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sexta-feira, 21 de março de 2014

MÍSERA ACUMULAÇÃO (José Carreiro)


          
Samuele Papiro

                                     
        
       


MÍSERA ACUMULAÇÃO 

Coabita neste lugar um paul de nomes
levados pelas mãos dos caprichos.
Olho com cinismo essas palavras de agora,
a cor indispensável da dimensão do desejo
que, perto do calor, se veja o brilho para dizer e gracejar.
Não creio, não confio, nem dou o aval a mesuras,
medidas ou interesses que me ponham em xeque.
Deixo o recinto de operações sem fechar um negócio
e sem poder contar que não seja com o fracasso,
os danos e os acidentes de um dique.
        
           

             

   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/03/21/misera.acumulacao.aspx]

quinta-feira, 11 de julho de 2013

RENUNTIATIO AMORIS


José Carreiro, 2005.
         
                      
ADEUS

O mover dos lábios
a boca que se desenvolveu
os olhos líquidos
eu inflamava amava
as minhas mãos as nossas corriam em viva expansão
e com elas volvia
enchia a boca que agora ressinto pronunciada
a língua enlouquecia a pele

adiante apreçaste
           hoje estás pouco falador
como precisasses
           fala a dor

encontraste outro amante
na mesma compreensão que eu

mas nunca dissemos adeus.
                 
José Maria de Aguiar Carreiro
Chuva de ÉpocaPonta Delgada, 2005.
                 
                 
A epígrafe que abre o livro, um verso de Jorge Luis Borges – “Somos a água, e não o diamante duro, / a que se perde, não a que repousa” –, coloca-nos de imediato perante um horizonte de leitura que o que se segue há-de confirmar. Constituído de duas partes, “Nada Nunca de Ninguém” e “O Riso dos Poetas”, o presente poemário faz da(s) continuidade(s), melhor, da consciência dela(s), o chão do seu dizer ou, como se pode ler no poema “Estes dias que nos Separam”: "farei do gesto uma cópia / infinita dos gestos dos gestos".
Da negatividade ontológica à negatividade temporal e psicológicaJosé Maria de Aguiar Carreiro procura, nos poemas que estão dentro, a completude impossível para uma palavra poética a que os advérbios (“Nada Nunca...”), que estão acima, nos sobreavisam para a ausência dela. A epígrafe reconfirma-se: não há presenças a que o dizer poético se possa juntar, nem continuidades de que a poesia seja o seu assomo de felicidade. Face à ausência – de si, dos outros e de um presente que nunca é –, que resta ao poeta senão a reafirmação dos advérbios? Chuva de Época instala-se no interior dessas ausências, para daí dizer o que dizer não se pode. O riso é o sinal desse impoder, e disso o poeta nos faz seus cúmplices. (Fernando Martinho Guimarães, nota da contracapa de Chuva de Época, Ponta Delgada, 2005.)
            
            
                                           

                 
                 
ADEUS

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos; 

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi. 

Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia. 

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
          
Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas, 1951
          
             
O «Adeus» de As Palavras Interditas relaciona-se com o tema da partida, da distância e da separação. Na poesia de Eugénio de Andrade há recorrentemente o drama entre um eu e um tu. Enquanto o primeiro quase se apaga, o segundo define-se por aquele que passa. Como diz Eduardo Prado Coelho: «O encontro é breve – soberano.» (in Ensaios sobre Eugénio de Andrade, 2003)
«Temos aqui um eco da entre-procura e entre-cedência de dois desejos em diálogo (ou se preferes). É também o eco do entre-ceder do desejo e do real (como se… digo-te adeus).
Estes dois diálogos entre mundos (no sentido lógico-modal de mundos possíveis), que resumirei em eu-tu, desejo-realidade, vêm também cruzar-se no clímax final: o real dramático, de nuvens sobre nuvens (aliás homólogo a uma tempestade, que pode ser a do crescendo erótico) abre, ao cimo, em mar perfeito, e este mar perfeito cede ao singrar de um desejo a que o loquente expõe o seu peito como objeto.
[…] estou a referir-me ao constante movimento da metáfora, que, por exemplo, faz de um corpo uma província de um país virtual, transfigura os cabelos em vagas de tempestade, abre em flor os dedos do desejo e alarga um peito em superfície marinha. Mas no domínio da sintaxe da ordem frásica, não posso deixar passar despercebido o efeito extraordinário do verso eu era só fome o que sentia.
Tal como sinto esse verso no contexto do poema e da obra de Eugénio de Andrade, a simples forma sujeito da 1ª pessoa do singular tem muito de uma interjeição (digamos que de dor, ou de súbita privação essencial).
[…] Repare-se só nisto: neste Adeus há 12 marcas da 2ª pessoa do singular. O tu é o seu centro de gravidade.» (Óscar Lopes, Uma Espécie de Música, 1981)
             
             
                      EUGÉNIO DE ANDRADE
             
             
ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
               
Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro, 1950
               
               
Analise o poema «Adeus» de Eugénio de Andrade, tendo em conta:
• a oposição passado/presente (o pretérito imperfeito - tempo do amor; o pretérito perfeito – tempo  da destruição; o presente - tempo da constatação do vazio, do «adeus»):
• o amor e a palavra (o passado-tempo das metáforas; o presente - tempo das «palavras gastas», do silêncio);
• o amor e o milagre da dádiva;
• o amor e o milagre da transfiguração;
• os recursos estilísticos: as anáforas; as metáforas (o campo semântico de água);
• a estrutura formal: liberdade do verso e da organização estrófica, ausência de rima.
http://www.prof2000.pt/users/leiria/unidade4.htm
               
               
                                          
               
               
DESPEDIDA

Tudo entre nós foi dito.
Estamos cansados e tristes
neste outono de folhas pairando
e caindo.
Entre nós as palavras colocam um mundo de
silêncio e vazio estéril.
Os próprios sonhos se encheram de neblinas
e o tempo os amarelece.
Outono decisivo de folhas secas
e bancos abandonados de cimento frio
onde não cantam aves
e o vento desce em brandos rodopios.
Apenas uma vaga angústia presente,
uma saudade sem recomeços,
a lembrança tépida a gelar como
veios de mármore.
Tudo entre nós foi dito,
olhamos o apodrecer do parque,
o vento, o crepitar leve das folhas
e, sem ressentimentos, dizemos adeus.
              
Rui Knopfli, O País dos Outros, 1959
              
              
RENUNTIATIO AMORIS
I
[…] Há aqui um subtil entrosamento de registos poéticos e de polarização metafórica, que condensa a irremediável melancolia de um adeus inútil no tépido apodrecer do tempo. O género, antiquíssimo, é o da Renuntiatio Amoris, e vem de Ovídio a Petrarca e Camões, que o nobilitam na idade moderna. A abertura do poema, na estrita e resignada simplicidade da rotura amorosa, traça um quadro de desolação, que lembra o cenário daqueles amantes de uma conhecida ode de Ricardo Reis: «Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio». Diz Knopfli:
Tudo entre nós foi dito.
Estamos cansados e tristes
neste outono de folhas pairando
e caindo.
Entre nós as palavras colocam um mundo
de silêncio e vazio estéril.
Não se encontra aqui o fluir lento das águas do rio, gulosas da margem ida, como em Ricardo Reis. Mas o silêncio que as palavras levantam entre os dois amantes, esse muro de cacos, são o silêncio concreto que na ode se preenche com o gesto das mãos enlaçadas e a contemplação de tudo quanto passa. No cenário de Knopfli não se insinua a inocência da ataraxia pagã, nem o alento moral de um estoicismo que prefigura o gesto de um estado de alma vazio. Há na sua despedida algo de muito diferente. O vulgar banco de cimento contrasta ostensivamente com os adereços das albas cancioneiris, onde cantam as aves, e compõe a quadra da separação sob a luz dúbia do
Outono decisivo de folhas secas.
A imagem atmosférica apela para um certo Camilo Pessanha, de tristezas dilaceradas na inelutável sucessão dos ciclos estacionais:
Outono de seu riso magoado,
verso que o poema de Knopfli recolhe e transmuta no processo da sua própria elaboração poética. O efeito estético logrado ganha ainda uma forte carga expressiva, graças a um processo de alusão metafórica, que apreende, na designação concreta, a tonalidade subjetiva do momento vivido. Deste modo, nos últimos quatro versos, que constituem o fecho do poema, e são a modalização anafórica da sua abertura:
Tudo entre nós foi dito
olhamos o apodrecer do parque,
o vento, o crepitar leve das folhas
e, sem ressentimentos, dizemos adeus
o «apodrecer do parque», fenómeno natural, deve entender-se como sendo o do próprio tempo desvivido, assim como o «crepitar leve das folhas» corresponde ao fogo da paixão que se extinguiu. Luís de Sousa Rebelo, Prefácio a Memória Consentida. 20 anos de poesia 1959/1979, Rui Knopfli. Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982.
              
II
              
[…] Knopfli constrói em «Despedida», como em «Ilha dourada», um sujeito poético em confronto com uma realidade de perda – presente ou antecipada - dum objeto amoroso. Não sendo esse objeto nomeado ou definido nos seus contornos, mantém-se em aberto como possibilidade de leitura no poema, um interlúdio entre o sujeito poético e um objeto amoroso alegórico ou arquetípico, em representação de nacionalidade, naturalidade, ou pátria.
[…] Embora sejam mantidas no poema as referências temporais que permitem identificar o espaço nele invocado com um espaço geográfico real (eventualmente não africano, sendo a estação do ano que o caracteriza um «outono decisivo de folhas secas»), esse espaço só poderá ser entendido como um espaço arquetípico ou alegoria do estado de alma do sujeito poético. | Fátima Monteiro, O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, p. 69.
               
               
Elabore um comentário do poema «Despedida» de Rui Knopfli que integre os seguintes tópicos:
  • a oposição passado/presente;
  • o amor e a palavra;
  • a intertextualidade literária com o poema «Adeus», do livro Os Amantes sem Dinheiro, de Eugénio de Andrade;
               
             

   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/07/11/adeus.aspx]

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Folha de Poesia (2006-2010) - artes, ideias e o sentimento de si

penelope_Erin_McGuire 
           
             
literatura | séculos XII a XV
         
Nas cantigas de amigo trovadorescas a donzela é apresentada como a de corpo velido (bela e formosa), traduzindo a sedução amorosa e os seus dramas na relação com o amigo.
                       
Outros textos, outras leituras
As cantigas populares revelam a alma do povo português, sendo tecidas com sentimentos, delicadezas amorosas, sensualidade, melancolia e com sátiras.
Ainda que alegóricas, as interpretações religiosas não podem ignorar ou mesmo contradizer o ardor romântico do Cântico dos Cânticos, um livro bíblico que juntamente com a Arte de Amar de Ovídio foram, em tempos idos, os livros de mesa-de-cabeceira de damas e cavalheiros...
Os contos e as quadras populares, as cantigas infantis, os provérbios, as adivinhas e as anedotas são alguns enunciados de que todos nós já fomos um dia transmissores.
A "Nau Catrineta" é o romance tradicional mais conhecido pelos portugueses, talvez por ser de matéria épico-maravilhosa que, de alguma forma, se coaduna com a relação mitificada que o povo português tem com o seu passado de expansão ultramarina.
         
         
literatura | séculos XVI a XVIII
         
Várias circunstâncias se conjuraram para tornar lendária a figura de Camões: Erros, má fortuna e amor ardente. A sua vida de pobreza, vagabundagem, cadeia e desterro é própria de um herói às avessas, aventureiro que usou o seu desembaraço e capacidade criativa para lidar com as mais diversas adversidades.
         

         
O ideal de homem virtuoso é, para Camões, o daquele que, como ele, for possuidor de «honesto estudo / Com longa experiência misturado». Camões é o herói humanista de OS LUSÍADAS.
                
No período barroco, a tónica vai sobretudo para a dimensão lúdica, criando-se jogos intrincados de linguagem, bem como efeitos visuais próprios da denominada poesia visual.
         
         
literatura | século XIX
         
Wordsworth parece encaminhar-se para um certo equilíbrio: não a ideia pura, em nuvem espiralada, nem a imagem visual marcada na retina, açambarcadora e desiludindo-nos com a sua clareza prosaica, mas a imagem sensitiva, mantida fugidia o mais possível, como forma de estimular ou activar a ideia que se encontra mais profundamente enterrada no pântano da memória.
Não nos é pedido que condenemos este ser de coração louco, este ser com o qual há continuamente algo de errado. Pelo contrário, somos convidados a compreendê-lo e a simpatizar com ele. Mas existe um limite para a simpatia.
BYRON EM ITÁLIA, elementos para uma ópera (cantilena longa e vacilante proferida por Teresa para a atmosfera vazia, entrecortada de quando em vez pelos gemidos e suspiros de Byron em off)
John Keats (1795-1821) escreveu: “A thing of beauty is a joy for ever / Its loveliness increases; it will never / Pass into nothingness”
– Tradução de Augusto de Campos: “O que é belo há de ser eternamente / Uma alegria, e há de seguir presente. / Não morre...”
– Tradução de Fernando Guimarães: “A beleza em cada ser é uma alegria eterna: / o seu encanto torna-se maior e nunca se há-de perder/ no nada”
Jorge Luis Borges, numa citação que faz de Dante Gabriel Rossetti, leva-nos a conhecer estes versos «Eu já estive aqui antes, / Mas quando ou como eu não consigo dizer: / Reconheço a grama para lá da porta, / O doce e penetrante perfume, / O som murmurante, as luzes a subir a encosta.»
                 
Homenagem a Antero de Quental.
         

                     
         
literatura | século XX
         
"Virginia", por T. S. Eliot:  Rio barrento, rio barrento, o seu curso lento e quente é o silêncio. Não há desejo mais calmo do que a calma de um rio. Mover-se-á o calor apenas no canto do mimo uma vez ouvido? Os montes […]
O que se ama quando se ama? O que buscamos quando buscamos o desejo?
                    
"Sou o rastro de um sorriso, / Um gesto do teu cansaço..." (António Botto, Curiosidades Estéticas (1924) poema 24 in Canções e Outros Poemas, Ed. Quasi, 2008)
         
                     
FERNANDO PESSOA E OS CONTEMPORÂNEOS - páginas de intertextualidade:
FERNANDO PESSOA E OS ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS: evocações literárias e representações de Fernando Pessoa pelas artes plásticas.
FERNANDO PESSOA (ele mesmo) E OS ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS: reescrita/prolongamento de versos; imitação de estilos do autor; transformação (pastiches, paródias); escrita motivada de poemas, cartas; representações de Fernando Pessoa nas artes plásticas.
Mário de Cesariny parodia as cartas a Ofélia escritas por Fernando Pessoa.
Homenagem a Mário Cesariny de Vasconcelos. Intertextualidade com Fernando Pessoa, "o virgem negra".
Desatinónimos? Obviamente. Desatinos com heterónimos. O livro 15 desatinónimos para Fernando Pessoa aconteceu como reacção aos colóquios ocorridos na Casa Fernando Pessoa.
Incursão pessoana no nacionalismo português e sua influência na escrita contemporânea.
Alberto Caeiro, uma arte do ser. Presença deste heterónimo pessoano na arte contemporânea.
Álvaro de Campos, sem se mostrar tão radical na recusa dos valores culturais mas contestando-os, afinal, de modo muito mais corrosivo esforçou-se principalmente por sentir, em lúcida histeria, de acordo com os ritmos do mundo moderno (David Mourão Ferreira, in introdução a O Rosto e as Máscaras). Neste post pretende-se mostrar a visita dos artistas contemporâneos a este Campos-Pessoa. Um jogo de dialogismo e intertextualidade.
Ricardo Reis, aqui revisitado pelos artistas contemporâneos, «é um homem de ressentimento e cálculo, um homem que se faz como faz laboriosamente o estilo» (Jacinto do Prado Coelho).
Bernardo Soares-Fernando Pessoa e o desassossego mental em intertexto.
Explicações possíveis para a heteronímia.
         
Fernando Pessoa
                   
                          
Em INVENÇÃO DO DIA CLARO, de Almada Negreiros, há um "leitmotiv" que passa constantemente, que é a relação do poeta com a mãe. É na simplicidade, extremamente sofisticada, em que as coisas profundas parecem ser ditas sempre por acaso.
Metáfora da criação artística - uma "arte poética" de Almada Negreiros.
Ensaio sobre a consciência da escrita estética na poesia de Rui Knopfli.
Guerra de libertação nacional vs guerra colonial.
Pós-colonialismo ou uma História de regressos.
Os poemas de António Franco Alexandre, segundo Óscar Lopes, «pretendem fazer sentir, não um sentido mas como que um fugaz pré-sentido, ou pré-percepção, um breve indício de sentido, talvez um mero (ou mesmo nenhum) sopro ou voz, numa boca ainda inarticulada, uma "pequena tosse do outro / lado das palavras", ou o mero, impensado e todavia "necessário / sentido em que [as palavras] dormitam".»
O complexo ideológico da insularidade.
Um céu de algodão sujo tolda o arquipélago das nove ilhas; o mormaço apaga os contornos do mar e daterra, e, amolecendo os pastos à custa da pele do proprietário e do pastor, dilui e arrasta as vontades, dá a homens e a coisas uma doença quase de alma, a que os ingleses, médicos do bem-estar, puseram uma etiqueta como quem descobre uma planta nova neste mundo seco e velho: azorean torpor. (Vitorino Nemésio, Mau tempo no canal)
"Coro dos velhos do Corvo", poema de Vasco Pereira da Costa dito por Olegário Paz.
         
                 

         
               
Literatura | século XXI
         
Publicar um livro hoje em dia pode ser visto como um acto de narcisismo ou, por outro lado, um acto de altruísmo.
Como dizia Gramsci: “é preciso lutar com o pessimismo da inteligência e com o optimismo da vontade”.
Entrevista a José Maria de Aguiar Carreiro ao jornal "Expresso das Nove", 19 de Fevereiro de 2010
Chuva de Época é o primeiro livro de poemas de José Maria de Aguiar Carreiro.
Intertextualidade entre Roland Barthes, (Fragmentos de um discurso amoroso, 1977José Maria de Aguiar Carreiro.
Magma  é uma revista editada pelo Município das Lajes do Pico. A coordenação do número 3, referente a Dezembro de 2006, coube ao escritor e professor universitário Urbano Bettencourt, que fez uma selecção de nomes da literatura contemporânea dos Açores, Madeira, Cabo Verde e Canárias.
Homenagem poética a Miguel Torga.
Como podes escolher a outra casa, como posso ser nada se me destino a ti?
"No caminho vertem, sacodem as ancas as raparigas. / Colhem olhares, ditos e manguitos que se fazem entre os rapazes", José Maria de Aguiar Carreiro.
“desenho rosto / pronuncio-o e tu és lá / roço nele até à precisão do t / mas o que fica é esta preparação para o beijo / que a vogal me coloca”, José Maria de Aguiar Carreiro.
“In illo tempore os deuses descendentes / tocavam os homens que emergiam do centro do mundo. / É esta a condição da mistura: ficar longe da cronologia / que se tornou extrema e aspectual”, José Maria de Aguiar Carreiro.
Poema José Maria de Aguiar Carreiro editado na Revista NEO #9, 2009.
Olegário Paz diz o poema "Ausência" de José Maria de Aguiar Carreiro (in CHUVA DE ÉPOCA, 2005)
Cervantes chama de "el ingenioso hidalgo" a Dom Quixote. Esta figura de papel presta-se desde então a vários exercícios de intertextualidade, de que é exemplo o poema de José Maria de Aguiar Carreiro onde se recria uma fala de "El Caballero de la Triste Figura".
         
Dom Quixote 
         
                  
artes
         
Definição de poesia; o objecto da poesia; a linguagem da poesia; a poesia e o ritmo. O poema. Falar de poesia.
Como e com que materiais se constrói um poema?
«O soneto é uma casa poética. Em nenhuma outra forma fixa o lirismo sabe conter-se tão amoldado, tão justo na medida que o veste e tão livre nos movimentos de respiração e de gesto que lhe apontam o exterior de que é abrigo e olhar.», Maria Alzira Seixo.
Nuno Júdice escreve uma arte poética a que chama de "guia de conceitos básicos", notando o leitor uma parodização da linguagem informática.
A poesia é como a pintura.

         
Representações artísticas de Santa Teresa d’Ávila em êxtase.
post sobre duas artistas: Louise Bourgeois (escultora com obras sobre os mais profundos sentimentos femininos em temas como a maternidade, a sexualidade e a morte) e Hilda Hilst (poeta, escritora e dramaturga que aborda assuntos tidos como socialmente controversos e procura retratar a difícil relação entre Deus e o Homem).
“quando lemos versos que são realmente admiráveis, realmente bons, temos a tendência para o fazer em voz alta. Um verso bom não permite ser lido em voz baixa, ou em silêncio. Se pudermos fazê-lo, não é um verso válido: o verso exige ser pronunciado. O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi um canto.” Jorge Luis Borges
Processo de dissolução verbal - experiências com os limites da linguagem: poesia sonora, poesia fonética, poesia electrónica...
Escrita expressiva, criativa, recreativa e lúdica: um amor matemático!
“Tu ama-la?” Resposta: “Amar não amo, pois não sei as palavras. Mas preciso muito dela.” No caso, manifesta-se essa consciência pela percepção de que as palavras fazem falta não apenas para expressar o amor (ou qualquer outro sentimento ou emoção) mas, e sobretudo, para experimentar, para viver, sentimentos e emoções.
“fique sabendo que lhe apanhei todo sujo este poema dentro do soutien. É que com as metáforas, pois, Don Pablo, tem a minha filha mais quente que uma bomba!”
Evando dos Santos, pedreiro brasileiro, só foi alfabetizado aos 18 anos. Pegou gosto. Não parou mais de ler. Montou uma biblioteca pública por conta própria. E ajudou a fundar outras 36.
         
 
                          
         
ideias
         
O drama da fugacidade da vida e da fatalidade da morte: figurações e obsessões. Existir é ser para a morte. Existir é ser para o nada.
Reflexões sobre a condição humana e a vivência do tempo.
Nem são reconhecidos os tormentos nem se aprende o amor e aquilo que na morte nos separa não nos é revelado. Espera-te o mármore que não lerás.
Compreender a consciência.
Há vários eus, estamos sempre a inventá-los. De certa forma as nossas vidas são ficções.
Espécies de Si, segundo António Damásio.
"A consciência alargada depende da conservação, na mente, durante períodos de tempo relativamente longos, das imagens múltiplas que descrevem o si autobiográfico". António Damásio.
O drama da condição humana deriva unicamente da consciência: o custo de uma existência melhor consiste na perda da inocência acerca da própria existência. (António Damásio, in O SENTIMENTO DE SI)
         
         
e o sentimento de si
         
In memoriam. Diário.
Alguns retratos de família de ontem e de hoje
Nas quatro semanas antes do Entrudo, todas as quintas-feiras são dedicadas a festejos muito particulares nas ilhas dos Açores.
Em todas as religiões e culturas existem os conceitos de erro, culpa e arrependimento. Os budistas celebravam as cerimónias de expiação; a Bíblia fala-nos do filho pródigo, e grandes personagens literárias, como Fausto, oscilam entre os excessos e o arrependimento.
                 

“o amor, afinal, aparece assim de repente (como a chuva)” (in Grande Reportagem – “O Sexo e a Cidália")
«Como és doida, Medeia, teimas em te queixar, quando o que os outros pretendem é levar a vida da melhor maneira possível, teimas em te queixar, erguendo-te contra o Rei e contra o teu próprio marido.» (MÁRIO CLÁUDIO, «MEDEIA» - teatro, 2008)
"É só um vazio imenso ou, sejamos modestos, uma cartolina cinzenta onde irreflectidamente se cola - nem vaias nem aplausos - os bilhetes da estreia, velhas fotografias que a ninguém interessam, de dois rostos idos." (JUAN LUIS PANERO, IN "ANTES QUE CHEGUE A NOITE")
Isto é o meu corpo. Aqui
coincidem a linguagem e o amor.
A soma das linhas
que escrevi desenhou
não o meu rosto, mas algo mais humilde:
o meu corpo. Isto que tocas é o meu corpo.
Outro disse-o
melhor. Isto que tocas
não é um livro, é um homem.
Sou eu, porque não há
nem uma só sílaba que esteja livre de amor,
não há nem uma só sílaba
que não seja um centímetro
quadrado da minha pele.
Posso ser acariciado no poema
tanto quanto na noite, quando estendo
o meu sono paralelo ao sono que amo.
Nem mosaico, nem número, nem soma.
Não apenas isso.
Isto é uma entrega. Sou pequeno
e grande nas tuas mãos.
Esta é a minha salvação. Este sou eu.
Este rumor do mundo é o amor.
(poema de Juan Antonio González Iglesias In: Poesia Espanhola: anos 90, Joaquim Manuel Magalhães, Relógio D'Água Editores, 2000, p. 73)
«[…] para o próprio Cernuda nunca houve, em última instância, realidade paradisíaca alguma, só houve fantasia: "Eu bem sei que esta imagem / sempre fixa em minha mente / não és tu mas só a sombra / do amor que existe em mim."» (Álvaro Pombo, Contra-Natura)
René Char, no poema "Allégeance", diz que vive no fundo, no abismo do ser amado como um destroço feliz. "Allégeance" significa fidelidade, observância, consolo.
         

Marta Madureira (2012)