1. Não
desci do comboio como Álvaro de Campos porque já não havia bilhetes. Tudo
esgotado: o comboio via Faro, o próximo barco, o polvo no barro, a sardinha
assada. O ex-pescador Ostílio acaba de bater o seu recorde de transferências de
Tavira Cidade/City para a Ilha/Island, uma vida nas redes, outra no ferry
boat, a que ele chama reforma. Tem cara disso, engelhada de sol, e um nome
que eu nunca tinha ouvido, pelo menos no masculino.
2. Tudo
é velho onde fui novo, achou Campos, descendo do comboio aos 41 anos. Seis
anos mais à frente, digo de outra forma, tudo é novo onde sou velha. Certo que
Tavira não é a vila da minha infância, mas em Lisboa parece-me o mesmo (e tudo
também esgotado, do cacilheiro à calçada). Já sei, é melhor que morrer de fome,
e até me dizem que este ano o Algarve não está assim tão cheio.
3. Na
verdade, não sei, só vi o pedaço de Faro a Tavira, e da última vez que tinha
estado no Algarve ainda não se vendiam garrafas de meio litro de azeite a vinte
euros, mesmo comprado no olival de origem, porque é um dos melhores do mundo,
ao mesmo tempo que a pracinha da igreja de Tavira oferece uma variedade de
aproximadamente vinte e três restaurantes indianos. Hoje, em Tavira Cidade/City
os vendedores das lojas dos trezentos, que já não são dos trezentos, nasceram
no Rajastão, usam turbante e vendem sardinhas de loiça. Entretanto, Álvaro de
Campos, além de rua e biblioteca, é uma rota cultural incluindo a varanda onde
escrevo. Ainda não localizei o Álvaro de Campos Coffee Shop & Restaurant,
mas as críticas no Tripadviser contêm frases como I love Álvaro de
Campos for the best vegetable soup in the world. Ah, amado ao nível do
estômago, processado em forma de legume, um Álvaro de Campos enfim concreto,
orgânico, vivo, depois de tanta vontade de tudo, o gatuno de estrada, as
sombras na viela, as prostitutas, todos beijados na boca, pelo menos um
momento,
(Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
estalagem, calabouço número qualquer cousa
(aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
meu coração clube, sala, plateia, capacho, guichet,
portaló,
meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice,
eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração)
4. Aquela
casa das tias velhas que lhe liam a Nau Catrineta? Podia ser a
minha morada em Tavira. A primeira vez que subi as escadas achei que era a
pensão das Recordações da Casa Amarela, e a todo o momento o perfil
de João César Monteiro seria projectado pelo sol da tarde, cigarrinho
bruxuleando. Agora, ao fim de algumas noites, acho que afinal podia ser a casa
das tias velhas de Álvaro de Campos, tiquetaque do relógio e tudo. Afinal ou
também, porque a sombra de Campos seria quase a de César Monteiro, magro,
curvado, cigarrinho bruxuleando, monóculo em vez de óculos. De resto, rangidos,
estalidos, portas de bandeira, maçanetas de loiça, chão de tábua, mosaico.
5. Mas
saindo colina acima, pela noite, parece-me que a casa de Campos teria de ser
mais fidalga, talvez esta, com janelas em arco, ou aquela de sacada, palavra
que Fernando Pessoa tanto usou, e agora, como tantas, se usa sobretudo no
Brasil, duplicada em sentido (varanda, ou a percepção que de repente sai).
6. Mais
fidalga porquê? Porque fidalgo e judeu foi o passado que Pessoa deu ao seu
duplo dois centímetros mais alto, engenheiro (in)capaz de toda a sensação.
Então, em certo dia de 1930, Álvaro de Campos desembarca de volta a este
horizonte de quintal e praia, e a vila da infância é afinal uma cidade
estrangeira, distância entre tudo o que era, tudo o que não será, mais aguda
por nela ver a sua própria cara.
7. Vem,
claro, no lugar do próprio Pessoa, é o seu sensor avançado, em busca dos
antepassados de Tavira. E, reparo agora, a travessa que todas as manhãs me leva
de casa ao rio Gilão chama-se Jacques Pessoa. Não vou pesquisar, fica no
talvez, quem sabe, um tetravô. Em Tavira podemos sempre recuar aos marcos da
nacionalidade, por exemplo, chegando ao fim da ponte romana lá está, do lado
direito, a placa em memória dos valorosos moradores de Tavira e de Faro que na
crise política de 1383 a 1385 defenderam nesta ponte a causa de D. João I,
mestre de Avis e nela proclamaram a vitória decisiva do Algarve na luta pela
independência de Portugal.
8. Já
neste Verão de 2015, a nacionalidade está mais para cerveja artesanal, flor de
sal, chamando à vida um figo em várias línguas. Qualquer
holandês-alemão-italiano-francês-espanhol dirá, de nariz no ar, em busca de
casa para restaurar, como em Portugal se come bem, derivado ao clima mas não
só, além, claro, da paz que não há nas duas margens do Mediterrâneo, a que vê
os barcos partirem e a que vê os mortos a bordo. Descendo pela Via do Infante,
invisível, sozinho, Álvaro de Campos beijá-los-ia a todos na boca, coração rendez-vous da
humanidade, pulmões cheios de água.
Alexandra Lucas Coelho, revista 2, Público, 2015-09-06
José Maria de Aguiar Carreiro, Chuva de Época Ponta Delgada, Edição de autor, 2005.
De facto, nada aprendi sem que tenha
partido, nem ensinei ninguém sem convidá-lo a deixar o ninho. Partir exige um
dilaceramento que arranca uma parte do corpo à parte que permanece aderente à
margem do nascimento, à vizinhança do parentesco, à casa e à aldeia dos
usuários, à cultura da língua, à rigidez dos hábitos. Quem não se mexe, nada
aprende. Sim, parte, divide-te em partes. Teus semelhantes talvez te condenem como
um irmão desgarrado. Eras único e referenciado. Tornar-te-ás vários, às vezes
incoerente com o universo que, no início, explodiu, diz-se, com enorme
estrondo. Parte, e tudo então começa, pelo menos a tua explosão em mundos à
parte. Tudo começa por este nada.
Michel Serres, Filosofia Mestiça. Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1993, pp. 14-15
Ei-los que partem novos e velhos buscando a sorte noutras paragens noutras aragens entre outros povos ei-los que partem velhos e novos Ei-los que partem de olhos molhados coração triste e a saca às costas esperança em riste sonhos dourados ei-los que partem de olhos molhados Virão um dia ricos ou não contando histórias de lá de longe onde o suor se fez em pão virão um dia ou não
Apesar de
"Os Emigrantes", de 1926, se integrar no ideário do Regionalismo,
apresentado pelo Padre Ernesto Ferreira, no seu opúsculo intitulado Regresso à
Terra, através do qual se valorizava a importância dos usos, costumes e
tradições populares na definição de culturas distintas, esta pintura tem a
particularidade de ser a representação de um fenómeno social, apresentando-se
como aglutinadora de um conceito de "Açorianidade", analisado na
época pelo investigador Luís Ribeiro. Para reforçar a temática central, o
artista regista nesta obra o trajo popular e os elementos identificativos do
local de partida, nomeadamente o antigo cais da Alfândega, antes da construção
da Avenida Marginal de Ponta Delgada, juntando nesta composição elementos
culturais de raízes profundas, como a viola da terra e o registo do Senhor
Santo Cristo.
A figura de
chapéu, que se encontra do lado esquerdo, denota a consciência social do
artista.
Este poema é das saudades e do
sol-posto.
E da procissão do Senhor, de colchas nas varandas.
E de quando eu tinha as mãos postas
que a minha mãe veio e me pôs umas asas brancas.
E das horas gastas esperando o teu
regresso.
E das idas clandestinas e do caminho andado.
E da janela, aberta para os muros, que enchia
de sombras as recordações do meu quarto.
Este poema é dos vidros partidos
pelas pedras que atirei aos meus amigos
nos combates havidos nas travessas.
E da chuva que caiu nas colchas das
varandas.
E das mãos que vieram tirar-me as asas brancas.
E dos olhos de minha mãe, quando eu parti para longes terras...
Eduíno
de Jesus
Saudade. Paulo Borges, P. Delgada, nov. 2017
FUTURO
Folha a folha revisito um álbum de retratos,
retratos que lembram o que de antemão sabia
– Dizem que mudei. Nem as paisagens
se recuperarão e os avós estão mortos;
as árvores não existem mais,
aquelas por detrás dos risos
Folha a folha imagens falam
o que não quero que falem. Nem sempre
escutamos o que é importante e essencial
– O futuro, esse retrato em falta no álbum.
Ou, o poema de amanhã,
que parecendo futuro é passado.
Ivo Machado, Quilómetro
zero. V. N. Gaia, Exodus, 2008.
Tomaz Vieira, Os Regressantes, 1987
A pintura Os
Regressantes, efetuada em 1987 por Tomaz Vieira, é uma «Homenagem
aos Emigrantes de Domingos Rebelo», como o próprio artista registou. Cerca de
sessenta anos depois da pintura original, Tomaz Vieira parte da composição de Os
Emigrantes, de Domingos Rebelo (Versão de 1929, efetuada para o «Bureau de Turismo»
de Ponta Delgada), e regista um fenómeno de aculturação. No catálogo da exposição
A window on the Azores, refere-se que «em Os Regressantes as figuras
apresentam uma atualização onde há símbolos da integração dos açorianos nos
países para onde emigram. Esses símbolos estão na indumentária e na variedade
de objetos identificáveis na composição. O facto de o «Registo do Senhor Santo
Cristo dos Milagres», de Os Emigrantes, ser substituído, em Os
Regressantes, pela imagem da «Canadian National Tower», de Toronto, terá a
ver com a evocação do relacionamento da sociedade açoriana com as imagens do
progresso, em terras do Mundo Novo. As figuras de Os Regressantes mantêm
a postura de Os Emigrantes, o que acentua o tratar-se da mesma gente. O
autor da réplica compromete-se a dar uma resposta positiva ao clima de esperança
que Domingos Rebelo imprime nas suas telas de concepção regionalista,
nomeadamente ao drama contido em Os Emigrantes» (Exposição de Artistas Açorianos Contemporâneos, in A window
on the Azares, Bermuda National Gallery, 1999, p. 16-17.)
MCTO, Museu Carlos Machado
*
ROSE ERA O NOME DE ROSA
A mãe disse não mais
não mais eu não mais tu filha
não mais nomes na pedra do cais
não mais o cortinado da ilha
não mais Rosa sejas Rose agora
não mais névoas roxos ais
não mais a sorte caipora
não mais a ilha não mais
Porém Rose o não mais não quis
e quis ver a ilha do não mais
o cortinado roxo infeliz
os nomes na pedra dos cais
Pegou em si e foi-se embora.
Não mais Rose.
Rosa outra vez agora.
AsIlhas
Afortunadasfazem parte da tradição clássica. Já em
autores gregos aparecem referidas como paraísos, local do repouso dos deuses e
dos heróis míticos. Ptolomeu, soberano do antigo Egito, fala destas ilhas, tal
como Homero que refere as "ilhas que ficavam além dos Pilares de
Hércules". O historiador romano Plínio-o-Velho e Plutarco, no século I,
identificaram asIlhas
Afortunadascom as Canárias, tal como faz Camões nocanto V,
estância 8. Gregos, romanos e fenícios, nas suas aventuras
pelo Mar Mediterrâneo em direção à costa atlântica africana referem o
encantamento que lhes provocavam estas ilhas vulcânicas, de clima temperado e
de vegetação luxuriosa e balsâmica.
EmMensagem, Fernando Pessoa fala dasIlhas
Afortunadascomo mito e símbolo, surgindo como local
fora do tempo e do espaço onde os mitos doQuinto Império, doEncoberto, doSebastianismoesperam para se concretizar. As Ilhas, cuja presença só
se capta no sono através de sinais auditivos e pelo som das ondas, surgem como
lugar do não-tempo e do não-espaço, são "terras sem ter lugar", onde
se encontra o Desejado que virá fundar o Quinto Império, "onde o Rei mora
esperando".
Lagoa das Sete Cidades, ilha de São Miguel, Açores.
Quarto
AS
ILHAS AFORTUNADAS
Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutamos, cala,
Por ter havido escutar.
E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.
26-3-1934
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa:
Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).
- 85
Terceiro
CALMA
Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?
Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sozinho?
Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?
15-2-1934
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria
António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).
- 101.
DO(S) OUTRO(S) MUNDO(S) DA VISÃO AO
NOVO MUNDO DA RAZÃO:
VIAGEM INICIÁTICA,
DES(EN)COBRIMENTO(S) E U-TOPIA
É o sentido iniciático de
que a Ilha, ou o que nela se simboliza, é o mais fundo e autêntico Sujeito dos
sujeitos que a buscam que, coerentemente, se traduz na tradição continuadora da
navegação de São Brandão. Com efeito, da Ilha Perdida, por vezes identificada
com a de São Brandão, da Ilha ou Ilhas Encantadas, da camoniana Ilha dos Amores
e, apropriada já à mitologia do messianismo sebástico, da Ilha Encoberta, se diz
que, tal essa falsa ilha flutuante que na Navigatio é a baleia Iascónio,
têm o poder de aparecer e desaparecer, encobrindo-se ou desencobrindo-se
consoante a relação do seu movimento próprio à atitude espiritual dos que as
demandam. Assim se diz da Ilha Perdida, no manuscrito do Escorial Semeiança
del mundo: "e a esta tierra dizen Pardita porque quando la buscan non
la fallan, e non la pueden fallar sy es por aventura; e a aquesta tierra
vino San Brandán"26. Ilhas a que só acedem
"espíritos" mais "viatores ou peregrini que (...)
descobridores"27, é delas e do quenelas se encobre e
desencobre que Fernando Pessoa indica a fenomenologia negativa em dois poemas
decisivos de Mensagem: As Ilhas Afortunadas e Calma.
No primeiro há uma
"voz" que "vem no som das ondas" e que não é a do
"mar", antes a de "alguém que nos fala, / Mas que, se escutamos,
cala, / Por ter havido escutar". É apenas "meio dormindo", como
"uma criança", suspensa essa intencionalidade desiderativa, apropriadora
e objectivante da consciência em estado comum de vigília, pressupondo poder
reduzir um Logos meta-ôntico a um objecto da subjectividade consciente de o
ser, que "sem saber de ouvir ouvimos" o que nos abre menos para a
"esperança" do eu humano do que para a espera transcendente
que já não é nossa mas a do próprio "Rei"-Identidade outra por
nós, na a-tópica residência das suas "terras sem ter lugar"28.
No segundo poema é uma
"costa" que "as ondas contam / E se não pode encontrar", ou
que "as ondas encontram" mas nunca se torna visível, trans-ôntica
praia de "Ilha próxima e remota" que agora se escuta sem que a visão
a capte. Fica a sugestão de "rasgões no espaço", instâncias de
ruptura e descontinuidade "que dêem para outro lado", para a
trans-dimensão de alteridade em que se pode desencobrir a "ilha
velada", o "país afortunado" do "Rei desterrado / Em sua
vida encantada'29. O fundo do messianismo sebástico, ao contrário do que
vulgarmente se pensa, não está na esperança de que o Encoberto regresse aonde
não pertence, ao exílio que, nesta perspectiva, é a história dos homens, mas no
seu esperar, do não--onde em que reside oculto para a e pela nossa
indisponibilidade, que sejamos esse pessoano e metanóico "nevoeiro"
que, no crepúsculo das formas da auto-consciência e do tempo
histórico-objectivo, se faça "a hora"30 do desencobrir-se-nos. Como
escreve José Marinho, após distinguir entre a passividade do que se diz como
"coberto" e a actividade sugerida no que se indica como
"encoberto"31: "(...) o mesmo que procuramos verdadeiramente
descobrir, esse mesmo é o pelo que há descobrir e encobrir, e ele é o que
descobre a si mesmo descobrindo (...). Procuramo-lo como se o fôssemos e não o
somos ou ele não é ou nada o é. Pretendemos descobrir o ao que a nós descobre e
tudo em nós e para nós. Forcejamos por alcançá-lo na continuidade do que somos,
ele surge-nos, porém, na descontinuidade e na ruptura incompreensível". E
"longos anos" "dos muitos erros e do longo errar necessário"
se anunciam até à compreensão disso...32.
Mapa-mundi de 1493 de Hartmann Schedel. A Ilha Afortunada é assinalada a oeste da costa africana.
QUESTIONÁRIO SOBRE O POEMA “AS ILHAS AFORTUNADAS”
(FERNANDO PESSOA)
1. Refira a condição necessária à
manifestação da voz e transcreva elementos do texto que justifiquem a sua
resposta.
Cenário
de resposta
Para que a voz se manifeste, é necessário que quem
ouve se encontre semiacordado, ou num estado de semiconsciência, sem procurar
escutar essa voz – «Mas que, se escutamos, cala, / Por ter havido escutar» (vv.
4-5); «E só se, meio dormindo, / Sem saber de ouvir ouvimos,» (vv. 6-7); «Mas,
se vamos despertando, / Cala a voz, e há só o mar.» (vv. 14-15).
Nota – No que diz respeito à transcrição de elementos do
texto, a resposta pode incluir apenas uma ou várias das citações apresentadas
no cenário de resposta.
2. Explique o sentido dos dois últimos
versos do poema.
Cenário
de resposta
De
acordo com o sentido dos dois últimos versos do poema, quando se desperta do
estado de semiconsciência:
– a voz
do mar, associada a uma ideia de esperança, desaparece;
– o mar passa a ser apenas uma realidade objetiva
3. Explique de que modo o conteúdo da
última estrofe convoca o mito sebastianista.
Cenário
de resposta
Na
última estrofe, a esperança no regresso do Rei D. Sebastião e,
consequentemente, na possibilidade de resgatar a glória de Portugal está
associada a aspetos como:
– a
existência de um espaço mítico onde o Rei se encontra – «São ilhas afortunadas,
/ São terras sem ter lugar,» (vv. 11-12);
– o
facto de o Rei aguardar o momento de agir – «Onde o Rei mora esperando.» (v.
13).
Nota – Não é obrigatório o recurso a citações, ainda que
estas figurem, a título ilustrativo, no cenário de resposta.
Exame Nacional de
Português, 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho).
IAVE, 2015, 2ª fase. Prova 639 e critérios de
classificação.
Em época recuada,
existia, no lugar onde fica hoje a freguesia de Sete Cidades, um reino próspero
e aí vivia uma princesa muito jovem, bela e bondosa, que crescia cada dia em
tamanho, gentileza e formosura. A princesa adorava a vida campestre e
frequentemente passeava pelos campos, deliciando-se com o murmurar das ribeiras
ou com a beleza verdejante dos montes e vales.
Um dia, a princesa de
lindos olhos azuis, durante o seu passeio, foi dar a um prado viçoso onde
pastava um rebanho. À sombra da ramagem de uma árvore deparou com o pastor de
olhos verdes. Falaram dos animais e de outras coisas simples, mas belas e
ficaram logo apaixonados.
Nos dias e semanas
seguintes encontraram-se sempre no mesmo local, à sombra da velha árvore e o
amor foi crescendo de tal forma que trocaram juras de amor eterno.
Porém, a notícia dos
encontros entre a princesa e o pastor chegou ao conhecimento do rei, que
desejava ver a filha casada com um dos príncipes dos reinos vizinhos e logo a
proibiu de voltar a ver o pastor.
A princesa, sabendo que a
palavra do rei não volta atrás, acatou a decisão, mas pediu que lhe permitisse
mais um encontro com o pastor do vale. O rei acedeu ao pedido.
Encontraram-se pela
última vez sob a sombra da velha árvore e falaram longamente do seu amor e da
sua separação. Enquanto falavam, choravam e tanto choraram que as lágrimas dos
olhos azuis da princesa foram caindo no chão e formaram uma lagoa azul. As
lágrimas caídas dos olhos do pastor eram tantas e tão sentidas que formaram uma
mansa lagoa de águas verdes, tão verdes como os seus olhos.
Separaram-se, mas as duas
lagoas formadas por lágrimas ficaram para sempre unidas e são chamadas de
Lagoas das Sete Cidades. Uma é a lagoa Azul, a outra é a lagoa Verde e em dias
de sol as suas cores são mais intensas e refletem o olhar brilhante da princesa
e do pastor enamorados.
Açores,
lendas e outras histórias, recolha e arranjo de textos de
Ângela Furtado Brum, Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana Editores, dezembro
de 1999 (2ª edição).
DENTRO DUMA CRATERA ESCARPADA Dentro duma cratera escarpada
Vasco
Pereira da Costa, Ilhíada antes e depois (poesia 1972-2012)
Vila Nova de
Gaia, Calendário das Letras, setembro 2012
ISBN: 978-972-8985-63-9
Baía do Silêncio (parte da lagoa das Sete Cidades)
BAÍA DO SILÊNCIO
Ó baía do silêncio
Na voz dos mal amados
Nos veios que a lonjura desenhou
Ó baía do silêncio
Do pranto das cidades
Anseios que a tristeza ensombrou
Rosa negra tatuada
Nesta sorte tão magoada
Na voragem desta noite um arrepio
Neste amargo cativeiro
Um lamento derradeiro
Coração a latejar, um desvario
Quem se perdeu nos labirintos do amor
Quem se queimou nesta fogueira, nesta dor
Quem se perdeu nos labirintos da paixão
Quem se rasgou nesta navalha, neste arpão
Dança de sombra e de luz
Neste jogo de espelhos
Teatro nesta imensa solidão
7
cidades - A Lenda do Arcebispo, RTP-Açores. Letra de José Medeiros baseada
na lenda “O arcebispo Genádio e as Sete Cidades” (recolha e arranjo textual por
Ângela Furtado-Brumem Açores,
lendas e outras histórias. Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana
Editores, dezembro de 1999, 2ª edição).
Audição da letra
da canção “Baía do Silêncio” nas versões de Dulce
Pontes e Helena.
A baía do silêncio, na lagoa das Sete cidades, é um lugar
mítico. Ali o silêncio sente-se, respira-se o ar fresco e suave do arvoredo,
contempla-se a massa verde das águas tranquilas, refletindo as vertentes da
lagoa, onde a vegetação é uma nota compacta de milhentas tonalidades, todo o
ambiente é sereno e contemplativo.
Há
muitos, muitos anos, havia um rico fidalgo que tinha um filho mimado e
conhecedor da arte de nigromancia, através da qual conseguia facilmente seduzir
todas as donzelas que desejava. Passados os momentos de paixão, Genádio esquecia
a jovem e partia à procura de novas aventuras. Levava uma vida de loucura e
amores passageiros.
Certo
dia, porém, Genádio foi ferido por uma arma na mão de um homem que quis lavar a
honra de uma donzela enganada. Entre a vida e a morte, o jovem fidalgo prometeu
renunciar à vida degradante que levava e tornar-se padre e anacoreta se Deus o
livrasse da morte.
Assim
aconteceu. Curou-se, consagrou-se ao Senhor e passou a levar vida santa,
começando a dar-se milagres por sua intercessão. A sua fama galgou montanhas e
chegou ao conhecimento do Papa que o nomeou bispo e pouco tempo depois
arcebispo.
Por
este tempo vieram pôr-lhe à porta da igreja da Sé uma linda menina
recém-nascida, que foi acolhida e criada pelo arcebispo Genádio como se fosse
uma princesa.
Estava-se
na época em que os mouros, atravessando o Estreito de Gibraltar, invadiram a
Península Ibérica e a dominaram política e religiosamente. O arcebispo Genádio
não esperou muito. Reuniu os seus seis bispos, as suas gentes, preparou uma
numerosa frota e fez-se ao mar, levando também a menina sua protegida para
outra terra, onde pudesse manter viva a fé cristã.
Ao
fim de algum tempo de viagem, por mares turbulentos, foram ter a uma ilha muito
fértil, onde o arcebispo e os seis bispos fundaram cada qual a sua cidade.
Nessa ilha de clima ameno, de solo fértil e campos verdejantes, iniciaram uma
vida de prosperidade e desenvolveram-se sete ricas cidades.
Paz,
a menina criada e adorada pelo arcebispo, tinha crescido no entretanto. Era
bela, meiga, sonhava com jovens cavaleiros e esperava um que a amasse. Alguns
destes sonhos e esperanças eram balbuciados só em segredo às suas 'aias, mas
mesmo assim o arcebispo soube dessas confidências. Cioso da pureza da jovem,
relembrando talvez as indignidades que cometera em novo, decidiu defendê-la com
todas as suas forças e poderes. O excesso de zelo ou de ciúme fez com que
decidisse recorrer aos antigos conhecimentos em artes mágicas que possuía, se
necessário fosse, para conseguir que a ilha se ocultasse a quem dela se
aproximasse.
Certa
manhã, em que os sacerdotes oravam nos templos e a vida corria com harmonia nas
cidades, surgiu uma caravela coma cruz de Cristo desenhada nas vela que se
dirigiu para a ilha. Genádio, prevendo que a bordo vinha aquele por quem D. Paz
se poderia apaixonar, recorreu a todos os seus poderes nigromantes. Então a
formosa ilha transformou-se num enorme vulcão, as Sete Cidades precipitaram-se
no abismo e ficaram submersas.
No
seu lugar apenas ficou uma cratera coberta em parte por uma linda lagoa. A essa
zona da ilha de S. Miguel continuou a chamar-se Sete Cidades, embora apenas lá
exista agora uma pequena freguesia nas margens da lagoa.
Açores,
lendas e outras histórias, recolha e arranjo de textos de
Ângela Furtado Brum, Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana Editores, dezembro
de 1999 (2ª edição).
O REI BRANCO PARDO E A LAGOA DAS SETE CIDADES
Há
muitos, muitos anos atrás, havia um reino tão grande e florescente que o seu
soberano, Brancopardo, não sabia ao certo o número dos seus vassalos, dos
castelos, cidades e aldeias. Era a Atlântida. Apesar desta riqueza, o rei e a
rainha Branca Rosa, que tinham sido muito felizes em tempos passados, viviam
então muito tristes por não terem filhos. Brancopardo tornava-se cada dia mais
vingativo e tratava muito mal os seus vassalos.
Uma
noite em que o rei vagueava pelos jardins do palácio com a rainha teve uma
visão que lhe falou assim:
‑
Rei da Atlântida, venho trazer-te a alegria. Em breve serás pai de uma filha
linda e virtuosa, mas para que tenha fim a tua maldade, é preciso que nem tu
nem homem nenhum se aproxime da princesa. Viverá dentro dos muros de sete
maravilhosas cidades que eu erguerei no mais lindo recanto do teu reino e só
donzelas a servirão. Presta atenção! Se antes dos vinte anos ousares transpor
as muralhas das sete cidades, serás morto e um cataclismo arrasará o teu reino.
Orei, cheio de alegria, prometeu fazer
tudo o que o anjo dissera e, passados nove meses, nasceu uma linda princesinha.
Sem sequer a ter visto, o rei enviou-a para as Sete Cidades, cumprindo a
exigência da visão. Os anos começaram a arrastar-se lentos e dolorosos para os
pais separados da filha querida. A princesa Verde-Azul, rindo e cantando pelos
jardins da cidade, rodeada de um cortejo de virgens, ia crescendo formosa e
boa.
Brancopardo
consumia-se de saudades, tornava-se cada vez mais colérico e a ansiedade de ver
a filha chegou ao ponto de não lhe caber no peito. Mandou aprontar um exército
com os seus mais valorosos guerreiros e pôs-se a caminho para as Sete Cidades.
Aviagem foi longa e, à medida que se
aproximavam, o céu ia enegrecendo e ruídos estranhos iam saindo da terra. Mas o
rei caminhava sempre, desvairado, até que surgiram, na escuridão trágica do
dia, os muros das Sete Cidades.
Branco
Pardo, sombrio e perturbado, levantou a espada e com ela bateu pesadamente numa
das portas. No momento em que o portão principal se abria, uma espécie de
trovão roncou, um fogo intenso elevou-se da terra fendida e os muros
abateram-se imediatamente sobre o rei, os seus vassalos e todas as virgens que
viviam nas Sete Cidades. Um tremendo cataclismo vulcânico destruiu toda a
Atlântica. Por fim veio o silêncio, o sol brilhou outra vez e no mar viam-se
nove pequenas ilhas. As Sete Cidades, onde a princesa vivia, transformaram-se
numa cratera coberta por duas calmas lagoas: uma é verde porque no fundo
ficaram os sapatinhos verdes da princesa; a outra é azul e reflete a cor do
chapeuzinho que a princesa usava no seu passeio, quando foi morta pelo mau tino
do pai, o rei da Atlântida.
Açores,
lendas e outras histórias, recolha e arranjo de textos de
Ângela Furtado Brum, Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana Editores, dezembro
de 1999 (2ª edição).
AS ILHAS MÍTICAS DO ATLÂNTICO
ILHA DAS SETE CIDADES
Parte do mapa Desceliers de 1546 mostrando a Ilha das Sete Cidades e outras ilhas imaginárias.
Martin
Behaim, no seu famoso mapa-múndi de Nuremberga, datado de 1492, desenhava sobre
a ilha das Sete Cidades a seguinte legenda: "Quando corria o ano 714
depois de Cristo, a Ilha das Sete Cidades, acima figurada, foi povoada por um
arcebispo do Porto em Portugal, com outros seis bispos e cristãos, homens e
mulheres, os quais, tinham fugido de Espanha em barcos, e vieram com os seus
animais e fortunas. Foi por acaso que no ano de 1414 um navio castelhano dela
se aproximou" (63). Mesmo depois da descoberta da América,
Fernando Colombo, na sua "Vida do Almirante" acreditava na existência
dessa ilha, e torna a contar a história em termos quase idênticos. "Contam
que no oitavo século da era cristã, sete bispos portugueses, seguidos dos seus
crentes, embarcaram para essa ilha, onde construíram sete cidades, e que não
quiseram mais deixar, tendo queimado os seus navios para eliminar a
possibilidade de regresso" (65). Sem discutir a falsidade ou
veracidade desta lenda, reconhecemos contudo que o instinto de todos os povos
conquistados e de sonhar com a restauração, os bretões não sonhavam com o seu
Artur, os judeus não sonhavam com um Messias? Do mesmo modo, segundo Gaffarel,
na Hispânia estes godos teriam fugido a ocupação muçulmana para um refúgio
atlântico de onde se esperava que viessem para restaurar o reino cristão da
Hispânia.
Em
1447 um português, empurrado por uma tempestade no Atlântico, teria
desembarcado (1) numa ilha desconhecida, onde encontra sete cidades,
nas quais os seus habitantes falavam o português (2). Estes últimos
teriam querido retê-lo, uma vez que não queriam manter nenhuns contactos com a
sua antiga pátria, mas teria conseguido escapar, e regressado a Portugal, onde
conta a D. Henrique as suas aventuras. O Navegador critica fortemente o capitão
por ter fugido sem ter obtido mais informações, e o marinheiro assustado nunca
mais foi visto. Esta história causou polémica na altura em que foi publicada.
Alguns eruditos identificaram esta ilha com a ilha fenícia identificada por
Aristóteles(3) e por Diodoro da Sicilia(4) e em numerosas
cartas, onde surge com o nome de Ilha das Sete Cidades(5).
Parte do mapa conhecido como Egerton 2803, que mostra Sete Cidades na América do Norte e "Antiglia" na América do Sul.
AS
SETE CIDADES DE SÃO MIGUEL
Gaffarel
lançou a hipótese de a Ilha de São Miguel nos Açores ser essa ilha mítica. Sem
dúvida que os tremores de terra são aí frequentes. Um só ou uma sucessão deles
poderiam ter destruído as cidades, mas teriam restado algumas ruínas que ainda
hoje fossem visíveis. Somente o nome de Lagoa das Sete Cidades poderá ser uma
leve reminiscência, isto a crer nesta hipótese.
Como
escrevemos o nome de Sete Cidades sobrevive hoje no arquipélago açoriano.
Buache(68) crê ser esta a genuína Sete Cidades. Humbolt(69)
tem outra opinião, defendendo a associação desta lenda com a das Sete Cidades
de Cibola. Esta última tese não é contudo muito credível - apesar do renome do
autor - pois não parece provável que navegantes visigóticos tenham alcançado o
México em 711.
Existem
relatos antigos de algumas ruínas perto da Lagoa das Sete Cidades, mas, ao que
sabemos, não existem atualmente vestígios dessa ordem. (70)
ASSOCIAÇÃO
ENTRE AS ANTILHAS E SETE CIDADES
A
história da fuga dos sete bispos é-nos contada por Las Casas (90),
mas António Galvão relata-nos uma outra ligeiramente diferente no seu Tratado
(Lisboa, 1563), concluindo: "E alguns pretendem que estas terras e ilhas
que os Portugueses tocaram são aquelas a que agora se chama Antilhas e Nova
Espanha, e avançam muitas razões para tal, as quais não menciono porque não
quero ser responsável por elas, tal como as pessoas terem o hábito de dizer, de
qualquer terra de que nada soubessem, tratar-se da Nova Espanha."(91)
No mapa Ruysch de 1508 existe uma grande ilha na Latitude N 37o e 40o. Chamada
"Antilia Insula" tem uma grande legenda que afirma ter sido
descoberta há muito tempo pelos espanhóis, cujo último rei godo, Roderico, que
aqui se havia refugiado da invasão bárbara(64).
10.3.
SETE CIDADES NO CONTINENTE AMERICANO
No
século XVI muitos julgaram encontrar as Sete Cidades no continente americano.
Um padre franciscano, Marcos de Niza(6), com base em lendas,
infiltra-se em 1539 na América do Norte, mais especificamente na Califórnia,
com a esperança de encontrar um país, chamado Cibola pelos indígenas, as sete
cidades da lenda. Acompanhado por três franciscanos e de um negro que dizia
conhecer o território. A expedição atinge regiões inexploradas, e narra no seu
regresso que havia visto ao longe sete cidades brilhantes, das quais havia
tomado posse em nome do rei de Espanha. A sua narrativa entusiasta decide o
envio de uma expedição considerável, comandada por um nobre de mérito, F.
Vasquez de Coronado(7); mas o pequeno exército, depois de ter
passado por grandes sofrimentos, chegou ao sopé de um rochedo árido, sobre o
qual se erguia com efeito Cibola, mas não a rica Cibola da lenda, e sim uma
pobre aldeia índia.
Não
se descobriram nem sete cidades cristãs, nem um povo guardando as velhas
tradições visigóticas, mas um país nos arredores do Rio Gila, perto da fonte do
Rio Del Norte. Curiosamente, a região compreendia 70 burgos repartidos por sete
províncias. Parece mesmo que, hoje em dia, em Zuni, a cidade principal da
antiga Cibole, se encontram índios de cabelos brancos e de rosto claro. Sobre o
seu aspeto escrevia um viajante contemporâneo:(8) "Não são
índios! Há muitos entre eles que tem feições tão claras como as dos mestiços.
Entre as mulheres, particularmente, muitas tem a pele quase branca, os olhos
cinzentos ou azuis". Por outro lado, uma história contada por Sahagun(9),
escrevia sobre a origem dos Nahuatl: "A história que contam os antigos é
que eles vieram por mar do lado do norte... Conjetura-se que estes naturais
terão saído de sete grutas, e que estas sete grutas são os sete navios ou
galeras nas quais chegaram os primeiros colonos." Este primeiros colonos
seriam os sete bispos visigodos e os seus seguidores?
LIGAÇÃO
ENTRE A ILHA IMAGINÁRIA DE ANTILIA E SETE CIDADES
M.
d'Avezc conta que Antília era conhecida, marcada e visitada no século XV;
Toscanelli, segundo ele, tinha escrito à corte de Portugal as seguintes
palavras: "Esta ilha de que tendes conhecimento e que vós chamais das Sete
Cidades"...
O
filho de Cristóvão Colombo, Fernando, na "Vida de Meu Pai", precisa
por seu lado: "Alguns portugueses inscreviam-na nas suas cartas com o nome
de Antília, embora não coincidisse com a posição dada por Aristóteles; nenhum a
situava a mais de 200 léguas, aproximadamente, a Ocidente das Canárias e dos
Açores. Tem por certo que é a Ilha das Sete Cidades, povoada por portugueses no
tempo em que a Hispânia foi conquistada, ao rei Rodrigo, pelos Mouros, isto é,
no ano 714 depois de Cristo". Fernando Colombo assegura que, ainda em vida
do Infante Dom Henrique, um navio atracou em Antília/Sete Cidades; os
marinheiros foram a igreja e verificaram que aí se praticava o culto romano.
Talvez
seja como reflexo destas histórias que circulavam entre os marinheiros que teve
início a iniciativa referenciada por Las Casas: "Alguns partiram de
Portugal para encontrar esta mesma ilha [das Sete Cidades] que em linguagem
vulgar se chama Antilla, e entre os que partiram estava um Diogo Detiene, cujo
piloto, chamado Pedro de Velasco, natural de Palos, declarou ao dito Cristóvão
Colombo, no mosteiro de Santa Maria da Arrábida, que, tendo partido da ilha do
Faial e prosseguindo 150 léguas com o vento lebechio (NW), descobriram, no
regresso, a ilha das Flores, guiados por muitas aves que viram voando para lá,
e reconheceram que eram aves terrestres e não marítimas, e assim pensaram que
iam dormir a alguma terra. Em seguida, e dito que navegaram tanto para NE que
tinham o Cabo Claro (na Irlanda) para E (94), onde acharam que os ventos eram
muito fortes, e os ventos de oeste e para o mar muito suaves, o que acreditavam
que devia ser por causa da terra que devia ali existir, a qual lhes oferecia
abrigo a Ocidente; a qual não persistiram em explorar, porque já era Agosto e
recearam [a aproximação do] Inverno. Ele disse que isto aconteceu 40 anos antes
de Cristóvão Colombo descobrir as nossas Índias"(95).
RELAÇÃO
COM A ILHA BRAZIL
Pedro de
Ayala, embaixador espanhol na Grã-Bretanha, em 1498, relatando as navegações
inglesas a Fernando e Isabel, escreveu, conforme menciona Babcock, as seguintes
linhas: "The people of Bristol have, for the last seven years, sent out
every year two, three, of four light ships in search of the island of Brasil
and the seven cities"(62). E, com efeito, ao que tudo parece indicar, realizou-se
pelo menos uma expedição em busca da ilha Brazil.
A
primeira aparição da ilha Brazil é a do mapa de Dalorto (de 1325), onde surge
como uma ilha de forma discoide. No mapa Catalão de 1375 este disco
transformou-se num anel rodeando um conjunto de ilhas, para Nordenskiold nove,
para Kretschmer sete. Este último número pode representar um fenómeno não raro
em diversas ilhas míticas, o cruzamento entre lendas.
FERNÃO
DULMO DA TERCEIRA PROCURA A ILHA DAS SETE CIDADES
Existe
uma carta de doação, emitida por D. João II a Fernão Dulmo da Terceira, no ano
de 1486. Este Fernão Dulmo era na verdade Ferdinand van Olm, um dos flamengos
que se haviam estabelecido nos Açores. Dulmo declarara ao monarca que se
propunha "procurar e achar uma grande ilha ou ilhas ou terra firme per
costa(114), que se presume ser a ylha das Sete Cidades, e tudo isto
as suas próprias custas e despesas". Uma cláusula revela a importância que
o monarca atribuía ao descobrimento da dita ilha: " No caso de ele não
conseguir conquistar as ditas ilhas ou terras. Nós enviaremos, com o dito
Fernão Dulmo, homens e esquadras de barcos com poder Nosso para efetuar o
mesmo, e o dito Fernão Dulmo será sempre Capitão General das ditas esquadras e
está por Nós sempre autorizado, porque seu Rei, como Nosso súbdito"(115).
Fernão
Dulmo iniciou os preparativos para a expedição chamando para o ajudar João
Afonso do Estreito e pedindo que o rei o admitisse na partilha da empresa e dos
lucros. Estreito forneceria duas caravelas, aprovisionadas para navegar durante
seis meses, que deveriam zarpar no dia 1 de Março de 1487, Dulmo contrataria
pilotos e marinheiros e pagar-lhes-ia os salários. Durante quarenta dias Dulmo
seria o comandante-general, estabelecendo o rumo para as duas caravelas, e
tomando para si todas as terras descobertas, depois do que Estreito seria, por
sua vez, capitão-general e se apoderaria de todas as terras avistadas. Tudo
isto, o monarca confirmou a 24 de Julho e 4 de Agosto de 1486.(116)
Las Casas poderia referir este empreendimento, quando escrevia as seguintes
linhas: "Mais adiante, um marinheiro chamado Pedro de Velasco, um galego,
contou a Cristóvão Colombo em Múrcia que, seguindo numa certa viagem a Irlanda,
estavam a navegar e a afastar-se tanto para NW, que viram terra a oeste da
Irlanda, a qual eles pensaram que devia ser a que um Hernan Dolinos procurou
descobrir, tal como agora se deve dizer"(117). A referência a
quarenta dias previstos é curiosa, porque bastaram trinta e seis para fazer
Colombo chegar ao Novo Mundo. Mas, se não mais se ouviu falar destes
navegadores e porque a sua expedição foi frustrada, provavelmente pelas
difíceis condições existentes no mês de Março para quem se propõe navegar na
direção Oeste, conforme nota Samuel Eliot Morison na sua obra "As Viagens
Portuguesas à América".
COLONOS
PORTUGUESES NO BRASIL ANTES DE 1500?
A
lenda de emigrados portugueses numa ilha Atlântica poderá ter algo a ver com
repetidos relatos, embora não merecedores de muita confiança, da presença de
colonos portugueses no Brasil ainda antes da chegada da armada de Pedro Álvares
Cabral. O primeiro relato refere que o mais velho habitante vivo do Brasil
teria declarado, no seu leito de morte em 1580, que vivera naquele país
"cerca de noventa anos". Outro relato é o de um certo Estevão Fróis,
encarregado de um barco capturado pelos espanhóis: "Tinham má vontade em
receber da nossa parte a prova do que alegávamos; nomeadamente, que Vossa
Alteza tivera a posse destas terras [Brasil] durante vinte anos e mais, e que
já João Coelho da Porta da Cruz habitante de Lisboa ali viera com outros para
descobrir"(119) Estas histórias são pouco credíveis uma vez que
a primeira colónia, nem sequer foi portuguesa mas francesa, fundada por
Christophe Jacques, por volta de 1516. A primeira colónia nacional só se instalaria
em Olinda em 1530, sob o comando de Duarte Coelho Pereira.
EM
BUSCA DE ANTÍLIA/SETE CIDADES
Como
vimos Fernando Colombo relata como "no tempo do Infante Henrique de
Portugal (+-1430), um navio português foi empurrado pelo mar para esta ilha
Antilla." A tripulação foi à igreja com os ilhéus mas receou ficar detida
na ilha e fugiu assim que pôde. O Príncipe ouviu a sua história e ordenou-lhes
que voltassem à ilha, mas os marinheiros largaram e não tornaram mais a ser
vistos. Fernando relata que a areia de Antillia era composta de um terço de
ouro puro. Galvão relata uma outra visita mais tardia, ou então uma outra
versão da primeira:
"In
this yeere also, 1447, it happened that there came a Portugall ship through the
streight of Gibraltar; and being taken with a great tempest, was forced to
runne westwards more then willingly the men would, and at last they fell upon
an Island which had seven cities, and the people spake the Portugall toong, and
they demanded if the Moors did yet trouble Spaine, whence they had fled for the
losse which they received by the death of the king of Spaine, Don Roderigo.
"The
boateswaine of the ship brought home a little of the sand, and sold it unto a
goldsmith of Lisbon, out of the which he had a good quantitie of gold."
"Dom
Pedro understanding this, being then governour of the realme, caused all the
things thus brought home, and made knowne, to be recorded in the house of
justice."
"There
be some that thinke, that those Islands whereunto the Portugals were thus
driven, were the Antiles, or Newe Spaine."(66)
Um
outro relato nos chega através de Faria e Sousa, traduzido pelo Capitão John
Stevens:
"Depois
da derrota de Roderico os mouros espalharam-se pela província, cometendo
barbáries inumanas. A maior resistência era em Mérida. Os defensores, muitos
dos quais eram portugueses, que pertenciam ao Supremo Tribunal da Lusitânia,
eram comandados por Sacaru, um nobre godo. Muitas ações corajosas decorreram
neste cerco, mas como não apareciam reforços e as provisões começavam a escassear
a cidade rendeu-se sem condições. O comandante da Lusitânia, atravessando
Portugal, chegou a uma cidade costeira, onde, reunindo um bom número de navios,
lançou-se ao mar, mas ignora-se a que parte do mundo eles foram. Existe uma
antiga lenda de uma ilha chamada Antilla no oceano ocidental, habitada por
portugueses, mas que ainda não pôde ser descoberta."(67)
A
versão do capitão Stevens acrescenta bastante à versão original. O texto
original refere que os fugitivos fizeram-se ao mar para as Ilhas Afortunadas
(Canárias?), a fim de aí poderem preservar a sua raça. O texto menciona
igualmente que essa ilha havia já sido alcançada pelos portugueses, sendo
habitada por eles nas sete cidades que aí haviam construído: "tiene siete
cividades".
Este
último relato menciona uma movimentação a partir de Mérida, o que é
perfeitamente credível, e o comando por um militar também seria admissível
natural numa deslocação efetuada em tais condições. Existem portanto algumas
provas factuais que podem apoiar esta versão da lenda.
“Ilha das Sete
Cidades”, Rui P. Martins. In: As Ilhas
Míticas do Atlântico,
(1)
Horn. "De originibus americanis", p. 7 "Anno MCCCXLVII
Portugallus quidam navigans extra fretum heracleum adversis ventis in remotam
insulam occidentem versus abreptus fuit, et in ea invenit septem civitates,
quae Portugallorum lingua loquebantur, et interrogabant an Mauri adhuc vexarent
Hispaniam, unde amisso Roderico fugati sint."
(2)
Fernando Colombo escreve o seguinte: "O capitão e os marinheiros retomaram
o mar e fizeram vela para Portugal, certos que o Infante os louvaria. O
príncipe, pelo contrário, reprimiu-os severamente, e ordenou-lhes que
regressassem à ilha, e de regressarem reportando aquilo que vissem. Este
homens, tomados pelo temor, partiram com o seu navio e nunca mais regressaram a
Portugal. Entre outros detalhes, eles tinham dito que as madeiras do navio,
quando o levaram para a areia para limpar os seus utensílios reconheceram que
esta areia tinha duas partes de ouro fino". Refira-se contudo que Ilaria
L. Caraci refere que o filho do almirante trata-se de mais um autor ficticio,
artifício tão vulgar nessa época, usado frequentes vezes para sustentar a
veracidade das obras na reputação do autor que lhes era atribuido. Caraci
indica que neste caso se trata de uma compilação de textos de vários autores
colocados sob o signo comum de Fernando Colombo.
(3)
Aristóteles. "De mirabilibus auscultationes". & 8.
(4)
Diodoro da Sicilia, Livro V, & 19-20.
(5)
Planisfério de Henrique II (Atlas Jomard) e a Carta de Mercator de 1569.
(6)
A relação da sua viagem consta na coleção Ternaux-Compans. Vol. X, p. 256- 284.
Ver também Pedro de Castanheda (p. 1-255) no mesmo volume com o seu
"Viagem a Cibola" de 1510.
(7)
Coleção Ternaux-Compans. Tomo IX, p. 349-363 - J.-H. Simpson. "Coronado's
march in search of the Seven Cities of Cibola, and discussion of their probable
location." (Smithsonian Institution, 1869, p. 209-340. - Vivien de
Saint-Martin. "Annee gegraphgique", 1872, p. 239.)
(8) Gatlin. "Letters ans
notes an the manners customs and conditions of the north American
Indians", I, 93.
(9)
Sahagun. "Historia de las casas de Nueva Espana". Liv. I, p. 18.
(62) G. E. Weare: "Cabot's
Discovery of North America", London, 1897, p. 19.
(63) E. G. Ravenstein:
"Martin Behain: His Life and His Globe", Londres, 1908, p. 77
(64) A. E. Nordenskiold:
Facsimile-Atlas to the Early History of Cartography, trad. J. A. Ekelof e C. R. Markham, Estocolmo, 1889, p. 65 e
Pl. 32.
(65) Fernando Colombo, p. 514.
(66) Antonio Galvano:
"The Discoveries of the World from Their First Original unto the Year of
Our Lord 1555", Hakluyst Soc. Publs.
1st Series, Vol. 30, Londres, 1862, p. 72.
(67)
Manuel Faria e Sousa: "A História de Portugal".
(68)
N. Buache: "Recherches sur l'ile Antillia et sur l'epoque de découverte
d'Amerique", Memoires de l'Institut des Sciences, Lettres, et Arts, Vol.
6, 1806, pp. 1-29.
(69)
Alexander von Humboldt: "Examen critique de l'histoire de la geographie du
nouveau continent et des progres de l'astronomie nautique aux quinzieme et
seizieme siecles", 5 vols., Paris, 1836-39. Referência no Vol. 2, p. 281.
(70) Joseph Bullar e Henry
Bullar: "A Winter in the Azores and a Summer in the Baths of the
Furnas", 2 vols., Londres, 1841. Referência
no Vol. 2, pp. 242-247.
(90) Lib. i, cap. 13 (ed.
1927, I, 69); tradução em J. A. Williamson, "Voyages of the Cabots",
pp. 11-15. Alguns historiadores afirmam
que esta história é o registo da chegada dos portugueses a Hispaniola, antes de
1460, mas não isto confere com o facto de a lenda completa das Sete idades ter
sido encontrada, pela primeira vez, no Globo de Behaim, datado de 1492.
(91)
A. Batalha Reis, in Geogr. Jour., IX, 197, corrigindo a tradução adulterada
deste excerto, da autoria de Richard Hakluyt, que está reimpressa, com texto,
em "The Discoveries of the World by António Galvano", Hakluyt Society
pubs., XXX, 1862, pp. 72-73.
(95)
Las Casas, "Historia de las Indias", lib. i, cap. 13; ed. 1927, I,
70. Ferdinand Columbus segue-o quase exactamente na sua "Historie della
vita e dei fatti di Cristoforo Colombo", cap., ix (pp. 34-35 da ed. de
Londres, 1867). Ambos os autores atribuem a origem das suas informações ao
"Libros de memórias" do almirante, que, infelizmente, se perderam.
“Um passeio
a Sete Cidades na ilha de São Miguel, Açores, 1897”, manuscrito de Eliza Cunha
inserido na coletânea “Lazeres
– contos e descrições” publicado na Revista INSVLANA - Órgão do Instituto
Cultural de Ponta Delgada, n.º XLVII, 2011.