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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

SOPA DE PEDRA


Ilustrações de Paula Rego para Sopa de Pedra, Texto de Cas Willing. Porto Editora, 2015



SOPA DE PEDRA

Um escrevia o nome da mulher amada com letras de macarrão
Enquanto a sopa esfriava no prato.
Outro era metade solidão e metade multidão.
Estou de olho neles.
Um andava com a espada sangrenta na mão.
Outro fingia que sentia o que de verdade sentia.
Este dizia que não cabe no poema o preço do feijão.
Estou de olho neles.
Este vê a vida como origem da sua inspiração,
A vida que é comer, defecar e morrer.
Todo poeta é maluco.
Estou de olho neles.
E também tem que ser maluco o pintor
E o músico e o prosador.
A loucura é muito boa
Para todo o criador.
Mesmo para os cozinheiros
Ou qualquer inventor.
Estou de olho neles.
É melhor ser capenga do que cego.
A poesia é uma sopa de pedra.
Cabe tudo dentro dela.

Rubem Fonseca, Amálgama.
Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2013
.




Ilustrações de Paula Rego para Sopa de PedraTexto de Cas Willing. Porto Editora, 2015


A pintora portuguesa de 80 anos juntou-se à sua filha Cas Willing e reinventaram este conto popular




        A história corria mais ou menos assim: era uma vez um frade que andava a pedir esmola para poder ter alguma coisinha para comer. Os aldeões eram todos uns mãos-de-vaca e ninguém lhe dava tostão. O frade espertalhão pegou numa pedra e, perante os olhares curiosos, preparou-se para ferver água só com o seixo lá dentro. “Bom, bom era com um bocado de sal.” E trouxeram-lhe sal. “Bom, bom era com um bocado de azeite.” E trouxeram-lhe azeite. 

A lengalenga segue por aí fora até haver no tacho do frade cebolas, cenouras e até um chouriço. No fim do repasto, com a panela vazia, a pedra é lavada e guardada no bolso do religioso. Como assim?, perguntam os aldeões, indignados. “Guardo-a para a próxima vez que tiver fome.”
Com mais ou menos ponto acrescentado por quem conta este conto, esta história popular portuguesa tem seguido sempre pelo mesmo caminho. Até chegar às mãos da família de Paula Rego. A pintora de 80 anos que vive em Londres juntou-se à sua filha, Cas Willing, e juntas deram nova roupagem à história. 
Em vez do frade, a protagonista passa a ser agora uma rapariga de vestido vermelho e os aldeões conseguem ser ainda mais vis do que no conto tradicional. Também há um pai que acaba por (spoiler alert) morrer de fome e, uma vez na cozinha, a miúda de vestido vermelho, para além da sopa, também sabe fazer o melhor arroz de pedra do reino. E pelo estômago conquista os sacanas da aldeia. Se a filha Cas tornou as esquinas da história mais contemporâneas, a mãe juntou-lhe o seu traço inconfundível e criou 14 pinturas inéditas que, por si só, já são uma narrativa. Tudo junto, o livro torna-se uma pequena obra de arte, capaz de distrair miúdos na hora de ir para a cama, mas igualmente capaz de enriquecer a prateleira de um coleccionador de livros de arte. 

QUEM SAI AOS SEUS Sobre Paula Rego, há pouco de novo a dizer, já que é um dos nomes grandes da arte europeia e a sua obra já ultrapassou há muito as fronteiras de Portugal. Mas Cas Willing é outra história e o exemplo vivo de que filho de peixe sabe nadar. 
Cas, hoje casada e com duas filhas, nasceu em Londres, fruto do casamento de Paula Rego com o pintor britânico Victor Willing. A escrita para crianças não é novidade para si, tendo já trabalhado em vários argumentos e produzido histórias infantis para a televisão. Uma das séries mais emblemáticas em que participou, “Little Princess”, continua no ar no Reino Unido, no Channel 5, nove anos depois da estreia. Antes disso, e já com um mestrado em Artes no Royal College of Art, trabalhou na indústria cinematográfica como designer e marionetista. No filme “O Cristal Encantado”, de Jim Henson (o criador dos Marretas), Cas fez parte da equipa que criou e produziu os skeksis, a raça de vilões da película. E em “Sonhos de Criança”, o filme que retrata a relação de Lewis Carroll (“Alice no País das Maravilhas”) com Alice Liddell, fez parte da equipa que controlava os cabos que davam vida ao Chapeleiro Louco e às outras personagens do conto infantil.


Ana Kotowicz, 23/10/2015
http://www.ionline.pt/artigo/418465/uma-sopa-de-pedra-feita-em-casa-de-paula-rego?seccao=Mais_i















Paula Rego: os contos tradicionais “mostram a natureza humana como ela”


Numa entrevista à agência Lusa, Paula Rego e a filha, Cas Willing, explicaram como foi o processo de recriar a história "Sopa da Pedra", que as duas publicaram em conjunto.

REMY-PIERRE RIBIERE/LUSA
A pintora Paula Rego acredita que as histórias tradicionais são muito importantes para descobrir o mundo e quem somos, e coloca as fábulas portuguesas entre as “melhores de todas”, porque “mostram a natureza humana como ela é”.
“Sopa de Pedra” foi uma dessas histórias tradicionais que recentemente fascinou a pintora, levando-a a criar ilustrações e a pedir a colaboração da filha, Cas Willing, para escrever o texto do livro lançado este mês em Portugal pela Porto Editora.
Numa entrevista à agência Lusa, por correio eletrónico, a pintora e a filha explicaram como foi o processo de recriar uma história – da qual existem versões em vários países – que mantém o enredo principal, mas muda o protagonista.
Na versão tradicional portuguesa, um frade consegue convencer um camponês de que é capaz de fazer uma sopa apenas com uma pedra, mas vai-lhe pedindo ingredientes para dar mais sabor ao caldo.
“‘A Sopa de Pedra’ é uma história universal. Há muitas versões. Em Portugal, o trapaceiro é um frade, mas, em França, é um grupo de soldados e, na Escandinávia, é um mendigo”, observou Paula Rego, artista portuguesa radicada em Londres desde os anos 1970.
Nesta versão ilustrada pela pintora, o frade é substituído por uma jovem que tem de ser muito persistente e perspicaz para sobreviver em tempos difíceis.
Escolher uma jovem para o centro da história tem razões óbvias para Paula Rego: “O mais importante é que o protagonista tem muita fome. Não são só os homens que têm muita fome, as mulheres também. E uma jovem sozinha é muito mais vulnerável”.
Cas Willing – filha de Paula Rego e do artista britânico Victor Willing (1928-1988) — acompanha sobretudo a área da gestão e questões empresariais do trabalho da mãe, assim como a atividade da Casa das Histórias, em Cascais, inaugurada em 2009.
Pela primeira vez, com este livro, fizeram algo juntas ao nível criativo: “Quando tinha nove anos, bordei uma cabeça numa tapeçaria da minha mãe. Acho que foi a última vez que a ajudei num trabalho. Eu nem sequer faço de modelo para as pinturas dela”, disse à Lusa.
Para criar “Sopa de Pedra”, Cas explicou que se sentiu uma espécie de “detetive”. Paula Rego – que completou 80 anos em janeiro – mostrou à filha uns desenhos que dizia serem basicamente a história da sopa de pedra e precisava de um texto para acompanhar, na esperança de que fosse publicada.
“Ela foi muito persuasora e persistente, e, finalmente, eu disse que tentaria. Mas se não conseguisse um resultado ao fim de uma semana, ela teria de procurar outra pessoa”, relatou à Lusa a autora, que tem criado argumentos e produção de programas infantis para a televisão, entre eles “Little Princess”, série exibida no Reino Unido.
A primeira vez que olhou para os desenhos sentiu-se um pouco perdida: “Não percebi do que se tratava. Vi burros alados, casais a discutir e uma rapariga a cozinhar algo numa panela”.
“Espalhei os desenhos no chão e olhei para as imagens como se fossem um ‘story board’ para um filme ou um livro de banda desenhada. Reordenei-os, até sentir que tinha criado uma história visual com um início, meio e fim”, descreveu.
Através da leitura das imagens, e tendo como referência a “Sopa de Pedra”, a autora foi imaginando uma narrativa: um homem que parecia doente passou a ser o pai impossibilitado de sustentar a família; a jovem que, por vezes, aparecia com um vestido vermelho demasiado largo, passou a ser a protagonista, que usava as roupas da mãe já falecida.
Nesta construção – que diz ter sido um processo “interessante e divertido” – também incluiu memórias mútuas em Portugal, da vida de camponeses, em aldeias junto ao mar, e da história da própria família, como o pai doente, e decidiu ainda incluir questões ligadas às mulheres, por a protagonista ser uma rapariga.
“Não basta ter um sorriso doce e ser bonita. É preciso ser-se bom a fazer alguma coisa e ser persistente. Não há um príncipe que apareça para a salvar. Ela vai ter de continuar a trabalhar para ter comida”, salienta a autora.
Para Cas Willing, em resposta às questões colocadas pela Lusa, esta história da sopa de pedra “não acaba com uma moral, mas com a ideia de que a partilha beneficia todos”.
Para Paula Rego, é enorme a importância dos contos tradicionais, sobretudo os mais antigos, porque são “os mais verdadeiros”.
“Mostram a natureza humana como ela é, sem terem sido corrompidos com a ideia de ‘como deve ser’ ou qualquer sentimentalismo. As pessoas acham que as crianças devem ser protegidas da crueldade que há nestas histórias, mas elas não se importam. Gostam porque as compreendem muito bem”, sustenta a pintora.
“Por isso dei ao museu de Cascais o nome Casa das Histórias”.
http://observador.pt/2015/10/29/paula-rego-os-contos-tradicionais-mostram-a-natureza-humana-como-ela/29/10/2015

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Povoação - Ilha de São Miguel



Fotografia: José Carreiro, Povoação, 2014-11-30



Igreja construída em 1553, sendo uma das mais antigas da Ilha, conhecida como Matriz Velha da Povoação. Foi mandada edificar por João de Arruda. No passado, esta igreja invocava Nossa Senhora dos Anjos. Está classificada como Imóvel de Interesse Público, por ter sido a primeira igreja da ilha de São Miguel a ser construída. Próximo do ano 1595, foram realizadas obras, aumentado assim o número de naves. No decurso do séc XVI seria instituído o curato de Nossa Senhora da Mãe de Deus. Após a construção da nova igreja da localidade, esta passou a chamar-se Nossa Senhora do Rosário.
http://www.azores.gov.pt/Gra/srrn-cets/conteudos/livres/Povoa%C3%A7%C3%A3o.htm


João Sardinha


576 anos da chegada dos primeiros povoadores à Povoação

Com D. Pedro em Regente
D. Henrique mandou gente
Assinando um papel
Assim nova População
Chegaram à Povoação
Na Ilha de São Miguel

Não é demais nem asneira
Lembramos ser importante
Foi senhorio da Madeira
Este nosso grande Infante

Se senhorio de Lagos
Em Alvor foi seu Regente
Não esquecendo dos cabos
Espartel e São Vicente

Foi D. Henrique o Infante
Senhorio dos Açores
Se Povoar era Importante
Pois mandou mais Povoadores

Povoada Santa Maria
Para o Norte navegaram
E à Ilha da “Cabraria”
Navegadores Chegaram

E foi com muita alegria
Quando à Ilha chegaram
Nome pelo Santo dia
De São Miguel lhe chamaram

Algarvios, Nordestenses
À Povoação chegaram
E os vizinhos Marienses
Ali também não faltaram

Plebeus, nobres e escravos
Sendo casados ou não
Senhores com seus escravos
Chegaram à Povoação

Primeiros Povoadores
Se alguns vieram contentes
Também foram portadores
De gado, alfaia e sementes

Outros dos Povoadores
Até nem mediam riscos
Povoando os Açores
Pensavam em ficar ricos

Muito Ouro até Prata
Pensavam arrecadar
Saiu-lhes floresta e mata
Com campos p’ra trabalhar

Muito limpa estava a praia
Mas lá dita Povoação
Era cedro, urze, faia
E mais por aquele chão

Para entrar na Povoação
Já não falando em medo
Nem ponham os pés no chão
Derivado ao arvoredo

Com o terreno penoso
E difícil de andar
Estando muito custoso
Pois lá tinham que limpar

Sem pararem um segundo
E não era de admirar
Desde que existia o Mundo
Tinham folhas p’ra limpar

Foi tal e qual à Madeira
Se não fossem a queimar
Nem havia ali maneira
De poderem cultivar

Centeio, fava, ervilha
Com cevada até aveia
Pois tudo dava na Ilha
P’ra almoço jantar e ceia

Na velha Povoação
Dito já pelo antigo
Foi muita a comichão
P’ra conseguir um abrigo

P’ra fazerem seus abrigos
Pois, casas eram cafuas
Sendo mesmo tudo amigos
Cada um fazia as suas

Uma barraca em madeira
Por cima a palha cobria
Foi assim feita primeira
Dita casa moradia

Queimando até desbravando
Muitas terras ao chegar
Foram-se acomodando
P’ra dormir e trabalhar

Sacho, arado, machado
Foice, martelo até serra
Isto e trabalho forçado
Serviu p’ra tratar a terra

Terreno foi melhorando
No seu viver dia a dia
Pouco em pouco se alargando
Com saúde e alegria

O dia-a-dia, vivido
Com alguma lentidão
Fica o caso conhecido
Da chegada à Povoação


João Sardinha, Diário dos Açores, 2015-09-29

    
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João Sardinha, Diário dos Açores, 2015-09-30


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Avieiros, pescadores do Tejo


“Soubesse de outro ofício e bem lhe dava de abalar terra dentro à cata de trabalho. Porém, deixar o rio era coisa reparada. Quebrar tradições era traição ao seu povo.” (Alves Redol)






Pescador da Borda d' Água,
ao cimo d'água salgada;
passa fome, passa frio,
junto do seu camarada.
Vila Franca de Xira

Quem tem um homem do mar,
julga que tem algum duque:
tem um pastel de dez reis
c’uma pitada d’açucre.
Alcochete

Está nevoeiro no sol,
debaixo da proa deita fumo;
vai o ferro para o mar
e a caldeira para o lume.
Alcochete

O meu amor é do mar,
é do mar, é marinheiro;
se ele não fosse do mar,
não me ganhava dinheiro.
Alcochete

Vale mais um homem no mar,
sem botão no colarinho,
que valem trinta manatas
de bengala e chapéu fino.
Alcochete

Que linda maré que leva
o barco do meu irmão;
debaixo da proa tem
Senhora da Conceição.
Alcochete

O barqueiro leva a barca,
leva também a barquinha;
meu amor namora duas,
mas a fama é sempre minha.
Alcochete

Ó Senhora d'Atalaia,
atalaia dos pinheiros;
és mãe dos homens do mar,
madrinha dos carreteiros.
Alcochete

Adeus ó rua do Rato
e rua das Calçadinhas,
onde passa o meu amor
quando vai para as marinhas.
Alcochete

Ó loureiro, ó loureiro,
ó loureiro ramalhudo;
quem tem um amor barqueiro
tem passagem, passa tudo.
Chamusca

Ó senhor arrais do barco
pelo amor de Deus me leve;
as tranças do meu cabelo
servem de cordas de leme.
Chamusca

Quem tem um amor marujo,
pensa que tem algum duque;
é um pastel de tostão
c’uma pitada d’açucre.
Ereira

O meu amor é do mar,
anda a aprender a marujo;
s’inda me der na cabeça,
abalo com ele e fujo.
Palhota

O meu amor é do mar
e vai a Lisboa e vem;
Nossa Senhora mo guarde
das ondas que o lar lá tem.
Samora Correia

A sorte do marinheiro,
é uma verdade pura;
anda sempre a trabalhar
em cima da sepultura.
Samora Correia

Ó barqueiro arreia a vela,
ó barqueiro arreia o pano;
quem casa com mulher magra,
tem bacalhau todo o ano.
Vila Franca de Xira

Rapaz vê lá se descobres
num cantinho do mercado,
uma peixeira magrinha,
com o peixe perfumado.
Vila Franca de Xira

Uma gaivota voando,
no bico leva um letreiro,
com letras d’oiro que dizem:
meu amor é marinheiro.
Vila Franca de Xira

Lá vem o barquinho à vela,
lá vem a sardinha boa,
lá vem o meu amorzinho
assentadinho na proa.
Vila Franca de Xira

O meu amor é barqueiro,
tem a lancha presa no cais;
este ano é camarada,
para o ano é arrais.
Vila Franca de Xira

Já lá vai a embarcação,
toca não toca no cais;
é da minha obrigação
ajudar o meu arrais.
Vila Franca de Xira

No verão, cheio de calor,
muito pescador se passa:
lá vão uns para o melão,
outros ficam à fataça.
Palhota


PESCADORES VS CAMPINOS

Andas tola, andas vaidosa
por namorar um varino;
também eu ando vaidosa
por namorar um campino.
Vila Franca de Xira

PESCADORES
Vale mais um homem do mar
co'as mãos sujas d’alcatrão;
que valem trinta da terra
com as enxadas na mão.
Alcochete

Anda lá rapaz do mar,
ao leme dessa fragata;
manda lá o terreano
p’ra vinha sachar batata.
Alcochete

O meu amor é do mar,
é do mar e é varino,
e se não fosse do mar,
era do campo e campino.
Alhandra

Eu não quero ir ao campo
que lá faz muito calor;
eu não quero ser campina
que o meu bem é pescador.
Palhota

Eu hei de ir ao Alegrete
namorar uma varinha,
por que são flores viçosas,
não se encontram na campina.
Vila Franca de Xira

CAMPINOS
Homens do mar não são homens,
varinos homens não são;
onde chegam valadores,
abre a terra, treme o chão.
Vila Franca de Xira


Cancioneiro do Ribatejo, org. e prefácio de Alves Redol.
Vila Franca de Xira, Centro Bibliográfico, 1950


Obra integral disponível para leitura.



Há mais de cem anos, os avieiros, eternizados por Alves Redol, começaram a trocar o quezilento mar invernal de Vieira de Leiria pelo amável estuário do Tejo. Depois, trouxeram as famílias, e pelo rio ficaram.

“Eu não quero ir para o campo / que lá faz muito calor / eu não quero ser campina / que o meu bem é pescador." No seu Cancioneiro do Ribatejo, António Alves Redol pincela uma das rugas mais vincadas dos avieiros: o seu caráter reservado, isolado no rio, de costas para o vizinho mundo das lezírias e fechado aos camponeses que as habitam e trabalham. Esse lado recluso, que os leva a casar sempre dentro da própria comunidade, é uma das razões para o escritor neorrealista os apelidar de “ciganos do rio”, no livro Avieiros, publicado em 1942. Outra justificação, porventura mais forte, é o seu lado nómada ‑ os avieiros vieram de longe, de Vieira de Leiria, e durante muito tempo andavam de trás para a frente de barco às costas a fazer-lhes de casa.
O século XIX não foi um bom século para Vieira de Leiria. Começou logo mal, com o exército das invasões napoleónicas a saquear e arrasar a eito a vila piscatória, no seu caminho para Lisboa. O saldo só não foi pior porque a maioria da população fugiu antes para o pinhal de Leiria, levando consigo tudo o que conseguia carregar. Mesmo assim, nos anos seguintes, metade da população sucumbiu às epidemias, consequência da fome e de muitos terem encontrado as suas casas destruídas pelos franceses.
A arrasadora passagem das tropas inimigas tornou ainda mais difícil uma vida já de si duríssima. Os pescadores enfrentavam todos os anos invernos cruéis, de mar frio e bravo, em barcos demasiado pequenos e frágeis para encararem olhos nos olhos as descomunais ondas. Porém, ver os filhos a passar fome dá coragem ao mais poltrão dos homens. Muitas vezes, os pescadores da Vieira de Leiria arriscavam sair para o Atlântico debaixo de tempestade. Bastas vezes não regressavam. A alternativa era empregarem-se nas serrações, à jorna, mas o bom pescador enjoa longe do mar.
Até que, no final do século XIX, um deles aventurou-se a descer a costa até Lisboa e a entrar no Tejo. O pioneiro encontrou um mar dentro do rio - mas um mar de ondas suaves e peixe gordo. Palavra puxa palavra e o estuário foi-se enchendo de homens de Vieira de Leiria nos meses frios. No verão, continuavam a lançar a rede à sardinha, na terra natal; no inverno, faziam do Tejo casa, à cata de sável, enguia, robalo, lampreia, fataça. O povo que há séculos habitava as margens do rio imediatamente os batizou: avieiros, à conta da longínqua vila que lhes serviu de berço.


Duas bateiras com toldo à proa.

A bateira como abrigo.

Ao princípio, os homens vinham sozinhos, com o colorido barco a servir-lhes de casa e local de trabalho. A ré era a oficina, de onde lançavam as redes e guardavam o peixe. A barriga da embarcação fazia de cozinha, apetrechada com fogareiro a petróleo e um armário para guardar alguidares, comida e o material de costura, para consertar as redes. A proa empinada transmutava-se de quarto, separado da cozinha por uma taipa, chamada “emparedeira", que também servia para apoiar os pés no momento de dar uso ao remo. dormiam, embalados permanentemente pelo ondular das águas e mal protegidos da chuva por uma pobre e precária cobertura de lona. Nestes seis ou sete metros de comprimento por metro e meio de largura viviam os avieiros uma boa parte do ano.
Cinco meses parecem cinco anos quando se está sozinho. A temporada longe das mulheres e dos filhos alongava-se, cada vez mais penosa, e a saudade esmagava espíritos, mas o peixe deixava-se apanhar e no Tejo raramente se morria. Já com o século XX mais do que inaugurado, alguns avieiros começaram a trazer as famílias com eles e deixaram de regressar a Vieira de Leiria. Lentamente, os nómadas sedentarizaram-se, e passaram a ter como viagem maior as excursões até Lisboa para vender o pescado.
A grande migração aconteceu entre 1919 e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Assentar raízes no concorrido rio, no entanto, não foi fácil. Incontáveis centenas de pescadores abarrotavam já as águas, e os avieiros nem sequer tinham sido os primeiros forasteiros a chegar. Era constante o choque com os varinos, naturais de Ovar, os murtoseiros, da Murtosa, e os ílhavos, de Ílhavo, que haviam descoberto o Tejo nos séculos XVIII e XIX. Também os homens e as mulheres dos campos olhavam com desconfiança para estas gentes de estranhos hábitos, que acampavam nas praias, para ficarem mais perto do peixe, às vezes erguendo casitas feitas de caniços, não ousavam dar dez passos terra adentro e se tratavam uns aos outros pelas mais estrambólicas alcunhas: o Diabo Coxo, o Boga, o Malho, o Tubarão, o Japão, o Picareta, o Cientista, o Póri, o Botas, o Cosminha...
A estabilidade e o generoso número de filhos com que os pescadores eram agraciados obrigaram-nos a procurar habitação mais condigna. Tábua a tábua, o rio ia sendo ladeado por barracos de madeira, iguais aos palheiros das praias de Vieira de Leiria mas assentes em estacas cravadas no leito ou nas margens, para escaparem às copiosas inundações e não se afastarem do barco, seu único sustento. É por esta altura, nos anos 20 e 30, que o Tejo ganha cor: ao invés da monotonia alva que rodeia o estuário, as casas de palafita dos avieiros são pintadas de vermelho, azul e verde.


No apogeu da migração de Vieira de Leiria, chegaram a "fundar-se" 80 lugarejos avieiros. Escaroupim, Palhota, Caneiras, Carrasqueira, Barreira da Bica, Lezirão, Muge, Valada, Carregado, Vila Franca de Xira, Alhandra, Póvoa de Santa Iria... Por todo o lado, quase até Santarém, assomavam pequenas aldeias berrantes, que ao longe pareciam flutuar nas águas. Habitações trôpegas e modestas – “pequenas, talvez para que as não vissem; tímidas, para que não as mandassem destruir", no dizer de Alves Redol - com cozinha, uma salinha e um ou dois minúsculos quartos. Por cima das camas, apetrechadas com singelos colchões de palha e velhas mantas, ficavam penduradas as redes. A entrada fazia-se por umas escadas que desciam para o rio.
Não eram só as casas a pintalgar o Tejo. Também os naturais de Vieira de Leiria se vestiam com roupas garridas. As mulheres envergavam blusas com pregas, saias de xadrez preto ou castanho e amarelo (ou vermelho, ou azul), casacos rematados por rendas, lenço na cabeça e um omnipresente avental - fosse no labor mais árduo, ajudando o marido a puxar as redes, fosse na festa mais catita. Os homens usavam calças de fazenda, sempre arregaçadas na bainha, e camisas de flanela aos quadrados, com um barrete preto ou uma boina vermelha.
Vasco Loubet
http://www.vascoloubet.eu/portfolio_page/rancho-ceifeiras/

Com o tempo, a comunidade abriu-se mais. Aqui e ali, um ou outro pescador oferecia-se aos campos, quando o peixe, a crescer de esperteza ou a mingar de tamanho, fintava as redes ou as atravessava sem mácula. Empurrados para fora do rio, desempregados e puxados pelas fábricas que lhes invadiram o espaço, os netos e os bisnetos dos avieiros largaram paulatinamente a vida no Tejo.
Hoje, pode dizer-se que o tempo dos avieiros já lá vai. A modernidade encarregou-se de os extinguir, pescador por pescador. Restam apenas algumas casas, abandonadas ou a servir de barracão, entretanto empalidecidas, desbotadas pelo sol e pela água, apoiadas em apodrecidas e débeis escoras de madeira. As poucas casitas originais que ainda se mantêm de pé estão agora entre as últimas habitações típicas de palafita da Europa. Em Escaroupim, no concelho de Salvaterra de Magos, um antigo lar avieiro foi remodelado e convertido em museu.
A história dos pescadores que fizeram da aventura rotina, essa, não morrerá nunca. Alves Redol deixou-a contada no romance Avieiros, um dos pilares do neorrealismo português. O livro foi editado em 1942, mas começou a ser escrito na cabeça do vila-franquense quando ele era ainda uma criança: Alves Redol, que crescera ao lado dos filhos dos varinos, seus companheiros de escola e de brincadeiras, ficou certo dia embasbacado a olhar para o singular e rude desconhecido que viu entrar numa taberna, encher um garrafão de tinto e abalar sem uma palavra; um amigo disse-lhe que o homem era um avieiro, que vivia da apanha do sável, e a curiosidade transformou-se em obsessão por conhecer melhor aquele povo.
Três décadas depois deste episódio, e ao fim de quatro anos a tentar convencê-los, Alves Redol conseguiu que o deixassem viver com eles, na aldeia de Palhota, durante a época do sável, para os acompanhar nas pescarias, entrar-lhes na alma e imortalizar-lhes o legado. Com uma condição ‑ tinha de levar a mulher com ele, não fosse o escritor roubar-lhes mais do que a história.
“Ciganos do rio”, L.R./A.R.. Super Interessante nº 207, julho 2015
Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro Histórias do Tejo, do jornalista Luís Ribeiro (A Esfera dos Livros, 2013)






Barcos de Portugal