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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Álvaro de Campos beija-os a todos na boca

Alexandra Lucas Coelho
1. Não desci do comboio como Álvaro de Campos porque já não havia bilhetes. Tudo esgotado: o comboio via Faro, o próximo barco, o polvo no barro, a sardinha assada. O ex-pescador Ostílio acaba de bater o seu recorde de transferências de Tavira Cidade/City para a Ilha/Island, uma vida nas redes, outra no ferry boat, a que ele chama reforma. Tem cara disso, engelhada de sol, e um nome que eu nunca tinha ouvido, pelo menos no masculino.
2. Tudo é velho onde fui novo, achou Campos, descendo do comboio aos 41 anos. Seis anos mais à frente, digo de outra forma, tudo é novo onde sou velha. Certo que Tavira não é a vila da minha infância, mas em Lisboa parece-me o mesmo (e tudo também esgotado, do cacilheiro à calçada). Já sei, é melhor que morrer de fome, e até me dizem que este ano o Algarve não está assim tão cheio.
3. Na verdade, não sei, só vi o pedaço de Faro a Tavira, e da última vez que tinha estado no Algarve ainda não se vendiam garrafas de meio litro de azeite a vinte euros, mesmo comprado no olival de origem, porque é um dos melhores do mundo, ao mesmo tempo que a pracinha da igreja de Tavira oferece uma variedade de aproximadamente vinte e três restaurantes indianos. Hoje, em Tavira Cidade/City os vendedores das lojas dos trezentos, que já não são dos trezentos, nasceram no Rajastão, usam turbante e vendem sardinhas de loiça. Entretanto, Álvaro de Campos, além de rua e biblioteca, é uma rota cultural incluindo a varanda onde escrevo. Ainda não localizei o Álvaro de Campos Coffee Shop & Restaurant, mas as críticas no Tripadviser contêm frases como I love Álvaro de Campos for the best vegetable soup in the world. Ah, amado ao nível do estômago, processado em forma de legume, um Álvaro de Campos enfim concreto, orgânico, vivo, depois de tanta vontade de tudo, o gatuno de estrada, as sombras na viela, as prostitutas, todos beijados na boca, pelo menos um momento,
(Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
estalagem, calabouço número qualquer cousa
(aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
meu coração clube, sala, plateia, capacho, guichet, portaló,
ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
meu coração postigo,
meu coração encomenda,
meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice,
eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração)

4. Aquela casa das tias velhas que lhe liam a Nau Catrineta? Podia ser a minha morada em Tavira. A primeira vez que subi as escadas achei que era a pensão das Recordações da Casa Amarela, e a todo o momento o perfil de João César Monteiro seria projectado pelo sol da tarde, cigarrinho bruxuleando. Agora, ao fim de algumas noites, acho que afinal podia ser a casa das tias velhas de Álvaro de Campos, tiquetaque do relógio e tudo. Afinal ou também, porque a sombra de Campos seria quase a de César Monteiro, magro, curvado, cigarrinho bruxuleando, monóculo em vez de óculos. De resto, rangidos, estalidos, portas de bandeira, maçanetas de loiça, chão de tábua, mosaico.
5. Mas saindo colina acima, pela noite, parece-me que a casa de Campos teria de ser mais fidalga, talvez esta, com janelas em arco, ou aquela de sacada, palavra que Fernando Pessoa tanto usou, e agora, como tantas, se usa sobretudo no Brasil, duplicada em sentido (varanda, ou a percepção que de repente sai).
6. Mais fidalga porquê? Porque fidalgo e judeu foi o passado que Pessoa deu ao seu duplo dois centímetros mais alto, engenheiro (in)capaz de toda a sensação. Então, em certo dia de 1930, Álvaro de Campos desembarca de volta a este horizonte de quintal e praia, e a vila da infância é afinal uma cidade estrangeira, distância entre tudo o que era, tudo o que não será, mais aguda por nela ver a sua própria cara.
7. Vem, claro, no lugar do próprio Pessoa, é o seu sensor avançado, em busca dos antepassados de Tavira. E, reparo agora, a travessa que todas as manhãs me leva de casa ao rio Gilão chama-se Jacques Pessoa. Não vou pesquisar, fica no talvez, quem sabe, um tetravô. Em Tavira podemos sempre recuar aos marcos da nacionalidade, por exemplo, chegando ao fim da ponte romana lá está, do lado direito, a placa em memória dos valorosos moradores de Tavira e de Faro que na crise política de 1383 a 1385 defenderam nesta ponte a causa de D. João I, mestre de Avis e nela proclamaram a vitória decisiva do Algarve na luta pela independência de Portugal.
8. Já neste Verão de 2015, a nacionalidade está mais para cerveja artesanal, flor de sal, chamando à vida um figo em várias línguas. Qualquer holandês-alemão-italiano-francês-espanhol dirá, de nariz no ar, em busca de casa para restaurar, como em Portugal se come bem, derivado ao clima mas não só, além, claro, da paz que não há nas duas margens do Mediterrâneo, a que vê os barcos partirem e a que vê os mortos a bordo. Descendo pela Via do Infante, invisível, sozinho, Álvaro de Campos beijá-los-ia a todos na boca, coração rendez-vous da humanidade, pulmões cheios de água.
Alexandra Lucas Coelho, revista 2, Público, 2015-09-06
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alvaro-de-campos-beijaos-a-todos-na-boca-1706786?frm=pop

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ei-los que partem


O visitante sai, saiu, virá um dia

                 Joaquim Manuel Magalhães, Vestígios.




SENHORA DOS PASSANTES

Vou partir, direi, disse.
Outrora saí, fá-lo-ei de novo.

Senhora da partida
senhora da chegada
fazei tocar o brilho da calçada
e não o inútil jogo da distância.

José Maria de Aguiar Carreiro, Chuva de Época
Ponta Delgada, Edição de autor, 2005.


De facto, nada aprendi sem que tenha partido, nem ensinei ninguém sem convidá-lo a deixar o ninho. Partir exige um dilaceramento que arranca uma parte do corpo à parte que permanece aderente à margem do nascimento, à vizinhança do parentesco, à casa e à aldeia dos usuários, à cultura da língua, à rigidez dos hábitos. Quem não se mexe, nada aprende. Sim, parte, divide-te em partes. Teus semelhantes talvez te condenem como um irmão desgarrado. Eras único e referenciado. Tornar-te-ás vários, às vezes incoerente com o universo que, no início, explodiu, diz-se, com enorme estrondo. Parte, e tudo então começa, pelo menos a tua explosão em mundos à parte. Tudo começa por este nada.
Michel Serres, Filosofia Mestiça. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993, pp. 14-15






Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos

Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados

Virão um dia 
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não



Manuel Freire






Domingos Rebelo, Os Emigrantes, 1926.
Óleo sobre tela, A 235 x L 295 cm

Apesar de "Os Emigrantes", de 1926, se integrar no ideário do Regionalismo, apresentado pelo Padre Ernesto Ferreira, no seu opúsculo intitulado Regresso à Terra, através do qual se valorizava a importância dos usos, costumes e tradições populares na definição de culturas distintas, esta pintura tem a particularidade de ser a representação de um fenómeno social, apresentando-se como aglutinadora de um conceito de "Açorianidade", analisado na época pelo investigador Luís Ribeiro. Para reforçar a temática central, o artista regista nesta obra o trajo popular e os elementos identificativos do local de partida, nomeadamente o antigo cais da Alfândega, antes da construção da Avenida Marginal de Ponta Delgada, juntando nesta composição elementos culturais de raízes profundas, como a viola da terra e o registo do Senhor Santo Cristo.
A figura de chapéu, que se encontra do lado esquerdo, denota a consciência social do artista.
MTO, http://museucarlosmachado.azores.gov.pt/osemigrantes


*


LINHAS PARA UM RETRATO DE POETA QUANDO JOVEM

Este poema é das saudades e do sol-posto.
E da procissão do Senhor, de colchas nas varandas.
E de quando eu tinha as mãos postas
que a minha mãe veio e me pôs umas asas brancas.
E das horas gastas esperando o teu regresso.
E das idas clandestinas e do caminho andado.
E da janela, aberta para os muros, que enchia
de sombras as recordações do meu quarto.
Este poema é dos vidros partidos
pelas pedras que atirei aos meus amigos
nos combates havidos nas travessas.
E da chuva que caiu nas colchas das varandas.
E das mãos que vieram tirar-me as asas brancas.
E dos olhos de minha mãe, quando eu parti para longes terras...
Eduíno de Jesus


Saudade. Paulo Borges, P. Delgada, nov. 2017



FUTURO

Folha a folha revisito um álbum de retratos,

retratos que lembram o que de antemão sabia
– Dizem que mudei. Nem as paisagens
se recuperarão e os avós estão mortos;
as árvores não existem mais,
aquelas por detrás dos risos

Folha a folha imagens falam
o que não quero que falem. Nem sempre
escutamos o que é importante e essencial
– O futuro, esse retrato em falta no álbum.
Ou, o poema de amanhã,
que parecendo futuro é passado.

Ivo Machado, Quilómetro zero. V. N. Gaia, Exodus, 2008.



Tomaz Vieira, Os Regressantes, 1987


A pintura Os Regressantes, efetuada em 1987 por Tomaz Vieira, é uma «Homenagem aos Emigrantes de Domingos Rebelo», como o próprio artista registou. Cerca de sessenta anos depois da pintura original, Tomaz Vieira parte da composição de Os Emigrantes, de Domingos Rebelo (Versão de 1929, efetuada para o «Bureau de Turismo» de Ponta Delgada), e regista um fenómeno de aculturação. No catálogo da exposição A window on the Azores, refere-se que «em Os Regressantes as figuras apresentam uma atualização onde há símbolos da integração dos açorianos nos países para onde emigram. Esses símbolos estão na indumentária e na variedade de objetos identificáveis na composição. O facto de o «Registo do Senhor Santo Cristo dos Milagres», de Os Emigrantes, ser substituído, em Os Regressantes, pela imagem da «Canadian National Tower», de Toronto, terá a ver com a evocação do relacionamento da sociedade açoriana com as imagens do progresso, em terras do Mundo Novo. As figuras de Os Regressantes mantêm a postura de Os Emigrantes, o que acentua o tratar-se da mesma gente. O autor da réplica compromete-se a dar uma resposta positiva ao clima de esperança que Domingos Rebelo imprime nas suas telas de concepção regionalista, nomeadamente ao drama contido em Os Emigrantes» (Exposição de Artistas Açorianos Contemporâneos, in A window on the Azares, Bermuda National Gallery, 1999, p. 16-17.)

MCTO, Museu Carlos Machado



*


ROSE ERA O NOME DE ROSA

A mãe disse não mais
não mais eu não mais tu filha
não mais nomes na pedra do cais
não mais o cortinado da ilha

não mais Rosa sejas Rose agora
não mais névoas roxos ais
não mais a sorte caipora
não mais a ilha não mais

Porém Rose o não mais não quis
e quis ver a ilha do não mais
o cortinado roxo infeliz
os nomes na pedra dos cais

Pegou em si e foi-se embora.
Não mais Rose. 

Rosa outra vez agora.
Vasco Pereira da Costa, My Californian Friends.
Gávea Brown, Palimage Editores, 1999.









Poderá também gostar de:

Simbologia de açorianidade na pintura de Domingos Rebelo e de Borba Vieira”, Gabriela Castro. In: Philosophica nº 36, Departamento de Filosofia da FLUL, 2010.

"Emigração, cultura e modo de ser açoriano", António Manuel B. Machado Pires, 1981.


    

terça-feira, 21 de julho de 2015

AS ILHAS AFORTUNADAS


As Ilhas Afortunadas fazem parte da tradição clássica. Já em autores gregos aparecem referidas como paraísos, local do repouso dos deuses e dos heróis míticos. Ptolomeu, soberano do antigo Egito, fala destas ilhas, tal como Homero que refere as "ilhas que ficavam além dos Pilares de Hércules". O historiador romano Plínio-o-Velho e Plutarco, no século I, identificaram as Ilhas Afortunadas com as Canárias, tal como faz Camões no canto V, estância 8. Gregos, romanos e fenícios, nas suas aventuras pelo Mar Mediterrâneo em direção à costa atlântica africana referem o encantamento que lhes provocavam estas ilhas vulcânicas, de clima temperado e de vegetação luxuriosa e balsâmica.
Em Mensagem, Fernando Pessoa fala das Ilhas Afortunadas como mito e símbolo, surgindo como local fora do tempo e do espaço onde os mitos do Quinto Império, do Encoberto, do Sebastianismo esperam para se concretizar. As Ilhas, cuja presença só se capta no sono através de sinais auditivos e pelo som das ondas, surgem como lugar do não-tempo e do não-espaço, são "terras sem ter lugar", onde se encontra o Desejado que virá fundar o Quinto Império, "onde o Rei mora esperando".
“Ilhas Afortunadas”, in: http://www.infopedia.pt/$ilhas-afortunadas?uri=lingua-portuguesa/ilha



Lagoa das Sete Cidades, ilha de São Miguel, Açores.



 Quarto

        AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutamos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.

26-3-1934
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).
  - 85




Terceiro

        CALMA

Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?

Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sozinho?

Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?

15-2-1934
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).
  - 101.



          DO(S) OUTRO(S) MUNDO(S) DA VISÃO AO NOVO MUNDO DA RAZÃO:
          VIAGEM INICIÁTICA, DES(EN)COBRIMENTO(S) E U-TOPIA 

É o sentido iniciático de que a Ilha, ou o que nela se simboliza, é o mais fundo e autêntico Sujeito dos sujeitos que a buscam que, coerentemente, se traduz na tradição continuadora da navegação de São Brandão. Com efeito, da Ilha Perdida, por vezes identificada com a de São Brandão, da Ilha ou Ilhas Encantadas, da camoniana Ilha dos Amores e, apropriada já à mitologia do messianismo sebástico, da Ilha Encoberta, se diz que, tal essa falsa ilha flutuante que na Navigatio é a baleia Iascónio, têm o poder de aparecer e desaparecer, encobrindo-se ou desencobrindo-se consoante a relação do seu movimento próprio à atitude espiritual dos que as demandam. Assim se diz da Ilha Perdida, no manuscrito do Escorial Semeiança del mundo: "e a esta tierra dizen Pardita porque quando la buscan non la fallan, e non la pueden fallar sy es por aventura; e a aquesta tierra vino San Brandán"26. Ilhas a que só acedem "espíritos" mais "viatores ou peregrini que (...) descobridores"27, é delas e do que nelas se encobre e desencobre que Fernando Pessoa indica a fenomenologia negativa em dois poemas decisivos de Mensagem: As Ilhas Afortunadas e Calma.
No primeiro há uma "voz" que "vem no som das ondas" e que não é a do "mar", antes a de "alguém que nos fala, / Mas que, se escutamos, cala, / Por ter havido escutar". É apenas "meio dormindo", como "uma criança", suspensa essa intencionalidade desiderativa, apropriadora e objectivante da consciência em estado comum de vigília, pressupondo poder reduzir um Logos meta-ôntico a um objecto da subjectividade consciente de o ser, que "sem saber de ouvir ouvimos" o que nos abre menos para a "esperança" do eu humano do que para a espera transcendente que já não é nossa mas a do próprio "Rei"-Identidade outra por nós, na a-tópica residência das suas "terras sem ter lugar"28.

No segundo poema é uma "costa" que "as ondas contam / E se não pode encontrar", ou que "as ondas encontram" mas nunca se torna visível, trans-ôntica praia de "Ilha próxima e remota" que agora se escuta sem que a visão a capte. Fica a sugestão de "rasgões no espaço", instâncias de ruptura e descontinuidade "que dêem para outro lado", para a trans-dimensão de alteridade em que se pode desencobrir a "ilha velada", o "país afortunado" do "Rei desterrado / Em sua vida encantada'29. O fundo do messianismo sebástico, ao contrário do que vulgarmente se pensa, não está na esperança de que o Encoberto regresse aonde não pertence, ao exílio que, nesta perspectiva, é a história dos homens, mas no seu esperar, do não--onde em que reside oculto para a e pela nossa indisponibilidade, que sejamos esse pessoano e metanóico "nevoeiro" que, no crepúsculo das formas da auto-consciência e do tempo histórico-objectivo, se faça "a hora"30 do desencobrir-se-nos. Como escreve José Marinho, após distinguir entre a passividade do que se diz como "coberto" e a actividade sugerida no que se indica como "encoberto"31: "(...) o mesmo que procuramos verdadeiramente descobrir, esse mesmo é o pelo que há descobrir e encobrir, e ele é o que descobre a si mesmo descobrindo (...). Procuramo-lo como se o fôssemos e não o somos ou ele não é ou nada o é. Pretendemos descobrir o ao que a nós descobre e tudo em nós e para nós. Forcejamos por alcançá-lo na continuidade do que somos, ele surge-nos, porém, na descontinuidade e na ruptura incompreensível". E "longos anos" "dos muitos erros e do longo errar necessário" se anunciam até à compreensão disso...32.

Paulo A. E. Borges, Philosophica 15, Lisboa, 2000.


Mapa-mundi de 1493 de Hartmann Schedel.
 A Ilha Afortunada é assinalada a oeste da costa africana.


          QUESTIONÁRIO SOBRE O POEMA “AS ILHAS AFORTUNADAS” 
          (FERNANDO PESSOA)

1. Refira a condição necessária à manifestação da voz e transcreva elementos do texto que justifiquem a sua resposta.
Cenário de resposta
Para que a voz se manifeste, é necessário que quem ouve se encontre semiacordado, ou num estado de semiconsciência, sem procurar escutar essa voz – «Mas que, se escutamos, cala, / Por ter havido escutar» (vv. 4-5); «E só se, meio dormindo, / Sem saber de ouvir ouvimos,» (vv. 6-7); «Mas, se vamos despertando, / Cala a voz, e há só o mar.» (vv. 14-15).
Nota – No que diz respeito à transcrição de elementos do texto, a resposta pode incluir apenas uma ou várias das citações apresentadas no cenário de resposta.

2. Explique o sentido dos dois últimos versos do poema.
Cenário de resposta
De acordo com o sentido dos dois últimos versos do poema, quando se desperta do estado de semiconsciência:
– a voz do mar, associada a uma ideia de esperança, desaparece;
– o mar passa a ser apenas uma realidade objetiva

3. Explique de que modo o conteúdo da última estrofe convoca o mito sebastianista.
Cenário de resposta
Na última estrofe, a esperança no regresso do Rei D. Sebastião e, consequentemente, na possibilidade de resgatar a glória de Portugal está associada a aspetos como:
– a existência de um espaço mítico onde o Rei se encontra – «São ilhas afortunadas, / São terras sem ter lugar,» (vv. 11-12);
– o facto de o Rei aguardar o momento de agir – «Onde o Rei mora esperando.» (v. 13).
Nota – Não é obrigatório o recurso a citações, ainda que estas figurem, a título ilustrativo, no cenário de resposta.

Exame Nacional de Português, 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho). IAVE, 2015, 2ª fase. Prova 639 e critérios de classificação.


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sábado, 21 de março de 2015

SETE CIDADES – POESIA E LENDA


As Sete Cidades na voz dos poetas e na tradição popular



GINETE!

Saímos ambos sem expectativas em relação ao futuro
a ideia de não pertencer a ninguém era-lhe frequente
e eu ouvia
não penses muito
traduzindo
não queiras – não desejes – não esperes –
não trates – não te desvies nem estejas longe.
Era sempre uma espera infrutífera
uma parte de verdade contida no meu silêncio.
Estás no meu encalço, hesitante,
deixemos que o tempo trabalhe sobre nós.
Trabalhou: o desejo foi-se tornando uma abstração
mesmo que periodicamente requisitado,
as mensagens recebidas passaram de mor a migo
e fui aceitando, perdedor,
rasurado na imprecação dos dias.

Antecipara por palavras o fim da nossa relação
sem que com isso tenha deixado de querer mansamente.
Apreensivo, noivo da errância,
sabia que me farias correr
ainda antes de trilhar cumeeiras
sete cidades
para te tomar
como se de um ginete tratasse.

“Ginete!” in Chuva de época,
José Maria deAguiar Carreiro, Ponta Delgada, 2005.





A PRINCESA E O PASTOR

Em época recuada, existia, no lugar onde fica hoje a freguesia de Sete Cidades, um reino próspero e aí vivia uma princesa muito jovem, bela e bondosa, que crescia cada dia em tamanho, gentileza e formosura. A princesa adorava a vida campestre e frequentemente passeava pelos campos, deliciando-se com o murmurar das ribeiras ou com a beleza verdejante dos montes e vales.
Um dia, a princesa de lindos olhos azuis, durante o seu passeio, foi dar a um prado viçoso onde pastava um rebanho. À sombra da ramagem de uma árvore deparou com o pastor de olhos verdes. Falaram dos animais e de outras coisas simples, mas belas e ficaram logo apaixonados.

Nos dias e semanas seguintes encontraram-se sempre no mesmo local, à sombra da velha árvore e o amor foi crescendo de tal forma que trocaram juras de amor eterno.
Porém, a notícia dos encontros entre a princesa e o pastor chegou ao conhecimento do rei, que desejava ver a filha casada com um dos príncipes dos reinos vizinhos e logo a proibiu de voltar a ver o pastor.
A princesa, sabendo que a palavra do rei não volta atrás, acatou a decisão, mas pediu que lhe permitisse mais um encontro com o pastor do vale. O rei acedeu ao pedido.
Encontraram-se pela última vez sob a sombra da velha árvore e falaram longamente do seu amor e da sua separação. Enquanto falavam, choravam e tanto choraram que as lágrimas dos olhos azuis da princesa foram caindo no chão e formaram uma lagoa azul. As lágrimas caídas dos olhos do pastor eram tantas e tão sentidas que formaram uma mansa lagoa de águas verdes, tão verdes como os seus olhos.
Separaram-se, mas as duas lagoas formadas por lágrimas ficaram para sempre unidas e são chamadas de Lagoas das Sete Cidades. Uma é a lagoa Azul, a outra é a lagoa Verde e em dias de sol as suas cores são mais intensas e refletem o olhar brilhante da princesa e do pastor enamorados.

Açores, lendas e outras histórias, recolha e arranjo de textos de Ângela Furtado Brum, Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana Editores, dezembro de 1999 (2ª edição).





DENTRO DUMA CRATERA ESCARPADA

Dentro duma cratera escarpada
um lago se espalha placidamente
envolto por uma bruma desmaiada
vai batendo na areia suavemente.

Águas de cor verde e azulada
cheias duma melancolia dormente
teu brilho nasce de madrugada
à noite se oculta com o poente.

Tremores duma ilha tão dorida
se estendem à lagoa comovida
e num rumor ao longe desfalece.

Criada por vulcões e encantos
perduras entre risos e prantos
e uma lenda que não se esquece.





https://www.instagram.com/p/BN4C6ZGjK8A/

PALETA PARA AS SETE CIDADES

1.
Nas entranhas do abismo
no centro do globo
um deus maldito
forja no fogo
as pedras - e cria
rubras em brasa
as formas da errada harmonia

2.
Na crosta o magma
percorre já negro as linhas
que profanam essa perfeição
dos deuses transgressores

3.
O branco é o nulo que se escoa
no silêncio que acaricia
cúmplice
o olhar na lagoa

4.
O cinzento coroa
o repouso
a calma lassa
de um éden outro

5.
Inquieto louco
o amarelo solto
rebelde confuso
na dissonância divina:
pecado sublime
do deus da Luz

6.
O azul é o puro vértice
dos raios que retêm a sombra
e um véu navega
erra
na viagem dos olhos

7.
O verde são verdes
irisados da dita de quem
deste cume se deita
a julgar dos deuses
a obra imperfeita

Vasco Pereira da Costa, Ilhíada antes e depois (poesia 1972-2012)
Vila Nova de Gaia, Calendário das Letras, setembro 2012
ISBN: 978-972-8985-63-9


Baía do Silêncio (parte da lagoa das Sete Cidades)



BAÍA DO SILÊNCIO

Ó baía do silêncio
Na voz dos mal amados
Nos veios que a lonjura desenhou
Ó baía do silêncio
Do pranto das cidades
Anseios que a tristeza ensombrou

Rosa negra tatuada
Nesta sorte tão magoada
Na voragem desta noite um arrepio
Neste amargo cativeiro
Um lamento derradeiro
Coração a latejar, um desvario

Quem se perdeu nos labirintos do amor
Quem se queimou nesta fogueira, nesta dor
Quem se perdeu nos labirintos da paixão
Quem se rasgou nesta navalha, neste arpão

Dança de sombra e de luz
Neste jogo de espelhos
Teatro nesta imensa solidão

7 cidades - A Lenda do Arcebispo, RTP-Açores. Letra de José Medeiros baseada na lenda “O arcebispo Genádio e as Sete Cidades” (recolha e arranjo textual por Ângela Furtado-Brum em Açores, lendas e outras histórias. Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana Editores, dezembro de 1999, 2ª edição).


Audição da letra da canção “Baía do Silêncio” nas versões de Dulce Pontes e Helena.



A baía do silêncio, na lagoa das Sete cidades, é um lugar mítico. Ali o silêncio sente-se, respira-se o ar fresco e suave do arvoredo, contempla-se a massa verde das águas tranquilas, refletindo as vertentes da lagoa, onde a vegetação é uma nota compacta de milhentas tonalidades, todo o ambiente é sereno e contemplativo.

Um passeio às Sete Cidades”, Soares de Sousa. Açoriano Oriental, 2012-05-30








O ARCEBISPO GENÁDIO E AS SETE CIDADES

Há muitos, muitos anos, havia um rico fidalgo que tinha um filho mimado e conhecedor da arte de nigromancia, através da qual conseguia facilmente seduzir todas as donzelas que desejava. Passados os momentos de paixão, Genádio esquecia a jovem e partia à procura de novas aventuras. Levava uma vida de loucura e amores passageiros.
Certo dia, porém, Genádio foi ferido por uma arma na mão de um homem que quis lavar a honra de uma donzela enganada. Entre a vida e a morte, o jovem fidalgo prometeu renunciar à vida degradante que levava e tornar-se padre e anacoreta se Deus o livrasse da morte.
Assim aconteceu. Curou-se, consagrou-se ao Senhor e passou a levar vida santa, começando a dar-se milagres por sua intercessão. A sua fama galgou montanhas e chegou ao conhecimento do Papa que o nomeou bispo e pouco tempo depois arcebispo.
Por este tempo vieram pôr-lhe à porta da igreja da Sé uma linda menina recém-nascida, que foi acolhida e criada pelo arcebispo Genádio como se fosse uma princesa.
Estava-se na época em que os mouros, atravessando o Estreito de Gibraltar, invadiram a Península Ibérica e a dominaram política e religiosamente. O arcebispo Genádio não esperou muito. Reuniu os seus seis bispos, as suas gentes, preparou uma numerosa frota e fez-se ao mar, levando também a menina sua protegida para outra terra, onde pudesse manter viva a fé cristã.
Ao fim de algum tempo de viagem, por mares turbulentos, foram ter a uma ilha muito fértil, onde o arcebispo e os seis bispos fundaram cada qual a sua cidade. Nessa ilha de clima ameno, de solo fértil e campos verdejantes, iniciaram uma vida de prosperidade e desenvolveram-se sete ricas cidades.
Paz, a menina criada e adorada pelo arcebispo, tinha crescido no entretanto. Era bela, meiga, sonhava com jovens cavaleiros e esperava um que a amasse. Alguns destes sonhos e esperanças eram balbuciados só em segredo às suas 'aias, mas mesmo assim o arcebispo soube dessas confidências. Cioso da pureza da jovem, relembrando talvez as indignidades que cometera em novo, decidiu defendê-la com todas as suas forças e poderes. O excesso de zelo ou de ciúme fez com que decidisse recorrer aos antigos conhecimentos em artes mágicas que possuía, se necessário fosse, para conseguir que a ilha se ocultasse a quem dela se aproximasse.
Certa manhã, em que os sacerdotes oravam nos templos e a vida corria com harmonia nas cidades, surgiu uma caravela coma cruz de Cristo desenhada nas vela que se dirigiu para a ilha. Genádio, prevendo que a bordo vinha aquele por quem D. Paz se poderia apaixonar, recorreu a todos os seus poderes nigromantes. Então a formosa ilha transformou-se num enorme vulcão, as Sete Cidades precipitaram-se no abismo e ficaram submersas.
No seu lugar apenas ficou uma cratera coberta em parte por uma linda lagoa. A essa zona da ilha de S. Miguel continuou a chamar-se Sete Cidades, embora apenas lá exista agora uma pequena freguesia nas margens da lagoa.

Açores, lendas e outras histórias, recolha e arranjo de textos de Ângela Furtado Brum, Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana Editores, dezembro de 1999 (2ª edição).








O REI BRANCO PARDO E A LAGOA DAS SETE CIDADES

Há muitos, muitos anos atrás, havia um reino tão grande e florescente que o seu soberano, Brancopardo, não sabia ao certo o número dos seus vassalos, dos castelos, cidades e aldeias. Era a Atlântida. Apesar desta riqueza, o rei e a rainha Branca Rosa, que tinham sido muito felizes em tempos passados, viviam então muito tristes por não terem filhos. Brancopardo tornava-se cada dia mais vingativo e tratava muito mal os seus vassalos.
Uma noite em que o rei vagueava pelos jardins do palácio com a rainha teve uma visão que lhe falou assim:
‑ Rei da Atlântida, venho trazer-te a alegria. Em breve serás pai de uma filha linda e virtuosa, mas para que tenha fim a tua maldade, é preciso que nem tu nem homem nenhum se aproxime da princesa. Viverá dentro dos muros de sete maravilhosas cidades que eu erguerei no mais lindo recanto do teu reino e só donzelas a servirão. Presta atenção! Se antes dos vinte anos ousares transpor as muralhas das sete cidades, serás morto e um cataclismo arrasará o teu reino.
O rei, cheio de alegria, prometeu fazer tudo o que o anjo dissera e, passados nove meses, nasceu uma linda princesinha. Sem sequer a ter visto, o rei enviou-a para as Sete Cidades, cumprindo a exigência da visão. Os anos começaram a arrastar-se lentos e dolorosos para os pais separados da filha querida. A princesa Verde-Azul, rindo e cantando pelos jardins da cidade, rodeada de um cortejo de virgens, ia crescendo formosa e boa.
Brancopardo consumia-se de saudades, tornava-se cada vez mais colérico e a ansiedade de ver a filha chegou ao ponto de não lhe caber no peito. Mandou aprontar um exército com os seus mais valorosos guerreiros e pôs-se a caminho para as Sete Cidades.
A viagem foi longa e, à medida que se aproximavam, o céu ia enegrecendo e ruídos estranhos iam saindo da terra. Mas o rei caminhava sempre, desvairado, até que surgiram, na escuridão trágica do dia, os muros das Sete Cidades.
Branco Pardo, sombrio e perturbado, levantou a espada e com ela bateu pesadamente numa das portas. No momento em que o portão principal  se abria, uma espécie de trovão roncou, um fogo intenso elevou-se da terra fendida e os muros abateram-se imediatamente sobre o rei, os seus vassalos e todas as virgens que viviam nas Sete Cidades. Um tremendo cataclismo vulcânico destruiu toda a Atlântica. Por fim veio o silêncio, o sol brilhou outra vez e no mar viam-se nove pequenas ilhas. As Sete Cidades, onde a princesa vivia, transformaram-se numa cratera coberta por duas calmas lagoas: uma é verde porque no fundo ficaram os sapatinhos verdes da princesa; a outra é azul e reflete a cor do chapeuzinho que a princesa usava no seu passeio, quando foi morta pelo mau tino do pai, o rei da Atlântida.

Açores, lendas e outras histórias, recolha e arranjo de textos de Ângela Furtado Brum, Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana Editores, dezembro de 1999 (2ª edição).






AS ILHAS MÍTICAS DO ATLÂNTICO


ILHA DAS SETE CIDADES


Parte do mapa Desceliers de 1546 mostrando a Ilha das Sete Cidades
 e outras ilhas imaginárias.


Martin Behaim, no seu famoso mapa-múndi de Nuremberga, datado de 1492, desenhava sobre a ilha das Sete Cidades a seguinte legenda: "Quando corria o ano 714 depois de Cristo, a Ilha das Sete Cidades, acima figurada, foi povoada por um arcebispo do Porto em Portugal, com outros seis bispos e cristãos, homens e mulheres, os quais, tinham fugido de Espanha em barcos, e vieram com os seus animais e fortunas. Foi por acaso que no ano de 1414 um navio castelhano dela se aproximou" (63). Mesmo depois da descoberta da América, Fernando Colombo, na sua "Vida do Almirante" acreditava na existência dessa ilha, e torna a contar a história em termos quase idênticos. "Contam que no oitavo século da era cristã, sete bispos portugueses, seguidos dos seus crentes, embarcaram para essa ilha, onde construíram sete cidades, e que não quiseram mais deixar, tendo queimado os seus navios para eliminar a possibilidade de regresso" (65). Sem discutir a falsidade ou veracidade desta lenda, reconhecemos contudo que o instinto de todos os povos conquistados e de sonhar com a restauração, os bretões não sonhavam com o seu Artur, os judeus não sonhavam com um Messias? Do mesmo modo, segundo Gaffarel, na Hispânia estes godos teriam fugido a ocupação muçulmana para um refúgio atlântico de onde se esperava que viessem para restaurar o reino cristão da Hispânia.
Em 1447 um português, empurrado por uma tempestade no Atlântico, teria desembarcado (1) numa ilha desconhecida, onde encontra sete cidades, nas quais os seus habitantes falavam o português (2). Estes últimos teriam querido retê-lo, uma vez que não queriam manter nenhuns contactos com a sua antiga pátria, mas teria conseguido escapar, e regressado a Portugal, onde conta a D. Henrique as suas aventuras. O Navegador critica fortemente o capitão por ter fugido sem ter obtido mais informações, e o marinheiro assustado nunca mais foi visto. Esta história causou polémica na altura em que foi publicada. Alguns eruditos identificaram esta ilha com a ilha fenícia identificada por Aristóteles(3) e por Diodoro da Sicilia(4) e em numerosas cartas, onde surge com o nome de Ilha das Sete Cidades(5).


Parte do mapa conhecido como Egerton 2803, 
que mostra Sete Cidades na América do Norte e "Antiglia"
 na América do Sul.


AS SETE CIDADES DE SÃO MIGUEL


Gaffarel lançou a hipótese de a Ilha de São Miguel nos Açores ser essa ilha mítica. Sem dúvida que os tremores de terra são aí frequentes. Um só ou uma sucessão deles poderiam ter destruído as cidades, mas teriam restado algumas ruínas que ainda hoje fossem visíveis. Somente o nome de Lagoa das Sete Cidades poderá ser uma leve reminiscência, isto a crer nesta hipótese.
Como escrevemos o nome de Sete Cidades sobrevive hoje no arquipélago açoriano. Buache(68) crê ser esta a genuína Sete Cidades. Humbolt(69) tem outra opinião, defendendo a associação desta lenda com a das Sete Cidades de Cibola. Esta última tese não é contudo muito credível - apesar do renome do autor - pois não parece provável que navegantes visigóticos tenham alcançado o México em 711.
Existem relatos antigos de algumas ruínas perto da Lagoa das Sete Cidades, mas, ao que sabemos, não existem atualmente vestígios dessa ordem. (70)




ASSOCIAÇÃO ENTRE AS ANTILHAS E SETE CIDADES

A história da fuga dos sete bispos é-nos contada por Las Casas (90), mas António Galvão relata-nos uma outra ligeiramente diferente no seu Tratado (Lisboa, 1563), concluindo: "E alguns pretendem que estas terras e ilhas que os Portugueses tocaram são aquelas a que agora se chama Antilhas e Nova Espanha, e avançam muitas razões para tal, as quais não menciono porque não quero ser responsável por elas, tal como as pessoas terem o hábito de dizer, de qualquer terra de que nada soubessem, tratar-se da Nova Espanha."(91) No mapa Ruysch de 1508 existe uma grande ilha na Latitude N 37o e 40o. Chamada "Antilia Insula" tem uma grande legenda que afirma ter sido descoberta há muito tempo pelos espanhóis, cujo último rei godo, Roderico, que aqui se havia refugiado da invasão bárbara(64).

10.3. SETE CIDADES NO CONTINENTE AMERICANO

No século XVI muitos julgaram encontrar as Sete Cidades no continente americano. Um padre franciscano, Marcos de Niza(6), com base em lendas, infiltra-se em 1539 na América do Norte, mais especificamente na Califórnia, com a esperança de encontrar um país, chamado Cibola pelos indígenas, as sete cidades da lenda. Acompanhado por três franciscanos e de um negro que dizia conhecer o território. A expedição atinge regiões inexploradas, e narra no seu regresso que havia visto ao longe sete cidades brilhantes, das quais havia tomado posse em nome do rei de Espanha. A sua narrativa entusiasta decide o envio de uma expedição considerável, comandada por um nobre de mérito, F. Vasquez de Coronado(7); mas o pequeno exército, depois de ter passado por grandes sofrimentos, chegou ao sopé de um rochedo árido, sobre o qual se erguia com efeito Cibola, mas não a rica Cibola da lenda, e sim uma pobre aldeia índia.
Não se descobriram nem sete cidades cristãs, nem um povo guardando as velhas tradições visigóticas, mas um país nos arredores do Rio Gila, perto da fonte do Rio Del Norte. Curiosamente, a região compreendia 70 burgos repartidos por sete províncias. Parece mesmo que, hoje em dia, em Zuni, a cidade principal da antiga Cibole, se encontram índios de cabelos brancos e de rosto claro. Sobre o seu aspeto escrevia um viajante contemporâneo:(8) "Não são índios! Há muitos entre eles que tem feições tão claras como as dos mestiços. Entre as mulheres, particularmente, muitas tem a pele quase branca, os olhos cinzentos ou azuis". Por outro lado, uma história contada por Sahagun(9), escrevia sobre a origem dos Nahuatl: "A história que contam os antigos é que eles vieram por mar do lado do norte... Conjetura-se que estes naturais terão saído de sete grutas, e que estas sete grutas são os sete navios ou galeras nas quais chegaram os primeiros colonos." Este primeiros colonos seriam os sete bispos visigodos e os seus seguidores?

LIGAÇÃO ENTRE A ILHA IMAGINÁRIA DE ANTILIA E SETE CIDADES

M. d'Avezc conta que Antília era conhecida, marcada e visitada no século XV; Toscanelli, segundo ele, tinha escrito à corte de Portugal as seguintes palavras: "Esta ilha de que tendes conhecimento e que vós chamais das Sete Cidades"...
O filho de Cristóvão Colombo, Fernando, na "Vida de Meu Pai", precisa por seu lado: "Alguns portugueses inscreviam-na nas suas cartas com o nome de Antília, embora não coincidisse com a posição dada por Aristóteles; nenhum a situava a mais de 200 léguas, aproximadamente, a Ocidente das Canárias e dos Açores. Tem por certo que é a Ilha das Sete Cidades, povoada por portugueses no tempo em que a Hispânia foi conquistada, ao rei Rodrigo, pelos Mouros, isto é, no ano 714 depois de Cristo". Fernando Colombo assegura que, ainda em vida do Infante Dom Henrique, um navio atracou em Antília/Sete Cidades; os marinheiros foram a igreja e verificaram que aí se praticava o culto romano.
Talvez seja como reflexo destas histórias que circulavam entre os marinheiros que teve início a iniciativa referenciada por Las Casas: "Alguns partiram de Portugal para encontrar esta mesma ilha [das Sete Cidades] que em linguagem vulgar se chama Antilla, e entre os que partiram estava um Diogo Detiene, cujo piloto, chamado Pedro de Velasco, natural de Palos, declarou ao dito Cristóvão Colombo, no mosteiro de Santa Maria da Arrábida, que, tendo partido da ilha do Faial e prosseguindo 150 léguas com o vento lebechio (NW), descobriram, no regresso, a ilha das Flores, guiados por muitas aves que viram voando para lá, e reconheceram que eram aves terrestres e não marítimas, e assim pensaram que iam dormir a alguma terra. Em seguida, e dito que navegaram tanto para NE que tinham o Cabo Claro (na Irlanda) para E (94), onde acharam que os ventos eram muito fortes, e os ventos de oeste e para o mar muito suaves, o que acreditavam que devia ser por causa da terra que devia ali existir, a qual lhes oferecia abrigo a Ocidente; a qual não persistiram em explorar, porque já era Agosto e recearam [a aproximação do] Inverno. Ele disse que isto aconteceu 40 anos antes de Cristóvão Colombo descobrir as nossas Índias"(95).

RELAÇÃO COM A ILHA BRAZIL

Pedro de Ayala, embaixador espanhol na Grã-Bretanha, em 1498, relatando as navegações inglesas a Fernando e Isabel, escreveu, conforme menciona Babcock, as seguintes linhas: "The people of Bristol have, for the last seven years, sent out every year two, three, of four light ships in search of the island of Brasil and the seven cities"(62). E, com efeito, ao que tudo parece indicar, realizou-se pelo menos uma expedição em busca da ilha Brazil.
A primeira aparição da ilha Brazil é a do mapa de Dalorto (de 1325), onde surge como uma ilha de forma discoide. No mapa Catalão de 1375 este disco transformou-se num anel rodeando um conjunto de ilhas, para Nordenskiold nove, para Kretschmer sete. Este último número pode representar um fenómeno não raro em diversas ilhas míticas, o cruzamento entre lendas.

FERNÃO DULMO DA TERCEIRA PROCURA A ILHA DAS SETE CIDADES

Existe uma carta de doação, emitida por D. João II a Fernão Dulmo da Terceira, no ano de 1486. Este Fernão Dulmo era na verdade Ferdinand van Olm, um dos flamengos que se haviam estabelecido nos Açores. Dulmo declarara ao monarca que se propunha "procurar e achar uma grande ilha ou ilhas ou terra firme per costa(114), que se presume ser a ylha das Sete Cidades, e tudo isto as suas próprias custas e despesas". Uma cláusula revela a importância que o monarca atribuía ao descobrimento da dita ilha: " No caso de ele não conseguir conquistar as ditas ilhas ou terras. Nós enviaremos, com o dito Fernão Dulmo, homens e esquadras de barcos com poder Nosso para efetuar o mesmo, e o dito Fernão Dulmo será sempre Capitão General das ditas esquadras e está por Nós sempre autorizado, porque seu Rei, como Nosso súbdito"(115).
Fernão Dulmo iniciou os preparativos para a expedição chamando para o ajudar João Afonso do Estreito e pedindo que o rei o admitisse na partilha da empresa e dos lucros. Estreito forneceria duas caravelas, aprovisionadas para navegar durante seis meses, que deveriam zarpar no dia 1 de Março de 1487, Dulmo contrataria pilotos e marinheiros e pagar-lhes-ia os salários. Durante quarenta dias Dulmo seria o comandante-general, estabelecendo o rumo para as duas caravelas, e tomando para si todas as terras descobertas, depois do que Estreito seria, por sua vez, capitão-general e se apoderaria de todas as terras avistadas. Tudo isto, o monarca confirmou a 24 de Julho e 4 de Agosto de 1486.(116) Las Casas poderia referir este empreendimento, quando escrevia as seguintes linhas: "Mais adiante, um marinheiro chamado Pedro de Velasco, um galego, contou a Cristóvão Colombo em Múrcia que, seguindo numa certa viagem a Irlanda, estavam a navegar e a afastar-se tanto para NW, que viram terra a oeste da Irlanda, a qual eles pensaram que devia ser a que um Hernan Dolinos procurou descobrir, tal como agora se deve dizer"(117). A referência a quarenta dias previstos é curiosa, porque bastaram trinta e seis para fazer Colombo chegar ao Novo Mundo. Mas, se não mais se ouviu falar destes navegadores e porque a sua expedição foi frustrada, provavelmente pelas difíceis condições existentes no mês de Março para quem se propõe navegar na direção Oeste, conforme nota Samuel Eliot Morison na sua obra "As Viagens Portuguesas à América".

COLONOS PORTUGUESES NO BRASIL ANTES DE 1500?

A lenda de emigrados portugueses numa ilha Atlântica poderá ter algo a ver com repetidos relatos, embora não merecedores de muita confiança, da presença de colonos portugueses no Brasil ainda antes da chegada da armada de Pedro Álvares Cabral. O primeiro relato refere que o mais velho habitante vivo do Brasil teria declarado, no seu leito de morte em 1580, que vivera naquele país "cerca de noventa anos". Outro relato é o de um certo Estevão Fróis, encarregado de um barco capturado pelos espanhóis: "Tinham má vontade em receber da nossa parte a prova do que alegávamos; nomeadamente, que Vossa Alteza tivera a posse destas terras [Brasil] durante vinte anos e mais, e que já João Coelho da Porta da Cruz habitante de Lisboa ali viera com outros para descobrir"(119) Estas histórias são pouco credíveis uma vez que a primeira colónia, nem sequer foi portuguesa mas francesa, fundada por Christophe Jacques, por volta de 1516. A primeira colónia nacional só se instalaria em Olinda em 1530, sob o comando de Duarte Coelho Pereira.

EM BUSCA DE ANTÍLIA/SETE CIDADES

Como vimos Fernando Colombo relata como "no tempo do Infante Henrique de Portugal (+-1430), um navio português foi empurrado pelo mar para esta ilha Antilla." A tripulação foi à igreja com os ilhéus mas receou ficar detida na ilha e fugiu assim que pôde. O Príncipe ouviu a sua história e ordenou-lhes que voltassem à ilha, mas os marinheiros largaram e não tornaram mais a ser vistos. Fernando relata que a areia de Antillia era composta de um terço de ouro puro. Galvão relata uma outra visita mais tardia, ou então uma outra versão da primeira:
"In this yeere also, 1447, it happened that there came a Portugall ship through the streight of Gibraltar; and being taken with a great tempest, was forced to runne westwards more then willingly the men would, and at last they fell upon an Island which had seven cities, and the people spake the Portugall toong, and they demanded if the Moors did yet trouble Spaine, whence they had fled for the losse which they received by the death of the king of Spaine, Don Roderigo.
"The boateswaine of the ship brought home a little of the sand, and sold it unto a goldsmith of Lisbon, out of the which he had a good quantitie of gold."
"Dom Pedro understanding this, being then governour of the realme, caused all the things thus brought home, and made knowne, to be recorded in the house of justice."
"There be some that thinke, that those Islands whereunto the Portugals were thus driven, were the Antiles, or Newe Spaine."(66)
Um outro relato nos chega através de Faria e Sousa, traduzido pelo Capitão John Stevens:
"Depois da derrota de Roderico os mouros espalharam-se pela província, cometendo barbáries inumanas. A maior resistência era em Mérida. Os defensores, muitos dos quais eram portugueses, que pertenciam ao Supremo Tribunal da Lusitânia, eram comandados por Sacaru, um nobre godo. Muitas ações corajosas decorreram neste cerco, mas como não apareciam reforços e as provisões começavam a escassear a cidade rendeu-se sem condições. O comandante da Lusitânia, atravessando Portugal, chegou a uma cidade costeira, onde, reunindo um bom número de navios, lançou-se ao mar, mas ignora-se a que parte do mundo eles foram. Existe uma antiga lenda de uma ilha chamada Antilla no oceano ocidental, habitada por portugueses, mas que ainda não pôde ser descoberta."(67)
A versão do capitão Stevens acrescenta bastante à versão original. O texto original refere que os fugitivos fizeram-se ao mar para as Ilhas Afortunadas (Canárias?), a fim de aí poderem preservar a sua raça. O texto menciona igualmente que essa ilha havia já sido alcançada pelos portugueses, sendo habitada por eles nas sete cidades que aí haviam construído: "tiene siete cividades".
Este último relato menciona uma movimentação a partir de Mérida, o que é perfeitamente credível, e o comando por um militar também seria admissível natural numa deslocação efetuada em tais condições. Existem portanto algumas provas factuais que podem apoiar esta versão da lenda.

“Ilha das Sete Cidades”, Rui P. Martins. In: As Ilhas Míticas do Atlântico
Versão 1.2 criada em 1998-04-26. Disponível em http://ruipmartins.tripod.com/ilhasete.html
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Notas:

(1) Horn. "De originibus americanis", p. 7 "Anno MCCCXLVII Portugallus quidam navigans extra fretum heracleum adversis ventis in remotam insulam occidentem versus abreptus fuit, et in ea invenit septem civitates, quae Portugallorum lingua loquebantur, et interrogabant an Mauri adhuc vexarent Hispaniam, unde amisso Roderico fugati sint."

(2) Fernando Colombo escreve o seguinte: "O capitão e os marinheiros retomaram o mar e fizeram vela para Portugal, certos que o Infante os louvaria. O príncipe, pelo contrário, reprimiu-os severamente, e ordenou-lhes que regressassem à ilha, e de regressarem reportando aquilo que vissem. Este homens, tomados pelo temor, partiram com o seu navio e nunca mais regressaram a Portugal. Entre outros detalhes, eles tinham dito que as madeiras do navio, quando o levaram para a areia para limpar os seus utensílios reconheceram que esta areia tinha duas partes de ouro fino". Refira-se contudo que Ilaria L. Caraci refere que o filho do almirante trata-se de mais um autor ficticio, artifício tão vulgar nessa época, usado frequentes vezes para sustentar a veracidade das obras na reputação do autor que lhes era atribuido. Caraci indica que neste caso se trata de uma compilação de textos de vários autores colocados sob o signo comum de Fernando Colombo.

(3) Aristóteles. "De mirabilibus auscultationes". & 8.

(4) Diodoro da Sicilia, Livro V, & 19-20.

(5) Planisfério de Henrique II (Atlas Jomard) e a Carta de Mercator de 1569.

(6) A relação da sua viagem consta na coleção Ternaux-Compans. Vol. X, p. 256- 284. Ver também Pedro de Castanheda (p. 1-255) no mesmo volume com o seu "Viagem a Cibola" de 1510.

(7) Coleção Ternaux-Compans. Tomo IX, p. 349-363 - J.-H. Simpson. "Coronado's march in search of the Seven Cities of Cibola, and discussion of their probable location." (Smithsonian Institution, 1869, p. 209-340. - Vivien de Saint-Martin. "Annee gegraphgique", 1872, p. 239.)

(8) Gatlin. "Letters ans notes an the manners customs and conditions of the north American Indians", I, 93.

(9) Sahagun. "Historia de las casas de Nueva Espana". Liv. I, p. 18.
  
(62) G. E. Weare: "Cabot's Discovery of North America", London, 1897, p. 19.

(63) E. G. Ravenstein: "Martin Behain: His Life and His Globe", Londres, 1908, p. 77

(64) A. E. Nordenskiold: Facsimile-Atlas to the Early History of Cartography, trad. J. A. Ekelof e C. R. Markham, Estocolmo, 1889, p. 65 e Pl. 32.

(65) Fernando Colombo, p. 514.

(66) Antonio Galvano: "The Discoveries of the World from Their First Original unto the Year of Our Lord 1555", Hakluyst Soc. Publs. 1st Series, Vol. 30, Londres, 1862, p. 72.

(67) Manuel Faria e Sousa: "A História de Portugal".

(68) N. Buache: "Recherches sur l'ile Antillia et sur l'epoque de découverte d'Amerique", Memoires de l'Institut des Sciences, Lettres, et Arts, Vol. 6, 1806, pp. 1-29.

(69) Alexander von Humboldt: "Examen critique de l'histoire de la geographie du nouveau continent et des progres de l'astronomie nautique aux quinzieme et seizieme siecles", 5 vols., Paris, 1836-39. Referência no Vol. 2, p. 281.

(70) Joseph Bullar e Henry Bullar: "A Winter in the Azores and a Summer in the Baths of the Furnas", 2 vols., Londres, 1841. Referência no Vol. 2, pp. 242-247.
  
(90) Lib. i, cap. 13 (ed. 1927, I, 69); tradução em J. A. Williamson, "Voyages of the Cabots", pp. 11-15. Alguns historiadores afirmam que esta história é o registo da chegada dos portugueses a Hispaniola, antes de 1460, mas não isto confere com o facto de a lenda completa das Sete idades ter sido encontrada, pela primeira vez, no Globo de Behaim, datado de 1492.

(91) A. Batalha Reis, in Geogr. Jour., IX, 197, corrigindo a tradução adulterada deste excerto, da autoria de Richard Hakluyt, que está reimpressa, com texto, em "The Discoveries of the World by António Galvano", Hakluyt Society pubs., XXX, 1862, pp. 72-73.
  
(95) Las Casas, "Historia de las Indias", lib. i, cap. 13; ed. 1927, I, 70. Ferdinand Columbus segue-o quase exactamente na sua "Historie della vita e dei fatti di Cristoforo Colombo", cap., ix (pp. 34-35 da ed. de Londres, 1867). Ambos os autores atribuem a origem das suas informações ao "Libros de memórias" do almirante, que, infelizmente, se perderam.








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  • “Um passeio a Sete Cidades na ilha de São Miguel, Açores, 1897”, manuscrito de Eliza Cunha inserido na coletânea “Lazeres – contos e descrições” publicado na Revista INSVLANA - Órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, n.º XLVII, 2011.

Sete Cidades, fotografia de Pescantini, https://www.instagram.com/p/B1y5vVconNg/