nada finge em gente e coisas...
E não terão, portanto, na memória
o tanto haver partido para longe,
para saberem que se parte sempre,
e não se volta nunca. O mesmo amor
que fiel aguarda o regressarmos não
é o mesmo já, mesmo se mais ardente
sob os cabelos que lhe são mais brancos.
(in 40 Anos de Servidão

«...para saberem que se parte sempre, / e não se volta nunca…» Não se volta nunca, mesmo quando materialmente se volta o que, no seu caso, lhe foi recusado. Antes de morrer, ao menos, teve algumas compensações: duas vezes condecorado1, obteve, além disso, a satisfação de receber, pouco antes do fim, o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina (1977) e ver que se mexiam, para uma candidatura (que se não concluiu) ao Prémio Nobel, alguns amigos devotados. Esta última consagração era quase certo que não viria, ainda que o autor vivesse.
Pouco antes do fim, no hospital, já sem forças, já nem sempre lúcido, em certo momento, reparou que vários familiares e amigos o rodeavam, com solicitude. Num assomo de lucidez e desconfiança, num último assumir dessa energia que sempre tão bem soubera convocar, mesmo no centro da fadiga, Jorge de Sena perguntou, em inglês: So many people? Am I dying? («Tanta gente? Estarei a morrer?»). Era realmente a morte que, já foi dito e é bem sabido, só mata de facto os homens pequenos. E era o dia 4 de Junho de 1978, data em que o autor de Metamorfoses atingiu finalmente «o porto em que o desejo acaba».
Eugénio Lisboa, «Jorge de Sena: Perfil do Homem e da Obra», Londres, janeiro-fevereiro de 1983. In O Objecto Celebrado (miscelânea de ensaios, estudos e crítica). Universidade de Coimbra, Coleção das Acta Universitatis Conimbrigensis, 1999
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(1) Da segunda condecoração (Ordem de Santiago) só teve conhecimento 24 horas antes de morrer e o decreto confirmativo foi assinado já depois da morte do escritor.

 

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Fonte:
LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO.
Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/Sophia25abril.htm, 2011-12-08.
2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/Sophia25abril.htm, 2016.