Nesse tempo, levantávamo-nos às quatro da manhã, para
subirmos do Calhau até ao Curral da Pedra, o centro da freguesia. A camioneta
arrancava às cinco horas (ainda não havia autocarro, que a escolaridade e a
comunicação social haviam de fazer chegar lentamente ao vocabulário do
quotidiano, ao mesmo tempo que relegavam uma parte dele para esse escaninho das
velharias a que os especialistas gostam de chamar arcaísmos). Às nove horas,
depois de quarenta quilómetros de ilha e mais nove de Canal, desembarcávamos,
finalmente, na Horta, a cidade em frente.
Esse tempo era o de meados da década de cinquenta no Pico. E
a duração da viagem entre a Piedade, no extremo leste da ilha, e o Faial,
costumo usá-la como medida de referência: cinco horas dão hoje para chegarmos
de Ponta Delgada a Boston. Bem sei: tudo é relativo neste nosso mundo e, na
altura, seria outro o tempo necessário para cobrir a distância entre as ilhas e
o continente a oeste; mesmo assim, na sua dimensão relativamente imperfeita,
essa medida serve para mostrar como os Açores de hoje já não são os dessa
década, simultaneamente próxima e remota: afastada já na folha dos calendários
e no rol das suas dramáticas condições de vida, ela continua presente e íntima
no modo como aprendemos a apreender o mundo e a situar-nos nele.
Se eu quiser recuperar dessa época alguns traços que ajudem a
traduzir, agora, uma compreensão da vida e da (minha) existência insular,
aquilo que de imediato me ocorre é a noção de escassez (e esta poderá ser
também uma forma encapotada ou eufemística de nomear a penúria de bens
materiais, a sua redução àqueles mínimos que asseguravam uma vida gizada à
custa de expedientes quase diários, fruto de um engenho aguçado pela
necessidade, como a sabedoria popular se aprestava a esclarecer). Na verdade, a
consciência da escassez começava talvez por ser a de território sólido em que
assentássemos os pés, sempre ameaçados pela presença do mar e pelas suas
inesperadas e incontroláveis variações de humor: tudo era pequeno, a começar
pelo espaço e pelas terras que nos tinham saído em sorte (ou azar), mas isso
não impedia que cada deslocação de um sítio a outro da ilha fosse vivida com um
sentimento misto de excitação e lonjura, mesmo àqueles que, como a Calheta,
ficavam perto da Piedade. Tudo era pequeno e tudo era distante, para abreviar.
É certo que, na costa norte do Pico, tínhamos em frente a ilha de S. Jorge, uma
espécie de sentinela permanente, com as suas escarpas misteriosas, com as suas
gentes e vidas mais adivinhadas do que conhecidas; mas isso não anulava de todo
o sentimento de que a proximidade era, nesse caso, inseparável da condição de
afastamento e distância.
E no entanto… talvez tenha sido isso que me levou a indagar
aquilo que se escondia para lá do espaço circunscrito das ilhas, a interpretar
os sinais que desses mundos nos chegavam: um deles foi um colete axadrezado e
em tons de azul, chegado da América, como se fora feito para mim, e sobre o
qual suponho ter exercido a minha primeira análise estética, aos cinco anos de
idade. Nesse tempo, isto (também) era ser ilhéu. Mas os livros e a palavra
impressa foram simultaneamente os grandes sinais do mundo e o veículo que me
conduziu a outros, de variadas configurações, entre o real e o efabulado.
Na família não havia a Odisseia,
nem Os Lusíadas ou a Guerra e Paz nem sequer a Bíblia, aqueles livros que constroem o
futuro leitor de longo curso. Havia, isso sim, uns livros miúdos que nunca
soube de onde vinham, narrativas populares em folhetos de edição barata, a
história de Pedro Sem (Que Teve e Já Não
Tem), a história de João de Calais
(que só mais tarde eu soube que não devia ler-se como uma forma do verbo
calar).
E havia também pequenas brochuras impressas na costa leste
dos Estados Unidos, a Rosa do Adro,
em quadras que desfiavam uma história de enganos e desenganos, na cantilena do
seu ritmo e da sua rima. E havia ainda uma novela açoriana do princípio do
século, O Oiro da Califórnia, que
dividia os homens em bons e maus: um deles perdia-se no álcool e na solidão da
ilha das Flores, no entanto um irmão chegava da Califórnia para repor a ordem
familiar e a do mundo também.
Mas o grande livro da minha infância (depois de começar a
juntar letras) e da primeira adolescência foi outro.
Na loja do senhor Luís Sapateiro vendia-se quase tudo o que era
essencial para uma comunidade de consumos frugais e que, não raro, sobrevivia
ainda em regime de troca direta: açúcar, farinha, tecidos, petróleo, sal,
botões, cadernos, lápis para ardósias (as pedras xurdeirentas, que obrigavam a,
pelo menos, uma ação de higiene semanal). À esquerda de quem entrava, um
estreito armário de canto, envidraçado, guardava objetos de que perdi o nome e
a memória, pois era também aí que se encontrava um romance em tudo estranho e
longínquo: o título, John chauffeur russo,
e o autor: Max du Veuzit. Tudo nele me atraiu e despertou a curiosidade, a
diversidade da composição gráfica sobre a capa azul, o mistério de uma palavra
escrita que nada parecia ter em comum com aquele «chofer» que nos guiava pelas
estradas tortuosas da ilha em camionetas barulhentas e ronceiras; e eu estava
ainda longe de saber que um nome outro se escondia por trás desse disfarce
autoral. Nunca tive a coragem de pedir ao senhor Luís que me deixasse ao menos
folhear o romance, e o dinheiro desse tempo não dava para comprar livros.
Depois, era já demasiado tarde para correr o risco de um desencanto. E nunca li
o romance de Max du Veuzit. Na sua não-leitura, ele acabou, mesmo assim, por
integrar o conjunto daqueles pequenos textos que me ensinaram a ultrapassar o
óbvio e o imediato e a embrenhar-me na realidade outra que a imaginação nos
avança e, através da qual, nos dá a ver a complexidade das relações, das
interações com que se escreve a realidade primeira que, por vezes, julgamos tão
linear.
O tempo trouxe-me a possibilidade de viajar regularmente
entre as ilhas, de pisar o seu chão e aos poucos conhecer as suas gentes; mais
tarde, o arquipélago ficou para trás e novos espaços se abriram ao meu olhar e
à minha experiência, nem sempre em circunstâncias que tenham deixado à memória
razões para sentir-se bem com os seus arquivos mais secretos. Em todo esse
tempo, no entanto, o conhecimento do mundo e do outro e a descoberta da
diferença e do estranho foram sendo construídos a partir da observação direta e
da leitura, a partir do real concreto e das palavras que o dizem.
Simultaneamente, a imagem de ilha foi-se revelando aquela que melhor definia a
minha perceção do mundo, era o modo que eu tinha de construir e situar-me num
espaço erguido à medida humana da nossa mão. Ainda antes de E. F. Schumacher o
ter escrito, eu já descobrira que, embora noutra perspetiva, small is beautiful
e espero não escandalizar ninguém se disser que, em pleno tempo de guerra, me
senti bastante confortável nesse mês e meio que passei na ilha de Bolama,
próxima do litoral da Guiné-Bissau, embora não suficientemente distante para
evitar os mísseis dos nossos inimigos. E mesmo agora sei que é sempre a partir
da construção imaginária de uma ilha em volta que me movimento e me sinto livre
e solto nas cidades que me acolhem e que elegi como minhas.
Depois de catorze anos de andanças e errâncias, regressei aos
Açores. As circunstâncias fizeram-me regressar, será, por certo, o modo mais
correto de dizer as coisas – mas o tempo tem o dom de esculpir e dar novos
contornos à matéria outrora informe, aparando as suas linhas dissonantes.
Agora, o avião pode transportar-me para fora do arquipélago e trazer-me de novo
a casa em menos tempo do que aquele que, ainda no início dos anos setenta, eu
gastava para viajar de Lisboa ao Pico ou vice-versa. A net faz-me chegar
rapidamente os livros e os CD que, através dela própria, vou descobrindo.
Sento-me diante do computador, ligo o skype e falo com as minhas filhas no
retângulo português ou com os meus sobrinhos nos confins do Brasil. Os meus
amigos estão por aqui e por ali, em muitos lados, e já não dependemos da
lentidão dos correios para trocarmos ideias e traçarmos projetos.
Os cosmopolitas esforçados dirão que acabaram as distâncias e
a experiência física do tempo suspenso. A verdade, porém, é que o mar continua
ali, como o dinossauro de Augusto Monterroso, e esta ilha que também se tornou
minha não vai além dos seus setecentos e cinquenta quilómetros quadrados mal
medidos, e é a maior. Algumas, menos povoadas e mais pequenas, provocam-me uma
sensação de espaço imenso e íntimo como só pude experimentar em África; no
limite da redução territorial, outras deixam-me uma desolação interior, uma
mágoa anónima que nenhumas palavras descreverão, e o desejo nada absurdo de
fugir, mesmo para outras ilhas, desde que afastadas do nosso universo próximo,
demasiado próximo, por vezes.
Daquelas por onde passo, tento sempre aprofundar o
conhecimento das suas gentes e da sua realidade física e guardar comigo os
sinais mais fidedignos de culturas que atestam, em concreto, experiências do
diverso, também por nelas se cruzarem o mesmo e o outro, o interior e o
exterior, em resultado de serem, as ilhas, placas giratórias ou encruzilhadas,
para socorrer-me do termo de Carl Sagan. Mesmo que isso implique aproveitar uma
folga num Curso de Verão em Tenerife e meter-me numa camioneta, agora chamada
guagua, e fazer os oitenta quilómetros entre Adeje e La Laguna para «visitar» a
Librería Lemus e nela me perder.
E assim me entendo como ilhéu: um homem sobre um rochedo,
rodeado de mundos, imaginados, concretos, por todos os lados. E sem sentir que
deva pedir desculpa por isso, seja a quem for.
Quem
vive numa ilha quer saber dos seus vizinhos, das jangadas de pedra, das
garrafas com mensagens, dos destroços da distância, a contar a profundidade do
mundo. Nunca estamos verdadeiramente sozinhos, sabemos que os vulcões trabalham
por nós, mantendo o tamanho das outras ilhas, acrescentando pedra sobre fogo,
fogo sobre pedra, de modo que o mar um dia ainda pede licença, para atravessar
este arquipélago e levar o rasto da atlântida de volta a casa.
Em
Santa Maria também somos micaelenses. Todavia, a ilha grande está longe, não
nos chegam as asas nem os braços, e precisamos dos olhos bem abertos, do vento,
do sol poente, da pedra pomes, para acreditar que ela está lá. De vez em quando
assoma como um dorso cansado no horizonte. Um azul escuro que escorre da noite,
lento e silencioso como uma fera triste. Somos micaelenses nesta valsa de
esperarmos pelas coisas boas: já lá vai o tempo de São Miguel nos matar a sede,
mas aí segue o tempo desta ilha nos dar quase tudo o resto. Não há mariense que
não ame alguém do lado de lá, num amor seguro e recíproco. Aliás, o sonho de
todo o mariense é ter São Miguel no lugar do Ilhéu da Vila, à distância de um
salto, de uma correria de pés descalços, sobre a água mansa de um sonho de
verão. O podermos acenar às saudades, em frente ao espelho, e despedir os
helicópteros, os aviões, as lanchas, os cargueiros. Ter São Miguel tão perto,
mas ainda assim com um resto de mar, para não ser tão fácil, ter acesso ao que
nos faz falta, só para que continue fazendo falta, e lhe demos esse valor, que
todas as coisas têm, se não nos são dadas de graça.
Nesta
ilha primeira, sobra-nos a saudade das outras ilhas. Depois de São Miguel há
todo um mundo vulcânico que não cabe no horizonte. Está lá, no meio, em cima, a
chover primeiro que nós, a avisar do mau tempo, que sempre desce pelas escadas
abaixo, até nos alagar o terreiro, que todo o Sul é. Graças a Deus, a chuva
chega cansada, sempre cansada, de tanta coisa linda que cada ilha tem pendendo
sobre o mar. Não há amor como este, ser açoriano num arquipélago que não se vê
todo, que demora sob o sol da tarde, tanto que quase todos adormecemos primeiro
que o Corvo e as Flores. Mas não somos nada uns sem os outros. Sem orgulho, sem
modéstia, sem enredos. Somos raízes de Portugal, crescendo para cima, enquanto
houver céu que aguente, esta lira de dois corações, suspirando pelo outro, que
sempre há de vir, com graças novas, para nos entreter a solidão.
Daniel Gonçalves, http://www.9idazoresnews.com/2017/09/12/as-outras-ilhas/
Santa Maria vista de São Miguel (foto: Sancho Eiró)
São Miguel visto de Santa Maria
ilheu de Vila Franca do Campo com a ilha de Santa Maria no horizonte. Foto: Manuel Oliveira, 24-04-2017
o farol onde moras entre
nunca e sempre
dispersa a ritmo largo a luz renovada sobre o mar
chega vibrante o brando entardecer de mim em ti
venero o secreto mundo dos teus olhos
as tuas mãos abertas encontram
praias quentes
areias macias proclamam
amor no silêncio do vento
desliza o mar deitado
a teu lado
as ondas cobrem o teu corpo
por ele o riso cresce
despido na alegria das águas
tecendo no tempo a mais longa vaga
de silêncio nos destroços ancorada
a suave volúpia
dos corpos
agita a praia ventosa
levam búzios
trazem rosas
no nosso olhar
os abismos
cantam ao crepúsculo
os lábios húmidos
afogados nos beijos do mar…
Henrique Levy, in
Noivos do Mar, Editora Labirinto, 25
de abril de 2017
*
ANGÚSTIA
OCEÂNICA
ilha submersa pelo mar
por uma chuva que se alteia
nuvens a lavrar arados
erva fresca de que são feitos os prados
nesta ilha varrida de águas
gente do mar que é ribeira
aves brancas
terra d águas
trazem à luz por nascer
pântanos charcos e lagos
ilha oceano
ilha mar
terna ilusão a de aqui estar
retido por redes d águas
torrentes de mar…
desafio molhado de saudades
de outra ilha altaneira
de alvas neves colorida
pedaço verde de vida
mistério d águas a navegar o céu
no rubor da vida
a alvorada estremece o vento
resignado move nuvens reza preces
a chuva anoitece a ilha
despida de sol
vestida d’águas
as terras tristes afogadas
cantam em voz de pranto
lampejos de luz e trovoadas
a tornar negras as rubras flores
exiladas nas águas
angústia oceânica
que se abate nas sombras amargas
e nos vastos rumores d’água
oração de lábios esvaídos
escorrendo lava molhada
adormecida por mágoas
abrigo vibrante
esculpido em terra firme
traz às ondas ébrias de espuma e sol
o sonho exigido!
Henrique Levy, in Noivos do Mar,
Editora Labirinto, 25 de abril de 2017.
*
NU
nu junto ao portão
da quinta pés calçados no
barro as pernas
cedros a tocar ciprestes aguardam a
glória dos lábios de Calíope
os
ombros
armas raras de sóis celestes
em encontros siderais
ouvem junto ao claro portão
o suspirar das rendas brancas do mar
nu
os teus olhos sacrificam
o tempo
saciando nos muros o orvalho
no mergulhar derradeiro da tarde
nu
és vida
a descansar bosques
na acesa tormenta
que os meus olhos invade
nu
sustentas a luz na memória
confusa da alma atenta
aos gestos das tuas mãos
afagos que sei esperar
o olhar molhado das nuvens ao passar
proclama o anseio de ser homem
cânticos de corpo em sede trocam sementes
nu
junto ao portão da quinta
crescem dores abrandam sonhos
se puderes
em lento voar nu
avança!
Henrique Levy, inNoivos do Mar, Editora
Labirinto, 25 de abril de 2017.
*
ANOITECE
o corpo não pede gestos nem pétalas
perfumadas de gerânios nem naus em
portos longínquos nem mãos sobre
altares buscando preces nem o último
olhar do sol sobre a ilha antes de adormecer
o
meu corpo é agora o lugar
de lábios demorados que
sobre ele desatam beijos
no entardecer dos teus olhos
brilha em repouso o requiem da entrega
noite em que os muros as roseiras bravas
vieram debruar de alvíssima seda
em que o lamento das borboletas
das asas se desprende no crepúsculo cintilante
mergulhando o mar…
Henrique
Levy, inNoivos do Mar, Editora
Labirinto, 25 de abril de 2017
NOIVOS DO MAR | AO LEITOR
Os poemas escritos nas Ilhas
sepultam suspiros ancestrais de onde se ouve o aveludado nevoeiro a
dissolver-se nas encostas dilaceradas pela compulsiva agitação do Mar.
Estes são poemas saturados de
águas, ousam cantar as vésperas das noites incendiadas pelo Sol macerado por
chuvas…
Deste conflito surgem palavras
nascidas de uma voz tumular, desnuda de razão, escritas por mãos febris aestremecer a morfossintaxe e a
vontade do que está para acontecer…
Uma
espécie de angústia, resultante de um universo cercado de águas atlânticas
cujas margens unem Europa e América.
Alvora,
o poeta, as aparências da Terra, mergulhando a pena no Mar intruso, surgindo a
impaciente renovação de deuses, jogo ancestral de águas curvadas perante os
aromas que sopram das Ilhas, contraídas por forças bruscas, inquietas, reclamam
piedade à violenta voz do Mar…
Aqui,
nestas Ilhas, todos os poetas são mulheres a cerzir palavras, leitores de
Livros de Horas, tristes mulheres cobertas de exaltação e véus de fé,
segredando nas casas, ao lado do fogo, do linho e das arcas nuas de cereais…
Mulheres
suspirando serenas os seus corpos finos, exaustos, hesitantes nos beijos e no
ânimo… Talvez por isso, vencer esta distância do feminino, nos induza, na
verticalidade da morte, a lembrança do deleite carnal, sublimado pelo Espírito
que nas Ilhas é Santíssimo…
Encena-se,
então, sem ilusões, um ato final de Amor.
Henrique Levy
Henrique Levy. Miradouro da Ermida da Senhora da Paz, Vila Franca do Campo, 2019
Henrique José
Aguiar Fonte Levy, ou simplesmente Henrique Levy, como é conhecido, nasceu em
Lisboa a 6 de junho de 1960, ainda que a sua infância tenha sido passada em S.
Tomé e Príncipe e também em Moçambique. Na década de 90 regressa a Portugal.
Ainda que tenha efetuado o
percurso académico em Portugal, o início da sua atividade profissional dá-se no
estrangeiro, mais concretamente em Macau, onde viveu e exerceu funções na área
da educação durante oito anos.
Desloca-se a
outros países da África Austral, da Ásia e da Europa, assimilando as diferentes
realidades culturais visitadas, que serviriam de inspiração para a sua escrita.
http://alumni.letras.ulisboa.pt/memorias-vivas/testemunhos/174-memorias-vivas/biografias/decada-90/650-henrique-levy (texto com supressões)
Passageiro das Ilhas, Henrique
Levy plasma em Noivos do Mar a vida a
dois no espaço insular dos Açores.
*
NOIVOS
DO MAR |
PREFÁCIO
Henrique
Levy tem já uma obra consistente. No campo do romance, ostentou uma voz
singular, de timbre camiliano, em Cisne de África (2009) e Praia Lisboa (2010),
e no cultivo da poesia, em Mãos Navegadas (1999) e Intensidades (2001). O ano
passado, regressou à casa da poesia, sua pátria de sempre, com O Silêncio das
Almas (2015).
A sua
poesia é tecida de uma vivência intensa de emoções, de agitação veemente de
prazer ou tristeza, de anseio de felicidade, de repulsa do medo, de uma
permanente melancolia de momentos-êxtase, como se a poesia fosse habitada
simultaneamente por uma inocência virginal, motor do poema, e por um mal-estar
difuso a necessitar de contínua redenção.
E é
justamente esta a grande mensagem de Noivos do Mar, se é que um livro de poesia
necessita de justificação e de mensagem: a redenção é possível, a salvação é
possível.
Nos
seus poemas, Henrique Levy diz-nos como e onde é possível esta redenção.
O
“como” opera-se através do “amor” como laço infinito que tudo envolve: seres
físicos, árvores, animais, a casa, e, sobretudo, o sentimento romântico ou
neo-romântico pelo outro como pulsão de carne, como pulsão sexual, como pulsão
sentimental e como pulsão espiritual. “Pulsão” significa aqui irrupção de
sentimentos, como um vulcão em plena atividade, tão natural e tão caótico como
este. O conjunto irruptivo de sentimentos que não se pode recalcar, muito menos
calar, é designado por “alma”, “coração”, e os poemas são assim o jorro
abrasativo da sua lava.
O
“onde” - Henrique Levy descobriu-o na “ilha”, e esta ilha tem um nome concreto,
São Miguel, nos Açores, mas aceita ser possível nas restantes ilhas dos Açores.
Noivos
do Mar constitui-se, assim, como um hino ao Amor e aos Açores.
É
possível que os Açores constituam o território de Portugal que mais tem
inspirado a criação poética. Não tem fim o número de poemas e de poetas
cantados no e em nome do arquipélago. De qualidade diferente, de Roberto
Mesquita a Pedro Silveira, de Vitorino Nemésio a Natália Correia, de Urbano
Bettencourt a Manuel Tomás, de Eduíno de Jesus a José Martins Garcia, do hoje
clássico Antero de Quental a inúmeros poetas populares, cantores da Saudade e
da Sapateia, em todos as suas obras perpassam os Açores como terra mítica,
melancólica, pulcra mas ingrata, terra afortunada de formosura mas teatro de
injustiça social, que repulsa o seu habitante para a emigração.
Assim,
em todo o poema açoriano repousa, invisível mas pulsante, uma “América” que
redime a ingratidão da terra (os terramotos) e a ingratidão social (a antiga
miséria económica). É o que em Noivos do Mar o poeta designa por “Angústia
Oceânica”, a singularidade da terra no seio de um mar infinito, convidando a
uma permanente inquietação física e mental.
Porém,
na poesia de Henrique Levy, a “América” redentora tem outro nome, designa-se
por Amor, o amor que salva, que perdoa e resgata os trilhos angustiosos da
existência.
Belíssimo
livro, Noivos do Mar, que, a partir de agora, não só merece fazer parte do
poemário dos Açores como de qualquer nova antologia sobre o arquipélago.
Colares, 30 de Junho de 2016,
Miguel Real.
*
NOIVOS
DO MAR|
POSFÁCIO
Em Noivos do Mar, Henrique Levy é
um poeta entre a água, o céu e o que envolve a terra e seus pés descobrem.
Há estrelas também e essa morte
que toca nas palavras e que sentem os leitores tocam a sensibilidade para se
ser perto do que é importante, a vida e a morte. Sem enfeites de nudez fria e
marmorizada entre laivos menos claros, como laços apertados que seguram a vida.
Essa força da Natureza descreve passos, uma força alheia ao dia-a-dia que se
confronta nasilhas como um bailado ao vento. Sei, assim o sinto no que
nos descreve. Vejo a sua alegria. Sei-o apaixonadamente vivo. Um tecido sem ser
“seda” é estopado para que a luz penetre sem dor sem cansaço.
É a
sua presença, a si no olhar e nas palavras do seu livro.
É
bela a Ilha que descreve.
As
ilhas sempre foram pontos de magnânima presença. Sempre se deixaram em
confronto com os mortos, porque o Mar traz às costas os desassossegados que em
vendavais e tempestades ali jazem. Assim das ilhas, a força é singular, a força
é força.
Vejo-me
consigo de mãos dadas com o que descreve. Reconheço as palavras um necessário
véu que filtra o impuro. Reconheço as flores que ainda em verde não precisam de
colorir porque a brevidade dos momentos é constante e assim o esplendor do belo
ali permanece.
A
Vida assim permanece em nós, como os nós permanecem para nós na escrita e se
desenrolam ao amor e à vontade mais breve que é infinito.
Texto: José Mário Silva; fotos: João Lima. Expresso, 2017-03-25.
Escrevem, editam, traduzem. São intelectuais da palavra. Vivem rodeados de livros. E as suas bibliotecas pessoais, tão diferentes umas das outras, refletem o modo como pensam e veem o mundo
Diz-me como são os teus livros, como os organizas e dispões no espaço, dir-te-ei quem és. A biblioteca pessoal, construída ao longo de décadas, é quase sempre um espelho do seu proprietário. Na sua lógica interna ou na sua desordem (que esconde talvez padrões secretos), na amplitude dos temas ou no foco em áreas de interesse muito específicas, podemos ler sinais de quem as moldou. “Todas as bibliotecas são autobiográficas”, escreveu Alberto Manguel num livro — “A Biblioteca à Noite”, Tinta da China — que explora muitos modos e variantes da acumulação de livros ao longo da História humana. Cada uma à sua maneira, as cinco casas de papel que visitámos confirmam, com diferenças de grau e intensidade, a afirmação do escritor canadiano nascido em Buenos Aires (onde na juventude leu para Jorge Luis Borges no seu apartamento, entre os seus livros).
Corredor. Maria do Rosário Pedreira e Manuel Alberto Valente entre as estantes altíssimas nas quais as suas bibliotecas se foram misturando | JOÃO LIMA
A BIBLIOTECA ERUDITA
“Peço desculpa por estar de roupão, mas apanharam-me meio engripado”, diz António Mega Ferreira ao receber-nos num dos dias mais frios do ano. A sua casa é um contínuo de estantes, mas os livros não se ficam por esses redis de madeira. Estão em todo o lado: em cima das mesas, nas cadeiras, nos aparadores. Nenhuma superfície plana lhes escapa. Há também quadros, música clássica, cadernos, canetas. Antes de se mudar para este apartamento, a poucos minutos a pé do Príncipe Real, em Lisboa, o escritor vivia num duplex. “Era muito bonito e espaçoso. O problema é que tinha poucas paredes livres. E um bibliófilo precisa de paredes.”
Se a casa atual não tivesse muitas paredes, como é que acolheria os cerca de 20 mil volumes que Mega contabiliza, mais os que continuarão a chegar nos próximos anos? “Há quem entre numa livraria e traga de uma só vez uns trinta livros. Eu não. No máximo, compro uns cinco ou seis. Mas nunca resisto. Se vejo uma livraria, tenho de entrar. E se entro, saio sempre de lá com livros na mão.” Este impulso começou na infância. Aos 12 anos, comprou o primeiro livro com o dinheiro da mesada: “O Velho e o Mar”, de Hemingway, numa edição de bolso em francês. Antes disso, já usava autocolantes numerados para marcar os livros que lhe ofereciam, mas o esmero de bibliotecário esgotou-se ao fim dos primeiros cem. Alguns desses exemplares sobreviveram até hoje. Por exemplo, “Um Drama na Livonia”, de Jules Verne. Era o número 37.
Mega Ferreira considera-se bibliófilo no sentido estrito daquele que ama os livros. Os livros enquanto textos, obras feitas de palavras. “Não sou colecionador, nem ando atrás de edições raras, autografadas, ou encadernadas desta ou daquela maneira. Isso diz-me tudo muito pouco.” Mesmo sem fetichismos, reconhece ainda assim o prazer de manusear certas edições antigas. “Eu comprei o ‘Zorba’, do Kazantzakis, na altura em que o filme saiu. Uma edição da Ulisseia. Resolvi lê-lo há uns tempos. Verifiquei que na altura só tinha aberto umas dezenas de páginas. Gostei do toque do papel velho, amarelecido, um pouco áspero, bastante rude, características que têm tudo que ver com o espírito da obra.” Cabe então a cada livro esperar, na estante, pelo seu momento? “Exatamente. Eu acredito nisso. Pode levar décadas. O ‘Zorba’ esperou 50 anos.”
Futuro. Como não tem filhos Mega Ferreira tenciona dar a sua biblioteca aos três sobrinhos
JOÃO LIMA
Outro caso: “A Obra ao Negro”, de Marguerite Yourcenar. Mega leu-o da primeira vez na altura em que entrevistou a escritora belga (“uma experiência desagradável, porque ela era muito antipática”). Ao reabrir o livro, 35 anos depois, descobriu as marcas da primeira leitura: sublinhados, pequenas notas, páginas assinaladas. “Relendo, percebo porque as fiz na altura. Agora, como é óbvio, deixaria outras marcas. Aliás, deixei-as. Agrada-me muito a ideia do livro como palimpsesto das várias idades do leitor.” Com 68 anos, considera-se mais apto do que era aos 23. “Quanto mais lemos, melhor compreendemos o que viermos a ler depois. Há um efeito de acumulação, que ajuda a perceber a rede das influências, os padrões, os arquétipos narrativos. É como com as horas de voo. Só se acumularmos muitas seremos capazes de pilotar bem.”
A organização da biblioteca, um quebra-cabeças para tanta gente, nunca o preocupou por aí além. “Foi-se fazendo a si mesma, na adequação aos meus hábitos, às minhas necessidades.” Claramente erudita, mas intuitiva, funciona por núcleos. Há uma área dedicada a Cervantes, outra a Dante, outra ainda a Borges, uma estante quase inteira para Pessoa. Na sala principal estão os livros sobre a Antiguidade, os grandes clássicos, a História mundial, a música. No corredor, ficção estrangeira. No quarto de vestir, ficção lusófona. No de dormir, numa estante giratória, as biografias. Mas nada de muito rígido. Se olharmos bem, apercebemo-nos de que há muitos livros fora do sítio. “Acontecem muitos encontros inesperados, contaminações. Gosto disso.”
Mais do que com o presente da sua biblioteca, Mega Ferreira preocupa-se com o futuro. “É um drama. Não tenho filhos. Posso dá-la aos meus três sobrinhos, sim, desde que não lhes complique demasiado a vida. Ainda não sei bem o que fazer. Dá-me pena pensar que possa vir a ser despachada a peso.”
Quando dois grandes leitores se casam, o que acontece às respetivas bibliotecas? Somam-se? Fundem-se? Mantêm-se independentes? Maria do Rosário Pedreira e Manuel Alberto Valente tiveram de enfrentar estas questões. Ela: editora da LeYa, responsável pela descoberta e lançamento de uma geração de jovens ficcionistas portugueses, além de poeta, ficcionista e autora de letras para fados. Ele: diretor editorial da Porto Editora e poeta bissexto. Profissionalmente, trabalham em empresas rivais, mas isso nunca foi um problema: “Sabemos separar muito bem as águas.” Quanto aos livros de um e de outro, esses, resolveram juntá-los de vez.
A principal razão foi de ordem prática, porque o espaço é sempre finito, mesmo num apartamento de dimensões generosas e pé direito altíssimo, na Praça do Areeiro, em Lisboa. “Quando viemos ver a casa, havia três andares para alugar no prédio”, lembra Maria do Rosário. “As pessoas gostam sempre dos andares mais altos, mas escolhemos este, o mais baixo, porque tinha mais 80 centímetros de altura do que os outros. É meia estante.” Para aproveitar ao milímetro essa benesse, pediram a um amigo arquiteto para desenhar aquilo a que chamam o “corredor-biblioteca”.
Nesta espécie de centro geométrico da casa fica grande parte da ficção e a poesia toda. A ficção obedece a uma ordem geográfica, dentro de cada língua. Por exemplo, no caso do castelhano, alinham-se primeiro os autores espanhóis e depois as várias literaturas da América Latina, por ordem alfabética dos países (Argentina, Bolívia, Chile, até à Venezuela). A exceção é a literatura portuguesa, que segue uma ordem cronológica, dos mais antigos para os mais jovens. Maria do Rosário explica: “Por um lado, o Manel gosta de juntar autores de uma mesma tendência, movimento artístico ou geração. Por outro lado, facilita-nos a vida, porque hoje são os jovens que produzem mais e é fácil arrumá-los no fim da estante, no espaço livre. Se fosse por ordem alfabética, estávamos sempre a refazer tudo e seria impraticável.”
Determinante no processo de ganhar espaço foi a decisão de enviar para uma casa de fim de semana, na Ericeira, todos os livros policiais e thrillers. Seguiu-se a identificação dos livros repetidos, que o casal ofereceu aos amigos e à livraria “Déjà Lu”. Mas essas duplicações acabaram sendo em menor número do que supunham. “A verdade é que somos de gerações diferentes. O Manel atravessou todo o período anterior ao 25 de Abril, em que se compravam muitos ensaios políticos, eu nem tanto; e ele é mais virado para a literatura francesa, enquanto eu sigo mais a literatura anglo-saxónica. As nossas bibliotecas até são bastante complementares”, observa a autora de “O Canto do Vento nos Ciprestes”, que se assume como mais “desprendida”.
Já Manuel Alberto Valente admite uma certa dificuldade em separar-se dos livros: “Tenho sempre a sensação de que posso vir a precisar deles por uma razão qualquer. E partilho aquela tese do Umberto Eco, segundo a qual os livros entram em nós por osmose, mesmo se não os lermos. O simples facto de estarem ali, à nossa volta, já nos torna melhores.” A propósito, Maria do Rosário Pedreira evoca Eduardo Prado Coelho: “Ele dizia que uma biblioteca só começa a ser interessante quando há nela tantos livros por ler quanto os livros lidos. Se só tiver obras que já conhecemos, torna-se uma biblioteca estática. Não podia concordar mais.”
Desordem. Rui Zink no meio de um labirinto em que só ele consegue orientar-se: “Há um padrão unificador aqui. E esse padrão unificador sou eu”
JOÃO LIMA
Um aspeto interessante do processo de arrumação é o que resulta de uma espécie de arqueologia sentimental. “Ao pôr em ordem a parte francesa, descobri o meu próprio percurso, as leituras feitas aos 18, aos 20 anos, aos 25”, diz Valente. “Perguntei-me: porque lia estas coisas naquela época? Fica-se a pensar. É uma forma de entendermos o caminho percorrido. Pegamos num livro e há memórias soterradas que vêm ao de cima.”
Tal como um terreno estudado por um geólogo, uma biblioteca tem estratos. “É interessante ver como os livros migram, como vão subindo nas prateleiras. Eu conservo encostadas ao teto, num sítio que é preciso um escadote para lá ir, todas as obras do Marx e do Lenine. Mas houve uma altura em que estavam na prateleira principal, mesmo em frente aos meus olhos. Hoje não me passa pela cabeça ir folhear o Lenine, embora o Marx talvez faça sentido voltar a ler. De qualquer forma, estão lá. Fazem parte do tal percurso de vida que a biblioteca regista.”
No passado, Valente refez várias vezes a sua vida, deixando casas e mobílias para trás, mas nunca os livros. Por isso, tanto ele como Maria do Rosário têm consciência dos riscos de transformar duas bibliotecas numa só. Na eventualidade de uma separação, dividir o que se uniu seria muitíssimo difícil. “Algum motivo haverá para que uma decisão destas só seja tomada ao fim de uns anos largos de casamento”, remata Manuel, com um sorriso.
A BIBLIOTECA PRAGMÁTICA
Sentado na sala principal de sua casa, num condomínio de luxo junto à Serra de Sintra, José Rodrigues dos Santos, o autor português que mais vendeu nos últimos anos (acima de três milhões de exemplares), regressa por momentos à infância, em Tete, no norte de Moçambique. Foi aí, por volta dos sete anos, que iniciou o seu percurso de leitor omnívoro de Banda Desenhada (Tintim, Astérix, Lucky Luke, Spirou, mas também Tarzan e a revista “Mundo de Aventuras”). A paixão pela BD nunca o abandonou. A assinalá-lo, na única estante do piso térreo, uma estatueta do repórter criado por Hergé ocupa um lugar de destaque. À sua volta, o pivô da RTP dispôs os seus próprios livros, traduzidos para um número crescente de línguas (“são tantas as edições diferentes que já começo a não ter espaço”). Nas prateleiras de cima, “alguns clássicos”: Fernando Pessoa, Camões, Ferreira de Castro, Camilo Castelo Branco, Marcel Proust, Eça de Queirós.
A partir dos 12 anos, cresceu o interesse pela Ficção Científica. “Lia um livro a cada dois dias. Ainda hoje tenho a coleção Argonauta quase completa.” Em Macau, onde era grande a influência da cultura britânica, via Hong Kong, leu o “2001, Odisseia no Espaço”, de Arthur C. Clarke, no original. Mas o hábito de ler em inglês consolidou-se mais tarde, quando aos 22 anos foi trabalhar na BBC, em Londres. Começou “a abrir o leque”, descobrindo escritores britânicos como Evelyn Waugh, P. G. Wodehouse e Somerset Maugham (“‘Servidão Humana’ continua a ser o meu livro preferido”). Ao regressar a Portugal, no início da década de 90, os bons hábitos de leitura perderam-se. “Trabalhava tanto que não tinha tempo nenhum para ler.” Ao fim de dois anos, porém, decidiu inverter a situação. “Impus-me como regra ler sempre um bocadinho antes de dormir, mesmo que esteja exausto.”
O início da carreira de romancista, nos primeiros anos deste século, marcou uma mudança drástica na sua vida. “Como leio entre 30 a 100 livros sobre um determinado tema, durante a fase de pesquisa, abdiquei praticamente das leituras de prazer.” Enquanto escreve as suas narrativas, a bibliografia especializada cresce, em pilhas, na sua mesa de trabalho. Para dar sustentação teórica à ‘Trilogia do Lótus’ — de que já foram publicados dois romances (“As Flores de Lótus” e “O Pavilhão Púrpura”), com o terceiro (“O Reino do Meio”) previsto para o final deste ano, sempre na Gradiva — mergulhou a fundo na questão dos totalitarismos. Ao sugerir a existência de raízes marxistas no fascismo, desencadeou uma controvérsia à moda antiga, em que trocou argumentos com historiadores em artigos de jornal. “Li quase todos os livros do Marx, quase todos os livros do Engels, mas também fui aos textos do Mussolini e dos ideólogos fascistas: o Olivetti, o D’Annunzio, o Corridoni. Prefiro sempre ir às fontes, em vez de ler traduções seletivas e ideologicamente orientadas. Quando vamos aos textos originais, descobrimos coisas verdadeiramente extraordinárias.”
Concluída a escrita de um livro, o material de apoio deixa de ser imediatamente necessário, mas não pode ser descartado. “Se houver uma polémica, tenho de ir confirmar as páginas a que fui buscar determinada informação.” Por isso, criou um espaço — na garagem, junto aos dois automóveis de alta cilindrada — para o arquivo morto das suas investigações. Uma espécie de armário branco, em módulos, que cobre uma parede inteira, do chão ao teto. É de lá que retira as obras de Marx onde sublinhou passagens de teor antissemita ou de defesa da escravatura (“é mesmo verdade, olhe aqui”), pousando-as em cima do capô do Mercedes. Dentro do armário fica uma biblioteca oculta: a dos livros que serviram de base ao trabalho do romancista e, cumprida a sua função, se remetem a uma espécie de silêncio.
Toca. Entre dicionários e livros “essenciais”, Maria Manuel Viana escreve os seus romances e traduz, sobretudo do espanhol, mas também do francês
JOÃO LIMA
Há nisto um elevado grau de pragmatismo que se estende à outra biblioteca. A visível. José Rodrigues dos Santos guarda a vasta coleção de BD, e os livros de Ciências, no escritório que partilha com a mulher. Mesmo em frente ao escritório, uma grande estante, feita à medida, acolhe as obras sobre jornalismo e a ficção. “Tenho aqui algumas preciosidades.” Abre, para exemplificar, o saco de plástico com fecho hermético onde guarda uma primeira edição assinada de “O Agente Secreto”, de Joseph Conrad. Mas nem só os livros raros merecem este tratamento de proteção contra poeiras e peixinhos-de-prata. Nas prateleiras, mais de metade dos volumes estão metidos em casulos estanques. Uma visão estranha, como a daqueles sofás que certas famílias cobrem com plásticos para não se estragarem. Mas talvez faça sentido: afinal, Rodrigues dos Santos é o primeiro a admitir que já não tem tempo para os ler. As leituras em curso estão sempre junto ao computador e ao texto em gestação do próximo romance.
A BIBLIOTECA CAÓTICA
Sacos de todos os tipos, caixas transparentes (cheias de livros, cadernos, dossiês), objetos tresmalhados, instrumentos musicais, cabos de aparelhos eletrónicos, jornais, catálogos, papelada avulsa. A sala parece um cafarnaum. “Estou em mudanças”, explica Rui Zink, enquanto deambula no meio da desordem, tirando livros da estante, aparentemente ao acaso, e falando sobre eles. Banda desenhada alternativa, um autor esquecido (António Aragão), um livro de Alberto Pimenta, um manual — “How to Write Erotica” — que promete ensinar a escrever cenas de sexo, esse busílis da literatura portuguesa (“não me serviu de nada”).
Para o topo da pilha vai agora um volume em capa dura: “Os Justos”, de Albert Camus, edição antiga da Livros do Brasil. “Li-o durante a adolescência. É uma peça de teatro.” Ao folheá-lo, Zink descobre um texto manuscrito. “Deve ser mais ou menos daquela época, acho que consigo decifrar. Ora vamos lá: ‘Todos os homens são pequenos, a lupa dos nossos olhos é que aumenta uns, enquanto o microscópio disseca outros. Mas a perfeição não existe. Somos sempre traídos por um ponto negro, uma borbulha, uma ruga fora do lugar. Estamos aprisionados dentro de nós próprios.’ Não faço ideia se escrevi isto aos 15 anos, ou aos 18, mas olha, nada mau. Isto era um rapaz a pensar.” No resto do livro há passagens sublinhadas. “Gosto muito de descobrir estas marcas. Na prática, estou a ler dois livros de duas pessoas que já cá não estão. O Albert Camus, porque morreu; e o Rui Zink de 18 anos, porque também já não existe.”
E qual a lógica de arrumação (ou de desarrumação) desta biblioteca? “Não há lógica. Nem critério. Eu adorava que houvesse, mas sou talvez o pior bibliotecário do mundo. Há livros que são relativamente fáceis de arrumar. Por exemplo, tenho ali uma prateleira de livros sobre o Japão. Mas depois eles saltitam para outros lados.” Quando precisa de encontrar um determinado volume, o escritor garante que consegue orientar-se “oitenta por cento das vezes”. É uma espécie de GPS subliminar, um conhecimento intuitivo. “Os livros que eu amo ficam em sítios escondidos. Não preciso de me lembrar deles. Sei sempre onde estão.”
Plástico. José Rodrigues dos Santos junto às prateleiras com literatura de ficção da sua biblioteca, em grande parte protegida por sacos estanques
JOÃO LIMA
Outra vantagem do caos: descobrir “mundos infinitos” dentro da própria casa. “É isso que uma biblioteca tem em comum com uma cabeça. Tu podes ser prisioneiro, meteram-te numa cela pequena, e se fores uma pessoa com imaginação e inteligência, podes ter uma vida muito mais cheia do que uma pessoa que vive em liberdade.” Mesmo reconhecendo que algumas zonas da casa ganhavam em estar mais ordenadas, Zink sublinha que o excesso de arrumação faria certamente dele alguém mais preocupado com a capa dos livros do que com o seu conteúdo. “No dia em que não fores caótico é sinal de que estás morto.”
Os livros continuam a sair das prateleiras. Agora fala-se de Italo Calvino e de Martin Amis. Eis Júlio Dantas, o injustiçado. E olha ali um livrinho do Emmanuel Carrère, “La Classe de Neige”. Abandonou-o a dez páginas do fim. Bastavam mais uns minutos de leitura, mas algo se interpôs. “Acontece-me muito. Ficar a meio de um livro, como se fica a meio de uma conversa.” É uma boa analogia. Porque justamente esta conversa, também ela caótica, feita de associações de ideias, de descontinuidades, de derivas, se suspende aqui, enquanto uns livros voltam para os seus lugares e outros não.
A BIBLIOTECA MÓVEL
Na infância de Maria Manuel Viana sempre houve muitos livros. O pai era um professor e pedagogo. A mãe, uma “leitora absoluta”, que à noite lhe declamava versos de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. “Eram poemas de embalar.” Mais tarde, decidiram acompanhar o desenvolvimento intelectual da filha. “Quando eu lia um livro, eles liam também. E o livro era discutido à mesa do jantar. Fosse o ‘Joanica-Puff’ ou ‘Os Três Mosqueteiros’. Faziam-me enquadramentos históricos, explicavam as coisas que eu não tinha percebido. Foi um luxo, foi magnífico.”
Ainda em casa dos pais, teve a sua primeira estante, os seus primeiros livros. Quando saiu para viver sozinha, aos 18 anos, levou-os consigo. Tinha assim início um longo percurso de acumulações e perdas, livros que se aproximam e afastam, ficam pelo caminho, recuperam-se, até chegar a este refúgio onde Maria Manuel Viana nos acolhe, uma cave num bairro antigo de Lisboa, espécie de toca onde escreve as suas ficções e traduz, cada vez mais resguardada, por vontade própria, da exposição pública.
Com o pai dos filhos, companheiro durante mais de vinte anos e ainda hoje o seu melhor amigo, fez um pacto. Ele é secretário-geral de uma organização internacional e passa a maior parte do tempo no estrangeiro. Quando regressa das viagens, traz-lhe as novidades de Londres ou de Paris, os livros de que se fala ou os premiados. Em troca, ela mantém-no atualizado sobre o que se vai publicando em Portugal, sobretudo no campo da poesia. “Ao longo dos anos, fomos alimentando a biblioteca um do outro. Separámo-nos em 2003, mas a nossa relação intelectual continuou. É o nosso elo de ligação.”
Quando há dois anos começou a ter sérios problemas com a falta de espaço para os livros, decidiu dar a sua grande coleção de policiais. “Tenho cada vez menos o sentido da propriedade. O prazer dos livros nasce de lê-los, não de possuí-los.” Assim que soube da sua intenção, o antigo companheiro interveio, oferecendo-se para receber o espólio, uma vez que tem espaço de sobra na sua quinta. “Isso deu-me uma ideia: assim que acabo de ler um livro, seja comprado por mim seja oferecido por ele, envio-o para Castelo Branco, onde mora. Depois, se precisar deles, peço-os e ele envia-mos pelo correio. Na leva seguinte, voltam a ir.”
Por perto, ficam os “essenciais”. Não os que levaria para uma ilha deserta, “conceito que me irrita”, mas aqueles que gostaria de ter sempre consigo. “A Apresentação do Rosto”, de Herberto Helder, por exemplo. “Foi o único livro que o Herberto excluiu da sua bibliografia, o que me faz gostar ainda mais desesperadamente dele. É lindíssimo.” Ou um livro de Marguerite Duras, “La Maladie de la Mort”, que lhe foi enviado, em fotocópias encadernadas, por Eduardo Prado Coelho. “São coisas muito preciosas. E eu necessito da proximidade física destes livros.”
O impulso da partilha mantém-se. “É uma coisa que me vem da infância. Se há um livro que me maravilha, levo-o logo para os meus filhos. Têm de ler isto. Faço com eles o que os meus pais faziam comigo.” E estende o gesto aos amigos mais próximos, com quem janta todas as semanas para falar de literatura e trocar livros. A biblioteca nunca está parada. Toda ela é movimento de ida e volta. “Gosto muito desta ideia de ter os livros a circular, sempre. Eles não são meus, são de muitos, vão sendo de quem os lê.”
Título: Biblioteca em fogo. Autora: Helena Vieira da Silva. Data: 1974. Técnica: Pintura a óleo sobre tela. Dimensões: 158,4 cm × 178,4 cm. Localização: Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa
REPORTAGEM
Não têm espaço e por isso estão a oferecer uma biblioteca
Joaquim Sousa Pereira já não lê os 50 mil livros que
juntou, mas o prédio foi vendido e a família tem de tirar todas as histórias do
apartamento. Os que não conseguiram resgatar estão a oferecer.
Renata
Monteiro, 31 de Março de 2017
Era uma vez uma casa onde há quase 15 anos só moram livros. Os primeiros volumes chegaram da Rua da Alegria, no Porto, em sete camiões de mudanças cheios até cima. No início, foram espalhados por prateleiras categoricamente separadas por temas. A religião na sala. O fascínio por ovnilogia e ocultismo na cozinha. Mas depois “foi o caos”. Começaram a chegar mais e mais livros, pelo menos um por dia, alimentando as montanhas que se iam formando em cada divisão e de repente, a casa ficou soterrada debaixo de uma verdadeira avalanche de papel. Eram mais de 50 mil volumes.
Eugénia Sousa Pereira já não visitava a casa há anos. Há três semanas subiu até ao segundo andar para mostrar a colecção do pai a uma alfarrabista e quando tentou entrar viu que tinham mudado a fechadura. Ligou ao senhorio e descobriu que o prédio fora vendido a uma sociedade e os livros que antes habitavam uma residência alugada agora têm de sair. Quem os ia lá folhear todos os dias, hoje com 89 anos, já não gosta de ler.
A primeira pessoa a poder levar livros foi Cláudia Ribeiro, 43 anos, alfarrabista de profissão e amiga do dono da colecção há mais de 20 anos. Quando viu a biblioteca comentou com Eugénia, uma das filhas do coleccionador, que “não havia assim tantos livros repetidos quanto inicialmente pensava”. Na altura estimou que seria preciso mais de meio ano para uma pessoa sozinha inventariar todos os volumes.Os advogados deram à família 15 dias para esvaziar a casa antes que a biblioteca de Joaquim Sousa Pereira fosse reduzida a pó. As filhas conseguiram alargar o prazo para um mês, mas a data-limite aproxima-se a passos largos e lá dentro, por onde quer que se passe ainda se tropeça em livros. Agora, a família só quer arranjar outras casas para estas milhares de histórias viverem felizes para sempre.
Enquanto vagueava pela biblioteca, por acaso, virou a capa de dois que no meio de tantos outros lhe suscitaram interesse. Na primeira página leu duas dedicatórias que lhe eram dirigidas, escritas depois de Joaquim chegar a casa com os livros. A partir daí teve a certeza que aquela biblioteca tinha de lhe ir “parar às mãos”.
Arranjou tempo para ficar uma semana e meia só a esmiuçar a biblioteca e saiu de lá com 60 sacos de compras, “dos rectangulares com alças fortes”, carregados de livros, muitos deles que já lhe tinham sido vendidos por ela.
ADRIANO MIRANDA
Desde que deixou de trabalhar aos 55 anos que Joaquim fazia todos os dias o mesmo percurso entre a casa onde morava e a casa que alugou para os livros morarem. Subia a Rua da Torrinha, virava para Cedofeita continuava para a Rua do Almada e pelo caminho entrava várias vezes ao dia na Zarco, na Lumiére, na Académica, na Varadero e em tantas outras livrarias do Porto que foram surgindo e desaparecendo com o tempo. “Um dia que ele não comprasse livros não era um dia feliz para ele”, diz a alfarrabista sobre uma das “pessoas mais singulares” que já conheceu.
Joaquim passava tanto tempo na Lumiére que, no mundo dos livros dominado por homens, era frequente ter clientes que quando entravam se dirigiam de imediato ao “carismático e distinto senhor de óculos”, por pensarem que era ele o dono da livraria.
“O Senhor Sousa Pereira”, como Cláudia lhe chamava, não comprava livros caros. E mesmo quando levava romances de 15 euros “mentia no preço para a mulher não se chatear”, conta a alfarrabista. Pelo meio das páginas encontrou várias indicações de datas falsas e preços adulterados com recados para a família onde se lia que aquele livro tinha sido oferecido. Dizia sempre que “já tinha o livro há anos, mas não tinha nada”, garante a amiga.
Eugénia conta que dias depois de Cláudia sair “encantada” com a colecção apareceu um feirante que ao olhar à volta disse baixinho: “tenho a certeza que ele não leu nem 10% disto”. Pela biblioteca completa oferecia 100 euros. A resposta da filha foi pronta. Por esse valor preferia “dar os livros a quem os aprecie”.
Depois dele vieram outros alfarrabistas que também “não mostraram interesse pela colecção”, lamenta. Ou por não ter primeiras edições e achados raros ou por grande parte não estar escrita em português, os livreiros não desciam as escadas entusiasmados pelo valor da colecção.
É por isso que começaram a dar os livros. Quem primeiro fez a sugestão foi a neta, Sara Silva, que não queria ver as escolhas do avô deitadas fora. Em casa também não têm espaço para acolher todos os livros e Sara decidiu escrever uma publicação no Facebook a dizer que “o escritório do avô” estava aberto. Uma fotografia de uma das estantes repleta de livros chegou para convencer amigos, conhecidos e amigos de amigos que saíram de lá com “pequenos tesouros”. Nesse dia “até o Valter Hugo Mãe saiu daqui com mais de 50 livros”, conta. Para já, a família quer tentar alargar o prazo que o administrador do prédio deu para retirarem os livros e não quer abrir as portas a pessoas totalmente desconhecidas. Esse passo será dado só em último caso.
Susana Vieira, uma advogada apaixonada por livros de história, também visitou a “casa de papel” depois de ter visto a publicação na rede social. O pequeno saco que trouxe inicialmente não foi suficiente e desde esse dia já voltou três vezes. Perde o seu tempo a ler cada uma das lombadas, porque, diz “é um atentado aos livros se não arranjarem uma casa e forem reduzidos a pó”.
Os visitantes, que são mais nos últimos dias do que alguma vez foram durante quase década e meia, andam por cima de um tapete formado por páginas rasgadas. A primeira vez que Eugénia Sousa Pereira entrou no apartamento tentou limpar o chão. Desistiu rapidamente.
A casa só é o caos para quem não a montou. Joaquim Sousa Pereira nunca teve água nem electricidade naquele apartamento. As horas que lá passava todos os dias, a pegar e a deixar livros, tinham todas a companhia da luz do sol. De mobília apenas se avistam uma mesa, muitas estantes e uma cadeira alta. Era aí que pintava, junto a uma janela que vai quase até ao tecto, num dos cantos da sala. Descobriu essa paixão mais tarde na vida, mas ainda assim deixou muitos quadros pendurados pelas paredes. Foram das primeiras coisas que a família guardou, juntamente com uma colecção completa de Eça de Queiroz.
ADRIANO MIRANDA
“Acho que leu quase todos os clássicos”, diz Eugénia que relembra longas conversas, algumas impostas, sobre Rousseau, Alexandre Dumas, Stefan Zweig. Muitos destes já estão nas prateleiras de casa da família, mas há muitos mais romances, livros de arte, filosofia política, história, ocultismo, ovnilogia, dicionários, enciclopédias e gramáticas que não conseguem resgatar. Sara acha que o avô leu quase todos, a maior parte está sublinhada e com comentários e traduções em várias línguas escritas nos cantos das páginas, outros têm guardanapos de vários cafés da cidade a servir de marcador.
Joaquim dizia que começou a trabalhar “de calção”. Aos 14 anos fazia uns recados, depois trabalhou muitos anos como correspondente de línguas na antiga Fábrica de Conservas Brandão Gomes e uns anos depois começou “uma sociedade de papeis auto-adesivos e máquinas para cortar papel com o irmão, a Representações Sousa Pereira”, enumera a filha. Quando a parceria acabou, começou a trabalhar por conta própria com Espanha e Inglaterra através de um fax que tinha em casa.
Quando moravam nessa casa inicial, numa rua a quem um poeta e filósofo português deu o nome, a família já tinha “uma colecção enorme”. Mudaram-se em 1983 para a Rua da Torrinha e foi nessa altura que Joaquim arranjou o primeiro escritório para guardar os livros, na Rua da Alegria. Já aí “a biblioteca era um caos”, lembra-se a filha.
O apartamento que deixa toda a gente “encantada”, a ela faz-lhe “uma imensa confusão”. Há um ano e meio que a demência do pai se tem vindo a agravar e desde aí que Joaquim entrava cada vez menos vezes no mundo de livros que só ele conhecia. O último livro que leu chamava-se A Vida Depois da Morte. Antes “começou a ler livros sobre como exercitar a memória”, até que mais recentemente, conta Eugénia, quando lhe perguntaram se não queria um livro, a resposta apanhou todos de surpresa: “Não, cheio de livros estou eu”.
Sousa Pereira não sabe que os seus livros estão a ser dados. A família achou que “não era bom para ele saber” e acredita estar a “seguir a sua vontade” ao tomar esta decisão, explica a neta, Sara. A primeira vez que entrou “no mundo do avô” foi em 2009 e diz que, desde aí, “a colecção cresceu muito”.
“Encontro um certo critério nas compras dele, não era só compulsivo”, alerta, “embora isto seja uma acumulação, há uma linha de pensamento”, diz a neta.
Eugénia diz que o pai era “movido pela curiosidade” e para explicar que para ele não existiam temas proibidos, conta muitas vezes a mesma história. Um dia, antes do 25 de Abril, Joaquim Sousa Pereira ia no eléctrico para Matosinhos e apercebeu-se que a PIDE, ao ouvir falar nos seus livros, o andava a perseguir. Fingiu-se despercebido e combinou um encontro com a polícia política portuguesa que quando visitou a biblioteca, não encontrou um único livro pró-comunismo ou contra o Estado Novo. Horas antes, Joaquim tinha-os escondido a todos no galinheiro. Nunca mais o perseguiram.
Texto editado por Ana Fernandeshttps://www.publico.pt/2017/03/31/local/noticia/nao-tem-espaco-e-por-isso-estao-a-oferecer-uma-biblioteca-1767148